Tag Archive | Pink Floyd

Atom Heart Mother. Um Tesourinho Persistente

O YouTube surpreendeu-me com uma interpretação memorável de um dos meus tesourinhos persistentes, o Atom Heart Mother (1970), obra sui generis demasiado ignorada dos Pink Floyd, pela Orchestre Philharmonique de Radio France, num concerto no Théâtre du Chatelet, em fevereiro de 2012, sob a direção de Jean-Jacques Justafré, que conclui, comovido, quase em lágrimas.

Para quem tiver, como eu, algum tempo a “perder”, seguem três vídeos:

  • O primeiro é uma gravação de uma homenagem ao Pink Floyd “Primitive Mother” ao vivo no Chicken George, Kobe, Japão, 27 de outubro de 2016. Duração: 15:39;
  • O segundo é interpretado pela Orchestre Philarmonique de Radio France, no Théâtre du Chatelet, em 2012, com uma duração de perto de 30 minutos;
  • O terceiro contempla o lado A completo do LP, de 1970, remasterizado em 2011.
Homenagem ao Pink Floyd “Primitive Mother” ao vivo no Chicken George, Kobe, Japão, 27 de outubro de 2016
Orchestre Philharmonique de Radio France – Atom Heart Mother (ooriginal Pink Floyd. 1970). Théâtre du Chatelet. Direção: Jean-Jacques Justafré. 2012. 29:47
Pink Floyd – Atom Heart Mother. 1971. 23:43

Jogar às cartas com o Diabo 4. Meia dúzia de mãos

Quando encalhamos, torna-se difícil voltar a navegar. Principalmente sem a ajuda de alguém que sopre às velas e reme connosco.

Convém esperar pouco dos outros, por muito amigos que sejam. Uma vez fora de circulação, desaparecemos das suas agendas.

Imagem: Valerio Cioli, Alegoria da Escultura. Túmulo de Michelangelo. Ca. 1564-74

Durante três anos, sobram os dedos das mãos para contar as visitas. Quase todas uma única vez, uma ou duas de familiares ou colegas. Partilhei o dia a dia apenas com três companhias: a São, mulher, o Fernando, filho, e a Ana, empregada.,

Cuidar, desamparado, de um dependente deve ser duro. Dar-lhe o colo numa travessia que o arrasta para a eternidade, ainda pior. Uma experiência desgastante e demolidora das pessoas e respetivas relações.

Seguem os artigos Embarcados (08.08.2021), Abrigo (06.08.2021) e A tua mão (08.08.2021).

Embarcados

Ícaro. Recipiente de terracota. Grécia. Século V a. C. The Metropolitan Museum of Art.

Estás embarcado (Blaise Pascal). Por inteiro. Não pasmes! Ousa! Aposta! Perde-te! Renova! Sê trágico! Sê insensato! Arranha as asas! Rasga as fraldas do mundo! Somos pequenos, somos de uma pequenez infinita (Blaise Pascal).

Segue uma interpretação, original, despojada, das Bachianas nº5, de Heitor Villa-Lobos. Adiciono um vídeo da canção Hey You, dos Pink Floyd.

Heitor Villa-Lobos: Bachianas brasileiras No. 5, W. 389, 1. Aria (Cantilena). Ao vivo em Borchardt, Berlim. 2018. Intérprete: Nadine Sierra.
Pink Floyd. Hey You. The Wall. 1979. Ao vivo no Eart’s Court, em Agosto de 1980.

Abrigo

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

(Antero de Quental)

Branda da Aveleira, 2003.

Verdi. La Traviata. Excerto.

A tua mão

Auguste Rodin. Mains d’amants. 1904.

Dá-me a mão! Não te afastes, não feches, não apontes! Dá-me a mão. A pele, a carne, o desejo, o vazio. Dá-me, dá-me a tua mão! Dou-te, quem sabe, o desassossego e a fome do presente. O resto é contingência.

