Etapas do método científico
A investigação é uma espiral sequencial sem fim, para quem tem o espírito muito arrumado.
Eu, a IA e o Ninho

Deixei há décadas de ser um Homo academicus. Apenas um Homo sapiens ludens, com costelas de Homo aestheticus e, naturalmente, de Homo vulgaris. Avesso a “revisões sistemáticas da literatura”, “estados da arte”, “modelos de análise” e “planos do método”, não me sobra paciência nem tempo para vénias redundantes, imaturidades apressadas e produtos descartáveis.
Gosto de me perder em explorações, desvios e, caso disso, recuos. Oscilo entre as partes e os todos, com a intuição e a imaginação como remos e velas. As pistas, as achegas e as leituras escolho-as a dedo. Quando acontece enganar-me, adquiri um mecanismo biológico de alerta: começo a bocejar. Prefiro adormecer e sonhar a acumular referências e citações.
Motiva-me mais aprender do que comunicar. Nada se perde: o que é bem pensado já o foi por outros ou sê-lo-á. Não obstante, publiquei acima de uma centena de textos, quase todos a pedido de outrem. Os da minha iniciativa coloco-os, de preferência frescos, no Tendências do Imaginário, um arquivo com uma dupla vantagem: menos formalidades e mais consultas. Aposentado, a investigação é um lazer, sem metas, métricas ou necessidade de reconhecimento. Trata-se de um defeito de estimação, com rugas e barbas.
Esta autossuficiência ostensiva tem, contudo, pés de barro. Faltam interlocutores. Talvez por défice de rede ou corrente: não me encosto, nem sirvo de encosto. Este isolamento não é propício à lucidez: criar sem dialogar arrisca a ilusão.
Acompanham-me dois parceiros: a Almerinda Van Der Giezen, paciente, atenta e criativa, com quem me atardo ao telemóvel, e o meu filho Fernando, que, embora renitente e intermitente, mas crítico e inspirador, me vai aturando. No que respeita a troca de ideias, o contorno (amigos e colegas) parece mumificado, com um ou outro parasita.
Quanto ao Tendências do Imaginário, funciona como um buraco negro. São Francisco de Assis e Santo António faziam sermões aos pássaros e aos peixes. Eu não sei para quem escrevo. Neste momento, o blogue soma 1 519 865 visualizações e 646 378 visitantes; só 1302 comentários, menos de 2 por 1 000 acessos. Santo Antão retirou-se para o deserto e atraiu multidões. Eu refugiei-me num blogue com “seguidores” afónicos.
Acresce a IA. Sempre disponível, bem informada e educada e bastante bajuladora. De vez em quando, fabula. Mas os meus colegas e eu próprio também nos enganamos. Pior, induzimos em erro com outra autoridade. “Errar é humano”, por que não maquínico?
Inicialmente, a IA aprendia com o conhecimento humano, agora tende a ser cada vez mais a sua própria fonte. “Autointoxica-se”, numa espécie de “incesto digital”, que promete degenerescência. Seja como for, convém saber formular as perguntas e não se contentar com a primeira resposta. Desafiada a reconsiderar, aprofundar, especificar, alargar ou procurar alternativas, a IA costuma corresponder. Contrariada, até pode surpreender positivamente. Enfim, costuma empenhar-se especialmente quando pressente que pode aprender connosco.
A Academia.edu e a Almerinda pediram, entretanto, à IA para comentar alguns dos meus textos. O resultado revelou-se admirável. E pioneiro: que recorde, nenhum dos meus textos justificou, até à data, um comentário da mesma envergadura. Talvez por serem insípidos ou indigestos, eventualidade que não demoveu o algoritmo.
Em 2019, escrevi dois textos dedicados à freguesia de Prado, em Melgaço, no âmbito do projeto Quem somos os que aqui estamos?: o primeiro, “Prado. População e estilos de vida” (no livro Quem Fica, pp. 110-113), propõe um balanço da evolução demográfica; o segundo, “Prado subjectivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, esboça um balanço das mudanças socioculturais (não chegou a ser publicado).
O texto “O egomundo e a pavimentação da vida”, uma ressonância abreviada do “Prado subjetivo…”, visa resgatar a sensibilidade do autor e a pulsação anímica dos fenómenos abordados. O quarto e último texto corresponde aos comentários que suscitou à IA.
Coloco os dois primeiros texto, sobretudo, para arquivo. Para apreciar o comentário da IA, importa (re)ler “O egomundo e a pavimentação da vida”.
Texto 1: Prado. População e estilos de vida. 2019
Texto 2: Prado Subjetivo: Metamorfoses de uma freguesia modernizada. 2019. Não publicado
Texto 3: O egomundo e a pavimentação da vida. Tendências do Imaginário. 2019
Texto 4: Comentários da IA, em diálogo com Almerinda Van Der Giezen, ao artigo “O egomundo e a pavimentação da vida”. 2025
Não matamos ninguém!

