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Pauzinhos

Descarga de uma carraca portuguesa. Pannels attributed to Kano Naizen, 1570-1616 (detail)

Descarga de uma embarcação portuguesa. Biombos atribuídos a Kano Naizen, 1570-1616 (detail). Museu Nacional de Arte Antiga.

Na semana passada eclodiu um imbróglio internáutico. Um anúncio e um desfile da Dolce & Gabbana foram boicotados. Um excerto de uma notícia do Público Online narra os acontecimentos. Cinjo-me a acrescentar alguns apontamentos.

  • O sentido de humor parece não ser universal. Se quiser fazer humor, assegure-se que domina a arte. Existem cordas muito sensíveis em que convém não tocar, a não ser com luvas de seda estilizadas. Na actualidade, duas dessas cordas são o sexismo e o racismo.
  • A Internet é um espaço de poder, um lugar onde pontificam vontades hierarquizadas. Apesar de a Internet ser imaterial, há pessoas que pesam mais do que outras. Por exemplo, a indignação das celebridades Zhang Ziyi, Li Bingbing e Wang junkai surte tanto efeito que até é notícia mundial. A universalidade e a igualdade da Internet são um logro.
  • É possível retirar, de um momento para o outro e à escala global, conteúdos da Internet. Revela-se, deste modo, difícil aceder aos anúncios boicotados. Precise-se que o cidadão comum não tem quase nada de seu na Internet. Num ápice, podem desaparecer-lhe conteúdos, por exemplo, do seu blogue ou das suas páginas nas redes sociais.
  • Os responsáveis pela marca italiana pediram desculpa à China. Intrometeu-se uma mensagem polémica de Stefano Gabbana que este garante ser falsa. Alguém teria pirateado a sua conta de Instagram. Verdade ou mentira, que alguém aceda a uma conta e fale em nosso nome é um risco real. Esta situação é mais complexa do que o boato tradicional. Os procedimentos de partilha e adulteração do boato são conhecidos (ver Edgar Morin, La rumeur de Orléans, 1969). Contudo, neles não consta esta usurpação ou este aluguer da identidade alheia. Daqui se depreende que a Internet pode ser uma árvore de enganos e um jogo de máscaras.
  • As proibições e os boicotes a anúncios podem resultar numa espécie de maná para as marcas. No caso do anúncio da Dolce & Gabbana, duvido. Notoriedade, já a conquistou. Falta saber o que acontece à imagem.

Os anúncios boicotados da Dolce & Gabbana, com uma chinesa a comer comida italiana com pauzinhos, são difíceis de encontrar. Foram sistematicamente “apagados”. Encontrei uma cópia que passo a colocar. Não sei por quanto tempo.

Dolce & Gabbana. Anúncios a um desfile em Shangai. Novembro 2018.

Notícia no Público Online:

“Dolce & Gabbana cancela desfile em Shanghai por causa de um anúncio que envolve pauzinhos

A Dolce & Gabbana cancelou nesta quarta-feira um desfile de moda nem Shanghai, depois de uma polémica online em torno de um dos seus anúncios. Em causa está um anúncio onde uma mulher chinesa luta para conseguir comer pizza ou esparguete com pauzinhos. Os chineses não gostaram.

A controvérsia foi o tópico número um na plataforma Weibo, com mais de 120 milhões de leituras, já que celebridades, incluindo Zhang Ziyi, estrela de cinema de Memórias de uma Geisha, publicaram comentários críticos à marca. Celebridades, como a actriz Li Bingbing e a cantora Wang Junkai, disseram que boicotariam o desfile da marca italiana.

Alguns dos que viram os anúncios, ao todo são três, ficaram incomodados com o que consideram o tom paternalista do narrador, oferecendo lições sobre como comer com pauzinhos. Além disso, uma alegada troca de mensagens de Stefano Gabbana surgiu nas redes sociais que viriam a confirmar que o designer é racista. Este veio desmentir na sua conta de Instagram.