Apocalyptica. Nothing Else Matters. Plays Metallica By Four Cellos – A Live Performance). 1996.

Às voltas. O Ouroboros

Desenho de Ouroboros de um manuscrito alquímico grego bizantino do final da Idade Média . Cópia de 1478. Original atribuído a Estéfano de Alexandria, data do século VII

A propósito da folia, música e dança de origem portuguesa (ver A folia portuguesa), comentou-se que continuava a inspirar novas versões, aludindo a Rita Ribeiro a um grupo célebre, sem, contudo, se lembrar do nome. Tão pouco consigo adivinhar.

Posteriormente, acudiu-me que a Rita talvez estivesse a pensar nos britânicos Penguin Cafe Orchestra. Por acaso, dias antes, ao escutar o álbum Ummagumma (1969), dos Pink Floyd ,tinha-me ocorrido que a música “The Narrow Way, Part I” prenunciava um pouco o estilo dos Penguin, cujo primeiro álbum, Music from the Penguin Cafe, foi lançado em 1976.

Pink Floyd – The Narrow Way (Part 1). Ummagumma, 1969

Às voltas com a noção de circularidade na teoria do imaginário do Gilbert Durand, a música Perpetuum Mobile, dos Penguin, acabou, também, por ressoar nos meus ouvidos.

Enfim, penso ilustrar, numa próxima comunicação, a referida noção de circularidade com a gravura do M. C. Escher “Um Encontro” (1944), que, por sinal, é capa do livro da Rita As lições dos aprendizes (2001)…

M.C. Escher – Um Encontro, 1944

Tantas voltas que a serpente, o Ouroboros, dá! Até acaba por morder a própria cauda, renovando o ciclo.

Penguin Cafe Orchestra – Perpetuum Mobile. Signs of Life, 1987. Ao vivo TivoliVredenburg. Colocado em 2020
Penguin Cafe Orchestra – Prelude and Yodel. Broadcasting from Home, 1984.
Penguin Cafe Orchestra – Air à Danser. Music from the Penguin Cafe, 1981. On Tue 25 February 2014 at The Queen’s Hall, Edinburgh

A lenda do pintassilgo

Raffaello Sanzio. Virgem do Pintassilgo.1505-1506. Galleria degli Uffizi. Detalhe

Segundo uma lenda medieval, um pequeno pintassilgo voou até Jesus no momento em que Ele carregava a cruz para o Calvário. O pássaro tentou arrancar os espinhos da coroa que perfuravam a Sua testa. Ao puxar um dos espinhos, uma gota do sangue de Cristo caiu-lhe sobre a cabeça, tingindo as suas penas de vermelho.

Na realidade, os pintassilgos possuem uma mancha vermelha na cabeça e não evitam os cardos, constando entre as poucas aves que conseguem alimentar-se das respetivas sementes. A tradução de pintassilgo em francês é chardonneret; e em italiano, cardelino. Ora, o francês chardon e o italiano cardo significam, precisamente, cardo.

O pintassilgo aparece com alguma frequência nas pinturas junto ao Menino Jesus, quase sempre nas suas mãos. Alude, simbolicamente, à Paixão e à Redenção, funcionando como um presságio do sacrifício de Cristo.

Inteirei-me desta lenda graças à Virgem do pintassilgo, pintura renascentista de Rafael. O motivo do pintassilgo representava um desafio. Ora, sempre que o sentido de um detalhe numa grande obra me escapa, parto do princípio que o problema é meu. A solução foi rápida e fácil. Por acréscimo, deparei com meia dúzia de pinturas similares, algumas anteriores à Virgem do Pintassilgo de Rafael, as mais antigas remontando ao século XIV (ver galeria de imagens).

Galeria de Imagens: Virgem e Menino Jesus com Passarinho

O pintassilgo do Menino Jesus acabou por me lembrar uma canção, antiga e pouco conhecida, dos Pink Floyd: “Grantchester Meadows”.

