Archive | Dezembro 2015

Andróides

O Halloween já passou, mas o próximo ano vai ter andróides como nunca. Convém dar-lhes as boas vindas.

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Nike Goat boy

Marca: Nike. Título: Johnny The Angry Android. G Agência: Goodby, Silverstone & Partners. Direcção: Michael Bay. USA, 1999.

O anúncio The Angry Android, da Nike, centra-se numa cabeça associada a uma máquina. O director , Michael Bay, realizou, entre outros, os seguintes filmes: Bad Boys (1995), A Rocha (1996), Armageddon (1998), Pearl Harbor (2001), The Island (2005), Transformers (2007), Pain and Gain (2013) e The Last Ship (2014).

No vídeo musical Dare, dos Gorillaz, também sobra uma cabeça com queda para a música.

Gorillaz. Dare. 2005.

Os dois vídeos lembram-me o livro de ficção científica I Will Fear no Evil, de Robert H. Heinlein (1970): o cérebro de um homem é transplantado no corpo de uma mulher. Ficção por ficção, se o cérebro masculino transplantado num corpo feminino acaba por pensar e agir como uma mulher, será que uma cabeça ligada a numa máquina também poderá pensar como uma máquina? E o Leviatã (1651), de Thomas Hobbes, sobreviveria sem corpo?

Matilha

Há anúncios que lembram cartoons. Do Quino ou do Mordillo, por exemplo. Poucas imagens e uma surpresa hilariante. Um pico alto num espaço ínfimo. Um cão dá um belo efeito, mas uma multidão a fazer de cão…
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Quick Le Parc.pngMarca: Quick. Título: Le parc. Agência: Young & Rubicam. França, 1999.

Acima das possibilidades

Estes anúncios polacos do Pekao Bank são inquietantes. Configuram um apelo a “uma vida acima das possibilidades”. Datam de 2007. Se tivessem circulado em Portugal, se calhar, começava a crise antes da crise (financeira global de 2008) e, se calhar, os bancos não faliam a conta-gotas. Agora, as famílias não têm a possibilidade de viver acima das suas possibilidades. Mas, “aguentando”, sobra sempre a possibilidade de sobrealimentar o Estado, com cortes e impostos. Por seu turno, o Estado acode ao sector financeiro, que, por sua vez, empobrece e endivida o país. É a “lei da vida”. O fado e a fava de um povo que Rafael Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou. Diógenes (413-323 a.C.) “procurava o homem” com uma lanterna. Antes procurasse o sentido de vergonha das elites.

Há quem confunda solução e causa. A última crise não teve origem no endividamento das famílias nem nas “gorduras” da função pública. Em Portugal, como nos demais países, a crise foi financeira, afectando, sobretudo, os bancos e as seguradoras. Que podia fazer o governo? “De mãos atadas”, a solução óbvia foi concentrar o aumento de impostos e a redução das despesas nos funcionários públicos, nos pensionistas e, de um modo geral, nas famílias. Os cortes nos salários e nas pensões, bem como o aumento de impostos, fazem parte de “solução” e não da causa. Existe uma forma eficaz de confundir causa e solução. Chama-se propaganda.

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bank-pekao-express-cash-loanMarca: Bank Pekao. Título: Fresco. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

bank_pekao_PAPMarca: Bank Pekao. Título: Cameras. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

Pelos pulmões

 

As férias prestam-se ao disparate. De que morreram os meus autores favoritos? A maioria de doenças pulmonares:

– Samuel Beckett, enfisema pulmonar;
– Jacques Prévert, cancro do pulmão;
– Jacques Brel, cancro do pulmão;
– Pierre Bourdieu, cancro do pulmão;
– Dmitri Shostakovich, cancro do pulmão;
– Max Weber, pneumonia;
– Marcel Proust, pneumonia;
– Jacques Tati, pneumonia.

Mikhail Bakhtin. Caricatura.

Mikhail Bakhtin. Caricatura.

Eis o “obituário”. Outros autores, como o Erving Goffman, morreram de outras causas. Quanto a Mikhail Bakhtin, fumador, não consegui apurar a causa da morte (ver caricatura). As doenças do coração e cardiovasculares rivalizam com as pulmonares. Enfim, os demais autores também não estão vivos.

Este anúncio brasileiro distingue-se pela estética e pela ética, qualidades raras na publicidade contra o tabagismo.

Anunciante: Unimed. Título: War. Agência: F. Nazca Saatchi & Saatchi São Paulo. Direcção: Airton Camignani.  Brasil, 2008.

O diabo e os homens

O anúncio Le diable pleure, da marca Quick, é absurdo e minimalista: um rosto, mãos e um hamburger. Nem por isso deixa de ter impacto. No anúncio do artigo anterior, o diabo foi enganado (https://tendimag.com/2015/12/26/enganar-o-diabo/). Neste, tentado, chora. O diabo mostra-se mais humano.

