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Cuidados de saúde

Bradesco Saúde. Fascinação. 2020.

Fomos forçados, desde a infância, a ordenar a nossa vida de modo a exorcizar qualquer desordem. E é neste medo do vazio, nesta vontade de desarmar o menor risco, que o poder se enraíza (Marguerite Duras, La Passion suspendue (1989).

Amor, carinho e ternura, cuidado, sonho e inocência… Benditas crianças! Brincam, brincam, por exemplo, aos profissionais de saúde. Os nossos “novos” heróis. Não há figura de ficção que os ofusque. Auscultam, cuidam… Tocam e, caso se proporcione, abraçam. Este anúncio brasileiro presta-lhes uma homenagem a que não falta a voz de Elis Regina. O Brasil é, neste momento, o terceiro país com maior número de infectados com Covid-19, a seguir aos Estados-Unidos e à Rússia. “Fascinação”, da Bradesco Seguros, é um testemunho do poder da simplicidade e da alegoria. Não inclui qualquer imagem de profissionais de saúde. Não é necessário aparecer para estar omnipresente. Que regalia! E aparecer e não estar presente? Que evasão!

Marca: Bradesco Saúde. Título: Fascinação. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Manu Mazzaro. Brasil, Maio 2020.

Reciclagem

Produtos Coca-Cola

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, 1852).

Alguém sustentou que uma boa ideia, ignorada ou desaparecida, será retomada a seu tempo. Isto ocorre também na publicidade. A pretexto da pandemia, a Coca-Cola recicla um anúncio, premiado, de 2003. Seguem o anúncio espanhol Por Todos (2020), acabado de sair, o anúncio argentino Para Todos, de 2003, e o anúncio brasileiro Para Todos, de 2018.

Marca: Coca-Cola. Título: Por todos. Agência: Mercado McCann. Espanha, Abril 2020.
Marca: Coca-Cola. Título: Para todos. Argentina 2003.
Marca: Coca-Cola. Título: Para todos. Agência: Mercado McCann. Brasil, Dezembro 2018.

O aperto de mão em tempos de pandemia

A publicidade não está imune ao coronavírus. Multiplicam-se os anúncios que aludem à pandemia. Com mais ou menos propósito. Nalguns casos, é preciso algum esforço para descobrir a ligação. Seleccionei dois anúncios em língua portuguesa. O primeiro, brasileiro, Keep your distance, da Universidade do Futebol, assinala como um gesto, a recusa do aperto de mão, pode mudar de sentido, de feio para bom, de ofensa para consciência, consoante o contexto. O segundo, português, It’s Victor Fault, da Lobby, inspira-se na origem, presumivelmente vampírica, do vírus. Dois vampiros conversam sobre as vantagens e as desvantagens do coronavírus. A agência aproveita para fazer auto-promoção.

Marca: Universidade do Futebol. Título: Keep your distance. Agência: Liberdade. Direcção executiva: Fabiana Zat Livardi. Brasil, Março 2020.
Marca: Lobby. Título: It’s Victor Fault. Agência: Lobby. Portugal, Março 2020.

As gavetas da autofagia. Fabio Zanon

Fabio Zanon

Viver em casa quase sem contacto exterior resume, há anos, o meu quotidiano. O coronavírus veio transformar um reflexo anti-social lamentável num gesto cívico louvável. Trata-se de uma ressignificação. Exploro, com renovada energia, os nichos domésticos. Os LP estão em prateleiras, os CD em gavetas. Quanto mais baixa a gaveta, menos uso tem. Abri a última gaveta e retirei um disco do brasileiro Fabio Zanon (violão), dedicado, quase todo, a Francisco Tárrega (1852-1909). Encalhei na faixa 14. Não é de Tárrega mas de Alexandre de Faria, compositor brasileiro contemporâneo: Prelude for Guitar. Eyes of Recollection (1997). Nestas “descobertas”, sinto-me parasita de mim mesmo, entregue a uma espécie de autofagia tardia. Tanto vivi que cansei. Mas empenho-me a abrir e a fechar gavetas.

Para amaciar o gosto, começa-se com a Balada para Martin Fierro (Aire Sueño), composta por Ariel Ramirez (Argentina) e interpretada por Fabio Zanon (2018).

Balada para Martin Fierro (Aire Sueño). Compositor: Ariel Ramirez (Argentina). Interprete: Fabio Zanon (2018).
Prelude for Guitar. Eyes of Recollection. Compositor: Alexandre de Faria. Interprete: Fabio Zanon (1997).

