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Pós-modernidade avançada

Meow Wolf. 2021.

Tudo no anúncio Get Out And See The Worlds, da Meow Wolf (https://meowwolf.com/), é grande. Grande a Meow Wolf, “uma empresa americana de artes e entretenimento que cria instalações de arte imersivas em grande escala, bem como produz conteúdo de streaming, vídeos musicais e festivais de arte e música” (https://en.wikipedia.org/wiki/Meow_Wolf); grande a agência de publicidade, a Wieden+Kennedy, uma das melhores do planeta; a produtora Biscuit Filmworks; e o próprio anúncio, dois minutos e meio de imaginação e efeitos especiais. Anuncia-se a inauguração de um gigantesco “parque temático” em Denver, a Convergence Station, com resmas de km2, cenários, artistas, performances, mundos paralelos, alta tecnologia, imersão e emoção. Lembra-me o comboio fantasma da minha infância. Estimo o anúncio e o projeto tão interessantes que, caso regresse às aulas, que penso passa-lo aos alunos como exemplo de recurso à tecnologia, ao fantástico e ao grotesco na era da pós-modernidade avançada.

Marca: Meow Wolf. Título: Get Out And See The Worlds. Agência: W+K PortlandECD. Estados-Unidos, setembro 2021.

Demolidor

Van Gogh, Starry Night. 1889.

Este sábado recuperei da estante o álbum Kaputt, dos Destroyer, um grupo canadiano, discreto, ativo desde 1995. Publicou 13 álbuns, a revisitar ou descobrir. Uma das suas principais caraterísticas é, porventura, a sua originalidade assentar num nada de incaraterístico, de uniformidade.

Idiossincráticos, os Destroyer saltam de estilo de disco para disco e de faixa para faixa. Lembram, entre outros, James Taylor, Serge Gainsbourg ou Devendra Banhart. Em alguns casos, pode-se falar de intertextualidade. Nas canções Sky’s Grey e Bay of Pigs, dos álbuns Ken (2017) e Kapput (2011), ecoa, por exemplo, a sombra de Roger Waters.

Destroyer. Sky’s Grey. Ken. 2017. Ao vivo no estúdio KEXP em 2018.
Destroyer. Bay of Pigs. Ken. 2011.

Fanny: Eva Fora Do Paraíso

“As identidades não são necessariamente distintas. Por vezes, misturam-se umas com às outras. Por vezes podem mesmo ser partilhadas.” (Mary E. Pearson. Fox Forever. 2013). Se gostam, partilhem! Quando partilhamos somos mais.

Acarinho a ilusão de que o blogue Tendências do Imaginário persegue uma vocação universal. Sonha pecar por excesso de inclusão. Empenha-se por ser aberto e plural, numa travessia de mundos e num desconcerto de identidades. Pretende aproximar-se, dialógico e polifónico (Mikhail Bakhtin), heterocêntrico (Jean Piaget), de uma alma acolhedora. Algumas das máscaras que incorpora, num desfile de avatares, são descendentes de Eva. Namora o feminino. Atreve-se a (in)vestir-se mulher. Depois do artigo dedicado a Fiona Apple, seguem as Fanny (), uma das primeiras girl bands (all female), norte-americana de origem filipina, a alcançar no início dos anos setenta sucesso público e comercial.

Maio 68. Slogan Soyez réalistes, demandez l’impossible.

É certo que esta desejada “vocação universal” não é alcançável na íntegra. Mas a realidade oferece-se paradoxal. A porfia do impossível pode revelar-se o melhor caminho para lograr, senão potencializar, o possível. Como diria Ernst Bloch (Thomas Müntzer. Teólogo da Revolução, 1ª ed. 1920), a história da humanidade está repleta de impossíveis realizados e de possíveis não realizados. Lutamos pela igualdade conscientes de que a igualdade plena é uma utopia. Esta concepção é semelhante a uma advertência atribuível à “filosofia do não”: não é por uma ideia estar errada que ela que ela está condenada a nos desviar da verdade. “Eu sou o limite das minhas ilusões perdidas” (Gaston Bachelard, Critique préliminaire du concept de frontière épistémologique.1ª ed. 1936. In Études 2, 2002). Nesta linha, Gaston Bachelard observa, a propósito da física quântica, que pouco subsiste do esquema do átomo proposto por Niels Bohr, um dos contributos mais decisivos para o desenvolvimento da teoria do átomo: “O esquema do átomo proposto por Bohr, um quarto de séculos atrás, agiu nesse sentido como uma imagem correta, mas não resta mais nada.” (A filosofia do não. 1ª ed. 1940).

