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French Kiss: A minha língua, a tua língua

Auguste Rodin. O Beijo. 1882.

Num texto português de meia dúzia de linhas, surgem as palavras: smart city, start up, ranking, call e paper. Todas as gerações têm direito às suas palavras-chave. Smart city, start up, ranking, call e paper são chavões apreciativos. Parece que o português não tem palavras para os fenómenos do presente com futuro reluzente. Caem bem palavras de outros horizontes, outras peritagens e outros poderes.
Smart city. Não é o mesmo que “cidade inteligente”. É reduzir o valor (no sentido de Saussure) da expressão inglesa que significa, também, esperteza, requinte, capacidade… Cidade esperta? O melhor é seguir viagem.
Start up. Por que não “empresa emergente”? Perdia-se a ligação à bolha tecnológica. E start up vibra com ressonâncias ascendentes: wake up; make up; pin up
Ranking? Ordenação, classificação, hierarquia, posição, nível… O português tem demasiadas palavras para dizer uma operação tão simples. Se antes pecava por defeito, agora peca por excesso.
Call. A palavra inglesa possui uma aura religiosa mais ampla e acentuada do que a palavra portuguesa “chamada”. Convoca a vocação e o chamamento, ambos pressupostos nos encontros científicos. Por sua vez, convite é, porventura, demasiado cortês.
Paper. Nada a dizer. Apenas a dissonância introduzida pelos papers electrónicos. Abençoadas as palavras que têm a sina de dizer mais do que aquilo que dizem.

Gustav Klimt. O Beijo. Detalhe. 1907-1908.

Traduzir palavras do inglês para o português é tarefa difícil. O inverso, também. Talvez o French Kiss possa ajudar.

Smart city, start up, ranking, call e paper são palavras que assumem o sentido que lhes vamos concedendo. São smart words. Smart, mesmo Smart, é o carro. Very Smart!

Assim como o Smart tem mais lugares onde estacionar, a tua língua é melhor que a minha. O mesmo texto escrito em duas línguas diferentes não tem o mesmo alcance, melhor, o mesmo impacto. A língua é poder, bem como enpowerment. Palavra de blogger.

Ocasionalmente, apetece pintar meias verdades: o fraco tende a agarrar-se ao forte.

Marca: Smart. Título : Perfect City. Agência : Contrapunto. Direcção: Hugo Menduiña. Espanha, 2016.

Não me ajudes!

Mr. Músculo. 2019.

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).

O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:

Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.

Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.

Marca: SC Johnson / Mr. Músculo. Título: No me ayudes. Argentina, Setembro 2019.

As mulheres são o máximo

Nike. Dream Crazier. 2019

As mulheres são o máximo, seja essa a sua vontade. No desporto como no resto. Ilustra-o a Nike em Dream Crazier, um anúncio enérgico. Têm crescido exponencialmente os anúncios promotores da mulher. E os homens, não há publicidade que os exalte? Porventura sem as trompetes da Nike, mas com uma mensagem mais ou menos implícita e subliminar. Num registo humorístico e invertido, o homem é mergulhado no ridículo do corpo e da mente. Porque não é o máximo quem quer! Milenar, a dominação masculina escreve torto por linhas tortas. Perversamente, como no lento e pasmado anúncio da Linx, em que, com os cocos na mão e a lâmina em riste, um homem investe contra os pelos da desgraça. Em suma, a epopeia da mulher vencedora versus a farsa do homem depilado. Joana d’Arc e Don Quixote.

Marca: Nike. Título: Dream Crazier. Agência: Wiecem + Kennedy (Portland). Direcção: Kim Gehrig. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Marca: Linx. Título: The Balls. Agência: 72andSunny (Amsterdam). Holanda, Fevereiro 2019.

Previsões e antecipações

Wim Wenders. As asas do desejo.1987

Wim Wenders. As asas do desejo.1987.

