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A herança de Sísifo

Alzheimer

No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.

Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.

Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.

Os nós da globalização

Quino 1. Cada um no seu lugar

Quino 1. Cada um no seu lugar

Global, local, glocal? Comprimido, estável, expandido? Líquido, mole, firme? Próximo, distante? Rápido, lento? Grande, pequeno? O mundo depende das nossas pegadas, das nossas relações, das nossas escalas e dos nossos mapas mentais. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.” (Protágoras). “O que conta está no interior”, a fazer fé no anúncio da Delsey Paris. Simon, após dar a volta ao mundo, encontra o que persegue, a mala, no ponto de partida. Durante a travessia, cresce-lhe a barba, entrega-se à aventura, restaura a identidade e abraça o amor paterno. Vê-se ao espelho do pai. A passagem de testemunho entre gerações é, frequentemente, pautada pela reincidência: fecha-se um ciclo, abre-se outro. E o mundo continua a girar em torno de si mesmo. Ao jeito do Quino.

Marca: Delsey Paris. Título: What Matters is Inside. Agência: Buzzman. Direcção: Against all odds. França, Abril 2018.

Mundo Quino

 

A segunda juventude: os super avós

An Old Man in Military Costume; Rembrandt Harmensz. van Rijn (Dutch, 1606 - 1669); about 1630–1631

Rembrandt. Um homem de idade em traje militar. (detalhe). C. 1630-1631. Rembrandt pintou dezenas de retratos com pessoas de idade.

A publicidade acrescentou às idades da vida os super avós. São fantásticos! São incríveis! São super jovens. “A idade é apenas um número. Uma pessoa é tão velha quanto velha se sinta.”

Durante séculos, os velhos eram simplesmente velhos. Entretanto, alguém se inteirou que “velhos são os trapos”. Em poucas décadas, os velhos tornaram-se pessoas de idade, idosos, terceira idade, quarta idade, seniores, elders em inglês, aînés no Québec e personas mayores em Espanha. Aqui e além, aflora o termo segunda juventude. Livrai-nos, senhor, se não estiveres muito ocupado, da burocracia baptismal.

Lembro-me dos anciãos com respeito, carinho e alguma poesia. Quando as nuvens brilham, penso: lá está ele a fazer fogueiras no céu. Fazia fogueiras com tudo e em qualquer sítio. Era a sua perdição e a sua penitência. Dava-nos, generoso, o prazer de as apagar. À pressa ou devagar. Foi um super avô. Resistente e inquieto. Até à última chama. Cresci com ele. Ensinou-me o sonho e o modo de o trazer no bolso.

Marca: Tivoli. Título: 175 Years of Magic. Agência: &Co (Dinamarca). Direcção: Casper Balslev. Dinamarca, Maio 2018.

O amor é a melhor cura

The Last Judgement, fresco, detail, Giorgio Vasari (1511-1574) Cupola di Santa Maria del Fiore, Il Giudizio Universale

The Last Judgement, fresco, detail, Giorgio Vasari (1511-1574) Cupola di Santa Maria del Fiore, Il Giudizio Universale

A queda é um dos movimentos mais temíveis do imaginário humano. No anúncio brasileiro Fall, do Hospital do Amor, a queda é mais demorada, dramática e pungente do que a turbulenta descida aos infernos nas pinturas e nas esculturas do Juízo Final. Mas, neste anúncio, a queda revela-se reversível: a vítima é resgatada pelo amor.

Marca: Hospital de Amor. Título: Fall. Agência: WMcCann. Direcção: Paulo Garcia. Brasil, Maio 2018.

A multiplicação dos dias

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore

21 de Março: Dia Internacional das Florestas e da Árvore. Fonte: http://www.regiaodeagueda.com.

Ontem foi o Dia Internacional da Felicidade. Hoje é o Dia Mundial da Síndrome de Down. Vem-me à memória o artigo A Felicidade é um Flor Caprichosa, publicado no dia 21 de Março de 2014.

“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída (…) o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens” (Descartes, Discurso do Método). 

