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O valor da vida!

Singapore Life

O Tendências do Imaginário devia chamar-se Cemitério. Imagens e mais imagens da morte. Mas não é um caso isolado. A propaganda do Estado & Cia também aposta na imagem da morte. Não tenho memória de propaganda com tantas imagens da morte, em circulação quase infinita, como as fotografias dos maços de tabaco. Uma galeria macabra. Existe tanta morte na propaganda de Estado & Cia: morte na prevenção rodoviária, morte no álcool, morte na droga, morte na sida, morte na violência doméstica, morte no uso do telemóvel… De tanta imagem da morte, o que se retém? A imagem da morte. A caravana passa e os esqueletos ficam. Em tempos, o grande leiloeiro da morte era a religião. Estou convencido que, no nosso tempo, o grande leiloeiro da morte é o Estado & Cia. Requiem em cima de requiem, nem sempre bem musicados. Se desejamos mensagens de esperança, confiança, libertação, amor e vida, o mais avisado é procurar noutro lado. No sector privado. O anúncio Birth, da seguradora SingLife é um excelente exemplo de como se pode promover, inequivocamente, o valor da vida. Uma última observação: algumas imagens do anúncio são pungentes, mas, por enquanto, não existe outro modo de produzir seres humanos. Todos o sabem, mas alguns esquecem-no.

Marca: SingLife. Tema: Birth. Agência: Dentsu. Direcção: Hailey Michelle Bartholomew. Singapura, Outubro 2017.

Desconectados. Comunicação intergeracional

Elisa 2

A incomunicação no seio da família, principalmente entre os pais e os filhos, merece mais atenção por parte das entidades que vivem dos nossos problemas. Não consigo perceber as suas prioridades: ora materiais, ora simbólicas, ora esfíngicas, por vezes, de duvidosa e estranha oportunidade. O sexo que procria carece apoio. Por este andar, somos uma espécie a caminho da extinção. Na comunicação, há, pelo menos, dois lados. No anúncio Stay connected, o filho desliga a comunicação. A conexão sobrevém por vias travessas: uma situação de violência exógena. No âmbito do anúncio, é um desfecho coerente, mas não é a solução conveniente. Nunca houve tantos profissionais em comunicação e relações humanas! Nunca houve tantos organismos de solidariedade e sensibilização social! Andam descoordenados? Estrábicos? Impotentes? Sem avaliação? Sem pais e sem filhos, a sociedade torna-se insustentável. Sem comunicação, desenlaça-se. O nosso tempo transborda de causas nobres e espectaculares. Sofre de gastroenterite.

Marca: Elisa. Título: Stay connected. Agência : Bob the robot. Direcção: Pete Riski. Noruega, Outubro 2017.

O riso da velha grávida (revisto)

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

“Entre as célebres figuras de terracota de Kertch, que se conservam no Museu L’Ermitage de Leningrado, destacam-se velhas grávidas cuja velhice e gravidez são grotescamente sublinhadas. Lembremos ainda que, além disso, essas velhas grávidas riem. Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: É a morte prenhe, a morte que dá à luz” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, São Paulo, HUCITEC, 1987, pp. 22-23).

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão. Pormenor do painel central.1505-1506.

Só de imaginá-las, essas figuras de terracota fascinam. Há anos que as procuro. Resignei-me a substituí-las pela velha com um bebé enfaixado, da Tentação de Santo Antão (1506), de Hieronymus Bosch, e pelas  imagens da morte com o bebé ao colo (ver James Ensor, Morte com bebé ao colo). Alguns estudos sobre Bakhtin sinalizam uma estatueta de terracota (figura 1) que condiz com a descrição: uma mulher, aparentemente, idosa e grávida (ver, por exemplo, Vanessa Tarantini, O corpo grotesco). A estatueta provém de Kertch, contanto se encontre no Museu do Louvre e não no Museu L’Ermitage. Confesso que tenho visto e revisto esta idosa grávida, mas estou convencido que é antepassada da Gioconda: não é fácil descortinar se está ou não a rir. Tão pouco chora.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

Está tudo na Internet? Quando o objetivo é específico, tropeça-se em muito desperdício. Explorar na Internet é cada vez mais navegar numa lixeira. Parafraseando Malthus, se o crescimento da informação é geométrico, o crescimento do lixo é exponencial. De qualquer modo, quem muito procura quase alcança. “Descobri” uma estatueta com uma mulher sentada: idosa, obesa e, com boa vontade, grávida e risonha. Condiz com as figuras de terracota de Mikhail Bakhtin. Até na data (três séculos a.C.). Só não foi produzida em Kertch, na Crimeia, mas, perto, na Beócia. Também não está no L’Ermitage, mas no British Museum (figura 3).