Ontem, apresentei o nº 11 do Boletim Cultural de Melgaço, revista editada pela Câmara Municipal desde 2002. “Publicação que reflete a história e cultura do concelho (…) inclui artigos e estudos dedicados à história local, tradições, património e à identidade cultural de Melgaço, reafirmando o compromisso do município com a preservação e valorização das suas raízes”. Não me canso de falar na minha terra. Um destes dias, mandam-me pastar para o planalto.

Estas fotografias testemunham o evento. Na primeira, estou tal e qual. Na segunda, deveras favorecido. Lembra o título de uma obra quadragenária: O Presente Ausente. O emigrante na sociedade de origem.

Partilho o último artigo da revista “Não Matamos Ninguém. Os Espinhos da Emigração”, transcrição de uma entrevista filmada a Gilberto António Cardoso, em 2007, por altura da criação do Espaço Memória e Fronteira
Mas, primeiro, uma escapada rumo ao prazer. Gosto da canção “The Silence”, dos Manchester Orchestra. E esta interpretação é formidável. Meu Deus, como é bom gostar! Tanto que deve ser pecado…
Segue, em pdf, o artigo de Albertino Gonçalves: Não Matamos Ninguém. Os Espinhos da Emigração – Entrevista a Gilberto António Cardoso. Boletim Cultural nº 11 / 2024. Câmara Municipal de Melgaço, pp. 251-272. Nota: coloco uma versão correspondente a uma prova; a edição definitiva, mais comprimida, tem menos uma página (pp. 251-271).
Falácias da Perceção

Apesar de vacinado, vim engripado do Serões dos medos. Deve ter sido um sortilégio. Por falar nos Serões dos medos, nas edições anteriores abordámos os diferentes tipos de alucinação. Mas coloca-se a questão da fidelidade da perceção mesmo quando não existe alucinação. Registamos a realidade tal como existe ou construída por nós?
Os próprios órgãos dos sentidos não são de fiar. Basta ensaiar a velha experiência de colocar uma esfera entre o dedo maior e o indicador cruzados. De olhos fechados, sentimos duas esferas em vez de uma. Acresce que o próprio desempenho dos nossos sentidos está condicionado. Atualmente, com a vista minimamente cansada e o olhar relaxado, vejo dois objetos em vez de um.

