O Lobo da Estepe

Herman Hesse. Lobo da Estepe. Capa.

“Como não haveria de ser eu um Lobo da Estepe e um mísero eremita em meio de um mundo de cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! Não consigo permanecer por muito tempo num teatro ou num cinema. Mal posso ler um jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres e alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés abarrotados, com sua música sufocante e vulgar, aos bares e espetáculos de variedades, às Feiras Mundiais, aos Corsos. Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tantos anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível” (Hermann Hesse, Lobo da Estepe, 1ª edição 1927).

Tanto desejo com cio, tanta vontade de ser alguém: carneiros de Panurge (François Rabelais, Pantagruel, 1532), abelhas egoístas (Bernard de Mandeville, Fábula das Abelhas, 1714), porcos triunfantes (George Orwell, A Quinta dos Animais, 1945) pastam, zumbem e grunhem por todo o lado.
O lobo da estepe uiva, alheado, à margem, na reserva do admirável mundo novo (Aldous Huxley, 1932).
Livrai-nos, Senhor, dos deuses que enchem as alturas e dos acólitos que benzem hierarquias. Tapam-nos o sol, tapam-nos o sonho. Cuidai, Senhor, do lobo da estepe.

Pink Floyd. Pigs

Pink Floyd. Pigs

Este desfile de bestas lembra o Animals, dos Pink Floyd. Assisti ao concerto que deram, em Paris, em Fevereiro de 1977, um mês após a sua edição. Segue a canção Pigs, a fábula de uma inversão do mundo que pouco ou nada mudou.

Pink Floyd. Pigs. Animals. 1977.

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2 responses to “O Lobo da Estepe”

  1. beatrizmartins.artes@gmail.com says :

    É difícil gostar do comum, quando os acessos chegaram ao supremo!Depois dos Pink Floyd em Paris! E em que época!

  2. petitscoquelicots says :

    Já entendi porque foi oferecido este livro a uma certa pessoa que conheci há muitos anos. Definia perfeitamente o seu caráter. Interessante.

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