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

Outras estatuetas de terracota aproximam-se das figuras convocadas por Mikhail Bakhtin. Falta-lhes, no entanto, um ou outro atributo: a idade, a gravidez ou o riso. Destaca-se, porém, uma imagem: uma velha risonha sentada com um bebé ao colo, da mesma época, mas da Beócia (figura 4). Tal como a mulher do British Museum (figura 3), esta figura está coberta de dobras: de sombras, do tempo, do movimento e da dialéctica dos contrários. A velha ri enquanto cuida do bebé. Não está grávida, mas sustenta o crescimento da criança. Não é “a morte prenhe, a morte que dá à luz”, mas um atalho entre a morte e a vida, um laço entre a velhice, próxima da morte, e a infância, começo da vida. O mundo dobra-se e os extremos tocam-se.

Se no lugar do riso de uma velha grávida, tivesse optado pelo sono de uma mulher volumosa, com curvas muito generosas, ficaria satisfeito, 2 000 anos antes, com a estatueta da “Vénus adormecida”, datada de 4 000 a 2 500 a.C. (Museu de Arqueologia de Valletta, em Malta). Dorme, como a Terra Mãe, à espera da (re)generação do mundo. Um sono de Inverno com sonho de Verão. Baptizaram-na Vénus (Afrodite, na mitologia grega). Parece aguardar Adónis.

Mulher adormecida. Museu de Arqueologia. Valletta, Malta. 4000 et 2500 a.C.

07. Mulher adormecida. Museu de Arqueologia. Valletta, Malta. 4000 et 2500 a.C.

Afrodite apaixonou-se por Adónis ainda este era criança. Guardou-o num cofre que entregou a Perséfone, que também se apaixonou pelo belo Adónis. Ambas as deusas reclamam Adónis. Zeus, chamado a pronunciar-se, é salomónico. Divide o ano em três partes iguais: durante os meses de inverno em que as sementes estão soterradas, Adónis vive no inferno com Perséfone; na primavera, quando as sementes germinam, Adónis vive com Afrodite; Os quatro meses restantes ficam à escolha de Adónis, que opta por Afrodite. Adónis é o deus da morte e da ressurreição, um deus ctónico, associado à vegetação. Durante a sua estadia no inferno, a terra é estéril. A partir da Primavera, a terra torna-se fértil. A vida enterra a vida, a morte dá à luz a vida. Sem tréguas, nem dramas. Uma tragédia.

10. Antonio Canova. Adónis e Vénus. 1794. Detalhe.

08. Antonio Canova. Adónis e Vénus. 1794. Detalhe.

As sociedades têm uma costela de Adónis. Mudam de lugar e de espírito consoante as estações do ano. O estudo dedicado por Marcel Mauss às “variações sazonais” dos esquimós é um clássico (” Essai sur les variations saisonnières des sociétés eskimo”, l’Année Sociologique, tome IX, 1904-1905). Na Primavera, os esquimós separam-se, partindo cada um com a sua família, a sua tenda e a sua canoa. Aproveita-se o degelo. Mal o Inverno se aproxima, os esquimós concentram-se em grandes acampamentos fixos. De fase para fase, tudo muda: a arquitectura, a vida religiosa, a economia, o direito, as relações de poder, as relações de parentesco, o convívio e a interacção social. Passa-se de um oposto ao outro.

11. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

09. A Morte de Adónis. 250 a 100 aC. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Quase todas as sociedades conhecem variações sazonais. Algumas, à semelhança de Adónis, trocam de lugar; outras, alteram-se sem se deslocar.

