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À porta do inferno

Auguste Rodin. Pormenor da Porta do Inferno. 1880–1917.

Bruno Aveillan produz uma curta-metragem, Divino Inferno, dedicada à Porta do Inferno, de Auguste Rodin. Uma confluência de dois artistas do sobre-humano. Uma esteticização do sofrimento extremo e da resistência visceral. O desespero, a travessia arrepiada.

Seguem três vídeos. 1) Divino Inferno; e 2) Humans, ambos de Bruno Aveillan; e, para complemento, 3) Auguste Rodin – The Gates of Hell, um documentário do Canal Educatif à la Demande (CED).

Título: Divino Inferno [Rodin created the Gates of Hell ]. A film by Bruno Aveillan. Produced by Arte, National French Museum Guild (RMN), NOIR, Quad & Fix Studio. 2017.
Título: Humans. Directed by Bruno Aveillan. Edit by Thanh Long Bach. Music by Max Richter: Dona Nobis Pacem 2. 2019.
Auguste Rodin – The Gates of Hell. Canal Educatif à la Demande (CED). 2008.

Solidão e indiferença

Gloria Friedmann. Les Contemporains. 2007

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Gloria Friedmann. Le compteur du Temps. Dijon. 2020.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.

Anunciante: Ministère des Solidarités et de la Santé. Título: Parce qu’on rêve tous de se retrouver. Agência: MullenLowe Paris. Direção: Olivier Desmettre. França, Março 2021.
Gilbert Bécauid. L’INdifférence. 1977.

Falar com as imagens

Busto da República

Há católicos que falam com as imagens dos santos. Mais, afigura-se-lhes que estes lhes respondem. Em casa, tenho um busto da República original. Herança de meu avô. Acontece-me falar com ela. Às vezes, tento dialogar. Perdeu o cocuruto. Não tem vida fácil. Gostava muito de lhe dedicar uma canção. Mas não sei cantar. Peço a outros. Por exemplo aos The Who.

The Who. I’am Free. Tommy. 1969. Ao vivo em Kilburn, em 1977.

As imagens interpelam-nos, o busto da República interpela-nos. Num século, perdeu o cocuruto. É vulnerável. A república é vulnerável.

Washington. 06.01.2021.

Ninguém é normal.

01. Nobody is normal. 2020.

A normalidade não existe. Apenas desvios à norma. Na literatura, abundam figuras de monstros que são bons e de bons que são monstros. Por exemplo, a Bela e o Monstro, de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (1745), Quasímodo, de Victor Hugo (1831) ou Dorian Gray, de Oscar Wilde (1890). No anúncio Nobody is normal, da britânica Childline  –  NSPCC (Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças), todos são anormais por dentro e por fora.

02 Fonte de Diana de Éfeso. Tivoli. Villa d’Este

A metamorfose da figura feminina galardoada (ver figura 1) lembra, os justos que me perdoem, uma deusa grega, Ártemis, ou romana, Diana, na versão dita de Éfeso. “Bolsas” cobrem-lhe o peito (ver figuras 2 a 7). Há entendidos que alvitram seios, outros ovos ou testículos de touro. Sempre atributos de fertilidade, apanágio da “mãe natureza”. Entre as imagens de Ártemis de Éfeso, retenho a escultura no jardim da Villa D’Este, um colossal palácio maneirista construído no século XVI, em Tivoli, perto de Roma. As fontes de Villa d’Este são famosas (figuras 8 a 17). Os jatos de água provenientes das “bolsas” de Diana de Éfeso não enganam. Parecem seios, uma abundância de seios! Estes esguichos não são de ovos, nem de testículos de touro. Acode-me, que os justíssimos me perdoem, a lactação de São Bernardo (ver https://tendimag.com/2012/10/26/um-abraco-a-divindade-sao-bernardo-de-claraval/).

