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Vida de esqueleto II. O espelho

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900.

01. Despertador. Science Museum. Londres. 1840 – 1900

O esqueleto acompanha-nos desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. A dança da morte da ponte Spreuer, em Lucerna, na Suíça (Figura 3), mostra Adão e Eva, mais o esqueleto, a sair, curvados, do paraíso:

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” (Genesis 3:3).

Dança macabra da ponte Spreuer, em Lucerna

O esqueleto sempre assombrou a humanidade. Condenado, tal como o ser humano, ao trabalho, esmera-se. Toca os clientes, captura-os e transporta-os para o outro mundo. Assedia como um toureiro, ceifa como um camponês, pesca como um lobo-do-mar e caça como um nobre ou como um predador furtivo. Usa a gadanha, o arco e a flecha, o machado, a espada, a lança, a rede e a pá. Desloca-se a pé, montado num caixão (Figura 1), num cavalo, num burro ou numa vaca. Por finais do século XIX, também voa (Figuras 6 a 11).

O ofício de esqueleto

Às vezes, o esqueleto, enquanto trabalha, diverte-se com outros esqueletos. Nas danças macabras, toca música e baila de mãos dadas com os vivos mortos. O transporte para o outro mundo resulta festivo. O esqueleto investe na política. Faz a guerra e não desdenha o poder. Nos triunfos, a morte senta-se no trono, rodeada pelo seu séquito, com as autoridades mundanas a seus pés (Figura 2 e 12 a 15).

Triunfo da morte

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

12. Discípulo de Andrea Mantegna. Triunfo do Amor, da Castidade e da Morte. 1460s

13 a 15. Triunfos da morte do Palazzo Abbattelis, de Clusone e de Pieter Bruegel

O esqueleto também repousa. Cansa-se, como o esqueleto sentado na escada da figura 15. Aprecia o lazer e a actividade espiritual. Dormita aconchegado em prazeres, come, joga, espera, aborrece-se, vê-se ao espelho, lê, contempla uma caveira (uma dupla vanitas), ouve e toca música, parodia a arte e, sublinhe-se, reza (ver figuras 16 a 29).

Actividades de lazer

O espelho da morte mostra-nos a nossa finitude. Em vez da nossa imagem, vemos a morte. As actividades do esqueleto são semelhantes às nossas. Podiam ser as nossas. Com a ressalva da procriação. Ao olhar para o espelho, mais do que a morte, vemo-nos a nós próprios. O esqueleto é uma projecção. O esqueleto somos nós. Somos, pelo menos, o modelo (Figuras 30 a 33)

O espelho da morte

Tanto nos dá para temer o esqueleto como para o venerar. Dedicamos-lhe cultos, os cultos da morte e dos mortos. Nas igrejas, nos cemitérios, em casa, na rua e durante o Halloween. Às vezes, exorbitamos. É o caso dos santos descobertos no século XVII nas catacumbas romanas que o papa distribuiu por várias igrejas germânicas. Identificados como esqueletos dos primeiros mártires, beneficiaram do esmero póstumo de freiras, joalheiros e outros artífices dos séculos XVII e XVIII (Figuras 34 a 37).

Santos das catacumbas romanas

Nas fotografias de Paul Koudounaris (2013, Heavenly Bodies, New York, Thames Hudson), contam-se mais jóias e ornamentos do que ossos. Ao bom jeito barroco, são esqueletos em majestade. Rivalizam com Nossa Senhora da Boa Morte ou com a Santa Morte, padroeira, entre outros, dos traficantes e dos bandidos (Figuras 38 a 41).

Morte santa

Se os esqueletos são ecos, por que os imaginamos? Para personalizar ou eufemizar a morte? Para acomodar o vazio? Ou será porque prestamos mais atenção ao eco do que à voz? A vida do esqueleto é o paroxismo da reflexividade e da catequese humanas.

Sabor de mãe

Sabor de Mãe

O Dia da Mãe no Brasil costuma ser no mês de Maio. Cheguei atrasado ao anúncio O sabor do amor de mãe, da Cheiro Verde. Lembra o título do livro Coração, cabeça e estômago (1862), de Camilo Castelo Branco. Só que, neste caso, o coração e o estômago suplantam a cabeça. Agrada o recurso ao paladar para dizer o amor. A comida e o sabor costumam andar, por preconceito, arredados dos sentimentos nobres.