Por que motivo o diabo tende a ser, na publicidade, masculino, aproximando o homem do lado sinistro do mundo? Na verdade, há diabas. Nunca ouvi falar em “demónias” ou em “satanazas”, mas em diabas, sim. Há uma diaba, bem roliça, em Amarante (https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/). Nas pinturas e nas gravuras do inferno também surgem diabas a atormentar os condenados. No famoso Inferno (c. 1510-1520), da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, distinguem-se duas diabas, ambas com peitos fartos: uma, do lado direito, a importunar uma mulher; a outra, do lado esquerdo, a atestar um homem. Ao endiabrar tanto os homens a publicidade é perversa.

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Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

Na publicidade abunda a figura do homem ao volante de um caixão com rodas. Até parece a maior fonte libidinal masculina. Não sabem encontrar outras formas de prazer? Se fosse Freud, diria que parece uma regressão em massa. BMW, Volkswagen, Honda, Toyota, Ford, Audi, Renault, Volvo, Citroen, Fiat, Seat, todos carregam na mesma tecla: o homem e o seu brinquedo favorito.

O desporto, mormente o futebol, rivaliza com o automóvel. O homem a pontapear uma bola. Viril, forte, rápido e ágil. O homem objeto sob o olhar da multidão. O bambino de oro. Os estádios assumem-se como as passerelles de machos com eco nos média. Creio que a maioria dos homens não joga à bola, nem anda atrás dela, nem encara a vida como um desporto ou um espetáculo. Urge corrigir tamanho entorse na identidade masculina.

Os homens são uns animais. Sem dúvida! Não seduzem como outrora. Antigamente seduzir uma mulher era uma “conquista” demorada e incerta. Na publicidade, a sedução tornou-se mágica e tonta. Basta pegar numa chávena de café, num chapéu ou num guarda-chuva. E já está! Sedução instantânea. Mas os romeus e as vedetas não são os homens, mas os perfumes e os desodorizantes: Axe, Old Spice, Acqua di Gio… O homem regressou à natureza artificial: seduz pelo cheiro. Um soupçon aromático e ei-las nos braços. Tamanha idiotice degrada a imagem dos homens.

Estas linhas constituem um exercício meramente gratuito, próprio de quem está em férias. Não têm princípio nem fim. Um divertimento. Deu-me para ensaiar como seria glosar sobre a publicidade em sentido inverso ao habitual. Em suma, uma paródia.

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quick-demoniak-burgers-le-diable-pleureMarca: Quick. Título: Le diable pleure. Agência: Leo Burnett. França, 2008.

 

Enganar o diabo

Receita para um humor fora do normal:

  • Desempenar as ideias;
  • Aparências que enganam
  • O não lógico segue uma sequência lógica;
  • Banaliza-se o extraordinário;
    1. O pacto com o diabo é uma figura vulgar;
    2. O requisito do primeiro filho, também. O pacto é igual ao do Dr. Parnassus.
  • Sobe-se o nível do extraordinário, firmando-o na realidade;
    1. A “vítima” é homossexual;
  • Não se mistura nada; serve-se aos pedaços na devida ordem;

Este diabo é um trapalhão. Não acerta uma. Mas más apostas, quem as não faz?

Os anúncios envelhecem. Desactualizam-se. Técnica e historicamente. Sete anos é muito tempo. Em vários países, os casais homossexuais podem adoptar crianças.

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First BornMarca: Tele 2. Título: First Born. Agência: Euro RSCG. Direcção: Martin Werner. Suíça, 2008.

O relógio do morto

Gosto deste anúncio da Philips, galardoado em Cannes em 2002. Um compacto com impacto. Lembra o Teatro Pobre e, porventura, Samuel Beckett. Uma sepultura, uma pessoa idosa e um som intermitente. Uma única sequência, com uma única personagem . Um “corpo interpelado que fala”. Os argentinos são bons neste género de anúncios. Dominam a arte do absurdo convincente.

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Marca: Philips. Título: Cemetery / La montre du mort. Agência: Cravero Lanis Euro RSCG (Buenos aires). Direcção: Kuliok. Argentina, 2002.

Liturgia do paladar

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Este Natal esqueci-me de desejar um bom e guloso apetite. A Ladurée de Paris é uma delícia. À semelhança da Fouchon, a Ladurée é um dos recantos de Paris que um gourmet não deve perder. Ninguém como os franceses para criar uma liturgia do paladar. Gosto dos dias em que se celebra o sagrado com o estômago. Felizmente, são muitos.

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Marca: Ladurée. Título: Noel 2015. Produção: HK Corp. Direcção: Anaëlle Moreau. França, Dezembro 2015.

