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Para além do céu azul

Órgão de Tibães

Órgão do Mosteiro de Tibães

Acabou o Encontro de Sociologia (mosteiro de Tibães). Quando a realidade ultrapassa o sonho, a gente sente-se assim, não sabe bem como; sente-se também assado, não sabe bem como. Hoje, levantamos a cabeça, erguemos o olhar e rasgamos horizontes. Fomos “para além do céu azul”.

Seguem duas músicas do álbum beyond the Missouri Sky (1997), de Charlie Haden e Pat Metheny: The Moon is a Harsh Mistress e Spiritual.

A cópia, a série e a ovelha negra

Golconda, 1953 by Rene Magritte

René Magritte. Golconda. 1953.

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty.

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).

Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.

Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.

Fisionomia e inteligência

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 1871

O carácter e a inteligência dependem da fisionomia e da pose? Assim o entende Franz Joseph Galo, fundador da frenologia (Gall, Franz Joseph & Spurzheim, Johann, 1809 (Untersuchungen ueber die Anatomie des Nervensystems ueberhaupt, und des Gehirns insbesondere, Paris e Strasburg, ed. Treuttel e Würtz, 1809).

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 2. 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 2. 1871

Há, precisamente, dois e sete anos, gracejei com a eventual relação entre, por um lado, a fisionomia e a postura corporal e, por outro, o desempenho intelectual. Revisitei, com agrado, estes dois textos. O humor revigora.

A cerveja e o astronauta

“E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro” (José Saramago, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, in Os Poemas Possíveis, Ed. Caminho, Lisboa, 1981. 3ª edição).

Depois da Coca-Cola, é a vez da Carlsberg. Uma galeria de pecados. Porque a Carlsberg também faz mal, faz com que a proeminência de uma pessoa desça da cabeça para a barriga. O que é grave. Eu professor que o diga. Há poucos anos, entrava na sala de aulas e os alunos lá apostavam: “este até é capaz de ter cabeça!”. Agora, o olhar nem sequer sobe até às palavras; fica hipnotizado no abdómen. O que é grave para a aprendizagem. A Carlsberg e um sem fim de bebidas são pedagogicamente nocivas. A avaliação dos docentes devia contemplar o seguinte índice: razão entre o perímetro da cabeça e o perímetro da barriga. Quanto maior, melhor. Entretanto, enquanto a coisa não encolhe, nada como promover acções de formação creditadas sobre o uso de corpetes e espartilhos. A venda de cerveja já foi proibida na academia. Santa sabedoria! Se quiseres ter mais cabeça do que barriga, faz como o astronauta: bebe com capacete.

Marca: Carlsberg. Título: Spaceman. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, Abril 2011.

Cabecinha pensadora

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984).

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Figura 01. Chiu I.

Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.

Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.

Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.

Galeria de imagens

 

 

Manuel Freire, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta (1993). Poema de José Saramago.

 

 

Páscoa

Artur Bual. Cristo. 1991

Artur Bual. Cristo. 1991

Admiro, como Miguel de Unanumo, os “homens mais carregados de sabedoria do que de ciência”.

“Certo pedante, vendo Sólon chorar a morte de um filho, disse-lhe: “Para que choras dessa maneira, se isso de nada serve?” E o sábio respondeu-lhe: “Precisamente porque para nada serve.” (…) O que de mais sagrado existe num templo é o facto de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere, cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino, vale tanto como uma filosofia. Não basta curar a peste, há que saber chorá-la! Sim, importa saber chorá-la! E esta é, talvez, a suprema sabedoria.” (Unanumo, Miguel,1913, Do sentimento trágico da vida, Lisboa, Relógio d’água, 2007,p. 22).

Páscoa, paixão, sacrifício, expiação e redenção. Ocorre-me Lisa Gerrard.

Lisa Gerrard & Pieter Burke. Sacrifice. Duality. 1998.

Transparências

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Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A brincadeira não tem idade. Apetece uma bricolagem. Um videozinho. Ando com duas músicas do Bach no ouvido. Gostava de encontrar imagens para as acompanhar. Acudiu-me substituir a banda sonora de anúncios em slow motion. Fantásticos! Não ganhavam nada com a música de Bach, nem esta com os anúncios. Uma dupla estragação. Entretanto, ocorreram-me as imagens das esculturas veladas de Antonio Corradini (1688-1752) e de Giuseppe Sanmartino (1720-1793). O último capítulo do livro A morte na Arte é sobre as esculturas veladas. Comecei há quatro meses e já escrevi 20 linhas! Mas as músicas de Bach, versão piano, não batiam certo com as imagens, demasiado sedosas e pungentes para as teclas de um minueto. Acabei por optar pelo que não queria: uma das obras mais célebres de Bach: a Ária na corda sol. As voltas que uma bricolagem não dá!

