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O Pecado. Michelangelo

Estou a abordar a vida e a obra de Michelangelo na Universidade Sénior de Braga e a concluir uma conversa sobre as imagens da Virgem da Piedade e da Humildade nos séculos XIV e XV.

Uma hora é um colete muito apertado. Não dá para quase nada. Informações relevantes não podem ser contempladas. Passo a colocar artigos com conteúdos que compensem essa falha. Uma espécie de complementos.

Começo com o filme russo-italiano “Il peccato – Il furore di Michelangelo”, realizado por Andrei Konchalovsky e estreado em outubro de 2019. Não se demora nas obras, concentrando-se na personalidade do artista e no ambiente da época. Tem a particularidade de relevar a importância da escolha do bloco de mármore a esculpir. Boa parte do filme passa-se nas carreiras de Carrara e acompanha o transporte do “monstro”. Segue o filme falado em italiano e legendado em espanhol.

Il peccato – Il furore di Michelangelo. França – Itália. Realização: Andrei Konchalovsky. Outubro 2019. Duração: 134 minutos. Em italiano, legendado em espanhol

Más Notícias: Boas Notícias

Vierge à l’Enfant, Nostre Dame de Grasse. Séc. XV. Ca. 1460-1480. Museu dos Agostinhos. Toulouse. Em muitas imagens, a Virgem pressente, melancólica, que o Filho lhe vai escapar, que O vai perder. Mas nada pode fazer para o impedir. Se, por vezes, esboça um gesto, logo o refreia. Aceitou desde a Anunciação, com humildade de serva bem-aventurada (Magnificat), o desígnio, o fado, que comportava a espada que, segundo o profeta Simeão, a trespassaria.

Quero cada vez mais a aprender a ver como belo tudo aquilo que é necessário nas coisas: – Assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas: Amor fati [amor ao destino] (Nietzsche, A Gaia Ciência, Companhia das Letras, 2009, p. 187)

A minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: nada pretender ter de diferente, nada para a frente, nada para trás, nada por toda a eternidade. O necessário não é apenas para se suportar, menos ainda para se ocultar (…) mas para o amar (Nietzsche, Ecce Homo, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2008, p. 42).

Existem momentos em que me acode Nietzche. O 2º movimento, largo, da Sinfonia do Novo Mundo, do Dvorak, recordou-me o seu princípio de afirmação da existência, que consiste em abraçar o destino, dizer sim à vida, mesmo na doença, no sofrimento e na solidão. Fazer da própria fragilidade e dos obstáculos força e vontade, parte desafiante do caminho. Destarte, a dor e o lamento tornam-se serenidade e entrega.

Antonín Dvořák – Sinfonia Nº 9, “Do Novo Mundo” – II – Largo. Wiener Philharmoniker, Herbert von Karajan, 1985

Pietà colorida

Hoje, adquiri uma Pietà. Andava à procura de uma boa versão colorida há muito tempo.

Aliás, também estou a preparar há anos uma “aula poética” sobre as esculturas da Pietà desde inícios do século XIV até finais do seculo XV. O título principal será “Com o Filho no Colo”.

Acontecerá lá para outubro ou novembro, se entretanto não me estimar demasiado ignorante.

Os leilões online são um dos meus passatempos preferidos. Normalmente, sei o que pretendo e não descanso até encontrar a bom preço.

A proprietária teve a gentileza de me trazer a escultura a casa.

De pedra, com 40 cm de altura, é deveras pesada.

Conduzi a senhora, sempre com a escultura no seu colo, até à sala onde já estava um lugar vago reservado na lareira, um dos santuários domésticos.

Pedi-lhe para ser ela a colocá-la. Apaguei-me enquanto permaneceu um bom momento a contemplá-la como quem se despede:

“Sabe, já a tenho comigo há mais de 20 anos. Mas fica bem entregue!”

Philip Glass – Closing. Glassworks, 1982. From 2017 PCF Concert at Merkin Hall Jan 9

Jogar às cartas com o Diabo 4. Meia dúzia de mãos

Quando encalhamos, torna-se difícil voltar a navegar. Principalmente sem a ajuda de alguém que sopre às velas e reme connosco.

