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A amamentação através dos tempos III. O primeiro milénio cristão

Igreja de Anba Bishay e Anba Bigol. Mosteiro Vermelho. Perto de Sohag. Egito. Sec. VI a VII . Fotógrafo: E. Bolman

Com o corpo debilitado durante uma meia dúzia de anos, acabei por abusar das “células cinzentas”, teimosamente operacionais. Tornei-me um hiperativo mental, a saltar de assunto em assunto, vários ao mesmo tempo, sem os acabar. Faltava a corda para os desafios que abraçava. Subsistia, contudo, uma vantagem: entregar-me (quase) apenas ao que gostava: investigar, muito; escrever, bastante; divulgar, pouco. Acumulei descobertas, que não escrevi, e apontamentos, que não publiquei. Num estilo impaciente, apertado e abreviado, com a imagem a sobrepor-se à letra.
Algo recuperado, por inércia ou histerese, esta hiperatividade mental não diminuiu. Continuo a multiplicar as pesquisas, sem cuidar de as concluir nem de partilhar os resultados.
O Tendências do Imaginário é um bom testemunho deste estado pouco recomendável. Passaram quase três meses desde a publicação do segundo artigo da série A amamentação através do tempo, dedicado ao primeiro milénio pagão. A Baixa Idade Média oferecia-se com a meta almejada, contemplando, portanto, o românico, o gótico e parte do renascimento. Recolhi, em conformidade, informações e imagens. Arrumei-as numa fila à espera de ocasião propícia, eventualmente o dia de São Nunca. Sábado, fui ao Mosteiro de Tibães. Os fantasmas dos monges copistas e iluminadores, o entusiasmo da Aida Mata, a dedicação da Anabela Ramos e a curiosidade do Alberto Gonçalves despertaram-me um raro rebate de consciência. Não partilhar as imagens da “Virgem do Leite” do primeiro milénio cristão configurava um desperdício, senão um pecado de soberba e preguiça. Partilho-as, portanto, despojadamente, em jeito de penitência. Perdi o treino à comunicação e a escrita oferece-se como um prazer que me custa. Mas, com franqueza e sem maneirismo, o que mais me incomoda é a sensação de estar a despachar questões dignas de mais cuidado e atenção.

O primeiro milénio da era cristã revela-se estranhamente parcimonioso no que respeita a imagens, conhecidas, com a Virgem a amamentar o Menino. Esta exiguidade estende-se, aliás, à generalidade das imagens marianas, quando não cristãs, o que surpreende atendendo à expansão do cristianismo, mormente a partir do século IV, na sequência dos éditos de Milão, que o legaliza em 313, no tempo de Constantino, e de Tessalónica, que o promove a religião oficial exclusiva do Império Romano, em 380, no tempo de Teodósio I.

O culto da Virgem levou, porém, algum tempo a consolidar-se, devendo aguardar a sua consagração dogmática como Mãe/Portadora de Deus (Theotokos) no Primeiro Concílio de Éfeso, em 431.

É provável que, pelo menos a partir dessa data, as imagens com a Virgem se tenham multiplicado, principalmente no Imperio Romano do Oriente, onde a presença cristã era notável e as artes não só se mantiveram como se desenvolveram. Só que esta implementação não “ficou para a História”. A grande maioria das imagens foi destruída pelos movimentos iconoclastas dos séculos VIII (726 a 787) e IX (814-842), responsáveis por uma autêntica razia das imagens religiosas, associadas à idolatria. Estes movimentos foram decretados pelos imperadores que, no Império Romano do Oriente, eram também os chefes da Igreja Ortodoxa. Sublinhe-se que, durante o primeiro milénio, Constantinopla foi o principal centro de produção de arte cristã.

