Archive | Setembro 2021

Demolidor

Van Gogh, Starry Night. 1889.

Este sábado recuperei da estante o álbum Kaputt, dos Destroyer, um grupo canadiano, discreto, ativo desde 1995. Publicou 13 álbuns, a revisitar ou descobrir. Uma das suas principais caraterísticas é, porventura, a sua originalidade assentar num nada de incaraterístico, de uniformidade.

Idiossincráticos, os Destroyer saltam de estilo de disco para disco e de faixa para faixa. Lembram, entre outros, James Taylor, Serge Gainsbourg ou Devendra Banhart. Em alguns casos, pode-se falar de intertextualidade. Nas canções Sky’s Grey e Bay of Pigs, dos álbuns Ken (2017) e Kapput (2011), ecoa, por exemplo, a sombra de Roger Waters.

Destroyer. Sky’s Grey. Ken. 2017. Ao vivo no estúdio KEXP em 2018.
Destroyer. Bay of Pigs. Ken. 2011.

Fanny: Eva Fora Do Paraíso

“As identidades não são necessariamente distintas. Por vezes, misturam-se umas com às outras. Por vezes podem mesmo ser partilhadas.” (Mary E. Pearson. Fox Forever. 2013). Se gostam, partilhem! Quando partilhamos somos mais.

Acarinho a ilusão de que o blogue Tendências do Imaginário persegue uma vocação universal. Sonha pecar por excesso de inclusão. Empenha-se por ser aberto e plural, numa travessia de mundos e num desconcerto de identidades. Pretende aproximar-se, dialógico e polifónico (Mikhail Bakhtin), heterocêntrico (Jean Piaget), de uma alma acolhedora. Algumas das máscaras que incorpora, num desfile de avatares, são descendentes de Eva. Namora o feminino. Atreve-se a (in)vestir-se mulher. Depois do artigo dedicado a Fiona Apple, seguem as Fanny (), uma das primeiras girl bands (all female), norte-americana de origem filipina, a alcançar no início dos anos setenta sucesso público e comercial.

Maio 68. Slogan Soyez réalistes, demandez l’impossible.

É certo que esta desejada “vocação universal” não é alcançável na íntegra. Mas a realidade oferece-se paradoxal. A porfia do impossível pode revelar-se o melhor caminho para lograr, senão potencializar, o possível. Como diria Ernst Bloch (Thomas Müntzer. Teólogo da Revolução, 1ª ed. 1920), a história da humanidade está repleta de impossíveis realizados e de possíveis não realizados. Lutamos pela igualdade conscientes de que a igualdade plena é uma utopia. Esta concepção é semelhante a uma advertência atribuível à “filosofia do não”: não é por uma ideia estar errada que ela que ela está condenada a nos desviar da verdade. “Eu sou o limite das minhas ilusões perdidas” (Gaston Bachelard, Critique préliminaire du concept de frontière épistémologique.1ª ed. 1936. In Études 2, 2002). Nesta linha, Gaston Bachelard observa, a propósito da física quântica, que pouco subsiste do esquema do átomo proposto por Niels Bohr, um dos contributos mais decisivos para o desenvolvimento da teoria do átomo: “O esquema do átomo proposto por Bohr, um quarto de séculos atrás, agiu nesse sentido como uma imagem correta, mas não resta mais nada.” (A filosofia do não. 1ª ed. 1940).

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.

Fanny – Ain’t that peculiar. Fanny Hill. 1972. Ao vivo em 1972.
Rock Group Fanny on French TV

Fiona Apple. A travessia de um prodígio

Ce sont des tomates, chérie! Fotografia: Conceição Gonçalves

“O interessante é que eu odiava Fiona Apple e suas músicas “deprê”, com ritmos esquisitos, uma falta de continuidade em melodias, que se misturavam com outras bem abruptamente, aquilo confundia meus ouvidos e eu simplesmente não gostava / Suponho que de tanto escutar, terminei acostumando e abrindo os ouvidos e olhos para as melodias e letras que ecoavam pelo quarto. E poxa vida, que letras! Fiquei maravilhada com o que aquela mulher escrevia, tudo era de uma beleza e profundidade que rasgava por dentro quem as escutava com atenção “ (Quasar3000).

