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Homenagem ao professor

Intermarché. A Place to Live. 2021.

Être ensemble. La meilleure raison de mieux manger (Intermarché).

O anúncio A Place to Live, do Intermarché, não podia ser mais oportuno. Publicado no dia 30 de agosto, coincide com o início do ano letivo. Bom e belo, mas com uma história mais que batida. Numa aldeia rural, um professor, adorado pelos alunos, projeta partir para a capital. Como prova de reconhecimento e gratidão, a comunidade local organiza uma festa surpresa. A originalidade do anúncio reside em concentrar-se no banquete, desde a compra dos alimentos até ao convívio final. Uma originalidade que funciona e emociona. Para além do professor e da comunidade, o Intermarché ergue-se como o terceiro, senão o principal, protagonista. Um banquete é um banquete! “O banquete é comunicação e comunhão. Encena uma utopia festiva da abundância, da universalidade e da igualdade” (O banquete: https://tendimag.com/2017/02/20/o-banquete/). ““Quando comemos juntos, coisas boas acontecem. Seja poutine, pad thai, paella ou pemmican. Nada nos une mais do que comer juntos ” (#comer juntos: https://www.andersdenken.at/storytelling-eattogether/).

Ainda bem que se multiplicam os hipermercados para acarinhar, a contracorrente, a figura do professor! Apenas uma reserva: em termos de pandemia, o anúncio A Place to Live não fornece um grande exemplo.

Marca: Intermarché. Título: A Place to Live. Agência: Romance, Paris. Direção: Katia Lewkowicz. França, agosto 2021.

A separação do amor

Mordillo.

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?

Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.

Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Josefa de Óbidos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos.  Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.

Melancolia aveludada

Picasso. Femme assise près d’une fenêtre (Marie-Thérèse). 1932.

Gosto de escutar música. No trabalho e no lazer. Sou um melómano omnívoro. Aberto a quase todos os géneros e tendências, mas de cada apenas uma parte diminuta. A minha “discoteca” assemelha-se a um albergue espanhol com portas e janelas estreitas e filtradas. A maioria das músicas publicadas no Tendências do Imaginário tenho-as em casa. Escolho-as enquanto as escuto ou aleatoriamente enquanto percorro gavetas e prateleiras atolhadas com Cds e LPs. Tenho espírito de colecionador. Acumulo selos, moedas, pedras e minerais, picos paleolíticos, filmes, anúncios, vídeos musicais, imagens, ingratos e outras preciosidades que não vêm a propósito. Algumas relíquias e bastante desperdício.

Desta vez, o ponteiro da roleta deteve-se em Perry Blake, um cantor e compositor irlandês de culto. Uma voz e uma orquestração singulares, suaves, compassadas, melódicas e melancólicas. Seleciono quatro canções.

Sou viciado em música desde criança. Atrevo-me a resgatar mais um episódio de vida. Nos anos setenta, muitos jovens do Alto Minho e de Trás-os-Montes prosseguiram os seus estudos deslocando-se para Braga. O alojamento dispersava-se pela cidade, destacando-se, para os rapazes, o colégio D. Diogo de Sousa e, para as raparigas, o colégio, bem como o lar, Teresiano. Estava em voga a prática da boleia, um misto de poupança, aventura e bandeira ideológica. Por exemplo, nos regressos pendulares de fim-de-semana rumo às famílias do interior. Corríamos o risco de não chegar ao destino. Entre Braga e Melgaço, beneficiávamos de um último recurso: um autocarro, da Empresa Salvador Transportes, que circulava ao fim da tarde. Mas com a nossa gestão da mesada, faltava, amiúde, o dinheiro para o bilhete. O itinerário desdobrava-se por etapas (Vila Verde, Portela do Vade, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Monção), comportava sítios de espera e possuía regras, por exemplo, o primeiro a chegar era o primeiro a embarcar.

Cruzo-me frequentemente, em Moledo do Minho, com colegas e amigos de águas passadas. Acordam episódios de vida. Zé Dias, meu conterrâneo, destila memórias:

“Um domingo à tarde, eu e o Abílio, íamos à boleia de Melgaço para Braga. Chegados a Ponte da Barca, caminhámos até ao melhor local para erguer o polegar. De longe, ficamos apreensivos porque já lá estava alguém. Mas logo nos alegrámos. Escarrapachado na erva, à sombra das videiras, com a tua inseparável grafonola [um aparelho portátil com gira-discos, leitor de cassetes e rádio, oferecido por um primo, proprietário de um comercio de eletrodomésticos]. Solitário, despreocupado, prazeroso, a ouvir música e a deixar passar os carros. Só podia ser o Tino, só podias ser tu!”

