Archive | Abril 2014

Ser diferente

Arte por crianças com autismo. Amigos, por  Wil C. Kerner, com 12 anos de idade.

Arte produzida por crianças com autismo. Amigos, por Wil C. Kerner, com 12 anos de idade.

Há mundos e mundos. Os teus, os dos outros e os nossos. E aqueles que nem sequer suspeitamos. Mundos da vida. Mundos sensoriais. O que ouve um autista? Este anúncio da National Autistic Society esboça um cenário (para mais informação, consultar http://www.autism.org.uk/living-with-autism/understanding-behaviour/the-sensory-world-of-autism.aspx).

Anunciante: National Autistic Society. Título: Sensory Overload. Agência: The News. Direcção: Steve Cope. USA, Abril 2014.

O anúncio Sensory Overload lembra a ópera rock Tommy (1969), dos The Who, filmada por Ken Russell. Durante a guerra, o capitão Walker é dado como morto. Deixa a mulher grávida. Nasce Tommy. A mãe tem um amante: Frank. Passados alguns anos, o pai, inesperadamente, regressa e é assassinado por Frank. Tommy presencia a tragédia através de um espelho. A mãe e o padrasto insistem que ele nada viu, nem ouviu, logo nada contará a ninguém. Tommy torna-se, de facto, cego, surdo e mudo…

Os anos corroeram a memória dos The Who e do realizador Ken Russell, que ganhou um óscar em 1969 pelo filme Women in love. Em 1971, estreou o estranho e excessivo The Devils. Em 1980, é a vez da ficção científica com Altered States. Realizou, também, vários filmes dedicados a compositores musicais (Elgar, Liszt, Mahler, Tchaikovsky).

Sobram fórmulas para enterrar talentos. A mais vulgar é R.I.P. e a mais eufemística, “estava adiantado em relação ao seu tempo”: a obra de Ken Russel tinha traços pós-modernos, mas antes da declaração do fim das grandes narrativas, e barrocos, mas antes do neobarroco…

Segue a faixa See Me Feel Me – Listening to you, do album Tommy (1969) dos The Who.

Agonia

Luis de Morales. Piedad (c. 1560)

Luis de Morales. Piedad (c. 1560).

Imagens de impotência em situação de emergência. Aflitivas. A realidade e a ficção combinam-se para aumentar o efeito de verdade. Um efeito mais real do que o real. Uma criança brinca na companhia da mãe num espaço doméstico: amor, prazer, segurança. Um acidente, altamente improvável, ocorre: a criança salta para a piscina, escorrega numa prancha de surf e bate com a nuca no rebordo. Toda esta acção ocupa os 10 primeiros segundos do anúncio, montados com minucioso realismo. Segue-se o desespero e a agonia da mãe: 50 segundos, agora, de hiper-realidade. A agonia da mãe perante a perda do filho actualiza uma figura matricial do imaginário cristão. Impotente, a mãe, impotente, o espectador. Não há modo de ultrapassar a barreira. Tal como existem pecados por omissão, também existe impotência por omissão: incapacitação imprevidente. Um curso de primeiros socorros, eis a falha! Bastante cru, quase cruel, eventualmente chocante.

Anunciante: St John Ambulance Foundation. Título: Break the barrier. Agência: The Brand Agency. Direção:  Grant Sputore. Austrália, Abril 2014.

PS. A tradição judaico-cristã ainda está para dar e para durar. Os mestres da palavra continuam a pensar que a consciencialização carece ser regada com uma boa dose de sentimento de culpa

Chamamento

Nike. The Jogger

O Carlos Nascimento é um amigo. Tem uma empresa de publicidade e deu-me o prazer de o acompanhar no doutoramento em Ciências da Comunicação. Numa conversa vadia, afloramos a importância crescente da figura do chamamento nos anúncios publicitários. Enviou-me, como exemplo, um anúncio soberbo da Nike: The Jogger, pela agência Wieden+Kennedy Portland. Estreado em 2012, foi um autêntico devorador de prémios. Desafiei o Carlos a fazer o comentário. Ganhei uma lição: a qualidade deste blogue pode melhorar.

O chamamento da grandeza ou a grandeza do chamamento?

À convocatória que as marcas fazem nos anúncios actuais, Albertino Gonçalves designa de chamamento, atribuindo-lhe assim algo de religioso que visa, mais do que uma relação material, uma ligação emocional, assente na partilha de missão e de valores e menos na experiência de produto.

Este anúncio da Nike é um excelente exemplo de chamamento, onde a marca não nos convoca nem pela experiência nem pelo benefício do produto mas sim por um exemplo de anónima virtude que nos toca: Greatness.