Há anúncios que nos revisitam sem que tenhamos que andar para trás. O anúncio What now, what next, do Now Magazine, é notável. Um homem (ou um anjo) mediante gestos inesperados, alguns bruscos, salva pessoas de acidentes mortais. Corrige a marcha do tempo. Seguiram-se anúncios congéneres promovidos por outros órgãos de comunicação social. A comunicação social tem esta sina: prever para precaver. Não para de antecipar! Socorre-se, amiúde, de self fulfilling prophecies (William I. Thomas). Antecipar e anunciar faz parte do seu poder, o quarto poder.

As sondagens são as bruxas da política e as fadas da comunicação. Importa soletrar o futuro. Como seriam as eleições sem as sondagens? E os resultados eleitorais como seriam se a comunicação social, em vez de apregoar que (1) o candidato A vai ganhar, desconhecendo-se apenas por quantos pontos, sustentasse que (2) a disputa é acesa ou que (3) o candidato B denota uma dinâmica de vitória? São perguntas importantes para a democracia. É costume não se encontrar respostas, apenas indícios. Subsiste uma margem de ambiguidade: onde para a notícia e começa a propaganda? A “velha sociologia norte-americana” dos anos trinta a cinquenta ousou debruçar-se sobre estes problemas. Quanto à novíssima sociologia internacionalizada, desconheço a obra.

Marca: Now Magazine. Título: What now, what next. Agência: Hasan & Partners. Finlândia, 1999.

Liberdade digital

Quando um poder alheio me invade o quintal, fico zangado. Asseguram que a Internet é uma infinita liberdade rumo ao paraíso da igualdade. Como são felizes aqueles que acreditam! Atrás, ao lado, dentro ou em cima de uma rede social, de uma plataforma ou de um algoritmo estão seres humanos, feitos do mesmo barro que nós. Prepotentes, omnipotentes, omnividentes e omniscientes, são deuses ocultos. Num ápice, apoderam-se da tua conta, da tua página, do teu blogue… Armados com regras e protocolos, censuram, retificam, bloqueiam, removem. Estes poderes do mundo digital fazem de nós o resto de nada. Um grão de areia na praia da Figueira da Foz.

A que propósito vem a praia da Figueira da Foz? Este fim-de-semana, o Facebook “encerrou”, sem aviso, mais de 2 000 artigos da minha página pessoal e bloqueou as ligações ao blogue Tendências do Imaginário. Uma autêntica purga. Qual o motivo? “Spam”! Componho os artigos no Tendências do Imaginário e partilho-os na página do Facebook. Uma rotina com, pelo menos, oito anos. Levou tempo a descobrir o “spam”! Isto dói.

Muitas das músicas dos Pink Floyd são de revolta e resistência. Hoje, apetece-me ouvir o álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos primeiros álbuns no momento de viragem para a maturidade.

Gosto dos Pink Floyd, sobretudo do álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos álbuns anteriores sem ceder ainda à maturidade dos seguintes. Quando estou zangado, costumo ouvir a primeira faixa, “One of these days”, e a terceira, “Fearless”. Nos dias de indignação, os Pink Floyd oferecem-se como um bálsamo estimulante.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director's Cut).

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut).

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Jogo viciado

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

“As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra” (Italo Calvino, Les villes invisibles, 1972).

Retomo o anúncio Un jeu de société, incluído no artigo As Regras do Jogo (https://tendimag.com/2017/04/30/as-regras-do-jogo/), para ver se consigo reequilibrá-lo.

Anunciante: Observatoire des Inégalités. Título: A Social Board Game. Agência : Hérèzie. Direcção: Remy Barreyat. França, Abril 2017.

“O anúncio Un jeu de société (Observatoire des Inégalités, França) é didáctico. Mostra como a competição social se assemelha a um jogo de Monopólio com regras viciadas. Mas no jogo dos destinos sociais conta menos a parcialidade das regras e mais a desigualdade das condições. As regras até podem ser iguais para todos, o problema reside nos recursos e, por conseguinte, na probabilidade dos desempenhos. Como diria Pierre Bourdieu, falar em igualdade de oportunidades com desigualdade de condições é um logro. Uns estão como peixes na água, outros como aves num aquário” (As regras do jogo).

