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Extremos

Vangelis in 1974

Vangelis em 1974

Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.

Apagar o inferno

Warframe

Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda do imaginário e da estética contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.

We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.

Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).

Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.

Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.

Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.

Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.

A borboleta da sorte

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Estar só! Quanta misantropia cristalizada! Décadas de militância macambúzia. Realmente só? E os milhões de internautas no aquário digital? Não toco, nem cheiro, nem beijo. As pessoas acampadas no computador são como as laranjas da infância. Colhidas no pomar, colocava-as no cimo da rampa, punha-as a rolar, corria para o outro extremo, e trespassava-as com as flechas de um arco feito com varetas de guarda-chuva e fio de sediela. É antigo o gosto pela minha companhia.

A sorte é uma palavra movediça. Se de Gastão e Calimero, todos temos um pouco, a relação com a sorte é complicada. Há quem espere pela sorte. Fia-se na Virgem e não corre. Entretanto, envelhece. Na verdade, “a sorte dá muito trabalho”. Para ter sorte é preciso ter o resto: um empurrão, bastante capital e alguma preparação. “A sorte sorri apenas aos espíritos bem preparados” (Joseph Pasteur). Stendhal (Le rouge et le noir, 1830) é mais céptico: “a sorte agarra-se pelos cabelos, mas ela é careca”. O azar, reverso da sorte, das duas uma, ou é desculpa ou é falsa consciência.

Que o acaso existe, lá isso existe. O mundo é mais aleatório do que nos aprontamos a imaginar. Depende de grandes e pequenos nadas, como o nariz de Cleópatra:

“Qui voudra connaître à plein la vanité de l’homme n’a qu’à considérer les causes et les effets de l’amour. La cause en est un je ne sais quoi. Corneille. Et les effets en sont effroyables. Ce je ne sais quoi, si peu de chose qu’on ne peut le reconnaître, remue toute la terre, les princes, les armées, le monde entier. Le nez de Cléopâtre s’il eût été plus court toute la face de la terre aurait changé (Pascal, Pensées, 1670)”.

A sorte é como uma borboleta: quando se agarra amachuca-se; e tem a vida curta: quando muito, algumas semanas. Luck is in the air é um belo anúncio oriental, com borboletas artificiais.

Marca: Changi Airport. Título: Luck is in the air. Agência: Ogilvy (Singapura). Singapura, Julho 2018.

Futebol e natalidade

Futebol e fecundidade. Da Internet.

O envelhecimento demográfico preocupa os países ocidentais. Os baixos valores da natalidade, também. O combate ao envelhecimento não é óbvio. Perante o envelhecimento pelo topo, pouco ou nada se pode fazer, a não ser assegurar um “entardecer da vida” condigno. Ao nível da natalidade, o cenário é diferente. Podem adoptar-se muitas iniciativas. Por exemplo, o incentivo à imigração. A França avançou, há décadas, com uma política consistente e persistente de “apoio à família”. Conseguiu inverter a tendência. A taxa de fecundidade é a mais elevada da União Europeia. Portugal é o lanterna vermelha. Em Portugal, as autarquias mostram-se empenhadas na promoção da natalidade, implementando medidas em áreas tais como a protecção da gravidez, o combate à discriminação no trabalho, o ajustamento da actividade profissional (horários, trabalho a tempo parcial), a guarda de crianças e o apoio material aos pais… Quer-me parecer, por maledicência congénita, que o governo português se mostra activo numa frente em que pouco há a fazer, o envelhecimento, e hesita numa frente em que muito há a fazer, a natalidade (estas questões foram abordadas por Fernando Cabodeira, na sua dissertação de doutoramento em Sociologia, pela Universidade do Minho, em 2017: Alto Minho – Horizonte 2040 – Prospectiva Demográfica e Social).

Se a natalidade resiste à política, nada como recorrer a quimeras, à magia e a outros fenómenos fertilizantes. Consta que um apagão pode propiciar picos de nascimentos nove meses depois. Parece ter sucedido no Estados Unidos (http://www.revistaportuaria.com.br/colunas/480) e no Uganda (https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090313_ugandanatalidadegd). Durante um apagão, pouco ou nada se faz, nem sequer ver televisão. Por que não sexualizar, com os preservativos perdidos na escuridão? A interpretação trágica do efeito do apagão manifesta-se poética: acreditando que o apagão é o fim do mundo, as pessoas despedem-se com amor, muito amor. Sobre “os filhos do apagão, não existem provas convincentes.

Bebé football

Filhos da bola. Da Internet.

O futebol é outro mundo. Investigadores da Fundação Althaia, de Barcelona, sustentam que uma vitória num jogo de futebol pode estimular a procriação. Em 2009, o Barcelona foi campeão da Europa. Pelos vistos, os catalães decidiram festejar com sexo. Fala-se na “geração Iniesta”, o jogador que marcou um golo sensacional contra o Chelsea. Nove meses depois, verifica-se um aumento de 16% nos nascimentos (http://www.famili.fr/,football-quand-succes-rime-avec-bebe,422327.asp).

