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Y los niños volarán! (Crossing the purgatory bridge)

Masters of the Dark Eyes, Angels Releasing Souls from Purgatory. From a Book of Hour._The Hague, Koninklijk Bibliotheek_MS KB 76 G , fol. 171r. 1490.

El niño es bello
sólo miren sus grandes ojos marrones
podría ser Gardel
podría ser Márquez
sólo necesita un poco de ayuda para volar
Si el paisaje se cierra
otro cielo se abrirá
con sol o entre la niebla
los niños volarán

“The Child Will Fly” é uma canção de Roger Waters (com Gustavo Cerati, Shakira, Eric Clapton), gravada em 2014 para a Fundação Alas (Madrid) com o objetivo de ajudar as crianças da América Latina. O vídeo, dirigido por Diego Kaplan, foi filmado na Villa 31, na Argentina.

Roger Waters. The Child Will Fly (com Gustavo Cerati, Shakira, Eric Clapton), para a Fundação Alas. Direção do vídeo: Diego Kaplan. 2014.

Uma vida traduzida em covers

Crucifixo, pelo Maestro di Santa Chiara, ca. 1260. Santa Chiara, Assisi. Retomei a pesquisa sobre a evolução das imagens de Cristo, iniciada com um texto de 2011: As Duas Faces: Imagens de Cristo.

Aos vinte anos, ouve-se música dos 70’:

Bob Dylan. Knockin’ On Heaven’s Door. Pat Garrett & Billy The Kid. 1973.

Aos trinta, ouve-se música dos 90’:

Gun’s N’Roses. Knockin’ On Heaven’s Door. Days of Thunder. 1990.

Aos quarenta, música dos 2000’:

Roger Waters. Knockin’ On Heaven’s Door. Flickering Flame: The Solo Years Volume 1. 2002.

E aos cinquenta, música dos 2010’:

Raign. Knockin’ On Heavens Door. Knocking On Heaven’s Door – EP. 2015.

O Cristo leproso

Cristo na cruz, dito Cristo leproso, da leprosaria de Bajasse. Basílica de St Julien, Briioude (Haute-Loire).

A lepra assombrou a vida durante a Baixa Idade Média. Os leprosos eram confinados fora das coletividades. Há imagens que insistem em regressar. Acontece com o crucifixo dito do Cristo Leproso. A braços com uma nova pandemia, afigura-se-me que o nosso tempo ainda não encontrou um ícone com o alcance simbólico à altura deste Cristo Leproso.

“Existe na basílica de Saint-Julien de Brioude (Haute-Loire) uma imagem impressionante de Cristo na cruz comumente chamada o Cristo leproso. Esta obra, realizada para a capela da antiga leprosaria de Bageasse (fundada em 1161 por Odilon de Chambon), data do fim do século XIV. De tamanho maior que o natural, o Cristo é de madeira maruflada polícroma. A sua pele apresenta inúmeras alterações que, acrescentadas às inclemências do tempo, evidenciam a solidariedade do Salvador em relação a esta figura maior da pobreza que é o leproso da Idade Média (…) Segundo uma antiga lenda, um leproso ter-se-ia deitado sobre esta cruz implorando a cura e a doença se transferiu para a imagem esculpida. Independentemente do grau de historicidade desta lenda e da vontade do artista, este Cristo tornou-se conhecido por todos como o Cristo leproso” (Arnaud Montoux. Contempler Le « Christ lépreux » de Brioude: https://www.la-croix.com/Journal/Le-Christ-lepreux-Brioude-2018-02-10-1100912646).

No livro Pandémies – Des Origines à la Covid-19 (publicado em Abril pela editora Perrin, Patrick Berche escreve:

“Para separar os leprosos da comunidade, era necessário fazer o diagnóstico para distinguir a lepra das restantes numerosas infeções cutâneas tão frequentes naquele tempo. Os doentes suspeitos tinham que ser examinados por um júri, primeiro, eclesiástico, em seguida, médico, junto com os miseráveis. No séc. XIII, atribui-se uma importância decisiva aos sintomas neurológicos iniciais (insensibilidade, paralisias…). Na realidade, o isolamento não era absoluto. Os miseráveis não eram afastados à força. Eram advertidos daquilo que lhes era proibido, a que chamavam “defenses”: obrigação de dar o sinal e proibição de entrar nas igrejas e nas casas. Podiam circular pelo país desde que evitassem os centros urbanos. Fora da leprosaria, deviam trazer os seus atributos: a capa com capuz com um pedaço de tecido vermelho no peito, as luvas, o chocalho de madeira (“flabel”) para se fazer anunciar, a tigela para as esmolas, o bastão para não tocar em nada diretamente. As regras de sequestração foram aplicadas severamente nos séculos XII e XIII, sendo aliviadas no século XIV. Existiam leprosos errantes, muitas vezes expulsos da sua localidade de origem ou de um lazareto, oficialmente por motivo de distúrbios e insubordinação. Vagabundeavam, à procura de santuários com santos curadores. Encontravam-se frequentemente nas entradas das cidades, mendigando para sobreviver. Algumas vezes, grupos invadiam as cidades e instalavam-se na praça pública, no meio da multidão, onde a mendicidade era mais lucrativa mas onde, em contrapartida, as atitudes de rejeição eram as mais vivas.
Na Idade Média tal como na Antiguidade, pensava-se que a lepra era uma punição divina que afetava a alma e o corpo na sequência de um pecado. Apesar da sua exclusão do mundo, a atitude face aos leprosos permanecia ambígua. Temia-se o leproso que provoca repulsa e que é considerado um pária, à semelhança dos hereges e dos Judeus. É impuro e deve expiar as suas faltas. Ao mesmo tempo, é, de certo modo, uma dádiva de Deus. Tinha sido “distinguido”, sobremodo porque contraiu, por vezes, a doença por ocasião de uma peregrinação ao Oriente. Não é a imagem viva do Cristo sofredor? Isto é recordado pela parábola de rico malvado e do pobre Lázaro. Representou-se, inclusivamente, Cristo na cruz como leproso, símbolo da redenção dos homens. Visível na basílica de Saint Julien de Brioude (Haute-Loire), este “Cristo leproso” é um grande crucifixo em madeira maruflada polícroma, datada de finais do século XIV e proveniente da capela da antiga leprosaria de Bajasse (Vieille-Brioude). Segundo a lenda, um leproso ter-se-ia deitado sobre a estátua implorando a cura: a doença ter-se-ia transferido para a estátua, uma espantosa metáfora do contágio da lepra” (Patrick Berche, livro Pandémies – Des Origines à la Covid-19).

Cristo Leproso. Brioude. Detalhe.

Aproveito para lembrar dois episódios da religião cristão. Cristo cura dez leprosos, mas apenas um regressa para lhe agradecer. São Francisco sente-se impelido a abraçar um leproso, que, afinal, era uma encarnação de Cristo. O Cristo leproso condiz com a postura franciscana que vigorava na Idade Média.

Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte)

Estou a proceder à última revisão do livro A Morte na Arte. O texto Gárgulas Impúdicas, já corrigido, alterado e aumentado, aparece como o primeiro “capítulo” da obra. Segue, como aperitivo, já revisto. Empenhado na revisão do livro, anunciam-se poucas e piores publicações no Tendências do Imaginário.

Gárgulas Impúdicas

Observamos como elementos essenciais na mentalidade deste período [medieval] a formação e divinização de locais empíricos como palácios e catedrais góticas (com sua arquitetura repleta de representações religiosas como as torres altas, “tocando” nos céus; os vitrais, deixando penetrar a “luz de Deus” no interior da igreja; as gárgulas junto às torres, simbolizando a não-penetração do demônio a das forças maléficas dentro dos templos sagrados etc.) (Prado, Daniel Porciuncula, 2000, Uma breve introdução acerca das estruturas mentais no período medieval, Biblos, Rio Grande, 12, 115-121, p. 118).

1. Gárgula da Igreja Matriz de Caminha. Foto de Manuel Passos.

Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência insólita mas possível. Em Portugal, existem, por exemplo, gárgulas impúdicas na Sé da Guarda, na Sé de Braga, na Matriz de Caminha, e na Igreja de Nossa S.ª da Oliveira, em Guimarães. Para orgulho local, as gárgulas de Caminha (figura 1) e Guimarães (figura 2) estão de costas viradas para Espanha:

“Em Portugal, prestam-lhes as devidas honras as já aludidas gárgulas, como o famoso “Cu da Guarda” e os seus congéneres da Sé de Braga, da Matriz de Caminha e da Matriz de Escalhão (…), do Castelo de Pinhel ou, ainda, da quimera da torre do relógio de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães (…), muitas delas ainda hoje popularmente aclamadas enquanto expressão de um certo sentimento nacional historicamente ressentido dos acometimentos dos reinos vizinhos. Voltados para Espanha (…) estes exibicionistas (termo importado da historiografia anglo-saxónica para este tipo preciso de figuras (…) seriam então uma provocação além-fronteira” (“Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval”, de Joana Antunes ( Universidade de Coimbra | FLUC |CEAACP | MNMC: https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1).