Vaca carnívora

Anunciante: Unimed Curitiba. Título: Vaconça. Agência: Bronx. Brasil, Dezembro 2019.

“Desde que comecei a rir de mim mesmo, nunca mais me aborreci” (Georges Bernard Shaw).

Quando embirro com um assunto, sou pior que uma criança. A ameaça dos herbívoros, não prevista na Bíblia, abala os meus padrões tradicionais de entendimento. Não fui educado para percecionar uma vaca como um agente perigoso. Ressalvo as vacas realmente loucas, desenfreadas pelos caminhos a escornear tudo que apareça. Casos raros. Para mim, a vaca é um animal gentil que bafeja o divino. Dócil e belo. No Líbano, quando se pretende lisonjear uma mulher, diz-se que “tem os olhos bonitos como os de uma vaca” (عيون جميلة مثل بقرة: euyun jamilat mithl baqara).

Ao observar o animal na imagem (uma “vaconça”), debato-me com duas dúvidas:

– Trata-se de uma vaca disfarçada de carnívoro para não ser identificada como fonte de Metano e factor de catástrofe planetária? Um caso de camuflagem ou metamorfose bestial?

– Resulta a pele felina de experiências alimentares? Nos cortejos londrinos, era costume alterar a refeição dos cavalos a fim de que os excrementos fossem de cor discreta. Se a dieta afecta os excrementos, também pode mudar a pele. Atente-se nas intoxicações. Têm-se testado várias dietas para vacas. Há dietas que reduzem a emissão bovina de Metano para metade. Desconfio que comendo ração para gato uma vaca adquira uma pele de felino. Afigura-se-me, também, que se dessem de comer plástico às vacas resolver-se-iam dois grandes problemas da humanidade.

Guillermo Mordillo

A rosa pequenina

As Jornadas do Órgão Histórico da Oliveira (ver imagem) conduziram-me ao mural da Isabel Maria Fernandes. Encontrei uma segunda preciosidade: a Cajuina, de Caetano Veloso, numa excelente interpretação ao vivo.

Music video by Caetano Veloso performing Cajuina. (C) 2012 Universal Music Ltda

Bálsamo para sofridos

Maria Bethânia

Ando devagar porque já tive pressa.

Esqueci o pensamento na cadeira do dentista. Quatro anestesias! Muita mecânica. Tive direito a óculos de realidade virtual, por causa do laser. Ainda dói a área intervencionada. Estou melhor? Espero. Valha a Maria Bethânia, um bálsamo para os sofridos.

Maria Bethânia. Tocando em Frente. 1990. Programa da TV Pantanal.
Maria Bethânia. As Canções Que Você Fez Para Mim. Noite Luzidia. Ao vivo. Canecão. 2001.

As potencialidades sonoras dos sapos

Os sapos comem a lua durante o eclipse e são animais de estimação das bruxas. São o lado feio da beleza. As rainhas malvadas são tranformadas em sapos e os sapos, em príncipes. No escuro e na água, os sapos coaxam alto e bom som, com efeitos sonoros especiais. Os anúncios que valorizam o som são, normalmente, criativos, envolventes e, por vezes, aterradores. Graças ao anúncio Can You Solve The Mystery?, do Australian Museum, sempre que ouvir um carro ou uma motorizada a passar na estrada, fico na dúvida se não será um sapo.

Marca: Australian Museum. Título: Can You Solve The Mystery? Agência: 303 MullenLowe. Austrália, Novembro 2019.
O coachar do sapo cururu (Rhinella jimi). Mais de 2 milhões de visualizações.

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.

A corrosão electrónica

Francis Bacon. Tríptico. Três estudos para um auto-retrato. 1976.

O Brasil salienta-se pela homeopatia, cultural, do grotesco. Reúne sábios e rituais notáveis. Não espanta o anúncio Anger (Raiva), do Clube de Recriação do Rio de Janeiro. Coaduna-se, aliás, com o espírito da publicidade de festivais congéneres (vídeo, cinema, documentário). Estamos habituados. Mas o Anger exorbita. Na idade electrónica, as máscaras, a nossa identidade natural, deformam-se catastroficamente, e ódio já não se estranha, entranha-se. Quanto à nossa imagem, aproxima-se de uma orgia de pixels.

Anunciante: Clube de Recriação do Rio de Janeiro. Título: Anger / Raiva. Agência: FCB Brasil. Direcção: Alton. Brasil, 28 de Agosto de 2019.