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Perdão

Presépio, de Orlando Correia.

Foram dias, foram anos / Foi a sorte apodrecida (Manuel Freire. “Pedro Só”. 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco). Ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/.

Apareceu-me, de repente, um anjo que mais parecia o boneco da Michelin. Perguntou:

– Como vai a tua alma?

– A alma vai tão pequena que não vale a pena. Por amor ao próximo, convivo pouco, cada vez menos. Deslizo pelo mundo num tapete rolante. Não olho para a esquerda, não olho para a direita, pouco enxergo. Não cumpro o Pai Nosso. Tenho o motor do carinho e da tolerância encharcado. Cravou-se uma espinha na garganta da vida. Para cúmulo dos infernos, não desgosto da minha alma mesquinha! Um herói embalsamado. Que faço, meu anjo?

– Pede perdão!

Camilo Sesto. Perdoname. Donde Estes, Con Quien Estes. 1980. Ao vivo com Marta Sánchez.

A sociedade de sucesso e a flor do lixo

Sucesso, sucesso, sucesso! Estamos condenados ao sucesso. Ser mal sucedido é uma danação. Somos, provavelmente, a sociedade mais fisgada no sucesso. Pelo menos, no micromundo a que pertenço. Próximas só as sociedades de salvação, como a medieval e a moderna. A salvação pode ser encarada como uma espécie de sucesso eterno. Mas, já nesse tempo, o sucesso era decisivo: representava um indício de salvação (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905).

Nadamos, por palavras, atos e omissões, em lixo. O sucesso e o lixo não são opostos, mas complementares: quanto mais sucesso mais lixo, quanto mais lixo mais sucesso. A nossa sociedade é um monumento ao lixo. Mas não tem o monopólio. O homem medieval, e moderno, usava socos em que enfiava o calçado para o proteger da porcaria das ruas (ver Dois dedos acima da lama: https://tendimag.com/2016/09/30/dois-dedos-acima-da-lama/). O plástico é a nossa perdição e a nossa obsessão. Convive, contudo, com outras ameaças, agora, em segundo plano: os resíduos radioativos, as marés negras, as descargas tóxicas…

O anúncio Make it real, da Square Space, transforma o lixo em arte, e o Ferrão, o monstro resmungão da Rua Sésamo, em artista. Graças a uma fotografia e à Internet, o Ferrão torna-se, num ápice, uma super estrela contrafeita. Santa Senhorinha precisou de mais tempo para calar as rãs. Em suma, uma página profissional na Internet logra prodígios. É esse, precisamente, o negócio da Square Space: disponibilizar páginas de sucesso.

Marca: Squarespace. Título: Make it real / Oscar the Grouch. Estados Unidos, Novembro 2019.

O tema da “arte do lixo” não é uma novidade (A Arte e o Lixo: https://tendimag.com/2013/09/15/7499/). Atente-se, por exemplo, nas esculturas com desperdícios de plástico do português, de renome internacional, Bordalo II (ver galeria). A expressão serve a gregos e a troianos. Para os detractores, denuncia a degradação a que chegou a arte. Para os adeptos, significa a autonomia da arte, contanto relativa e parcial. Quando se faz arte com lixo visa-se a forma e sublima-se o conteúdo. Por outro lado, o recurso ao lixo sublinha que a arte está para além da moral, da religião, da política, da economia e, como diria Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), do gosto bárbaro. A autonomia ergue-se como um baluarte da arte e do artista.

Ontem, um anúncio com o E.T., hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?

Das raízes às formas

Fernando Nobre. Pormenor de escultura. 2009.

Tenho um amigo escultor: o Fernando Nobre. Fui orientador da sua Tese de mestrado em Escultura (Das raízes às formas; 2009) pela Faculdade de Belas Artes, da Universidade do Porto. Desafiou-me, recentemente, para escrever o texto do catálogo da Exposição que inaugurou em Agosto de 2019 em Miranda. Seguem algumas fotografias de obras incluídas, em 2009, na tese de escultura, bem como o texto para o catálogo de 2019.