Na maratona da vida, (con)correm pessoas descalças, com havaianas e com sapatilhas. Os recursos influenciam os percursos. Focalizado nesta desigualdade de condições, o texto subestima o poder das regras. Na realidade, as regras não são decorativas. São interessadas. Constrangem. Abençoam e amaldiçoam os actores e as práticas. Legitimam arbitrariedades. Produtos do poder, consagram o poder. Sustentam-no. As regras são uma realidade que faz a realidade. São espartilhos que moldam o ser. Dizem o que é e o que deve ser. As regras não precisam de ser verdadeiras, basta parecê-lo. Alucinadas, alucinam as pessoas e o mundo.

Detail of a miniature of five Just Princes, atop the eagle of Justice, Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Até como águias carregamos os príncipes. Detalhe da miniatura dos Cinco Príncipes Justos em cima da águia da justiça. Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Propicia-se uma pitada de absurdo ao jeito surrealista. Numa localidade, inaugura-se um túnel. Limita-se a circulação a pessoas com mais de um metro de altura. O túnel é proibido a anões. Presume-se que a sua presença no túnel provoca correntes de ar. Correntes de ar que podem constipar os carros. A discriminação da regra cauciona vários corolários. As correntes de ar dos anões não dão pontos, não têm valor. A ciência ultrapassa-se a si mesma: os “anões” tornam-se um preditor: no airflow, no dwarf . Descobre-se, por último, a confirmação da regra: os anões são, afinal, alérgicos a túneis. Desembocamos num dos maiores requintes das regras. Se os anões não entram no túnel por quê proibi-los? Trata-se de uma histerese: a regra perdura para além do seu fundamento. Configura mais do que uma histerese. O objectivo da regra não reside em proibir os anões de entrar no túnel, mas em inferiorizar os anões. A regra continua a garantir a sua função latente, porventura a mais decisiva.

Esta fábula dos anões é bizarra. Mas respeita a lógica das regras. As regras são quadradas, como quadrado se desenha o mundo.

Jogadores, trapaceiros, cúmplices e tansos. O mundo é um casino.

Algumas regras vestem atavios matemáticos e científicos: categorias, indicadores, índices, variáveis, coeficientes, ponderações, fórmulas, modelos e rankings. Sem esquecer a folha de Excel. Para duas categorias profissionais com igual desempenho, as contas podem ditar que o desempenho de uma vale o dobro do desempenho da outra. Dois produtos idênticos podem ter cotações diferentes. Estamos confrontados com uma aritmética pós-Einstein. Estas discriminações arbitrárias assentam em racionalidades movidas por interesses. Quanto mais desfasada é uma regra, maior a intolerância e o zelo que suscita. A alquimia das regras apropria-se do todo e das partes. Não existe instituição, situação ou interacção social que lhe escape. Haverá “jogos de sociedade” no Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Na vertente Ciência e Tecnologia? Na vertente Ensino Superior? Por entre rácios, grelhas e ponderações, nunca se sabe. Perguntar não ofende…  Poder, se calhar, podia, mas acolher regras alquimistas no santuário da razão representa um paradoxo demasiado esdrúxulo. Quando muito, labirintos de poderes “abensonhados” (Mia Couto).

“Je voudrais vous parler d’elle sans la nommer” (Georges Moustaki). Também gostava de falar de algumas realidades sem as nomear. Neste Portugal de Abril, temos uma constituição que os entendidos dizem ser das melhores da Europa. Temos, também, um regime democrático consolidado. Ainda continuamos a ter desigualdades por decreto!

As anedotas são umas intrometidas. Acabei de me lembrar de uma  malcriada e de mau gosto. Imprópria para um professor. Mas não é o professor que a conta mas o rapaz que  que a aprendeu.

“Um inglês desce a avenida dos Aliados. De repente, vê uma viscosidade castanha no passeio.
– Isto parecer merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva faz um primeiro teste.
– Isto ser mole como merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega numa amostra e cheira.
– Isto cheirar a merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega noutra amostra e prova.
– Isto ser mesmo merda! Ainda bem que não pisei.