Marca: Cheiro Verde. Título: O sabor do amor de mãe. Agência: Pirueta. Direcção: Magrão. Brasil, Maio 2016.

Estúpidos

São inúmeros os nomes atribuídos à sociedade contemporânea. Sociedade parva também cabe na lista. Somos uma SARL: Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada. O anúncio brasileiro Be an asshole, da Sociedade dos amigos da Amazónia, é uma boa introdução à estupidez, à inércia e à dissipação humanas.

Carregar na imagem ou no seguinte endereço para aceder ao vídeo: http://www.dailymotion.com/nu-jeans.

Onça Pintada. Amazónia. Fotografia de Araquem Alcantara.

Onça Pintada. Amazónia. Fotografia de Araquem Alcantara.

Anunciante: Sociedade dos amigos da Amazónia. Título: Be an asshole. Brasil, 2009.

Portinari e o burro montado às avessas

Candido Portinari. Circo. 1932.

Figura 1. Cândido Portinari. Circo. 1932.

Estou a ler teses, relatórios e trabalhos práticos. “Não há coisa mais gostosa no mundo”, diria Sancho Pança! Quero acreditar que quanto mais um professor é “experiente” mais tende a aprender com os alunos. Entre outras razões, porque lhes dá a oportunidade.

Cândido Portinari. Circo. 1933.

Figura 2. Cândido Portinari. Circo. 1933.

Hoje, aprendi com o trabalho de uma aluna dedicado ao pintor Cândido Portinari e ao estilista Ronaldo Fraga. No trabalho, aparece em duas pinturas de Portinari o motivo do burro montado às avessas (ver figuras 1 e 2). A aluna não o relevou. Não vinha a propósito. Mas há quem ande às voltas com a figura do burro montado às avessas. Atente-se nos seguintes artigos:
Máscaras – Bugiada e James Ensor: https://tendimag.com/2015/03/26/mascaras-bugiada-e-james-ensor/
O burro e a violência doméstica: https://tendimag.com/2015/03/29/o-burro-e-a-violencia-domestica/
Sileno, o vinho e o burro: https://tendimag.com/2015/03/28/sileno-o-vinho-e-o-burro/
Tolos e burros: https://tendimag.com/2015/02/19/tolos-e-burros/.

Cândido Portinari. Circo. 1932.

Figura 3. Cândido Portinari. Circo. 1932.

“Cândido Torquato Portinari, um dos doze filhos de uma família humilde de imigrantes italianos, nasceu em 30 de dezembro de 1903 em Brodowski, interior de São Paulo. É um dos mais importantes ícones da arte moderna brasileira com quase 5 mil obras (…)
Em 1929, Portinari instala-se em Paris, conhece movimentos artísticos como o expressionismo e surrealismo. Mesmo como bolsista não mantém uma boa produtividade criativa mas vive um momento decisivo para a definição do seu estilo. A distância da terra natal despertou no pintor saudosismo e admiração por sua origem o que será uma das características mais fortes de sua obra. O que pode ser observado na carta enviada à Rosalita Almeida:
“Daqui fiquei vendo melhor a minha terra – fiquei vendo Brodowski como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada… Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor. Quando comecei a pintar senti que devia fazer a minha gente e cheguei a fazer o “baile na roça”. Depois desviaram-me e comecei a tatear e a pintar tudo de cor – fiz um montão de retratos. Eu nunca tinha vontade de trabalhar e toda gente me chamava preguiçoso. Eu não tinha vontade de pintar porque me botaram dentro de uma sala cheia de tapetes, com gente vestida à última moda… […] Uso sapatos de verniz, calça larga e colarinho baixo e discuto Wilde, mas no fundo eu ando vestido como o Palaninho e não compreendo Wilde”.

Cândido Portinari. Circo. 1932

Figura 4. Cândido Portinari. Circo. 1932.

Retorna ao Brasil em 1931, e inicia sua participação no movimento modernista brasileiro (…) Portinari, em 1932, apresenta sua primeira exposição com em torno de 60 obras inspirada na sua memória de infância. Naquele momento confirma o desejo que tinha de formatar uma arte genuinamente brasileira, retratar nos quadros sentimentos e memória da sua origem.

