Insetos amorosos
Sem entomofobias (ou insetofobias), ousemos voar, com besouros e libelinhas, automobilizados, telecomandados ou pela imaginação, rumo a recantos e momentos paradisíacos, tais como, eventualmente, aqui ao perto, o Couraíso, Festival Vodafone Paredes de Coura.
Música no adro
On a tous un banc, un arbre, une rue
Où l’on a bercé nos rêves
On a tous un banc, un arbre, une rue
Une enfance trop brève
(Séverine. Un banc, Un Arbre, Une Rue, 1971)
Uma criança, um hino, uma catedral. Não é preciso muito para me emocionar.
O voo dos tordos

De um recanto à saída do Instituto de Ciências Sociais, demorei-me a observar o bailado celestial de um bando de tordos. Lembrou-me, sabe-se lá por quê (apenas um Freud inspirado conseguiria explicar), a ária “Les oiseaux dans la charmille” [os pássaros no caramanchão] da ópera Les Contes d’Hoffmann (estreada em 1881) do compositor Jacques Offenbach (1819-1880).
Existem muitas coreografias e interpretações de “Les oiseaux dans la charmille”. Optei pela performance, em janeiro de 2016, da eslovaca Patricia Janečková (1998 – 2023), falecida no passado dia 1 de outubro, aos 25 anos, em Ostrava, vítima de um cancro da mama.
Para quem aprecie o grotesco, nomeadamente a vertente do estranhamento, desconcertante e corrosiva, relevada por Wolfgang Kayser (O Grotesco, 1957), nunca recomendarei o suficiente os contos de E. T. A. Hoffmann (1776-1822). Anexo o pdf do conto “O Homem da Areia” (do livro Noturnos, de 1817).
Serão dos Medos (Fotografias)
À Júlia que ousou abrir a porta para um mundo assombroso
Já aludi ao ambiente, ao público e à dinâmica da última edição dos Serões dos Medos. Falta relevar a caraterística mais notável: a originalidade da quinzena de testemunhos partilhados. Nenhum foi estereotipado ou obedeceu a padrões rebatidos. Todas as intervenções foram pessoais e com narrativas únicas. O meu repositório do imaginário sobrenatural resultou substantivamente enriquecido. Acontece-me numa suposta prestação receber mais do que dou. Promovi e participei em muitos tipos de encontros. O Serão dos Medos afirma-se diferente. Pela vocação, pelo público, pelo envolvimento e pelo alcance. Sensibiliza-me, em particular, o sentimento de proximidade. Não estou perante uma massa indistinta mas com pessoas conhecidas, que dizem muito. Nunca é tarde para regressar e refrescar!




Premonição

O Serão dos Medos, dedicado aos prenúncios de morte, já lá vai. O ano passado, “a casa encheu”. Nesta sexta, a assistência duplicou. Permanecemos, aliás, no auditório. Na “cozinha” não cabíamos. Numa atmosfera de confiança, partilha e participação, testemunho após testemunho, cresceu o fascínio, o interesse e a dúvida. A estranheza e a familiaridade deram as mãos perante casos “difíceis de entender”. Proporcionou-se a maioria dos participantes residir nas freguesias da ribeira. Todas as terras possuem tradição e cultura.
Costumo preceder as conversas com um pequeno vídeo. Para este serão, optei por Premonition, uma curta-metragem, de dezembro de 2022, associada à saga da Guerra das Estrelas. Um desvio pelo futuro antes do foco no passado.
Serão e Noite dos Medos em Melgaço – 20 e 28 de outubro
No mês de outubro, em Melgaço, a noite é dos medos. Na próxima sexta, dia 20, ocorre uma nova sessão, a segunda, dos Serões dos Medos, numa cozinha antiga de uma casa incrível mas acolhedora de que sou uma espécie de anfitrião. No sábado, dia 28, será a noite propriamente dita dos medos: uma dramatização coletiva fabulosa pelas ruas e no castelo. É de aproveitar, que só acontece uma vez por ano, num tempo de comunhão entre mortos e vivos. Para ver o programa, carregar na imagem do cartaz ou no seguinte link: https://www.cm-melgaco.pt/noite-dos-medos/.

A principal referência de comunhão entre os vivos e os mortos é a celebração mexicana da Santa Muerte e do Día de Muertos, em que os falecidos regressam para visitar os familiares e os amigos vivos. Entre as muitas canções relacionadas, selecionei três , todas de 2022, para pré-aquecimento das noites de Melgaço: La Bruja, La Martiniana; e La Sandunga.
Telegrama
Telegrama para o John, distante no Canadá. Guitarra com guitarra… Obsessed In Search of Lost Time.

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Emilio Cao. A voz e a harpa

A harpa integra os instrumentos da música dita celta. Encontramo-la na Galiza, na Bretanha, na Cornualha, no País de Gales, na Irlanda e na Escócia. Curiosamente, não aparece como característica do Minho, apesar das raízes celtas. Cada um destes territórios possui harpistas célebres, por exemplo, o bretão Alan Stivell, o irlandês Derek Bell (dos Chieftains), a escocesa Phamie Gow, a galesa Catrin Finch ou o galego Emilio Cao.
“Emilio Cao (Santiago de Compostela, 1953) es un músico, compositor y cantautor de música folk y tradicional gallega. Destacado intérprete de arpa celta y recuperador de este instrumento medieval en Galicia” (https://es.wikipedia.org/wiki/Emilio_Cao).
Atuou, com o português Fausto, nos Encontros Culturais I de Castro Laboreiro, em 1986, a 15 de agosto, dia da feira do gado e do concurso do cão de Castro Laboreiro. Contemplando vários eventos associados a tradições locais, tratou-se de uma iniciativa, ousada, protagonizada por um grupo de jovens. Repete-se uma tendência: o empenho dos filhos e dos netos na valorização e na revitalização do património, dos usos e costumes, dos avós e dos pais.
Seguem quatro canções de Emilio Cao.
Tempo para tudo

Ter todo o tempo do mundo pode ser bom!
Ter tempo para tudo talvez não seja pior! Até para tentar tempos alheios. Se os Slow Show lembram Roger Waters, os Elbow lembram Peter Gabriel.