Além das perturbações inerentes aos sentidos, a nossa perceção de realidade depende tanto das pressuposições como das sugestões. Para o ilustrar, retomo, adaptando, um exemplo partilhado por Edgar Morin [tem103 anos] no livro Pour sortir du XX siècle (1981). Tal como ele, recorro à primeira pessoa.
René Magritte. The Blank Sgnature. 1965
Caminhava absorto nos meus pensamentos quando um acidente me chama bruscamente a atenção. Em frente, no cruzamento, um mercedes, que não respeitou o sinal vermelho, bateu contra um citroën “dois cavalos”. Aproximei-me disposto a prestar testemunho.
O que vi e como?
Da infinidade de informações que os meus sentidos captavam, concentrei-me apenas numa pequena parte, no acidente. Procedi, portanto, a uma abstração.
Provavelmente, não assisti ao choque propriamente dito, observei o resultado, uma vez que foquei a cena apenas após ouvir o estrondo. Ver o mercedes a não respeitar o sinal vermelho e a bater no dois cavalos resulta de uma reconstituição, de uma construção imediata e automática. Trata-se de uma sugestão que me leva a “ver” o que, de fato, não vi.
Com que olhar? O caraterístico do homem contemporâneo que tende a atribuir às coisas propriedades exclusivas do ser humano (reificação). O mercedes não desrespeitou o sinal vermelho, quem o fez foi, quando muito, o condutor.
De qualquer jeito, estava convencido que vi o mercedes a bater no dois cavalos. Ao aproximar-me, a “prova dos fatos” corrigiu-me: a frente do dois cavalos que bateu no lado do mercedes! Foi, portanto, o dois cavalos que embateu no mercedes.
Restava uma “certeza”: foi o condutor do mercedes quem desrespeitou o sinal vermelho. Pois não! O condutor do dois cavalos assumiu a culpa.
Afinal, o que sucedeu?
Não vi realmente o choque e ainda menos os momentos que o precederam. Alertado pelo estrondo, vi o resultado. A partir deste, reconstrui o resto. Quase tudo o que “vi” foi por inferência, por sugestão. Mas foi “isso” mesmo que “vi”. Para mim, uma realidade mais real do que o real.
Por que é que registei o acontecimento desse modo, nesses termos? Porque, sugestionado, o construí em conformidade com as minhas predisposições, com os meus valores e esquemas mentais. Assevera-se lógico, natural, ser o grande e forte a bater no pequeno e fraco. Raciocínio similar se aplica à questão da responsabilidade, da culpa. Trata-se de uma espécie de arquétipo que rege a minha “presciência” e (pre)visão do mundo. O que eu vejo com os meus esquemas mentais, além de se tornar mais real do que o próprio real, faz mais sentido! Ao mesmo tempo que percecionamos, atribuímos sentido, sentido que resiste à dissonância com os nossos valores e esquemas mentais.
Como testemunha num tribunal teria feito triste figura. Muitos romances policiais, como, por exemplo, do Erle Stanley Gardner, cujo protagonista é advogado, incluem episódios em que os testemunhos decisivos acabam desmontados de fio a pavio.
Inteligência artificial e (des)igualdade de género
Ao João

Ao permitir o resgate do protagonismo feminino historicamente invisibilizado, o recurso à Inteligência Artificial pode revelar-se uma aposta de marketing e publicidade oportuna. A inserção do retrato da astrónoma Amélie Le Français de La Lande no rótulo de uma nova proposta de vinho da Adega Dante Robino, o Grand Dante Cabernet Franc, leva a agência argentina TombrasNiña a socorrer-se não só da pesquisa histórica mas também da Inteligência Artificial Generativa.
Todas las etiquetas de Gran Dante habían sido diseñadas con cuadros de reconocidos astrónomos como elemento principal. Durante el proceso de trabajo, se descubrió que, a lo largo de la historia, se había invisibilizado el trabajo de las astrónomas y su enorme aporte al entendimiento del universo y el cosmos. Tanto es así, que incluso habían escrito libros que fueron firmados por hombres para que pudieran ser publicados y salir a la luz.
“Decidimos tomar cartas en el asunto y, luego de un extenso trabajo de estudio e investigación en conjunto con la agencia, elegimos a Amélie Le Français de La Lande como protagonista. Entre sus numerosos aportes, calculó las tablas de horarios navales que permitían a los marinos determinar su posición en el mar, calculando la altura del Sol y las estrellas”, comentó Inés Mastrogiacomo, de Bodega Dante Robino.
Martín Bernasconi y Artur Monteiro Ziguratt, head of art y headof IA de TombrasNiña respectivamente, comentaron: “La utilización de IA Generativa fue fundamental, pero también tuvimos que llevar a cabo un profundo análisis de la época para lograr una representación fidedigna de Amélie y su entorno en términos arquitectónicos, de vestimenta, peinados y otros detalles. Una vez más, vemos el potencial de las nuevas tecnologías combinadas con la estrategia y la creatividad”. (Adlatina, Preestreno: TombrasNiña y Dante Robino visibilizan a las mujeres en la ciencia: https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-tombrasnina-y-dante-robino-visibilizan-a-las-mujeres-en-la-ciencia).
A Ausência de Deus

