Archive | Março 2023

(En)canto e paixão

Guadalupe Pineda, nascida em 1955, em Guadalajara, México, possui uma voz e uma presença admiráveis. Intérprete, sobretudo, de boleros, baladas, tangos e ópera, acumulou prémios internacionais e discos de ouro e platina. Publicou mais de trinta álbuns. Silêncio, com ou sem os olhos fechados, que vai cantar Guadalupe!

Guadalupe Pineda. Cuando sale la luna. Vestida de Beson. 1998. Vídeo musical, 2013
Guadalupe Pineda (com Raúl Di Blasio). Procuro Olvidarte. Homenaje a Los Grandes Compositores. 2018
Guadalupe Pineda. Yolanda (Te amo). Te amo. 1984. Vídeo musical Las Tres Grandes, 2015
Guadalupe Pineda (com Leysa Reyes). Historia de un amor. Con Los Trio Del Siglo. 2000. Sesiones en vivo durante la cuarentena 2020

Pescoços de borracha. A curiosa arte de espreitar

Nicolaes Maes. Espia. 1657

Hoje, vi apenas dois anúncios. Convergem num mesmo trejeito ou propensão: da Tailândia ao Perú, o que está a dar é espreitar, espreitar aquilo que os outros possuem, fazem e sentem (vídeos 1 e 2). A privacidade e a intimidade resumem-se, quando muito, a nomes de perfumes que desmaiam no ar do tempo. A continuar deste jeito o ser humano conhecerá uma nova alteração darwiniana: pescoços de borracha (Rubberneckers, “curiosos”; vídeo 3).

Marca: Robinson Department store. Título: The Air Drummer. Agência: Wolf BKK. Tailândia, março 2023
Marca: Vencedor Paints. Título: Celeste. Agência: Circus Grey. Direção: Lucia Amigo. Perú, março 2023
Murray Head. Rubbernecker. Between Us. 1979

Rubbernecker (Murray Head)

He is a rubbernecker
A human double-decker
Another trouble-checker

Hanging around the scene of the crime
He’s got nothing to say tho’ he’ll get in the way
Cos that’s how he likes to spend his time
Rubbernecker

He is a rubbernecker
A watch in any weather
He gets sadistic pleasure
Knowing he’s O.K., and free of blame
He saw it all happen, but he don’t know why
He’s glad he was there all the same.
Rubbernecker

Oh god it’s hard to see ourselves when we’re to blame
For watching someone else do what we cannot do
For shame, for fear or pride, as long as we can hide.
Rubbernecker

He is a rubbernecker
A human double-decker
Another trouble-checker

The ever silent witness on the side
He likes to stand and stare and sniff the atmosphere
Don’t ask him for support he’s a watchman not a guide.
Rubbernecker

O trem da outra margem

Monte de Santa Tecla

“Nós somos os fillos lingüísticos das nosas criadas, as criadas que nos criaron” (Xavier Alcalá, escritor amigo de Andrés do Barro).

“O Tren”, galego; “O Tren”, castelán… O galego, todo proibido. Ou seja, tinha todo grabado. Enton paseina poñendo “O Trem”, portugués… E pasou! (Andrés do Barro sobre a aprovação de “O Tren” pela censura).

Encostado à Galiza, do Monte de Santa Tecla sopram memórias húmidas como as canções de Andrés do Barro (1947-1989) dedicadas à emigração e à separação: “O Tren”, “Teño Saudade”, “Adeus Adeus”… Andrés do Barro foi um dos primeiros músicos a cantar em galego e “O Tren” a única canção do País em língua não castelhana a conquistar o topo de vendas. Algumas composições lembram os contemporâneos Aguaviva e Patxi Andion, outras os anos sessenta e a música tradicional galega.

