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Filho da Lua

Colocaram estas fotografias no Facebook. Passaram-me despercebidas. Provêm da sessão inaugural do festival Filmes do Homem (Agosto 2018). Gosto de conversar. Umas vezes com a máscara da convicção, outras com o humor de quem ri com as próprias piadas. Restrinjo cada vez mais as conversas a assuntos e a públicos que me tocam. Apraz-me conversar, escrever, ensinar e investigar com liberdade e motivação. Um privilégio que a academia está a perder. Já a gestão e a “internacionalização”, dispenso-as. “Internacionalizo” pouco. Não sinto a falta. Prefiro não ter fronteiras.

Internacionalizemos! Hijo de la Luna (1986), da banda espanhola Mecano, ultrapassou a vintena de covers, desde os clássicos até aos góticos. Os Mecano cantam-na em espanhol e em italiano. Gosto da versão italiana. Coloco uma e outra. A letra convoca a mitologia. Uma mulher dá à luz um bebé de pele branca com olhos cinzentos. O pai, cigano, desconfia de adultério. Mata a mulher e abandona o filho no cimo de um monte. A lua, que não pode ter filhos, adopta a criança. Quando esta está contente, temos lua cheia; quando está triste, a lua encolhe-se, em quarto minguante, para melhor a embalar.

Mecano. Hijo de la Luna. Entre el Cielo e el Suelo. 1984. Vídeo musical.

Mecano. Figlio Della Luna. Video musical em italiano.

 

A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

A sereia académica

 

Biomechanoid 75, 1975, HR Giger.

HR Giger. Biomechanoid 75. 1975.

Vale a pena dedicar uns minutos à publicidade produzida pelas universidades para cativar candidatos. O anúncio Launch Yourself, da Universidade de Leicester, antecipa duplamente o futuro: o futuro prometido pelas universidades e o futuro presumido dos candidatos. Que sugerem as imagens? O Homem de Leicester parece lidar apenas com objectos. Nenhuma interacção humana! O ambiente do Homem de Leicester é a técnica e o interlocutor o objecto. A alquimia académica transforma uma distopia sinistra numa utopia excitante.

O que realmente importa numa realidade costuma ser aquilo que ela não contempla (neste caso, a interacção humana). A Universidade de Leicester tem as suas razões: sabe-se, desde há décadas, que o objecto é o futuro do homem e que a interacção humana é cada vez mais mediada por objectos. Até a relação sexual é mediada pelo preservativo. “Queda e ascensão do preservativo, eis a história sexual da segunda metade do século XX” (Philip Roth, The Dying Animal, London, Penguin, 2001, p. 68).

Marca: University of Leicester. Título; Launch Yourself. Agência: TBWA / Manchester UK. Direcção: Yoni Weisburg. Reino Unido, Agosto 2018.

Modernidades

M.C. Escher. Magic Mirror. 1946

M.C. Escher. Magic Mirror. 1946.

Quanto mais observo a sociedade, menos leio os sociólogos. Dizem que somos pós-modernos… Quando saio de casa, saio da modernidade e quando entro na universidade, na modernidade entro. Duvido que tenha existido algures universidade mais moderna do que a actual. Não sou um incondicional do Jurgen Habermas (O Discurso filosófico da modernidade, 1988), do Anthony Giddens (As consequências da modernidade, 1990), nem do Gilles Lipovetsky (Os tempos hipermodernos, 1985), mas atrai-me a ideia de a pós-modernidade não passar de uma faceta, de uma das máscaras, da hipermodernidade ou da modernidade tardia. Para complicar, duvida-se que tenhamos sido modernos…

“A modernidade jamais começou. Jamais houve um mundo moderno. O uso do pretérito é importante aqui, uma vez que se trata de um sentimento retrospectivo, de uma releitura de nossa história. Não estamos entrando em uma nova era; não continuamos a fuga tresloucada dos pós-pós-pós-modernistas; não nos agarramos mais à vanguarda da vanguarda; não tentamos ser ainda mais espertos, ainda mais críticos, aprofundar mais um pouco a era da desconfiança. Não, percebemos que nunca entramos na era moderna. Esta atitude restrospectiva, que desdobra ao invés de desvelar, que acrescenta ao invés de amputar, que confraterniza ao invés de denunciar, eu a caracterizo através da expressão não moderno (ou amoderno)” (Latour, Bruno, Jamais fomos modernos, São Paulo, Editora 34, 1994, p. 51).