Georges Moustaki – Portugal – ( Fado Tropical )

Hierarquias na horizontal

Hierarquias na horizontalidade.

Hierarquias na horizontalidade. Montagem de Fernando Gonçalves. Julho 2018.

“Só aqueles que tentam o absurdo conseguem realizar o impossível” (M.C. Escher).

Com o calor, os neurónios entram em efervescência. Algumas bolhas trazem ideias. Hierarquias verticalmente semelhantes podem ter desempenhos distintos consoante a disposição horizontal.

Quando a hierarquia vertical (de cima para baixo) se replica na horizontal (da frente para trás) apenas o chefe acede à visão exterior (por exemplo, a Estátua da Liberdade). Os demais membros imaginam-na através dos olhos do chefe.

Quando a hierarquia horizontal inverte a hierarquia vertical, todos os membros conseguem ver a realidade desejada. Nesta disposição (B), a abertura ao exterior é maior. Todos os membros, do mais alto ao mais baixo, conseguem verificar, por exemplo, se a mão esquerda da Estátua de Liberdade segura a Tabula Ansata ou um tablet, bem como se, na mão direita, a tocha foi substituída pelo passarinho do Twitter.

As organizações tendem a replicar um mesmo princípio, normalmente simples e óbvio, de hierarquização. A mesma ordem preside à elegibilidade, às comissões, aos júris, às avaliações, à carreira, aos lugares, às posições e aos desfiles. Com uma ressalva: o pódio em que o primeiro é o último a subir, sobrepondo-se aos demais. Este tipo de hierarquia lembra um fractal. Possui um ADN, ou um gene, persistente. Seja qual for a circunstância, o código pré-existe. Nem sempre oportuno. Imagine que se pretende constituir uma comissão eleitoral. Nomeados os membros, falta designar o presidente. A escolha do presidente está pré-decidida: é o membro que possui a categoria mais elevada. Pouco importa se é o menos experiente, o menos indicado ou o menos disponível. Nada resiste ao código aristocrático em organizações que se apresentam como democráticas: o escolhido é, irrevogavelmente, o mais “categorizado”. Sempre o mesmo gene, sempre a mesma falácia, já sinalizada por Vilfredo Pareto (Traité de Sociologie Générale, 1917): acreditar que quem é bom numa dimensão é bom em todas as outras. Parafraseando René Descartes, Nada no mundo está mais bem repartido do que a omnisciência: toda a gente está convencida de que a tem de sobra. Mas hierarquias há muitas! Algumas, porventura menos fractais, menos fatais e menos triviais. E, também, menos infalíveis

Quando escrevo um artigo acontece-me sentir bater à porta da minha espelunca mental. Desta vez, é uma canção que quer entrar: Au suivant, de Jacques Brel. Não encontraria outra mais apropriada.

Eu e o meu rapaz mais novo dedicamos este artigo ao meu rapaz mais velho, que está no plat pays de Brel. É um apreciador da teoria dos jogos e dos esquemas de interacção.

Jacques Brel. Au suivant. Olympia, 1964.

Au suivant (Jacques Brel,
Tout nu dans ma serviette qui me servait de pagne
J’avais le rouge au front et le savon à la main
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et nous étions cent vingt
A être le suivant de celui qu’on suivait
Au suivant, au suivant
J’avais juste vingt ans et je me déniaisais
Au bordel ambulant d’une armée en campagne
Au suivant, au suivant
Moi j’aurais bien aimé un peu plus de tendresse
Ou alors un sourire ou bien avoir le temps
Mais au suivant, au suivant
Ce n’fut pas Waterloo mais ce n’fut pas Arcole
Ce fut l’heure où l’on regrette d’avoir manqué l’école
Au suivant, au suivant
Mais je jure que d’entendre cet adjudant d’mes fesses
C’est des coups à vous faire des armées d’impuissants
Au suivant, au suivant
Je jure sur la tête de ma première vérole
Que cette voix depuis je l’entends tout le temps
Au suivant, au suivant
Cette voix qui sentait l’ail et le mauvais alcool
C’est la voix des nations et c’est la voix du sang
Au suivant, au suivant
Et depuis chaque femme à l’heure de succomber
Entre mes bras trop maigres semble me murmurer
“Au suivant, au suivant”
Tous les suivants du monde devraient s’donner la main
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant
Et quand je n’délire pas, j’en arrive à me dire
Qu’il est plus humiliant d’être suivi que suivant
Au suivant, au suivant
Un jour je m’ferai cul-de-jatte ou bonne sœur ou pendu
Enfin un d’ces machins où je n’serai jamais plus
Le suivant, le suivant
Compositor: Jacques Brel.