Seguem cinco canções de Andrés do Barro. Aconselho, ainda, o documentário “Andrés do Barro. No Bico un Cantar”, da Televisión de Galícia, emitido no dia 9 de janeiro de 2013, cujo endereço é http://www.crtvg.es/tvg/a-carta/andres-do-barro?t=1089

Andrés do Barro. Adeus Adeus. Me llamo Andrés Lapique do Barro. 1970
Andrés do Barro. Teño Saudade. O Tren. 1970
Andrés do Barro. Meu Amor. O Tren. 1970
Andrés do Barro. O Tren. O Tren. 1970. Do filme En la red de mi canción, de 1971
Andrés do Barro. Amor D.F. O Tren. 1970

Nascimento da Primavera

René Magritte. Le Printemps. 1965

Para celebrar o início da primavera e o aniversário do Fernando, entusiasta da guitarra, quatro músicas compostas por Andrew York.

“Sem a música, a vida seria um erro” (Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, 1889). Há quem diga que é uma prenda da vida. Como todas as dádivas, subsiste a opção de a desdenhar.

Andrew York. Lotus Eaters. 4th Antwerpen Gitaarfestival. 2014
Andrew York. Home. 2018 (com uma guitarra de Antonio de Torres)
Andrew York & Jan Depreter. Sanzen. 4th Antwerpen Gitaar Festival. 2014
Andrew York. Sunburst. Jubilation. 2009

A música soturna de Anna von Hausswolff

Orestes mata Clitemnestra (que coloca a mão no seio nu em sinal de súplica). Ânfora. Grécia. ca. 340 AC

Na mitologia grega, Electra induziu o seu irmão Orestes a assassinar a sua mãe Climnestra para vingar a morte do seu pai Agamémnon por esta arquitetada. Carl Gustav Jung propôs a noção de complexo de Electra como contrapartida do complexo de Édipo.

Partilhada pelo meu primo Bruno, a primeira música que ouvi hoje foi “‘The Mysterious Vanishing of Electra”, interpretada pela sueca Anna von Hausswolff, cantora já contemplada neste blogue (https://tendimag.com/2012/11/09/anna-von-hausswolff/). Adicionei duas músicas para aprofundar o impacto: “Liturgy of Light” e “Funeral for My Future Children”. Uma maneira bastante lúgubre de começar o dia. Quer-me parecer que o ambiente acústico só poderá melhorar.

Anna von Hausswolff. The Mysterious Vanishing of Electra. Dead Magic. 2018
Anna von Hausswolff. Liturgy of Light. Ceremony. 2012
Anna von Hausswolff. Funeral for My Future Children. Ceremony. 2012

Hino à transpiração

Madeleine Georges Charlotte Lavanture (1913-1940). Tu gagneras ton pain à la sueur de ton front. Prix de Rome, 1938

Transpirar por todas as partes, em todos os gestos, em qualquer momento e ambiente, num sortido de fisionomias, eis o fado de Adão (e Eva). Em todas as feições, usos e gostos. O anúncio “Sudar es la gloria”, da Gatorade, evidencia a propensão para a universalidade e a diversidade de uma certa tendência da publicidade. Cada espetador é convidado a reconhecer-se em alguma figura. Mas, não nos iludamos, nem sequer as exceções, neste caso os sedentários alérgicos à arte de suar, escapam ao apelo. Entranham o estranho, fazem seu o esforço dos outros, ficam sedentos por projeção.

Marca: Gatorade. Título: Sudar es la gloria. Agência: Isla. Produção: Stink São Paulo. Direção: Jones. América Latina, março 2023

Inspiração

Coca-Cola. Masterpiece. Março 2023

Eis um anúncio que concebe uma inspiração engarrafada como nunca ninguém sonhou! Um rodopio de imagens e obras de arte numa odisseia vertiginosa. Este “masterpiece” da Coca-Cola estreou esta semana, no dia 6 de março.

Figuras que ganham vida, por exemplo, saem de quadros, é um motivo com antecedentes. É o caso do filme de animação Le roi et l’oiseau, iniciado nos anos cinquenta e terminado em 1980, realizado, em França, por Paul Grimault, ou, se a memória não me engana, dos Contos fantásticos de E.T.A. Hoffmann (1776-1822).