M.C. Escher. Devils. 1950.

M.C. Escher. Devils. 1950.

Pensar deste jeito baralha-me. Não obstante esta encruzilhada baptismal, estimo que o anúncio Les Français et la route, da Sécurité Routière, corresponde a um discurso moderno. Obra de uma burocracia, evidencia uma narrativa linear, com princípio, meio e fim. O objectivo, assumido, é claramente conseguido e o desempenho devidamente medido. O projecto engloba subprojectos calendarizados, articulados e hierarquizados. Eficaz, convoca e vence os obstáculos mais ou menos bárbaros: os recalcitrantes e os inconscientes. Em suma, a acção, que visa a sensibilização dos cidadãos, é racional. Ao contrário do que sustenta Michel Crozier (On ne change pas la société par décret, Paris, Fayard, 1979), com autoridade, razão e técnica, não é impossível mudar a sociedade por decreto.

M.C. Escher. Concentric rinds. 1953.

M.C. Escher. Concentric rinds. 1953.

Em voz baixa, posso ousar uma confissão. Ao arrepio do comando e do primado epistemológico da teoria, nas minhas investigações concretas, as teorias da pós-modernidade, da modernidade líquida, da modernidade tardia e da hipermodernidade de pouco préstimo se têm revelado. Têm sido úteis para quase nada. São faróis que não me ofuscam. Tenho um defeito de estimação: durante a investigação, não sirvo a teoria, sirvo-me dela. Nesta perspectiva, encaro o “estado da arte” e a “revisão da literatura” como rituais de iniciação e, porventura, de menorização do investigador. Capacitar-se teoricamente é tarefa sem início nem fim, onde cabem, eventualmente, o estado da arte e a revisão da literatura. A  reflexão teórica quer-se activa e criativa. Reconfesso: nunca a actividade científica me pareceu tão burocrática como hoje. E ainda pedem mais! Os críticos da burocratização da ciência Pitirim A. Sorokin (Fads and Foibles in Modern Sociology, 1956), C. Wright Mills (A imaginação sociológica, 1959) e Alvin Gouldner (Anti-Minotaur: The Myth of Value-Free Sociology, 1964) não concebiam, há meio século, tamanha teia burocrática. O cientista move-se, cada vez menos, pela vocação (Max Weber, A ciência como vocação, 1919) e cada vez mais pelo rendimento. Torna-se mensurável. Proletariza-se. Às voltas com metas e milestones.

O anúncio da Sécurité Routière, bem conseguido, aposta na eficácia. Oferece ao público um efeito de espelho. Assinalar, legitimar, disciplinar, eis uma tríade que mais que moderna, é simplesmente humana.

Marca: Sécurité Routière. Título: Les Français et la Route. Agência: La Chose. França, Maio 2018.

Jogo viciado

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

René Magritte. Mundo Invisível. 1954.

“As cidades como os sonhos são construídas de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondam outra” (Italo Calvino, Les villes invisibles, 1972).

Retomo o anúncio Un jeu de société, incluído no artigo As Regras do Jogo (https://tendimag.com/2017/04/30/as-regras-do-jogo/), para ver se consigo reequilibrá-lo.

Anunciante: Observatoire des Inégalités. Título: A Social Board Game. Agência : Hérèzie. Direcção: Remy Barreyat. França, Abril 2017.