Cândido Portinari. Circo, 1942.

Figura 5. Cândido Portinari. Circo, 1942.

Nesta fase, é um artista que retrata com cores terrosos, contrastes entre a paisagem e a figura humana, traços borrados as vivências e paisagens da terra onde nasceu. É o estilo revelado em suas obras após o retorno da Europa. Cenas da sua infância simples e interiorana, como o Circo, o Futebol e a Festa em Brodowski” (Da Costa, Patrícia Pereira Cardoso, 2017, Análise Cândido Portinari X Ronaldo Fraga, Trabalho para a disciplina Sociologia e Semiótica da Arte, Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, Universidade do Minho, p. 5 a 7).

Fancisco de Goya. Tu que no puedes. 1799.

Figura 6. Fancisco de Goya. Tu que no puedes. 1799.

Nos anos trinta, Cândido Portinari produziu uma série de quadros envolvendo o ambiente do Circo. Em alguns destes quadros, sobressai a figura do burro montado às avessas, símbolo, pelo menos desde a Antiguidade, de desordem, caos e inversão do mundo. Nos circos de Cândido Portinari, os burros são montados por palhaços ou arlequins; na Antiguidade, pelo bêbedo Sileno, na Idade Média, por um falso arcebispos eleito para rir e nas Bugiadas de Sobrado, por um camponês mascarado. Tudo figuras da desrazão transitória e marginal.

Se convocarmos a gravura de Goya, Tu que no puedes (Figura 6), insinua-se uma dúvida incómoda: o que vale mais, montar burros às avessas ou carregá-los às costas, como tantos carregamos?

Novidade e originalidade

M.C. Escher, Circle Limit IV (1960) The angels and devils

M.C. Escher, Circle Limit IV (1960) The angels and devils.

O anúncio brasileiro Anjos, da Telefónica, é uma festa da memória. Lembra “as asas do desejo”, de Wim Wenders. Como poderia não lembrar? Nada expõe mais o homem do que o desejo. Desejar é o âmago de nosso ser (Sigmund Freud).

Olhos de crianças, inocentes e sonhadores, surpreendem anjos, uma ilusão feliz a partir de um ponto de vista enganador. Existem imensos anúncios com anjos, mas não os anjos de Escher, entrelaçados com demónios (Fig. 1). Em contrapartida, existem muitas ilusões inspiradas em Escher. Importa ver com o coração, como Pascal, Magritte e o principezinho.

A publicidade é a alquimia de todos os desejos. A intertextualidade fere a originalidade do anúncio? Antes pelo contrário. “Não me digam que não disse nada de novo, a disposição das matérias é nova. Quando se joga à péla um e outro jogam com a mesma bola, mas um coloca-a melhor” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 696-22). Pouco originais são aqueles que enchem um armário com coisas novas, esvaziam-no e voltam a enchê-lo com novas coisas novas. Sempre o mesmo armário com coisas sempre novas.

Marca: Telefónica. Título: Anjos. Agência: DDB Worldwide. Brasil, 2001.

Smartphone

Só a música pode falar da morte (André Malraux, [1933] (1946), La condition humaine, Paris, Gallimard, p. 334)

O mundo é um espanto. No anúncio Relove, da Telefónica, a técnica salva-nos da própria técnica! Já tinha saudades destas dialécticas! Um casal, que o smartphone desencontra, reencontra-se graças ao smartphone. Live more love!

Existem objectos que são, simultaneamente, pessoais e civilizacionais. Alguns dignos de acompanhar o morto no outro mundo. Por exemplo, o relógio ou a aliança. Acrescento o smartphone. O relógio para não se atrasar na travessia, o anel para amar eternamente, e o smartphone para ouvir, no silêncio escuro, Fernando Pessoa e Maria Bethânia.

Marca: Telefónica. Título: Relove. Agência: África, São Paulo. Direcção: Vellas. Brasil, Junho 2017.

Maria Bethânia. Sonho Impossível. Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo. 1975. Poema de Fernando Pessoa.