Pink Floyd – Pink Floyd – Grantchester Meadows. Ummagumma, 1969

Inspiração Ardente (IA)

Marc Chagall (1887) – Moses with the Burning Bush, c. 1963

A inteligência artificial define-se como o contrário da estupidez natural (atribuído a Woody Allen)

O Tendências do Imaginário sempre almejou estar atento à mudança e à inovação. Nada se ganha em virar-lhes as costas, a não ser vulnerabilidade e ilusão anestésica. As redes neuronais e a inteligência artificial são crianças com barba crescida.

Segue o videoclip com a canção “Have a Cigar”, dos Pink Floyd, realizado recentemente com recurso à Inteligência artificial. As sequências de imagens, impressionantes, sugerem que fumar é aspirar fogo, com um final gélido, embora mais irisado do que cinzento.

A inteligência artificial pode não ser moral, o que não a impede de resultar moralista. Enfim, presta-se a IA ao psicadélico?

Imagem: Ruínas de Pompeia

Pink Floyd – Have a Cigar (2024 AI Visuals). Wish You Were Here. 1975. Vídeo realizado por Hueman Instrumentality com recurso à Inteligência Artificial (Gen-3 AI Video Tool), colocado em 04.09.2024

A Cabra e o Carneiro

Eduardo Pires de Oliveira. André Soares. União de Freguesias de São Lázaro e São João de Souto. Braga. 2024

Quinta, 7 de novembro, assisti à apresentação do livro André Soares, da autoria de Eduardo Pires de Oliveira. Um momento feliz! As crianças encheram o auditório da Escola André Soares e participaram com entusiasmo. Importa ir ao encontro de “novos públicos”, porventura menos académicos, mas, nem por isso, menos motivados e interessantes. Não me parece ser esta uma vocação prioritária das universidades, demasiado autocentradas e subordinadas a métricas alienantes. Salvo em termos financeiros, não se lhes apresenta como um investimento particularmente rentável.

Apresentação do livro André Soares. 07.11.2024. Fotografia de Alberto Gonçalves

Promovida pela União de Freguesias de São Lázaro e São João do Souto, esta obra dedicada a André Soares afirma-se como pioneira, a primeira de uma coleção infantojuvenil dedicada a figuras históricas da cidade de Braga. Aprecio iniciativas seminais, que abrem portas. Prefiro a cabra que se aventura por escarpas agrestes ao carneiro que sabe de cor o caminho do pasto.

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Max Ernst. The Beautiful Thing. 1925

Por falar em cabra, aproveito para colocar o videoclip “La puta de la cabra”, de Los Legionarios. O carro, um “carocha”, é igualzinho, incluindo a cor, ao primeiro que tive. Para contrabalançar, acrescento uma animação da canção “Sheep”, dos Pink Floyd, criada por Trippy Vortex com recurso à Inteligência Artificial.

Los Legionarios / The Farmlopez – La puta de la cabra / La Kabra. Popular, anos 90
Pink Floyd – Sheep. Animals, 1977. Animação criada por Trippy Vortex. AI Music Video. 2023

Elegia transpirada

Enquanto aguardo as últimas fotografias do Cortejo Histórico de Melgaço, escuto música. Recordo Richard Wright, teclista dos Pink Floyd, que se eclipsou faz 15 anos. Não desapareceu, partiu para o outro lado da lua. Editou dois álbuns a solo, Wet Dream, em 1978, e Broken China, em 1996, com as  canções Breakthrough, Summer Elegy e Reaching For The Rail.

Richard Wright – Breakthrough. Broken China, 1996. Ao vivo no Royal Festival Hall, em junho de 2001. DVD David Gilmour in Concert, 2022.
Richard Wright – Summer Elergy. Wet Dream, 1978
Richard Wright – Reaching For the Rail (com Sinéad O’Connor). Broken China, 1996

David… Gilmour e Bowie

Melhor que o David Gilmour só o David Gilmour com o David Bowie. Seguem as músicas “Arnold Layne” (1967) e “Confortably Numb” (1979), ambas dos Pink Floyd, interpretadas no concerto Remember That Night, no Royal Albert Hall, em Londres, no dia 9 de maio de 2006.