Berço de pedras (Miguel Torga)

Albertino Gonçalves

Pedra, ferro, madeira e terra. Sagrado, energia, sabedoria e vida. Estas são as fontes e a substância da escultura de Fenando Nobre. Confessam as suas origens: o “reino maravilhoso”, a freguesia de Sendim e a família. Touros, máscaras, troncos… Combinações felizes de materiais usualmente desencontrados: pás, ferraduras, pregos e relhas assentes em granito; aros de pipas abraçados por peças de madeira. Lembram pessoas e lugares resgatados pela magia do cinzel. Trata-se de uma obra árdua e interminável, apanágio de quem está sempre perto do que lhe escapa. Entrelaçam-se as saudades das raízes, a ansiedade urbana e a travessia pessoal. A escultura de Fernando Nobre ultrapassa a mera conceptualização. Aposta, religiosamente, no trabalho físico de apropriação e metamorfose dos materiais. Nada é linear. Tudo é dobra e rugosidade: gestos, batidas, sulcos, cortes, perfurações… Mente, corpo e identidade. É obra original, pessoal, orgulhosamente sofrida e acabada. Que contam as suas esculturas? Que testemunham? Trás-os-Montes, Miranda do Douro, a agricultura, o artesanato, a infância… O afastamento, o desassossego e a inquietação: o Porto tão perto e as raízes tão longe! As obras são, contudo, universais. Quem as observa confronta-se com a eterna interpelação humana. Carnaval à parte, as máscaras somos nós, os touros representam a potência e a violência e cada rasgo lavrado na escultura, um diálogo com o mundo.

Todos temos alguma vocação. Por chamamento ou por dedicação. Fernando Nobre herdou a vocação de artista. O pai esculpia pequenas peças de madeira. Fernando Nobre seguiu-lhe os passos. A inspiração paterna manifesta-se tão marcante que o próprio irmão abraçou igual destino: transformar a matéria em arte. Pressente-se na pedra, na madeira e no ferro o toque do menino a acompanhar as mãos do pai. Simplicidade, franqueza, vontade e dignidade.

A vida avança graças a conjugações improváveis: o altar de pedra, a espada de ferro, a tábua do conhecimento e o húmus da terra; o sagrado, a energia, a sabedoria e a fecundidade, que se disputam e confluem na escultura de Fernando Nobre. Obras abertas, humanas, em que o coração e a razão dão as mãos. A exposição de Fernando Nobre conduz-nos para além do Marão. Para além das fronteiras. Transitamos, deslumbrados, para o outro lado de nós mesmos.

French Kiss: A minha língua, a tua língua

Auguste Rodin. O Beijo. 1882.

Num texto português de meia dúzia de linhas, surgem as palavras: smart city, start up, ranking, call e paper. Todas as gerações têm direito às suas palavras-chave. Smart city, start up, ranking, call e paper são chavões apreciativos. Parece que o português não tem palavras para os fenómenos do presente com futuro reluzente. Caem bem palavras de outros horizontes, outras peritagens e outros poderes.
Smart city. Não é o mesmo que “cidade inteligente”. É reduzir o valor (no sentido de Saussure) da expressão inglesa que significa, também, esperteza, requinte, capacidade… Cidade esperta? O melhor é seguir viagem.
Start up. Por que não “empresa emergente”? Perdia-se a ligação à bolha tecnológica. E start up vibra com ressonâncias ascendentes: wake up; make up; pin up
Ranking? Ordenação, classificação, hierarquia, posição, nível… O português tem demasiadas palavras para dizer uma operação tão simples. Se antes pecava por defeito, agora peca por excesso.
Call. A palavra inglesa possui uma aura religiosa mais ampla e acentuada do que a palavra portuguesa “chamada”. Convoca a vocação e o chamamento, ambos pressupostos nos encontros científicos. Por sua vez, convite é, porventura, demasiado cortês.
Paper. Nada a dizer. Apenas a dissonância introduzida pelos papers electrónicos. Abençoadas as palavras que têm a sina de dizer mais do que aquilo que dizem.

Gustav Klimt. O Beijo. Detalhe. 1907-1908.

Traduzir palavras do inglês para o português é tarefa difícil. O inverso, também. Talvez o French Kiss possa ajudar.