Afresco com a Virgem e o Menino. Catacumba de Priscila. Roma. Final do século II, início do século III
Mulher a amamentar um menino. Possivelmente a Virgem Maria. Catacumba de Priscila. Roma. Ca. 260

Não admira que na fase inicial desta indagação apenas tenha surgido um par de afrescos pressupostamente com a Virgem a amamentar o Menino, ambos descobertos na catacumba de Priscila, em Roma, datados por volta dos séculos II e III. O primeiro afresco suscita-me poucas dúvidas. Parece ser um fragmento de uma cena com a Adoração dos Reis Magos.

Adoração dos Magos. Afresco da Catacumba de Priscila. Roma. Séc. III
Adoração dos Magos. Decoração de um Sarcófado. Museus do Vaticano. Séc. III

Aponta nesse sentido a semelhança com outro afresco da catacumba de Priscila e com a decoração de um sarcófago, ambos do século III, cujo motivo é, precisamente, a Adoração dos Reis Magos, com a Virgem e o Menino na mesma posição e uma figura de pé a apontar para a estrela.

Cenas com Sofia, Maria e Cristo ou da vida de uma mulher cristã defunta. Catacumba de Priscila. Roma. Ca. 260

O segundo afresco, com uma mulher a amamentar uma criança, justifica mais reservas. Orantes, com os braços abertos levantados, são frequentes nas catacumbas romanas. Na composição do afresco, tanto pode aparecer Sofia, no centro, Cristo com amigos, à esquerda, e a Virgem com o Menino, à direita, como um conjunto de cenas da vida de uma mulher defunta (ver um exemplo semelhante respeitante ao túmulo de uma criança na imagem seguinte).

Sarcófago de Cornelius Statius, uma criança. Evocação da sua vida.140 a 150 d.C. De Roma. No Museu do Louvre

Perante esta exiguidade, que fazer? O mesmo que, há alguns anos atrás, adotámos para as imagens de Cristo: alargar horizontes, demandar outros territórios e outras cristandades, além dos Impérios Romanos do Ocidente e do Oriente e das igrejas Católica Apostólica Romana e Ortodoxa Bizantina. Sondar, por exemplo, a Síria, a Palestina e o Egipto, conquistados pelos muçulmanos no século VI, em particular as igrejas Ortodoxas Copta e Síria, com foco especial nos mosteiros de Apa-Jeremias, em Sacará, e Santa Catarina, no Monte Sinai.

Escavações no Mosteiro de Apa-Jeremias, em Sacará (1908-9, 1909-10)
Mosteiro de Santa Catarina no Monte Sinai

Com este “desvio”, sobem de duas para nove as imagens encontradas com a Virgem a amamentar o Menino anteriores aos iconoclasmos dos séculos VIII e IX [Na galeria seguinte, carregar em cada imagem para a aumentar e ler a respetiva legenda].

Galeria 1: Imagens com a Virgem a amamentar o Menino no primeiro milénio

Quatro apontamentos complementares em jeito de conclusão:

1) A figura da Virgem do Leite não foi criada na Idade Média Central e ainda menos pelo estilo gótico. Existem antecedentes desde o século II;

2) A produção de imagens com a Virgem a amamentar o Menino foi muito superior aos exemplares conhecidos;

3) Durante o primeiro milénio, as imagens com a Virgem a amamentar o Menino afastam-se pouco de outras congéneres, tais como a Ísis Lactans ou as Deusas Mães, por exemplo, celtas e galo-romanas;

4) A sobrevivência de muitas imagens cristãs deve-se à sua localização em territórios não pertencentes ao Império Bizantino, designadamente sob domínio muçulmano, durante os períodos iconoclastas dos séculos VIII e IX.

A busca de imagens com a Virgem a amamentar o Menino proporcionou, naturalmente, o conhecimento de imagens apenas com a Virgem e o Menino. Eventualmente menos divulgadas e de difícil acesso, coloco, na galeria 2, uma seleção com 26 exemplares.

