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Entre duas águas

Paco de Lucia.

A cabeça na almofada e o corpo na jangada. A cama é um rio. Água, duas águas, águas turvas, águas mil. O mesmo, o outro, os outros a nadar no mesmo. Metecos ( méta significa, em grego, “no meio de, entre, com”). Todos somos metecos. Vogamos, dentro e fora, em águas incertas.

Luzia é uma música, um monumento musical, que Paco de Lucia dedica à mãe, Luzia Gomes, portuguesa de Castro Marim. Entre dos aguas é o título de um dos grandes e mais antigos sucessos de Paco de Lucia. Estava a faltar música flamenga no Tendências do Imaginário.

Paco de Lucia (e Banda). Luzia. Luzia. 1998. Ao vivo no Festival Leverkusener Jazztage, em Leverkusen, Novembro 2013.
Paco de Lucia. Entre dos aguas. Fuente Y Caudal. 1973. Extraído do documentário La Búsqueda (2014).

Frágil

Jorge Palma.

Põe-me o braço no ombro / Eu preciso de alguém / Dou-me com toda a gente / Não me dou a ninguém / Frágil / Sinto-me frágil (Jorge Palma, Frágil, Bairro do Amor, 1989).

A vida é como um cigarro, apaga-se devagar. Revejo-me em Jorge Palma. “Vemos sempre a preto e branco o programa / Que afinal é a cores” (Jorge Palma, À espera do fim, Só, 1991). Seguem três canções do Jorge Palma, todas do álbum Só (1991).

Jorge Palma. Só. Só. 1991. Ao vivo no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém a 29 de Novembro de 2016.
Jorge Palma. O meu amor existe. Só. 1991. Ao vivo. Coliseu de Lisboa. Outubro 2017.
Jorge Palma. A gente vai continuar. Só. 1991. Ao vivo: Quinta de Valbom, Évora, EA LIVE Évora, 25 de Agosto 2018.

O outro lado

Vazio de pensamento. Caiu herbicida nos neurónios. Preciso de uma inspiração que me despasme. Que me vire do avesso.

The Doors. Break On Through (To The Other Side). The Doors. 1967. Live At The Isle Of Wight Festival 1970.

Quando a alma fecha a porta

Ezio Bosso

A alma adormeceu. Ezio Bosso (1971-2020), compositor, maestro e pianista italiano, faleceu há três semanas, vítima de doença neurodegenerativa. Desde setembro de 2019, sem agilidade nas mãos, deixou de tocar piano. Gosto da cultura italiana. Sou latino. As músicas Clouds, The mind on the (Re)Wind e Rain, in Your Black Eyes são excelentes para elevar a alma. Acrescento uma pequena reportagem, Concerto per la terra, capaz de a estremecer.

Ezio Bosso. Clouds, The mind on the (Re)Wind. …And the Things that Remain. 2016.
Ezio Bosso. Rain, in Your Black Eyes. …And the Things that Remain. 2016.
Ezio Bosso. Concerto per la terra. Bologna. 2017.

Nenúfares

Woodstock. 1969.

Dedilhei os cds da última gaveta. Passei pelo Bob Marley e comentei: “O reggae é que foi um apagão! É difícil encontrar memória mais esquecida”. Respondem-me: “Mudaram as drogas. Agora são ácidos”. Fiquei a ruminar. A imagem veiculada pelo Woodstock (1969) foi a de uma descontração desvelada. Até os nus que deslizavam na água pareciam nenúfares. O mesmo no festival da ilha de Wight, em 1970. A imagem de Bob Marley respirava paz e amor (ver vídeo 2). A tendência era apolínea (Friedrich Nietzsche, O nascimento da tragédia, 1872; Ruth Benedict, Padrões de cultura, 1934). A aura dos festivais atuais parece mais dionisíaca. O meu rapaz envia-me um vídeo ilustrativo com a nova versão do Gollum numa tribo efervescente a chapinhar em trajes mínimos (vídeo 1).

Fernando e Albertino

“Gollum na Woodstocku 2014”
Bob Marley & The Wailers. One Love. Exodus. 1977.

Diabolus in Musica

Guitarra com combustível.

Existem anjos que moram no purgatório. Impacientes, sobem e descem a escada: ora inalam enxofre ora respiram ar condicionado. Estes anjos conhecem tudo: o churrasco do inferno, o maná do céu e o fumeiro do purgatório. O Alberto conhece este mundo e os outros. Quando sinto falta de espanto procuro o Alberto. Pasme-se com uma guitarra elétrica cuja caixa é uma lata de combustível da Sacor, talhada para concertos infernais. Se as chamas desfalecerem, soltam-se uns pingos de gasolina. Com esta inspiração ainda vamos criar uma banda chamada Hellite.

Fiz, há meses, uma comunicação intitulada “Música do Inferno”, concentrada na Idade Média e no Renascimento. Mas existe música infernal na atualidade. Por exemplo, a música dos norte-americanos Slayer, acabados de acabar. Independentemente de gostar ou não da música, interessa-me o fenómeno. Não se ganha em virar a cara, porque pode a cabeça ficar torta. Segue um anúncio e uma música dos Slayer.

