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Despir

 Despir: EXPEDIRE, “liberar, soltar, retirar, preparar”, literalmente “soltar os pés de um laço, de algo que prende”, formado por EX-, “para fora”, mais PEDIS, “corrente para os pés”, de PES, “pé” (http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/despir/).

Juliette GrécoQuanto mais procuro, mais encontro. Esta é a minha primeira regra metodológica. O que encontro? Fragmentos. Parte do que procurei e parte do que encontrei sem procurar. Estou a brincar com as palavras? Naturalmente, mas há muito fenómeno que não mora na lógica e corre na realidade. Esta regra não aparece nos manuais de metodologia. Têm outras preocupações. Por exemplo, recomendar a procura do que já se sabe e a antecipação dos resultados mal se inicia a investigação, como o padeiro antes de colocar o pão no forno. Às vezes, tenho a estranha sensação de que a investigação se está a afastar da descoberta.

Mylène FarmerJuliette Greco e Mylène Farmer são duas grandes damas, duas gerações, da música francesa. Juliette canta “Déshabillez-moi” (La Femme, 1967), Mylène Farmer retoma a canção, vinte anos depois, em 1988, no álbum Ainsi soit je. Uma demonstração de quanto o mesmo se pode tornar diferente.

Juliette Greco. Désabillez-moi. La Femme. 1967.

Mylène Farmer. Désabillez-moi. Ainsi soit je. 1988.

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

Se

Sol

Se é, porventura, a palavra mais preciosa do pensamento humano.

“Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse não sei quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro. Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado (Blaise Pascal, Pensamentos).

E se, em vez do nariz de Cleópatra, fosse o sol a apagar-se? Este anúncio, estreado hoje, propõe um cenário.

Anunciante: Festival El Sol. Título: 8:20. Agência: Publicis España. Direcção: Jérôme Walter. Espanha, Março 2017.

A ruína da alma

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“A ciência sem consciência é apenas ruína da alma” (François Rabelais, Carta de Gargântua a Pantagruel, Pantagruel, 1532).

A avaliação e o financiamento da ciência adoptam a linguagem das dimensões, dos indicadores e dos índices. Assombra-me a dúvida de que da proposta metodológica de Paul F. Lazarsfeld (Boudon, Raymon & Lazarsfeld, Paul, 1965. Le vocabulaire des sciences sociales. Des concepts aux indices, Paris, Mouton) tenhamos sido contemplados com a majestosa parte anal. Molda, retalha, conta e apura, frisando o mais absurdo dos formalismos! Segue uma reacção em cadeia “científica”, segundo a Google.

Marca: Google. Título: A Google Science Fair Experiment Extended. Agência: Syyn Labs. Direcção: Jonathan Zames. USA, 2011.

O pêndulo de Newton

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Excessivo, insólito, deslocado, infantil. Uma regressão descomunal. O que não passa pela cabeça dos criativos da publicidade para chamar a atenção!… Mas o anúncio tem fundamento científico. Alude ao pêndulo de Newton.

Anunciante: kit-kat. Título: Crane. Agência: Jwt, London Rattling Stick. Direcção: Steve Cope. Reino Unido, Janeiro 2011

Preparar a morte

 

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Gustave Klimt. A Morte e a Vida. 1915

Le go est le jeu du mensonge.On encercle l’ennemi de chimères pour cette seule vérité qu’est la mort (Shan Sa, La Joueuse de go, Paris, Folio, 2001, p. 294).

Há quem prepare a morte, a “única certeza”! Mas a morte é uma certeza incerta. Sabemos que morremos, mas não sabemos nem quando, nem como. Preparar a morte é cuidar da vida.

No Smoking Campaign: Sunny Leone é um anúncio da World Health Organization. Sou alérgico a anúncios anti tabaco, mas simpatizo com este. Original, criativo, agradável. É extenso, mas passa depressa. O argumento é pedagógico: se fumas, não fornicas! Se fumasses menos, conhecias o paraíso antes de morrer. Trocaste Eva por uma beata. Até o último pedido se esfumou. O moribundo não preparou a morte. Não programou a vida para a morte. Um cigarro a mais, onze minutos de vida a menos, segundo a suposta sabedoria da ciência de serviço. Mais fumo, menos vida e menos sexo. Um anúncio contundente!