“Ao contrário dos julgamentos que recebeu, Fiona sempre esteve à frente de seu tempo. Ao expressar os seus dilemas na música, ela paralelamente criticava a mesma sociedade que a condenava. Desde o princípio, temas relativos ao ‘’ser mulher’’ estiveram presentes em sua arte” (Delirum Nerd).

“Canções metafóricas, temáticas psicológicas e melodias bem trabalhadas fizeram com que Fiona Apple conquistasse cedo o apreço do público e dos críticos, seu disco de estreia vendeu mais de 3 milhões de exemplares nos Estados Unidos, e com apenas 19 anos, a cantora ganhou seu primeiro Grammy” (Wikipedia).

Fiona Apple. Hot Knife. The Idler Wheel… 2012.
Fiona Apple. Every Single Night. The Idler Wheel… Ao vivo, 28 de Outubro de 2017.
Fiona Apple. Criminal. Tidal. 1996.

Alívio

Prunelax. Buried. 2021.

Os anúncios Casket (caixão) e Buried (sepultado), para o laxativo Prunelax, aproximam-se do cúmulo do grotesco. Um disgusto, duas piadas curtas a tresandar mau gosto. O tema, a disenteria, propicia-se. Num escasso minuto (2X30s), convocam os principais tópicos do rebaixamento, do “baixo material e corporal”:

Lugares rasteiros e de absorção – a terra, o túmulo, o caixão, o corpo, o nariz, o ventre e os pés;

Protagonistas – o cadáver, a velha, a coveira, o cego (defeituoso) e o animal (cão);

Fenómenos e práticas – diarreia, flatulência, pestilência, lambidela, exumação, queda, susto, pavor, alívio e riso.

Um dos traços mais caraterísticos do grotesco consiste no cotejo dos opostos. Neste caso, o enquadramento funciona como contraste: remete para símbolos valorizados pelo imaginário coletivo: a igreja, o sagrado religioso; a floresta, o santuário natural. Como diz o provérbio: “No melhor pano cai a nódoa”.

Obscuros, macabros e quase demoníacos, estes dois anúncios da Prunelax sugerem uma mudança na estratégia de marketing e publicidade. Uma inversão na imagem da marca. “Prunelax relaunches using ‘dark humour’ in disruptive new campaign” (Campaign Brief: https://campaignbrief.com/prunelax-relaunches-using-dark-humour-in-disruptive-new-campaign-via-five-by-five-global/ ). Meses antes, os anúncios evidenciavam-se leves, luminosos e quase angélicos (ver vídeos 3 e 4). Casket e Buried foram publicados nos meses de agosto e setembro; Say Goodnight To Constipation e Overnight Relief , em março e junho. A alusão a uma viragem estratégica resume-se a uma hipótese relativamente fundada. Carece, contudo, de mais informação. Existem leituras alternativas plausíveis. Por exemplo, os primeiros anúncios são de origem australiana, os segundos norte-americana, o que não é inócuo. As marcas podem adotar políticas de publicidade distintas consoante os momentos mas também as filiais e as agências. Convém desconfiar das causalidades únicas e lineares.

Marca: Prunelax. Título: Casket. Agência: Five by Five Global. Direção: Armand de Saint-Salvy. Austrália, agosto 2021.
Marca: Prunelax. Título: Buried. Agência: Five by Five Global. Direção: Armand de Saint-Salvy. Austrália, setembro 2021.
Marca: Prunelax. Título: Say Goodnight To Constipation (?). Estados-Unidos, junho 2021.
Título: Overnight Relief. Estados-Unidos, agosto 2021.

Anjos no purgatório: os cuidadores

Imagem extraída da página https://www.lusa.pt/article/KZWL5w4ocqE5TpC4ikpCwjMSZM5iuSI1/covid-19-miseric%C3%B3rdia-de-vila-real-com-13-casos-nos-cuidados-continuados-e-5-em-lar.