Anunciante: Nspcc. Título: Nobody is normal. Agência: The Gate. Direcção: Catherine Prowse. Reino Unido, Novembro 2020.

Galeria de imagens 1: Esculturas de Ártemis/Diana de Éfeso.

Galeria de imagens 2: Fontes da Villa d’Este, em Tivoli.

Etnografia da etnografia. A um professor.

Máscara. Museu Nacional de Etnologia.

Conversa fiada:
Nos anos setenta, num corredor da Sorbonne, Georges Balandier comenta:” A relação dos portugueses com a distinção social é estranha. Nem nas autoestradas aceitam ser confundidos…”
Esperei uma alusão à “doutorite”, o socalco linguístico lusitano. Mas não, contentou-se com os automóveis. Ainda me assombra o reparo de Georges Balandier. Para cúmulo, vindo de um francês… Em férias, estou confinado a fumar na varanda. Vejo os carros passar. Georges Balandier tinha alguma razão. Hoje, passou um carro espalmado vermelho com o símbolo de um cavalo. Talvez me engane, mas Portugal é uma jardim de desigualdades onde as estradas são passerelles.

Desigualdade em repouso. Moledo do Minho, 09.08.2020.

Georges Balandier (1920-2016) é um nome marcante da sociologia francesa. Foi meu professor três anos consecutivos. Um professor de respeito. Falava como escrevia, de um modo exímio. Escreveu romances. No livro Afrique Ambigüe, relata um encontro com um indígena apostado em lhe vender uma máscara. Um episódio heurístico. Quando um investigador aprende com os outros é garantido que aprenderemos com ele.

Máscara. Plataforma das Artes. Guimarães
Máscara. Plataforma das Artes. Guimarães

A presença aflitiva
Encontrava-me há alguns dias no acampamento do Monte Nimba, quando um jovem de uma aldeia vizinha veio ter comigo ao anoitecer. Exigiu ver-me em privado (…).
Disse-me em tom solene :
“Cala-te, é perigoso, repara!”
Em seguida, acrescentou:
“Trago-te Nyon Néa.”
De uma velha peça de roupa rota, embrulhada por baixo do braço, retira uma máscara aconchegada num invólucro de ráfia. Os traços convencionais, que viria a aprender a reconhecer, estavam respeitados: face longa oblonga cujas estrias paralelas marcam o contorno; olhos esticados, simplesmente recortados, como se estivessem semicerrados; boca proeminente ornamentada com dentes de alumínio. Mas era uma máscara desleixada, talhada em madeira medíocre e mole, toda besuntada com uma tinta violeta inseparável, no que me respeita, das recordações da mercearia-papelaria campestre. Apesar de respeitar as convenções, nada restava daquilo que concedia valor às formas antigas; e o artesão, na falta de tinta negra que a velha paciência sabia compor, contentou-se com esta tinta comprada a um tratante da aldeia. O objecto fazia pensar num exercício de aprendiz. Recusava-me a acreditar que pudesse albergar o suporte das forças que moravam nos modelos do passado. Parecia demasiado caricato que se pudesse aplicar a velha fórmula da transferência de potência:
Sémè yabé nyon ploki zuki éto yiké zu.
« Que a força (semè), que estava na máscara antiga, entre na nova!” (…)
Tentei interrogar o meu interlocutor. Segundo ele, tudo era conforme: sim, os sacrifícios tinham sido realizados (mas a máscara não comportava na fronte nem marcas de sangue de frango sacrificado, nem fragmentos de cola mascada pulverizados pelo oficiante); sim, a máscara tinha nome: “Aquela-que-dá-a-paz”; sim, a primeira saída pública teve lugar. Tantas afirmações suspeitas, mas quis prosseguir:

  • Quem é Nyon Méa?
  • É a mulher.
  • Mas que mulher? A mulher de quem?
  • Ah ! isso, patrão, os « pequenos » como eu não conhecem os feitos das máscaras como outrora… Talvez seja a mulher dos iniciados.
    Tivemos que ficar por aqui. O meu interlocutor tinha apenas uma preocupação: queria algum dinheiro pela sua máscara – esta obsessão prendia-se com uma história confusa de honorários a pagar a um médico-mágico. Cedi perguntando-me se, por qualquer tipo de subterfúgio, os objectos tornados feios e disponíveis a quem assim o entender não iriam impor-me uma presença aflitiva (…).
    Mal souberam da minha aquisição da horrível figura violeta (…) as pessoas da aldeia pensaram ter descoberto uma das minhas fraquezas. Tiraram dos cestos, onde guardavam as máscaras antepassadas em desuso, algumas peças para negociar. Eles delegaram-me emissários”.
    Ballandier, Georges (2008), Afrique ambiguë, Paris, Plon. Primeira edição, 1957, pp. 137 e seguintes.

A dança das máscaras

Bugiada e Mouriscada. São João de Sobrado. Valongo

Conversa parva:

No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.

As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.

Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133

Dead Can Dance. ACT II: The Invocation. Dionysus, 2018.
Dead Can Dance. Kiko. Anastasis. 2012. Imagens do filme Samsara (2011), realizado por Ron Fricke

Palavra de criança

Auguste Rodin. Le Sommeil. 1894.

É considerada uma das peças mais originais do escultor francês Auguste Rodin (1814-1917). O artista usou um busto feminino de terracota como ponto de partida e recriou-o com gesso, argila, pasta de papel, cera e pregos . O cabelo está coberto de vários tipos de cera, que lhe dão diversos tons amarelados. A pele está impregnada de pequenos pregos, dando o efeito de pigmentação.

Esta obra, executada em 1894, de um realismo impressionante, retrata uma jovem em sono profundo, numa pose que sugere ter adormecido numa meditação relaxante, típica das técnicas orientais (O Sono de Auguste Rodin: http://www.isleep.pt/sono-auguste-rodin/).

Em tempo de pandemia, a brasileira Bradesco Saúde produz vários anúncios de homenagem aos profissionais de saúde (ver “Fascinação”: https://tendimag.com/2020/05/22/cuidados-de-saude/). Em “Décadas”, as crianças idolatram uma profissão por década: 1940s, piloto de avião; 1950s, cantor de rock; 1960s, astronauta; 1970s, jogador de futebol; 1980s, piloto de corrida; 1990s, jogador de basquetebol; 2000s, bombeiro; 2010s, atleta; e 2020s, “médico ou enfermeira”. A verdade das crianças é, como se sabe, a mais verdadeira.

“Durante toda a história da humanidade, acho que sempre existiram atividades ou profissões que inspiraram as crianças em determinado momento. E é nítido que, agora, são os médicos e profissionais de saúde que têm cativado e encantado a todos pela coragem, dedicação e importância social. Acho um insight muito bacana que se materializou num lindo filme, com roteiro e execução impecáveis” (Pernil, ECD da AlmapBBDO; https://www.bradescoseguros.com.br/clientes/noticias/noticia/profissionais-de-saude-ganham-mais-uma-homenagem-bradesco-saude).

Marca: Bradesco Saúde. Título: Décadas. Agência: AlmapBBDO. Brasil, Junho 2020.

E a vida sorri!

Azeite, bacalhau, broa, alho e vinho. Para um mergulho no nevoeiro pátrio. Em Janeiro de 1986, Portugal adere à Comunidade Europeia. No mesmo ano, sai um anúncio da Olá: “Um corneto para mim, um corneto para ti. Olá! Olá! E a vida sorri”.

Escultura de máscara de teatro. Ruínas de Myra, na Turquia. © Gerhard Huber.

Este anúncio da Olá marcou as pessoas. Respira promessa, aventura, prazer, ternura e música. Um País despreocupado, apostado em desfrutar o presente. Trinta e quatro anos depois, o impacto do anúncio e da música resiste. “E a vida sorri”? Como uma máscara grega.