Em Castro Laboreiro, no século XX, muitas famílias residiam , durante o Inverno, no vale, nos lugares conhecidos por “inverneiras”; durante o Verão, viviam nas terras altas, no planalto, nos lugares conhecidos por “brandas”. Tudo e todos transitavam de um lugar para outro, incluindo os animais (Polonah, Luís, 1987, Comunidades camponeses no Parque Nacional da Peneda Gerês, SNPRCN). A vida dos emigrantes portugueses dos anos setenta também era pautada por variações sazonais acentuadas (Gonçalves, Albertino & Gonçalves Conceição, “Uma vida entre parênteses: tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”, Cadernos do Noroeste, vol. 4 (6-7), 1991, pp. 147-158). Há povoações, incluindo cidades, que se transfiguram durante a época balnear ou durante os “desportos da neve”. Tanto mudam os territórios “receptores”, por exemplo, as praias, como os territórios “emissores”, por exemplo, as cidades do interior. A vida parisiense torna-se irreconhecível durante o mês de Agosto. “É em Setembro que a vida começa a sério” Gilbert Bécaud).

Nestes casos, as variações sazonais estão associadas a dinâmicas demográficas internas ou externas. Existem, porém, sociedades em que as variações sazonais ocorrem sem qualquer movimento de população. Nas sociedades camponesas, as pessoas permanecem, mas o mundo roda com o tempo. Santo António, dos casamentos, São João, do solstício, São Miguel, das colheitas, São Martinho, dos magustos, o Natal, da generosidade, o Carnaval, da esperança, a Páscoa, da ressurreição… A cada festa corresponde uma realidade e um imaginário específicos. São versões de comunidades em constante reconfiguração. Não há grande plano ou instantâneo que as reduza ao mesmo. Talvez depois de mortas, como Adónis que, ferido mortalmente por um javali, passou a viver, para sempre, no inferno.

Entre gerações

Dad Wind

Às vezes, vale a pena apostar quatro minutos. Há jogos em que só perde quem não dá. Dar, pelo menos, quatro minutos. Aprecio tanto este anúncio que o republico. Pela narrativa, pela imagem, pelo realizador, Giuseppe Capotondi, pela música, To build an home, dos The Cinematic Orchestra, e pelo país, a Itália.

Marca: Wind Mobile. Título: Papà. Agência: Ogilvy & Mather Milan. Direcção: Giuseppe Capotondi. Itália, Setembro 2014.

Sabor de mãe

Sabor de Mãe

O Dia da Mãe no Brasil costuma ser no mês de Maio. Cheguei atrasado ao anúncio O sabor do amor de mãe, da Cheiro Verde. Lembra o título do livro Coração, cabeça e estômago (1862), de Camilo Castelo Branco. Só que, neste caso, o coração e o estômago suplantam a cabeça. Agrada o recurso ao paladar para dizer o amor. A comida e o sabor costumam andar, por preconceito, arredados dos sentimentos nobres.

Marca: Cheiro Verde. Título: O sabor do amor de mãe. Agência: Pirueta. Direcção: Magrão. Brasil, Maio 2016.

Vulnerabilidades. Feliz dia do pai, mãe!

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São raros os anúncios dedicados às famílias monoparentais, apesar de serem muitas e respeitáveis! Segundo o censo de 2011, existem em Portugal 480 443 famílias monoparentais (298 141 com pelo menos um filho menor de 25 anos); 416 343 só com a mãe; 64 100 só com o pai; o número de famílias monoparentais tem aumentado a um ritmo acelerado: em 1991, havia 254 261 famílias monoparentais, vinte anos depois são quase o dobro (+89%). Em 2011, no total das famílias com filhos, uma em cada cinco era monoparental (Delgado, Anabela & Wall, Karin, 2014, Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança, Lisboa, Instituto Nacional de Estatística / Imprensa de Ciências Sociais, p. 179).

Porquê tamanho apagão em tempos de fogo-de-artifício? As famílias monoparentais não são vulneráveis? O reconhecimento de vulnerabilidade propicia visibilidade nas causas públicas, mas as famílias monoparentais parecem não caber nos chavões dos movimentos sociais, nem nas ideologias da verdade redentora, nem nos lampiões da ordem cívica. As famílias monoparentais compõem uma realidade cinzenta, que não sobressai no branco, nem sobressai no preto. Uma realidade quase invisível. A este nível, estamos muito abaixo de nós mesmos! Continuamos embarcados no espetáculo de uma sociedade “pós-moderna” que navega na espuma dos dias.