Potentes, prepotentes e impotentes

Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

01. Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

Há pouco tempo, olhava-se em redor, só se viam prédios em construção. Agora, olha-se em redor, só se vêem hierarquias. Zelo do Homo Hierarchicus (Dumont, Louis, 1966). A igualdade é folha caída. Rankings, concursos, orgânicas, burocracias, protocolos, paradas… A cada um as suas asas de cera, mais o seu ninho de poder. Parafraseando Francis Bacon, o poder, a exemplo da aranha, tece a teia com a sua própria substância, quem nela cai raramente se levanta. Quanto mais resiste, mais se enreda.

 

Pedestais

Na Bélgica, pátria do Astérix, do Tintim, do Achille Talon e do Gastão da Bronca, resolveram colocar pessoas em pedestais para criar “monumentos humanos”. A Lusitânia também é a pátria do Zé Povinho, do menino Tonecas, do Chico Fininho e da Maria Papoila. De país para país, variam o sentido de humor e a relação com as alturas. Na Bélgica, colocam pessoas em pedestais. Parece que Bruxelas, a corte da Comunidade Europeia, tem falta de pessoas em pedestais. Na Lusitânia, semi-periférica, faltam pedestais para tantos candidatos. O problema não é tanto colocar pessoas em pedestais mas apear quem teima em se perpetuar. Os nossos pedestais, tão elevados, são invejáveis: o marquês de Pombal, em Lisboa, o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, no Porto, a estátua de Santos da Cunha, em Braga. Três pedestais, três rotundas. Afigura-se-me que o pedestal está para Portugal, com o bacalhau está para o português. O anúncio Human Monument é da Thalys, uma empresa de transporte ferroviário a alta velocidade.

Para aceder ao anúncio, carregar na seguinte imagem.

Thalys

Marca: Thalys. Título: Human monuments. Agência: Rosepark. Direcção: Julian Nodolwsky. Bélgica, Abril 2018.

Cinzas

Enforcado. Agência Mercury 360 Bucareste. Fotógrafo Ola Bell. Roménia. 2008.

Enforcado. Agência Mercury 360 Bucareste. Fotógrafo Ola Bell. Roménia. 2008.

As imagens anti tabaco são mensagens de morte. Se fossem performativas, o fumador morreria todos os dias. Mas têm a razão do seu lado. A razão hegemónica. Tanta razão proporciona uma força extrema, como, por exemplo, a dos líderes totalitários.

“Um orgulho intelectual, uma fé absoluta, perigosa, na razão – na sua razão. Podiam não acreditar em Deus, nem na imortalidade; mas acreditavam na razão, como um católico acredita no papa, ou um fetichista no seu ídolo. Nem sequer lhes vinha à ideia discuti-la. A vida bem podia contradizê-la, eles tenderiam a negar a vida. Falta de psicologia, a incompreensão das forças escondidas, das raízes do ser, do “Espírito da Terra”. Eles fabricavam uma vida e seres infantis, simplificados, esquemáticos. Alguns eram pessoas instruídas e práticas; leram muito e muito viram. Mas não viam nem liam nenhuma coisa como ela era; faziam reduções abstratas. Eram pobres de sangue; tinham altas qualidades morais; mas não eram suficientemente humanos: este é o pecado supremo. A sua pureza de coração, frequentemente muito real, nobre e ingénua, por vezes cómica, tornava-se, infelizmente, em determinados casos, trágica: ela impelia-os à dureza face aos outros, a uma inumanidade tranquila, sem cólera, segura de si, que arrepiava. Como teriam hesitado? Não tinham a verdade, o direito, a virtude do seu lado? Não recebiam a revelação direta da sua santa razão? A razão é um sol impiedoso; ela ilumina, mas também cega” (Romain Rolland [1904-1912], Jean-Christophe IX. Le Buisson Ardent, La Bibliothèque Electronique du Québec, 204-205).

