Archive | Abril 2019

Um passo de dança

Almada Negreiros. Cine San Carlos. Madrid.

A dança é uma vocação do corpo. É um momento em movimento. A dança abre e a dança fecha. De essencial, nada mais sucede nesta ilha de sensualidade. É uma forma simbólica que, irredutível a textos e contextos, vale em si e por si. A dança, a arte da dança, não é papel timbrado. A dança desentorpece a humanidade desde Adão e Eva. “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Genesis 3:19). Um pó que dança. Por muito que o mundo ordene, um passo de dança é um passo de dança, um rio a abraçar perdidamente o mar.

“Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We’re both of us beneath our love, we’re both of us above
Dance me to the end of love”
(Leonard Cohen. Dance me to the end of love. Various Positions. 1984).

A curta-metragem Bear and Squirrel, do programa Dancing On Ice, da ITV, espelha o nosso fascínio pelos desenhos dançantes, como, por exemplo, no filme Fantasia (1940-2000), da Walt Disney. Opto pelo excerto dedicado ao Carnaval dos Animais (1886) de Camille Saint-Saëns.

Marca: Dancing on Ice (ITV). Título: Bear and Squirrel. Produção: ITV Creative. Direcção: Kirk Hendry. Reino Unido, 2018.
Fantasia. Walt Disney. 2000. Excerto: Flamingos. The Carnival of the Animals, composição de Camille Saint-Saëns. 1886.

Demasiado velho para sonhar

Pântano da Peneda. Sem água. Fotografia de Makca. Wililoc

Há notícias funestas que ameaçam as identidades das pessoas e dos lugares. Em má hora alguém se lembrou de minerar o território do Fojo junto ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. A causa é a extracção do lítio e outras substâncias. A consequência é a perfuração do Fojo, com explosões e químicos à mistura. É difícil imaginar pior cenário. São lugares que resistiram a desafios de milhões de anos. Sossega-me acreditar que em Portugal se gosta do País. Gostam as pessoas, os animais e até os políticos. Tenho fé que a caravana, como outras, acabará por passar. O Fojo faz parte do “reino maravilhoso” que Miguel Torga pressente quando sobe rumo a Castro Laboreiro. É enorme o que está em risco: o ser, o estar, o sentir e o prazer das fragas, das águas, dos vales, das plantas, dos animais e, naturalmente, dos homens. Homens estúpidos que optam pelo que os prejudica. Que protegem a natureza com palavras e protocolos. O pior é que a minha geração está “demasiado velha para sonhar”.

Marca: Wildlife Conservation Film Festival. Título: Dream. Agência: DDB (New York). Direcção. Estados Unidos, 2016.

Nada daquilo que mostra o anúncio Dream, da WCFF, devia acontecer. E, no entanto, está a chegar ao fim… Junto a canção When I Grow Too Old To Dream, interpretada por Nicki Parrot, com Rossano Sportiello.

Nicki Parrot, com Rossano Sportiello. When I Grow Too Old To Dream @ Arborsjazz. 2011.

A triste sina de um boneco de ventríloquo

Existem vertentes em que a semiótica do corpo se manifesta simples. Por exemplo, no que diz respeito à entrada e à saída de fluxos do corpo. Salvo rara excepção, tudo o que o corpo absorve é bom: o ar que enche os pulmões, a comida, a bebida, os cremes… Em contrapartida, tudo o que o que o corpo rejeita tende a ser mau: o vómito, o arroto, a expectoração, a transpiração, a urina e as necessidades e os ventos de baixo… As lágrimas? Não sei, a ambivalência que confirma a regra. Não falei de um fluxo que sai do corpo: o hálito, tema do anúncio brasileiro The Ventriloquist. Um ventríloquo tem mau hálito e o boneco sofre as consequências…

Marca: Halitus. Título: The Ventriloquist. Agência: Propeg (Brasil). Direcção: Rafael Damy. Brasil, Abril 2019.

O primeiro passo

Bianco. The Lift. 2019.

O anúncio dinamarquês The Lift, da Bianco, revela-se inteligente, criativo, original, minimalista, lento e convincente. A interacção no elevador peca por incomunicação verbal e não verbal. Desejo sem iniciativa, sentimento sem risco, corpos sem contacto. “Amor que arde sem se ver”. Convenha-se que a interpelação do outro, seja qual for a orientação sexual, é cada vez mais problemática. E, no entanto, a menina até perdeu o emprego por excesso de utilização do elevador. Feitos um para o outro e faltou-lhes uma acendalha. Aperta-nos este nosso cerco interior, sem janela nem tranca, que nos separa de quem nos atrai!