Este anúncio, promovido por uma empresa neozelandesa de telecomunicações, a Spark, é uma excepção. Não para de crescer o contingente de empresas com fundações vocacionadas para a responsabilidade social. Num aspecto, o balanço é positivo: o alargamento das causas e das vulnerabilidades. Tanto mais positivo quanto a nobreza de toga que “nos” governa parece andar mirolha no seu perfume a mofo.

Ficava-me bem parar de escrever disparates. Quando muito, devia escrever apenas com tinta de limão, aquela que só se lê quando os dedos queimam. Era mais avisado assistir ao Muppet Show! Mas os Marretas de agora passam, sem graça nenhuma, nos telejornais.

Post scriptum: Recorro frequentemente à expressão “nobreza de toga” (do francês, noblesse de robe). Na França pós-medieval, a nobreza de toga distinguia-se da nobreza de armas. A nobreza de armas desempenhava funções militares e ostentava títulos hereditários ancorados no tempo. A nobreza de toga acedia ao aparelho de Estado através da compra (e venda) de cargos nobilitantes e da obtenção de diplomas académicos (com direito a toga). Como sublinha Lucien Goldmann (1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard), a nobreza de toga estava dependente do aparelho de Estado, de cuja dinâmica lhe advinham as glórias e as tragédias. Os nobres de toga lembram, vagamente, os apparatchik da União Soviética.

Marca: Spark. Título: Celebrate Family. Agência: Colenso BBDO. Nova Zelândia, Setembro 2017.

O parto na Idade Média (revisto)

01. Escultura romana em relevo com uma parteira a ajudar a um nascimento

01. Escultura romana em relevo com uma parteira a assistir a um nascimento

« J’étais presque mort quand je vins au jour » (Chateaubriand, 1899 [1848-50], Mémoires d’Outre-Tombe, Tome I, Paris, Garnier Frères, Libraires Editeurs, p. 24).

Faz 26 anos que numa praia alentejana um amigo brincou com o teste de gravidez: “Que vais fazer a Odemira? Urina em água com camarões; se morrerem, estás grávida!” Assim se arremedam as artes de divinação medievais, tão infalíveis quanto o balde de marisco. Na verdade, na Idade Média, um dos testes de gravidez mais populares consistia em “regar com urina sete grãos de trigo, sete grãos de cevada e sete favas; aquele que não conseguir fazê-los germinar em sete dias será incapaz de germinar a sua própria semente” (Franck, Manuela, La représentation de la stérilité, du moyen âge aux temps modernes: https://perso.helmo.be/jamin/euxaussi/famille/steril.html).

02. Nascimento de Esaú e Jacob. Iluminura por François Maitre. Circa 1475–1480

02. Nascimento de Esaú e Jacob. Iluminura por François Maitre. Circa 1475–1480

Há desígnios de Deus que pedem consagração terrena. Por exemplo, a procriação, missão capital do cristão medieval, nas esferas económica, social, política e religiosa. A ausência de filhos era um estigma que raiava o pecado. A culpa é sistematicamente atribuída à mulher, herdeira de Eva e de Madalena. A infertilidade não é fado, nem vontade de Deus, nem capricho da Natureza; radica no mau comportamento da mulher. A infertilidade é, assim, encarada como uma punição.

03. Menir de Kerampeulven. Hel goat. Finistère (bilhete postal, início do séc. XX)

03. Menir de Kerampeulven. Hel goat. Finistère (bilhete postal, início do séc. XX)

O nascimento de uma criança representa uma bênção na Idade Média. Um casal sem filhos perde posição, poder e prestígio. Impõe-se como uma preocupação global, tanto do servo como do rei.

“Ao contrário das ideias correntes, a criança na Idade Média é amada e, sobretudo, desejada. Sendo, na época, a mortalidade infantil extremamente elevada, tenta-se conceber o maior número possível de crianças. Filipe de Navarra escreve em Les quatre âges de l’Homme, em 1260, que a criança é considerada como o herdeiro que renova as gerações, garante a continuidade da linhagem e perpetua a memória dos antepassados. Assevera-se, assim, crucial para as famílias ter vários filhos, em particular, machos” (Grossesse et accouchement au Bas Moyen Age. La médecine au Bas Moyen Age en Europe : https://medecinemedievaleeurope.wordpress.com/2015/04/05/62/).

