Archive | Abril 2014

Maneiras estúpidas de viver

Toast. Metro Trains

As trombetas soam a culpa e expiação. Revezam-se nos ginetes os sacerdotes. Alastra um puritanismo sem ética. E as elites não param de lavar as mãos. Não há ponto cardeal que escape ao novo ajustamento. Há semanas, falei da morte risonha e da morte com bebé ao colo; estes anúncios mostram mortes parvas. O primeiro, da Metro Trains, consta entre os mais premiados da história da publicidade; o segundo, é uma paródia produzida para a Miami Ad School/ESPM.
Sente-se a falta de um Guerra Junqueiro. Escondíamos em casa uma edição censurada de A Velhice do Padre Eterno. Abundam, sem dúvida, as maneiras estúpidas de morrer, preocupam-me mais as maneiras estúpidas de viver.

Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.

Marca: Miami Ad School/ESPM. Título: Dumb ways to die. Agência: Y & R Brasil. Brasil, Abril 2014.

I touch myself

I Touch Myself Project

Há anúncios que nos tocam, que nos deixam sem palavras, e sem palavras ficamos.

Anunciante: Cancer Council NSW. Título: #itouchmyselfproject. Agência: JWT Sydney + Soap Creative. Direcção: Daniel Askill. Austrália, Abril 2014.

Grotescamente

Ecce Homo. Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borjia. Zaragoza. Espanha.

Ecce Homo. Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja. Zaragoza. Espanha.

Vermibus é um artista de Berlim. Em Dissolving Europe, retira as imagens de outdoors, desfigura-as com dissolvente e recoloca-as, deformadas, no mesmo local. Assim sucedeu em Paris, Barcelona, Amsterdão, Viena, Londres e Berlim. Os cartazes apresentam modelos famosos, que irradiam beleza, classe e estilo. Vermibus torna-os irreconhecíveis. Estamos confrontados com um conto de fadas invertido. O belo dá lugar ao disforme e ao grotesco, lembrando a estética de Francis Bacon, bem como a técnica de restauro da espanhola Cecilia Giménez.

Vermibus. Dissolving Europe. 2013.

Instrumental de Janis Joplin

Janis Joplin

“Apetece-me algo!” Por exemplo, uma música instrumental de Janis Joplin. Instrumental? Sem aquela voz? Não é uma barbaridade? No planeta dos macacos, ser bárbaro é ser humano.

Janis Joplin. Pearl (Instrumental). 1970. The Pearl Sessions. 2012.

O Ceptro e a Misericórdia

EverynoneLosers02-580x325O canal de música Vh1 acaba de lançar um anúncio (um vídeo musical com a canção I Will Survive de Gloria Gaynor) que é, à primeira vista, um manifesto contra o bullying. O próprio conceito resulta alargado: vítima, hoje; patrão, amanhã. Um bullying a dois tempos, invertido e compensado, como apraz ao nosso sentido de justiça. “Quem com ferro mata, com ferro morre”. Este anúncio não parece relevar de uma campanha anti bullying consequente. A vingança, serve-se fria? Quantas vítimas de hoje serão patrões amanhã? Sentam-se, como mártires contemporâneos, à direita do Poder? O bullying é uma fatalidade contra a qual nada se pode fazer a não ser estetizá-la?
Alto e pára a crítica! Por que motivo haveria o Vh1 de lançar uma campanha efectiva contra o bullying? É, por acaso, uma entidade oficial ou oficiosa financiada para o efeito? Não são as audiências que movem o Vh1? A miscelânea entre lucro e misericórdia corrente na publicidade “responsável” traz-nos vesgos e confusos. Torna-se cada vez mais penoso destrinçar o dedo de Deus do rabo do Diabo. São Bartolomeu nos valha! Em suma, um anúncio bem concebido e bem realizado, com um não sei quê de polémica que o vai tornar viral. Acrescento um segundo vídeo, dos Everynone, contra o bullying, num registo social e estético distinto.

Marca: Vh1. Título: I will survive. Agência: Delcampo Saatchi & Saatchi. Direcção: Agustin Alberdi. Argentina, Abril 2014.

Losers. Por Everynone e Époché Films. Música: Keith Kenniff. Produtores: Jon Messner, Alexandra Brown e Brielle Murray. 2011.