Originalidade aplicada

NosferatuO Brasil é uma potência do audiovisual. A originalidade desfruta de boas condições. Encontrei em iniciativas brasileiras uma qualidade relativamente rara que denomino originalidade aplicada. Quando uma inspiração não se reduz a um fogo-de-artifício, mas se traduz por uma pragmática consequente, estamos próximos da originalidade aplicada.

Há meio século, coloriam-se os filmes a preto e branco. Lembro-me do Jour de fête, de Jacques Tati (1949). A Getty Images Brasil propôs-se não colorir mas sonorizar o filme mudo Nosferatu (1922). Um projecto e uma obra únicos! O resultado compensa. Segue o trailer (pode aceder ao filme Nosferatu sonoro completo no endereço: http://www.nonsilentfilm.com/en/).

Anunciante: Getty Images Brasil. Título: The Non Silent Film. Agência: Almap BBDO Brasil. Brasil, Abril 2017.

O museu, a porta e a ponte

Nelson Leirner. A Pacavoa (2010) Madeira e lona com jabuti empalhado. Bienal de São Paulo

Nelson Leirner. A Pacavoa (2010) Madeira e lona com jabuti empalhado. Bienal de São Paulo

A porta abre e fecha; separa. A ponte liga; une. A ponte e a porta unem e separam mundos. A partir desta metáfora, Georg Simmel escreveu um dos textos mais brilhantes da Sociologia: “Brücke und Tür” (1909) in Das Individuum und die Freiheit, Berlin, Wagenbach, 1984, p. 7-11). Pois, da porta e da ponte vai tratar este artigo.

As aplicações cognitivas implementadas graças ao Watson, da IBM, prometem revelar-se úteis nos museus, aumentando a interacção com as obras e a satisfação dos visitantes. O anúncio brasileiro The Voice of Art / With Watson ilustra estas potencialidades que acalentam a esperança de uma maior afluência aos museus.

Marca: IBM Brasil. Título: The Voice of Art / With Watson. Agência: Ogilvy São Paulo. Direcção: Alexandre Charro e Leandro HBL. Brasil, Abril 2017.

Há meio século, Pierre Bourdieu  (com Alain Darbel e a colaboração de Dominique Schnapper, L’Amour de l’Art: Les musées d’art européens et leur public, Paris, Ed. de Minuit, 1966) registava a controvérsia em torno da organização dos museus e da sua relação com o público. Os herdeiros da cultura legítima, principais clientes dos museus, resistiam ao aumento da informação nos acessos, nas salas e junto às obras, encarada como uma intrusão. Informação que os “bárbaros”, os excluídos da cultura legítima e da linguagem da arte, agradeciam como bússola de navegação num ambiente estranho.

O engenho The Voice of Art, com o Watson, parece vocacionado para a divulgação e dessacralização da arte. Neste sentido, assevera-se útil, sobretudo, para quem, “bárbaro”, carece de intérprete. Por outro lado, é intrusivo. O que acontece ao silêncio, condição de contemplação, quando os visitante não param de falar para uma máquina, ao jeito de um telemóvel? Imagine-se a cacofonia produzida pelas pessoas munidas com este engenho frente à Mona Lisa!

A pressão sobre os museus no sentido do crescimento do número de visitantes e do aumento da sustentabilidade tem-se acentuado. Congeminam-se iniciativas e ensaiam-se soluções. Criam-se lojas. Perversamente muitos visitantes demoram-se mais na compra de recordações do que na exposição propriamente dita). Abrem-se restaurantes. Em Braga, existem, pelo menos, dois: no museu D. Diogo de Sousa e no Mosteiro de Tibães. Promovem-se eventos. Aposta-se nos serviços educativos. Pretende-se erguer pontes sustentadas.

Quem visita os museus?

Gráfico 1. Bourdieu. Frequência dos museus

Pierre Bourdieu, Alain Darbel e Dominique Schnapper realizaram inquéritos, nos anos sessenta, sobre a frequência dos museus em vários países europeus. Segundo os resultados obtidos, observa-se uma clara diferenciação consoante as habilitações literárias (ver Gráfico 1; carregar para aumentar). A probabilidade de ir a um museu no período de um ano sobe, sistematicamente, de 2,3% no caso dos entrevistados com o “primeiro ciclo do ensino básico” para 80,1% nos entrevistados com “estudos superiores”. Um abismo sem pontes.

