Archive | Outubro 2011

O desporto do nosso contentamento – artigo

O desporto do nosso contentamento

Albertino Gonçalves, O Desporto do Nosso Contentamento

A água contra a areia

Tanta criatividade por esse mundo fora! Este jogo de futebol entre a areia e a água é um espanto. Faz sentido para anunciar a Taça Asiática de Futebol de 2011. Faz também sentido em países como os Emirados Árabes Unidos. Lembra o futurismo,  E.T.A. Hoffmann, a Marvel… Mas não lembra ao diabo!

Anunciante: Al Kass Sport Channel. Título: Sandman vs. Waterman 2011 Asian Cup Promo. Agência: METAphrenie, Dubai. Direcção: Andrea Dionisio. Emirados Árabes Unidos, Janeiro 2011.

Libertação

O desejo de libertação não nasceu ontem. Tão pouco o ser humano. Mas tem vindo a multiplicar-se na publicidade, despoletando sensações e movimentos de sobressalto, sonho e prazer. O anúncio Do What You Want (2011) ergue-se como um manifesto do género, pontuado, metonimicamente, pela explosão dos sinais de sentido proibido.

Anunciante: Loterías y Apuestas del Estado. Título: Do What You Want. Agência: Shackleton Group. Espanha, Outubro 2011.

Mas não é o único. Existem sérios rivais, tais como o anúncio Viento (2007). Enxertados na aspiração ou na impotência dos públicos, estes “manifestos da libertação” costumam fazer apelo ao tópico do voo e da levitação. Assim acontece, ostensivamente, durante todo o anúncio Viento; e assim termina o anúncio Do What You Want.

Anunciante : Ford. Título : Viento. Agência : JWT Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Julho 2007.

A gravidade e a levitação constituem assunto que me tem interessado; apresentei, em Junho, uma comunicação sobre “La suspension de la gravité dans l’enluminure médiévale et dans la publicité actuelle” (Socialité Postmoderne, Journées du CEAQ, Sorbonne, 20 e 21 de Junho de 2011).

Infinitude

Passear a solidão. Sempre a fugir da sombra. Abraçar as nuvens para refrescar o infinito. Enterrar os pés para sonhar a semente. E parar… Como ninguém, em nenhum lugar. Este vídeo da TMG Health é magnífico. É um poema ilustrado. Vê-lo dá saúde.

Anunciante: TMG Health. Título: Pioneer/Simian. Agência: Kipany Pictures. Direcção: Ruben Latre. Sem país, Outubro 2011.

“TMG Health is the leading provider of Business Process Outsourcing (BPO) services to the government health plan market including support for Medicare Advantage, Part D, Managed Medicaid, SCHIP. TMG offers a broad solution set serving dozens of health plans totaling more than 2.8 million members in all 50 states.

Our clients range from large, multi-state and national plans with hundreds of thousands of members to small, regional plans with less than 2,000 members. We serve over 30 health plans including 14 Blue Cross Blue Shield organizations and both for- profit and not-for-profit plans. All of which adds to a broad understanding of the critical success factors needed to survive and thrive in this challenging marketplace.”

http://www.tmghealth.com/

Um perfume do outro mundo

Em vésperas de Halloween, a Axe continua endiabrada. Graças ao perfume, um zombie torna-se atraente. O masculino continua a resvalar e o feminino não fica bem na fotografia. Já começa a ser uma tradição.

Marca: Axe. Título: Hot Girl vs. Zombie. Halloween Horror Film. EUA, Outubro 2011.

O poder da lingerie

No artigo “A mulher, o homem e objecto” avancei que “a figura da mulher centrada nos seus dotes corporais parece em vias de desaparecimento nos anúncios publicitários”. Acentuar-se-ia, em contrapartida, a visibilidade do corpo do homem objecto. Convém ressalvar que existem segmentos do mercado em que o recurso ao corpo feminino não só se mantém como, o que é mais significativo, se renova. É o caso da lingerie, associada a marcas como Victoria’s Secret, Intimissimi, Blush e, especialmente, Agent Provocateur. O corpo da mulher continua exposto, mas cada vez menos como um objecto. As categorias construídas por Erving Goffman (1977) para caracterizar a imagem da mulher na publicidade dos anos sessenta (mulher escondida, mulher longínqua, mulher submissa, mulher dócil, mulher brinquedo, mulher jogadora) não bastam para abarcar a realidade actual. Silvana Mota-Ribeiro acrescentou, entretanto, a categoria “mulher erótica e disponível”. Mas estou em crer que, nos tempos que correm, também já não é suficiente. Anúncios como os da Agent Provocateur confrontam-nos com uma imagem que transcende a mulher erótica e disponível. Erótica, sem dúvida, mas insinuante, provocante, ousada, conquistadora, poderosa… E sensual! Não se vislumbram sinais de disponibilidade expectante no anúncio Proof em que Kylie Minogue monta um “touro de rodeio”. A mulher toma a iniciativa, age e mostra-se pronta a continuar a agir e a segurar as rédeas.

Marca: Agent Provocateur. Título: Proof. Agência: Cdp Travissully. Reino Unido, Janeiro 2002.