Oportuno, esperado e bem-vindo o anúncio One Crisis Has caused another, promovido pela britânica Frontline 19, com o selo de qualidade da agência Adam & Eve, de Londres. A pandemia do covid-19 exponenciou o protagonismo da figura do cuidador mas não a criou. O desafio do envelhecimento, dos idosos desprotegidos, não é menos grave e premente. É certo que a pandemia do covid-10 comporta uma dificuldade adicional: o desconhecimento e a imprevisibilidade. Agudizou, também, a consciência do problema.

Os cuidados, institucionais ou informais, dedicados à pandemia ou à velhice evidenciam-se sem comparação mais urgentes e exigentes do que os reivindicados por outras categorias, algumas parasitas, que ofuscam a comunicação social e colonizam o espaço público. Dispenso invocar exemplos.

A figura do cuidador existe desde que o homem é homem. Sem cuidadores, a sociedade esmigalha-se, colapsa. Mas resultam, paradoxalmente, votados a uma invisibilidade social e a um desamparo desconcertantes, num misto de letargia e vergonha coletivas. Abençoados os cerca de 1.4 milhões de portugueses (segundo inquérito da Associação Nacional de Cuidadores Informais, de 2020) que, informalmente, se esforçam e sacrificam pela qualidade de vida de familiares, amigos e vizinhos vulneráveis. Um gesto, uma palavra ou uma simples presença podem dar vida à vida. Cresce e perdura, lamentavelmente, o número de pessoas que sobrevivem e morrem desapoiadas, por vezes numa extrema solidão, entregues ao mal do século, a morte social. O cuidado dos enfermos e dos idosos, dos dependentes, oferece-se como uma medida da nossa insuficiência. Será tão mesquinha a nossa solidariedade e tão entorpecida a nossa preocupação? Oremos, senhor!

Anunciante: Frontline 19. Título: One Crisis has caused another. Agência: adam&eveDDB/London. Direção: NOVEMBA. Reino Unido, setembro 2021.

Ecos medievais

St. Louis Bible Date Paris, France, ca. 1244-1254. Folio 39r

Escutamos e estimamos pouco a música medieval, pelo menos, não tanto quanto vale, na sua originalidade e diversidade em várias áreas:

  • Ancoragem social: religiosa, trovadoresca, popular, mourisca…;
  • Géneros: cantigas, motetos, missas, conductus…
  • Cantos: gregoriano, cantochão, polifónico…
  • Espaços: igrejas, castelos, praças, banquetes, tabernas…
  • Eventos: festas, feiras, procissões, desfiles, bailes, banquetes…
  • Instrumentos: rebecas, cítolas, harpas, vielas, saltérios, alaúdes…
  • Danças: carolas; tripudium, estampidas, saltarelos, folias…
Pieter Bruegel. A dança do casamento. Cerca de 1566. Se o pudor o permitir, arrisco o convite para observar as braguilhas dos homens.

É verdade que, nos nossos dias, réplicas e sucedâneos nos interpelam, intermitentes, nos eventos e simulacros (e.g. as feiras medievais), no cinema (e.g. os filmes de fantasia) ou na música (e.g. o folk  power metal, como os Blind Garden, ou os trovadores contemporâneos, como o Angelo Branduardi). Sublinhe-se que a música medieval é precursora e inspiradora de muitas composições dos séculos seguintes. Atente-se, por exemplo, nas Cantigas de Santa Maria, do século XIII, da corte de Afonso X, escritas em galego-português.

A minha ignorância da música medieval é avassaladora. Felizmente, tem-se manifestado notável o estudo e a recuperação do legado medieval. A ignorância comporta uma virtude para quem prefere descobrir a confirmar: proporciona mais hipóteses de encontrar, com espanto e prazer, por acaso ou pesquisa, novidades, sejam contextos ou obras. Seguem cinco exemplos:

1. Anónimo italiano
2. Moniot de Paris (fl c1250). “Je chevauchoie l’autrier”. Voz: Anne Azéma.
3. Anónimo francês
4. Florentinus
5. Tarantelas

A separação do amor

Mordillo.

