Aos mortos

No que respeita ao interesse e à diversidade dos artigos, o primeiro de agosto manifesta-se fértil. Prodiga músicas, anúncios, sexo… Faltam os mortos, esqueléticos ou não. Os artigos Minimalismo corporal, de 2017, e Carta aos mortos, de 2018, vêm colmatar essa falha.
Publicidade de Salvação



Durante os jogos olímpicos, o mundial de futebol ou o superbowl, a humanidade entra em efervescência coletiva. A publicidade encarece e exorbita, com hipérboles, alegorias e molho identitário.
O anúncio “Sports unites all”, para os jogos olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, oferece-se como exemplo. No início, era Ronaldinho Gaúcho, o génio da bola não identificado [No início era o verbo, o deus absconditus (deus oculto)]. No fim, o golo, a revelação, a salvação e a comunhão.
Perante anúncios extraordinários, dignos de criteriosa análise, acontece-me desconversar. Um defeito, mas a desconversar, vou-me entendendo.
Menina e Moça e Anamorfose Ferroviária

“Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual fosse então a causa d’aquela minha levada,—era eu pequena,—não na soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo, quanto foi necessario para não poder viver em outra parte. Muito contente fui eu n’aquela terra; mas, coitada de mim, em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo tempo se buscava!” (Bernardim Ribeiro, Menina e Moça, 1554).
Recoloco dois artigos de 28 de julho. O primeiro, A epifania do soutien, de 2015, inclui o anúncio “O primeiro Valisere a gente nunca esquece”, de 1987. Multipremiado, Leão de Ouro no Festival de Cannes, consta do livro Os 100 Melhores Comerciais de Todos os Tempos, da jornalista americana Bernice Kanner.

Em abril de 1987, a marca VALISERE entraria para a história da publicidade brasileira através da campanha “O primeiro Valisere a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto e que mostrava o fascínio de uma adolescente, interpretada por Patrícia Lucchesi (então com 11 anos), ao usar seu primeiro sutiã e a sua timidez em ser notada como mulher. O comercial não apenas levantou a imagem da marca de lingerie, além de ganhar vários prêmios no Brasil e no exterior, como também se tornou um ícone da publicidade brasileira, cravando no imaginário popular a frase “O primeiro sutiã a gente não esquece”. O comercial (que pode ser assistido clicando aqui), criado para rejuvenescer a imagem da marca e atrair consumidoras adolescentes, figura, há três décadas, na lista dos filmes mais premiados e citados no meio publicitário e pelo grande público. Essa importância é ainda mais explícita ao fazer uma simples pesquisa no Google para perceber a força desse bordão. São nada menos que 17.500 mil citações distribuídas por sites sobre propaganda, reportagens, blogs, crônicas, chats de bate-papo e até mesmo artigos acadêmicos. Com o êxito da campanha, a marca aumentou gradativamente seus investimentos para comunicação e hoje destina milhões de reais para ações de marketing. (Mundo das Marcas: https://mundodasmarcas.blogspot.com/2006/06/valisre-para-mulheres-inesquecveis.html).
O segundo artigo, Vanitas: anamorfose na sanita do comboio, de 2012, contem o anúncio romeno “Train”, de 2011, com uma anamorfose insólita e grotesca que, esboçada na sanita de um comboio em marcha, prenuncia a morte perante os olhos assombrados do maquinista. A não perder!
Folhas perpétuas

Continuo empenhado na recuperação de artigos remotos. Hoje, a seleção impôs-se sem grandes hesitações. Seguem os dois artigos que se destacam claramente: Portinari e o burro montado às avessas, colocado em 8 de julho de 2017, e As Folhas Mortas, em 8 de julho de 2013. O primeiro remete para arte, o segundo, para a música, domínios privilegiados do Tendências do Imaginário.
Não resisto a citar um comentário ao artigo sobre o Portinari. O blogue suscita raramente interação. Quero, contudo, crer que este testemunho dá voz ao silêncio de muitos seguidores. Seria, de outro modo, difícil compreender as cerca de 400 visualizações diárias alcançadas em média pelo Tendências do Imaginário, a maioria proveniente de 4 países: 41% do Brasil, 32% de Portugal, 8% dos Estados Unidos e 8% da China e Hong Kong (dados respeitantes ao mês de junho de 2026).
Encontrei teu blog por acaso, estava pesquisando de quem era o trípidito O juízo final, e o Google images me trouxe até aqui. Estou absorta em teus escritos. Obrigada por compartilhar teus pensamentos. (Nicole Munhoz, 24-07.2017).
Nas nuvens

Quase todos os anos escrevo um artigo a agradecer os votos de bom aniversário. Hoje, com a ida a Melgaço, não sobrou tempo. Não faz mal: aumentam os anos e diminuem os artigos e a estatura. Mas continua a vontade de voar e de comunicar. E de sonhar, também. A amizade ajuda. Recoloco, tardiamente, dois artigos que convocam este espírito: “Memória reincidente” (2020) e “Novidade e originalidade” (2017).
Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)
A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.
Troncalidade

O Alberto e o Eduardo descobriram em Melgaço o Bar das Termas (Peso), a Tasquinha da Portela (Paderne), o bar de vinhos Contrabando (Praça da República, na Vila), o Mosteiro de Fiães, onde beneficiámos da hospitalidade do Padre Rogério Rodrigues, e, por último, o Café Jardim (Penso). O percurso terminou em Moledo, no restaurante O Trem. No que me respeita, tive a felicidade de ficar a conhecer a voz do Edson Cordeiro.
Edson Cordeiro nasceu em 09 de fevereiro de 1967, em Santo André, grande ABC. Frequentou a igreja do Evangelho Quadrangular, onde começou a cantar no coral. Na adolescência, trabalhou com teatro infantil, como parte da companhia teatral da Turma da Mônica. Em meados dos anos 1980, teve uma exitosa carreira teatral participando da ópera rock “Amapola” (1985), da terceira montagem brasileira do musical “Hair” (1988) e da peça “O doente imaginário” (1989). Em 1990, realizou seus primeiros shows solos no Rio de Janeiro e em São Paulo. O sucesso de suas apresentações resultou em um contrato com a gravadora Sony, lançando em 1992 seu primeiro disco “Edson Cordeiro”. No final dos anos 1990, lançou as coletâneas “Disco Clubbing – Ao vivo” e “Disco Clubbing 2 – Mestre de Cerimônia”, com regravações de clássicos da Disco Music internacional. Em 2010, mudou-se para a Alemanha, onde vive. (https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/edson-cordeiro/)
Registo Civil Vegetal e Limoeiro

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.
Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano

![[DisfarçARte] Fotografia por Liu Bolin](https://i0.wp.com/tendimag.com/wp-content/uploads/2026/07/Fotografia-por-Liu-Bolin.jpg?resize=479%2C401&ssl=1)