Galeria 2: Imagens apenas com a Virgem e o Menino no primeiro milénio

Nesta galeria, dez imagens provêm do Egipto e nove de Roma. Três repartem-se pela Ucrânia, Geórgia e Alemanha, regiões não pertencentes ao Império Bizantino durante os iconoclasmos. Apenas duas imagens são oriundas de Constantinopla/Istambul, por sinal posteriores ao último movimento iconoclasta (datadas por volta do ano 1000). Enfim, a única imagem restante, do século VI, encontra-se na Basílica de Santo Apolinário Novo, em Ravena. Esta cidade constitui um caso singular. Trata-se de uma das principais concentrações atuais de arte bizantina, nomeadamente do período de transição entre o romano e o bizantino. Boa parte dos mosaicos cristãos mais antigos abrigam-se nas basílicas de São Vital e Santo Apolinário Novo. Escaparam por pouco à purga do primeiro movimento iconoclasta, que, decretado por Leão III, em 726, atingiu o auge, sob Constantino V, a partir do Concílio de Hieria, em 754. “Providencialmente”, três anos antes, em 751, os lombardos conquistaram Ravena, libertando-a do controlo bizantino.

Ironia das ironias, coube, naquele tempo (séculos VIII e IX) aos muçulmanos e aos “bárbaros” “proteger” a arte cristã do zelo purificador da cristandade “ortodoxa”.

Com o Filho no Colo

Relevo da Virgem com o Menino. Florença, ca. 1420. Christie’s

Alguém se lembra da conversa “O olhar de Deus na cruz. O Cristo Estrábico”? Foi há quase dois anos, no dia 29 de novembro de 2022, no Auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Convido-os, hoje, a observar os olhos da Virgem e do Menino neste relevo do primeiro quartel do século XV. A próxima conversa incidirá, precisamente, sobre Maria. O título será aproximadamente o seguinte: “Com o Filho no Colo. Naturalismo e Simbolismo nas Esculturas da Pietà”. Até breve!

Relevo da Virgem com o Menino. Florença, ca. 1420. .Christie’s. Detalhe.

Novo livro sobre André Soares para público infantojuvenil

Na próxima quinta ocorre o lançamento do novo livro de Eduardo Pires de Oliveira. Nada de extraordinário. O Eduardo não para de escrever e publicar textos. Mas, desta vez, resulta diferente. Dedicado à vida e à obra de André Soares e destinado a um público infantojuvenil, o autor assume o o desafio de propiciar uma leitura acessível, “amigável”. Admito aguardar com bastante curiosidade a apresentação para descobrir a solução adotada. Tenho, portanto, encontro marcado às 11 horas do dia 7 de novembro no Auditório Braga Simões da Escola André Soares.

Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos

Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.

Marca: Alibaba Cloud. Título: Honor History, Create History. Agência: The Nine Shanghai. Direção: Jody Xiong. China, Agosto 2024
Marca: Skoda. Título: Statues. Produção: Mac Guff Paris. China, 2006

Como vento na areia

Gosto das canções do Manuel Freire. Da voz e dos poemas. Envolvem, abalam e embalam. Ressalvando “Pedra Filosofal” e “Livre”, poucas visualizações colhem na Internet. O Tendências do Imaginário contempla seis canções do Manuel Freire. Acrescento quatro: “Pedro Soldado”, “Poema da Malta das Naus”, “Canção” e “Dulcineia”). Aproveito para enxertar algumas figurinhas populares do polaco Tadeusz Kacalak (imagem).

Manuel Freire – Pedro Soldado, 1968. Original de Adriano Correia de Oliveira, 1967
Manuel Freire – Poema da Malta das Naus. EP Dulcineia, 1971
Canção · Manuel Freire. Manuel Freire, 1984
Manuel Freire – Dulcineia. EP Dulcineia, 1971

A amamentação através do tempo. II – Primeiro milénio pagão

Com tempo para semear, acrescento um novo episódio à história ilustrada da amamentação, desta vez, com imagens pagãs, não cristãs, do primeiro milénio.

