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Ricardo Costa: Castro Laboreiro – Episódio 3

Ricardo Costa

Segue o terceiro e último episódio do documentário dedicado a Castro Laboreiro publicado pela RTP em 1979. Volvidos mais de quarenta anos, o realizador Ricardo Costa abraça o projeto de regressar a Castro Laboreiro e retomar caminho com as pessoas que participaram no documentário. Encetou, neste sentido, em 2021, contatos. A morte, no entanto, antecipou-se. Faleceu no dia 8 julho de 2021, aos 81 anos.

Em 2018, o festival internacional de cinema documental de Melgaço, então designado Filmes do Homem, projetou na sessão de encerramento o documentário Castro Laboreiro, de Ricardo Costa.

” Professor, ensaísta e editor, foi um dos fundadores da cooperativa cinematográfica Grupo Zero e um dos colaboradores do filme colectivo «As Armas e o Povo», de 1975.

Tendo feito depois disso diversas docuficções, curtas-metragens e séries televisivas, é a sua faceta de cineasta de uma revolução em curso que mais se instalou no nosso imaginário, de modo que muitas das imagens de 1974 que todos conhecemos, tão anónimas como o povo anónimo, tinham na verdade um autor, que por isso, e não apenas por isso, deve ser recordado.” (Marcelo Rebelo de Sousa – Presidente da República lamenta a morte do produtor e realizador Ricardo Costa: https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2021/07/presidente-da-republica-lamenta-a-morte-do-produtor-e-realizador-ricardo-costa/.

Homem Montanhês / Castro Laboreiro. Terceiro episódio: Brandas. Uma coprodução Diafilme com a RTP, com realização e montagem de Ricardo Costa. 1979.

Um roteiro e três tenores

Aida Maria Reis da Mata, Paulo João da Cunha Oliveira, Maria João Dias Costa & Anabela Ramos. Mosteiro de São Martinho de Tibães: Uma Visita. GAMT – Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães. 2022.

Assisti à apresentação do roteiro Mosteiro de São Martinho de Tibães – Uma Visita, da autoria de Aida Maria Reis da Mata, Paulo João da Cunha Oliveira, Maria João Dias Costa e Anabela Ramos. Trata-se de um belo, interessante e esmerado resultado de longos anos de proximidade, trabalho e dedicação. Regressei com vontade de ouvir os três tenores: Placido Domingo, Lucciano Pavarotti e José Carreras. Sempre que escuto, com o devido volume de som, as canções Una Furtiva Lacrima, de Donizetti, Rondine Al Nido, de Vincenzo de Crescenzo, e En Aranjuez Con Tu Amor, a partir de Joaquín Rodrigo, arrepiam-se os tímpanos.

Placido Domingo. Una furtiva lagrima, de L’Elisir d’amore, do compositor Donizetti, pela Royal Opera House Orchestra, dirigida por Sir John Pritchard. 1977.
Lucciano Pavarotti. Rondine Al Nido, do compositor Vincenzo de Crescenzo. Andrea Griminelli, Members Of The New York Philharmonic, Leone Magiera. 2019.
José Carreras. En Aranjuez Con Tu Amor. A partir do Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. The Angel Orchestra of London, conduzida por Micheal Reed. 2014.

Castro Laboreiro. A arte do documentário.

Caminhada na neve. Castro Laboreiro: Inverneiras. Realização de Ricardo Costa. 1979

Coloquei, na semana passada, o segundo episódio do documentário Castro Laboreiro, realizado por Ricardo Costa. Hoje, vou ao recanto do Valter Alves no YouTube pedir emprestado o primeiro episódio: Inverneiras. Tomo a iniciativa de o partilhar não apenas porque aborda as gentes de Castro Laboreiro mas também pela qualidade intrínseca do próprio documentário, nomeadamente a fotografia, a montagem e a realização. Em muitos planos e sequências, por detrás da câmara de Ricardo Costa, parece insinuar-se o grande Andrei Tarkovsky. Por exemplo, na interminável caminhada na neve. “saboreia-se a imagem”. Um olhar concentrado, sóbrio e demorado que retrata uma realidade ascética, ancestral e resistente. Ao mesmo tempo cósmica, a rondar o místico.

Homem Montanhês / Castro Laboreiro. Primeiro episódio: Inverneiras. Uma coprodução Diafilme com a RTP, com realização e montagem de Ricardo Costa. 1979

Transfiguração

O anúncio Flip, da B&Q, é exotérico e surpreendente. Baralha o olhar. Uma mulher inteira-se que está grávida e o mundo transfigura-se. Porque de transfiguração se trata! A religião cristã sempre se debateu com um desafio: apostada na catequese e na mediação com o divino através da imagem, como lograr dar visibilidade ao invisível? A publicidade confronta-se com outro problema: como expressar um pico hiperbólico de emoção?

Marca: B&Q. Título: Flip. Agência: Uncommon, London. Direção: Oscar Hudson. Reino Unido, maio 2022.

No que respeita à transfiguração, a resposta mais corrente parece ser, desde os evangelhos até aos anime, a suspensão da gravidade (ver A civilização da leveza), que neste anúncio se desdobra, em termos de relação com o espaço, em decomposição, à Tarkovsky, desorientação, à Escher, e transição, à Michel Gondry.

Andrei Tarkovsky. O Espelho. Excerto. 1975.
M.C. Escher. Relatividade. 1953.
Marca: Motorola. Título: Experience. Agência: Cutwater. Direção: Michel Gondry. USA, 2007.

Einstein superstar

Avatar de Albert Einstein. Smart Energy. Einstein’s Bath. 2021

Por que será que Albert Einstein adquiriu tamanha popularidade assumindo-se como um expoente de celebridade do século XX? Se refletirmos um pouco, talvez “não houvesse necessidade”! Proponho esta questão como desafio.

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo do anúncio Einstein’s Bath em alta resolução.

Anunciante: Smart Energy. Título: Einstein’s Bath. Agência: AMV BBDO, UK. Produção: The Mill. Reino Unido, Maio 2021.

Comentário do anúncio Einstein’s Bath

“Brief: To re-create Einstein in photoreal CG as a part of Smart Energy’s campaign to encourage consumers to ‘join the energy revolution’by switching to eco-friendly smart meters.

Approach: After an extensive period of research and development sourcing a vast amount of archival material to help build Einstein, The Mill teamed up with DI4D to capture the actor John Guerrasio’s performance and scan a library of facial expressions. This library was then used as a base to recreate John’s performance before every expression was further elevated into a truly lifelike representation of Einstein, with painstaking detail going into making sure every shot was perfect. After 12 months of R&D, modeling, texturing, grooming, lighting, animation, comping and tweaking we were able to deliver the final photorealistic digital Einstein in all its glory.

Impact: A detailed photoreal digital version of Albert Einstein showcased in a 30-second long mind-blowing commercial. Total engagements: 7.3 million. An uptick in online mentions of Smart Energy by 647% compared to the previous quarter. Twitter impressions: 247K.

We always knew Albert Einstein was smart. So it’s no surprise to find him explaining why smart meters help to keep Britain green in the new Smart Energy campaign. We just didn’t expect him to be doing it from his own bathtub while scrolling through Instagram…

The Mill were tasked by AMV and Smart Energy with the hugely ambitious task of creating a digital version of Einstein. We crafted a unique and groundbreaking visual effects pipeline in order to create an avatar that was truly convincing. Our visual effects team, including facial shape experts, spent months researching and developing a robust toolset so we could convincingly portray the nuances of Einstein’s personality. We used cutting-edge 4D volumetric capture technology to capture the performance of an actor. This was then used to re-create subtle facial performances and intricate details in CGI.

“This was definitely a first for The Mill. Although we have tackled digital human creation in the past, it would be fair to say it hasn’t been done at this level before. This project presented us with so many technical and artistic challenges which would have been difficult in normal circumstances let alone doing it all remotely during a pandemic! We’ve been lucky to have some of the world’s most incredible talent working on this project – amongst the best in their field. We’ve loved every minute of it!” (Alex Hammond, A Photoreal CG Einstein for Smart Energy: https://www.themill.com/work/case-study/creating-a-photoreal-cg-human-for-smart-energys-einstein-knows-best/. Consultado em 29/04/2022.

The Making of

Sanduíches cantoras

Giuseppe Arcimboldo, Summer, 1563.

A marca recorrente de Giuseppe Arcimboldo na ilusão publicitária.

Marca: Sabritas. Título: Sandwich. Agência: Isla Ciudad de México. Direção: Watta Fernandez. México, abril 2022.

