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Domus Aurea: o sonho enterrado (revisto)

O artigo Domus Aurea: o sonho enterrado vai integrar o livro A morte na arte, numa secção intitulada A morte das coisas. Vai ser o artigo mais antigo do livro, bem como o mais visitado do blogue. Deve-o, em boa parte, ao facto de ter sido recomendo pelo jornal El País.

As figuras grotescas remontam, pelo menos, ao primeiro século da era cristã. Os frescos fabulosos descobertos nas “grutas” subterrâneas das “termas de Tito” pertenciam, de facto, à Domus Aurea, o palácio edificado por Nero, após o incêndio de Roma, entre 64 d.C. e 68 d.C. Era, anacronismo à parte, o palácio de Versalhes da antiguidade romana.

O Templo de Vénus e Roma visto do Coliseu.

01. O Templo de Vénus e Roma visto do Coliseu.

Ocupava entre 40 e 80 hectares, consoante as estimativas, junto ao futuro Coliseu. Ostentava uma cúpula dourada e comportava 300 aposentos. Entre os acabamentos extravagantes, contavam-se frescos com grotescos que cobriam paredes e tectos.

Domus Transitoria. Frescos.

02. Domus Transitoria. Fresco.

O estilo grotesco já era patente na Domus Transitoria, anterior palácio imperial de Nero (figuras 2). Um século antes, os “grotescos” eram “moda” em Pompeia (figuras 3), cuja escavação arqueológica só começou no século XVIII (a partir de 1749). A maior parte das casas de Pompeia adornavam-se com frescos ao jeito grotesco, com efeitos de ilusão a que se associava uma profusão de figuras fantásticas. Um estilo de decoração retomado na Domus Transitoria e na Domus Aurea.

Pompeia. Frescos

03. Pompeia. Fresco

O sucesso da descoberta dos frescos da Domus Aurea, por finais do século XV, acabou por lhes ser fatal. A curiosidade imprudente dos visitantes, o vandalismo, a rapinagem e a exposição aos elementos naturais contribuíram para que poucos fragmentos tenham sobrevivido. Há vestígios de buracos abertos nos tectos para acesso. A humidade, a chuva e a oxidação foram inclementes. A pilhagem dos monumentos e das ruínas em Roma era, na época, de tal ordem que o Papa Benedicto XIV ( 1675-1740) classificou o Coliseu como lugar sagrado para obstar à sua degradação.

Domus Aurea. Frescos do quarto estilo na sala 78. 64-68 d.C.

04. Domus Aurea. Frescos do quarto estilo na sala 78. 64-68 d.C.

Existem gravuras antigas elucidativas de como era a Domus Aurea aquando da sua descoberta. Nos séculos XVI a XVIII, a pintura e o desenho de monumentos eram apreciados. Graças a essas obras, é possível conceber o aspecto exterior ( (Figuras 5 a 7) e interior das ruínas (Figuras 8 a 15).

Francisco de Holanda esteve em Roma entre 1537 e 1540,  no rescaldo da descoberta das “grutas das Termas de Tito”. Teve o ensejo de produzir 29 desenhos sobre a decoração da Domus Aurea, com um rigor que reivindica, em 1540, para uma das suas cópias: “tal como eu mesmo vi e tal como me coloquei”. Infelizmente, destas 29 gravuras, apenas restam três aguarelas reproduzidas no Álbum dos Desenhos das Antigualhas (Livros Horizonte, 1989): o tecto da Sala Dourada, a divisão principal da Domus Aurea (figura 08), e dois  frescos parietais entretanto destruídos (figuras 9 e 10).

Volvidos dois séculos, em 1774, Ludovica Mirri, um mecenas da arte, contratou Vicenzo Brenna, Francesco Smuglewiz e Marco Carloni para copiar as decorações interiores da Domus Aurea. Resultaram mais de sessenta gravuras. As figuras 11 a 15 constituem uma pequena amostra dos resultados da missão. A figura 07, da autoria da mesma equipa, é sugestiva da popularidade das ruínas. Convém ressaltar que estas gravuras foram concebidas em finais do século XVIII, em pleno período neoclássico. É possível que, dois séculos após a descoberta da Domus Aura, alguns frescos já não apresentassem contornos tão precisos.