Nos primeiros séculos da era cristã, predominam as figuras “pagãs” celtas, galo-romanas e do culto a Ísis, então no auge. As obras, sobreviventes, com a Virgem Maria resultam raras até finais do milénio, principalmente no continente europeu.

Imagem: Estela funerária De Medinet el-Fayumséc. Egito. Séc. IV ou V d.C.Talvez uma das primeiras virgens do leite (Galakotrophousa) coptas. Museum fürByzantinische Kunst. Berlim

As Deusas-mães, ou Matronas, de origem celta e galo-romana conheceram uma divulgação considerável durante este período (Figuras 2.01; e 2.07 a 2.15). Estatuetas de terracota, frequentemente com menos de um palmo, eram reproduzidas com recurso a moldes (Figuras 2.12 a 2.14). Ísis, entretanto, romanizou-se, passando a exibir túnicas e mantos ao estilo greco-romano (Figuras 2.02; 2.03; 2.16; e 2.17). Acrescem alguns relevos com uma mãe e um bebé em estelas de túmulos de crianças (Figuras 2.04 a 2.06).

Colocadas em altares domésticos, santuários e sepulturas, estas imagens, associadas à proteção das crianças, à maternidade, à terra, às fontes, à fecundidade e à abundância, não só precedem como prefiguram as dedicadas posteriormente à Virgem Maria.

Segue uma galeria com menos de dúzia e meia de imagens. Permitam-me, todavia, uma confidência: excecionais, são exemplares deveras difíceis de encontrar e identificar, inclusivamente na Internet. Trata-se de uma tarefa que requer algum engenho e muita paciência. Só mesmo para quem se interessa por coisas que não lembram ao diabo!

Galeria 2. Imagens pagãs do primeiro milénio da era cristã

Metamorfoses em Berço de Pedra

No dia 10 de agosto, em Sendim, inaugura uma exposição individual de escultura do Fernando Nobre. Orientador do seu mestrado na Faculdade de Belas Artes do Porto, aprecio a sua obra. Nota-se, aliás, na apresentação no desdobrável! Gosto de escrever textos assim: curtos, soltos, com aspiração literária e motivos que acarinho. Sem cabeça, tronco e membros, mas com alma e coração.

Não posso acompanhar o Fernando Nobre na inauguração da exposição. Apesar de dispor de bastante tempo livre, sobrevêm, caprichosamente, coincidências. Ocorre no mesmo dia, em Melgaço, o Cortejo Histórico, iniciativa ousada para cuja conceção contribuí. Espero, com alguma ansiedade, estar presente para ver o resultado e sentir o acolhimento. Irei outro dia a Sendim para, nascido num leito de ervas (Prado), experimentar o “berço de pedra”.

Seguem o desdobrável da exposição Metamorfoses e o link para um artigo do jornal Voz de Melgaço dedicado ao Cortejo Histórico.

A amamentação através do tempo. I – Antes de Cristo

Estou a preparar uma conversa dedicada à iconografia da Virgem Maria. O título, provisório, aponta para qualquer coisa como “Mater dolorosa: naturalismo e simbolismo na pietà”, com a escultura do jovem Michelangelo como ponto de partida. Quando abordo um tema, costumo perder-me noutros que lhe são mais ou menos conexos. Compreender é também comparar.

Para além da pietà, convoco outras figuras, precedentes e contemporâneas, entre as quais a Virgem do Leite. Da Virgem do Leite à figura de qualquer mulher a amamentar uma criança vai apenas um passo.

Entretenho-me, assim, a desencantar e arquivar imagens com mulheres a amamentar crianças. Existem em todos os tempos e continentes. Configuram um arquétipo da maternidade e da fertilidade.

Parte dessas imagens justificam partilha. Algumas, raras, resultam difíceis de encontrar. Uns achados!