David Bowie, David Gilmour e Richard Wright. Royal Albert Hall. Maio 2006
David Gilmour (com David Bowie) – Arnold Layne. Original: Pink Floyd, single de 1967. Concerto Remember That Night, Royal Albert Hall, 9 de maio de 2006
David Gilmour (com David Bowie) – Confortably Numb. Original: Pink Floyd, The Wall, 1979. Concerto Remember That Night, Royal Albert Hall, 9 de maio de 2006

Génese

Hieronymus Bosch. O Jardim das Delícias Terrenas. Tríptico. Entre 1490 e 1500. Museu do Prado

Os Pink Floyd representam uma espécie de santuário das minhas intimidades. Lançado em março de 1973, The Dark Side of the Moon ofereceu-se como música de fundo quando, por tentação réptil, partilhei com a primeira mulher o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Uma experiência única: a saída às arrecuas do Jardim do Éden e a entrada sem remissão no Jardim das Delícias Terrenas.

A seguinte interpretação de “Breathe” e “Time”, pelo David Gilmour, no Royal Albert Hall, em 2006, é simplesmente brilhante. Inesquecível!

David Gilmour, Breathe & Time (Pink Floyd, The Dark Side of the Moonm 1973). Ao vivo no concerto Remember That Night, no Royal Albert Hall, em 2006

Encadear umas nas outras / Uma brisa de memórias

Os peregrinos acodem à Galiza e da Galiza chovem canções. E memórias. Num dia em que me abandonei ao calor do computador.

Os peregrinos lembram-me os romeiros; e os romeiros, os Luar Na Lubre.

Luar Na Lubre – Romeiro Ao Lonxe (Con Diana Navarro). Versão galega de “Scarborough Fair”, canção inglesa do século XII.

Os Luar Na Lubre lembram-me a Sés, e a Sés os Encontros Minho-Galiza, designadamente o III, no auditório de Goián, em Tomiño, com a participação, precisamente, da Sés e do Pedro Abrunhosa (“Até o bom pode ser efémero”: https://tendimag.com/2017/04/03/ate-o-bom-pode-ser-efemero/).

Luar Na Lubre – Os tafenos da gaurra. Con Maria Xosé Silvar (Sés) e a Coral de Ruada. Ao vivo: Teatro Principal de Ourense, junho de 2018

Os Encontros Minho-Galiza lembram-me o Francisco Abrunhosa e o Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, responsável, em parceria com o Centro de Estudos Galegos e o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, pela organização.

Sés e Pedro Abrunhosa durante o III Encontro Minho-Galiza. Fotografia de Francisco Abrunhosa

O Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura lembra-me tempos em que acreditava em inovar e criar institucionalmente. Recorda-me, também, a Escola da Primavera, uma espécie de estágio anual fora do campus, uma iniciativa que resultou original, oportuna e emblemática.

A Escola da Primavera lembra-me Melgaço, seu destino de eleição, berço que não me canso de embalar. E apetece-me embarcar na “Nau” dos Luar na Lubre, acrescentando apenas à “xente de Galicia” a “gente do Minho”:

Nau de vento, nau dos homes
que vogan na inmensidade
somos xente de Galicia
onde a terra bica o mar-e.
Ai la la, ai la la…
Nau de soños, nau de espranzas
nau de infinda veleidade
o que esquece as suas raices
perde a súa identidade
Ai la la, ai la la…
(Luar Na Lubre, Nau, 1999)

Luar na Lubre. Nau. Cabo do Mundo. 1999. Ao vivo em 2000

E, assim, aportado em Moledo, refresca-me esta brisa circular de memórias. E deixo-me, com o outono a anunciar-se, estar junto ao computador como se de uma lareira se tratasse.