Os artistas não se limitaram a retratar as ruínas e os frescos sobreviventes. Giacomo Lauro, em 1612, e Fischer von Erlach , em 1721, arriscam reconstruir a Domus Aurea original (Figuras 16 e 17). Os seus desenhos não se afastam muito da reconstituição avançada, em 2014, pela Altair4 Multimedia (Figura 18; ver documentário Domus Aurea outside: https://www.youtube.com/watch?time_continue=102&v=5b1xKrVEM0c). Coincidem quanto à envergadura gigantesca, nomeadamente da fachada, e na existência de um lago. O colosso de Nero, uma estátua com 30.3 metros (segundo Plínio, História Natural, xxxiv, 39) não consta das gravuras dos séculos XVII e XVIII.

“A Domus Aurea abraçava toda a Roma” (Plínio, História Natural, XXXII, 54). Apesar da sua imponência, foi destroçada e enterrada em poucas décadas. Nero “suicidou-se” em 68 d.C. O seu sucessor, Galba, declara a herança de Nero não grata (damnatio memoriae). A Domus Aurea começa a ser, de imediato, despojada e entulhada.

Ruínas das termas de Trajano

19. Ruínas das termas de Trajano

A cisterna das sete salas. Termas de Trajano

20. A cisterna das sete salas. Termas de Trajano

Dois anos após a morte de Nero, em 70, Vespasiano inicia a construção do Coliseu, no espaço do lago da Domus Aurea. Em 81, as Termas de Tito são erguem-se sobre os escombros do palácio de Nero. Trajano acrescenta novas termas, também sobre a Domus Aurea (Figuras 19 e 20). Em 121, Adriano inicia a construção do Templo de Vénus e Roma (Figura 1), deslocando para o efeito o colosso de Nero, cuja cabeça tinha sido, entretanto, substituída. Em pouco mais de 50 anos, a Domus Aurea foi arrasada e esmagada por edifícios de grande dimensão. Foi enterrada à nascença.

Fotografias do interior da Domus Aurea

 

Festa batráquia

Para o Halloween, enquanto as bruxas e os zombies não chegam, recomendo a curta-metragem Garden Party. Fabulosa! Com sapos, animais associados ao mal, à morte e à bruxaria. O vídeo é longo (7 minutos) e lento. Mas tem uma estética e uma narrativa prodigiosas. O desfecho, cirurgicamente anunciado, é surpreendente. Trata-se de uma curta-metragem mega premiada: cerca de 30 prémios. Imagino quanto os autores se divertiram durante a produção.

Garden Party. Direcção: Florian Babikian; Vincent Bayoux; Victor Caire; Théophile Dufresne; Gabriel Grapperon; Lucas Navarro. MOPA, 2016.

Os sapos não são apenas criaturas do mal, são também beijoqueiros. No anúncio Water Frog, da Vitamin, um sapo anda à procura da princesa, mas não lhe serve uma qualquer, deve beber Vitaminwater Zero Glow. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/vitaminwater-frog/.

Vitamin

Marca: Vitaminwater. Título: Frog. Agência: CP+B. Direcção: Bryan Buckley. USA, 2011.

 

 

Do tamanho do coração

 

Pfizer. Graffiti

Publiquei este anúncio no Facebook em 2011. Republico-o, com maior resolução, no Tendências do Imaginário. Não o vou cobrir com palavras. A grandeza, das coisas e das almas, tornou-se um valor discreto na nossa sociedade. A contracorrente, o graffiti deste anúncio é quase do tamanho do coração.

Marca: Pfizer. Título: Graffiti. Agência: Zig. Direcção: John Mastromonaco. Canadá, 2008.

Pró-actividade

Wall Street

No artigo O Eclipse da Velhice, o anúncio da Ariel, Ariel apresenta A+, é interpretado como uma representação amputada das idades da vida: exclui a velhice e o envelhecimento. Saiu nestes dias o anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait, do Wall Street Journal. A referência às idades da vida resulta mais óbvia. Começa com um nascimento “antes do tempo”. O bebé cresce, por etapas, a um ritmo vertiginoso. A cada etapa é associada uma actividade: mamar, andar, explorar, jogar, namorar, estudar, trabalhar, investir… A curva interrompe-se na juventude adulta. No meio de tantos figurantes, não podia aparecer um idoso? “Poder, podia, mas não era a mesma coisa”! Introduzia um detalhe disfórico num desfile eufórico, com riscos de contágio. O anúncio desenha a sua própria teoria: uma escada que só sobe até ficar sem degraus. O anúncio é um elogio da aceleração, da conquista, da pró-actividade e da juventude empreendedora Um bom anúncio que não se presta a equívocos.