Estes fenómenos maravilhosos tendem, como as aparições dos santos, a propagar-se e a replicar-se. Crescem e multiplicam-se. Os finlandeses venceram surpreendentemente a Inglaterra por 2 a 1 no Europeu de 2016. Nove meses depois, observa-se um pico de nascimentos. “Nunca fizemos tantas epidurais”, garante o Dr. Thorvaldsson, que esteve na origem da “notícia”. Feitas as contas, it’s a fake!

Ao ganhar o europeu de 2016, a selecção nacional deu motivos para uma chuva de partos. Na verdade, nove meses depois não se registou nada de extraordinário em termos de natalidade. Excitados pela trindade da paixão (desporto, sexo e identidade), os portugueses reagem de um modo original: pegam na bandeira e vão apitar para a rua. Em vez de um orgasmo a dois, temos um orgiasmo em massa.

Os anúncios da Hyundai (Boom, Mundial de 2014) e da Chicco (Baby Boom, Mundial de 2018) pescam, com ritmo e humor, nestas águas da bola e da barriga. São as empresas privadas quem valoriza a natalidade. As campanhas governamentais pró-natalidade são raras. São ofuscadas por tópicos concorrentes de elevado desinteresse público. Neste panorama, entre as entidades que mais apregoam a natalidade estão as fraldas Dodot e os bebés Evian.

A terminar, a Canção de Embalar, do José Afonso. Para deitar um pouco de ternura na fervura.

Marca: Chicco. Título: Baby Boom. Agência: Pink Lab. Direcção: Igor Borghi. Itália, Julho 2018.

Marca: Hyundai. Título : The Boom. Agência : Innocean Worldwide Americas. Estados Unidos, 2014.

José Afonso. Canção de Embalar. Cantares de Andarilho. 1968.

Ler também cansa

Ennio Morricone

Ennio Morricone

Ler, ler, ler… Não o que apetece, mas o que se impõe. Prefiro ouvir, por exemplo, Ennio Morricone, uma arca sem fundo, onde se encontra, normalmente, a emoção que se procura. Fez 88 anos. Em 2016, ganhou o Óscar pela banda sonora do filme Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que inclui a música Ester. Ennio Morricone dirige, em 2007, a música Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, na praça de São Marcos, em Veneza. Um espectáculo como só os italianos! O diálogo entre os instrumentos de sopro é simples mas sublime.

Ennio Morricone . Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo. Concerto em Veneza. 10.11.2007.

Ennio Morricone. Ester. Os Oito Odiados. 2016.

O amor é a melhor cura

The Last Judgement, fresco, detail, Giorgio Vasari (1511-1574) Cupola di Santa Maria del Fiore, Il Giudizio Universale

The Last Judgement, fresco, detail, Giorgio Vasari (1511-1574) Cupola di Santa Maria del Fiore, Il Giudizio Universale

A queda é um dos movimentos mais temíveis do imaginário humano. No anúncio brasileiro Fall, do Hospital do Amor, a queda é mais demorada, dramática e pungente do que a turbulenta descida aos infernos nas pinturas e nas esculturas do Juízo Final. Mas, neste anúncio, a queda revela-se reversível: a vítima é resgatada pelo amor.

Marca: Hospital de Amor. Título: Fall. Agência: WMcCann. Direcção: Paulo Garcia. Brasil, Maio 2018.

O superpoder do homem banal

 

Gigliola

Gigliola Cinquetti

Os artigos anteriores pecam por excesso de pretensão intelectualóide. Costuma curar-se com uma pitada de humor, se possível, brejeiro, acompanhada por um dedo de música ligeira. É um excelente oxigenante cerebral.

O anúncio Power of the Crunch, da Doritos, convoca a magia e o superpoder. Como a poção mágica do Asterix ou os espinafres do Popeye. Uma dentada num dorito e o maravilhoso acontece. Uma “mulher objeto” fica toda despida, excepto a lingerie; a caixa do multibanco tem uma disenteria de dinheiro; o polícia fica reduzido a um macaco. O que passa pela cabeça de um homem quando come um dorito? O mesmo de sempre: sexo, dinheiro e poder! Apenas falta a desmancha-prazeres do costume: a morte num autocarro. Mas, para uma vida de prazer, a morte é pequeno estorvo.

Marca: Doritos. Título: Power of the crunch. Direcção: Eric Heimbold. Estados Unidos, Janeiro 2009.

“Sexo, dinheiro e poder”. Não resisto a recordar a canção espanhola “Salud, dinero y amor”. A saúde, a padroeira do século, no lugar do poder! A versão original data de 1967 e é interpretada por Cristina y los Stop (https://www.youtube.com/watch?v=q6VapvI_uv0). Opto pela interpretação de Gigliola Cinquetti (1968), tão fresca e tão bonita! Não é a primeira vez que coloco uma canção de Gigliola Cinquetti; aproveito para acrescentar a canção Dio come ti amo, de 1966.