“O anúncio Un jeu de société (Observatoire des Inégalités, França) é didáctico. Mostra como a competição social se assemelha a um jogo de Monopólio com regras viciadas. Mas no jogo dos destinos sociais conta menos a parcialidade das regras e mais a desigualdade das condições. As regras até podem ser iguais para todos, o problema reside nos recursos e, por conseguinte, na probabilidade dos desempenhos. Como diria Pierre Bourdieu, falar em igualdade de oportunidades com desigualdade de condições é um logro. Uns estão como peixes na água, outros como aves num aquário” (As regras do jogo).

Na maratona da vida, (con)correm pessoas descalças, com havaianas e com sapatilhas. Os recursos influenciam os percursos. Focalizado nesta desigualdade de condições, o texto subestima o poder das regras. Na realidade, as regras não são decorativas. São interessadas. Constrangem. Abençoam e amaldiçoam os actores e as práticas. Legitimam arbitrariedades. Produtos do poder, consagram o poder. Sustentam-no. As regras são uma realidade que faz a realidade. São espartilhos que moldam o ser. Dizem o que é e o que deve ser. As regras não precisam de ser verdadeiras, basta parecê-lo. Alucinadas, alucinam as pessoas e o mundo.

Detail of a miniature of five Just Princes, atop the eagle of Justice, Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Até como águias carregamos os príncipes. Detalhe da miniatura dos Cinco Príncipes Justos em cima da águia da justiça. Dante Alighieri, Divina commedia. Yates Thompson MS 36, f. 164r. 1444-c 1450.

Propicia-se uma pitada de absurdo ao jeito surrealista. Numa localidade, inaugura-se um túnel. Limita-se a circulação a pessoas com mais de um metro de altura. O túnel é proibido a anões. Presume-se que a sua presença no túnel provoca correntes de ar. Correntes de ar que podem constipar os carros. A discriminação da regra cauciona vários corolários. As correntes de ar dos anões não dão pontos, não têm valor. A ciência ultrapassa-se a si mesma: os “anões” tornam-se um preditor: no airflow, no dwarf . Descobre-se, por último, a confirmação da regra: os anões são, afinal, alérgicos a túneis. Desembocamos num dos maiores requintes das regras. Se os anões não entram no túnel por quê proibi-los? Trata-se de uma histerese: a regra perdura para além do seu fundamento. Configura mais do que uma histerese. O objectivo da regra não reside em proibir os anões de entrar no túnel, mas em inferiorizar os anões. A regra continua a garantir a sua função latente, porventura a mais decisiva.

Esta fábula dos anões é bizarra. Mas respeita a lógica das regras. As regras são quadradas, como quadrado se desenha o mundo.

Jogadores, trapaceiros, cúmplices e tansos. O mundo é um casino.

Algumas regras vestem atavios matemáticos e científicos: categorias, indicadores, índices, variáveis, coeficientes, ponderações, fórmulas, modelos e rankings. Sem esquecer a folha de Excel. Para duas categorias profissionais com igual desempenho, as contas podem ditar que o desempenho de uma vale o dobro do desempenho da outra. Dois produtos idênticos podem ter cotações diferentes. Estamos confrontados com uma aritmética pós-Einstein. Estas discriminações arbitrárias assentam em racionalidades movidas por interesses. Quanto mais desfasada é uma regra, maior a intolerância e o zelo que suscita. A alquimia das regras apropria-se do todo e das partes. Não existe instituição, situação ou interacção social que lhe escape. Haverá “jogos de sociedade” no Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior? Na vertente Ciência e Tecnologia? Na vertente Ensino Superior? Por entre rácios, grelhas e ponderações, nunca se sabe. Perguntar não ofende…  Poder, se calhar, podia, mas acolher regras alquimistas no santuário da razão representa um paradoxo demasiado esdrúxulo. Quando muito, labirintos de poderes “abensonhados” (Mia Couto).