Anunciante: Slayer. Título: Giveaway: Enter to Win Repentless Hell-p. Agência: Kolle Rebbe. Alemanha, Janeiro 2020.
Slayer. Hell Awaits / The Antichrist. Hell Awaits. 1985. Live In Anaheim, CA / 2002.

O Muito Povo

“Não são, portanto, os próprios factos que tocam a imaginação popular, mas, antes, a maneira como eles são organizados e apresentados. É necessário que através da sua condensação, se assim me posso exprimir, eles produzam uma imagem atraente que preencha e obceque o espírito. Quem conhece a arte de impressionar a imaginação das multidões conhece também a arte de as governar” (Gustave Le Bon, Psychologie des foules, 1895).

Estou farto de pensar! Incomodo os neurónios para nada. Prefiro a música. Fecunda o cérebro e estremece o corpo. Observaram a multidão do memorável concerto dos R.E.M. (ver vídeo 1)? Um exagero de gente excitada. Massa a vapor. Pronta para o impulso, para a mobilização. Fico sempre dividido quando deparo com uma multidão: maravilha ou monstro, Bela ou Besta, Gandhi ou Lynch? As coreografias e os ecos são recorrentes nos concertos de música rock, mas não só. Fascina-me a sincronização colectiva. Como é possível tanta emoção ordenada, tanta gente a funcionar como uma única pessoa? Uma multidão, ao mesmo tempo alinhada e inflamada, intimida. A engrenagem do “muito povo” não é espontânea, carece aquecimento e orientação. A minha relação com a multidão sofre de um trauma que me tolda a lucidez: a multidão em transe, pela paz ou pela guerra, lembra-me, obtusamente, o filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl (vídeos 2 e 3). E, no entanto, não há nada mais humano do que a turbulência de um oceano de gente deslumbrada.

R.E.M. Everybody Hearts. Automatic for the people. 1992. Ao vivo: Live 8 – 2005.
Excerto 1 do filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, 1935.
Excerto 1 do filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, 1935.

MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Prémio

MDOC-Cartaz da edição de 2019

“Deixem escorrer o crepitar do pensamento” (Álvaro Domingues, Viste aquela galinha gigante?, Público, 29 de Dezembro de 2019.

Mencionei, repetidamente, no Tendências do Imaginário, o festival Filmes do Homem, entretanto, rebatizado, por censura feminista, MDOC – Melgaço International Documentary Film Festival. Procuro fazer o que me apetece e discorrer sobre aquilo que me interessa. Designação à parte, gosto do MDOC. A plataforma UM-Cidades concede, anualmente, por concurso, prémios aos municípios que se destacam pelas boas práticas. Este ano, “na Categoria Município Projeto da região Norte, com menos de 20 mil habitantes, o vencedor foi Melgaço, com o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço” (Agência Lusa, 15 de Novembro de 2019).

Felicito a Associação Ao Norte e a Câmara Municipal de Melgaço. Para festejar, o Prelúdio do Te Deum (c. 1690) de Marc-Antoine Charpentier, que foi tema das emissões da Eurovisão. Condiz com a vocação internacional do Festival. Charpentier não constava entre os músicos favoritos de Louis XIV. Não obstante, o Te Deum era capaz de fazer marchar os cavalos de bronze das estátuas equestres do Rei Sol.

Marc-Antoine Charpentier. Te Deum – Prelude (c. 1690).

Blind Guardian. O legado das terras sombrias.

Blind Guardian.

Na adolescência, em 1978, aprendi uma linguagem de programação: o Fortran IV. Os primeiros computadores pessoais (pc) de sucesso começaram em 1977, Apple incluída. Uma das instruções mais importantes consistia no “if… goto”, que assinalava um salto no algoritmo, graficamente representado por um losango. O poder concebe-nos como romeiros de algoritmos. De instrução em instrução, de rotina em rotina, até ao if goto final: If… go to shit!

Mas há quem resista. Há sempre quem resista, embora pouco consiga. Quase sempre, de um modo romântico. Ocorre-me o mundo da música Metal. Por exemplo, a banda alemã Blind Guardian, criada em 1984. Lançou, há dias, o álbum Legacy of the Dark Lands (8 de Novembro de 2019). O meu rapaz mais novo não escuta outra coisa. A minha mulher continua a ouvir melodias e eu, nostalgias. Quando estamos os três ligados, a casa tem uma crise de identidade. À força de ouvir o álbum orquestrado Legacy of the Dark Lands, uma pessoa afeiçoa-se. Afeiçoamo-nos uns aos outros. A fantasia, o fantástico, está na mó de cima. Acrescento uma música de 1990 para ilustrar como os Blind Guardian são sem orquestra e ao vivo.

Fernando e Albertino

Blind Guardian Twilight Orchestra. Nephilim. Legacy of the Dark Lands. 2019
Blind Guardian. Lord Of The Rings [Imaginations Through the Looking Glass]. Tales Form The Twilight World. 1990.

Arte total

Lola & Hauser. 2018.

Música, Arquitectura (Arena Pula), Cinema, Moda, Alta Costura, Design, Arte Efémera, Artes Decorativas e o Resto. Um festival de arte e beleza. Uma Florença do espectáculo!

Hauser and Lola Astanova performing Mia & Sebastian’s Theme from La La Land by Justin Hurwitz at the “HAUSER & Friends” Gala Concert in Arena Pula, Croatia, August 2018.