Segue o videozinho, parco em comentários, mais as duas músicas de Bach.

Transparências. Esculturas  Veladas. Albertino Gonçalves, 2018.

J. S. Bach. Jesu, joy of man’s desiring.

J. S. Bach. Anna Magdalena Notenbuch: Minuet in G major, BWV Anh 114.

Amor tranquilo

Land Rover The road

“Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon cœur d’une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l’heure, je me souviens des jours anciens et je pleure ; et je m’en vais au vent mauvais qui m’emporte deçà, delà, pareil à la feuille morte” (Paul Verlaine ; Poèmes saturniens, Chanson d’automne, 1866).

Gestos serenos em equilíbrio, uma beleza poética sem Adónis, nem Afrodite. Uma cumplicidade subcutânea. Como cabe tamanha delicadeza num anúncio a um carro? A harmonia e a lentidão são quebradas por um fluxo vertiginoso de memórias, numa câmera acelerada. Travessia, vertigem, aventura… Um anúncio dentro do anúncio. O Land Rover faz 75 anos. O casal ronda essa idade. No anúncio The road, o motor e o coração cruzam-se e pulsam a várias velocidades. “Uma vida juntos” num romance sobre rodas.

Marca: Land Rover. Título: The road. Produção: Kite Rock Pictures. Direcção: Fran Mendez. Estados Unidos, Março 2018.

O desporto e o sagrado

Stele relief depicting a wrestling competition between athletes, from Kerameikos necropolis, Athens, Grece, Circa 510 B.C.

Stele relief depicting a wrestling competition between athletes, from Kerameikos necropolis, Athens, Grece, Circa 510 B.C.

O desporto envolve o exercício, a saúde, o lazer, a evasão, o convívio, o espectáculo, o poder, a comunidade, a identidade… Acrescente-se a “guerra” e a religião. No desporto, como na vida, o religioso e o guerreiro cruzam-se. O anúncio Motivacíon, da Visa Argentina, foca a preparação guerreira para o combate. O anúncio The Game Before The Game, da Beats by Dre, centra-se, também, na preparação para o confronto, mas com uma carga acentuadamente religiosa.

Marca: Visa Argentina.Título:  Motivación. Agência: Young & Rubicam Argentina. Direcção: Pablo Romano. Argentina, Agosto 2011.

Marca: Beats by Dre. Título: The Game Before the Game. Agência: R/GA New York. Direcção: Nabil Elderkin. USA, Junho 2014.

Música e espectáculo

01. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath. Detail. 1749

01. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath. Detail. 1749.

Nos tempos áureos do barroco, floresciam os eventos públicos ao ar livre: procissões, triunfos, regatas, concertos, fogo-de-artifício… Eram espectáculos hiperbólicos. Tal como acontece nos nossos tempos com os espectáculos dos Fura dels Baus, as competições desportivas, as cerimónias políticas ou os concertos de música rock.

02. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath, 1749

02. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath, 1749.

Algumas das obras mais célebres de Georg Friedrich Handel (1685-1759) foram compostas expressamente para festas e comemorações. De origem alemã, Handel adquiriu a nacionalidade inglesa. Na Alemanha, foi mestre de capela do Eleitor de Hanôver, que se agastou com ele por causa de suas ausências em Londres. O Eleitor de Hanôver assume, entretanto, o trono da Grã-Bretanha, com o nome de Jorge I. Assim se apertam as malhas do destino. Consta que um amigo de Händel, “o Barão Kielmansegge, divisou um meio de reconciliá-los. Um dos passatempos favoritos dos nobres londrinos nesta época era o passeio de barco pelo Tamisa, acompanhados de uma pequena orquestra que os seguia em um barco próprio. Num desses passeios o Rei foi convidado a participar, e Kielmansegge providenciou para que a música executada fosse de Händel. Sem saber quem era o autor, o Rei se mostrou deliciado, e ao ser revelada a trama, perdoou-o” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Friedrich_H%C3%A4ndel).

03. Jorge I de Inglaterra com Handel, à esquerda.

03. George Frideric Handel (esquerda) e o rei Jorge I no rio Tâmisa, 17 de julho de 1717. Pintura de Edouard Jean Conrad Hamman (1819–88).

A Water Music foi encomendada pelo rei Jorge I para o acompanhar no rio Tamisa. Estreou em 17 de Julho de 1717. O sucesso foi de tal ordem que os músicos repetiram a peça três vezes (ver imagem 03).