Desde os anos sessenta, a visita a museus expandiu-se em todos os níveis de escolaridade, mas as desigualdades não desapareceram. Verificou-se uma espécie de translação das diversas posições. Com o Miguel Bandeira, a Rita Ribeiro, o José Machado, o Esser Jorge Silva, a Luísa Fernandes e o Samuel Silva, empreendemos , no âmbito da avaliação de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, um inquérito a uma amostra, por quotas, de 756 residentes no concelho de Guimarães. Os resultados expressos no Gráfico 2 são distintos dos apresentados no Gráfico 1: não se trata de saber se o entrevistado foi ou não, durante o ano de referência, a um museu, mas se foi, pelo menos uma vez na vida, a um determinado museu. Retenho as respostas relativas a quatro espaços museológicos. Do mais ao menos “visitado”: o Paço dos Duques (86,3%), a Citânia de Briteiros (67,1%), o Museu Alberto Sampaio (66,2%) e o Museu Martins Sarmento (62,9%).

Guimarães. Visita a espaços museológicos por escolaridade

Desenham-se vários perfis: por um lado, o Museu Alberto Sampaio e o Museu Martins Sarmento. As respostas dispõem-se segundo uma escada típica do efeito da escolaridade: num primeiro degrau, as pessoas que não completaram o 1º ciclo do ensino básico (26%); segue-se um patamar, com as pessoas que completaram o 1º, o 2º e o 3º ciclos do ensino básico (entre 47 e 64%); por último, o cume é ocupado pelas pessoas que completaram o secundário e o ensino superior (acima de 77%). As habilitações literárias influenciam a frequência destes museus; quanto mais elevada for a escolaridade, maior a probabilidade de visita.

Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento

Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Guimarães.

Na Citânia de Briteiros, a diferenciação segundo as habilitações literárias esbate-se: o V de Cramer é baixo (0,15; p<0,005). Exceptuando os diplomados pelo ensino superior (82%), os restantes níveis de escolaridade situam-se num mesmo patamar (entre 60 e 68%). Não se trata de uma encosta, mas de um planalto. A diferenciação segundo a escolaridade resulta pouco expressiva.

Com uma afluência elevada, o Paço dos Duques ocupa uma posição intermédia: nem encosta, nem planalto. Ressalvando os inquiridos que não completaram o 1º ciclo do ensino básico, os demais situam-se no “último andar”, acima de 78%. Neste patamar, esboça-se, contudo, uma escada que lembra, embora com degraus menos pronunciados, os museus Alberto Sampaio e Martins Sarmento.

O Paço dos Duques antes do restauro. Foi utilizado como Quartel Militar entre 1807 e 1935

O Paço dos Duques antes do restauro. Foi utilizado como Quartel Militar entre 1807 e 1935.

Paço dos Duques de Bragança. Guimarães.

Paço dos Duques de Bragança. Guimarães.

Os museus Alberto Sampaio e Martins Sarmento são espaços clássicos, com uma colecção histórica valiosa. O Museu Alberto Sampaio teve, em 2016, 89 000 visitantes.

Construído no século XV, o Paço dos Duques foi restaurado durante o Estado Novo, no âmbito de uma política que visava a adesão popular e a catequese pela “história”. Em 2016, ultrapassou os 700 000 visitantes, destacando-se como um dos museus mais visitados do País.

A Citânia de Briteiros é um caso à parte. Trata-se de um sítio arqueológico ímpar, ao ar livre, procurado por diversos motivos, alguns laterais, tais como o recreio, o namoro e a festa de São Romão.

Capela de São Romão na Citânia de Briteiros. Guimarães.

Capela de São Romão na Citânia de Briteiros. Guimarães.

Arrisquemos alguns apontamentos.

As escolas desempenham um papel crucial na descoberta dos museus. Aponta nesse sentido a baixa percentagem de visitantes sem o 1º ciclo do ensino completo, valor muito aquém do patamar composto pelos três ciclos do ensino básico. Acontece nos museus Alberto Sampaio e Francisco Sarmento, bem como no Paço dos Duques. As escolas propiciam o primeiro passo, que é, segundo o provérbio, o mais difícil.

