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Vozes

Shell Shock, A Requiem of War. Ópera. Compositor: Nicholas Lens. Livret: Nick Cave, 2014.

As músicas Flamma Flamma – The Fire Requiem (1994) e Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan (Orrori Dell’ Amore, 1995), compostas pelo belga Nicholas Lens, surpreendem: vozes mágicas, estranhas, excessivas, do outro mundo. Acrescento o teaser da ópera, também de Nicholas Lens, Shell Shok – A Requiem of War (2014), em memória da Primeira Grande Guerra. Meus amores, meus horrores!

Nicholas Lens. Flamma Flamma – The Fire Requiem. 1994.
Nicholas Lens. Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan. Orrori Dell’ Amore. 1995.
Teaser. Shell Shock – A Requiem of War. Ópera. Compositor : Nicholas Lens. Livret : Nick Cave, 2014.

Solidão assistida

Conheço a solidão. É uma amiga nem sempre desejada. Respeito-a! Solitário, dedicava-me à leitura de um livro ou a ver televisão. Nunca dancei com um robot, mas lutei com o travesseiro. Hoje, entrego-me ao computador ou ao telemóvel. Estranha forma de companhia. Por enquanto, não há máquina que substitua o ser humano. A este falta-lhe um botão para ligar e desligar. De qualquer modo, às vezes vale a pena “estar no computador”. O anúncio B.E.N., da Société de Saint Vincent de Paul, é uma obra de arte.

Anunciante: Société de Saint Vincent de Paul. Título: B.E.N. (Bionically Engineered Nursing). Agência: CLIM & BBDO. Direcção: David Wilson. França, Novembro 2016.

Street Art em São Paulo

Os Gêmeos (Otávio Pandolfo e Gustavo Pandolfo). São Paulo.

A street art está na moda. Foi um vento que lhe deu. Quando uma moda é moda, também é moda na publicidade. Ser moda é bom, mas ser moda e causa ainda é melhor. Para além das causas que a street art pode abraçar, em São Paulo a street art é uma causa desde o programa Cidade Limpa da prefeitura de João Dória contra a “poluição visual”, incluindo os grafites, nos muros da cidade. Ironicamente, São Paulo consta entre os maiores santuários de street art a nível global, “a capital mundial do grafite”.

Os Gêmeos. São Paulo.

“Em tempos de muros cinzas em São Paulo, nada como saber onde encontrar alguns dos melhores locais de grafites na cidade (…) Eles estão por todos os lados e são apresentados nas mais variadas técnicas e estilos, ocupando viadutos, prédios e postes. A cada esquina que encontramos um grafiti dá vontade de ver mais desenhos, cores e formas geométricas. Verdadeiras relíquias da street art estão espalhadas de norte a sul da cidade, em bairros como Liberdade, Vila Nova Conceição, Jardins, entre outros” (https://maladeaventuras.com/5-lugares-para-encontrar-street-art-em-sao-paulo/).

Somos contemplados com uma moda que é uma causa, só nos falta um Émile Zola (J’accuse, 1898). Disse Nike? Acertou.

Marca: Nike. Título: Air Max Graffiti Stores. Agência: Wieden + Kennedy (Sao Paulo). Produção: AKQA São Paulo. Brasil, Junho 2019.

Lesão cerebral infantil. Recuperação

Afasia. Autoria: MARC DOZIER / CORBIS

A recuperação de um trauma ou de uma lesão cerebral pode representar um desafio incerto e tenebroso para uma criança. O anúncio One Word, vencedor do Leão de Ouro de “Melhor Filme” no Festival de Cannes 2019, ilustra este tormento com sons e imagens arrepiantes. Mas, no que respeita à recuperação da fala, existe uma esperança: a aplicação Constant Therapy.

É admirável como uma animação consegue expressar tão intensamente a impotência e o pânico.

Anunciante: Constant Therapy. Título: One Word. Agência: Area 23. Produção: Lightfarm Studios Rio De Janeiro. Estados Unidos, Maio 2019.