The Hornpipe from Handel’s Water Music (HWV 349), performed by the FestspielOrchester Göttingen, Laurence Cummings, director.

O Messiah, encomendado por Lord Lieutenant da Irlanda, para uma campanha de beneficência, estreou no dia 13 de Abril de 1742, em Dublin. Assistiram cerca de 700 pessoas. Prevendo grande afluência, foi solicitado aos cavalheiros que se despojassem das suas espadas e às damas que não vestissem saias com armação, para caber mais gente. Durante o primeiro concerto em Londres, D. Jorge II, emocionado com o coro (Hallelujah), levanta-se. Respeitando o protocolo, “ninguém permanece sentado perante o rei em pé”, toda a assistência se levanta. Continua a ser costume assistir ao Messiah em pé.

Händel: »Hallelujah« (Messiah) ∙ hr-Sinfonieorchester ∙ Chœur du Concert D’Astrée.

04. A View of the fire-workes and illuminations at his Grace the Duke of Richmond, at Whitehall, and on the River Thames, Monday 15 May, 1749

04. A View of the fire-workes and illuminations at his Grace the Duke of Richmond, at Whitehall, and on the River Thames, Monday 15 May, 1749.

A Music for the Royal Fireworks foi encomendada pelo rei Jorge II para a celebração do Tratado de Aix-la-Chapelle, com  música e fogo-de-artifício. No dia de estreia,  27 de Abril de 1749, ocorreu um incêndio num paiol.

Filharmonia Narodowa. Jacek Kaspszyk conducts Händel’s La Rejouissance from Fireworks Music.

Estas três músicas são empolgantes. Prefiro, contudo, a serenidade do “Ombra ma fui”, largo da ópera Xerxes (1738).

George Szell and the London Symphony Orchestra play Handel’s Largo from Xerxes.

Podia ser pior

Circle of Giuseppe Arcimboldo. Housewife. An Anthropomorphic Still Life With Pots Pans Cutlery A Loom And Tools

Circle of Giuseppe Arcimboldo. Housewife. An Anthropomorphic Still Life With Pots Pans Cutlery A Loom And Tools.

“Eu é um outro” (Arthur Rimbaud. Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871).

Usamos máscaras; somos máscaras. Fragmentados, somos um puzzle desencaixado e instável. Tudo se decompõe, tudo se move, menos as doenças de estimação. Hoje, fiz uma ecografia. Temia um problema, afinal tenho dois: fígado gordo e calhau na vesícula! Apetece-me celebrar! Por exemplo, com vídeos musicais focados na miscelânea de cacos que nunca deixamos de ser. Os dois primeiros são suaves, o terceiro é cáustico.

Antes de passar aos vídeos, uma anedota que o meu avô gostava de contar.

Dois amigos conversam.

  • Ontem um comboio atropelou uma procissão que atravessava a passagem de nível.
  • Podia ser pior…
  • Como podia ser pior?
  • Se o comboio viesse atravessado…
  • Ontem, Fulano matou um homem que estava com a mulher no quarto.
  • Podia ser pior…
  • Como podia ser pior?
  • Se fosse na noite anterior, o morto era eu.

Katie Melua. I Cried For You. Piece by Piece. 2009.

Damien Rice. 9 Crimes. 9. 2006.

Pearl Jam. Life Wasted. Pearl Jam. 2006.

Ódio

Francisco Goya. Fusilamiento en un campo militar. Ca. 1808-1810

Francisco Goya. Fusilamiento en un campo militar. Ca. 1808-1810. Poucos artistas retrataram o ódio como Goya. Uma estética do desespero.

“In time we hate that which we often fear” (William Shakespeare, Antony and Cleopatra, Acto I, Cena III, 1606).

O ódio existe? As “sociedades cândidas” quase proscreveram a palavra. Calamos mais o ódio do que o diabo ou a morte. No entanto, o ódio dilacera e armadilha a humanidade. Será uma palavra tabu, daquelas que encarnam o mal? Afortunadamente existe a publicidade. Preocupada com as marcas, dispensa o proselitismo político e moral. Confesso que desconfio dos discursos desinteressados. Prefiro os discursos “com interesse”.

Ódio é uma palavra que nos abala e nos ressoa nas entranhas, como o anúncio Hate is so 2018, da Bianco, ou a canção Hate Me, dos Blue October.

Marca: Bianco Footwear. Título: Hate is so 2018. Agência: & Co. Direcção: Alexander Topsoe. Dinamarca, Fevereiro 2018.

Blue October. Hate me. Foiled. 2006. Ao vivo, 2015.