Não convém subestimar as malhas da identidade. Um espaço museológico do qual “fazemos parte”, que é nosso, não tem portas. A Citânia de Briteiros aproxima-se desta abertura. Por outro lado, um espaço museológico que faz parte de nós, que nos define, é um símbolo que, mais ou menos imaginário, compõe a nossa identidade. Situado na Colina Sagrada, o Paço dos Duques aproxima-se deste tipo de alquimia semiótica.

Museu Alberto Sampaio. Claustro.

Museu Alberto Sampaio. Claustro.

Cerca de um terço dos vimaranenses nunca visitou o Museu Alberto Sampaio (33,6%) nem o Museu Martins Sarmento (37,1%). Representa um enorme caudal de público potencial! Cativá-lo é uma tentação. Mas, em termos de crescimento do número de visitas, o que fazer? Apostar nos excluídos, nos herdeiros ou nos convertidos? O que é mais fácil? Convencer alguém que já foi três vezes ao museu a ir uma quarta ou aquele que nunca foi ao museu a decidir-se pela primeira vez? A resposta não é óbvia, até porque os museus assumem outras funções sociais e culturais para além da mera contabilização das visitas.

Nelson Leirner. O Porco. 1966.

Nelson Leirner. O Porco. 1966.

Retomemos o anúncio. Uma mulher confessa: “Eu gosto de arte, mas eu nunca tive a oportunidade de ir a um museu. Não é um ambiente que fala comigo!” Este testemunho é “arte”, foi fabricado para o anúncio: “Não é um ambiente que fala comigo” é uma frase nevrálgica. De qualquer modo, somos revisitados pelo dilema da porta e da ponte.

A equipa responsável pela avaliação do impacto de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura promoveu 21 inquéritos a outros tantos eventos. No conjunto, foram entrevistadas 7 365 pessoas (ver Guimarães 2012, Impactos Económicos e Sociais, Relatório final, p. 111). Separando os eventos ao ar livre (44,8% dos entrevistados) dos eventos em recinto coberto (55,2% dos entrevistados), obtém-se o seguinte gráfico.

Espaços dos eventos

Apenas um em cada cinco inquiridos com o ensino básico assistiu a eventos em recinto coberto (20,2% e 21,1%). Esta proporção sobe para um terço nos inquiridos com o ensino secundário (33,5%) e para quase metade nos inquiridos com o ensino superior (45,2%). Parte destas diferenças pode ser imputada a outros factores: os eventos em recinto coberto podem não ser iguais aos eventos ao ar livre. Uns têm portas, os outros praças e ruas. Mesmo ao nível dos eventos culturais, a porta constitui um meio de divisão do mundo.

Os museus têm portas que abrem e fecham. Abrem para os eleitos e fecham-se para os excluídos. As portas dos museus delimitam mundos; o mundo natural da vida quotidiana e o mundo extraordinário do património preservado. Fossem os dois lados idênticos e não haveria necessidade de portas. Nem de portas, nem de pontes! Mas não são idênticos, permanecem significativamente diferentes. Uma pessoa que nunca foi a um museu, como a entrevistada do anúncio, pressente que, para além daquela porta, lá dentro, está “um mundo que não fala para ela”, um mundo que não é o dela, que pertence a outros. Aventurar-se, forçar a porta num assomo de boa vontade, pode traduzir-se num misto de desorientação e ansiedade, compensado, porventura, por alguns sobressaltos de humor nervoso, eventualmente deslocado.

No que respeita aos museus e aos eventos culturais, a porta faz diferença. Consoante os casos, as portas ora estão mais abertas, ora estão mais fechadas.

Pedra Formosa da Citânia de Briteiros. Museu da Cultura Castreja. Sociedade Martins Sarmento.

Pedra Formosa da Citânia de Briteiros. Museu da Cultura Castreja. Sociedade Martins Sarmento.

No anúncio Voice of Art, o aplicativo Watson, uma vez ajustado ao museu, é apresentado como um facilitador da interacção entre os visitantes e as obras de arte. A relação com a arte ganha, sem dúvida, em ser melhorada. Mas, neste caso, o prodígio acontece dentro do museu. Pode, naturalmente, sobrevir um efeito de contágio no exterior. Até é concebível que as pessoas passem a ir ao museu menos pela colecção e mais pelo aparelho técnico de interacção com as obras. Nada que não aconteça: há museus cuja atracção reside mais na arquitectura do edifício do que nas obras expostas.