Segue uma primeira galeria, com esculturas de várias proveniências anteriores à era cristã. A mais antiga tem quase 8000 anos. Desgastadas pelo tempo, algumas “perderam a cabeça”. A maioria encontra-se numa posição que antecipa a generalidade das obras do milénio posterior: sentadas, a criança no colo, olhar frontal e uma mão a segurar um peito.

Galeria: Imagens com mulheres a amamentar crianças anteriores à era cristã (a. C.)

Boa Disposição Divina (continuação)

Ontem, mudança na medicação: mais contra a tensão, menos calmante. Hoje, sinto-me quebrado. Nem sequer tive disposição para assistir à Liberdade à Deriva (Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura). Afundei-me numa sesta arrastada.

Com alguma ajuda, por modesta que seja, os caminhos tornam-se mais acessíveis e amplos. Reagindo ao artigo “Boa Disposição Divina. A Virgem e o Menino Sorridentes”, uma amiga enviou-me uma imagem com a estatueta da Virgem com o Menino, dita da Sainte-Chapelle, datada do século XIII e localizada no Museu do Louvre (Figuras 16 e 17).

Resultam deveras gratificantes estes retornos.

Uma imagem desconhecida é fonte, ponte ou porta para outras, avulsas ou em cadeia, num efeito multiplicador. A partilha amiga ofereceu-se, portanto, como um estímulo, ou desafio, para retomar a busca.

Figura 13. Vierge à l’Enfant. Ca. 1240 a 1260. Ivoire. Musée de Cluny

Adoro esgaravatar, como as galinhas. É um vício. Não me recordo, por exemplo, de colocar os pés na praia de Moledo e resulta raro sentar-me nas esplanadas. Em contrapartida, não perco a mínima oportunidade para ir até à zona dos rochedos.

As pessoas que me acompanham costumam entreter-se a apanhar “beijinhos”, umas conchas minúsculas. O meu alvo é ainda mais raro e exigente: picos e bifaces pré-históricos, que remontam ao Paleolítico. De insucesso em insucesso, a coleção cresce. Há quem goste de oferecer flores do jardim, o meu cúmulo é surpreender com picos apanhados na areia ou resgatados de poças de água salgada, com sérios riscos de, apesar da bengala, escorregar e dar uma queda.

Picos descobertos em Moledo

Esgaravatar é um vício facilitado pela Internet. Em dois dias, o número de imagens guardadas na pasta “Virgem e Menino Sorridentes” disparou de meia dúzia para mais de uma quinzena (Figuras 13 a 27), excluindo aquelas em que a Virgem esboça um sorriso à Gioconda. Quase todas provêm do século XIII e da primeira metade do século XIV. A maioria é em marfim e provém da região parisiense, berço do estilo gótico.

Segue a colheita mais recente, mas, espero, não a definitiva. Repare-se que na figura 27 até os leões riem!

Galeria de imagens com a Virgem e o Menino Sorridentes (continuação)

Boa Disposição Divina. A Virgem e o Menino Sorridentes

1. Virgin and Child. North French, ca. 1250. The Metropolitan Museum of Art. Detalhe

Se há algo que podemos aprender da Virgem Maria é a sua ternura. (Madre Teresa de Calcutá)

Entretenho-me a procurar e a contemplar imagens da Virgem Maria com o Filho. Um mundo diversificado sem fim. Não obstante, encontrei um número deveras reduzido, apenas meia dúzia em centenas, com ambos a sorrir.

Habitualmente, a Virgem apareça hierática, reservada, pensativa, preocupada, amargurada, dolorosa, eventualmente atenciosa e afetuosa. Mas não divertida!

