Zodíaco do Antigo Egipto. Entre o sonho e a realidade

“Dói-te alguma coisa?
Dói-me a vida, doutor.
E o que fazes quando te assaltam essas dores?
O que melhor sei fazer, excelência.
E o que é?
É sonhar.”
(Mia Couto, O fio das missangas. Caminho, 2003)
Sonho, logo insisto! No palco de um teatro grego, a Universidade retira a máscara clássica e anda de mãos dadas com a Farsa, enquanto, devagar e sorrateiro, se aproxima o Trágico. Dou um esticão nos neurónios e catapulto-me para o outro lado do Mediterrâneo. No que resta do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egito, a 50 quilômetros ao sul de Luxor, a poeira de séculos e as inconveniências das aves ocultam relevos magníficos e pinturas prodigiosas.
Oportuna, uma equipa de arqueólogos da universidade alemã de Tübingen empenha-se numa lenta e longa limpeza, sistemática, profunda e cuidada das colunas, paredes e tetos. À semelhança dos frescos e mosaicos de Pompeia, o que cobre acaba por preservar. Oferece-se uma policromia extraordinária, quase intacta, de deuses híbridos e figuras astrológicas, incluindo um zodíaco da era ptolemaica, motivo raro importado dos babilónios ou dos romanos, que, milenar, nos interpela. Um tesouro insuspeito de cores vivas. O Egipto não se cansa de nos surpreender!
E flutuo, lúdico, a ensaiar identificar os signos: sagitário, escorpião, leão, balança, gémeos… Eis que, de súbito, esferas animadas dançam na noite escura do ecrã. Estremeço, belisco-me, esfrego os olhos… Afinal, não são sonhos, senhor(a), mas realidades!
Galeria: Fotografias do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egipto

















De longe até jamais


Só sei que pouco fui. Porventura, tímida semente e efémera centelha.
Resvalar para dentro de si e sentir-se bem a sós consigo é um terno e doce conforto. Propicia-se a imaginar alguém a sorrir-nos de muito longe, a dois dedos do infinito. E invade-nos, lenta e suavemente, uma consolada gratidão.
… um abraço digital.
So fucking special: maravilhas e aberrações

A vida é composta por pequenos rituais. Ao acordar, um comprimido para a tiróide, a medição da tensão e da glicémia e o compasso de um cigarro. Ao trigésimo minuto, o pequeno almoço: café com leite, pão com queijo e uma tangerina. Enquanto a descasco, encanta-me a maravilha que tenho nas mãos. Tanta riqueza que a natureza, recatada, produz!
Livro de Horas, França, séc. XV. Amiens, Biblioteca Municipal, ms. 107)
Resultam, por exemplo, únicos, imensos e fantásticos os sabores, as formas, as texturas e as cores dos frutos. Após cinco comprimidos e outras tantas gotas, novo cigarro, refrescado com água mineral natural gasocarbónica, de preferência de Melgaço.

Aproveito para escutar música: Hoje, uma versão da canção Creep, dos Radiohead. E volto a cismar no excesso, na complexidade e na diversidade do mundo e da vida. Agora, insinuam-se outras criaturas, os monstrinhos, essa outra maravilha que Deus nos deu. Principia deste modo, quase religiosamente, um novo dia.
Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. Final séc. XV. Flandres

Seguem duas versões da canção Creep: o cover pelos Postmodern Jukebox (2015) e, naturalmente, o original, o primeiro single dos Radiohead (1992). Um pequeno apontamento: na letra original, em vez de “So very special“, constava “So fucking special“. Foi censurado à nascença.
Sem Meio Termo: Poesia da Vida e da Morte e Canções de Não Sobrevivência

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15, 16)
Tenho uma costela de colecionador. Foram selos, minerais e outras preciosidades; agora, imagens, músicas e desenganos. Também medicamentos. Nove difeentes, alguns várias vezes ao dia. Comecei ontem mais um. Para a tensão. Anda alta (tanto que declinei o convite para participar hoje, 25 de Abril, num painel de 2 horas mum canal de televisão).