04. Plonéour-Lanvern. Dança do menhir no Dia do Perdão (bilhete postal, início do séc. XX)

04. Plonéour-Lanvern. Dança do menhir no Dia do Perdão (bilhete postal, início do séc. XX)

Não faltam receitas e rituais para propiciar a gravidez. A maior parte, de pendor mágico-religioso. Por exemplo, rodear-se de talismãs ou de bonecas, comer determinados alimentos, beber ou banhar-se em fontes milagrosas, mormente sulfurosas, tocar ou esfregar-se em menires (Figuras 03 e 04), ferrolhos das portas e badalos do sinos das igrejas, sem descartar a bruxaria e, apesar da “falha” feminina, o recurso a sementes alheias (Ver La grossesse au Moyen Age, entre rituels et croyances: http://www.racontemoilhistoire.com/2014/09/02/devenir-mere-au-moyen-age-croyances-rituels/).

05.Ambroise Paré. Oeuvres. Paris. G. Buon. 1575

05. Ambroise Paré. Oeuvres. Paris. G. Buon. 1575. Na Idade Média, o realismo coexiste com a fábula. À primeira vista, a gravura lembra uma ilustração de uma nova técnica para sustentar o ventre. Mas a inscrição não engana, a barriga é mesmo hiperbólica; “Coisa admirável uma mulher carregar vinte crianças vivas”. Fabuloso!

As práticas (…) mais frequentes na idade média para curar a esterilidade são de foro religioso. É a via mais evidente para as mulheres que aprenderam que é na tibieza da sua fé que está a origem das suas desgraças e que, portanto, o Céu revela-se todo potente para as curar. É, essencialmente, pela oração que as mulheres estéreis se dirigem a Deus, a homens mortos e oficialmente santificados com a esperança de vencer a esterilidade. As práticas meio religiosas, meio supersticiosas da idade média que aliam magia, medicina e religião são infinitas (…) A tradição popular atribui importância às águas termais para a cura da esterilidade. Estas águas foram durante muito tempo mal vistas pela autoridade eclesiástica, porque as fontes quentes, por sinal as mais úteis, parecem aquecidas pelo fogo do inferno (as águas dos diabos), o que resulta confirmado pelo cheiro a enxofre que, por vezes, exalam” (Franck, Manuela, La représentation de la stérilité, du moyen âge aux temps modernes: https://perso.helmo.be/jamin/euxaussi/famille/steril.html).

06. N. Senhora do Ó, ou da Expectação. Portugal, séc. XIV. Museu Nacional de Arte Antiga

06. N. Senhora do Ó, ou da Expectação, séc. XIV. Museu Nacional de Arte Antiga

A gravidez era encarada como um estado excepcional, de ordem quase sagrada. Isentava a mulher grávida de obrigações, tais como assistir às cerimónias religiosas ou ser citada, ou castigada, em justiça. Devia respeitar uma rigurosa abstinência sexual, mas não era dispensada de trabalhar até ao dia do parto. As roupas queriam-se largas, sem cintura, de feição a não apertar o ventre.

Ontem como hoje, a mulher grávida confronta-se com uma panóplia de preceitos e interditos, nomeadamente alimentares. Abundavam os rituais mágicos. Desfaziam-se, por exemplo, todos os nós da casa para evitar que o cordão umbilical se enrodilhasse. Tinham, como hoje, direito aos seus caprichos, que competia ao marido satisfazer.

Durante a gravidez, justifica-se a devoção a Nossa Senhora do Ó, a “Virgem barrigudinha” (http://silentstilllife.blogspot.pt/2010/05/o.html). Naquele tempo, era mais arriscado parir do que guerrear. A mortalidade era elevada, para a mãe e para a criança.

 

07. Parto de  gémeos. Chururgia, por Gerard of Cremona. Séc. XII

07. Parto de gémeos. Chururgia, por Gerard of Cremona. Séc. XII

“A mortalidade endógena (que corresponde aproximadamente à mortalidade perinatal dos nossos dias) é muito familiar às pessoas de outrora: em média, até ao início do século XX, 25% dos falecidos antes do primeiro ano de vida morriam durante o nascimento ou nos dias seguintes (hoje, apenas 0,2%). Em certos casos, esta morte é pressentida e esperada. Muitos dos nascidos débeis (…) são considerados como perdidos. O destino dos mais fracos é morrer” (Morel, Marie-France. « La mort d’un bébé au fil de l’histoire », Spirale, 31. 3, 2004, p. 18).