2. Gárgula da Sé de Braga.

Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Com o “rabo-ao-léu”, as gárgulas de Braga, Guimarães e Caminha distinguem-se das demais. Estão invertidas, a olhar para baixo, com a cabeça encostada ao contraforte e com o rabo do lado de fora, por onde, em vez de pela boca, a água escorre. Encenam, deste modo, um mundo-às-avessas. Estas três gárgulas entram “no vasto círculo dos motivos e imagens que evocam a substituição do rosto pelo traseiro, do alto pelo baixo. 0 traseiro é o “inverso do rosto”, a “rosto as avessas”” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, 1.ª ed. 1965, São Paulo/Brasília: Hucitec/Editora Universidade de Brasília, 2008, p. 327). Além do rabo, estas gárgulas minhotas exibem os genitais, cometendo sexo oral.

“Na torre da igreja de Nossa Sr.ª da Oliveira, Guimarães (séc. XVI), podemos observar uma gárgula, posicionada à esquina (…) que representa uma figura masculina a protagonizar uma cena de felatio a si própria, numa estranha posição, de rabo virado para o exterior. E a sua representação é bem explícita, pois é bastante visível para o observador o falo erecto, que o artífice enfatizou exagerando a sua escala” (Catarina Fernandes Barreira, “Contributos para o estudo das gárgulas medievais em Portugal: desvios e transgressões discursivas?”, Lusitania Sacra. 22 (2010) 169-199, p. 190).

3. Gárgula da Igreja de Nossa S.ª da Oliveira, em Guimarães.

Não é apenas na igreja de Nossa Srª da Oliveira que nos oferece esta acrobacia sexual. Encontramo-la, também, na Matriz de Caminha, embora com um falo menos imponente. Na gárgula da Sé de Braga, a mais antiga, o falo não é visível, o que constitui uma exceção estranha nesta série de gárgulas de rabo-ao-léu, no país e no estrangeiro (figura 5). Se não se vê, ou o amputaram ou não está à vista. Não aparenta marcas de intervenção. Evidenciam-se, em contrapartida, duas bolas junto ao queixo, que mais lembram dois testículos do que outras bolas quaisquer, por exemplo, um colar de guizos. Nas gárgulas, o que parece grotesco costuma ser.

“[Na Sé de Braga], “uma gárgula peculiar (…) exibe um par de cornos, olhos muito esbugalhados e um sorriso rasgado, mas irónico e parece ter no sítio do queixo duas bolas penduradas (parecem testículos). Tem as pernas colocadas ao longo do tronco e com a ajuda das mãos, que parecem estar amarradas na zona dos pulsos, abre despudoradamente o ânus para o observador: é a primeira gárgula rabo-ao-léu do panorama nacional” ( Catarina Alexandra Martins Fernandes Barreira, Gárgulas: representações do feio e do grotesco no contexto português. Séculos XIII a XVI, Volume I, Dissertação de doutoramento em Belas Artes, Universidade Nova de Lisboa, 2010, p. 341).

4. Cachorros da Igreja de São Pedro de Cervatos. Cantábria. Espanha.

Nesta perspetiva, o pénis não aparece porque está abocanhado, indiciando, portanto, uma cena de felácio. Em suma, a igreja de N.ª Senhora da Oliveira alberga uma gárgula com um falo ostensivo, a Matriz de Caminha, uma gárgula com um falo discreto, e a Sé de Braga, uma gárgula com um falo pressuposto.

Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se esborrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira e incontinente.

“A orientação para baixo é própria de todas as formas da alegria popular e do realismo grotesco. Em baixo, do avesso, de trás para a frente, tal é o movimento que marca todas essas formas. Elas se precipitam todas para baixo, viram-se e colocam-se sobre a cabeça, pondo o alto no lugar do baixo, o traseiro na frente, tanto no plano do espaço real como no da metáfora” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, op. cit. p. 325).