 

Poder na palma da mão

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O iPhone 5 permite auscultar o corpo, traçar itinerários, acompanhar uma canção, filmar curtas metragens, promover instalações de arte, ver as estrelas…  “With the power of iPhone 5s, you’re more powerful than you think”. Tanto poder na palma da mão! E, no entanto, não parece. Nem com resmas de iPhone 5s. A Física deve ter algum princípio do género: quando um fenómeno é demais, deixa de se sentir. Por exemplo, quando a velocidade de um corpo é muito elevada, deixamos de o ver. Da generosa colheita de mestres palavras circuladas nas últimas décadas, empowerment (empoeiramento?) é aquela que mais aprecio. O homem moderno é um Sansão compulsivo, com a técnica a substituir o cabelo. We are so empowered, aren’t we?

Marca: iphone. Título: Powerful. Agência: TBWA. USA, Abril 2014.

 

A juventude não tem idade

A Dodge faz 100 anos. Celebra-os com um anúncio onde figuram apenas pessoas centenárias, que partilham a sua sabedoria. Mais uma ideia simples com belo efeito. Em 24 horas, o anúncio ultrapassou quatro milhões de visualizações na internet. A Dodge é centenária, mas os carros são novos. Os idosos também são centenários, mas têm um espírito jovem. Os idosos sobressaem porque nos surpreendem com o seu espírito jovem? Estou a interpretar mal, não estou? Em tempos, uma mulher que parecia um homem até não parecia uma mulher! Estou a desconversar, não estou? Estou. Mais do que costume. Quando uma pessoa passa o dia a espremer pensamentos, o que apetece é desligar ou desconversar. Pensar, apenas, na idade que rejuvenesce. Tudo é esplendoroso quando é o que é mais o seu contrário.

Marca: Dodge. Título: Wisdom. Agência: The Richards Group. Direcção: Samuel Bayer. USA, Abril 2014.

Cravos

Change-this-world!-50-years-of-poster-for-Amnesty-International-1961-2011São cravos, Senhor, são cravos! Vermelhos. São cravos, Senhor, não são rosas. São cravos com espinhos. Recordo este anúncio dos 50 anos da Amnistia Internacional (2011) na véspera da comemoração dos 40 anos da revolução de Abril.

Anunciante: Amnesty International. Título: 50 years. Direcção: Carlos Lascano. Produção: Ealin Motion Art e Dreamlife Studio. 2011.

Com a verdade me enganas

Folha de S. Paulo

“Falar verdade a mentir” é o nome de uma peça de teatro de Almeida Garrett (1846). Neste anúncio, clássico, da Folha de S. Paulo (1987), trata-se, antes, de mentir a falar verdade”: “É possível contar um monte mentiras dizendo só a verdade”. Criteriosamente adiado, o desfecho do anúncio é desconcertante. Em 1988, ganhou o Leão de Ouro em Cannes. É possível contar mentiras cingindo-se à verdade, bem como surpreender o “espectador blasé”. As grandes mentiras não acabaram. Tão pouco as grandes narrativas.

Marca: Folha de S. Paulo. Título: Propaganda – Hitler. Agência: W/Brasil. Brasil, 1987.

 

 

 

O Mesmo e o Outro (Vincent Descombes)

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A publicidade consta entre os segmentos de actividade mais dinâmicos e mais criativos da actualidade. Houve tempos em que o protagonista do anúncio era o produto que absorvia quase todo o conteúdo. Ao produto deu-lhe, entretanto, para se esconder à sombra da marca. O diálogo entre a marca e o conteúdo passou a predominar. Mas sempre subsistiu um vértice no poliedro publicitário: o espectador, o consumidor ou público, como se lhe queira chamar. O público, eventualmente alvo, nunca foi meramente passivo. Mas sê-lo-á cada vez menos. Não se reduz a uma questão de interacção. O público tende a fazer parte do anúncio. O anúncio apresenta o produto, propõe o conteúdo, promove a marca, mas também caracteriza o público. O anúncio diz as qualidades do produto, da marca e do consumidor, do público alvo. Cabe ao espectador aproximar-se ou afastar-se, proceder a uma montagem identitária com as peças do puzzle incluídas no anúncio. O segredo reside nesta montagem que pressupõe, para além de uma identificação, uma participação, um sujeito, e não um mero receptor, do outro lado do ecrã. Esta leitura resulta de conversas vadias com o Carlos Nascimento. Pertence-lhe. Tem como pretexto a campanha Respect, da Nomad, uma empresa espanhola de pranchas de skateboard, implantada em 22 países. A campanha desdobra-se por três anúncios alusivos a três profissões: cientista, violinista e polícia. Não é o melhor exemplo para ilustrar o triângulo composto pela marca, pelo conteúdo e pelo público alvo. Mas essa geometria transparece, por momentos, de um modo tão luminoso que vale a pena destacar a campanha.