Smart city, start up, ranking, call e paper são palavras que assumem o sentido que lhes vamos concedendo. São smart words. Smart, mesmo Smart, é o carro. Very Smart!

Assim como o Smart tem mais lugares onde estacionar, a tua língua é melhor que a minha. O mesmo texto escrito em duas línguas diferentes não tem o mesmo alcance, melhor, o mesmo impacto. A língua é poder, bem como enpowerment. Palavra de blogger.

Ocasionalmente, apetece pintar meias verdades: o fraco tende a agarrar-se ao forte.

Marca: Smart. Título : Perfect City. Agência : Contrapunto. Direcção: Hugo Menduiña. Espanha, 2016.

Sanfona

Organistrum do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela. c. século XII. Espanha

Se bem me lembro, quando era criança, na minha terra, havia pessoas que tocavam sanfona. É um instrumento musical medieval com uma sonoridade própria. O meu rapaz mais novo mostrou-me esta interpretação de sanfona. Dá para ouvir? Sanfoniza-te!

Andrey Vinogradov. Aequilibrium. Hurdy-Gurdy Aequilibrium. 2018. Medieval Tune. Hurdy-Gurdy With Organ.

Água velada: o fascismo e a fonte

Trieste ( Italy ). Fontana dei Quattro Continenti ( 1750 ). Allegory of river Nile.

A Fonte dos Quatro Continentes (1751-1754), em Trieste, obra do escultor Giovanni Battista Mazzoleni, lembra a Fonte dos Quatro Rios (1648-1651), de Gian Lorenzo Bernini, na Praça Navona, em Roma. Tem um pormenor e uma história interessantes.

A escultura associada ao continente africano está com o rosto velado. Por se desconhecer, à época, a nascente do rio Nilo (apenas no século XIX se viria a descobrir a nascente do Nilo no lago Vitória). Sábia sabedoria! Quem desconhece a origem anda com o rosto tapado. Quando votamos também devíamos portar um véu espesso: sabemos, eventualmente, a origem, mas ignoramos o destino.

Fonte dos Quatro Continentes. 1751-1754. Trieste. Itália.

Com o tempo, a fonte foi votada ao abandono. Em 1925, o Conselho Comunal manifestou a intenção de a desmontar. O que virá a suceder em Setembro de 1938, “in occasione del Comizio che Benito Mussolini avrebbe condotto annunciando la promulgazione delle leggi razziali” (https://artplace.io/discover/2113/fontana+dei+quattro+continenti). Foi reconstruída em 1970 noutra posição. Regressou ao lugar de origem no ano 2000.

As pedras falam! A água canta.

Claude Debussy : Estampe 3 (Jardins sous la pluie) por Paul Montag, excerto do concerto Génération Jeunes Interprètes, Maison de la Radio, 14 de Janeiro de 2017.

A harpa e a gaita de fole

A harpa é um instrumento musical antigo. Na Suméria, no início do segundo milénio antes de Cristo, já se tocava harpa (Figura 1). No imaginário medieval, a harpa era um instrumento celestial, tocado pelos anjos (Figura 2) e pelo rei David (Figura 3), muitas vezes pintado a afinar a harpa como quem harmoniza o mundo (Figura 4). Mas o diabo toca tudo, toca todos os instrumentos, incluindo a harpa. Quando não ele, uma criatura que lhe seja próxima. Por exemplo, o burro (Ver O Burro e Harpa: https://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). A própria harpa pode ser símbolo do mal, como na Mesa dos Pecados Capitais (1505-1510) ou no inferno do Jardim das Delícias Terrenas (1503-1515), ambos de Hieronymus Bosch (Figura 5 e 6). A iluminura do saltério de St. Rémy esboça uma topografia da música: nas alturas, destaca-se a harpa, nas baixezas, o tambor (Figura 7). Mas o instrumento mais característico do diabo é a gaita de fole. Atente-se na sereia de Beauvais (Figura 8), na dança da morte de Pinzolo (9) ou no demónio que transforma a cabeça de um monge numa gaita de fole (Figura 10).

Xavier de Maistre é um harpista francês. Segue a sua interpretação de Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz.

Dediquei o dia a este artigo. Não parece. Mas ainda bem! Não pensei em mais nada.