Querido Pai Natal!

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AuxmoneyMarca: Auxmoney. Título: Poet. Agência: Aimaq von Lobenstein. Direcção: Park Ellerman. Alemanha, Dezembro 2015.

Querido Pai Natal!

Como consegues dar tantas prendas? No meu país, o dinheiro não chega para os bancos.

O anúncio é bonito, não é? Mas faz-me confusão. Um barco tão belo afundava-se neste país alagado!

E aquela corrente de pessoas de mãos abertas? Prontas a disponibilizar dinheiro. No meu país, os bancos estão dispostos a pedir. Mas, a fazer fé nos discursos das entidades competentes, os desmandos dos bancos não são problema, são apenas tabu. As autoridades desvalorizam o assunto. Deve ser isto a magistratura do silêncio seletivo. BNP? BPP? BES? Banif? Um ar que se varreu. Milhares de milhões de euros? Uma irrelevância. Como ensinou Deu-la-Deu Martins, o melhor é dar aos outros o pão que não temos.

Os diagnósticos são consensuais: os bancos não são problema. A autoridade máxima explicou. A autoridade máxima segunda, também. Tal como as autoridades máximas terceiras. Mais os peritos e os comentadores nacionais e internacionais. Acrescem os banqueiros. Ficam na memória os rostos do silêncio a desfilar de sobrolho franzido fora e dentro da televisão. Não há dúvida, pelo menos assim reza a cartilha, que a responsabilidade pela crise radica na função pública e nas famílias que vivem acima das suas possibilidades. Quanto ao resto, vai pagando que a procissão ainda vai no adro!

No caso do Banif, o “custo das operações” ultrapassará os 2 000 milhões de euros. Os cortes nos salários da função pública ascenderam, em 2014, a 1 700 milhões de euros. Não chega a tampa para a panela. Pelos vistos, 2 000 milhões de euros é uma quantia irrisória. Uma gorjeta de Estado. Segundo os timoneiros da nação, o que prejudica o país, o que dificulta o equilíbrio orçamental, são os médicos e os professores “a mais” na saúde e no ensino, sem esquecer outros excessos e desmazelos do género.

Existe uma nova autoridade máxima segunda. Talvez fosse corajoso e pedagógico comunicar quanto custou ao Estado, nos últimos quatro ou seis anos, o apoio aos bancos, o ninho dos “empresários heroicos”, sem esquecer o anexo com o montante dos empréstimos. Por estranho que pareça, são os funcionários e as famílias que vivem acima das suas possibilidades quem está a pagar esta soltura do Estado e do capital financeiro. Os contribuintes têm direito à informação, tanto mais que se compram ruínas, ou seja quase nada, a preços desproporcionados.

Querido Pai Natal! Consegue, por favor, algumas palavras válidas e lúcidas. E se te der jeito, no regresso, leva contigo os sábios que imputaram a crise às gorduras da função pública e às famílias imprudentes. Leva-os! Se calhar, dão boas renas. Voltando ao anúncio, convém ter alguma cautela: neste rectângulo, tamanha legião de gente com dinheiro pode lembrar aos carneiros uma nova tosquia.

Querido Pai Natal! Para o próximo ano, vou pedir que me ajudes a convencer as autoridades máximas a fazer o balanço dos custos e dos benefícios do acordo ortográfico. No que me diz respeito, escrevo mais devagar e dou mais erros.

Querido Pai Natal, gosto muito de ti! Gosto cada vez mais do que não existe…

Albertino Gonçalves

Feliz Natal

Fra Angelico. Frescos de São Marcos. A Natividade. 1440-41

Fra Angelico. Frescos de São Marcos. A Natividade. 1440-41.

O Natal, como outras festas de Inverno, é marcado pela dádiva. Mas importa atender ao que se dá. Não há maior dádiva do que a dádiva de si.

No anúncio Surpresa, da Associação Salvador, crianças entusiasmam-se a abrir prendas que contêm recursos para a recuperação de pessoas portadoras de deficiência física. “Se os faz feliz a elas, imagine quem precisa”. Um lema algo atravessado.

A concluir, um poema de Jacques Prévert.

Anunciante: Associação Salvador. Título: Surpresa. Agência: Partners Portugal. Direcção: Pedro Varela. Portugal, Dezembro 20115.

Para ti meu amor

Fui à feira dos pássaros
E comprei pássaros
Para ti
meu amor
Fui à feira das flores
E comprei flores
Para ti
meu amor
Fui à feira das ferragens
E comprei cadeias
Pesadas cadeias
Para ti
meu amor
E depois fui à feira dos escravos
E andei à tua procura
Mas não te encontrei
meu amor.

Jacques Prévert. Paroles. 1946. Trad. José Lima.