2. Virgin and Child. North French, ca. 1250. The Metropolitan Museum of Art

Raras e inesperadas, as imagens com a Virgem e o Menino bem-dispostos surpreendem e impressionam. Proporcionam um belo efeito, porventura terapêutico, a incentivar oração frequente. Difíceis de encontrar, partilho imagens, dos séculos XIII a XVI, que tenho o esmero e o deleite de guardar numa pasta intitulada “A Virgem e o Menino Bem-Dispostos”. Dêmos graças!

Imagens da Virgem e do Menino Sorridentes (sécs. XIII a XVI)

Se Maria aglomera tantas designações, funções, figuras, templos, lendas, devoções e orações, também pode haver lugar para uma Nossa Senhora da Alegria. Por exemplo, em França, existe a basílica e a lenda de Notre-Dame de Liesse (liesse: alegria; júbilo), em Espanha, em Toledo, a escultura e a lenda da Senhora-a-Branca; e no Brasil, a pintura com a Nossa Senhora da Alegria (dos Prazeres).

Lenda da Virgem de Liesse

A História de Nossa Senhora da Alegria começa na época das cruzadas, quando foram feitos três prisioneiros que foram ameaçados a renegar a sua fé.
Contudo, ao contrário do que se pretendia, ainda conseguiram converter a filha do príncipe, que, não só os ajudou a fugir, como também foi com eles, levando uma imagem da Virgem Maria.
Apesar de terem conseguido fugir com alguma facilidade, a sua situação continuava bastante perigosa. Uma noite, adormeceram desanimados e abatidos com receio das incertezas do futuro.
Quando acordaram, para sua surpresa, perceberam que estavam em França, sua terra natal. Ou seja, durante a noite foram transportados milagrosamente do Egito, onde tinham sido presos, para a França.
Para completar, no dia seguinte, encontraram no mesmo lugar uma estátua da mesma imagem de Nossa Senhora que tinham com eles aquando da fuga.
Por esse motivo, construíram um santuário dedicado à Nossa Senhora, que multiplicou as bênçãos e graças derramadas. Atendendo à alegria que o santuário representava na vida dos três prisioneiros, foi dado o nome de Santuário de Nossa Senhora de Lièsse, que significa Nossa Senhora da Alegria.
A Igreja foi construída em 1134, reconstruída em 1384 e ampliada em 1480. Em 1923, tornou-se Basílica.

(a partir de https://tendadosenhor.com.br/a-historia-de-nossa-senhora-da-alegria/)
12. Basilique Notre Dame de Liesse.. Aisne. Hauts-de-France

Por que a Virgem Branca está rindo? Lenda da Catedral de Toledo.