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.

Fanny – Ain’t that peculiar. Fanny Hill. 1972. Ao vivo em 1972.
Rock Group Fanny on French TV

Paris. Yves Montand.

Casamento de Yves Montand e Simone Signoret, no dia 22 de dezembro de 1951, com Jacques Prévert como testemunha.

Vivi seis anos em Paris. Parte da minha juventude. Ainda me sinto parisiense. Admiro Yves Montand, ator e cantor francês memorável. Selecionei três canções. No vídeo da primeira, C’est si bon, aparece uma fotografia com Marilyn Monroe. Tiveram um caso, por ocasião do filme Vamo-nos amar (1960), de George Cukor. Arthur Miller acabou por se separar de Marilyn Monroe. A segunda canção é um hino a Paris. A terceira, Les feuilles mortes, um poema de Jacques Prévert, é uma canção especial.

Yves Montand. C’est si bon. Anos cinquenta.
Yves Montand. A Paris. 1952. Ao vivo no Olympia. 1981.
Yves Montand. Les feuilles mortes. 1949 ou 1950. Ao vivo no Olympia. 1981.

A pátria dos super-heróis

Capitão América

O Egipto é terra de faraós; a China, de imperadores; o Japão, de samurais; a Grécia, de deuses; a Escandinávia, de vikings; Portugal, de descobridores. E os Estados-Unidos? Os Estados-Unidos são terra de super-heróis. Da Marvel, de Hollywood, do desporto ou de outro domínio que se proporcione. Os Estados-Unidos são um manancial de super-heróis, manancial que transborda para o mundo. A publicidade da Nike destaca-se como uma forja internacional de super-heróis. O presente anúncio, da Nike China, consiste numa homenagem a Kobe, uma estrela do basquetebol norte-americano, falecido num acidente de helicóptero.

Marca: Nike. Título: Dear Kobe. Agência: Wieden + Kennedy (Shangaï). Direcção: François Rousselet. China, Setembro 2020.

Ternura em tempos de epidemia

André Bourvil.

Bourvil é um ator de cinema e de teatro de muito grata memória em França. A exemplo de Fernandel, Louis de Funès ou Jacques Tati. Lembra Raúl Solnado. Além de ator, Bourvil canta. La Tendresse é um marco da canção francesa (vídeo 1). Inspirou muitas reinterpretações. Nenhuma ofuscou o original. Algumas merecem menção. É o caso da Symphonie Confinée, uma “banda” composta por 45 elementos confinados, que interpreta La Tendresse online (vídeo 2). “O vídeo é dedicado às pessoas afetadas, de perto ou de longe, pela pandemia de Covid-19”.

André Bourvil. La Tendresse. 1963.
Symphonie Confinée (Valentin Vander). La Tendresse Symphonie Confinée. Março 2020.

Serge Lama. A quem não ama o suficiente

Le Petit Prince

A França é o meu segundo País. Proporcionou-se assim. Aprendi a gostar da “chanson française”: La vie en rose, Les feuilles mortes, Ne me quitte pas… A “canção francesa” distingue-se pela melodia e, sobretudo, pela qualidade poética. Quando as letras não são de Verlaine, Aragon ou Prévert, são os próprios cantores poetas (Léo Ferré, Georges Brassens, Serge Gainsbourg). Serge Lama pertence a esta tradição. Escolhi três canções: Je voudrais tant que tu sois là (1977); Les ballons rouges (1967); e Je suis malade (1973). A primeira é interpretada pelo próprio Serge Lama. Nas seguintes optei pelas versões de Daniel Guichard e Lara Fabian. Sem desprimor para Serge Lama, Daniel Guichard e Lara Fabian emprestam-lhes mais raiva e dor.