Marca: Olá – Corneto. Título: E a vida sorri. Portugal, 1986.
Apanhado de anúncios antigos dos gelados Olá.

Mãos de eternidade. Poética do macabro

Figura 1. Death Clasp Your Hands on the Tombstone of the Oakland Cemetery, in Iowa City

O envelhecimento agrava a dependência física, mas, demência à parte, propicia a autonomia de espírito. Dedicar-se, por exemplo, a assuntos que não interessam aos outros. O interesse alheio esmorece como critério de relevância e oportunidade. O próprio interesse pessoal pode adquirir feições estranhas. Interesses fortuitos. Durante a quarentena, o Álvaro Domingues tem-se dedicado a desenhar pássaros (ver Galeria 1). Um por dia!

No que me respeita, salto de imagem em imagem, “percorro” centenas de cemitérios no ecrã. Qual o interesse? Do Álvaro, não imagino, o meu, admito que seja nenhum. Parece emergir a idade da reflexão desinteressada Não se trata, porém, do “interesse no desinteresse”, de que fala Pierre Bourdieu. O interesse no desinteresse é duplamente interessado: pressupõe o interesse mais o seu disfarce. Distinto é o lustro da idade da reflexão desinteressada. Recordo a infância, fase da vida pautada por alguma “distância à necessidade”. As palavras cruzadas, a descoberta das diferenças e o enigma policial eram desafios quase compulsivos. Para quê? Talvez para exercício mental, como a semiótica das sepulturas. Esta autonomia requer desprendimento e indiferença face às conveniências e à ética da responsabilidade. Releva do capricho lunar.

Figura 6. Cemitério Judeu de Remiremont.

O cemitério é um labirinto de símbolos minuciosamente codificados. Desconcerta um mentecapto. As sepulturas compõem “uma cultura material [que] cria, comunica e preserva sentido. Os artefactos e as sepulturas oferecem-se como evidências tangíveis de relações sociais que sancionam atitudes e comportamentos” (Rainville, Lynn,  1999, Hanover Deathscapes: Mortuary Variability in New Hampshire, 1770-1920, Ethnohistory Vol. 46, No. 3, pp. 541-597. p. 543). As esculturas tumulares são caracterizadas pela diversidade. Algumas revestem, inclusivamente, um cariz pessoal. Regra geral, adivinha-se o que visam e o que significam. Alguns símbolos são antigos, milenares. Assim sucede com as mãos entrelaçadas, motivo frequente nos cemitérios (ver figuras 7 a 10). Mas não único. Abundam outros motivos funerários com mãos: em oração, que apontam para cima ou para baixo, que abençoam, que tocam em argolas ou seguram ramos de plantas, artísticas ou pessoalizadas.

As mãos entrelaçadas inscrevem-se num limiar, oscilam entre mundos. Nem este, nem aquele. Entre a vida e a morte, o céu e a terra. O aperto de mãos não é apertado, é frouxo, dando a sensação que as mãos tanto podem permanecer unidas como afastar-se. Não se vislumbra sinal de esforço para contrariar o destino. Trata-se de uma figura trágica.

O enlace das mãos, vulgar nos cemitérios, não é exclusivo de nenhuma religião, cultura ou região. É transversal. Não obstante, esboçam-se algumas afinidades históricas e sociais.

As caveiras, os relógios e as urnas remetiam, outrora, para uma semiótica do medo e da culpa, Durante o romantismo e a era vitoriana, as esculturas tumulares concentram-se no foro pessoal, no amor e na família. As mãos entrelaçadas inscrevem-se nesta nova tendência apostada no reencontro e na salvação. Existem vários grupos religiosos e sociais particularmente propensos ao recurso às mãos entrelaçadas.

Figura 11. Cemitério menonita em Haraucout-sur-Seille.