Dois movimentos fazem o filme: o de uma estrada gasta, agreste e inóspita que o efeito da câmara transforma num tapete rolante; o de um jovem anónimo, numa corrida sofrida e pesada. À medida que o filme avança, ambos os movimentos classificam e competem um com o outro. O esforço do corredor torna a estrada num calvário. Por sua vez, a estrada revela naquela figura desajeitada e quase grotesca um lutador persistente. O movimento da estrada, apesar de racional, regular e perpétuo vai perdendo para o da pessoa, emocional, desajeitado e ocasional. A aproximação sofrida da personagem à câmara é a prova maior de superação.

Neste exemplo rude é o texto que lhe dá o sentido. Greatness não apenas um exclusivo de alguns, poucos, nem tão pouco de super heróis mas também de all of us. É pelo texto que aquele episódio anónimo e aleatório passa a ser uma referência de virtude. Sem saber e sem contar, o chamamento daquele rapaz, longe dos olhares e de exibicionismos é também o nosso chamamento. E lá estava a marca para nos servir o exemplo como deve ser: cru, sem vaidades nem juízos.

Carlos Nascimento

Marca: Nike. Título: The Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direção: Lance Acord. USA, 2012.

Voar de rastos

J. J. Cale1974 foi uma curva de aceleração na vida nacional. Uma mudança de cabo, em maré de exaltação e descoberta. Tudo sabia a pouco. No dia 25, aventuro-me ao primeiro discurso político desde 1975. Por que reergo o cálice? Saudade de um Portugal como jamais, todo ele a levantar-se do chão? Se calhar, é só baba de velho. Um fio de melancolia! Mais vale voar de rastos! Ou debaixo da terra como as toupeiras. Dizem que abrir os olhos faz mal à vista. Benditas palas!

Gosto de compositores que, astros ou faíscas, lançam as sementes de um  estilo a que dão o nome. Não são faróis ambulantes que nos encandeiam sempre com a mesma luz. Vai um J. J. Cale?

J. J. Cale. Crying. Okie. 1974.

Elas ficam e partem. O papel das mulheres na emigração

As palavras deviam ser como os cigarros
Fumar uma de cada vez

Passadoras de Homens e Outras Aventureiras é uma reportagem de Ana Cristina Pereira (Texto), Adriano Miranda (Fotografia) e Mariana Correia Pinto (Vídeo) sobre o papel das mulheres na emigração dos anos sessenta, editada no Público de 13 de Abril de 2014. Para aceder carregar na imagem ou no seguinte endereço http://www.publico.pt/portugal/noticia/passadoras-de-homens-e-outras-aventureiras-1631504.

Rio Minho, em Melgaço.Parque Nacional da Peneda-Gerês

Luta pelo prazer

Soft Verdict. Struggle for Pleasure 1983.

Em 2009, Wim Mertens deu um concerto memorável no Theatro Circo, em Braga. Compôs, volvidos poucos anos, a obra When Tool Met Wood, especificamente para Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura.  Struggle for Pleasure e Close Cover são duas músicas que integram o álbum Struggle for Pleasure (1983) produzido com os Soft Verdict, um grupo de composição variável dirigido por Wim Mertens. A qualidade do som e da imagem dos vídeos originais deixa a desejar. Mantive o primeiro, Struggle for Pleasure, mas recorri no segundo, Close Cover, a uma interpretação de 2009.

Soft Verdict / Wim Mertens. Struggle for Pleasure. Struggle for Pleasure. 1983.

Wim Mertens Ensemble. Close Cover. Struggle for Pleasure. 2009.

O Lobo da Estepe

Herman Hesse. Lobo da Estepe. Capa.

“Como não haveria de ser eu um Lobo da Estepe e um mísero eremita em meio de um mundo de cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! Não consigo permanecer por muito tempo num teatro ou num cinema. Mal posso ler um jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres e alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés abarrotados, com sua música sufocante e vulgar, aos bares e espetáculos de variedades, às Feiras Mundiais, aos Corsos. Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tantos anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível” (Hermann Hesse, Lobo da Estepe, 1ª edição 1927).

Tanto desejo com cio, tanta vontade de ser alguém: carneiros de Panurge (François Rabelais, Pantagruel, 1532), abelhas egoístas (Bernard de Mandeville, Fábula das Abelhas, 1714), porcos triunfantes (George Orwell, A Quinta dos Animais, 1945) pastam, zumbem e grunhem por todo o lado.
O lobo da estepe uiva, alheado, à margem, na reserva do admirável mundo novo (Aldous Huxley, 1932).
Livrai-nos, Senhor, dos deuses que enchem as alturas e dos acólitos que benzem hierarquias. Tapam-nos o sol, tapam-nos o sonho. Cuidai, Senhor, do lobo da estepe.