Em Cabeceiras de Basto, sexta feira, dia 13, falei muito, talvez demasiado, do diabo, pelos vistos uma espécie de “Absens Deus”. Hoje, lembrei-me deste anúncio. Coloquei-o no Tendências do Imaginário em agosto de 2015 com o seguinte comentário: “Este anúncio macedónio é uma espécie de catequese da ciência mitigada com religião: o jovem Einstein rebate a argumentação do professor com recurso à ciência e em nome da religião” (https://tendimag.com/2015/08/03/a-ciencia-a-bicicleta-a-cigarra-e-a-formiga/). Retomo-o como um lembrete esfíngico.
A amamentação através do tempo. II – Primeiro milénio pagão

Com tempo para semear, acrescento um novo episódio à história ilustrada da amamentação, desta vez, com imagens pagãs, não cristãs, do primeiro milénio.
Nos primeiros séculos da era cristã, predominam as figuras “pagãs” celtas, galo-romanas e do culto a Ísis, então no auge. As obras, sobreviventes, com a Virgem Maria resultam raras até finais do milénio, principalmente no continente europeu.
Imagem: Estela funerária De Medinet el-Fayumséc. Egito. Séc. IV ou V d.C.Talvez uma das primeiras virgens do leite (Galakotrophousa) coptas. Museum fürByzantinische Kunst. Berlim
As Deusas-mães, ou Matronas, de origem celta e galo-romana conheceram uma divulgação considerável durante este período (Figuras 2.01; e 2.07 a 2.15). Estatuetas de terracota, frequentemente com menos de um palmo, eram reproduzidas com recurso a moldes (Figuras 2.12 a 2.14). Ísis, entretanto, romanizou-se, passando a exibir túnicas e mantos ao estilo greco-romano (Figuras 2.02; 2.03; 2.16; e 2.17). Acrescem alguns relevos com uma mãe e um bebé em estelas de túmulos de crianças (Figuras 2.04 a 2.06).
Colocadas em altares domésticos, santuários e sepulturas, estas imagens, associadas à proteção das crianças, à maternidade, à terra, às fontes, à fecundidade e à abundância, não só precedem como prefiguram as dedicadas posteriormente à Virgem Maria.
Segue uma galeria com menos de dúzia e meia de imagens. Permitam-me, todavia, uma confidência: excecionais, são exemplares deveras difíceis de encontrar e identificar, inclusivamente na Internet. Trata-se de uma tarefa que requer algum engenho e muita paciência. Só mesmo para quem se interessa por coisas que não lembram ao diabo!
Galeria 2. Imagens pagãs do primeiro milénio da era cristã

















Liberdade à Deriva. Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura

“Os alunos do 1° ano do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho, promovem no dia 15 de maio, no Campus de Gualtar, a 3ª edição do Deriva, um dia dedicado à intervenção e à cooperação/colaboração cultural na Universidade.
A edição de 2024 alia-se, conceptualmente, à celebração dos 50 anos do 25 de Abril, tendo sido batizada “Liberdade à Deriva”.
A organização do Deriva este ano pretende associar os conhecimentos apre(e)ndidos em contexto de aula a um projeto que quebra as fronteiras da sala, através da sua materialização, hasteando a bandeira da reciprocidade com a restante comunidade académica, que é convidada a ser parte integral do Deriva, assim como construir pontes entre o curso, profissionais no campo, instituições artísticas e culturais e a comunidade na qual se insere imersiva e participativa. Busca também tornar visível o curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura frente às entidades, organizações e empresas locais e ao nível dos protagonistas da Cultura em Portugal.
Do corte com o quotidiano, ou seja, da mudança/revolta, ao convite à cocriação e à participação, encontram-se os cravos plantados há meio século, que resistem à custa de quem cria e, mais importante, o partilha.”
Segue o link para acesso ao programa:




