Tag Archive | Pink Floyd

O regresso do gato

O gato desapareceu sem aviso prévio. Regressou ao décimo sétimo dia. Magro, assustadiço e carente. Para lhe dar as boas vindas, coloquei a versão mais antiga da música Grantchester Meadows, dos Pink Floyd. Um solo de Roger Waters. Começa com pássaros a cantar. Espetou as orelhas, inspecionou a sala e olhou para mim como quem diz: “de pássaros, percebo eu”. E saiu, devagar, deixando-me com a cantoria dos Pink Floyd. Prosseguindo com o canto dos pássaros e os Pink Floyd, acrescento a música Cirrus Minor, do álbum More (1969).

Pink Floyd. Grantchester Meadows. Ummagumma. 1969.
Pink Floyd. Cirrus Minor. More. 1969.

Diferenças e defeitos

Peter Huys. O Inferno. 1570. Pormenor.

Admiro Syd Barrett, fundador dos Pink Floyd. Cedo se saturou dos outros. Faleceu, diabético, em 2007, de complicações de obesidade mórbida. A obesidade, outrora conforto e fartura, degenerou em deformidade, vício e pecado. Faltou Michel Foucault ter-se dedicado à genealogia da obesidade.

Uma sociedade que persegue a obesidade é moderna. Nem pós-moderna, nem líquida, nem outra desmodernidade qualquer. O obeso é um indexável (apontável pelo dedo) e um estigmatizado (não há mais dedo a apontar). Não somos filhos de Adão e Eva, somos filhos do padrão e da balança. Do Arcanjo São Miguel. O nosso século descobriu uma fórmula alquímica que transforma as diferenças em defeitos.

Matilda Mother (1967) é uma canção dos Pink Floyd da era Syd Barrett (guitarrista e vocalista).

Pink Floyd. Matilda Mother. The Piper At The Gates Of Dawn. 1967.

O ninho

É bom saber que se tem um ninho. Segue a versão Pearl Jam (2011) da canção Mother dos Pink Floyd, bem como a canção Mamy Blue, dos The Pop Tops

Pearl Jam. Versão da canção Mother dos Pink Floyd. 2011 11 06 – Rio de Janeiro, Brazil.
The Pop Tops. Mamy Blue. Mamy Blue. 1971.

Conversa sobre investigação

Convite: O ofício do investigador: aprender com a prática

Sexta, dia 1 de Março, vou partilhar experiências graças às quais melhorei a arte de investigar. Com uma vintena de projectos concluídos, algo se aprende. As histórias contadas não aparecem nos manuais. Pouco valem se as procuramos nos livros. São histórias que remetem para a vida e as suas contingências. Sexta, às 17:30, é uma data ingrata. Para muitos, já é fim de semana, tempo para voar noutras paragens. Acresce que estas conversas não dão pontos no pinball da intelligentsia académica.

Resistência e impotência

Marcel Mauss

Marcel Mauss.

“De todos os fenômenos religiosos, mesmo os considerando apenas de fora, é a oração que apresenta imediatamente a impressão de vida, riqueza e complexidade. Ela possui uma história maravilhosa: parte de baixo, e ascende gradualmente até as cimeiras da vida religiosa. Infinitamente flexível, assume as formas mais variadas, alternadamente adorativas e vinculativas, humildes e ameaçadoras, secas e abundantes em imagens, imutáveis e variáveis, mecânicas e mentais. Preenche os papéis mais diversos: aqui é um pedido brutal, lá uma ordem, noutro lugar um contrato, um ato de fé, uma confissão, uma súplica, um elogio, um Hosana. Às vezes, uma mesma espécie de orações tem passado sucessivamente por todas as vicissitudes: quase vazia na origem, encontra-se um dia cheia de sentidos; em outro, quase sublime no início, se reduz gradualmente a um salmo mecânico (Marcel Mauss, La Prière, 1909, traduzido por Mauro Guilherme Pinheiro Koury)”.

As orações podem ser de revolta e desespero. A canção The Great Gig In The Sky, dos Pink Floyd, versa sobre a resistência e a impotência perante o “destino da vida”.

The song began life as a Richard Wright chord progression, known variously as “The Mortality Sequence” or “The Religion Song”. During 1972 it was performed live as a simple organ instrumental, accompanied by spoken-word samples from the Bible and snippets of speeches by Malcolm Muggeridge, a British writer known for his conservative religious views (The Great Gig In The Sky. Wikipaedia, acedido em 28/11/2018).

Para um descrente de Deus, do Homem e do Diabo, nestes dias, já rezei muito.

Pink Floyd. The Great Gig In The Sky. The Dark Side Of The Moon. 1973.