“Los tres spots de LOLA para Nomad Skateboards, realizados por Diana Kunst de Garlic Producciones, reflejan el paralelismo que existe entre diferentes profesiones y el mundo del skate, a través de una serie de reflexiones que nos hacen ver que entre estos mundos no hay tanta diferencia. Un científico trabaja e investiga hasta conseguir los resultados deseados, al igual que un patinador. Un violinista practica hasta depurar su técnica con un instrumento construido con madera y el patinador también. Por último, un policía, que a pesar de parecer tan diferente a un skater, comparte con él la dedicación por lo que hace.

Juan Sevilla, Director Creativo de la marca y creador de la campaña, explica: “Llevamos años trabajando con Nomad y la relación que tenemos con el cliente, con Iván e Itziar para ser más exactos, es muy buena. El contacto que tenemos con ellos y su equipo de skaters nos ha hecho entender dónde está el mundo del patín en este momento.” Sevilla asegura que “Nomad es una marca que conoce muy bien su target y por eso nuestras campañas intentan estar siempre cerca de él. Buscamos ideas que conecten con ellos y que partan de insights del mundo del patín pero que, además, cualquiera pueda entender.

Por su parte, Chacho Puebla, Director Creativo Ejecutivo y Socio de LOLA, asegura que “estamos muy contentos con el lanzamiento de esta campaña y estamos convencidos de que les ayudará en su objetivo de abrirse aún más al mercado internacional”. Para Iván Moreno Puché, Socio y Fundador de Nomad Skateboard, “trabajar con LOLA nos ha abierto la mente a otras formas de comunicación dentro de la industria del skateboarding. Nomad está en una fase de “renacer” y, por lo tanto, de poder comunicar bajo nuevos estilos, ajenos a los clásicos marcados por la industria, es un reto que, sin duda, me apasiona”. Queremos madurar con la marca, darle una personalidad y un concepto diferenciador y estas campañas, sin duda, contribuyen. Creo que, además, abren nuevos horizontes en la manera de comunicar y promover el skateboarding en general. Estamos rompiendo muchos estereotipos” (http://www.programapublicidad.com/lola-lanza-respect-para-nomad-skateboards/#.U1U-ffldV8F).

No conjunto, a campanha é uma procissão de valores, artes e traços identitários, um dispositivo de reconhecimento e demarcação:

– Somos como os cientistas, mas somos diferentes
– Somos como os violinistas, mas somos diferentes
– Somos como os polícias, mas somos diferentes
– Somos surfistas, mas somos Nomad
– We are the same, We are different

“Mais do que nos outros dois, o anúncio do polícia confunde-nos, levando-nos a pensar que o auto-retrato seria dele e não, como nos apercebemos no final, do skater que fecha o filme. Este é sem dúvida o mais bem conseguido desta trilogia. Se no caso do cientista e do violinista o anúncio termina com uma proposta de analogia, valendo isso o que vale, a correcção no desfecho do anúncio do polícia chega-nos por um subtil momento de tensão assumindo tratar-se efectivamente de contrários. O testemunho pertence, afinal, a quem está do outro lado da barricada. Na verdade, há dois intervenientes que dizem o texto: aquele que julgamos que o diz e aquele que, constatamos, o diz efectivamente. Mas, dizê-lo por empréstimo é menos nobre do que dizê-lo como proprietário. Na boca do verdadeiro dono o texto dilui-se e o que passa apenas a contar é o sujeito, aquele que é diferente porque afirma que ele e o seu oposto são iguais” (Carlos Nascimento).

Nos vídeos, carregar em HD.

Marca: Nomad Skateboards. Campanha: Respect. Título: Police. Agência: Lola / Lowe & Partners. Direcção: Diana Kunst. Espanha, Abril 2014.

Marca: Nomad Skateboards. Campanha: Respect. Título: Violinista . Agência: Lola / Lowe & Partners. Direcção: Diana Kunst. Espanha, Abril 2014.

Marca: Nomad Skateboards. Campanha: Respect. Título: Cientifico. Agência: Lola / Lowe & Partners. Direcção: Diana Kunst. Espanha, Abril 2014.