“Lamentamos o impacto e o prejuízo que essas observações falsas tiveram sobre a China e o povo chinês”, disse a marca de moda de luxo italiana, num pedido de desculpas online em chinês no Weibo, acrescentando que a conta do Instagram de Gabbana foi pirateada”.

(Público Online. https://www.publico.pt/2018/11/21/culto/noticia/dolce-gabbana-cancela-desfile-shanghai-criticas-anuncio-envolve-pauzinhos-1851859 (Reuters  21/11/2018). Acedido02/12/2018)

À maneira de Diógenes. Os sopradores de lâmpadas.

Estátua de Diogenes

Estátua de Diógenes.

O anúncio Indestructible, da Organisation Internationale de la Francophonie , é optimista. A ideia, por mais que a castiguem, nunca se apaga. Sou menos optimista. As ideias, as boas ideias, não têm a vida fácil. Como os cavalos, também se abatem. Inclino-me para um optimismo moderado: uma ideia bem pensada, embora abafada no presente, voltará a ser pensada no futuro.

A autoria e a propriedade intelectual fazem parte da retórica da Internet. No início de Outubro, milhares de artigos foram removidos da minha página do Facebook acusando-a de spam, a “coisa” (1982), de John Carpenter, na Internet. Assegurei que não havia spam; pediram-me para aguardar. Até agora, nenhuma mensagem. Será esta a versão digital do diálogo? Entretanto, a autoria e a propriedade intelectual dormem nas urtigas. Este processo é semelhante a um auto da fé.

Não consigo colocar links do Tendências do Imaginário na minha página do Facebook. Nem eu nem ninguém. Uma mensagem automática alerta que o site Tendências do Imaginário é perigoso. O Tendências do Imaginário não é nenhum Moriarty. Contém, é verdade, pensamentos críticos e, eventualmente, polémicos. É um blogue incómodo. É a sua vocação. Com os pés em Braga e a cabeça no mundo, não poupa nenhuma instituição, grande ou pequena, branca ou preta. O Tendências do Imaginário preza o comentário desinibido, apanágio de um pensador livre. O boicote à partilha configura uma censura.

À medida que o Tendências do Imaginário crescia, cresceu o meu receio por este tipo de percalços. Passo muitas horas no computador, mas não vejo o mundo pelo ecrã.

Termino com uma história de Diógenes. Quando alguém lhe lembrou que o povo de Sinopse o condenara ao exílio, ele retorquiu: “E eu condenei-os a permanecer em casa”.

Marca: Organisation Internationale de la Francophonie. Agência : TBWA Paris. Direcção : Vincent Gibaud. França, Outubro 2018.

Desligar o mundo

Hello Vacation

“Eu remontava na minha memória até à infância para voltar a encontrar o sentimento de uma protecção soberana. Não existe protecção para os homens” (Antoine de Saint-Exupéry, Pilote de Guerre, 1942).

As grandes marcas ostentam um coração de anjo. Por inerência ou por conversão. Algo como o efeito Scrooge, do Conto de Natal de Charles Dickens. As grandes marcas preocupam-se connosco! No admirável anúncio novo Hello Vacation, a Motorola alerta: conectados na rede; desligados do mundo.

A Motorola produz telemóveis, smartphones e tablets! O anúncio parece um hara-kiri. Mas não é! A Motorola apenas produz telemóveis, não é responsável pelo seu uso, do foro de outras entidades, tais como as operadoras.

Convém desconfiar dos anjos, mormente dos anjos da guarda que fazem tudo para nos proteger: a protecção atrai o controlo. O abraço que protege é o mesmo que aperta.

Marca: Motorola. Título: Hello Vacancy. Agência: Ogilvy & Mather. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Manequins

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A publicidade abre-se cada vez mais à coreografia e à dança. 24 Sèvres é uma loja online que propõe peças de vestuário exclusivas de marcas consagradas. Presente em mais de 70 países, está associada ao “grand magasin” Le Bon Marché, localizado, precisamente, no nº 24 da rue de Sèvres, em Paris. No anúncio “Where fashion comes to life”, os manequins ganham vida, como num conto de E.T.A. Hoffmann. É preciso substituí-los. Estamos preparados? Que belos manequins que nós dávamos…

Marca: 24 Sèvres. Título: Where fashion comes to life. Agência: Fred & Farid Paris. Direcção: Nicolas Winding Refn. França, Setembro 2017.