Gigliola Cinquetti y El Trío Los Panchos. Salud, Dinero y Amor. 1968.

Gigliola Cinquetti. Dio, Come Ti Amo. Filme Dio, Come Ti Amo. 1966.

Portugal entornado

Dedico este artigo, exceptuando os cemitérios, aos habitantes de Antuérpia.

Cemitério Monumental de Staglieno, em Génova. 1851

1. Cemitério Monumental de Staglieno, em Génova. 1851.

O vídeo musical Les Oxalis (vídeo 1), de Charlotte Gainsbourg, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, teve a virtude de me despertar. Tanta sepultura e tanta escultura mortuária lembram-me o livro sobre a arte na morte, a minha obra de Santa Engrácia. Falta um artigo dedicado às esculturas veladas. Artigo prescindível mas que elegi para fecho do livro. Intitulado Velai por Nós, despede-se com imagens de esculturas veladas patentes em vários cemitérios europeus: Montjuic, em Barcelona; Père Lachaise e Monmartre, em Paris; Monumental, em Milão; Monumental de Staglieno, em Génova; ou o Central de Viena. Só em alguns deste cemitérios me foi dado ver esculturas, extremamente raras, com a imagem da própria morte velada (ver imagens 1 e 2). Tenho tido muito que fazer. E quando tenho muito que fazer, não faço nada! Vou começando aos poucos como se quase nada tivesse para fazer. Cada um tem a sua pancada.

Escultura da famiíia Nicolau-Juncosa no cemitério de Montjuic, em Barcelona.

2. Escultura da famiíia Nicolau-Juncosa no cemitério de Montjuic, em Barcelona. Detalhe.

Regressemos à Charlotte. Actriz e cantora célebre, trabalhou com o realizador Lars von Trier e com o grupo Air. O vídeo musical Rest (vídeo 2) corresponde a um single produzido e co-escrito por Guy-Manuel de Homem-Christo, do duo francês de música electrónica Daft Punk. Pressente-se pelo nome que o Guy Manuel é de origem portuguesa (prefiro a lusodescendente, que me lembra água). O bisavô, Homem Cristo Filho (1892-1928), foi um intelectual, jornalista e escritor português que se exilou em Itália, onde foi partidário de Mussolini.  Estranhamente, há países que deixam sair os jovens talentos e amesquinham aqueles que ficam.

  1. Charlotte Gainsbourg. Les Oxalis. Rest. 2017.

2. Charlotte Gainsbourg. Rest. Rest. 2017.

 

Tantas maneiras de dizer que te amo

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Comunicar o amor não é uma arte, é a arte. O anúncio Label of Love, da marca Monoprix, é de uma simplicidade e de uma eloquência raras.

Marca: Monoprix. Título: Label of Love. Agência: Rosapark Paris. França, Maio 2017.

Querendo a memória, o mundo é grande. Há muitas canções que dizem o amor. Entre as mais célebres constam I Just Called To Say I Love You, do Stevie Wonder, ou Hello, de Lionel Richie. Sou latino. Gosto de ser latino. Tenho ouvidos para outras músicas. Por exemplo, Te Voglio Bene Assai, uma canção de 1839, atribuída a Raffaele Sacco, na interpretação de Lucio Dalla.

Lucio Dalla. Te Voglio bene assai. Canção original: 1839.

Ou Aranjuez, Mon Amour, com música de Rodrigo, escrita por Richard Anthony e interpretada por Amália Rodrigues.

Amália Rodrigues. Aranjuez, mon amour. 1968.

Ou Te Quiero, Te Quiero, de Nino Bravo, um famoso cantor espanhol vítima de um acidente de viação em 1973, com 28 anos.

Nino Bravo. Te Quiero, Te Quiero, álbum Te Quiero Te Quiero, 1970.

A pedreira das luzes

Carrières de Lumières. Baux de Provence

Carrières de Lumières. Baux de Provence

Em Baux de Provence, em França, uma pedreira de calcário branco foi transformada num espaço museológico imersivo que acolhe exposições de obras de arte: a Carrière de Lumières. Com técnicas avançadas de projecção, as paredes, num total de 4 000 m2, animam-se com imagens gigantescas, algumas em movimento. Pela Carrières de Lumières, já passaram Paul Cézanne, em 2006, Vincent Van Gogh, em 2008, Pablo Picasso, 2009… Uma exposição com Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel e Giuseppe Arcimboldo está patente até 07 de Janeiro de 2018. Um ramalhete fantástico, acompanhado pela música de Vivaldi e dos Led Zeppelin. Um espectáculo empolgante. “Os franceses não têm petróleo, mas têm ideias”. Obrigado, Adélia!

Bosch, Bruegel e Arcimboldo. Carrières de Lumières. 2017