Laços electrónicos
Este anúncio da Samsung acompanha a tendência para a multiplicação de sequências desencontradas sem costura narrativa. As imagens sucedem-se sem encadeamento. Mais ou menos discreto, apenas o Samsung Galaxy SII smart phone estabelece alguma ligação. Uma voz percorre todo o anúncio. À semelhança das imagens, envolve menos a razão e mais a sensação, o sentimento e a emoção. A voz é música para o cérebro. Como diria Michel Maffesoli, não se trata de uma demonstração, mas de uma “monstração”. Este anúncio é um exemplo de um coq-à-l’âne bem elaborado. É desconexo mas logra o efeito desejado: a empatia com o produto.
Marca: Samsung. Título: The way we’re wired. Agência: Leo Burnett Chicago. Direcção: Nicolas Caicoya. EUA, Outubro 2011.
Já agora, a voz, a “música para o cérebro”, canta o seguinte:
“Nobody ever set their sights on second place. Who among us aspires to be almost remembered. There’s a reason there are no giant foam fingers that say, “You’re number three!”. No one wants to tell an average joke, make an underwhelming entrance, go out with a whimper. No one ever stood in front of the mirror with a hairbrush pretending to be the tambourine player. And there are definitely more kids dressed as Batman than Robin. We aspire. So when we built our new Android phone we built it to be the best and the brightest. Faster. Better. With a screen every other phone has a poster of. ‘Cause we’re Samsung. And that’s just the way we’re wired.”
Monólogo com o alter ego
O encontro com o alter ego… Vejam bem do que se foram lembrar os catalães! Serão clones? Clones não são certamente. Clones é a especialidade de S. Bento. Sim! Não! O antigo, aquele que expulsava os clones à chapada… Assim, frente a frente, a sós comigo mesmo, um sonho! Impossível? Nem sequer é preciso um clone. Tão fragmentados andamos, à deriva, num espaço tempo mais que comprimido. Basta um acaso, uma fractalidade, e eis que nadamos juntos, sem grandes narrativas, no meio de tanta liquidez, eu e o meu alter ego. E observamo-nos, e tocamo-nos, e puxamo-nos pelo nariz, e fazemos um do outro um brinquedo. E com um brinquedo faz-se quase tudo. Absurdo? Não, hiper-moderno, s.f.f. O absurdo, lembro-me bem dele. Conheci-o mal gatinhava. Ainda não era assim. Deu-lhe para dar aulas. Era tão interessante!… Era tal e qual não sei quem.
A um discurso como este chama-se um coq-à-l’âne: um discurso que não pára de saltar de assunto sem dizer nada de jeito.
Anunciante: Festival Internacional de Cinema de Catalunya/Sitges 2011. Título: Alter ego. Agência: China. Direcção: Alex Rodríguez. Espanha, Outubro 2011.
Culinária desportiva
A culinária está na moda. Há quem diga que o tribalismo também. E o desporto, nem se fala! Misturando-os, temos estes biscoitos aguerridos.
Anunciante: Baking Industry Association of New Zealand. Título: Gingerbread Haka. Agência: Blackwood Communications Group (Auckland). Direcção: Karl Butler. Nova Zelândia, 2007.
A mulher, o homem e o objecto
A figura da mulher centrada nos seus dotes corporais parece em vias de desaparecimento nos anúncios publicitários. Esvazia-se, assim, uma relação pavloviana que remonta, pelo menos, às origens da reprodução técnica da imagem. Esvaziamento por desgaste, mas também por censura, como é o caso da campanha brasileira em curso, “Hope: lessons”, com a modelo Gisele Bündchen.