Acrescente-se, como complemento, que na Idade Média acima de uma em cada quatro crianças nascidas morria antes do primeiro aniversário e cerca de metade não chegava aos vinte anos de idade.

Eram correntes os partos em posição sentada (Figuras 08 e 09). Por vezes, a parturiente permanecia de joelhos ou, eventualmente, de pé (Figura 02). (http://www.racontemoilhistoire.com/2014/09/02/devenir-mere-au-moyen-age-croyances-rituels/). Havia cadeiras próprias para o efeito.

10. Master of the Aachen Altar. Nascimento da Virgem, 1485

10. Master of the Aachen Altar. Nascimento da Virgem, 1485

O parto não era propriamente um acontecimento íntimo. Assistem familiares, amigas, matronas e parteiras (Figura 10). Importante era a presença de mulheres “experientes” que sobreviveram a muitos partos. Durante o parto, tudo pede ritualização, mais mágica do que médica. Atente-se nos seguintes procedimentos:

“Espalham-se maus odores ao nível da cabeça e bons odores ao nível da bacia a fim de incitar o bebé a sair” (Grossesse et accouchement au Bas Moyen Age. La médecine au Bas Moyen Age en Europe : https://medecinemedievaleeurope.wordpress.com/2015/04/05/62/).

11. Miniatura do livro de horas de Catherine de Cleves. Utrecht, c. 1440

11. Miniatura do livro de horas de Catherine de Cleves. Utrecht, c. 1440

“A matrona vai, então, cortar o umbigo com o comprimento de 4 dedos e enlaça-o. Acontece, frequentemente, quando é um rapaz deixar-se um pouco mais de 4 dedos de cordão, para precaver a sua virilidade. A criança é, de seguida, lavada com vinho ou álcool e esfregada com sal, mel ou uma gema de ovo. Se nenhum destes produtos se encontra disponível, recorre-se a palha húmida e morna” (http://www.racontemoilhistoire.com/2014/09/02/devenir-mere-au-moyen-age-croyances-rituels/).

Por último, enfaixa-se o recém-nascido, para manter as suas costas e as suas pernas direitas. Lembra uma múmia egípcia (Figuras 11 e 12).

“A parteira [ventrière] envolve cuidadosamente o pequeno corpo frágil em “tecidos macios” ou “blancos paños” para que os membros fiquem mais firmes (…) De facto, o bebé, na idade média, não podia mexer nem os braços nem as pernas devido ao receio que estes se deformassem. Há quem vislumbre um significado místico: mal nasce, o homem já é prisioneiro dos seus pecados” (Salvat, Michel, L’Accouchement dans la littérature scientifique mediévale, Presses universitaires de Provence: http://books.openedition.org/pup/2704?lang=fr).

Volvidos três dias, o recém-nascido é baptizado.

12. Anónimo. Cena de nascimento. Bíblia de Wenzel. Séc. XIV.

12. Anónimo. Cena de nascimento. Bíblia de Wenzel. Séc. XIV.

Se algo corre mal durante o parto, o que não é raro, existe o recurso à cesariana, operação já praticada na Antiguidade. Mas na Idade Média a cesariana só é permitida quando a parturiente já está morta. Trata-se de uma cesariana post-mortem (Figuras 13 e 14).

“O concílio de Trèves, em 1310, estipula que “quando uma mulher grávida morre, é preciso tentar de imediato a operação cesariana e batizar a criança se ainda vive. Se está morta, dever-se-á enterrá-la fora do cemitério. Se se presume que a criança está morta no ventre da mãe, não há motivo para fazer a operação e enterra-se a mãe e a criança no cemitério”” (Delotte, J. et alii, Une brève histoire de la césarienne: http://www.edimark.fr/Front/frontpost/getfiles/13084.pdf).

