A Ditadura do Riso. O grotesco no poder
Não sei se o século XXI vai ser religioso, agnóstico ou grotesco. Nem tão pouco se vai entoar outro fado qualquer. Não me cumpre ser profeta. Mas esboçar os traços do imaginário grotesco não se resume a um mero exercício académico de confrangedora inutilidade. Talvez importe saber diagnosticar o que lavra nestes feixes de interpelações de aparência grotesca. Na convicção de que não será tarefa fácil destrinçar, por exemplo, o trágico do grotesco, o herético do patético, o desencantamento do reencantamento, a utopia libertária da sereia totalitária (“O delírio da disformidade: o corpo no imaginário grotesco”, Comunicação e Sociedade (vol. 4, 2002, pp. 117-130).
Os ventos parecem favoráveis a totalitarismos de todas as cores e a “personalidades autoritárias” de todos os feitios, com o grotesco a grassar cada vez mais nas esferas do poder.

Talvez não seja de todo despropositado recordar o conceito de personalidade autoritária proposto por Theodor W. Adorno e demais colegas da Escola de Frankfurt no livro The Authoritarian Personality, publicado em 1950. Pretendia-se, então, diagnosticar quais eram os traços psicológicos que predispunham ao fascismo.
Imagem: George Grosz – Os Pilares da sociedade, 1926
Segundo as conclusões deste estudo, as principais caraterísticas da personalidade autoritária são as seguintes:
Convencionalismo – Apego rígido a valores tradicionais estabelecidos pela autoridade dominante.
Submissão Autoritária – Disposição para obedecer e se submeter a autoridades vistas como legítimas.
Agressividade Autoritária – Tendência a rejeitar e punir aqueles que não seguem normas convencionais.
Anti-intelectualismo – Desconfiança em relação ao pensamento crítico e à complexidade das ideias
Preocupação Exagerada com a Ordem e o Poder – Necessidade de estrutura rígida e hierárquica na sociedade.
Hostilidade a Grupos Minoritários – Preconceito contra aqueles considerados “diferentes” ou “inferiores”.
Pensamento Estereotipado – Visão simplista e categórica da realidade, baseada em rótulos fixos.
Projeção Psicológica – Atribuição de impulsos reprimidos a outros, especialmente a grupos marginalizados.
Ceticismo em Relação à Democracia – Preferência por sistemas mais autoritários em detrimento da liberdade individual.
Adorno e seus colegas usaram a Escala F (Fascismo Scale) para medir essas tendências e argumentaram que a personalidade autoritária nasce de experiências de socialização repressiva na infância, especialmente em lares muito rígidos e disciplinadores. Essa teoria foi fundamental para entender o autoritarismo e os mecanismos psicológicos do preconceito. (ChatGPT, 06.03.2025)
Em conformidade, foi construída uma escala, a Escala F, para aferir a propensão dos indivíduos a desenvolver personalidades autoritárias e atitudes favoráveis ao fascismo. Composta por nove dimensões, a escala consiste num conjunto de afirmações perante as quais os entrevistados expressam a sua concordância ou discordância. As nove dimensões são, esquematicamente, as seguintes:
“Convencionalismo – Forte adesão a valores tradicionais da classe média.
Submissão Autoritária – Disposição para obedecer cegamente autoridades consideradas legítimas.
Agressividade Autoritária – Tendência a rejeitar e punir aqueles que desafiam normas convencionais.
Anti-intracepção – Rejeição da subjetividade, imaginação e do pensamento introspectivo.
Superstição e Estereotipia – Crença em destinos sobrenaturais e tendência a categorizar rigidamente pessoas e eventos.
Poder e “Dureza” – Valorização excessiva da força, dominação e hierarquia social.
Destrutividade e Cinismo – Visão negativa e punitivista da humanidade.
Projeção – Tendência a ver nos outros os impulsos reprimidos da própria pessoa.
Sexualidade Exagerada – Preocupação excessiva com normas sexuais e condenação de comportamentos vistos como desviantes. (…)
Os participantes deveriam avaliar frases como:
“Obediência e respeito à autoridade são as virtudes mais importantes que as crianças devem aprender.”
“Nenhuma fraqueza ou gentileza deve ser permitida em um líder.”
“As pessoas podem ser divididas entre grupos superiores e inferiores.”
“A homossexualidade é uma ameaça à sociedade e deve ser severamente punida.”
As respostas eram pontuadas em uma escala de concordância, e pontuações altas indicavam forte inclinação autoritária. (ChatGPT, 06.03.2025).
A página Culture Pub elaborou uma sequência de anúncios que ilustra humoristicamente a ambivalência grotesca do poder que tanto se presta à espetacularização como à ridicularização.
Eunucos e vampiros