Convém esperar pouco dos outros, por muito amigos que sejam. Uma vez fora de circulação, desaparecemos das suas agendas.

Imagem: Valerio Cioli, Alegoria da Escultura. Túmulo de Michelangelo. Ca. 1564-74

Durante três anos, sobram os dedos das mãos para contar as visitas. Quase todas uma única vez, uma ou duas de familiares ou colegas. Partilhei o dia a dia apenas com três companhias: a São, mulher, o Fernando, filho, e a Ana, empregada.,

Cuidar, desamparado, de um dependente deve ser duro. Dar-lhe o colo numa travessia que o arrasta para a eternidade, ainda pior. Uma experiência desgastante e demolidora das pessoas e respetivas relações.

Seguem os artigos Embarcados (08.08.2021), Abrigo (06.08.2021) e A tua mão (08.08.2021).

Embarcados

Ícaro. Recipiente de terracota. Grécia. Século V a. C. The Metropolitan Museum of Art.

Estás embarcado (Blaise Pascal). Por inteiro. Não pasmes! Ousa! Aposta! Perde-te! Renova! Sê trágico! Sê insensato! Arranha as asas! Rasga as fraldas do mundo! Somos pequenos, somos de uma pequenez infinita (Blaise Pascal).

Segue uma interpretação, original, despojada, das Bachianas nº5, de Heitor Villa-Lobos. Adiciono um vídeo da canção Hey You, dos Pink Floyd.

Heitor Villa-Lobos: Bachianas brasileiras No. 5, W. 389, 1. Aria (Cantilena). Ao vivo em Borchardt, Berlim. 2018. Intérprete: Nadine Sierra.
Pink Floyd. Hey You. The Wall. 1979. Ao vivo no Eart’s Court, em Agosto de 1980.

Abrigo

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

(Antero de Quental)

Branda da Aveleira, 2003.

Verdi. La Traviata. Excerto.

A tua mão

Auguste Rodin. Mains d’amants. 1904.

Dá-me a mão! Não te afastes, não feches, não apontes! Dá-me a mão. A pele, a carne, o desejo, o vazio. Dá-me, dá-me a tua mão! Dou-te, quem sabe, o desassossego e a fome do presente. O resto é contingência.

Apocalyptica. Nothing Else Matters. Plays Metallica By Four Cellos – A Live Performance). 1996.

Morte Social e Sorte Grande

A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).

A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.

Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay

No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”!  Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!

Johannes Brahms – Waltz No. 15 in A-Flat Major, Op. 39 (Remastered). Piano: Philippe Entremont. Entremont Plays Best-Loved Piano Pieces, 2019

A Espada, a Cruz e o Cálice

No próximo sábado, dia 26 de abril, às 15 horas, vou falar no mosteiro de Tibães sobre a relevância dos símbolos da espada, da cruz e do cálice na interpretação das imagens de Cristo e da Virgem Maria. A meio de um fim-de-semana prolongado e coincidente com a Festa do Alvarinho em Melgaço, a data não é a mais propícia. Desejava-a perto da Páscoa e no mosteiro de Tibães, espaço que me é particularmente grato. Nestas condições, foi a única disponível. Não me apoquenta. Interessa-me mais a relação com o público do que a sua dimensão. Como a generalidade das minhas conversas, será única. Projeto retomá-la apenas como aula na academia sénior de Melgaço.

Demasiado ampla, tive que a reduzir. Concentra-se, assim, nos seguintes episódios e figuras: Juízo Final, Menino Jesus com a cruz, Anunciação, Expetação e Virgem Entronizada. Principalmente na Baixa Idade Média e no início da Moderna. A Senhora da Misericórdia e a Pietà resultam adiadas para uma próxima conversa. A Natividade e a Virgem do Leite justificarão, porventura, uma terceira. Não obstante, prevê-se densa e extensa. Afortunadamente, bastante ilustrada e algo original.

Se se proporcionar, apareça. Caso contrário, não lhe sentirá a falta.

O bom pastor e a ovelha negra e manca

Estou a escrever um artigo que está a resultar mais complicado e extenso do que a encomenda. Aborrecido, perco a paciência.

