Tag Archive | Pink Floyd

Máscaras de gás

Playground

Somos animais simbólicos (Ernst Cassirer). Os únicos animais simbólicos. Há símbolos e símbolos. Poucos estão tão associados à morte como a caveira e a máscara de gás: a caveira por dentro da pele; a máscara de gás por fora.

Manfred mann's Earth Band. Messin. 1973

Manfred mann’s Earth Band. Messin. 1973

O anúncio Poisoned Playgrounds, da ClientEarth, lembra duas gravuras de Otto Dix, pintor expressionista veterano da I Guerra Mundial (ver diapositivos). Lembra, também, o vídeo musical Goodbye Blue Sky, dos Pink Floyd (The Wall, álbum: 1979; filme: 1982) e a capa do álbum Messin, dos Manfred Mann’s Earth Band (1973). O anúncio é duro, sem transigências. O problema da poluição do ar também é duro e com consequências. A poluição atmosférica não tem voz, nem rosto, como a máscara de gás.

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Anunciante: ClientEarth. Título: Poisoned Playgrounds. Agência: BMB London. Reino Unido, Setembro 2017.

Pink Floyd. Goodbye Blue Sky. The Wall. 1982

Fortuna

euromillionsProliferam por todo o mundo os anúncios a jogos de lotaria. A figura do euromilionário, ridicularizada pela incongruência de atributos, não é, porém, antipática. Arrecada uma fortuna num só gesto e num único momento. Mas há quem, em contrapartida, enriqueça todos os dias.

Marca: Euromillions. Título: Parking. Agência: AMV BBDO London. Direcção: James Rouse. UK, Setembro 2016.

A fé na sorte é uma ilusão bem partilhada. Acredita-se que a aleatoriedade é o processo mais democrático de selecção. Não é essa a opinião de Louis Pasteur: “Nos domínios da observação, o acaso só favorece os espíritos bem preparados” (Discurso proferido em Douai, no dia 7 de Dezembro de 1854 in Oeuvres, Tome VII, Paris, Masson & Cie, Editeurs, 1939, p. 130). Os caprichos da sorte dependem do percurso, da condição e da exposição de cada um. Como sugere Oscar Lewis, a sorte é o recurso daqueles que não têm recursos (The Children of Sanchez, New York, Random House, 1961). Exagerando e poetizando, a esperança, e a desculpa, dos desesperados.

Marca: Euromillions. Título: Rich. Agência: Moetierbrigade. Direcção: Jonathan Herman. Bélgica, 2013.

Um euromilionário pode ser qualquer um de nós (one of us). Até a mim me pode calhar! É a fé, não do apóstolo, mas do apostador. Como o deus de Joan Osborne, pode estar no meio de nós:

What if God was one of us?
Just a slob like one of us?
Just a stranger on the bus
Trying to make His way home?

Joan Osborne. One of Us. Relish. 1995.

Todos podemos ser apostadores. Mas arrebanhar os euros dos outros todos os dias, isso é privilégio de outros mealheiros. Us and Them, como cantam os Pink Floyd:

And the general sat
And the lines on the map
Moved from side to side
Black (black, black, black)
And blue (blue, blue)
And who knows which is which and who is who.
Up (up, up, up, up)
And down (down, down, down, down)
And in the end it’s only round ‘n round (round, round, round).

Pink Floyd, Us and Them. The Dark Side of The Moon. 1973.

Obscenidade

Pink  Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Pink Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Há fenómenos que parecem talhados para ilustrar processos semióticos, por exemplo, a sacralização do profano e a profanação do sagrado. O anúncio The Bicky Beef Miracle, da Bicky, destaca-se como um caso exemplar.

Das entranhas de uma vaca saem caixas com hamburgers. Um milagre, admitem o padre e o bispo. Promove-se uma procissão, criam-se imagens “santificadas” da vaca, substituem-se as hóstias por hamburgers aparecidos no ânus do animal. Em suma, assiste-se a uma escalada na sacralização do profano. Por outro lado, reconhecer um milagre num hamburger evacuado, promover uma procissão a uma vaca equiparada a uma santidade e substituir a hóstia pela caixa de hamburger, tudo isto releva de uma profanação do sagrado. Um delírio grotesco com escatologia acintosa. Vale a pena afrontar o público e enojar o espectador?