Para a eternidade

Como suplemento ao artigo Ação de graças, acrescento o texto, erudito mas acessível, dedicado que Erwing Panofsky (1892-1968) dedica ao quadro Alegoria da Prudência, de Ticiano: “A Alegoria da Prudêcia de Ticiano – um pós-escrito”, capítulo 4 do livro Significado nas artes visuais, editado pela primeira vez em 1955 e traduzido em português pela Editora Perspectiva, em 1991. Erwing Panofsky é um dos mais influentes historiadores e sociólogos da arte. Recordo que Pierre Bourdieu redigiu o posfácio da publicação francesa do seu livro clássico Architecture Gothique et Pensée Scolastique (Éditions de Minuit, 1967).

Por seu turno, para acompanhar o pdf do texto de Panofsky, acrescento o Andante, do Concerto para Piano nº2, de Dmitri Shostacovich (1906-1975), uma música que cuido levar comigo para comover o tédio do além, da eternidade.

Dmitri Shostacovich. Piano Corcerto nº2, II Andante. Cristina Ortiz, Royal Philharmonic Orchestra, Vladimir Ashkenazy.

Ação de graças

Ticiano. Alegoria da prudência, c. 1565-1570.

Apetece-me dar graças disposto a retomar caminho, com a máxima de Ticiano no quadro Prudência (1565-1570)

” EX PRAETERITO /PRAESENS PRVDENTER AGIT/ NI PVTVRA ACfIONE DETVRPET, “Do passado, o presente age prudentemente para não estragar a ação futura”.

e ao ritmo do Andante con moto e poco rubato, de George Gershwin.

Gershwin: 3 Preludes For Piano Solo – 2. Andante con moto e poco rubato. Flauta: Jean-Pierre Rampal.

Volvido apenas um dia após a publicação deste artigo, entendo por bem acrescentar o texto, rigoroso e agradável, que Erwing Panofsky (1892-1968) dedicou ao quadro Alegoria da prudência, de Ticiano: “A Alegoria da Prudêcia de Ticiano – um pós-escrito”, capítulo 4 do livro Significado nas artes visuais, editado pela primeira vez em 1955. Autor clássico, Erwing Panofsky é um dos mais proeminentes historiadores e sociólogos da arte. Pierre Bourdieu redigiu o posfácio da publicação francesa do livro Architecture Gothique et Pensée Scolastique (Éditions de Minuit, 1967). Segue o pdf:

A um filho emigrante

João e Fernando no rio Minho.

“O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1878).

“O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus” (C.S. Lewis, Mere Christianity, 1952).

Passaram trinta e um anos, toda e metade de uma vida. A primavera e o outono. Revejo-me como num espelho maior e melhor, com invulgar determinação em crer, querer, arriscar e criar. Quem tem a bênção de um filho não precisa renascer, simplesmente congratular-se e agradecer.

Como lembrança, acrescento, sem surpresa, quatro músicas. É o bem mais disponível, pessoal e rápido para enviar para a Holanda. Podem não entusiasmar de imediato, mas estou convencido que pertencem àquelas que se prestam a que as interrompamos a meio para voltar a escutá-las com outros ouvidos. Possuem a virtude de nos sintonizar à distância. Formam dois pares: um, “primaveril”, que abre com um bailado de Pina Bausch, o outro, “outonal”. Duas músicas para adormecer a Sara, outras tantas para a acordar.

João e Sara

Ígor Stravinski. A Sagração da Primavera. Parte 2 – O Sacrifício (Introdução). Estreia: 1913 (versão de 1947). Coreografia Pina Bausch. Artista: Pierre Boulez. Das TantzTheater Wuppertal. The Cleveland Orchestra.
Edvard Grieg. To Spring. Lyric Pieces Book III, Op. 43, nº 6. Wonderland.1886. Intérprete: Alice Sara Ott.
Scott Joplin. Maple Leaf Rag. 1899. Piano: Dario Ronch.
Fanny Mendelssohn (1799 – 1847; irmã de Felix Mendelssohn). “November”, The Year, cycle for piano (H. 385), 1841. Intérprete: Jae Hee Min.

A cadeira vazia e o espírito de Van Gogh

Vincent Willem van Gogh. Van Gogh Chair With Pipe. National Gallery.

And I wonder if you know
That I never understood
That although you said you’d go
Until you did
I never thought you would

(Don McLean. Empty Chair. 1971)

Don McLean. Empty Chairs. American Pie. 1ª ed. 1971.
Don Mclean. Vincent. American Pie. 1971