“Je voudrais vous parler d’elle sans la nommer” (Georges Moustaki). Também gostava de falar de algumas realidades sem as nomear. Neste Portugal de Abril, temos uma constituição que os entendidos dizem ser das melhores da Europa. Temos, também, um regime democrático consolidado. Ainda continuamos a ter desigualdades por decreto!

As anedotas são umas intrometidas. Acabei de me lembrar de uma  malcriada e de mau gosto. Imprópria para um professor. Mas não é o professor que a conta mas o rapaz que  que a aprendeu.

“Um inglês desce a avenida dos Aliados. De repente, vê uma viscosidade castanha no passeio.
– Isto parecer merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva faz um primeiro teste.
– Isto ser mole como merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega numa amostra e cheira.
– Isto cheirar a merda, mas merda no Porto não poder ser.
Com a ponta do guarda-chuva, pega noutra amostra e prova.
– Isto ser mesmo merda! Ainda bem que não pisei.

Georges Moustaki – Portugal – ( Fado Tropical )

Chuva dissolvente

Habitat-1

Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

Ignorância de estimação

Nietzsche

O PINTOR REALISTA
“A Natureza”; fiel e completa!” Como pode ele
chegar a isso?
Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a
natureza numa imagem?
A minha ínfima parcela do mundo é uma coisa infinita!
Dele só pinta aquilo que lhe agrada.
E o que é que lhe agrada? Aquilo que sabe pintar!
(Nietzsche, Frederico, 1882, A Gaia Ciência, Lisboa, Guimarães Editores, 1996, p. 31).

Abraham Kaplan (The conduct of inquiry: methodology for behavioral science, 1964) ilustra uma falácia habitual na Sociologia com a seguinte anedota:

Noite cerrada, um bêbado regressa, cambaleante, a casa. Chegado à porta, não encontra a chave. Começa a procurar. Passa um segundo bêbado que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– A procurar uma chave.
– E perdeste-a junto ao candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Estou em crer que a falácia denunciada por Nietzsche e Kaplan é um vírus ainda activo. Investiga-se o investigado e comunica-se o comunicado. O que “se sabe pintar”. O resto pode inexistir à vontade. Estatisticamente falando, a distribuição da investigação científica por temas aproxima-se mais de uma distribuição de Student do que de uma distribuição normal. A ciência apraz-se a “chover no molhado”. Segundo Vilfredo Pareto, existem elites em todo o lado. Em todo o lado, existem membros que se destacam. Sobre as elites, produziram-se muitos estudos. Em todas as categorias sociais, existem parasitas. Um fenómeno da maior relevância. E, no entanto, pouca obra sobre o assunto. Para encontrar uma obra dedicada ao parasitismo social, convém pedir a Diógenes de Sínope a lanterna com que procura o homem. Trata-se, porventura, de uma “douta ignorância” (Pierre Bourdieu).

O mundo da ciência é uma caricatura. Quanto mais saturado está um domínio, mais rende. Mais encontros, mais parceiros, mais citações, mais revistas e, sobretudo, mais afinidades nos concursos e nos financiamentos. Se insiste em ser parvo, seja original!

Distribuição t de Student

Distribuição de t de Student

Distribuição normal

Distribuição normal

Pac-Man, o Papa Pontos

A_Sunday_on_La_Grande_Jatte,_Georges_Seurat,_1884

Georges Seurat. Un Dimanche à La Grande Jatte. 1884.

Tenho pesadelos. Deve ser de pensar de mais. Escorregam as margens para o subconsciente. Sonho, por exemplo, que a minha proeminência abdominal é tão grande que preciso de estacas para a segurar. Outras vezes, sonho que faço parte de um processo: o processo de Kafka. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Logo, nada vale a pena. Nem a obra, nem a “governança”, nem a tripulação, nem o farol. Trata-se de um jogo de croquete à maneira da Rainha de Copas. A sabedoria exibe-se coxa, como o Perna de Pau: hipertrofia da investigação; hipotrofia do ensino. Investe-se na ciência como quem aposta no totoloto. Resultados? Encontros, papers, citações, corredores, rácios, concursos e pontos. Muitos pontos! Parece um quadro de Georges Seurat. Melhor, um Tetris, para encaixe, associado a um Pac-Man, para comer pontos. O pesadelo torna-se insuportável. Faço força para acordar. Estremunhado, oiço: “faltam pontos, faltam pontos, faltam pontos, para mudar de nível”. Esqueci-me de desligar a consola. É um alívio acordar para a realidade deste “admirável mundo novo”: Ciência Portugal 2018 – Star Trek.