Quase nunca me recordo destas anedotas que me convocam. Desconfio: falácias da imaginação ou realidade partilhada? Não obstante, admito que podia ser eu, já naquele tempo, um devoto de Santa Cecília e um caso à parte, um cromo desaparafusado.

Perry Blake. The Hunchback Of San Francisco. Broken Statues. 1998. Ao vivo no Cirque Royal, Nuits Botaniques, Bruxelas.
Perry Blake. Stop Breathing. Still Life. 1999.
James Blake. Broken Statue. Broken Statues. 2001.
Perry Blake. If You Don’t Want Me. The Crying Room. 2005.

O menino de suas mães

01. Mãos segurando flores de lótus que simbolizam a eternidade. Detalhe de escadaria de Persópolis.

“Estava invadido face à fotografia por um desejo “ontológico”. Queria a todo o preço saber o que ela “em si mesma”, através de que traço essencial se distinguia da comunidade das imagens” (Roland Barthes, La chambre claire – Note sur la photographie, 1980. Minha tradução).

Participo no projeto Quem somos os que aqui estamos, coordenado por Álvaro Domingues, focado nas freguesias do concelho de Melgaço: concluímos o estudo dos agrupamentos de Parada do Monte & Cubalhão (ver A sociedade dos guarda-chuvas: https://tendimag.com/2019/04/10/a-sociedade-dos-guarda-chuvas/); e Prado & Remoães (ver https://tendimag.com/2019/08/11/o-egomundo-e-a-pavimentacao-da-vida/). Debruçamo-nos, neste momento, sobre as freguesias de Castro Laboreiro e Lamas do Mouro (ver http://mdocfestival.pt/projetoquemsomos.php). Entre os resultados obtidos, constam quatro livros (de textos e de fotografias), exposições de fotografia documental, com os respetivos catálogos, exposições de fotografias a partir de álbuns familiares e um registo audiovisual (Fotografias faladas; ver O Baloiço: https://tendimag.com/2019/10/23/na-paz-do-senhor/).

Estes projetos, imersivos e interativos, acabam por influenciar as pessoas. As coletividades aderem e reagem. Em Prado, minha terra natal, tal como de Álvaro Domingues, despoletou-se e acentuou-se o amor pela fotografia local familiar, e o consequente entusiasmo pela revisitação e pela partilha. Dedica uma página, concorrida, no Facebook: Freguesia de Prado (https://www.facebook.com/search/top/?q=freguesia%20de%20prado). Mas estes projetos também se pautam como fonte de reflexividade. Quem estuda também se revê e reinventa. A realidade desafia-nos e sensibiliza-nos. Normalmente, como diria Marcel Mauss, quem recebe sabe dar.

02. “Grande Borga no Rio Minho” (Freguesia de Prado: https://www.facebook.com/search/top/?q=freguesia%20de%20prado). Familiares: Mãe Ilda, baixo esquerda; avô Amadeu, baixo direita; prima Delfina, tia Esperança e tia Celina, meio esquerda; tio Nino, cima à esquerda.

Surpreenderam-me duas fotografias com parentes próximos que desconhecia, a primeira colocada por Maria Morais, no dia 24 de Novembro de 2020 (fotografia 2), a segunda por Daniel Maciel, no dia 18 de dezembro de 2020 (fotografia 3). Figuram o meu avô Amadeu, a mãe Ilda, o tio Nino, as tias Celina, Leonor e Esperança, bem com a prima Delfina (ver legenda). Todos maternos. As fotografias, mais ou menos conservadas, brilham como testemunhos, memórias, afetos e fábulas.

03-. “Amigas de Melgaço” (Freguesia de Prado: https://www.facebook.com/search/top/?q=freguesia%20de%20prado). Tia Leonor, prima Eduarda, e mãe Ilda.

Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada.
(Zeca Afonso. Minha Mãe. Baladas e Canções. 1964/1967)

Pois eu tenho quatro mães: a minha mãe, Ilda, cuidou de mim até aos cinco anos e dos dezoito aos vinte e dois, já em Paris; emigrada, prossegui com a tia Celina até aos doze anos; por seu turno, emigrou; acolheu-me a tia Leonor até aos dezassete; antes do casamento, reparti-me entre a tia Celina, em Prado, e a tia Edite, paterna, em Braga. Três tias segundas mães. A minha mãe e a tia Leonor partiram, desacompanhadas, em plena pandemia. Na mesma semana, com diferença de dois dias. Conserva-se a tia Celina, um regaço de amor, felicidade e dissabores.

Quatro mães e oito irmãos. Recordo um episódio. Já docente na Universidade do Minho, regressava aos fins-de-semana a casa, ao conforto da tia Celina. Noite dentro, aguardava-me o cão, na paragem do autocarro, e, na cozinha, um escalope de vitela, com ovo estrelado e batatas fritas. Atentas ao ritual, as primas, gêmeas infantes, protestavam que a mãe cozinhava melhor para mim do que para as próprias filhas. Ainda agora se mostram, com humor, ciumentas! A diferença residia, obviamente, no apetite de um desaninhado. Anedotas de uma vida ávida de pequenos nadas.