5. Gárgula. Igreja de St Pierre de Dreux. França

O que significa tamanha vulgaridade? É costume precisar-se que estas provocações não entram nos mosteiros nem nas igrejas, permanecendo no seu exterior, que se destinam mais a quem vem do que a quem está dentro. Esta espécie de sobrecarga semiótica justifica três reparos. Primeiro, as gárgulas situam-se onde está a sua função básica: o escoamento das águas no topo das fachadas. Segundo, demoníacas e macabras, também se insinuam nos claustros, no coração dos mosteiros que o povo raramente visita em vida e nunca na morte. Terceiro, fantasmagorias congéneres, tais coma as danças macabras, com papas, imperadores, reis e bispos a dar a mão à morte, invadem as paredes, os capitéis e os órgãos dos templos e dos cemitérios dos séc. XV e XVI. Nos edifícios beneditinos, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.

No desfile das gárgulas medievais, a desgraça sexual rivaliza com as ameaças escatológicas. Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em ato ou em expiação. São exemplos a evitar, numa espécie de catequese pela imagem, que não hesita em convocar a credulidade, o medo e o horror. Idealizam fantasias muito reais nos seus efeitos. Há gárgulas com figuras humanas que representam frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Algumas freiras vestem um manto, de tal modo subido ou aberto, que deixa a descoberto os peitos e as partes genitais. Umas juntam as mãos, em sinal de arrependimento, outras, tapam os seios, outras ainda comprazem-se a tocar e a destapar as partes impróprias.

No Mosteiro da Batalha, edifício português com maior número de gárgulas, destaca-se uma figura de mulher com manto, pé de cabra. os peitos destapados e uma criança na boca. Será uma freira que teve um filho de uma relação inaceitável, eventualmente, com uma autoridade eclesiástica? A mulher engole ou regurgita a criança? Por quê na boca? Os medievais eram imaginativos e exímios cuidadores de símbolos. O gigante Gargântua nasceu pela orelha da mãe, Gargamelle (ver https://tendimag.com/?s=partos+extravagantes). Nesses tempos, acreditava-se que as bruxas comiam crianças, incluindo os próprios filhos.

10. Gárgula no Mosteiro da Batalha.

As bruxas também usavam mantos e cobriam a cabeça. Na Idade Média, as bruxas moravam na cabeça das pessoas. E se a gárgula do Mosteiro da Batalha fosse uma freira bruxa. Seria um excesso de novidade híbrida. Vale, no mínimo, o prazer poético da imagem. Que pretendia a Igreja com tamanhos desmandos no seu próprio seio? Há quem garanta que houve períodos em que a Igreja apostou no combate aos pecados internos. Suspeitava-se que os membros do clero não resistiam ao mal. As gárgulas recebiam e amedrontavam o povo, mas perturbavam também o olhar do clero.

Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte, em “reconhecer ‘o que cabe ao diabo’, saber dar-lhe bom uso, para que não sufoque o corpo social”. (Michel Maffesoli, A Parte do Diabo, Rio de Janeiro, Record, 2004 , 2004, p.16). Mikhail Bakhtin releva os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus. O bem assimila e assume o mal, a “parte maldita”.

Gárgula exibicionista

Um comentário, bem-vindo, no Tendências do Imaginário alerta para uma falha no artigo Gárgulas impúdicas (https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/): nada menos do que a gárgula mais que impúdica da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães. No artigo “Gárgulas em Guimarães”, no blogue PROSIMETRON (http://prosimetron.blogspot.com/2012/05/gargulas-em-guimaraes.html), figura a respetiva fotografia, acompanhada pelo seguinte texto:

Esta gárgula da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira tem uma história. Mas a imagem vista do solo não se pode mostrar dado que as gárgulas só servem para escoar água… o resto é paisagem.

Gárgula. Igrej_ de Nossa Senhora da Oliveira. Guimarães.