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?

Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.

Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Josefa de Óbidos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos.  Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.

Futebol. O santuário

Cristiano Ronaldo

O anúncio Football Is Calling, da Pepsi, consiste, essencialmente, num monólogo inflamado de apelo à devoção ao futebol: ““This is our sanctuary, where the only protocol is football. And the only thing we stand for is sitting.” Um discurso de conversão dos alheados. Um discurso eloquente que logra uma comunhão da audiência consubstanciada por uma lata da Pepsi. Refira-se que a Pepsi tem um acordo com a NFL (National Football League), a liga desportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos.

Marca: Pepsi. Título: Football is Calling. Agência: VaynerMedia. Estados-Unidos, Agosto 2021.

Há quem sustente que o futebol configura uma religião, uma religião laica. Congrega lugares de culto, rituais coletivos, panteão, credos, profetas, messias, exegetas, ídolos, imagens, hagiografias, epifanias, fiéis, procissões, irmandades, catarse, regeneração e pão nosso quotidiano. Metáforas e analogias à parte, trata-se de uma extrapolação que não me convence. Futebol é futebol, religião é religião. O que não obsta a que este anúncio me recorde um artigo de juventude de grata memória: “O desporto do nosso contentamento. Notas sobre a popularidade do futebol”, reproduzido em várias publicações: Boletim Cultural, do município de Melgaço; revista Economia e Sociologia, da Universidade de Évora; e livro Para uma sociologia da perversidade. Em maior número foram as comunicações que proporcionou. Hoje, neste contexto, elegeria este anúncio como ilustração. Junto o pdf da primeira versão do texto “Desporto do nosso contentamento” (carregar na seguinte imagem).

Blake & Blake. A fatalidade do nome

Melancolia agastada. Próximo do termo da atividade como professor universitário.
Melancolia esperançada. Há quarenta anos, no início da atividade como professor universitário. Fotógrafo: Álvaro Domingues.

Adotando a linguagem da sociometria de Jacob Levy Moreno, és uma “estrela” ou um “periférico”? Cativas ou repeles? Repara na atenção e no tempo que te dedicam.

Monet e Manet; Perry Blake e James Blake; Claude Monet e Claude Manet. Os primeiros impressionistas, os segundos eletrónicos.  A diferença que pode fazer uma simples letra. E um nome. Um nome presta-se a confusão). Baralha, mistifica e desorienta. Nos meus passeios pelo YouTube a partir da entrada Blake, troquei várias vezes o Perry pelo James., surpreendendo-me: “como é estranho, a voz e o estilo do Perry Blake mudaram expressivamente”. Até dar com o engano. A semelhança dos nomes de Monet e Manet provocou um desenlace inesperado, desmedido e trágico, memorável. O excerto “Mulher com vestido verde” do docudrama The Impressionists da BBC revela a série de equívocos desencadeados desde a  desilusão de Manet com a receção do quadro Olympia atá ao início da sua amizade com Monet, passando pelo duelo com o crítico de arte Dorante, um dos últimos e mais célebres duelos da história de França (ver vídeo 1. Existe uma versão, com menos resolução, com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=yeWmTiN4C3o; minutos 23:55 a 35:20). Luta-se e dá-se a vida por um nome. É escudo, estandarte e lança. Identitário e distintivo, o nome interpõe-se como uma marca e um sinal, um projeto, um caldo de expetativas e um mundo de possibilidades.

1. A mulher num vestido verde. Excerto do docudrama The Impressionists. BBC. 2006.

Blake não é Blake. A nacionalidade, a idade, a carreira, a popularidade e muitos outros traços pessoais separam Perry e James. Contudo, o que escrevi sobre a a música de Perry no artigo Melancolia Aveludada transparece como um letreiro que assenta a ambos: “Uma voz e uma orquestração singulares, suaves, compassadas, melódicas e melancólicas”. Convoco duas canções de James Blake: The Wilhelm Scream e I Never Learnt to Share. Recordam o Antony, dos Antony and the Johnsons.