O anúncio não se confina à interacção com a arte. “No Brasil mais de 72% nunca estiveram num museu (…) Uma dessas possibilidades é que ele quer interagir mais com as obras (…) Mais brasileiros no museu”! Transitamos de uma interacção facilitadora da interpretação das obras no interior do museu para o impacto no seu exterior. Uma relação mais amigável com as obras pode cativar, efectivamente, novos visitantes. Será suficiente?

Nelson Leirner. Da série Cem Monas. 2012.

Nelson Leirner. Da série Cem Monas. 2012.

Se os museus pretendem alargar o seu público importa, logicamente, abrir as portas. Sair do museu e ensaiar iniciativas no exterior. Este anúncio é um bom exemplo de projecção fora de portas. Muitos museus já trabalham debruçados sobre o exterior. Tentam construir pontes. Mas os “excluídos” não são fáceis de converter. Continua a faltar o essencial: o “amor pela arte”, gostar da experiência facultada pela visita ao museu. De preferência, reconhecer e apreciar, com os códigos apropriados, o valor das obras. Caso contrário, as obras permanecem incomodamente enigmáticas. Resistem à aproximação.

“A obra de arte considerada enquanto bem simbólico não existe como tal a não ser para quem detenha os meios de apropriar-se dela, ou seja, de decifrá-la (Bourdieu et al [1966], O Amor pela Arte, São Paulo, EDUSP, 2007, p. 71).

Para a aristocracia da cultura, esta conversa é um disparate. As obras de arte possuem uma aura que a todos atinge e só alguns sentem. Mas, que seria do delírio de Don Quixote sem o realismo de Sancho Pança? Estamos perante atitudes e comportamentos que remetem para competências e disposições profundas, desenvolvidas desde a infância, que não se alteram por obra e graça de um aparelho técnico, uma loja, um restaurante, um programa de eventos ou uma campanha publicitária. A mão direita pode estar cheia de boas intenções e a esquerda cheia de nada, vazia de resultados. Mesmo assim, convém construir e sonhar pontes. Sem esquecer que, nos nossos dias, não são as acessibilidades, incluindo o custo económico, que afastam as pessoas dos museus. Para se ir a um museu, é preciso estar interessado.

Inexoravelmente: a mulher e o desporto

Nescau Strong girls

De onde sopra o vento? As mensagens repetem-se e reverberam no pensamento. A publicidade insiste no valor ímpar do sexo feminino. O desporto também ajuda. Segundo a Nescau, produz mulheres “fortes e confiantes”:

“Campaign, created by Ogilvy Brazil, seeks to empower young women through sport. The idea came up after NESCAU® carried out a survey on girls’ attitude towards sports activities, stressing the importance of sports practice to boost confidence. The aim is to raise consumers’ awareness of the role of sport in young women’s development and ability to face the challenges of adult life. The main idea behind the movie is to show that, much in the same way sports turn boys into men, it can also turn girls into strong and confident women”.

Já tenho saudades das minhas lembranças. Acrescento uma raridade: Isabelle Mayereau, Inexorablement (Déconfiture, 1979).

Marca: Nescau. Título: Strong girls. Agência: Ogilvy & Matter Brasil, Rio do Janeiro. Direcção: Daniel Lombardi. Brasil, Março 2017.

Isabelle Mayereau. Inexorablement. Déconfiture. 1979.

Contrição

skol Reposter

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
…………..
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

(Luís de Camões, Sonetos)

Há anúncios publicitários que parecem um acto de contrição. No Reposter da Skol, o máximo torna-se mínimo e o mínimo, máximo. Mudam as vontades, as imagens e as palavras, mas a gramática permanece, a gramática da alteridade estereotipada. De qualquer modo, os posters mudaram graças à arte e ao design exclusivamente femininos. Senhora do seu corpo e da sua vontade, a mulher não serve cerveja, “toma” cerveja.

Marca: Skol. Título: Reposter. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Brasil, Março 2017.