O artigo Gárgulas Impúdicas (https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/) contempla apenas uma pequena parte das gárgulas existentes. Demonstra-o o artigo “Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval”, de Joana Antunes ( Universidade de Coimbra | FLUC |CEAACP | MNMC: https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1). Acrescentando uma magnífica fotografia da gárgula da Colegiada, escreve:

“Em Portugal, prestam-lhes as devidas honras as já aludidas gárgulas, como o famoso “Cu da Guarda” e os seus congéneres da Sé de Braga, da Matriz de Caminha e da Matriz de Escalhão (…), do Castelo de Pinhel ou, ainda, da quimera da torre do relógio de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães (…), muitas delas ainda hoje popularmente aclamadas enquanto expressão de um certo sentimento nacional historicamente ressentido dos acometimentos dos reinos vizinhos. Voltados para Espanha – de onde não virão, afinal, nem bons ventos nem bons casamentos, mas de onde terá vindo uma boa parte da mão-de-obra que as criou – estes exibicionistas (termo importado da historiografia anglo-saxónica para este tipo preciso de figuras, tal como clarificado por Linquist, 2012: 325) seriam então uma provocação além-fronteira”.

Quimera exibicionista. Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães. Fonte: Joana Antunes, Sem medo nem vergonha. Imagens insólitas à margem da escultura medieval (https://doi.org/10.14195/2184-7193_10_1).

O que foi descoberto deu, a seu tempo, prazer, o que, entretanto, se descobrir não dará, certamente, menos.

Agonia

William Turner. Death on a pale horse (c. 1825).

A estreia de um anúncio realizado por Bruno Aveillan representa sempre uma expetativa auspiciosa. Se a publicidade aspira a ser uma arte, ele é o artista, o novo Michelangelo. Possui um jeito singular de embalar o argumento, habitualmente cristalino, em ritmos encantatórios e beleza extrema e serena. O tema do anúncio Apelo, da Fundação 30 Milhões de Amigos, está no vento: o sofrimento infligido aos animais, mais generosos e mais perfeitos do que qualquer obra humana. Somos a mais cruel das criaturas divinas. Somos sôfregos, e essa sofreguidão nos reduzirá a nada, somos sádicos, e esse sadismo nos afligirá, somos organizados, e essa organização instaurará o caos, somos ignorantes, e essa ignorância nos dará a última lição. Soam as trompetas no hiperbolismo mediático! Sabemos de saber antigo, muito antes do Clube de Roma, as consequências dos nossos atos, o que estamos a fazer à natureza e à própria humanidade. Na ficção científica, na fantasia, nos anime, na arte, nas performances, nos discursos adolescentes, os sinos não param de tocar. Anunciam um novo apocalipse, desta vez, terrestre. Os cavalos já não são celestiais, mas máquinas virtuais com outros nomes: a peste, a guerra, a fome e a morte chamam-se agora ambição, cupidez, incontinência e incúria. Perante as imagens pungentes da ameaça iminente, o ser humano, em vez de se retrair, parece comprazer-se, sem medir as palavras, em orgasmos intelectuais, estéticos e morais, reação de que este artigo é um exemplo. Será esse o destino do Apelo de Bruno Aveillan? Provavelmente. Contudo, como diria Galileu, a Terra gira! Em torno da destruição. E a humanidade avança! Para o suicídio. O grito profundo e interminável da agonia animal, mais arrepiante do que as sirenes das ambulâncias rumo aos cuidados intensivos, também é o nosso espelho da morte.

Anunciante: Fondation 30 millions d’Amis. Título: L’Appel. Agência: Altmann + Pacreau. Produção: Quad. França, 8 de novembro de 2021.

Sheep. Pink Floyd. Excerto.

Hopelessly passing your time in the grassland away
Only dimly aware of a certain unease in the air
You better watch out
There may be dogs about
I’ve looked over Jordan, and I have seen
Things are not what they seem
What do you get for pretending the danger’s not real
Meek and obedient you follow the leader
Down well trodden corridors into the valley of steel
What a surprise
The look of terminal shock in your eyes
Now things are really what they seem
No, this is no bad dream.

Pink Floyd. Sheep. Animals. 1977.

Música e imagem

Kathia buniatishvill. Fotografia de Jean-Baptiste Mondino.

“Nunca tenho receio do “excesso” – excesso de amor, liberdade, imaginação ou respeito, porque essas coisas são imateriais e emocionais e não podem ser medidas ou limitadas” (Khatia Buniatishvili).