Pink Floyd. Pigs

Pink Floyd. Pigs

Este desfile de bestas lembra o Animals, dos Pink Floyd. Assisti ao concerto que deram, em Paris, em Fevereiro de 1977, um mês após a sua edição. Segue a canção Pigs, a fábula de uma inversão do mundo que pouco ou nada mudou.

Pink Floyd. Pigs. Animals. 1977.

Três faces e um pescoço

Para além do Cristo da Trindade (http://tendimag.com/2014/04/10/as-tres-faces-de-cristo/), cabeças com três faces aparecem em máscaras pré-colombianas, mexicanas, africanas, venezianas e orientais, em esculturas de shiva e na arte contemporânea. Há quem represente o tempo com três faces: o passado, o presente e o futuro (ver galeria). Esta pequena digressão à volta do mundo serve para encalhar na capa do primeiro cd dos Goldfrapp: dois rostos femininos laterais simétricos; na parte frontal, o capricho dos cabelos esboça a carranca de um monstro. É difícil escolher uma música do álbum Felt Mountain (2000). Segue a faixa Utopia, com a capa.

Goldfrapp. Utopia. Felt Mountain. 2000

As Três Faces de Cristo

Produzi, há tempos, um protodocumentário intitulado As Duas Faces, Imagens de Cristo (http://tendimag.com/2011/12/11/as-duas-faces-imagens-de-cristo-2/). Hoje, não vão ser duas mas três as faces de Cristo.

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Antonio di Atri. Trinidade com três faces. Ca. 1400

Para representar a Trindade, alguns artistas retratam Cristo com três faces: uma frontal e duas laterais. A imagem mais antiga que conheço remonta a cerca de 1410: o fresco Trinità con tre volti, no Duomo de Atri (Itália) assinado por Antonio Martini de Atri.

Impressionante é também o Cristo Com Três Faces. A Trindade, da Escola Holandesa, pintado cerca de 1500.

Christ with Three Faces. The Trinity.1500, Netherlandish School. Complete

Cristo com Três Faces. A Trindade. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Cristo com Três Faces. A Trindade. Ca. 1500. Escola Holandesa.

Resulta estranho o quadro Trinity Jesus (cerca de 1610) exposto em Schloss Hellbrunn, num castelo do séc. XVII situado em Salzburg. Um Cristo com três caras e quatro olhos, nem mais, nem menos!

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art, Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Jesus como Trindade. Museum of Folk Life and Folk Art. Schloss Hellbrunn. Ca. 1610.

Esta representação da Trindade é bastante rara. A Igreja optou por outras soluções. Nem toda a Igreja tolerou sempre esta imagem de Cristo com três faces, com particular incidência no cristianismo colonial, da América Latina.

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de  Arte de Lima

Trindade Trifacial. 1750-1770. Museo de Arte de Lima

À semelhança do que aconteceu com o nu durante a Reforma e a Contra-reforma, algumas imagens do Cristo com três faces foram retocadas e outras destruídas (ver http://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/). Pintaram-se, por exemplo, cabelos sobre as faces laterais. O Cristo que domina a pintura Símbolo de la Trinidad (Ca. 1685), de Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos, exposta no Museo Colonial de Bogotá,  foi retocado de modo a encobrir as duas faces laterais. A imagem original, trifacial, só recentemente foi redescoberta, sendo restaurada em 1980.
Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos. Símbolo de la Trinidad. Museo Colonial de Bogotá. Ca. 1685.

 

Alívio

India polio freeA Índia erradicou a poliomielite, uma doença grave. Comemora o acontecimento com várias iniciativas, entre as quais este anúncio. Os membros do corpo  libertam-se, finalmente, da atrofia. Simples, o anúncio é primoroso: uma animação minimalista na palma das mãos: uma vítima da doença, a outra, sadia.

Este anúncio comprova a tendência de a linguagem universal do futebol ser cada mais utilizada para significar a energia, a liberdade e, de algum modo, a vida. Um pontapé na bola afirma-se como um gesto de libertação! Em Portugal, existem localidades onde é tradição na passagem de ano, em vez de comer uvas passas, dar uns valentes pontapés no ar para esconjurar os infortúnios do ano velho. Mas nem tudo o que anda tem pernas.

Anunciante: Rotary Club. Título: India is polio free. Agência: JWT. Direcção: Suresh Eryat. Índia, Março 2014.