Serge Lama. Je voudrais tant que tu sois là. 1977. Ao vivo. Acompanhado pela Orchestre Symphonique de Québec. 1997.
Daniel Guichard. Les ballons rouges (original de Serge Lama, 1967). Ao vivo. Théâtre Sébastopol (Lille). 2015.
Lara Fabian. Je suis malade (original de Serge Lama, 1973). Ao vivo em 1999.

O piano, as mãos e o resto.

Khatia Buniatishvili.

As palavras pedem férias. Enquanto não as leva o vento, não nos dão tréguas. As palavras são a coisa humana mais infestante.

Khatia Buniatishvili é uma pianista célebre, famosa pelas mãos e pelos decotes. Seguem três interpretações: Rachmaninov, Schubert e Brahms.

Khatia Buniatishvili. Rachmaninov – Piano Concerto No.2 (Adagio sostenuto) Orchestre Un Violon sur le sable. Direction Jérôme Pillement. 2017.
Khatia Buniatishvili. Schubert: Impromptu No. 3 in G-Flat Major, Op. 90, D. 899. 2019.
Khatia Buniatishvili, Yuja Wang. Brahms, Hungarian Dance No. 1. 2011.

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.

Sem asas. A paixão do risco

Comecei a escrever esta obra de um modo intermitente a partir de 1985; estava então abalado com a importância crescente das condutas de risco e a mitologia emergente da aventura nas sociedades ocidentais que, no entanto, não paravam de valorizar a segurança. Senti, depressa, a necessidade de compreender a significação destas acções dispersas cujo denominador comum era uma relação imaginária ou real com a morte. Jogar por um instante a sua segurança ou a sua vida, com o risco de a perder, para ganhar, enfim, a legitimidade da sua presença no mundo ou, simplesmente, arrancar da força do instante o sentimento de existir, logo sentir-se fisicamente envolvido, seguro da sua identidade. Esta situação lembrava os anos sessenta, período da grande vaga proveniente dos Estados-Unidos, início de uma crise da juventude, que se exprimia na demanda dos “caminhos de Catmandu” ou na droga, no empenhamento político nas posições extremas e se resolvia, por vezes, com a morte. Assim foi a minha geração. Vi desaparecer amigos. Eu próprio parti para o Brasil pensando nunca mais regressar a França. Resta-me, hoje, o sentimento de ser um “sobrevivente”, uma certa culpabilidade de estar ainda aqui e de ter escapado, sem sempre o desejar, às armadilhas que se erguiam na minha estrada. Não esqueço alguns rostos. E a perturbação de outrora regressa, às vezes, para me assombrar e recordar o preço da existência presente. A consciência da precariedade e da incompletude é uma garantia do fervor de quem teve a sorte de ter regressado da viagem” (David Le Breton, Passions du risque. Paris, Éditions Métailié. 1991, p. 9. Minha tradução).

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Clarins. The ad you can feel. Rússia, Maio 2020.

O parkour nos rebordos dos tectos das cidades assume-se como uma das paixões actuais do risco. A pós-produção do anúncio russo The ad that you can feel, da Clarins, é soberba. Mostrei o anúncio ao meu rapaz mais novo.

  • Já vi essas imagens há muito tempo.
  • Como? Saíram há três dias.

Mostra-me um vídeo datado de 2017. Não há razão para fabricar o extraordinário quando este está disponível. Adquire-se! O resultado é um desfile de arrepios.

Oleg Cricket Remix (Extreme Parkour). Scoreback. Rússia, 2017 (?)

O David Le Breton teve a gentileza de participar no seminário “o trágico e grotesco no mundo contemporâneo”, que organizei, em 2005, no Mosteiro de Tibães. No mesmo ano, nas minhas provas de agregação, um membro do júri criticou a escrita: “tudo parece simples, até as soluções parecem fáceis”. Sou um indigente da complicação. O Tendências do Imaginário enferma do mesmo vício: tudo aparece tão simples que até parece simples. A alta sabedoria acredita que reunir informação e apresentá-la com clareza é falta de profundidade ou pobreza de espírito. O conhecimento quer-se como um mistério medieval: reservado e aflitivo.