Em contrapartida, o homem surge cada vez mais na publicidade a exibir os seus atributos corporais. Os anúncios com homens objecto são tantos que se torna difícil seleccionar exemplos. Assinale-se, como quem murmura, as marcas Nespresso e Axe. Mas o lado predador masculino não desaparece, apenas se dobra: o homem tornou-se num caçador caçado. Os homens atraentes dos anúncios Axe resumem-se a presas expostas a predadoras persistentes, sejam elas anjos ou demónios. Esta caricatura do homem não é exclusiva do ecrã, multiplica-se na experiência quotidiana onde se alteraram as regras de conveniência, os padrões estéticos, as apetências dos consumidores e as relações de género. Acresce que os movimentos masculinistas, sem lustro, nem eficácia, acabam por descuidar a denúncia dos abusos (da imagem do homem) às altas autoridades da publicidade. Fazem mal! Porque proibir é uma forma de dissuadir.
Focalizar o olhar na mulher objecto e no homem objecto comporta o risco de se passar ao lado da realidade emergente. Para além da crescente eufemização, o homem objecto e a mulher objecto têm vindo a ser substituídos por objectos “humanos”. Os homem objecto rivaliza com os objectos humanizados, que, à semelhança da mercadoria de Karl Marx, rodopiam incorporando propriedades humanas. São agora os objectos que, de algum modo, nos fazem salivar. Neste contexto, o conceito de reificação de Karl Marx e Georg Lukacs nunca foi tão actual e tão esquecido.
Estes três anúncios inserem-se neste deslize do humano objecto para o objecto humano. O anúncio da Perrier foi produzido, e logo proibido, em 1976. É um clássico da publicidade que mostra que o fenómeno tem os seus pergaminhos. Os restantes, “Toy Boy” (1999) e “Contrexperience” (2011) , ilustram o nível de refinamento, e de projecção, associado ao “sex appeal do inorgânico” (Mario Perniola). Nos três casos, a mulher toma a iniciativa.
Marca: Perrier. Título: Bouteille. Agência: Langelaan & Cerf. Direcção: Bernard Lemoine. França, 1976.
Marca: Hyundai. Título: Toy Boy. Agência: Leo Burnett. Direcção: Jitzmark/Ericstam. Suécia, 1999.
Marca: Contrex. Título: Contrexperience. Agência: Marcel Paris. França, Outubro 2011.
O pitosga
Com o humor característico da Specsavers, O anúncio “sauna” assenta numa delirante confusão de realidades. Entre vapores e legumes, reconhece-se o jeito inconfundível do pitosga mais desastrado da história da animação: Mr. Magoo, que também vale a pena relembrar.
Anunciante: Specsavers. Título: Sauna. Agência: Specsavers Creative. Direcção: Daniel Kleinman. EUA, Outubro 2011.
Crónica de um País Depenado
Depois de tanto prenúncio e tanto sofisma, Portugal acorda trágico. Não é uma mera reincidência da tragédia do fado ou da tragédia sebastiânica, trata-se de uma tragédia da acção, que nos faz e desfaz todos os dias. Não há, agora, guitarra ou nevoeiro que nos valha. Nem Castela ou Inglaterra que nos indigne. Cumpre-nos escolher sem chaves, apostar convictos numa travessia incerta. Não somos heróis, nem cretinos, transportamos apenas, à imagem do Zé Povinho, um peso que nos verga sem promessa de alívio. Mas, está escrito, a nossa alma não é pequena. Portugal é, sem dúvida, um país depenado, onde em cada esquina encontramos um Pedro Só (ver trailer e canção) dominado por “pequenos deuses caseiros”. Mesmo assim, indo além da “Cantilena” de Francisco Fanhais, conseguiremos cantar sem bico e voar sem asas, porque somos herdeiros da noite!
Trailer do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa (1972); canção homónima de Manuel Freire.
Francisco Fanhais, Cantilena, 1969.
As bolhas do jacuzzi
A descoberta do jacuzzi omnisensorial ou o prenúncio do pós-humano.
Anunciante: Luftal. Título: Jacuzzi. Agência: Draftfcb, Mexico City. México, 2010.
A evidência do inacreditável
Não é um anúncio, mas um apanhado. Erving Goffman gostava deste tipo de situações, ao ponto de as provocar. Revelam a natureza dos actores e da interacção social. Neste apanhado, as pessoas vêem coisas (espíritos) em que não acreditam. Mas, quiçá mais importante, colaboram em situações em que não acreditam.