Don’t wait for opportunity. Create it. Get the news, tools and insight you need to get ahead—because good things come to those who don’t wait (Wall Street Journal).

O mundo é uma Hidra e um Janus. Muitas cabeças com muitas faces. O anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait dialoga com o anúncio Surfers – Good Things Come to Those Who Wait, da Guinness, considerado por muitos o melhor anúncio britânico de sempre. Vale a pena espreitar.

Marca: Wall Street Journal. Título: Good Things Come to Those Who Don’t Wait. Agência: The&Partnership.USA. USA, Outubro 2017.

Marca: Guinness. Título: Surfers – Good Things Come to Those Who Wait. Agência: Abbott Mead Vickers. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 1999.

Vida de esqueleto II. O espelho

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900.

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900

O esqueleto acompanha-nos desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. A dança da morte da ponte Spreuer, em Lucerna, na Suíça (Figura 3), mostra Adão e Eva, mais o esqueleto, a sair, curvados, do paraíso:

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (Genesis 3:3).

Dança macabra da ponte Spreuer, em Lucerna

O esqueleto sempre assombrou a humanidade. Condenado, tal como o ser humano, ao trabalho, esmera-se. Toca os clientes, captura-os e transporta-os para o outro mundo. Assedia como um toureiro, ceifa como um camponês, pesca como um lobo-do-mar e caça como um nobre ou como um predador furtivo. Usa a gadanha, o arco e a flecha, o machado, a espada, a lança, a rede e a pá. Desloca-se a pé, montado num caixão (Figura 1), num cavalo, num burro ou numa vaca. Por finais do século XIX, também voa (Figuras 6 a 11).

O ofício de esqueleto

Às vezes, o esqueleto, enquanto trabalha, diverte-se com outros esqueletos. Nas danças macabras, toca música e baila de mãos dadas com os vivos mortos. O transporte para o outro mundo resulta festivo. O esqueleto investe na política. Faz a guerra e não desdenha o poder. Nos triunfos, a morte senta-se no trono, rodeada pelo seu séquito, com as autoridades mundanas a seus pés (Figura 2 e 12 a 15).

Triunfo da morte

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

13 a 15. Triunfos da morte do Palazzo Abbattelis, de Clusone e de Pieter Bruegel

O esqueleto também repousa. Cansa-se, como o esqueleto sentado na escada da figura 15. Aprecia o lazer e a actividade espiritual. Dormita aconchegado em prazeres, come, joga, espera, aborrece-se, vê-se ao espelho, lê, contempla uma caveira (uma dupla vanitas), ouve e toca música, parodia a arte e, sublinhe-se, reza (ver figuras 16 a 29).

Actividades de lazer

O espelho da morte mostra-nos a nossa finitude. Em vez da nossa imagem, vemos a morte. As actividades do esqueleto são semelhantes às nossas. Podiam ser as nossas. Com a ressalva da procriação. Ao olhar para o espelho, mais do que a morte, vemo-nos a nós próprios. O esqueleto é uma projecção. O esqueleto somos nós. Somos, pelo menos, o modelo (Figuras 30 a 33)

O espelho da morte

Tanto nos dá para temer o esqueleto como para o venerar. Dedicamos-lhe cultos, os cultos da morte e dos mortos. Nas igrejas, nos cemitérios, em casa, na rua e durante o Halloween. Às vezes, exorbitamos. É o caso dos santos descobertos no século XVII nas catacumbas romanas que o papa distribuiu por várias igrejas germânicas. Identificados como esqueletos dos primeiros mártires, beneficiaram do esmero póstumo de freiras, joalheiros e outros artífices dos séculos XVII e XVIII (Figuras 34 a 37).

