Querido Pai Natal!

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AuxmoneyMarca: Auxmoney. Título: Poet. Agência: Aimaq von Lobenstein. Direcção: Park Ellerman. Alemanha, Dezembro 2015.

Querido Pai Natal!

Como consegues dar tantas prendas? No meu país, o dinheiro não chega para os bancos.

O anúncio é bonito, não é? Mas faz-me confusão. Um barco tão belo afundava-se neste país alagado!

E aquela corrente de pessoas de mãos abertas? Prontas a disponibilizar dinheiro. No meu país, os bancos estão dispostos a pedir. Mas, a fazer fé nos discursos das entidades competentes, os desmandos dos bancos não são problema, são apenas tabu. As autoridades desvalorizam o assunto. Deve ser isto a magistratura do silêncio seletivo. BNP? BPP? BES? Banif? Um ar que se varreu. Milhares de milhões de euros? Uma irrelevância. Como ensinou Deu-la-Deu Martins, o melhor é dar aos outros o pão que não temos.

Os diagnósticos são consensuais: os bancos não são problema. A autoridade máxima explicou. A autoridade máxima segunda, também. Tal como as autoridades máximas terceiras. Mais os peritos e os comentadores nacionais e internacionais. Acrescem os banqueiros. Ficam na memória os rostos do silêncio a desfilar de sobrolho franzido fora e dentro da televisão. Não há dúvida, pelo menos assim reza a cartilha, que a responsabilidade pela crise radica na função pública e nas famílias que vivem acima das suas possibilidades. Quanto ao resto, vai pagando que a procissão ainda vai no adro!

No caso do Banif, o “custo das operações” ultrapassará os 2 000 milhões de euros. Os cortes nos salários da função pública ascenderam, em 2014, a 1 700 milhões de euros. Não chega a tampa para a panela. Pelos vistos, 2 000 milhões de euros é uma quantia irrisória. Uma gorjeta de Estado. Segundo os timoneiros da nação, o que prejudica o país, o que dificulta o equilíbrio orçamental, são os médicos e os professores “a mais” na saúde e no ensino, sem esquecer outros excessos e desmazelos do género.

Existe uma nova autoridade máxima segunda. Talvez fosse corajoso e pedagógico comunicar quanto custou ao Estado, nos últimos quatro ou seis anos, o apoio aos bancos, o ninho dos “empresários heroicos”, sem esquecer o anexo com o montante dos empréstimos. Por estranho que pareça, são os funcionários e as famílias que vivem acima das suas possibilidades quem está a pagar esta soltura do Estado e do capital financeiro. Os contribuintes têm direito à informação, tanto mais que se compram ruínas, ou seja quase nada, a preços desproporcionados.

Querido Pai Natal! Consegue, por favor, algumas palavras válidas e lúcidas. E se te der jeito, no regresso, leva contigo os sábios que imputaram a crise às gorduras da função pública e às famílias imprudentes. Leva-os! Se calhar, dão boas renas. Voltando ao anúncio, convém ter alguma cautela: neste rectângulo, tamanha legião de gente com dinheiro pode lembrar aos carneiros uma nova tosquia.

Querido Pai Natal! Para o próximo ano, vou pedir que me ajudes a convencer as autoridades máximas a fazer o balanço dos custos e dos benefícios do acordo ortográfico. No que me diz respeito, escrevo mais devagar e dou mais erros.

Querido Pai Natal, gosto muito de ti! Gosto cada vez mais do que não existe…

Albertino Gonçalves

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