A catedral de Toledo contém uma grande coleção de tesouros, arte, curiosidades… e também lendas. No coro é admirada e venerada uma imagem da Virgem, sob o título de Nossa Senhora Branca, feita em alabastro branco com policromia dourada. E, como não poderia deixar de ser em Toledo, também tem a sua lenda.
Durante muitos meses as festividades e homenagens pelo casamento de Beatriz de las Roelas e Dom Santiago Galán em 1569 foram lembradas em Toledo. Beatriz era conhecida pela nobreza e generosidade da sua família e Santiago era um jovem fidalgo que, tendo ficado órfão ainda criança, foi levado sob a proteção da casa de Orgaz. Foi a Senhora de Orgaz quem fez um esforço especial para que ambos os jovens consistissem no casamento.
Beatriz foi uma fiel devota da Virgem Branca da Catedral de Toledo, cuja imagem serviu de testemunha divina no dia em que contraíram o casamento e fidelidade para sempre. Esta Virgem está no centro do coro da catedral e sempre foi venerada em Toledo com o nome de Nuestra Señora la Blanca.
Os primeiros meses do casal transcorreram felizes, longe de problemas, misérias e penalidades. Uma tarde tudo mudou repentinamente, quando Beatriz anunciou ao marido que ele seria pai, mas ao contrário do que se esperava, observou com espanto que a tristeza aparecia no rosto do seu amado, porque nesse mesmo dia o Senhor de Orgaz lhe tinha dado ordem para comandar parte de suas tropas e ir para a guerra.
Mais resignada do que compreensiva diante de tanta desgraça repentina, ela jurou-lhe que iria todos os dias que durasse sua ausência prostrar-se diante da imagem da Virgem Branca para que ela o protegesse no campo de batalha e cuidasse de ela e seu futuro filho até seu retorno.
Meses longos e angustiantes se passaram. O primogénito nasceu com o nome do pai. Ocasionalmente chegavam notícias dos combates, mas nenhuma referência a Santiago.
Todas as tardes, Beatriz e o seu filho atravessavam os imensos e solitários espaços da Sé Catedral para se prostrarem diante da sua Virgem pedindo proteção ao seu ente querido e um sinal de que tudo ia bem, que ele voltaria saudável e que seriam felizes, mas o a intensa devoção da toledana não conseguiu arrancar nenhum sinal divino que lhe desse a esperança necessária para continuar esperando.
Mais de um ano se passou sem notícias de Santiago. Entre os círculos da corte toledana ninguém esperava o retorno vivo e alguns até propuseram celebrar uma missa pela alma do miserável.
A suposta viúva recusou, garantindo que o marido estava sob a proteção da Virgem Branca e que regressaria. A família começou a se preocupar, temendo até que ela enlouquecesse, quando aumentou o número de visitas diárias à imagem da Virgem.
Duas ou até três vezes por dia, ela atravessava as naves da Primada, acompanhada pelo pequeno Santiago, para continuar a mostrar a sua devoção.
Naquele 8 de setembro, festa da Virgem Branca, fazia um ano e meio que ninguém sabia alguma coisa sobre Santiago. Naquele dia ela sentou-se com o filho no primeiro dos bancos, diante do olhar atento de todos os presentes que já a achavam louca.
Mas depois da cerimnia algo aconteceu. As pessoas perceberam que Dona Beatriz, com o rosto iluminado de felicidade, estava rodeada por uma espécie de luz que se destacava das demais. Quando os demais participantes procuraram a fonte de luz, viram como a imagem da Virgem Branca inclinou a cabeça e sorriu abertamente.
Naquele momento, um barulho de esporas tirou do espanto e da curiosidade os que ali estavam e ao virarem a cabeça viram um quase irreconhecível Santiago Galán, de longa barba, roupas esfarrapadas e sinais de ter passado muita fome.
Os maridos se abraçaram no meio da cerimônia e Santiago conheceu ali o filho, diante da Virgem que o protegeu durante quase dois anos de batalhas e cativeiro.
Texto original: Rafael Ramírez Arellano em “Nuevas tradiciones toledanas”, 1916. Em versão de Javier Mateo e Luis Rodríguez Bausá em “La Vuelta a Toledo en 80 leyendas”. (https://toledospain.click/why-is-the-white-virgin-laughing-a-legend-of-toledo-cathedral/)

Oração a Nossa Senhora da Alegria

Na calma deste momento, furtando-me do corre-corre da vida, eu me recolho em Ti. Senhora da alegria, olha a minha audácia: na singeleza da minha oração, eu te dou a minha alegria. Como é bom ser alegre. Obrigado Senhora! Foi teu dom.
Como é agradável ter a alma em paz. Ela é tua também. Como é maravilhoso ter a alma branda. Razão de ser de toda alegria. Senhora, nos dias ensolarados e nas noites entreabertas, um sorrir sincero indique a alegria sempre em mim.
Que eu saiba sorrir a Ti em todas as circunstâncias da vida, nas festas, nas tormentas, no meu próximo. Sorria eu, Senhora, para aprender com Teu salmista a servir a Senhora, na alegria. Que assim seja em nome de Teu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Nossa Senhora da Alegria, rogai por nós!

(a partir de https://tendadosenhor.com.br/a-historia-de-nossa-senhora-da-alegria/)