Santos das catacumbas romanas

Nas fotografias de Paul Koudounaris (2013, Heavenly Bodies, New York, Thames Hudson), contam-se mais jóias e ornamentos do que ossos. Ao bom jeito barroco, são esqueletos em majestade. Rivalizam com Nossa Senhora da Boa Morte ou com a Santa Morte, padroeira, entre outros, dos traficantes e dos bandidos (Figuras 38 a 41).

Morte santa

Se os esqueletos são ecos, por que os imaginamos? Para personalizar ou eufemizar a morte? Para acomodar o vazio? Ou será porque prestamos mais atenção ao eco do que à voz? A vida do esqueleto é o paroxismo da reflexividade e da catequese humanas.

Dançar nas alturas

Geenpeace

Ça fait plaisir voir une bonne cause associée à une belle chose (Dá prazer ver uma boa causa associada a uma coisa bela).

Anunciante: Greenpeace. Título: Air dance. Agência: Decembrist. Direcção: Ivan Egorov. Rússia, Agosto 2017.

Escravos das Trevas, escravos da Luz

Rejection of the gift

A sabedoria das alturas de pouco serve se não descer à vida quotidiana. Os diálogos de um videojogo conseguem, por vezes, evocar figuras como, por exemplo, um Sócrates digital a relembrar que “o poder se torna mais forte quando ninguém pensa”.

Estreado ontem, o vídeo da versão Shadows of Argus do jogo World of Warcraft assume que servir a Luz não é menor escravidão do que servir as Trevas. Illidan Stormrage é uma personagem cujos passado e corpo estão marcados pela sua busca de poder das Trevas. Nesta passagem, é-lhe oferecida a hipótese de se redimir, as suas cicatrizes serão saradas, a sua antiga vida será esquecida e tornar-se-á um campeão da Luz. Ele rejeita a oferta. As cicatrizes são o que o definem, o seu destino é dele próprio.

Este pensamento não é novo, mas teima em ser raro. Pese a pós-modernidade, somos seguidores da Luz. Adverte-nos o vídeo que o mais avisado é não ser nem servo das trevas, nem servo da luz. Cada um deve desenvolver o seu carácter e assumir a responsabilidade pelo seu caminho. O nosso tamanho não se mede pelo tamanho dos deuses e dos mestres. Há quem acredite que somos grandes porque o nosso deus ou o nosso mestre são grandes. A nossa medida, a “medida do homem”, é o nosso tamanho e o nosso desafio reside em ser mestres de nós próprios. Há quem acredite que por seguir a luz vai no caminho certo. Quando muito, vai mais iluminado. Não resisto a partilhar uma anedota que costumava contar nas aulas de métodos.

De noite, um bêbado regressa a casa. Chegado à porta, dá-se conta de que perdeu a chave. Não tem outro remédio senão procurar. Passado algum tempo, aproxima-se um amigo que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– Estou à procura da chave.
– E perdeste-a aí, debaixo do candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Tentava, com esta anedota, alertar os alunos para um vício corrente: a falta de originalidade associada à tendência para estudar os temas em voga, de modo que todos descobrem mais ou menos o mesmo e fazem muitas reuniões e publicações para partilhar o que quase todos descobriram. A investigação, normalmente financiada (as entidades financiadoras costumam ser alérgicas a originalidades), reduz-se, assim, a uma clareira super iluminada numa Amazónia de ignorância.

Este artigo foi escrito a dois. Beneficiei da inspiração e da ajuda do meu rapaz mais novo, o Fernando.

Shadows of Argus. World of Warcraft. Agosto 2017.

Perfume

Shiseido

O Tendências do Imaginário dedica os próximos dias à publicidade oriental.

Admiro os anúncios a perfumes. Um mar de dificuldades. Através do monitor, vemos e ouvimos. Não apalpamos, degustamos ou cheiramos. Não obstante, sentimo-nos tocados. Reagimos aos vídeos e à música com o corpo. Mas o perfume, não o vemos, nem o ouvimos, nem o tocamos. A comunicação do cheiro é complicada, tanto mais que o cheiro é pessoal, irredutível à agregação colectiva. Aliás, nas perfumarias, deve testar-se o perfume na pele! O perfume singulariza-se ao sabor dos clientes. Como atingir massivamente individualidades que são alérgicas à amálgama das categorizações?