A felicidade não é como o bom senso cartesiano. É, antes, como o amor pascaliano: “não tem idade, está sempre a nascer” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour). A felicidade é caprichosa. Tem, sem dúvida, condicionantes, mas não tem lugar, nem mestre. Não tem caminho, nem ponto fixo. Não se decreta, nem se prescreve. Como é voz comum, não se compra. Surpreende. Cresce e murcha como uma flor sem jardim. A felicidade não é um estado, é um movimento. É a alma a fazer surf na espuma dos dias.

Anunciante: World Down Syndrome Day. Título: Dear Future Mom. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Luca Lucini. Itália, Março 2014.

O dia 21 de Março é o dia do ano com mais dias. Para além da Primavera e da síndrome de Down, é o Dia Internacional das Florestas e da Árvore, Dia lnternacional para a Eliminação da Discriminação Racial e Dia Mundial da Poesia, Não existe no calendário tamanho dia. Por acréscimo, de 21 a 28 de Março, é a Semana de Solidariedade com os Povos em Luta contra o Racismo e a Discriminação Racial. Os dias e as semanas internacionais da ONU são díspares. Alguns surpreendem. Por exemplo, o 12 de Abril é o Dia Internacional do Voo Espacial Tripulado e o 20 de Maio é o  Dia Mundial das Abelhas (fonte: https://nacoesunidas.org/calendario/dias-e-semanas/).

Retalha-se, de algum modo, o sentimento e o pensamento das pessoas embalando-os em unidades de tempo. Em termos de modernidade, esta listagem segmentada configura uma agenda. Na nossa era, a acção quer-se agendada no local e no momento certos. Convém prever, com a devida preparação e encenação, que o 21 de Maio é o Dia Mundial para a Diversidade Cultural e para o Diálogo e o Desenvolvimento ou que, logo a seguir, a 25 de Maio, começa a Semana de Solidariedade com os Povos sem Governo Próprio.

Subsiste um detalhe que intriga: a prática de comemorar num dia vários dias. Edward T. Hall (The Silent Language, 1959; The Hidden Dimension, 1966; e The Dance of Life, 1983) assinala a tendência para o desaparecimento da polícronia e o desenvolvimento da monocronia. O polícrono mistura os tempos e as actividades sem vislumbre de agenda. Faz várias coisas ao mesmo tempo na altura que se proporcione. O monocrono guia-se, pelo contrário, pela agenda, linearmente fraccionada, uma tarefa de cada vez. Propor um dia com vários dias não é moderno. Mas não é grave. A multiplicidade também é susceptível de segmentação: As escolas comemoram um dia, os hospitais, outro, os movimentos cívicos, outro, a comunicação, outro, e ainda sobrará para as famílias.

Lição de moral

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

Livro de Horas de Simon de Varie. França. 1455.

O anúncio The Book, do United Overseas Bank, propõe uma comovente lição de moral: 1) não devemos apropriar-nos do que pertence a outrem; 2) o valor sentimental suplanta o valor pecuniário; 3) esta sabedoria deve passar de pais para filhos. Apostado no valor da honestidade, o anúncio lembra as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Lembra, também, as histórias dos livros da escola primária: A Carochinha e o João Ratão, o rato do campo e o rato da cidade; São Pedro e a ferradura; as unhas dos candidatos a emprego e outros ensinamentos do género. A retórica das boas maneiras prosseguia no ciclo preparatório com uma disciplina chamada, creio, civilidade.

De pé, colados às carteiras, olhos postos no poder, entoávamos as nossas cantorias:

“Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
E faremos tudo, tudo para aprender.

Não encontrei a letra desta canção na Internet. Creio que não a sonhei. Cantar, não a canto, que espanto o gato. Mas, ideologias à parte, não convém apagar a memória que à memória pertence. No que me respeita, vou compassar uma nova cantiga a caminho da Universidade: vamos cantar com alegria e começar um novo dia…

Marca: United Overseas Brank – UOB. Título: The Book. Agência: BBH (Singapura). Singapura, Fevereiro 2018.

Azul celeste e vermelho fogo

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelona, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

Ars moriendi, Provence 15th century.

Ars Moriendi. Provença. Século XV.