04. O menino.

Já Tininho não sou! Não se é, contudo, menino de quatro mães em vão, redobra-se a biografia e a personalidade. Dou graças ao criador por esta fragmentação fluída e entrelaçada! Diz-se que sabe escrever direito por linhas tortas.

Albertino Gonçalves, 30 de agosto de 2021.

Aleijados

Oscilamos entre o gesto da compaixão, que sofre com o outro, e o olhar à distância que se deleita com ao espetáculo da miséria do mundo (inspirado em Hannah Arendt e Luc Boltanski).

Mendigo aleijado. Tóquio. 1965. Por Daido Moriyama.

Acorda devagar! Humano. Não te importes de perder tempo. Ganhas seiva e vida! O anúncio tailandês Beautiful Run é magnífico. Um épico do sofrimento e da solidariedade. Excessivo, lento e repetitivo. Diria, “maneirista”. Uma jovem inválida participa numa maratona para curar o pai. Não há maior competição do que aquela que mobiliza as pernas da alma.

A minha escrita foi-se tornando minimalista. Com a recente abstinência forçada, o vício agravou-se. Não escrevo textos. Escrevo esqueletos de palavras.

Marca: CP Group. Título: Beautiful Run. Agência: Ogilvy Thailand. Direção: Suwimol Suthanya. Tailândia, Julho 2021.

Sara

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo (Miguel Torga).

Sara.

E a vida sorri! A Sara nasceu no dia 15 de Julho de 2021.

Coro de natividade: Sã qui turo zente pleta. Vilancico negro português anónimo do séc. XVII. Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantata.

Mãe

Agnolo Bronzino. Panciatichi Holy Family. 1541). Hands detail.

Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade

View Post

Thomas Newman. American Beauty. Main Theme. 1999. Intérprete: Thomas Newman.

Ciúmes do futuro

Ciúmes do futuro? Ceder amor parental? O requiem do amor único? Falamos da espera de um irmão ou de uma irmã. Tudo se conjuga para gerar insegurança. As pessoas apressam-se a profetizar: vais deixar de ser morgado; os teus pais passam a ter mais um filho; a família vai mudar. Profetiza-se a perda do trono e da exclusividade. É sobre esta “tragédia” que versa o anúncio grego Jealous Guy. Os fantasmas assombram o sentimento do filho único. Trata-se de uma obsessão fictícia com dor antecipada.

Marca: Cosmote. Título: Jealous Guy. Agência: Ogilvy/Athens. Direção: Salsa. Grécia, Março 2021.

Estética de género

Gustav Klimt. Retrato de Adele Bloch-Bauer. 1907.

A Dove preza a valorização estética das belezas menos belas (vídeo 1). Seria equilibrado incluir, nesta equação cosmética, os homens? Não são, a priori, elegíveis? O milagre é apenas feminino? Na verdade, existe uma linha masculina de produtos Dove. Numa amostra de cinquenta anúncios Dove, uma meia dúzia contempla homens. Quais são os tópicos? A notícia da gravidez (vídeo 2), a feminização da masculinidade (vídeo 3), um pintor de mulheres (vídeo 4), momentos paternos (vídeo 5)… Não há beleza masculina alternativa? A beleza dos “feios, porcos e maus”? O valor da beleza conjuga-se, sobretudo, no feminino. A igualdade é fatalmente desigual. Acontece-me ficar confuso: todas as mulheres são belas, umas mais que outras, mas aquelas que são menos belas são as mais belas de todas. A Dove não desconhece o poder da beleza, relativiza-o.

Marca: Dove. Título: It’ on Us. Agência: LOLA Mullen Lowe Madrid. Direção: Lourens Van Rensburg. Espanha, março 2021.
Marca: Dove. Título: First Fatherhood moments. Estados-Unidos, junho 2015.
Marca: Dove. Título: Slow. Agência: Ogilvy & Mather (Brasil). Direção: Carlão Busatto. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Real Beauty Sketches. Agência: Ogilvy (São Paulo). Direção: John x Carey. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Calls for dads. Estados-Unidos, 2014.

Fatiar a vida

Mordillo,

Fatiar a vida ano após ano até oxidar o tempo. Sobram, afortunadamente, momentos. Ínfimos, infinitos, pessoais. Feliz aniversário!

Aidan Gibbons: The Piano. Música de Yann Tiersen.
Yves Montand. Les feuilles mortes. 1949 ou 1950. Ao vivo no Olympia. 1981.