Os menonitas, anabaptistas dissidentes do protestantismo, perseguidos brutalmente durante séculos, povoam os cemitérios com esculturas de mãos entrelaçadas.

“Os menonitas não tinham, geralmente, direito a inumar os seus defuntos nos cemitérios católicos. Faziam-no nas suas propriedades. Em Haraucourt-sur-Seille, a comunidade deve ter sido suficientemente pujante para fundar o seu próprio cemitério” (Patrimoine: du cimitière mennonite d’Haraucourt-sur-Seille: http://blogerslorrainsengages.unblog.fr/2015/02/02/patrimoine-du-cimetiere-mennonite-dharaucourt-sur-seille/.

A figura 11 proporciona uma noção da “densidade” das mãos entrelaçadas nos cemitérios menonitas: a menos de dez passos de distância, duas sepulturas com mãos entrelaçadas.

Por último, “as mãos entrelaçadas podem, eventualmente, representar a irmandade de uma loja. São motivo frequente nas lápides maçónicas e I.O.O.F. [International Order of Odd Fellows]”(Cemetery Symbolism: https://www.thoughtco.com/cemetery-symbolism-clasped-hands-pointing-fingers-1420808). Um anúncio numa publicação maçónica, revista maçônica de cultura e informação, reproduz como fundo o motivo de duas mãos entrelaçadas ( ver figuras 1 e 12).

Figura 12. G.O.S.P Cultural online. Revista maçônica de cultura e informação. Nº 5, Abril/Maio de 2008. p. 14.

Retomemos a questão da discriminação e da segregação dos mortos. No Cemitério de Het Oude Kerkhof, em Roermond, na Holanda, dois túmulos, separados por um muro, unem-se graças às mãos entrelaçadas (ver figuras 13 a 15). O muro separa os protestantes dos católicos. O coronel protestante J.W.C. van Gorcum casou, em 1842, com a nobre católica J. C.P.H. van Wefferden . Falecido em 1880, foi sepultado na parte protestante do cemitério. A esposa, falecida em 1888, recusou o túmulo familiar. Pediu para ser sepultada junto ao muro, o mais perto possível do marido. Separados pela geometria humana, o coronel protestante e a esposa católica entrelaçam as mãos por cima do muro (ver Unusual Places. Graves of a Catholic woman and her Protestant husband:  https://unusualplaces.org/graves-of-a-catholic-woman-and-her-protestant-husband-2/)

Separados em terra, reencontrados no céu. Promove-se a (re)união na eternidade mediante as mãos entrelaçadas. Os textos que acompanham as mãos sugerem este voto de não separação: “Toujours unis” (Figura 16), “Farewell Dear Husband” (Figura 17) ou outras frases como, por exemplo, “até nos reencontrar”.

O motivo do túmulo do cemitério de Abbeville (Figura 17) surpreende. E intriga. Configura um caso especial: uma mãos entrelaçada aponta, com o indicador, para baixo. O que, atendendo à simbologia da mão que aponta para baixo (ver Figura 18),  pode significar que, ao pedido de união entre os esposos, acresce o pedido a Deus para vir buscar a alma. Uma escultura polifónica.

Figura 18. Mão a apontar para baixo. City of Grove. Oklahoma.

“Se as mangas das duas mãos são masculina e feminina, o aperto de mão, as mãos entrelaçadas, pode simbolizar o matrimónio sagrado, ou a união eterna de um marido ou esposa. Às vezes, a mão sobreposta ou o braço posicionado um pouco mais alto indica a pessoa que faleceu primeiro e que está agora guiando seu ente querido na travessia para a próxima vida” (Cemetery Symbolism: https://www.thoughtco.com/cemetery-symbolism-clasped-hands-pointing-fingers-1420808).

Figura 19. Cimetière communal Court. Saint-Étienne.

As esculturas com mãos entrelaçadas respeitam determinados padrões.