 

Liberdade digital

Quando um poder alheio me invade o quintal, fico zangado. Asseguram que a Internet é uma infinita liberdade rumo ao paraíso da igualdade. Como são felizes aqueles que acreditam! Atrás, ao lado, dentro ou em cima de uma rede social, de uma plataforma ou de um algoritmo estão seres humanos, feitos do mesmo barro que nós. Prepotentes, omnipotentes, omnividentes e omniscientes, são deuses ocultos. Num ápice, apoderam-se da tua conta, da tua página, do teu blogue… Armados com regras e protocolos, censuram, retificam, bloqueiam, removem. Estes poderes do mundo digital fazem de nós o resto de nada. Um grão de areia na praia da Figueira da Foz.

A que propósito vem a praia da Figueira da Foz? Este fim-de-semana, o Facebook “encerrou”, sem aviso, mais de 2 000 artigos da minha página pessoal e bloqueou as ligações ao blogue Tendências do Imaginário. Uma autêntica purga. Qual o motivo? “Spam”! Componho os artigos no Tendências do Imaginário e partilho-os na página do Facebook. Uma rotina com, pelo menos, oito anos. Levou tempo a descobrir o “spam”! Isto dói.

Muitas das músicas dos Pink Floyd são de revolta e resistência. Hoje, apetece-me ouvir o álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos primeiros álbuns no momento de viragem para a maturidade.

Gosto dos Pink Floyd, sobretudo do álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos álbuns anteriores sem ceder ainda à maturidade dos seguintes. Quando estou zangado, costumo ouvir a primeira faixa, “One of these days”, e a terceira, “Fearless”. Nos dias de indignação, os Pink Floyd oferecem-se como um bálsamo estimulante.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director's Cut).

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut).

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Cannabis Day

Snoopy e Pink Floyd

O 20 de Abril é o dia da cannabis no Canadá e nos Estados Unidos. Há dias para tudo, desde que tudo caiba num dia. A publicidade preza, cada vez mais, as efemérides. O dia da cannabis não é excepção. A Mighty Blend, por exemplo, não desdenha a oportunidade, enrolando-a com o imaginário psicadélico da praxe.

Marca: Mighty Blend. Título: The Finest Herb with Aunt Mary (episode 1). Agência: Havas Montréal. Canadá, Abril 2018.

Marca: Mighty Blend. Título: The Finest Herb with Aunt Mary (episode 2). Agência: Havas Montréal. Canadá, Abril 2018.

Aproveito a ocasião para regressar a um pecado da juventude: os Pink Floyd, uma banda que se me afigura ser mas gostada ou desgostada do que ouvida.

Pink Floyd. Interstellar Overdrive. The Piper at the Gates of Dawn. 1967.

Pink Floyd. Cymbaline. More. 1969. Gravação de uma sessão ao vivo em 1969.

Máscaras de gás

Playground

Somos animais simbólicos (Ernst Cassirer). Os únicos animais simbólicos. Há símbolos e símbolos. Poucos estão tão associados à morte como a caveira e a máscara de gás: a caveira por dentro da pele; a máscara de gás por fora.

Manfred mann's Earth Band. Messin. 1973

Manfred mann’s Earth Band. Messin. 1973

O anúncio Poisoned Playgrounds, da ClientEarth, lembra duas gravuras de Otto Dix, pintor expressionista veterano da I Guerra Mundial (ver diapositivos). Lembra, também, o vídeo musical Goodbye Blue Sky, dos Pink Floyd (The Wall, álbum: 1979; filme: 1982) e a capa do álbum Messin, dos Manfred Mann’s Earth Band (1973). O anúncio é duro, sem transigências. O problema da poluição do ar também é duro e com consequências. A poluição atmosférica não tem voz, nem rosto, como a máscara de gás.

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Anunciante: ClientEarth. Título: Poisoned Playgrounds. Agência: BMB London. Reino Unido, Setembro 2017.

Pink Floyd. Goodbye Blue Sky. The Wall. 1982

Fortuna

euromillionsProliferam por todo o mundo os anúncios a jogos de lotaria. A figura do euromilionário, ridicularizada pela incongruência de atributos, não é, porém, antipática. Arrecada uma fortuna num só gesto e num único momento. Mas há quem, em contrapartida, enriqueça todos os dias.

Marca: Euromillions. Título: Parking. Agência: AMV BBDO London. Direcção: James Rouse. UK, Setembro 2016.

