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Vitalismo

Vulnerável e vital! Como um animal ou uma planta. Como um ser humano.

Oh LauraO anúncio Release Me, da Saab, é, ao mesmo tempo, um eco da vulnerabilidade oprimida e uma ode à libertação. Teve o mérito de lançar a banda sueca Oh Laura, de que acrescento duas músicas: Release Me, do anúncio da Saab, e Raining in New York, ambas do álbum A Song Inside My Head (2007).

Vulnerável e vital, como uma gota de água. A curta-metragem Voyage dans l’arbre, do parque de plantas Terra Botanica (Angers, França), é um exímio trabalho a que nos habituou a agência Mac Guff Paris.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007. Música: Oh Laura.

Oh Laura. Release Me. A song Inside My Head, a Demon in My Bed. 2007.

Oh Laura. Raining in New York. A Song Inside My Head, A Demon in My Bed. 2007.

Terra Botanica. Produção: Tvcible. Agência: TBWA Paris. Directores: Thomas Szabo e Helene Guiraud. Pós-produção: Mac Guff. França, 2010.

O triunfo da teratologia

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O anúncio Meet Graham, da Transport Accidente Commission (Victoria, Austrália), não é um anúncio qualquer. Acaba de ganhar o Grande Prémio do Júri, do Festival de Cannes, de 2017. É, todo ele, impatante. A sobrevivência aos acidentes de trânsito requer um corpo adaptado, um corpo monstruoso como o de Meet Graham. O futuro não se escreve com linhas esbeltas mas com  massas e dobras adiposas. Especialistas em colisões e uma artista, Patricia Picinnini, deram corpo a esta criatura à prova de choque, por sinal, peça de museu. A opção é simples: ou monstros, ou mortos. Ressalve-se, no entanto, que esta “antecipação do futuro” vale para as estradas. Nos corredores do Homo Academicus, é diferente; só um hiper-monstro consegue resistir aos encontros entre pares. Neste caso, a língua deve medir, no mínimo, metro e meio, para lamber as botas; as costas muito largas e moles, para amortecer os golpes; o cérebro ínfimo, para não se afundar nas areias movediças do pensamento. Para um comentário mais completo a este anúncio: http://edition.cnn.com/2016/07/25/health/graham-human-body-sculpture-car-accident/index.html.

Anunciante: Transport Accident Commission – TAC Victoria. Título: Meet Graham. Agência: Clemenger BBDO Melbourn. Austrália 2016.

 

Sociólogo e artista

herve-fischer

“Há, hoje, no planeta, mais códigos de barras, emblemáticos da nossa sociedade de controlo e de consumo, do que houve cruzes durante todos os séculos da cristandade “ (Hervé Fischer).

O meu colega José Neves lembrou-me Hervé Fischer, um sociólogo artista. Foi meu professor na Sorbonne, nos anos setenta. Agradeço-lhe levar-nos a grandes exposições internacionais de arte na véspera da inauguração. Dialogávamos com as obras e com os artistas. O mesmo sucedia com as performances. Ainda hoje, tento fazer, embora a outra escala, algo semelhante com os alunos. Hervé Fischer contribuiu para a minha deriva para a sociologia da arte. Aprendíamos, criticávamos, tomávamos café, partilhávamos experiências. Com o Hervé Fischer, tal com os outros professores. Aprende-se sempre com um professor. A menos que sejamos uma esponja: enche, aperta-se e não fica nada. Neste tempo de rankings, programação “numerológica” e “desliberalização” liberal, há alunos que não sabem o nome dos professores! É a desmaterialização, estúpido! No meu tempo de estudante entrava na universidade por uma praça, agora entra-se na universidade por um site.

Acerca da biografia, obra artística e bibliografia de Hervé Fischer, sugiro a consulta da sua página na Internet: http://www.hervefischer.com/.

Mentiras

Adam, Eve and the serpent in the Tree of Knowledge of good and evil in the Garden of Eden, illumination of the Escorial Beatus, tenth century

Adam, Eve and the serpent in the Tree of Knowledge of good and evil in the Garden of Eden, illumination of the Escorial Beatus, tenth century.

MENTIRAS

Ai quem me dera uma feliz mentira
que fosse uma verdade para mim!
DANTAS

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?
Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

(Florbela Espanca, 1999, Mentira in A Mensageira das Violetas: antologia. Porto Alegre. L&PM).

Enganar alguém é fácil, mas convém ser económico na mentira e evitar desperdícios. A vítima é o melhor cúmplice, dispensa as evidências, basta-lhe a ilusão. Afeiçoamo-nos à mentira, como nos afeiçoamos à verdade. Mentir, mentir pouco e devagar. Há doses de veneno que são remédio.

Marca: Polisan. Título: Bedroom. Agência: Leo Burnett. Republica Checa, 2006.

Marca: BMW. Título: Les Dessous. Agência: Jung von Matt. Alemanha, 2001.

