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O Gorila e os Queen

Um anúncio da Peta que não é chocante.

Anunciante: Peta. Título: Break Free. Agência: Peta inhouse. Direção: Jesper Ohlsson. Alemanha, outubro 2020.

Pausa para trabalhar

Pina Bausch

“Durante muito tempo, pensei que o papel do artista era despertar o público. Hoje, quero oferecer-lhe no palco aquilo que o mundo, cada vez mais duro, deixou de lhe oferecer: momentos de amor puro (Pina Bausch).

A pandemia comprime o tempo e multiplica os surtos de trabalho. Julho revelou-se um pico maior que o Evereste. Ocorre a figura do judeu em terras de faraó a subir a montanha de costas. Nos próximos tempos, prometo empenhar-me em fazer aquilo que não presta, bem como aquilo que não devo. Que prazer poder e não fazer, ouvir as sereias junto à Ilha dos Amores. O Tendências do Imaginário esteve onze dias quedo e mudo. É estranho ter saudades do vício. “O trabalho não liberta”, tal como o resto. “Welcome to the pleasuredome” (https://tendimag.com/2018/06/19/canteiros-do-prazer-pleasuredomes/).

Pina Bausch é a dança. Wim Wenders dedicou-lhe um filme: Pina (2011). O vídeo “Seasons March” é um excerto. A última música é um fado de Coimbra: “Os teus olhos são tão verdes”. Aproveito para recolocar o vídeo “Dead Can Dance – Song of the Stars (Versão Pina Bausch”. Se já viu, é uma ocasião para ver com outros olhos.

Pina Bausch. Seasons March. Do filme Pina, de Wim Wenders (2011).
Dead Can Dance – Song of the Stars (Pina version).

Pare, escute e sente-se!

Nina Hagen. 1981.

Estou a escrever um texto que não me inspira. Mal começo, as letras rastejam para fora do ecrã. Só um milagre me impede de apertar o pescoço ao pensamento: Nina Hagen, a “rainha do punk”. Voz única, música única, coreografia única, imagem única. Tudo único. Lembra o Klaus Nomi. Estou com saudades de cultura fresca servida num espetáculo estranho, corrosivo e pujante. Nina Hagen interpreta o African Reggae no programa de Michel Drucker na Televisão Francesa, em 1980 (?).

Nina Hagen. African Reggae. Nunsexmonkrock. 1982. Ao vivo na Televisão Francesa em 1980.

Crónica do subterrâneo

Klaus Nomi.

O mundo tem altos e baixos, cumes e subterrâneos. Deixei-me sentar na cave. Pouca luz, pouco ruído, pouca humanidade, alguma ressonância do ego. Há quem afirme que o mal se combate com o mal, homeopaticamente. Se alguém estiver a afundar-se nada melhor do que lhe colocar uma pedra em cima. As músicas de Klaus Nomi são boa companhia para uma passagem pelo subterrâneo. Gosto do Klaus Nomi, um artista com um excedente de originalidade: cultura, voz e presença notáveis. Foi uma das primeiras vítimas da sida, em 1983. Sinto-lhe a falta. Sinto, também, que estou a sair da cave. Acima dos pés, o humor passou os joelhos rumo à barriga.

Klaus Nomi. The twist. 1981. Klaus Nomi. 1981.
Klaus Nomi. Keys of life. 1981. Klaus Nomi. 1981.
Klaus Nomi. Wayward sisters. Simple man. 1982.

Maratona

E se houvesse uma maratona sem meta? Correr para chegar a lado nenhum. Como insectos à volta de um candeeiro.

Pink Floyd – ” Run Like Hell “. The Wall. 1979. Live Earls Court 1980.

Pandemónio

Otto Dix. War cripples. 1920.

“Quando morrer vou para o paraíso porque já tive o meu tempo de inferno” (Stephen King, Rose Madder, 1995).

Na Idade Média, o inferno morava ao lado. Os seres humanos viviam rodeados de demónios, bruxas e possessos. Sentia-se o bafo de Satanás. Mas, por temíveis que fossem as incursões do diabo, o inferno pertencia a outro mundo. Normalmente, à direita nos painéis de Hieronymus Bosch; em baixo, também à direita, nas pinturas do juízo final.

Ott Dix. Skat players. 1920

Quando Jean-Paul Sartre afirma que “o inferno são os outros” altera a geografia do mal. O inferno está perto, está à nossa volta. Os quadros e as gravuras de Francisco de Goya já o evidenciavam. Há mais de dois séculos! Sejamos, porém, mais radicais. Basta um sobressalto de reflexividade: o inferno não são apenas os outros; o inferno somos nós. Os demónios, também. As pinturas de Otto Dix exprimem esta condição. Andamos todos estropiados porque nos estropiamos uns aos outros.

Otto Dix. Pagerstrasse. 1920.

Diabolus in Musica

Guitarra com combustível.