Neste tipo de anúncios, a passividade pende para o lado masculino: o homem surge intermitente, secundário, suspenso, de cócoras, a jeito para uma excitante vergastada (anúncio Silvia Demitrova). A cavalo ou a pé, com ou sem chicote, a mulher liberta-se, em todos os sentidos e em todas as orientações sexuais, incluindo a homossexualidade. Como é apregoado no respectivo site, “a Lingerie Agent Provocateur é uma gama de criações (…) destinada a intensificar os prazeres da vida e desbloquear os seus desejos mais íntimos”(http://www.agentprovocateur.com/lingerie.html).

Marca: Agent Provocateur. Título: Silvia Demitrova. Sem país, Outubro 2011.

Pode-se contra-argumentar que estamos perante um caso muito particular. A Agent Provocateur é uma marca que foi criada em 1994 por Joseph Corré e Serena Rees. Ora, Joseph Corré é filho de Viviane Westwood, reputada estilista, e Malcom Mclaren, empresário da banda Sex Pistols, ambos pioneiros do movimento punk. Uma conjugação, extraordinária, de sensibilidade e irreverência. Mas, de facto, não se trata de um caso isolado confinado à Agent Provocateur. Nem sequer ao segmento da lingerie. O fenómeno abrange outros domínios… Até o podemos surpreender num anúncio de sensibilização dedicado à promoção do vegeterianismo (Veggie Love)!

Anunciante: PETA. Título: Veggie Love. Agência: Peta People For The Ethical Treatment of Animals. Direcção: Chris Hooper. EUA, Março 2009.

Elas cavalgam como amazonas, libertam os desejos como sereias e mordem como vampiros (anúncio Fleurs du Mal)! Em suma, uma subversão dos princípios da dominação masculina (Bourdieu, 1998). Enfim, uma coisa é um anúncio, outra a realidade que o circunda. O anúncio Proof foi, por exemplo, proibido em vários países, tornando-se, paralelamente, um sucesso viral. Nem tudo o que luz é tolerado pela “sociedade oficial”.

Marca: Agent Provocateur. Título: Fleurs du Mal. Agência : Epoch Films. Direcção: Justin Anderson. França, Outubro 2011.

Bourdieu, Pierre (1998), La domination masculine, Paris, Ed. du Seuil.

Goffman, Erving (1977), « La ritualisation de la feminité », Actes de la recherche en sciences sociales, Vol.  14, pp. 34-50

Mota-Ribeiro, Silvana (2005), Retratos de mulher, Porto, Campo das Letras.

Até os símbolos perdem as penas

O anúncio “The Hawk of Achill” conta uma história: a lenda irlandesa do Falcão de Achill, ave ancestral que voava entre este e outros mundos. Graças ao generoso whiskey Jameson, ficamos a saber qual foi o seu trágico fim: cozido e assado numa travessa. Na publicidade, como no cinema e nos videojogos, o épico, ou a sua paródia, continua a marcar boa presença. Este anúncio brinda-nos com uma história bem (re)contada, com excelente imagem, assinada por Noam Murro.

Marca: Jameson. Título: The Hawk of Achill. Agência: Biscuit Filmworks. Direcção: Noam Murro. EUA, Outubro 2011.

O cúmulo dos testes

Este anúncio da Lenovo é uma paródia de um teste, uma hipérbole da razão argumentativa. Para aferir a rapidez de início de um portátil, nada mais apropriado do que içá-lo às alturas da estratosfera e deixá-lo cair para verificar se o pára-quedas incorporado abre ou não antes da colisão com o solo. Engenhoso, lógico e convincente. Não restam dúvidas: o pára-quedas é bom!

Marca: Lenovo. Título: Boot or bust. Agência: Mckinney. Direcção: Sam Stephens e John Budion. EUA, Julho 2011.

Amor em tempo de risco

Ainda há quem diga que não se deve brincar com coisas sérias!…

Anunciante: Aides, Anti-Sida. Título: The Vibrators. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Wilfrid Brimo. Música: The Vibrators, “Baby, baby”. França, 2005. Leão de Ouro em Cannes.

A pele e a máscara

O modelo canadiano Rick Genest, conhecido como Zombie Boy, tem quase todo o corpo tatuado. Quem viu o vídeo “Born this way”, de Lady Gaga, não o esquece. No anúncio “Zombie Boy”, aparece, estranhamente, de tronco nu e sem tatuagens. Removidas ou encobertas? Com uma esponja e o removedor de maquilhagem Dermablend, começa a esfregar o peito pondo a nu os desenhos escondidos. Prossegue com o rosto, revelando, finalmente, a sua identidade. Este anúncio aproxima-se muito de uma performance. Contanto compreensível no caso de um cosmético, há cada vez mais anúncios versando sobre a imagem e a plasticidade da identidade. O anúncio contempla uma pequena passagem alusiva ao respectivo making of. Penso que não basta. Vale a pena espreitar “behind the scenes”.

Marca: Dermablend. Título: Go Behind the Cover. EUA, Outubro 2011.