Este descrição assenta que nem um sapatinho de cristal no anúncio Final Breath, da Audi, com a ressalva de que Philippe Ariès aborda a “arte de morrer” nos séculos XV e XVI. Parentes e amigos rodeiam o moribundo. Invisíveis, as forças celestiais e infernais disputam a sua alma. Submetido a uma prova, o moribundo vê desfilar o livro da vida. Um automóvel Audi insinua-se como última tentação. Para onde vai alma? Para o vermelho fogo, a cor do carro, a cor dos demónios. Even a life lived to its absolute fullest isn’t immune to the stopping power of the all-new 2018 Audi.

A morte e o morrer tornaram-se tema corrente na publicidade. Neste caso, estamos perante uma citação, ou uma paródia, com referência implícita. Um excelente anúncio.

Marca: Audi. Título: Final Breath. Agência: Venables Bell & Partners. Direcção: Martin de Thurah. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

O feitiço da mercadoria

Cadbury's Mum's birthday

“Quem dá aos pobres empresta a deus”; “quem dá o que tem a mais não é obrigado”; “quem dá o que tem acaba a pedir”. Três provérbios, três filosofias de vida: a economia da salvação; a economia da distribuição; e a economia da perdição. Três visões distintas mas compatíveis: quem dá o que tem não é obrigado a mais, mas pode acabar a pedir.

A dádiva é um “fenómeno social total”, imprescindível à coesão e à reprodução sociais, cujos princípios e regras Marcel Mauss abordou no Ensaio sobre a dádiva (1925). A dádiva e a contradádiva geram um fluxo de comunicação e comunhão que entrelaça, interna e externamente, os grupos e as sociedades (ver Malinowski, Bronislav, Argonautas do Pacífico Ocidental, 1922).

O anúncio Mum’s Birthday, da Cadbury’s permite-me repetir uma ideia que me é cara: a compra pode não ser um ato de egoísmo ou de alienação, pode relevar de uma dádiva de si, de uma entrega pessoal e, eventualmente, de um gesto sacrificial. Com a mercadoria segue uma parte do comprador. O anúncio da Cadbury’s ilustra, primorosamente, em escassos segundos, uma realidade que escapa aos aristocratas do espírito. A criança dá amor com sacrifício pessoal. O vendedor é cúmplice: não impede o sacrifício da criança, apenas devolve, “profissionalmente”, o troco: o unicórnio, jóia prima do tesouro infantil. A mãe também entra, emocionada, no jogo: aquele chocolate sabe a amor. Receber é uma arte.

Marca: Cadbury’s. Título: Mum’s Birthday. Agência: VCCP. Direcção: Frédéric Planchon. Reino Unido, Janeiro 2018.

 

O avô

René Magritte. O Libertador. 1947.

René Magritte. O Libertador. 1947.

Lançar um anúncio que dura seis minutos e meio é uma ousadia. Talvez a solução assente numa narrativa simples, em alguns gestos simbólicos, muita poesia, muita estética e muita emoção. É o caso do El Regalo, da marca Plátano de Canárias: a interacção resume-se a três gerações: o pai, o avô, mais a neta. A cumplicidade marca  relação do avô e da neta. Partilham uma carcaça de automóvel como portal para o sonho. Falecido o avô, o pai acaba por o substituir. Diz-se que “avô é pai duas vezes”. Mas tudo muda, até a mudança (Luís de Camões). Aproxima-se o tempo em que cumprirá ao pai ser avô duas vezes: do filho e dos netos. E, por último, quem sabe, o avô da santa casa da misericórdia.

Marca: Plátano de Canárias. Título: El Regalo. Agência: El Ruso de Rocky, Espanha, Dezembro 2017.

Em terras de Espanha, vem a preceito a canção El Abuelo, de Manolo Escobar.

Manolo Escobar. El Abuelo. Aromas. 1997.

Voa, voa coração

Singapura 2

60 milhões de corações nas pistas do aeroporto de Changi. Amor, felicidade, lazer; lazer, felicidade, amor… Prazer, prazer com muita tranquilidade e ternura.

Marca: Changi Airport. Título: 60 Million Hearts. Agência: J. Walter Thonsom, Singapore. Singapura, Janeiro 2018.