Existem anjos que moram no purgatório. Impacientes, sobem e descem a escada: ora inalam enxofre ora respiram ar condicionado. Estes anjos conhecem tudo: o churrasco do inferno, o maná do céu e o fumeiro do purgatório. O Alberto conhece este mundo e os outros. Quando sinto falta de espanto procuro o Alberto. Pasme-se com uma guitarra elétrica cuja caixa é uma lata de combustível da Sacor, talhada para concertos infernais. Se as chamas desfalecerem, soltam-se uns pingos de gasolina. Com esta inspiração ainda vamos criar uma banda chamada Hellite.

Fiz, há meses, uma comunicação intitulada “Música do Inferno”, concentrada na Idade Média e no Renascimento. Mas existe música infernal na atualidade. Por exemplo, a música dos norte-americanos Slayer, acabados de acabar. Independentemente de gostar ou não da música, interessa-me o fenómeno. Não se ganha em virar a cara, porque pode a cabeça ficar torta. Segue um anúncio e uma música dos Slayer.

Anunciante: Slayer. Título: Giveaway: Enter to Win Repentless Hell-p. Agência: Kolle Rebbe. Alemanha, Janeiro 2020.
Slayer. Hell Awaits / The Antichrist. Hell Awaits. 1985. Live In Anaheim, CA / 2002.

Três em um

A surpresa mora na Internet. Por vezes, boas surpresas. Desesperado de encontrar um bom vídeo com a música Because The Night, de Patti Smith, percorri a lista do Google quase de fio a pavio. Deparei com este vídeo, cuja imagem consiste num extenso e desinibido cruzamento de duas citações: o soberbo anúncio Odyssey, da Levi’s (2002) e o perturbador filme The Million Dollar Hotel, de Wim Wenders (2000). Nem mais, nem menos. O resultado compensa. Felicito o autor.

Seguem o vídeo para a música Because The Night, de Patti Smith, o trailer do filme The Million Dollar Hotel, de Wim Wenders, e o anúncio Odyssey, da Levi’s.

Patti Smith. Because The Night. Easter, 1978. Kegio, 2008.
Trailer de The Million Dollar Hotel, filme realizado por Wim Wenders. 2000.
Título: Odyssey. Agência: Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido. Jan. 2002.

Lá vai uma, lá vão duas, três pombinhas a voar

A abundância e a diversidade das candidaturas a património da Humanidade não escapam ao aguilhão do humor. Não é de estranhar. A fazer fé no demónio do relativismo, tudo o que é humano é passível de ser património da humanidade. Anormal, seria haver poucas candidaturas, todas semelhantes. Se tudo é patrimoniável, tudo é, também, risível, incluindo a UNESCO e as candidaturas a património.

A Empresa de Transporte de Berlin (Berliner Verkehrsbetriebe) não se fez rogada. No anúncio Nächster Halt: Weltculturerbe (Próxima Parada: Património cultural mundial) proclama a candidatura da empresa a património da humanidade. Trata-se, naturalmente, de uma paródia, que ri da UNESCO e dos candidatos, e de uma farsa, em que a empresa se ri de si própria. Não desperdiça a mínima oportunidade para ridicularizar e fazer humor. Uma empresa que se ri de si própria é uma raridade reparadora. O riso é o mais precioso e o mais característico património da humanidade.

Marca: BVG Berliner Verkehrsbetriebe. Título: Nächster Halt: Weltculturerbe. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Dezembro 2019.
José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

O cachimbo e o apagador de velas

Jan Steen. The Way you Hear it is the Way you Sing it (As the Old Sing, So Twitter the Young) c. 1665

O pessoal foi para Flandres. Detesto viajar. Fiquei como guardador de gatos e de sonhos. Tornou-se costume enviarem-me fotografias de obras de arte passíveis de me interessar. Por exemplo, esta pintura do neerlandês Jan Steen (1626-1679). À direita, um adulto coloca o cachimbo na boca de uma criança. Dados ao anacronismo, esta imagem choca-nos. Podemos, naturalmente, corrigir a arte e a realidade. Não era a primeira vez. Talvez, uma palhinha ou uma flauta fossem bons substitutos (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/).

O tabaco, fumado com cachimbo, é um tema recorrente na obra de Jan Steen. Retive cinco quadros (ver galeria). Quem observa estas pinturas fica com a impressão de uma associação do consumo de tabaco à ostentação e ao conforto. Na mesma época, outros artistas pintaram fumadores. Por exemplo, O Fumador (1635-36), de Joos van Craesbeeck, ou Os Fumadores (1637), de Adriaen Brouwer (figuras 6 e 7). Naquela época, fumar nem sempre compensava. Havia cidades, por exemplo, na Áustria e na Alemanha, que proibiam o consumo de tabaco, administrando penas severas (ver Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar: https://tendimag.com/page/6/?s=tabaco).

Imaginemos! Por esse tempo, eclodiu o barroco, o pintor teórico, a pintura de segredo, os efeitos de ilusão e as anamorfoses. Neste contexto, como diria René Magritte, os cachimbos não são cachimbos. Os cachimbos de Jan Steen, Joos van Craesbeeck e Adriaen Brouwer são apagadores de velas. Isso mesmo! Não há nada como imaginar a realidade, para sossegar as almas.