Esta dialética entre sagrado e profano é corrente no mundo publicitário. Mas também floresce no quotidiano mais banal. Uma anedota, memória da infância, mostra os extremos a que pode conduzir a profanação humorística do sagrado.

A missa estava inusitadamente concorrida. O padre conta as hóstias. Não chegavam. Ordena ao sacristão:
– Vai ao curral, colhe bosta seca, corta às rodelas, pinta-as de branco e traz-mas.
O sacristão assim fez. A missa começa. E a comunhão decorre sem falhas. Entretanto, o Manuel, entre pragas e caretas, mastigava. A mulher, a seu lado, admoestou-o:
– Comporte-se que é o corpo de Cristo!
O Manuel murmurou:
– Foi-me logo calhar a parte do cú.

O processo é similar ao do anúncio da Bicky: sacralização do profano (a bosta) e profanação do sagrado (a hóstia associada ao traseiro).

O anúncio comporta riscos, como, por exemplo, associar o Hamburger Bicky aos intestinos miraculosos de um bovino. A ousadia afasta ou cativa os consumidores? A obscenidade e a escatologia compensam? Polémicas à parte, o anúncio apresenta uma história bem contada com um cocktail de símbolos explosivo.

Jens Mortier, fundador e director criativo da agência mortierbrigade, esclarece:

However, we’re not creating these attention-grabbing campaigns solely as gimmicks or for a quick laugh; the incredible results of our work with Bicky so far shows that we are really striking a note with burger lovers”.

Spike van der Werf, director de Marketing & Inovação da Bicky, prossegue:

“Bicky can be anything, except virtuous. We save the good taste for our 100 per cent Angus burgers. When it comes to our brand communications, we want to create content that act as an adrenaline shot to the heart of our customers. Mortierbrigade is exactly the right partner to help us to tell stories that don’t smell like advertising and, instead, become part of the cultural conversation. This collaboration with Lionel Goldstein fits our brand perfectly well” (http://www.lbbonline.com/news/what-beefy-miracle-is-hiding-in-this-holy-cows-anus/).

Marca: Bicky. Título: The Bicky Beef Miracle. Agência: mortierbrigade. Direcção: Lionel Goldstein. Bélgica, Junho 2016.

Vaca por vaca, prefiro a vaca dos Pink Floyd. Atom Heart Mother (1970) não é dos álbuns mais famosos dos Pink Floyd. E depois? Segue a última faixa do lado A: Remergence.

 

Destribalizar

Syd Barret (1946-2006)

Syd Barret (1946-2006)

Em “tempo de tribos” (Michel Maffesoli), destribalizar é arriscado. Há tantas tribos! Umas cristalizadas e sólidas, outras moles e passageiras. Todas adubam a comunhão e a identidade. Destribalizar pode perfurar tecidos com laços frouxos e compromissos leves (Zigmunt Bauman).O défice de laços sociais, eventualmente a solidão, afasta-nos do húmus da interacção social (Michel Maffesoli).  As tribos constituem uma componente importante da vida social. Mas subsistem outras componentes. Por exemplo, os nichos e os grupos primários (Charles Cooley), tais como os retiros, a família e os amigos. Na aritmética social, meia dúzia de laços íntimos pode rivalizar com uma chuva de participações tribais. De qualquer modo, a destribalização comporta custos: menos solidariedades mecânicas, menos ecos simbólicos e menos combustões instantâneas. Acresce que a destribalização, o isolamento, é encarada como um ato suspeito, imputável à soberba, à melancolia, à misantropia, à depressão, ao autismo, à esquizofrenia ou a um outro distúrbio mental qualquer. A que propósito vem este reportório? A memória de Syd Barrett, membro fundador e mentor dos Pink Floyd, que foi substituído pelo amigo David Gilmour. Um dos compositores mais criativos da história do rock. Segue o vídeo Shine on crazy diamond, uma homenagem dos Pink Floyd a Syd Barrett.

Pink Floyd. Shine on crazy Diamond. Wish you were here. 1975.

Acordar com os pássaros

Apetece acordar com os pássaros!

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Pink Floyd Cirrus MinorPink Floyd. Cirrus Minor. Music from the Film More. 1969.

pink-floyd-ummagumma-coverPink Floyd. Grantchester Meadows. Ummagumma. 1969.

Cães, porcos e carneiros

Estive aqui! Nunca mais voltei a assistir a um espectáculo como este.