Entretanto, desenfado-me com uma paper stop motion short com ressonâncias bíblicas, “Lost Sheep”, e compenso com os ecos nostálgicos da música de fundo: as canções “Rapaz da montanha” e “Já sabia”, do próximo álbum do Rodrigo Leão.

Imagem: Estatueta do Bom Pastor carregando um cordeiro, c. 300-350, das Catacumbas de Domitila, nos Museus do Vaticano

Lost Sheep. Paper Stop Motion Short Film by Lukas Rooney. Music: Andrew Gerlicher. Post: 24/12/2023
Rodrigo Leão – O rapaz da montanha. Single, 2025
Rodrigo Leão – Já sabia. Single, 2025

Abençoado

Giuseppe Sanmartino. Cristo velado. Detalhe. 1753

Benedictus
Qui venit in nomine Domini
Benedictus qui venit in nomine domini
Hosanna in excelsis
Hosanna in excelsis
Benedictus qui venit in nomine domini
(Karl Jenkins. Benedictus. 2001)

Repousam no nosso coração aqueles que partem sem nos deixar.
Recoloco três músicas: Benedictus, Concerto de Aranjuez e Caruso. Recolocar não é repetir; aumenta a ressonância. Também pode relevar da oração.

Karl Jenkins – Benedictus. The Armed Man. A Mass for Peace, 2001. HAUSER with Zagreb Philharmonic Orchestra and Choir Zvjezdice. Lisinski Concert Hall in Zagreb, October 2017  
Joaquín Rodrigo –  Concerto de Aranjuez. Adagio, 1939. HAUSER & Petrit Çeku with the Zagreb Philharmonic Orchestra at the Lisinski Concert Hall in Zagreb, October 2017
Lucio Dalla – Caruso. 1986. HAUSER, live at Villa Manin (Codroipo – Friuli Venezia Giulia, Italy), July2024

A Música, o Museu e a Escada de Jacob

M&M. Música e Museu. Magnífico e memorável! Birds On a Wire e Louvre. Mais aqueles que contribuíram para esta obra prima. Beleza destilada em todos os sentidos. Um regalo para a vista e para os ouvidos, que apetece saborear, tocar e cheirar. São 80 minutos de encantamento. Se, agora, não dispuser de tempo, guarde para depois, mas não perca.

Imagem: Nicolas Dipre. Le songe de Jacob. c.1500

Mesmo se, à partida, os conteúdos não o entusiasmem, insista, corra o risco de ficar seduzido. Quem gosta do que não gostava galga uns degraus na escada de Jacob.

Formado em 2012, Birds On a Wire é um duo musical composto pela violoncelista brasileira Dom La Nena e pela cantora franco-americana Rosemary Standley. O vídeo da arte.tv Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire , realizado por Jeremiah, oferece “um encontro raro entre música, pintura e escultura em alguns dos espaços mais emblemáticos do Louvre”.

Imagem: A Escada da Ascenção Divina . Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai. Séc. XIII

Segue Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire, concerto itinerante filmado no museu do Louvre nos dias 13 e 14 de maio de 2024. Acrescento, para os mais apressados, duas canções em português: La Marelle (Amarelinha) e Cálice.

Birds On a Wire – Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire. ARTE Concert. Realização: Jeremiah. Museu do Louvre, arte-tv. 13-14 maio 2024. C. 80 minutos
Birds On a Wire – La Marelle (Amarelinha), com a Maîtrise de Radio France. Ao vivo na Philarmonie de Paris, em dezembro de 2024
Birds On a Wire – Cálice (de Chico Buarque & Gilberto Gil). Ao vivo no Festival de Saint-Denis 2016 na Basílica de Saint-Denis, em agosto de 2016

Boas festas

Oficina de Hans Thoman. Adoração dos Magos. ca. 1515–20. The Metropolitan Museum of Art

Com um conjunto escultórico do século XVI, um coro de embalar e uma canção ao Pai Natal, desejo-vos Bom Natal e Feliz Ano Novo.

Compositor Kim Arnensen. Interpretação: Kantorei of Kansas City. Condução: Chris Munce. Igreja Católica de São Pedro, no Kansas, 20.12.2015
Tino Rossi – Petit Papa Noël, 1946