Fastio civilizacional

Arena de Verona. Itália

Os anfiteatros romanos preservam, passados dois milénios, a sua função: acolher espectáculos. Os músicos pop/rock têm uma predilecção por estes espaços históricos monumentais: os Pink Floyd tocaram, sem público, no anfiteatro de Pompeia em 1971; os Dire Straits no anfiteatro de Nîmes em 1992; Paul McCartney no Coliseu de Roma em 2003; Leonard Cohen no anfiteatro de Pula em 2013; os Deep Purple no anfiteatro de Verona em 2014…

Retenho três interpretações ao vivo em que predominam os instrumentos acústicos.

  • Private Investigations (Love over gold, 1982) pelos Dire Straits, no anfiteatro de Nîmes em 1992. Sobressaem os sopros e as cordas. Mark Knofler toca guitarra clássica. Private investigations adequa-se ao cantar falado de Mark Knofler.
  • So Long, Marianne (Songs of Leonard Cohen, 1967) por Leonard Cohen, com 79 anos de idade, no anfiteatro de Pula em 2013.
  • Walk This Way (Aerosmith, Toys in the Attic, 1975) por Steven Tyler, no Coliseu de Roma, num espectáculo de Andrea Bocelli em 2017. Destaque para os violoncelos.

Música em anfiteatros do Império Romano

Três canções é muita música. Hoje, sobra o gosto e falta o apetite. O século XX inventou uma máquina para preservar os alimentos e adiar o consumo: a arca congeladora. Revolucionou a pesca e a agricultura. Estas canções ouvem-se ou não. Mais uma ou menos uma múmia na Internet. Os arquivos cobrem-se com uma espécie de tédio electrónico.

Dire Straits. Private Investigations. Love over gold. 1982. Ao vivo no anfiteatro de Nîmes em 1992.
Leonard Cohen. So Long, Marianne. Songs of Leonard Cohen. 1967. Ao vivo no anfiteatro de Pula em 2013.
Steven Tyler. Walk This Way (Aerosmith, Toys in the Attic, 1975). Ao vivo no espectáculo de Andrea Micelli no Coliseu de Roma em 2017.

Esqueletos eróticos

Eizo. X-Ray Pin-up calendar. 2010. Imagem em alta resolução.

A todas e a todos que se dedicam à mui nobre arte de emagrecer.

Os esqueletos tocam música e dançam. À semelhança dos demónios. A dança dos esqueletos inspirou inúmeras obras desde a Idade Média. A Skeleton dance, em realidade aumentada, foi exibida em Bruxelas no ano de 2013:

‘Skeleton Dance’ is a streetmapping project that was first presented at Brussels Light Festival in 2013. During the three day festival, more then 85.000 people visited Brussels Light Festival. Over the past few years the project has traveled to multiple festivals around the world.

Filip Sterckx and Antoon Verbeeck. Skullmapping: https://skullmapping.com/project/skeleton-dance/

Para além de dançar e tocar música, os esqueletos também beijam, assediam, riem, lutam e fazem pose. Nem Sigmund Freud imaginou as potências eróticas dos ossos. O voyeur deixa de ver a pele e a carne, vê os ossos voluptuosos. Bem diz o povo: nós somos tão bonitos por dentro! Com uma pequena ajuda da técnica.

Ontem, dei uma conferência no Paço dos Duques, em Guimarães, sobre a honra e a lenda de Egas Moniz. Sobreaqueceram-se-me os neurónios. No rescaldo, só penso disparates. É a minha receita para descansar. Publiquei algumas imagens do X-Ray pin-up calendar no facebook em 2010, data da sua edição. Vale a pena retomá-las.

Imagens do calendário X-Ray pin-up, da Eizo. 2010.

Beleza e libertação

Julia Roberts. Lancôme. 2018

“A beleza desperta a alma para agir” (Dante Alighieri).

Bruno Aveillan consta entre os melhores realizadores de anúncios publicitários. O Tendências do Imaginário inclui cerca de 40 anúncios com a sua assinatura. Desenvolveu um estilo próprio. Minucioso, talha os pormenores que nem diamantes. O olhar de Bruno Aveillan combina a câmara de filmar e a câmara fotográfica. Embeleza a beleza. É um operário de afrodites, com ou sem Adónis. A banda sonora é cuidada até à última nota. Há combinações memoráveis. No anúncio La vie est belle, da Lancôme, a música eleita é Diamonds, um cover de Rihanna, pelo australiano Josef Salvat, por sinal, já utilizado noutros anúncios, incluindo da Sony.

Para apreciar a mão de Bruno Aveillan, proponho um exercício: comparar o anúncio de 2018 com o anúncio da Lancôme, de 2016. Partilham o mesmo título, La vie est belle, e a mesma protagonista: Julia Roberts, embaixadora da marca desde 2009. O anúncio de 2016 foi dirigido por James Gray (realizador dos filmes Os donos da noite, 2007; Amantes, 2008; Era uma vez em Nova York, 2013; e Laços de sangue, 2013). O convite não é para hierarquizar, mas relevar as diferenças. Aos dois anúncios da Lancôme, acrescento duas interpretações ao vivo de Josef Salvat: Shoot and run e Night swim, esta mais despojada, acompanhada apenas pela guitarra eléctrica. Pertencem ao álbum Night Swim, de 2016.

Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Agência : Publicis 133. Direcção : Bruno Aveillan. França, Agosto 2018.
Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Direcção : James Gray. França, Fevereiro, 2016.
Josef Salvat. Shoot and Run. Night Swim. 2016. Ao vivo.
Josef Salvat. Night Swim. Night Swim. 2016. Ao vivo.

Água do deserto

Sony Bravia. Desert Water. 2019

Os anúncios da Sony são extraordinários. Efeitos visuais fabulosos e uma estética fantástica. No anúncio Desert Water, o som é vedeta. Sai, incluindo a voz de Grace VanderWaal, do próprio ecrã. Uma gota de água avoluma-se, através de um dominó de monitores, até se despenhar numa cascata. O som, portentoso, é imersivo. Tão real como o real!

Da série de anúncios a televisores da Sony, o meu preferido é o Balls, de 2005 (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). Recordo, não obstante, o Strangely Beautiful / Ice bubbles, de 2014.

We soon see the beginning of life, as a single drop of water emerges into the scene through a BRAVIA AG9 TV. The drop turns into a river as the music grows to match its intensity and strength. As the spot leads us through an ever-emotive experience, we witness the river becoming a beautiful waterfall, a climatic finish that lets the viewer be immersed in sound and vision (Innocean).

Marca: Sony. Título: Desert water. Agência: Innocean. Reino Unido, Maio 2019.
Marca: Sony. Título: Strangely Beautiful / Ice Bubbles. Agência: Adam&Eve BBD (London). Direcção: Leila & damien de Blinkk. Reino Unido, 2014.

A beleza da biodiversidade

Apple. Don’t Mess With Mother. 2019.

Quando se aposta, com arte, na estética o resultado é compensador. O anúncio Don’t Mess With Mother, da Apple, é um hino à biodiversidade. Ao ritmo heavy metal da canção Last Rites dos Megadeth. Os autores do anúncio tiveram a sageza de dispensar a besta humana. Preferiram uma avalancha. Há marcas que são um expoente da publicidade.

Marca: Apple. Título: Don’t Mess With Mother. Estados Unidos, Abril 2019.

Um passo de dança

Almada Negreiros. Cine San Carlos. Madrid.

A dança é uma vocação do corpo. É um momento em movimento. A dança abre e a dança fecha. De essencial, nada mais sucede nesta ilha de sensualidade. É uma forma simbólica que, irredutível a textos e contextos, vale em si e por si. A dança, a arte da dança, não é papel timbrado. A dança desentorpece a humanidade desde Adão e Eva. “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Genesis 3:19). Um pó que dança. Por muito que o mundo ordene, um passo de dança é um passo de dança, um rio a abraçar perdidamente o mar.

“Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We’re both of us beneath our love, we’re both of us above
Dance me to the end of love”
(Leonard Cohen. Dance me to the end of love. Various Positions. 1984).

A curta-metragem Bear and Squirrel, do programa Dancing On Ice, da ITV, espelha o nosso fascínio pelos desenhos dançantes, como, por exemplo, no filme Fantasia (1940-2000), da Walt Disney. Opto pelo excerto dedicado ao Carnaval dos Animais (1886) de Camille Saint-Saëns.

Marca: Dancing on Ice (ITV). Título: Bear and Squirrel. Produção: ITV Creative. Direcção: Kirk Hendry. Reino Unido, 2018.
Fantasia. Walt Disney. 2000. Excerto: Flamingos. The Carnival of the Animals, composição de Camille Saint-Saëns. 1886.