Marca: Bianco. Título: The Lift. Agência: & Co. Direcção: Daniel Kragh-Jacobsen. Dinamarca, Março 2019.

Estou em crer que se o elevador tivesse música, o desfecho seria diferente. O primeiro passo culminaria num passo de dança. A música reduz a censura dos afectos. Para ajudar, acrescento duas músicas do compositor irlandês Phil Coulter: In Loving Memory (1998) e Tranquility (1984).

Phil Coulter. In Loving Memory. Serenity. 1998.
Phil Coulter. Tranquility. Sea of Tranquility. 1984.

Confidências de um guarda-chuva solitário

Pendurado na cancela. Fotografia de João Gigante. Livro Pedra e Pele. 2018.

O meu dono deixou-me pendurado nesta cancela metálica. Deixou-me a falar com os meus botões. Um guarda-chuva não fala? Se assim o diz, mas, na verdade, não pode não comunicar, como os humanos de Erving Goffman. O meu dono deixou-me aqui sozinho e pendurado. Pareço um marco ou um padrão: este território tem dono e o dono anda por perto. Sinais de guarda-chuva! Quem passa olha para mim e inteira-se: o Tio Zé anda nos campos. Se não houvesse outras possibilidades, a minha capacidade de comunicar seria questionável. Mas quando há alternativas, a vontade e o sentido intrometem-se. O meu dono possui dezenas de sítios para me colocar. Por exemplo, dentro da propriedade. Mas coloca-me logo à entrada. De outro modo, os transeuntes não saberiam que o Tio Zé está no campo. Para me consolar, sonho que sou um guarda imperial na fronteira de um “reino maravilhoso” (Miguel Torga).

Disse que lembro um marco. Nestes tempos de satelização, assemelho-me também a um ponto de GPS. Na minha aldeia, passa-se a palavra. Uma pessoa pode não estar comigo e saber onde estou. O Tio Zé? O Tio Zé está no campo, deixou o guarda-chuva à entrada.

Pendurado nesta cancela, aguardo a hora da missa. Se chover, vamos em cortejo. Os guarda-chuvas e os donos (ver A Sociedade dos guarda-chuvas). Abrem-se as varetas como os anjos abrem as asas. Discursos e sinais à parte, a nossa missão não é falar, é molhar-nos pelos outros.

Os guarda-chuvas apreciam a música e a dança. Quem não se lembra de Singin’ in the rain (1952)? Entre a cancela e a igreja, apetece ouvir a canção Le Parapluie (original de Georges Brassens, 1952) na versão de Yann Tiersen & Natacha Regnier (2001), com fotografias de Robert Doisneau.

Yann Tiersen & Natacha Regnier. Le Parapluie. 2001.

Inocência e Maldade

Codex Gigas / Bíblia do Diabo. Século XIII. Biblioteca Nacional da Suécia (Estocolmo). A Bíblia do Diabo é o maior manuscrito medieval conhecido. Pesa cerca de 75 quilos. Esta ilustração do diabo está na página 577.

As crianças são adoráveis. Verdade? Contam-se às dezenas os filmes, e os anúncios publicitários, em que as crianças surgem possessas e perigosas. Por exemplo, A profecia (1977), The Shining (1980), Os Filhos da Terra (1984), A Cidade dos Malditos (1995), O Sexto Sentido (1999) ou A Orfã (2007). O trailer The Power of Ideas, do Newport Beach Film Festival, envereda por esse caminho. Por trejeitos mágicos, numa espécie de vudu, uma criança provoca uma série de acidentes humanos. Há tempo para no final aludir ao Exorcista (1973). Estas imagens são chocantes. Colidem com os nossos esquemas mentais. Não estamos habituados à associação da inocência e da crueldade, nem sequer à figura do anjo demoníaco. Até os “anjos caídos”, entre os quais Lúcifer, começam bons e acabam maus, mas não se oferecem bons e maus ao mesmo tempo. Mas a inocência pode abraçar a maldade. Espreite-se, por exemplo, a duplicidade de alguns heróis dos animes.

Marca: Newport Beach Film Festival. Título: The Power of Ideas. Agência: RPA. Direcção: Johan Stahl. Estados Unidos, Abril 2019.

Paródia pornográfica

Figura 1. Pornhub. Baterade. 2019

O anúncio mais recente da Pornhub, uma empresa multinacional de pornografia, é, assumidamente, uma paródia do anúncio Hilltop da Coca-Cola (1971). Digo paródia para não pensar implante de criatividade alheia. Mudam-se as garrafas e acrescenta-se um ou outro rosto com cio. Até a música é a mesma. Ressalve-se o plano final, que transforma um coro numa colina numa espécie de Land Art pornográfica (ver Figura 1 e Galeria de obras de Robert Smithson).

Marca: Pornhub. Título: Baterade. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Espanha, Abril 2019.
Marca: Coca-Cola. Título: Hilltop. Agência: McCann Erickson. Estados Unidos, 1971.

Galeria: Robert Smithson. Obras de Land Art.

A sociedade dos guarda-chuvas

À porta da igreja de Parada do Monte. Fotografia de João Gigante. Livro Pedra e Pele. 2018.

Com Álvaro Domingues (coordenador), João Gigante e Daniel Maciel, participo, desde 2017, numa investigação sobre a freguesia de Parada do Monte, em Melgaço. Inventariaram-se documentos, nomeadamente imagens, organizou-se uma exposição (Somos os que aqui estamos – em trânsito), e publicaram-se vários textos. Acresce o livro de fotografias de João Gigante, Pedra e Pele, editado no verão passado (2018). Está ainda na forja um livro global. Este ano, abordamos uma outra freguesia de Melgaço: Prado.

Os objectos falam, diria Edward T. Hall (A Linguagem Silenciosa, 1959; e a Dimensão Oculta, 1966). Mas importa entendê-los. Os objectos são, provavelmente, os melhores analisadores da vida social. Prenhes de sentido, interpelam-nos sem nos atordoar com palavras. São estuários de sentido. Por estranho que seja escutar o silêncio dos objectos, há momentos em que não temos outra solução senão dialogar com eles. Por exemplo quando participei na exposição Vertigens do Barroco, no Mosteiro de Tibães, em 2007, e na criação de um espaço museológico (Espaço Memória e Fronteira, em 2007, em Melgaço). Os objectos falam, calados. É verdade que somos nós quem fala. Nos livros de Álvaro Domingues, os objectos não desdenham posar e confidenciar uma nuvem de discursos esfíngicos.

À porta da igreja, num bengaleiro com varões metálicos cravados no granito, os guarda-chuvas esperam, quietos e mudos, os donos. Tanta gente vê e ninguém presta atenção. São guarda-chuvas e toda a gente sabe que um guarda-chuva é um guarda-chuva. Mas o João Gigante tirou-lhes um retrato. Fotografar é transubstanciar. Os guarda-chuvas já não tremem com o vento mas ganham uma nova vida e cativam novos olhares. As notas numa pauta proporcionam música, os guarda-chuvas numa fotografia proporcionam interrogações e pistas. A disposição dos guarda-chuvas no bengaleiro depende da decisão dos donos. Penduro-o aqui ou ali? Ou não o penduro? Uma sociedade comporta pessoas que se avizinham e compactam configurando grupos e massas. Os guarda-chuvas também se encostam uns aos outros (ver o segundo varão à direita). Outros distanciam-se. Em pequenos grupo (primeiro varão à esquerda) ou individualmente (segundo varão à esquerda e, destacado, no terceiro varão. Uns estão pendurados, outros enfiados. Dois guarda-chuvas dispensam o bengaleiro, encostando-se à porta da igreja. João Gigante tem destes encantamentos: transforma um conjunto de guarda-chuvas numa alegoria da diferenciação social.

De Profundis

Figura 1. Aurora consurgens. Manuscrito iluminado do século XV no Zurich Zentralbibliothek (MS. Rhenoviensis 172).