Estive aqui, no dia 22 de Fevereiro de 1977. Nunca mais voltei a assistir a um espectáculo como este.

Nunca vi tanto cachaço ao sol, nem tanta besta num pedestal.
Assim gira o mundo dos animais. Como na quinta de George Orwell.

Pink Floyd. Seamus The Dog. Meddle. 1971.

Pink Floyd. Pigs on the wind. Animals. 1977.

Pink Floyd.Sheep. Animals. 1977.

Primeiro single dos Pink Floyd

 

Pink Floyd. Arnold Layne. 1967

Hoje não me apetece elaborar. Fim de mês, fim de férias. Nem mísera crítica, nem piada incógnita. Vou apenas anexar o videoclip da primeira música publicada pelos Pink Floyd: Arnold Layne, single, 1967.

Pink Floyd. Arnold Layne. 1967.

Já agora, no mesmo ano, 1967, a outra grande banda do rock progressivo britânico dos anos sessenta, The Moody Blues, lança o segundo álbum (LP): Days of Future Passed, com Nights in White Satin. Carregar na imagem para aceder.

Moody Blues

The Moody Blues, Nights in White Satin, ORTF, França, 1969.

Música para museu

Air. Music for Museum

Novo álbum dos Air! Apenas em vinil. O que não impede a circulação digital. Trata-se de uma encomenda do Palais des Beaux Arts, de Lille, em França, para uma experiência audio+visual. Audível em todo o espaço do museu, a música faz parte da mostra que envolve quatro artistas (Linda Bujoli, fotógrafa; Mathias Kiss, designer; Xavier Veilhan, escultor, fotógrafo…; Yi Zhou, arte multimedia).

Não posso afirmar que este Music for Museum corresponde aos Air que me habituei a apreciar (a minha subjectividade não lhe retira valor). A maior parte das faixas lembram Tangerine Dream e Klaus Shulze, mais de cinquenta anos atrás. Por sua vez, o baixo da faixa Octogum não destoa do baixo de One of These Days, dos Pink Floyd. Não obstante, que saiba, nem os Pink Floyd, nem os Tangerine Dream, nem Klaus Shulze, nenhum deles compôs uma trilha sonora para um museu.

Air. Octogum. Music for Museum. 2014.

Pink Floyd. One of These Days. DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut). 1972.

O Lobo da Estepe

Herman Hesse. Lobo da Estepe. Capa.

“Como não haveria de ser eu um Lobo da Estepe e um mísero eremita em meio de um mundo de cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! Não consigo permanecer por muito tempo num teatro ou num cinema. Mal posso ler um jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres e alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés abarrotados, com sua música sufocante e vulgar, aos bares e espetáculos de variedades, às Feiras Mundiais, aos Corsos. Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tantos anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível” (Hermann Hesse, Lobo da Estepe, 1ª edição 1927).

Tanto desejo com cio, tanta vontade de ser alguém: carneiros de Panurge (François Rabelais, Pantagruel, 1532), abelhas egoístas (Bernard de Mandeville, Fábula das Abelhas, 1714), porcos triunfantes (George Orwell, A Quinta dos Animais, 1945) pastam, zumbem e grunhem por todo o lado.
O lobo da estepe uiva, alheado, à margem, na reserva do admirável mundo novo (Aldous Huxley, 1932).
Livrai-nos, Senhor, dos deuses que enchem as alturas e dos acólitos que benzem hierarquias. Tapam-nos o sol, tapam-nos o sonho. Cuidai, Senhor, do lobo da estepe.

Pink Floyd. Pigs

Pink Floyd. Pigs

Este desfile de bestas lembra o Animals, dos Pink Floyd. Assisti ao concerto que deram, em Paris, em Fevereiro de 1977, um mês após a sua edição. Segue a canção Pigs, a fábula de uma inversão do mundo que pouco ou nada mudou.

Pink Floyd. Pigs. Animals. 1977.

Seara académica

Pink-Floyd-High-HopesEstou a ler, com interesse, uma dissertação, em que a autora utiliza a seguinte expressão: seara académica. Perversamente, veio-me à ideia outra palavra: ceifa. Lembrou-me, também,um vídeo musical em que os símbolos académicos passeiam surrealisticamente pelos campos: Pink Floyd – High Hopes.