Se descrês da bondade humana, pouco te pode chocar. Talvez, ver quem tem o poder abusar dele e as vítimas a pedir mais. Ninguém como o José Afonso para o traduzir em poema e cantar.
Ciência portuguesa e guitarra espanhola

Johannes Vermeer, Young woman playing guitar. 1672.
“Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento (…) O homem é feito visivelmente para pensar; é toda a sua dignidade e todo o seu mérito; e todo o seu dever é pensar como é preciso” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670. Artigo XVIII. Grandeza do homem: XI e XII).
Estou a introduzir dados pessoais numa plataforma nacional de governo da ciência. Já não o fazia há muitos anos. Quando uma instituição me desilude aspiro à ignorância mútua. Nenhum contato, nenhuma solicitação, nenhuma necessidade. Prefiro o prejuízo à vénia. Espera-me canseira para alguns dias. “Pelo coletivo”, de proximidade, que respeito. Ressonâncias do poder. Acompanho a penitência com guitarra espanhola.
Marretas

Por hábito, não vejo televisão. Entretenho-me bem sozinho. Mas, por artes alheias, está quase sempre ligada. Visitam-me, assiduamente, os comentadores. Irritam-me os comentadores! Iludo-me de que não preciso de quem pense por mim. Eles conhecem, porém, o futuro. Eu, não! Conhecem, pelo menos, dois terços do futuro, reputando o terço restante negligenciável. Como cada comentador se devota ao seu próprio oráculo, somos abençoados com mais futuros do que coelhos. Não se querem ideólogos, virtude que, para mim, que não sou pós-moderno, resulta, no mínimo, suspeita. Contrabalançam a míngua de ideologia com a fartura de fulanização. Não são ideólogos mas são idólatras. Falam mal de tudo e de todos, mas escondem, com mais ou menos sucesso, os seus messias e as suas promessas de paraíso neste vale de lixo e lágrimas. Sofrem de alergias ostensivas e de afinidades discretas. No xadrez mediático e político, são cavalos, rocinantes, que investem contra reis, rainhas, torres e bispos. Trazem a verdade na barriga e a o cérebro à mão. Raramente se enganam, a não ser quando o deslize se manifesta óbvio. Dispenso, contudo, esta procissão do espírito santo, este frenesim cortesão, que jorra dos palácios de Versalhes de Lisboa e do Trianon do Porto até aos confins da nossa ignorância. Entra-nos pela janela eletrónica e teima, infelizmente, em não nos sair pela porta. Mas, com tamanha visibilidade e audiência, não podem ser senão um destino nacional. Possuem o seu próprio poder, são performativos: fazem cócegas com palavras a um povo que não se cansa de se coçar. Existe, inclusivamente, quem prefira os programas de comentários às telenovelas e aos desenhos animados.

Mulheres no poder

A Maria Beatriz, pioneira da Sociologia em Portugal, partilhou este vídeo sobre o protagonismo político de mulheres. Por princípio, não aprecio publicidade promotora de uma categoria social. A discriminação positiva é discriminação. Mas, para além da massagem, o vídeo The women are coming proporciona uma aprendizagem. Não imaginava!
O poder da língua

Há meio século, era raro um francês cantar em inglês. Hoje, tornou-se banal. A França era orgulhosa da sua língua e da sua música, incluindo a chanson française. Resultado da globalização? Há palavras ofuscantes e “globalização” é uma delas. Explica tudo e não explica nada. É como uma matrona que esconde as realidades debaixo das saias.
Num filme documentário francês, La Marche de l’Empereur (2005), Emilie Simon canta em inglês (The Frozen World). Já Désert, o seu grande sucesso, tem duas versões: inglesa e francesa. Retenho uma interpretação ao vivo da versão francesa.