“A liberdade pertence àqueles que a conquistaram” (André Malraux). “A liberdade é poder escolher as suas cadeias”. Comer aquilo de que se gosta e não gostar do que se come. Os meus colegas são amigos, partilham comigo o trabalho. Dizem que o trabalho é um elemento básico da auto-construção do homem; “é pela mediação do trabalho que a consciência se torna consciência para si” (G.W.F. Hegel, A fenomenologia do espírito, 1807). A frase “o trabalho liberta” marca a entrada do campo de concentração de Auschwitz (Figura 2). Ressalvando, eventualmente, a ergoterapia, o trabalho não redime nem liberta. O trabalho é um castigo. Desde Adão e Eva. O Tendências do Imaginário é uma tábua de salvação. Rumino, logo existo. Formiguem globalmente, mas deixem-me divagar devagarinho! Espero que o Tendências do Imaginário demore a cair na sopa de nabos. As vanitas da arte não enganam: tudo que sobe, afunda-se.

Figura 2. Campo de concentração de Auschwitz.

Os festivais de cinema costumam publicar trailers criativos. Por exemplo, em Portugal, o IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema, o Festival do Clube de Criativos de Portugal ou o Festival Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer. O Newport Beach Film Festival, dos Estados Unidos, é uma referência. Retenho dois anúncios. O primeiro, Go Deeper (2017), é uma vanitas pós-moderna. O naufrágio da grandeza e do prazer. O segundo, Jane Doe (2005), releva de uma drôlerie (gracejo) ao jeito das iluminuras dos manuscritos medievais (marginalia; Figura 1): a cobiça técnica aliada à morte burlesca numa praia deserta com areia espezinhada.

Marca: Newport Beach Film Festival. Título: Go Deeper. Agência: RPA. Direcção: Jed Hathaway. Estados Unidos, Abril 2017.

Magic. Jogar aos monstros

Magic. The gathering.

“Il est bien peu de monstres qui méritent la peur que nous en avons.” (André Gide, Les Nouvelles Nourritures, 1935).

Vampiros, lobisomens, serpes, ogres, dragões, harpias, minotauros, demónios, bruxas, papões, cabeçudos, zombies, são figuras recorrentes do imaginário fantástico da humanidade. Afirmam-se como entidades monstruosas e grotescas. A relação com os monstros desafia o nosso entendimento. Wolfgang Kayser (O Grotesco, 1957) define o grotesco, inspirando-se em Sigmund Freud, como estranhamento. O mundo que nos é familiar torna-se estranho, eventualmente ameaçador. “Foge debaixo dos pés”. Com o grotesco ocorre uma desfamiliarização do familiar. Há algo de estranho neste estranhamento. Como conceber as situações em que o estranho se torna familiar? Quem passou anos a fio a ler mangas ou a imergir em videojogos pode avançar-se que as respetivas imagens lhe permanecem estranhas? O Shrek e o Smeagol são estranhos? São uma ternura de brinquedos. Esboça-se uma certa cumplicidade na experiência do estranhamento, na própria configuração do estranho. Um dos principais contributos de Wolfgang Kayser consistiu na concepção do grotesco e do estranhamento como uma relação dinâmica e não como um confronto de essências desencontradas.

Serpe na festa de São João, em Braga.

O Shrek assevera-se mais familiar, menos grotesco, do que o mais mediático dos presidentes da república. Nesta espécie de interacção dialógica acontece um efeito de Coco. Como sublinha Omar Calabrese, a propósito do filme A Coisa (2011), de John Carpenter, há monstros que são vazios e, mais do que disformes, mostram-se informes. Carecem do envolvimento, do “sacrifício”, das vítimas para assumir a missão e ser o que são. Coco, à semelhança do Papão, é um monstro originário de Portugal e da Galiza. “Não é o aspecto do coco mas o que ele faz que assusta a maioria das crianças. O coco é um comedor de criança (um papa-meninos) e um sequestrador. Ele imediatamente devora a criança e não deixa rastro dela ou leva a criança para um lugar sem volta. Mas ele só faz isso às crianças desobedientes (…) O coco toma a forma de qualquer sombra escura e fica (…) de guarda” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Coca_(folclore). Apetece relembrar que “os monstros somos nós”. O fantástico conhece, nos nossos dias, uma exuberância inédita. O jogo Magic, antes com cartas materiais, agora também online, é um caso de sucesso global. Emerge, submerge e reemerge mais forte. Ao ritmo da adesão lúdica e emocional dos jogadores.

Albertino Gonçalves & Fernando Gonçalves.

War of the Spark Official Trailer – Magic: The Gathering.
Magic: The Gathering – Guilds of Ravnica: Official Trailer. 2018.