2. James Blake. The Wilhelm Scream. James Blake. 2011.
3. James Blake. I Never Learnt To Share. James Blake. 2011. Ao vivo em Heaven, Londres.

Melancolia aveludada

Picasso. Femme assise près d’une fenêtre (Marie-Thérèse). 1932.

Gosto de escutar música. No trabalho e no lazer. Sou um melómano omnívoro. Aberto a quase todos os géneros e tendências, mas de cada apenas uma parte diminuta. A minha “discoteca” assemelha-se a um albergue espanhol com portas e janelas estreitas e filtradas. A maioria das músicas publicadas no Tendências do Imaginário tenho-as em casa. Escolho-as enquanto as escuto ou aleatoriamente enquanto percorro gavetas e prateleiras atolhadas com Cds e LPs. Tenho espírito de colecionador. Acumulo selos, moedas, pedras e minerais, picos paleolíticos, filmes, anúncios, vídeos musicais, imagens, ingratos e outras preciosidades que não vêm a propósito. Algumas relíquias e bastante desperdício.

Desta vez, o ponteiro da roleta deteve-se em Perry Blake, um cantor e compositor irlandês de culto. Uma voz e uma orquestração singulares, suaves, compassadas, melódicas e melancólicas. Seleciono quatro canções.

Sou viciado em música desde criança. Atrevo-me a resgatar mais um episódio de vida. Nos anos setenta, muitos jovens do Alto Minho e de Trás-os-Montes prosseguiram os seus estudos deslocando-se para Braga. O alojamento dispersava-se pela cidade, destacando-se, para os rapazes, o colégio D. Diogo de Sousa e, para as raparigas, o colégio, bem como o lar, Teresiano. Estava em voga a prática da boleia, um misto de poupança, aventura e bandeira ideológica. Por exemplo, nos regressos pendulares de fim-de-semana rumo às famílias do interior. Corríamos o risco de não chegar ao destino. Entre Braga e Melgaço, beneficiávamos de um último recurso: um autocarro, da Empresa Salvador Transportes, que circulava ao fim da tarde. Mas com a nossa gestão da mesada, faltava, amiúde, o dinheiro para o bilhete. O itinerário desdobrava-se por etapas (Vila Verde, Portela do Vade, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Monção), comportava sítios de espera e possuía regras, por exemplo, o primeiro a chegar era o primeiro a embarcar.

Cruzo-me frequentemente, em Moledo do Minho, com colegas e amigos de águas passadas. Acordam episódios de vida. Zé Dias, meu conterrâneo, destila memórias:

“Um domingo à tarde, eu e o Abílio, íamos à boleia de Melgaço para Braga. Chegados a Ponte da Barca, caminhámos até ao melhor local para erguer o polegar. De longe, ficamos apreensivos porque já lá estava alguém. Mas logo nos alegrámos. Escarrapachado na erva, à sombra das videiras, com a tua inseparável grafonola [um aparelho portátil com gira-discos, leitor de cassetes e rádio, oferecido por um primo, proprietário de um comercio de eletrodomésticos]. Solitário, despreocupado, prazeroso, a ouvir música e a deixar passar os carros. Só podia ser o Tino, só podias ser tu!”

Quase nunca me recordo destas anedotas que me convocam. Desconfio: falácias da imaginação ou realidade partilhada? Não obstante, admito que podia ser eu, já naquele tempo, um devoto de Santa Cecília e um caso à parte, um cromo desaparafusado.

Perry Blake. The Hunchback Of San Francisco. Broken Statues. 1998. Ao vivo no Cirque Royal, Nuits Botaniques, Bruxelas.
Perry Blake. Stop Breathing. Still Life. 1999.
James Blake. Broken Statue. Broken Statues. 2001.
Perry Blake. If You Don’t Want Me. The Crying Room. 2005.