Blaise Pascal já alertava, a seu tempo, contra “dois excessos : excluir a razão e admitir apenas a razão” (Pensées, [1670],183-253 2). Na realidade, razão, todos temos. Uns mais que os outros. Assim se mede o poder.

A campanha anti tabaco configura uma mobilização inédita. É um cúmulo que conjuga tecnocracia e tecnologia. Também é fetichista. Os meios assumem-se mais importantes do que os fins e, porventura, do que os resultados. Será que paira algures uma réstia de “pensamento mágico” (Frazer, James, 1890, The Golden Bough; a Study in Magic and Religion), como no caso da chamada “embalagem neutra”.

« Para o professor Bertrand Dautzenberg, presidente do Office Français pour la Prevention du Tabagisme, a estratégia é compensadora. “Esta evolução permitiu mudar a imagem do cigarro. De produto cool, passou a uma adição que mata”. E se as mensagens sobre as embalagens aumentaram, diversificaram-se e multiplicaram-se, é para evitar que os fumadores se habituem. “É necessário fazer evoluir as mensagens de três em três anos, aproximadamente”, explica o Professor Dautzenberg, para quem a introdução da embalagem neutra prolonga o processo de desnormalização do tabaco” (https://www.francetvinfo.fr/sante/drogue-addictions/lutte-contre-le-tabagisme/comment-la-lutte-antitabac-a-transforme-les-paquets-de-cigarettes_926999.html).

Na Comunidade Europeia, vários países, sobretudo do Norte, conseguiram baixar significativamente o consumo de tabaco. Não é o caso da França, nem de Portugal. Em Portugal a prevalência do consumo do tabaco nos últimos 30 dias, entre os 15 e os 64 anos, em ambos os sexos, marcou passo: 28,6%, em 2001, 30,4% em 2016/17 (Fonte: Programa Nacional para a prevenção e controlo do tabagismo – 2017, Direcção-Geral da Saúde). Perto de um em cada três portugueses recebe todos os dias mensagens de morte e de degradação. Atendendo à envergadura da campanha anti tabaco, abençoada pela padroeira do século, a medicina, como entender este “insucesso”? Será que os ditos países do sul possuem histórias e culturas distintas dos ditos países do norte?

Preocupa-me a gloglobalização. Mormente o efeito de mancha de óleo. Um país faz, por exemplo, o Canadá, outro faz, por exemplo, o Brasil, muitos vão atrás. Um mimetismo colossal. É sensato? Na Comunidade Europeia, aprovam-se medidas em pacote para a generalidade dos países. É sensato? A Europa ainda não teve ensejo para se conhecer, para se consciencializar que é um bloco heterogéneo? Deste modo, um Estado-Nação transforma-se num Estado-membro. A diferença sofre com a gloglobalização.

Apetece-me terminar com dois dedos de retórica. Para Bertrand Dautzenberg, a campanha “permitiu mudar a imagem do cigarro. De produto cool, passou a uma adição que mata”. Para além da perfeição semântica da frase, o que é que este consolo significa em termos de valores sociais? “A adição que mata” pode ser interpretada como risco? Ora, há quem se enfade com o cool e quem se sinta atraído pelo risco (Le Breton, David, 1991, Passions du Risque, Paris, Ed. Metailié). O que condiz com o facto de a juventude constar entre as categorias com maior aumento do consumo de tabaco.

Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/anti-tabac-la-transformation/.

Anti tabaco

Anunciante: Centre National Contre le Tabagisme. Título: La Transformation. Direcção: Michael Buckley. 1995.