13. Nascimento de Júlio César,, Les anciennes hystoires rommaines, Paris, séc. XIV

13. Nascimento de Júlio César,, Les anciennes hystoires rommaines, Paris, séc. XIV

“O que importa, portanto, é que a criança viva e que, segundo a tradição cristã, seja batizada e escape ao poder de Satanás. A prática da cesariana post-mortem foi sempre encorajada, ver institucionalizada, como foi o caso sob os reis de Roma. Mas, em contrapartida, a incisão de uma mulher viva constitui um ato temerário, senão um sacrilégio: não se precipita a morte daquela que a natureza ainda pode resgatar? (…) Se a cesariana post-mortem se torna, efetivamente, uma intervenção admitida e frequentemente realizada, a incisão de uma mulher viva surge como um assassinato e colide com resistências enraizadas (Laget Mireille. La césarienne ou la tentation de l’impossible, XVIIe et XVIIIe siècle. In: Annales de Bretagne et des pays de l’Ouest. Tome 86, numéro 2, 1979. La médicalisation en France du XVIIIe au début du XXe siècle. pp. 177-189; pp. 178 e 184 ; http://www.persee.fr/docAsPDF/abpo_0399-0826_1979_num_86_2_2975.pdf).

14. Incisão cesariana. Welcome Apocalypse, c. 1420

14. Incisão cesariana. Welcome Apocalypse, c. 1420

Prática já documentada no século XVI, será necessário aguardar pelo século XVIII para que a cesariana em mulher viva faça caminho : «O século XVIII constitui em França, em toda a Europa, um período fundamental da história da cesariana: enquanto que a única intervenção admitida pelas mentalidades coletivas era a cesariana em mulher morta, a prática da cesariana sobre uma mulher viva difunde-se e impõe-se: evolução dos espíritos e progresso das técnicas”  (Laget Mireille. La césarienne ou la tentation de l’impossible, XVIIe et XVIIIe siècle. In: Annales de Bretagne et des pays de l’Ouest. Tome 86, numéro 2, 1979. La médicalisation en France du XVIIIe au début du XXe siècle. pp. 177-189; p. 177; http://www.persee.fr/docAsPDF/abpo_0399-0826_1979_num_86_2_2975.pdf). Mas a oposição à cesariana, uma impotência técnica ou mental traduzida, de algum modo, na disposição de “não matar e deixar morrer”, perduraria por longos anos.

15. O nascimento de Júlio César. Bellum Gallicum, 1473-1476. Cirugiões em vez de parteiras. A mãe aparenta estar viva. Embora retrate a realidade medieval, refere-se à Antiguidade.

15. O nascimento de Júlio César. Bellum Gallicum, 1473-1476. Cirurgiões em vez de parteiras. A mãe aparenta estar viva. Embora a miniatura retrate a realidade medieval, remete para Antiguidade romana.

Para terminar, uma sugestão: a consulta do artigo O Parto na Modernidade Avançada, no Tendências do Imaginário. Para aceder, carregar na imagem seguinte ou no endereço: https://tendimag.com/2015/08/18/o-parto-na-idade-media-e-na-modernidade-avancada-ii-a-bussola-semiotica/.

16. Frida Kahlo. Henry Ford Hospital. 1932.

16. Frida Kahlo. Henry Ford Hospital. 1932

 

É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).

O self complexo

Allegro. Masquerade. 2017.

Para Charles H. Cooley, a identidade, enquanto looking glass self,  constrói-se a partir das reacções, percebidas ou imaginadas, dos outros. A sociedade funciona como espelho, em que nos revemos e julgamos:

Cooley

Charles H. Cooley.

“Da mesma forma que ao vermos nossa face e roupas no espelho ficamos interessados neles porque são nossos, e satisfeitos ou não com eles se eles respondem ou não ao que nós gostaríamos que eles fossem; na imaginação nós percebemos na mente do outro algum pensamento de nossa aparência, maneiras, objetivos, ações, caráter, amigos e assim por diante, e somos afetados por isso de diversas formas” (Cooley, Charles H., 1902, Human nature and the social order, citado em Souza, Mariane Lima, 2005, Self semiótico e self dialógico: um estudo do processo reflexivo da consciência, Tese de doutoramento em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, p. 23).

Self refletido ou self dialógico? A identidade é construída mediante as reações dos outros ou é co-construída na interacção dialógica com os outros? Mikhail Bakhtin propõe a última perspectiva nos livros Marxismo e Filosofia da Linguagem (de ou com Volochinov, 1929) e Problemas da poética de Dostoiévski (1929).