Marca: Coca-Cola. Título: Masterpiece. Agência: Blitzworks. Produção: Academy. Direção: Henry Scholfield. USA, março 2023

“An ice-cold bottle of Coca‑Cola journeys from canvas to canvas—starting with Andy Warhol’s 1962 Coca‑Cola and continuing to a refreshingly diverse and culturally rich mix of classic and contemporary paintings before ultimately landing in the hands of an art student in need of creative inspiration—in a new global campaign titled “Masterpiece”. / The latest expression of the “Real Magic” brand platform celebrates how Coca-Coca provides uplifting refreshment in moments that matter. The campaign’s creative centerpiece is a short film set in an art museum, where students are sketching select paintings on display. As one student appears uninspired, an arm from a painting reaches across the gallery to grab the Coke bottle from Warhol’s pop-art masterpiece. From there, it’s relayed from works including JMW Turner’s “The Shipwreck”, Munch’s “The Scream” (re-colored lithograph) and Van Gogh’s “Bedroom in Arles” before finally landing with Vermeer’s “Girl with a Pearl Earring”, whose subject opens the bottle for the student in need of inspiration and refreshing upliftment. / In addition to these universally recognized paintings from the past century, the film bridges the worlds of classical and contemporary art by featuring work from emerging creators from Africa, India, the Middle East and Latin America” (Coca-Cola).

Lista de obras de arte contempladas no anúncio:

00:14 Divine Idyll  –  Aket, 2022
00:24 Large Coca-cola  –  Andy Warhol, 1962
00:30 The Shipwreck  –  Joseph Mallord William Turner, 1805
00:38 Falling in Library  –  Vikram Kushwah, 2012
00:43 The Blow Dryer  –  Fatma Ramadan, 2021
00:45 Scream  –  Munch, Edvard, 1895
00:48 You Can’t Curse Me  –  Wonder Buhle 2022
00:56 The Bedroom (Bedroom in Arles)  –  V. van Gogh, 1889
01:04 Artemision Bronze  –  Unknown (Greek), 460BC
01:11 Natural Encounters  –  Stefania Tejada, 2020
01:22 Drum Bridge and Setting Sun Hill  –  Hiroshige, 1857
01:29 Girl with a Pearl Earring  –  Johannes Vermeer, 1665

Balada da Terra Moída

Em 2020, os dias repetiam-se como lesmas. Ora ecrã, ora espelho, ora ambos, gestos submersos destinados ao esquecimento. Ao transferir ficheiros para uma pen, surpreende-me o texto “Prado subjetivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”. Adormecido no “vale dos caídos”, reli-o como pela primeira vez. Tocou-me tamanha obra estranha. Encantamento da memória e desencanto do mundo. Um excesso de objetividade subjetivada, e vice-versa. Entre ecos e ressonâncias, pareceu-me, contudo, uma alegoria de tantas aldeias inquietas.

Segue o referido texto, “Prado subjetivo: metamorfose de uma freguesia modernizada”, capítulo do livro Quem Somos os que Aqui Estamos: Prado e Remoães (c. Álvaro Domingues). Editado pela União de Freguesias de Prado e Remoães, 1920, pp. 8-17.

Tempo para tudo

Ter todo o tempo do mundo pode ser bom!

Rui Veloso. Todo o tempo do mundo. Avenidas. 1998

Ter tempo para tudo talvez não seja pior! Até para tentar tempos alheios. Se os Slow Show lembram Roger Waters, os Elbow lembram Peter Gabriel.

Elbow. Starlings. The Seldom Seen Kid. 2008
Elbow. Grounds for Divorce. The Seldom Seen Kid. 2008. Live at British Summer Time in Hyde Park, London on 8th July 2017
Elbow. One Day Like This. The Seldom Seen Kid. 2008. Live at British Summer Time in Hyde Park, London on 8th July 2017

Rendimentos marginais. The Slow Show

A virtude da errância, de errar perdidamente, reside em poder acertar no imprevisto, acrescentar, por ventura, um pouco de prazer ao prazer. Os Slow Show lembram-me, com ou sem razão, Roger Waters.

The Slow Show. Low (with Hallé Youth Choir). Lust and Learn. 2019
The Slow Show. Dresden. White Water. 2015. Live at Hallé St. Peter’s, Manchester, 2014
The Slow Show. Break Today. Dream Darling. 2016. Live at Haldern Pop Festival, 2015
The Slow Show. Rare Bird. STILL LIFE. 2022
The Slow Show. Blinking. STILL LIFE. 2022