Para conciliar realidades (hoje, costuma dizer-se plataformas) nada como a música. Clássica, tocada por dois virtuosos de outra época: Narciso Yepes e Andrés Segovia.

Fantasía para un Gentilhombre de J.Rodrigo. Homenaje de Narciso Yepes a Andrés Segovia. Madrid, 1987.

Andrés Segovia

Andrés Segovia at El Prado , Albéniz’s “Asturias-Leyenda”. 1967.

Odisseia no espaço

Era uma vez um astronauta que evacuou uma estrela cadente, a qual, segundo a norueguesa Flax Instant Lotttery, dá sorte ao jogo. Trata-se de uma bênção sideral. A crença nas virtudes propiciadoras dos excrementos remonta aos primórdios da humanidade. “The world is full of lucky signs”. Felizes aqueles a quem o adubo cai do céu!

Flax

Marca: Flax Instant Lottery. Título: Lucky Signs. Agência: TRY, Oslo. Direcção: Matias & Mathias. Noruega, Junho 2018.

Discriminar ou não discriminar, eis a questão

Detail of the Romanesque tympanum of the main portal of the Abbey Church of Saint Foy in Conques, Aveyron, France. Sec. XII

Detalhe do tímpano românico da porta principal da Abadia de Sainte-Foy des Conques, em Aveyron, França. Séc. XII. O Juízo Final, última e definitiva selecção.

Um livro escolar dos anos sessenta conta a história de dois candidatos a um emprego. Um vinha recomendado, mas não foi escolhido: Tinha as unhas sujas.

Em editais de concurso para bolseiros e investigadores, lê-se o seguinte:

“Política de não discriminação e de igualdade de acesso

A Universidade do Minho, promove uma política de não discriminação e de igualdade de acesso, pelo que nenhum candidato pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado ou privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, situação económica, instrução, origem ou condição social, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica ou raça, território de origem, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical”.

A Constituição da República opõe-se a estas formas de discriminação. Mas repetir nunca é demais. A lista das discriminações é extensa, mas não é, naturalmente, exaustiva. Falta, por exemplo, o capital social (relações e conhecimentos) do candidato, fator que, algumas vezes, se apresenta decisivo.

Há mar e mar, há discriminar e discriminar. O maior escudo contra a discriminação pode coabitar com a mais gigantesca e injusta das discriminações. Mal um estudante ingressa num curso universitário, o seu valor pode variar comparativamente do simples para o quádruplo. A portaria nº 231/2006 (2ª série) estipula que o rácio alunos/docente ETI é de 20 alunos por docente nas Ciências Sociais ou nas Letras; 12 alunos nas Ciências da Comunicação ou na Arquitetura, cinco alunos na Medicina ou na Música. A desigualdade entre alunos reproduz-se entre os professores. Um docente em Sociologia pesa quase metade de um docente em Ciências da Comunicação e um quarto de um colega da Música. Estas aritméticas, obra de espíritos mais geniais do que o Albert Einstein, acabam por ter consequências enormes na orgânica e no desempenho das instituições e dos seus membros. São Adamastores mas parece que ninguém se apercebe. Importa combater as discriminações nos concursos. Mas importa atender também à realidade interna. A discriminação sem contrição, para além de prejudicar, degrada. Em termos de aritmética, diminui os autores e as vítimas.

Tanto nos habituamos a uma falsidade que acabamos por acreditar que é verdade.