A fé na sorte é uma ilusão bem partilhada. Acredita-se que a aleatoriedade é o processo mais democrático de selecção. Não é essa a opinião de Louis Pasteur: “Nos domínios da observação, o acaso só favorece os espíritos bem preparados” (Discurso proferido em Douai, no dia 7 de Dezembro de 1854 in Oeuvres, Tome VII, Paris, Masson & Cie, Editeurs, 1939, p. 130). Os caprichos da sorte dependem do percurso, da condição e da exposição de cada um. Como sugere Oscar Lewis, a sorte é o recurso daqueles que não têm recursos (The Children of Sanchez, New York, Random House, 1961). Exagerando e poetizando, a esperança, e a desculpa, dos desesperados.

Marca: Euromillions. Título: Rich. Agência: Moetierbrigade. Direcção: Jonathan Herman. Bélgica, 2013.

Um euromilionário pode ser qualquer um de nós (one of us). Até a mim me pode calhar! É a fé, não do apóstolo, mas do apostador. Como o deus de Joan Osborne, pode estar no meio de nós:

What if God was one of us?
Just a slob like one of us?
Just a stranger on the bus
Trying to make His way home?

Joan Osborne. One of Us. Relish. 1995.

Todos podemos ser apostadores. Mas arrebanhar os euros dos outros todos os dias, isso é privilégio de outros mealheiros. Us and Them, como cantam os Pink Floyd:

And the general sat
And the lines on the map
Moved from side to side
Black (black, black, black)
And blue (blue, blue)
And who knows which is which and who is who.
Up (up, up, up, up)
And down (down, down, down, down)
And in the end it’s only round ‘n round (round, round, round).

Pink Floyd, Us and Them. The Dark Side of The Moon. 1973.

Obscenidade

Pink  Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Pink Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Há fenómenos que parecem talhados para ilustrar processos semióticos, por exemplo, a sacralização do profano e a profanação do sagrado. O anúncio The Bicky Beef Miracle, da Bicky, destaca-se como um caso exemplar.

Das entranhas de uma vaca saem caixas com hamburgers. Um milagre, admitem o padre e o bispo. Promove-se uma procissão, criam-se imagens “santificadas” da vaca, substituem-se as hóstias por hamburgers aparecidos no ânus do animal. Em suma, assiste-se a uma escalada na sacralização do profano. Por outro lado, reconhecer um milagre num hamburger evacuado, promover uma procissão a uma vaca equiparada a uma santidade e substituir a hóstia pela caixa de hamburger, tudo isto releva de uma profanação do sagrado. Um delírio grotesco com escatologia acintosa. Vale a pena afrontar o público e enojar o espectador?

Esta dialética entre sagrado e profano é corrente no mundo publicitário. Mas também floresce no quotidiano mais banal. Uma anedota, memória da infância, mostra os extremos a que pode conduzir a profanação humorística do sagrado.

A missa estava inusitadamente concorrida. O padre conta as hóstias. Não chegavam. Ordena ao sacristão:
– Vai ao curral, colhe bosta seca, corta às rodelas, pinta-as de branco e traz-mas.
O sacristão assim fez. A missa começa. E a comunhão decorre sem falhas. Entretanto, o Manuel, entre pragas e caretas, mastigava. A mulher, a seu lado, admoestou-o:
– Comporte-se que é o corpo de Cristo!
O Manuel murmurou:
– Foi-me logo calhar a parte do cú.

O processo é similar ao do anúncio da Bicky: sacralização do profano (a bosta) e profanação do sagrado (a hóstia associada ao traseiro).

O anúncio comporta riscos, como, por exemplo, associar o Hamburger Bicky aos intestinos miraculosos de um bovino. A ousadia afasta ou cativa os consumidores? A obscenidade e a escatologia compensam? Polémicas à parte, o anúncio apresenta uma história bem contada com um cocktail de símbolos explosivo.

Jens Mortier, fundador e director criativo da agência mortierbrigade, esclarece:

However, we’re not creating these attention-grabbing campaigns solely as gimmicks or for a quick laugh; the incredible results of our work with Bicky so far shows that we are really striking a note with burger lovers”.

Spike van der Werf, director de Marketing & Inovação da Bicky, prossegue:

“Bicky can be anything, except virtuous. We save the good taste for our 100 per cent Angus burgers. When it comes to our brand communications, we want to create content that act as an adrenaline shot to the heart of our customers. Mortierbrigade is exactly the right partner to help us to tell stories that don’t smell like advertising and, instead, become part of the cultural conversation. This collaboration with Lionel Goldstein fits our brand perfectly well” (http://www.lbbonline.com/news/what-beefy-miracle-is-hiding-in-this-holy-cows-anus/).

Marca: Bicky. Título: The Bicky Beef Miracle. Agência: mortierbrigade. Direcção: Lionel Goldstein. Bélgica, Junho 2016.

Vaca por vaca, prefiro a vaca dos Pink Floyd. Atom Heart Mother (1970) não é dos álbuns mais famosos dos Pink Floyd. E depois? Segue a última faixa do lado A: Remergence.