“As mãos – quase sempre as mãos direitas – são incrivelmente detalhadas, com unhas e punhos de roupa esculpidos em mármore macio. Um dos punhos tendia a apresentar folhos ou plissados, sugerindo a mão de uma mulher; o outro estava decorado com abotoaduras, sugerindo a mão de um homem. Juntos, representam um marido e uma esposa que compartilham um último aperto de mão. Uma mão manifesta-se, em geral, plana e frouxa, com os dedos estendidos [ver Figura 19]. Pode ser interpretado como o falecido a interpelar os vivos a segui-lo ou a deixá-lo partir (The Cemetery Symbol of Eternal Love: https://daily.jstor.org/the-cemetery-symbol-of-eternal-love/).

Figura 20. Estela funerária de Julia Epicarpia. Fréjus. Séc. I.

As mãos entrelaçadas nas sepulturas remontam, pelo menos, ao império romano. Nas escavações arqueológicas de Fréjus, no Departamento de Var, em França, encontram-se cinco estelas tumulares com mãos entrelaçadas (ver exemplos, nas Figuras 20 e 21). Parece que as mãos romanas têm um significado diferente das mãos contemporâneas. Menos, porém, do que seria de esperar. Para terminar este primeiro percurso pelas mãos nas lápides tumulares,  cedemos a palavra, erudita, aos arqueólogos de Fréjus, localidade onde foram descobertas as referidas estelas datadas do primeiro século da era cristã.

Figura 21. Estela funerária de Petronia Posilia. Fréjus. Séc. I.

“A imagem da dextrarum junctio entre os cônjuges, particularmente bem representada nas estelas de Fréjus, é um motivo recorrente na iconografia funerária. A hipótese de vislumbrar uma esperança no reencontro final dos cônjuges na vida após a morte, após sua morte, não parece fundamentada, sendo hoje abandonada (…) Seu verdadeiro significado original foi analisado por P. Boyancé (…) Começa por sublinhar o valor eminente da mão direita, dedicada à deusa Fides, primeira divindade protectora de tratados e juramentos. A imagem das mãos entrelaçadas não significa, portanto, a salvação moderna (…) significa a harmonia e a boa fé que reinaram entre os cônjuges (…) o casal que celebra a concordia a que permaneceu apegado. A sua vida participa de alguma forma da imortalidade que concede o acordo sob o signo de Fides. Também temos evidências disso em várias representações mitológicas sobre sarcófagos, onde a dextrarum junctio significa que o amor é mais forte que a morte” (Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, Sculptures de la Gaule romaine : Fréjus – https://www.aibl.fr/seances-et-manifestations/expositions-virtuelles/article/sculptures-de-la-gaule-romaine?lang=fr).

Acerca da dextrarum junctio, de Fides e da Concordia, retenha-se o seguinte: o casal que celebra a concordia acede à imortalidade sob o signo da deusa Fides. Em vários casos, a dextrarum junctio admite que o amor supera a morte. Como nas mãos entrelaçadas contemporâneas.

Com palavras se fazem coisas (J. L. Austin. How to do things with words, 1962) e com coisas se dizem palavras, de amor e eternidade.

Agradecimento

San Lorenzo cemetery, Madrid.

Em tempo de “distanciamento social”, faleceram, em três dias, duas irmãs: a minha tia e a minha mãe. Na verdade, duas mães. Isolada e abreviada, a morte não está fácil. Não perde, contudo, o pesar e o carinho. Agradeço a quem me acompanhou nesta despedida. A amizade é o maior conforto. Há circunstâncias em que a música é silenciada, mas ela une o que o mundo separa: Jesus a Alegria dos Homens, de Bach, é um coral de amor e esperança. E a imagem do anjo sofrido? Os anjos constituem uma figura celestial especial: não só sofrem pelos homens como sofrem com eles.

Johann Sebastian Bach. Jesus alegria dos homens (Jesus bleibet meine Freude). 1716. Coro Madrigale. Concerto de Natal – Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil – Dezembro de 2008.