A felicidade dos seios

Berlei oppressed

Os seios querem-se confortáveis e felizes. “Os homens que mostram demasiado a sua inteligência são como as mulheres que mostram demasiado os seus seios » (António Lobo Antunes, Lire, Novembro 1999). É verdade, os seios querem-se inteligentes e recatados. Não são como a face; entrevêem-se, apenas, em momentos de fortuna. Os seios não ganham em ser apalpados com os olhos, mas em ser desenhados pela imaginação. Um soutien, mais do que um suporte, é uma embalagem. Um bom soutien é uma felicidade para os seios. Assim o entendem as marcas de lingerie.

Introducing Womankind é um excelente anúncio da Berlei, uma marca particularmente reputada ao nível do underwear feminino desportivo.

Marca: Berlei. Título: Introducing womankind. Agência: The Monkeys. Direcção: Kim Gehrig. Austrália, Agosto 2017.

 

Imagens da música

Pandora. Sounds like you. 2017.Com uma dúzia de capas de discos faz-se um anúncio e escolhe-se música: The Rolling Stones, The Doors, The Cure, Nirvana… O anúncio Sounds like you foi dirigido por Michel Gondry para a Pandora. Acrescento o vídeo The Man Who Sold The World, na versão dos Nirvana. Quantas capas ficaram de fora neste anúncio? Por exemplo, a capa de The Man Who Sold The World (1970) de David Bowie.

Marca: Pandora. Título: Sounds like you. Direcção: Michel Gondry. USA, Maio 2017.

Nirvana. The Man Who Sold The World. MTV Unplugged. 1994.

Se eu morrer

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“Não há, aparentemente, representação, por estranha que seja, em que os homens não se apressem a acreditar com fervor, por pouco que os alivie do facto de saberem que um dia deixarão de existir, desde que lhes dê a esperança de uma forma qualquer de eternidade” Elias, Norbert (1988), La société des mourants, Paris, Christian Bourgois, p. 16-17).

Propus, recentemente, a noção de vida social do morto. Existem rituais de celebração e memória dos falecidos. Em alguns casos, até se comunica com o morto. Os anúncios da ifidie acenam com uma promessa de “vida para além da morte”. Ifidie é uma entidade, com página na Internet (http://ifidie.net/) e no Facebook (https://www.facebook.com/pg/IFiDieApp/about/?ref=page_internal), que disponibiliza uma aplicação que permite a criação de um vídeo ou de uma mensagem de texto que serão tornados públicos após a morte da pessoa. O vídeo ou a mensagem podem conter uma história de vida, um testemunho, a última vontade ou um segredo nunca antes partilhado. Graças a ifidie, a pessoa conquista um momento de protagonismo após a morte. É certo que esta proposta é vaga e vulgar, porventura um negócio suspeito. Mas não deixa de ser na banalidade que costuma brilhar o imaginário.

Marca: ifidie. Título: What you will leave behind. USA, Março 2011.

Marca: ifidie. Título: Your message after you die. USA, Dezembro 2011.

Marca: ifidie. Título: Your chance to world fame, after you die. USA, Agosto 2012.

Doador de energia

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15 minute history is a history podcast from UT Austin. João, queremos um!

As grandes invenções têm efeitos secundários terríveis. Assim aconteceu com a máquina a vapor, assim acontece com o telemóvel (e outras ferramentas de comunicação afins). Perversidades! Não imagino o desconforto de ficar pendurado. Importa controlar e domesticar as máquinas. E recarregá-las! Não há máquinas eternas, nem absolutamente autónomas, nem contra todos os riscos. Para evitar o desespero do protagonista do anúncio The Percent Donor, o mais avisado é fazer a ligação em triplicado, com três telemóveis em simultâneo. Não é por nada, mas grão a grão enche o drama o papo. No caso vertente, o impacto na natalidade pode revelar-se funesto. Ainda bem que existem “doadores” para transfusão imediata de energia.

Marca: Huawei. Título: The percent donor. Agência: Buzzman France. Direcção: Benjamin Bouhana. França, Fevereiro 2017.

Corpo a corpo

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“Na guerra como no amor, só o corpo a corpo dá resultados” (Blaise de Monluc, 1501-1577).

Não conhecia a palavra “nomofobia”: medo ou angústia da privação da comunicação por celular ou por computador. Consta que esta “doença” não é rara nem meiga. Ainda jovem, era canónico criar as palavras compostas a partir de palavras antigas, normalmente gregas ou latinas. Atente-se, por exemplo, na palavra “nomotetia”. Remete para o estabelecimento de leis gerais; provém do grego; da palavra νόμος, lei, e do radical θη, postular, estabelecer (https://pt.wikipedia.org/wiki/Nomot%C3%A9tico). Na Sociologia, os estudos nomotéticos visam leis gerais e os estudos ideográficos incidem sobre casos. Na actualidade, as palavras tendem a ser geradas por colagem, ver bricolage, sem esmeros de etimologia. No artigo anterior, a palavra “Eatkarus” resulta da junção de “eat” (em inglês, comer) e Ikarus (figura mitológica). Nomofobia bebe nas mesmas águas. Nomofobia devia significar algo como medo da lei. Mas a palavra é uma geringonça que combina o inglês No-Mo (No-Mobile; sem telemóvel) e o grego fobos (φóβος). “É uma espécie de miscelânea”.

A dependência do celular é o mote do anúncio Sea of Blue, da Levi’s. A cor do filme não é arbitrária: « muito coerente na sua realização, o anúncio é banhado por uma luz azul, símbolo da ambivalência entre o real e o virtual: o azul da cor dos nossos ecrãs mas também do grande mergulho na vida, e, naturalmente, da ganga da marca” (http://www.culturepub.fr/levis-plonge-dans-la-vie-reelle/).

Junto à piscina, todos os convidados estão concentrados nos celulares. Todos? Menos dois jovens : um rapaz e uma rapariga. E o que começa com uma paródia da comunicação insular acaba num turbilhão carnal em “mar azul”. Agarra o momento, solta o corpo, excita a vida!

Marca: Levi’s. Título: Sea of Blue. Agência: FCB West. Direcção: Laurent Uchrin. USA, Fevereiro 2017.

Nanotecnologia do conhecimento

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Em França, nos anos setenta, a televisão passava um programa chamado “Histoires sans paroles”, dedicado a curtas-metragens mudas e cómicas. Não falhava uma! Aprecio coisas breves com impacto. Aflige-me a perspectiva de escrever um livro, que começa e acaba com a mesma ideia, abraçando uma a uma todas as páginas. Incomoda-me propor pastilhas elásticas a cérebros alheios. Escrever não é soprar balões! Ainda há quem acredite que os livros pequenos contêm ideias curtas e os livros enormes, grandes ideias. É um sonho escrever numa dezena de linhas um assunto que justificaria uma dúzia de páginas. Também nisso sou um tosco herdeiro de Pascal. Eis porque me entretenho com anúncios publicitários e artigos de blogue. Ambos minúsculos, mas densos. Uma nanotecnologia do conhecimento.

O anúncio Old friends, da Amazon, é de uma originalidade bem destilada. Lembra os Reis Magos: ajoelha-te, reza e oferece. Oferece ao outro aquilo que desejas para ti. Por exemplo, umas joelheiras. De preferência, ecuménicas como as multinacionais.

Marca: Amazon. Título: Old friends. Agência: Joint London. Reino Unido, Novembro 2016.

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Lorenzo Monaco. Adoração dos magos. 1422.