Amor ferroviário

Claude Monet, The Gare Saint-Lazare (or Interior View of the Gare Saint-Lazare, the Auteuil Line), 1877

Claude Monet, The Gare Saint-Lazare (or Interior View of the Gare Saint-Lazare, the Auteuil Line), 1877.

“Se uma pessoa mora perto de uma gare, isso muda completamente a vida. Tem-se a impressão de estar de passagem. Nada é definitivo. Um dia ou outro, sobe-se para um comboio. São os bairros abertos ao futuro” (Modiano, Patrick, 2002, La Petite Bijou, Paris, Gallimard).

O anúncio Timeless, da Lacoste, centra-se na viagem atribulada, de comboio, de dois jovens rumo um ao outro. Partindo dos anos trinta, data da criação da Lacoste, cada carruagem representa uma década. Mudam-se os tempos, mudam-se as carruagens, mas os polos Lacoste permanecem os mesmos.

– Acredita no amor?
– Acredita no amor à primeira vista?
– Acredita no amor entre pessoas de diferente sexo?

O anúncio Timeless lembra a caravela capaz de navegar contra o vento. A Lacoste não só aposta em amores mediaticamente obsoletos, como insiste na mesma imagem de marca: um homem desportivo, elegante e delicado, que gosta de mulheres. A Lacoste não percebe que a sexualidade não é o que era; até ter filhos está fora de moda. O pessoal da Lacoste e da BETC deviam ver mais publicidade. Não é verdade?

Basta de ironias! À semelhança do The Big Leap (https://tendimag.com/2014/02/12/a-incomensuravel-leveza-do-beijo/), o Timeless, da Lacoste, é um anúncio extraordinário!

Marca: Lacoste. Título: Timeless. Agência: BETC Paris. Direcção: Seb Edwards. França, Maio 2017.

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.

Estética da libertação

Ana Luisa Santos. Crisálida. Fotografia de guto Muniz.

Ana Luísa Santos. Crisálida. Fotografia de Guto Muniz.

Há dias assim, em que se dispensam discursos que se desfazem em ideias; barrocos por fora, ocos por dentro. Basta uma ideia bem explorada, uma pequena centelha para acender a imaginação. O que sugerem as imagens do anúncio Incoming? Uma múmia? Uma crisálida? Uma clausura? Uma bandagem? Uma dança contemporânea? Um nu feminino? Uma manta simbólica para uma estética da libertação.

Carregar na imagem ou no seguinte endereço (http://www.culturepub.fr/videos/orange-incoming/) para aceder ao anúncio.

Orange Incoming

Marca: Orange. Título: Incoming. Agência: WCRS. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, 1995.

O elefante na sala de pós-produção: a library music em criações audiovisuais

Um evento interessante e original! A palestra é precedida por um momento musical (Bossa Nova) interpretado, ao violão, por Felipe Breier, aluno do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.

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Oradora: Júlia Durand. É mestranda em Ciências Musicais na FCSH-UNL e bolseira de investigação no CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical).

Título da comunicação: “O elefante na sala de pós-produção: a library music em criações audiovisuais”.

Resumo: Actualmente, o que é internacionalmente conhecido por library music é ouvido em inúmeros filmes, desde telejornais e documentários a vídeos de youtube e pornografia. Os sites que comercializam esta música categorizam-na segundo géneros, instrumentação, emoção e ambiente, e a sua produção está estreitamente relacionada com a procura e tendências das indústrias audiovisuais. Uma exploração dos sites mais utilizados revela o modo como a library music reflecte (e reforça) convenções musicais do cinema e televisão, algo que contribui para a sua depreciação e reputação de música estereotipada e “enlatada”.

Rosas selvagens

Sir John Everett Millais Ophelia 1851-2

Sir John Everett Millais. Ophelia. 1851-2.

Adoro aproximar o que nasce separado. É um vício. A Ofélia de Sir John Everett Millais (1851-2) lembra o vídeo Where The Wild Roses Grow (1996), de Nick Cave & Kylie Minogue. Não quer descobrir as diferenças entre a Ofélia do Millais e a Kylie Minogue do Nick Cave?

Nick Cave & The Bad Seeds / Kylie Minogue. Where The Wild Roses Grow. 1996.

Querer com as velas levar o vento

Pablo Picasso. Seated Harlequin. 1901.

P. Picasso. Seated Harlequin. 1901.

Longe no tempo, o ancião, longe no espaço, o eremita, ambos vêem de longe o que já viram de perto. “Cansada já a velhice” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 90), sabem que é insensato “querer com as velas levar o vento” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 91), bem como é imprudente querer com a técnica levar o mundo. Aos olhos sentados, a técnica corre sempre adiantada em relação a nós, sempre atrasada, em relação a ela própria. O controlo remoto, como no anúncio GPS, recalculando, da BC, é a sua metonímia.

Marca: BC. Título: GPS recalculando. Agência: Delcampo Nazca Saatchi & Saatchi. Argentina, 2010.