Bakhtine

Mikhail Bakhtin

“A ideia de self dialógico baseia-se na distinção entre o eu (o que conhece) e o mim (o que é conhecido) de William James, e na novela polifônica de Mikhail Bakhtin. O self não é mais centralizado e unificado, mas descentralizado e múltiplo. A dialogicidade ocorre entre posições do self que podem ser internas (eu enquanto homem, eu enquanto filho, eu enquanto profissional, eu como membro de uma comunidade) e externas (meu pai, meus amigos, meus colegas). As vozes estão em constante conversação, algumas vezes em conflito (Santos, Maickel Andrade dos & Gomes, William Barbosa, Self dialógico: Teoria e pesquisa (http://www.scielo.br/pdf/pe/v15n2/a14v15n2.pdf, acedido 29.06.2017).

Qual é o olhar que mais bem se ajusta ao anúncio polaco Masquerade, da Allegro? O self refletido, de Charles H. Cooley, ou o self polifónico e dialógico de Mikhail Bakhtin? Talvez um outro self das muitas teorias sobre a identidade e a interacção humanas: o “tábua rasa”, o mimético, o actor, o máscara, o agência… Todas estas identidades são ficções colectivas mais ou menos bem fundamentadas. Relevam em boa parte das profecias auto-realizadas apontadas por W. I. Thomas (comThomas, Dorothy Swaine (1928). The child in America. New York: Alfred A. Knopf). Identidade significa, etimologicamente, mesmidade: vem do Latim IDENTITAS, “a mesma coisa”, de IDEM, “o mesmo”, numa alteração da expressão IDEM ET IDEM, um intensificativo para IDEM (http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/identidade/).

Alfred Schütz

Alfred Schütz

Sejamos claros, existe mesmidade e unicidade. Acerca da mesmidade, estamos conversados. Sobre a unicidade, podemos socorrer-nos de Alfred Schütz (1962, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, Dordrecht, Martinus Nijhoff Publishers). Ao falar de tipificações, de seres tipificados ou “identificados”, Alfred Schütz contrapõe os seres apostrofados, ou seja, únicos. Se as identidades colectivas podem ser (re)construídas e reduzidas a partir de uma “caixa de ferramentas científicas”, as unicidades, os seres apostrofados, resistem à redução à série e ao mesmo; são labirintos infinitos com um emaranhado interminável de fios de Ariana.

O anúncio Masquerade dá-nos a mão e não a larga. Agarra-nos e toca-nos. Conhece, porventura, as nossas vulnerabilidades.

Marca: Allegro. Título: Masquerade. Agência: Bartek, Warsaw. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. Polónia, Março 2017.

Violência fraterna

Car one

Tudo espanta os olhos de criança. No anúncio Hermanos, da Car One, uma empresa de carros usados, assiste-se a uma escalada de violência, com ressonâncias bíblicas: “Abel” e “Caim” partilham, para o bem e para o mal, o mesmo quarto. Há quem sustente que o convívio duradouro de seres humanos num espaço exíguo pode gerar mal-estar e violência. Não são os seres humanos animais territoriais que necessitam de uma “muralha de honra” (Émile Durkheim) e de um “espaço vital” (Friedrich Ratzel)? Sem essa “distância pessoal” (Edward T. Hall), os riscos de violência são incalculáveis. Com poucas letras se descreve uma teoria de triste memória.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.

Peter Paul Rubens. Cain slaying Abel. 1609.

Na publicidade, o segmento automóvel consta entre aqueles que mais convocam a violência. A violência, mais as duas primas: a sexualidade e a morte. A violência cativa, “prende”. Parte dos grandes espectáculos da humanidade são espectáculos de violência, a começar pelas execuções públicas e a terminar nos atentados terroristas. As cenas mais hilariantes dos filmes mudos, e não só, são cenas de violência, mormente, gratuita.

Parte da violência quotidiana rola sobre rodas. Ao volante e nos demais assentos viajam vulcões adormecidos de agressividade. Até o pacifista mais ecuménico sente que com o pé no acelerador consegue derrubar a Muralha da China. O automóvel ergue-se, ao mesmo tempo, como uma cavalgadura e uma armadura (ver Bestas ao Volante: http://www.jn.pt/domingo/interior/bestas-ao-volante-983646.html). Realidade, ficção ou sonho, a violência activa o olhar, a alma e o corpo (Derrick de Kerckhove).

Quer vencer uma batalha e conquistar espaço vital? Compre um automóvel na Car One.

Marca: Car One. Título: Hermanos. Agência: Leo Burnett Argentina. Direcção: Javier Usandivaras / Miguel Usandivaras. Argentina, Junho 2017.