O nariz também não ajuda. É um dos órgãos mais desvalorizados do corpo humano. Do ponto de vista estético, como o nariz só os pés e, consoante as circunstâncias, o rabo.

“Infelizmente, se os olhos são, por vezes, o órgão onde se revela a inteligência (…), o nariz é, em geral, o órgão onde mais facilmente se espalha a estupidez” (Proust, Marcel, 1922, A la recherche du temps perdu: Tome V – Sodome et Gomorrhe, NRF, p. 169).

Não me atrevo a contrariar Proust, o escritor observador de minúcias. Na verdade, o nariz só ascendeu, graças ao piercing, a parte decorável do corpo milénios após os olhos, a boca e as orelhas.

O perfume é uma intrusão. Entra no espaço íntimo das pessoas sem pedir licença. No nosso e no dos outros. O cheiro configura uma espécie de nuvem caprichosa: precede-nos, persegue-nos e flanqueia-me com contornos indefinidos.

E no entanto move-se… Não obstante todos estes obstáculos, os anúncios a perfumes constam entre os melhores da publicidade. Como? Podemos enumerar algumas soluções:

– Apostar nos cinco sentidos em detrimento da razão una e analítica. Os anúncios a perfumes são mais sensoriais do que cerebrais;

– Apostar no movimento envolvente, eventualmente, repetitivo e ondulante; o mundo tende a ser pendular e hipnótico;

– Comunicação polífona e orquestral; as diferenças, as singularidades e os contrários concorrem para um efeito de conjunto original e instável;

– Beleza; estetização; tudo é passível de estetização; tudo contribui para destilação estética;

– A natureza, incluindo a humana; é a rainha dos anúncios a perfumes; com doses discretas de efeitos especiais a natureza mostra-se ainda mais natural; o artificial ao serviço do natural;

– Uma pitada de fantasia, seja ela de que tipo for: amorosa, ecológica, onírica…

– Pequenas iniciativas e pequenos nadas propiciadores da identificação e do diálogo, imersivo ou não. Por exemplo, os robôs do anúncio All Beautiful Things Come From Nature, da Shiseido, cuidam, delicadamente, das melhores fragâncias da natureza. Para quem? Porventura para o espectador, sobretudo se for jovem. Este anúncio tem tudo a favor, mormente, uma equipa de luxo: marca: Shiseido; agência: Wieden + Kennedy; Realização: Dvein…

Marca: Shiseido. Título: All Beautiful Things Come From Nature. Agência: Wieden + Kennedy Tokio. Direcção: Dvein. Japão, Junho 2017.

Novo, agora, mais e melhor

Avon_Overpromises17

A publicidade a produtos de beleza exorbitou. Só overpromises. C’est extra! New, now, more. Sucesso sem agenda nem narrativas. Técnica salvífica. A pedra filosofal do orgasmo instantâneo em massa. Um manto de ilusão. “É demais”! Pois, a Avon parte em combate contra estes unicórnios pós-modernos. Em nome de valores como a fiabilidade, a honestidade e a verdade. Valores modernos? Será este anúncio da Avon um caso particular do geral? O regresso da modernidade? Ou apenas uma corrente de ar? Uma posição pela oposição.

O que é que tem, afinal, publicidade “pós-moderna”? Qual é o charme? Vale a pena ouvir a canção “Ela é demais”, de Rick & Renner.

Marca: Avon. Título: Overpromises.  Agência: Santo Buenos Aires. Argentina, Maio 2017.

Rick & Renner. Ela é demais. Mil vezes cantarei. 1998.

Leveza e turbulência na pintura de Goya

 

Goya. Bruxos no Ar. 1797-8

Goya. Bruxos no Ar. 1797-8

“O teu voo é uma libertação, ou é um rapto?” (Bachelard, Gaston, 1943, L’air et les songes, Livre de Poche, Paris, p. 29).