Xavier de Maistre. Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz (1892).

Paródia pornográfica

Figura 1. Pornhub. Baterade. 2019

O anúncio mais recente da Pornhub, uma empresa multinacional de pornografia, é, assumidamente, uma paródia do anúncio Hilltop da Coca-Cola (1971). Digo paródia para não pensar implante de criatividade alheia. Mudam-se as garrafas e acrescenta-se um ou outro rosto com cio. Até a música é a mesma. Ressalve-se o plano final, que transforma um coro numa colina numa espécie de Land Art pornográfica (ver Figura 1 e Galeria de obras de Robert Smithson).

Marca: Pornhub. Título: Baterade. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Espanha, Abril 2019.
Marca: Coca-Cola. Título: Hilltop. Agência: McCann Erickson. Estados Unidos, 1971.

Galeria: Robert Smithson. Obras de Land Art.

Procissão erótica

A academia é bipolar: Excitante para quem adere ao jogo, depressiva para quem o dispensa.

Figura 1. Trois phallus portant une vulve couronnée en procession. Enseigne en plomb, fin du XIVe siècle, Paris, Musée National du Moyen Âge.

Deus existe? A morte existe? E o sexo existe? Três nós cegos do nosso entendimento dados a recalcamentos e sublimações. Existem véus que não cobrem a realidade mas toldam o olhar, como cataratas no cristalino. Por conveniência, hipocrisia, pudor. No entanto, o sexo existe! Faz parte do triângulo da nossa obsessão quotidiana: Deus, morte e sexo. Com duas faces tensas: sol e lua, diurno e nocturno, taça e gládio, carne e espírito. Como redimir a alma quando a verdade é pecadora?

O Museu de Cluny, perto da Sorbonne, possui uma peça rara e ousada: uma insígnia erótica, do século XIV ou XV, composta por três falos antropomórficos que conduzem, em procissão solene, numa espécie de andor, uma vulva coroada (Figura  1). Presa no chapéu ou na capa, presume-se que esta insígnia, ou amuleto, era utilizada em espaços e situações especiais, tais como os prostíbulos e os rituais de fertilidade. Esta escultura em chumbo é minúscula. Mas a arte e o imaginário não se medem aos palmos. Segue uma pequena reportagem.

Les incroyables trésors de l’Histoire : Les pin’s érotiques du moyen-âge. Musée de Cluny. Le Point. França, Outubro 2013.

Desigualdade nas imagens de género

Tantos pénis pintados e esculpidos e tão poucas vaginas!… Uma discriminação que remonta a tempos imemoriais. Na pré-história a representação do pénis concorre com as esculturas de Vénus (Fig 1 a 3). Até os monólitos pecam por excesso. No antigo Egipto, os jardineiros da religião viram-se gregos para podar os falos das estátuas de deuses e faraós (Fig 4 e 5). Por seu turno, no império romano, os tintinábulos pendurados à entrada das casas eram compostos por falos inconfundíveis, eventualmente, voadores (Fig 6, 7 e 8).

Que fazer? Multiplicar as imagens de vaginas? Eliminar as relativas ao pénis? Cortar e tapar o sexo das esculturas e das pinturas com uma folha de figueira? “Vestir” a nudez do Juízo Final original de Michelangelo na Capela Sistina (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/)? Ou, ao jeito medieval, enveredar pela castração (Fig 9 a 11)?

Marca: ONF (Office National du Film du Canada). Título : Dessine-moi un Pénis. Agência : Rethink (Canada). Canadá, Março 2019.

No anúncio Dessine-moi un pénis, a ONF, um organismo público canadiano de produção e distribuição de filmes, estima que semelhante discrepância de género provém da nossa ignorância acerca do clítoris. Nem sequer o sabemos desenhar.

12. A flying penis copulating with a flying vagina. Gouache Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images.

Na realidade, segundo as estatísticas, existem na população mais vaginas do que pénis. O problema reside, porventura, no imaginário. Mas deixemos as retóricas. O guache A flying penis copulating with a flying vagina (Fig 12), da Welcome Collection, sugere uma solução paritária: um pénis para uma vagina ou uma vagina para um pénis, sem prejuízo de outras localizações e sexualidades.