Andrómeda, o tabuleiro e o pote
Dei por terminado um texto, de circunstância e por obrigação, que me trouxe ocupado várias semanas. Decidi, há anos, não aceitar orientações e participações em júris. Cumpri! Vou passar a recusar também convites para escrever. Dão trabalho e envelhecem; já estou aposentado e velho.

Posso regressar ao presente e às minhas coisas. A estreia de um trailer a anunciar a continuação, em 2027, de um jogo eletrónico de estratégia como o Humankind é um acontecimento. Coloco a pensar no Fernando, que está na Coreia do Sul onde representou Portugal no 46th World Amateur Go Championship. Houve dez medalhados: os oito primeiros classificados e os dois que se destacaram pelo desportivismo. O Fernando pertence a este último par.
Se o Fernando está na Coreia do Sul, o João chegou da Chéquia. É um investigador nómada. Com porto de abrigo em Roterdão, entretém-se nos intervalos a apontar à noite as lentes para o céu. Se o Fernando traz uma medalha, o João envia uma fotografia.

Por cá, fartei-me de navegar sentado numa cadeira a pingar letras fora do pote. Vale o trailer do Humankind, que está prestes a renascer.
Eventos. O apelo do efémero

Ao Fernando, aficionado de eventos
A atração pelos eventos tende a aumentar. De todos os feitios e para todos os gostos. Próximos ou distantes. Motivam cada vez mais pessoas. A visita a monumentos e a paisagens tende a vir por arrasto. Primeiro, o efémero; depois, os monumentos, a história e a geografia. Não o inverso.
O anúncio “Going to GameStock / Bathroom”, para um festival de videojogos, “mete medo a um susto”.
O futuro já começou


Os anúncios publicitários propendem a prometer felicidade. Pelo caminho, alguns dão-nos prazer. Por exemplo, os da Sony ou da rival Samsung.
Violência lúdica

Construa o seu Baralho de Batalha e supere o inimigo em batalhas rápidas em tempo real. Produzido pelos criadores de CLASH OF CLANS,estreia um jogo de batalha multijogador em tempo real (…) Comece a lutar contra jogadores do mundo todo!
Estas palavras anunciam uma atualização recente do videojogo de origem finlandesa Clash Royale. No anúncio, milhares de balões explodem. Convenha-se que no que respeita a a rebentar coisas e pessoas não faltam fontes de inspiração.
O game mobile Clash Royale arrecadou US$ 2,5 bilhões em receita durante os três anos de existência, de acordo com dados da consultoria Sensor Tower. O valor arrecadado nos Estados Unidos representa 30%, com US$ 750 milhões desde o lançamento. O segundo colocado na lista é a Alemanha, com US$ 225 milhões (9%). (…) Clash Royale continua sendo um dos games mobile mais lucrativos do mundo. Em fevereiro, o título ficou em 18ª posição, com mais de US$ 33 milhões gastos por jogadores em todo o mundo em todas as plataformas. Estima-se que jogadores invistam US$ 2,3 milhões por dia no jogo.” (Clash Royale passou de US$ 2,5 bilhões em receita em três anos, segundo pesquisa).
O Êxtase de Santo Horácio Jogador

Horácio, transformado em rato, recupera a humanidade graças ao prazer do jogo (gaming). Seguimo-lo na azáfama quotidiana como rato: ambiente sobrepovoado, tédio laboral, almoço apressado na secretária. A rotina é interrompida por aparições breves de jogadores misteriosos — os únicos humanos entre os ratos. Findo mais um dia interminável, Horácio liga o Xbox na TV OLED Samsung e conecta-se com os amigos. Uma dose de diversão imprescindível que o converte no ser humano que sempre foi (Tradução muito livre).
“Deus criou três inimigos por causa dos nossos pecados: o rato nas nossas casas, a raposa na montanha e o cura na nossa paróquia” (provérbio da América Latina)”. Que fazer contra o estigma, a obsessão profundamente enraizada? Pobres ratos, associados ao mal, calhou-lhes o lado noturno do imaginário.
Morte Encalhada
Algumas fealdades são mais atraentes do que a beleza comum (Juliette Benzoni).
Testar um sentimento não é namoro que se evapore num ápice. Arrisca agudizar-se ou alastrar-se. A disforia das fragâncias do inferno de Sharon Kovacs pode ressoar, por exemplo, no videojogo Death Stranding, uma deambulação entre a vida e a morte num mundo catastrófico, com forças ocultas, ameaças assombrosas e seres disformes, embalado numa estética épica do feio e do mal, apostada em ambientes deslumbrantes e músicas envolventes.
A estreia do videojogo Death Stranding 2: On the Beach está anunciada para o próximo mês de junho. Segue um trailer.
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Sim, há seres disformes, ameaças assombrosas, mas estas novas gerações o que esperam do mundo afinal? Creio serem metáforas de tudo o que vivemos e do que receamos. É recriado um mundo apocalíptico, mas onde ainda peŕsiste o bem e o mal. Nem as asas são dispensadas, as brancas e as negras. E sobretudo, o amor tem o seu lugar incondicional, com novos heróis e heroínas a combater o mal. Ou o combatem ou são aniquilados. Tudo, pareceu-me, para salvar uma inocência renascida, o bebé protegido a todo o custo, ou seja, o fruto do amor e da vida. Um recomeço.
Não sou fã deste tipo de alegorias mas entendo a necessidade destes novos jovens que, na sua maioria, só vêem desalento, incertezas, guerras e genocídios aceites tacitamente, solidão e não pertença, o horizonte não é mais o mesmo. Necessitam cruzar portas imaginárias onde conseguem ver beleza, amor e uma verdadeira luta, não com o invisível das suas vidas, mas monstros e morte personificadas. Porque a vida só tem sentido encarando toda a obscuridade dos demónios, os de dentro e os de fora, e a morte só é vencida quando a vida faz sentido.
Faz sentido? (Almerinda Van Der Giezen, 22.03.2025)
Abraço apertado
How many ways are there left to say I love you?
Há tantas maneiras de o dizer.