A leveza e a turbulência sempre perseguiram a humanidade. Sonhamos, com frequência, que voamos ou levitamos (Duvignaud, Jean et al, 1979, La Banque des Rêves, Payot, Paris). O tema  aparece nos frescos de Pompeia, nas iluminuras medievais, nos painéis dos juízos finais, nos quadros de Bosch, Pieter Bruegel, Jacques Callot, Marc Chagall ou Max Ernst. Insinuam-se nos pesadelos e nas telas de Goya. Principalmente nas mais sombrias (CaprichosDesastres da Guerra e fase negra), voam e levitam bruxas e bruxos, parcas, demónios, touros, pessoas e seres híbridos, homens corujas e homens morcegos.

Pompeia. Fresco. Pormenor. Séc. I.

Pompeia. Fresco. Pormenor. Séc. I.

A leveza turbulenta não é exclusiva de Goya. A turbulência é, por exemplo, uma característica das pinturas da Tentação de Santo Antão, de Michelangelo a Marten de Vos, passando por Hieronymus Bosch. Vertiginosos, são também os voos nos juízos finais e nos infernos. Iludem-nos as turbulências nos tectos e nas cúpulas das igrejas barrocas. Goya é, e não é, diferente.

 

Tentação de Sto Antão por Michelangelo, Hieronymus Bosch e Marten de Vos

Touros rodopiam nas alturas, híbridos, demónios e bruxas sulcam os ares, com ou sem vassoura, sós ou acompanhados. Não são temas sagrados, nem consagrados, mas inquietam os seres humanos. Não integram a catequese, mas o mundo. Mas não radica nesta fantasmagoria a originalidade de Goya. Os voos de Goya parecem fadados a aterrar no túmulo, convocam a morte.

Goya. Chuva de Touros, circa 1815

Goya. Chuva de Touros, ca 1815

As parcas são divindades da mitologia grega que decidem a “hora da nossa morte” . Um casal de bruxos, ou o demónio Asmodeus e uma mulher, consoante as leituras, sobrevoam a mortandade de uma cena de guerra. Os morcegos, nocturnos, duplos, nem rato, nem ave, são animais de mau agouro, associados à morte e ao inferno. Os touros, esses, são touros de morte, das touradas a que Goya tanto se dedicou. No quadro Voo de bruxos (1797-8), três bruxos seguram, no ar, uma vítima (?), abocanhando o seu corpo, segundo uns, para lhe soprar ar, segundo outros, para lhe dar bicadas como os corvos ou, acrescentaria, para lhe sugar o sangue.

Goya. Disparate n.º 13. Modo de volar. 1815-1823.

Goya. Disparate nº 13. Modo de volar. 1815-1823.

O voo e a levitação estão no vento. Mas a versão preponderante não se inspira em Goya. Tópicos de eleição, por exemplo, da publicidade, o voo e a levitação são desejados, libertam, soltam as amarras da condição humana. Impõem-se como a quintessência da vontade e do movimento. Atente-se no clássico Odissey (2002), da Levi’s (ver https://wordpress.com/post/tendimag.com/297).

Goya. Asmodea. 1820-1823.

Goya. Asmodea. 1820-1823.

Esta tendência não obsta à forte presença dos voos à Goya no panorama contemporâneo. Recorde-se, por exemplo, os vídeos musicais The Otherside, dos Red Hot Chili Peppers (Californication, 1999), ou o vídeo Frozen, da Madonna (Ray of Light, 1998).

Goya. Atropos ou As Parcas. 1820-1823

Goya. Atropos ou As Parcas. 1820-1823

Goya não é um missionário da morte. Tampouco a advoga ou recomenda. É um profeta da desgraça, um visionário disfórico. Pressente, testemunha, teme e, segundo Lisón Tolosana, exorciza o mal:

“A través de los Caprichos y la pintura negra Goya descubre e ilumina las presencias horripilantes y repulsivas que anidan en el interior de cada uno de nosotros y hacen patente la desolación y el frenesí humanos. […] Descubre la bruja oculta en lo más primario y volcánico de nuestro ser y lucha contra ella. Al exorcizar a la bruja con la potencia de su pintura reveladora y purificadora, Goya exorciza el Mal” (Lisón Tolosana, Carmelo, 1992, Las brujas en la historia de España, Madrid, Temas de Hoy, pp. 267-268).

Goya não receia o monstro mas o homem. Onde estão os monstros? Estão dentro de nós. Nós somos os monstros.

 

Goya. Gravuras da série Caprichos.