Quando penso na música clássica a render-se à imagem contemporânea, acode-me a talentosa pianista francesa de origem georgiana Khatia Buniatishvili. Um prodígio que não teme excessos! A “pop star do mundo da música clássica”. Quem mais poderia ser?

Khatia Buniatishvili – Schubert – Behind the Scenes. Schubert: Ständchen, S. 560 (Trans. From Schwanengesang No.4, D. 957).
Khatia Buniatishvili’s new music video for “Gymnopédie No.1” by Erik Satie from her new album “Labyrinth.”
Khatia Buniatishvili. Ungarische Rhapsody Nr. 2 cis-moll/v.Franz Liszt. Khatia’s arrangement.

Infância

Uma pausa na publicidade e na escrita, para intercalar a escuta. Duas canções de Patti Smith: a primeira, Mother Rose, dedicada à maternidade, para massajar os sentidos e o cérebro; a segunda, dedicada a Tarkovsky, com imagens da sua casa de infância, para perturbar o cérebro pelos sentidos.

Patti Smith. Mother Rose. Trampin’. 2004.
Patti Smith. Tarkovsky (The Second Stop Is Jupiter). Banga. 2012.

Longe, tão perto

Salvator Rosa. Bruxas nos seus encantamentos. 1646.

O nome Halloween provém do escocês All Hallows’ Eve, que significa véspera do Dia de Todos-os-Santos. A data é também conhecida como Dia das Bruxas. Convoca uma espécie de comunhão dos vivos e dos mortos que não se cansa de inspirar o nosso imaginário. Tão longe, tão perto! O tema não podia escapar a Nick Cave e às suas “obsessões líricas pela morte, religião, amor e violência”. Seguem duas canções: Earthlings e Faraway, So Close.

Nick Cave & The Bad Seeds. Earthlings. B-Sides & Rarities Part II. 2021.

Earthlings
Children Halloweened in sheets
Go running up and down the streets
I thought these ghosts had gathered here for me
I thought these songs would one day set me free
Laughter fills the sky above
How can such a thing provoke our love?
I thought these ghosts were there to set me free
I thought these songs had traveled here for me
(Excerto de Nick Cave. Earthlings).

Terráqueos
Envoltas em lençóis, crianças tomadas pelo Halloween
Percorrem as ruas para cima e para baixo
Pensei que estes fantasmas se tivessem reunido aqui por mim
Pensei que estas músicas um dia me libertariam
As gargalhadas enchem, acima, o céu
Como pode uma coisa assim suscitar o nosso amor?
Pensei que esses fantasmas estavam ali para me libertar
Pensei que essas músicas tivessem viajado até aqui por mim
(Excerto de Nick Cave. Earthlings. Tradução livre).

Nick Cave. Faraway, So Close. Faraway, So Close. 1998.
  • Faraway, So Close
  • And the world will turn without you
  • And history will soon forget about you
  • But the heavens they will reward you
  • And the saints will be there to escort you
  • So faraway
  • So faraway and yet so close
  • Longe, Tão Perto
  • E o mundo girará sem ti
  • E a história depressa te esquecerá
  • Mas os céus recompensar-te-ão
  • E os santos estarão lá para te acompanhar
  • Tão longe
  • Tão longe e, portanto, tão perto.
  • (Excerto de Nick Cave. Faraway, So Close).

Cuidar dos mortos

A Morte e a Mulher. Miniatura dos Ditos de Horas de Filipe, O Formoso. Cerca de 1495.

O blogue Tendências do Imaginário é pouco interativo. É um dos seus defeitos. As exceções são bem vindas. A Salomé enviou-me esta ternura, uma curta-metragem dedicada às tradições do Día de los Muertos, no México. Confirma que os espelhos não são os únicos mediadores entre os vivos e os mortos. A comida, as velas e as flores também fazem a interligação. Passada amanhã, dia 1 de novembro, é o dia de Todos-os-Santos, da visita aos cemitérios, no dia seguinte, dia 2, comemora-se os fiéis defuntos, dia dos mortos. O ciclo começa hoje e amanhã, dias de flores e asseio das sepulturas. Convém embelezar e perfumar os mundos, cuidar dos mortos e dos vivos.

Día de los Muertos. Curta-metragem animada produzida por Ashley Graham, Kate Reynolds, e Lindsey St. Pierre do Colegio de Arte y Diseño Ringling como seu projeto de tese. 2013.