Nove medicamentos; outras tantas maleitas. Estou a aproximar-me de uma espécie de “transumano”. Como “parar é morrer”, não paro. E quem anda à chuva… Cismo, mesmo assim, que uma décima da tensão se deve à leitura de alguns poemas pouco ou nada apaziguadores.
Muitos sociólogos, à semelhança, por exemplo, dos médicos, namoram as artes e as letras. É o caso do Joaquim Costa que, inspirado, se dedica à poesia. Versos de uma lucidez crua e incisiva que desarmam e desconcertam. Tudo menos escrita morna. Qualidades raras! Percorri de fio a pavio o livro Poesia da Vida e da Morte (Companhia das Ilhas, 2024) e retive, para partilha, uma dúzia e meia de poemas, ciente de que numa segunda leitura, outra seria a escolha. E assim sucessivamente. Segue uma pequena compilação.
Os versos do Joaquim lembraram-me algumas canções, mais de morte do que de vida, de não sobrevivência, todas pouco ou nada relaxantes.

Atendendo ao momento [na rua entoa a Grândola Vila Morena], logo acudiram: Menina dos olhos tristes, de Adriano Correia de Oliveira (1969); Canta camarada (1969) e Cantar alentejano (1971), de José Afonso; e Manolo Mio, da Brigada Victor Jara (1977). De chorar por mais.
Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial

Está aberta, até ao 19 de julho de 2024, a 1ª fase de candidaturas ao curso de Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, projeto em que estou envolvido e empenhado desde a sua criação.
Segue em anexo um folheto de divulgação da Pós-Graduação, sendo que o edital de concurso e o formulário de candidatura podem ser consultados em: https://www.ese.ipp.pt/cursos/editais/pos-graduacoes.
Para saber mais sobre o curso, estão disponíveis duas sessões de esclarecimento online:
1.ª sessão, 7 de Maio de 2024, pelas 18h00
ID da reunião: 879 5473 8580
2.ª sessão, 26 de Junho de 2024, pelas 19h00
ID da reunião: 879 5473 8580
Instintos

Volvidos 50 anos, continuo convencido que nem a democracia é instintiva nem as ditaduras contranatura. Os cravos, frágeis, querem-se cuidados, como a rosa do Principezinho. Recoloco 4 canções, antigas, sem ilusões: Cantilena, de Francisco Fanhais (1969); Os Eunucos, de José Afonso (1970); Que Força É Essa?, de Sérgio Godinho (1972); e Pequenos Deuses Caseiros, de Manuel Freire (1973).
Celeste Martins Caeiro a distribuir cravos
Salmos

As tradições prestam-se à reinvenção. Na música, ensaiam-se, por exemplo, novos instrumentos e arranjos. O resultado é mais ou menos bom consoante a obra. Os salmos da banda israelita MIQEDEM, residente em Telavive, não desmerecem. E, convenha-se, mais vale salmos que bombas.
Coisas pequenas

Que fortuna poder entregar-se a coisas pequenas! Sem armar aos cágados, aos cucos ou em carapau de corrida, nem impar como um sapo ao ponto de não caber um feijão preto no rabo. Aliás, nas coisas pequenas é possível encontrar atalhos para as maiores.
Principezinho
Outras longitudes

Outras sonoridades, outras vozes, outros instrumentos, outros ambientes, outras longitudes… Dmitry Soul é um multi-instrumentista cujo nome, pelos vistos, nem sequer consta na Wikipédia. Seguem três interpretações de Dmitry Soul, e vários convidados, apresentadas, em 2023, no concerto “MUSIC OF THE PLANET AND BEYOND”, em Bali, na Indonésia, onde reside.
Jejum guloso
Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.
Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530
O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…
E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!