O anúncio está falado em hindi. Para uma versão com legendas em francês, pode aceder ao seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/world-health-organization-anti-tabac-11-minutes/.

Anunciante: World Health Organization. Título: No Smoking Campaign: Sunny Leone. Direcção: Vibhu Puri. Índia, 2016.

 

Repetição

Quino. Ratos.

Quino. Ratos.

“Si la publicité des journaux constitue un moyen de persuasion très efficace, c’est que peu d’esprits se trouvent assez forts pour résister au pouvoir de la répétition. Chez la plupart des hommes elle crée bientôt la certitude” (Gustave Le Bon, Les incertitudes de l’heure presente, 1923).

“Jadis l’esprit se manifestait en toute chose. A présent nous ne voyons plus qu’une répétition sans vie que nous ne comprenons pas. La signification du hiéroglyphe nous fait défaut” (Novalis (1772-1803). Semences. Trad. Francesa: Paris, Allia, 2004).

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Joseph Goebbels).

Quino. No vazio da onda.Dizem os filósofos que o repetido é diferente do geral. A repetição requer uma singularidade, um original a copiar. Posto isto, é possível, pela repetição, fazer de um anão um gigante. Repete-se até frisar a monstruosidade. Mecânicas expeditas não faltam. Um cantor que se preze deve atingir milhões de visualizações na Internet, de preferência de um dia para o outro. É bom? Eis uma questão despropositada. O IMDb ordena os filmes segundo as receitas recolhidas. A comunidade científica pesa os investigadores em função das citações e das referências.

Quino. Plantando ideias

Quino. Plantando ideias.

Um cientista que recicla uma ideia há mais de dez anos tem, provavelmente, mais notoriedade do que um colega que desenvolve, todos os anos, ideias geniais, mas que, por qualquer motivo, as não mobiliza no circo da repetição. No circo da repetição, há círculos de repetição. Sabe-se muito destes e pouco daqueles. Acode-me, em noites sonâmbulas, que a ciência avançada assenta numa burocracia sofisticada, capaz de tudo e todos classificar, comparar e contabilizar. Presta-se, porém, a enxertos tribais de longo alcance, glocais e globais. Cerca de quatrocentos anos após a morte de Galileu, a ciência depara-se com um novo dogma: a repetição virtuosa.

Nunca é tarde

Telus World of Science. Vancôver. Canadá.

Telus World of Science. Vancôver. Canadá.

A Science World, de Vancôver, no Canadá, publicou, no âmbito de uma campanha em curso, intitulada Now You Know, o anúncio Coffin. A ideia é facultar factos puros e duros. Um anúncio de consciencialização? Pelo sim, pelo não, vou registar a informação e programá-la para o momento oportuno.

Anunciante: Science World at Telus World of Science. Título: Coffin. Agência: Rethink. Direcção: Rob Tarry. Canadá, 2016.

Whiskey sábio

Conferência  de Solvay - 1927.

Conferência de Solvay – 1927.

Auguste Piccard

Auguste Piccard

Nada escapa à voracidade da publicidade. Nem sequer a ciência. O anúncio ao whiskey Hennessy reconstitui a primeira ascensão estratosférica em balão. Proeza de Auguste Piccard, físico, inventor e explorador suíço, fonte de inspiração para a personagem do Professor Tournesol, de Hergé. Cientista reputado, “cujas experiências não cabiam nos laboratórios”, consta, em cima à esquerda, da fotografia da Conferência de Solvay, em 1927, na companhia de, entre outros, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Max Planck, Marie Curie e Albert Einstein.
Pergunto-me como, naquele tempo, sem rankings, nem factores de impacto, estes sábios conseguiram conhecer-se e encontrar-se.

Conferência  de Solvay - 1927. Com identificação.

Conferência de Solvay – 1927. Com identificação.

Se Auguste Piccard subiu mais alto, o filho, Jacques Piccard desceu mais baixo! Foi o primeiro a atingir, em 1960, o ponto mais profundo do planeta: a fossa das Marianas (11 034 metros). O neto de Auguste Piccard , Bertrand Piccard, empreendeu, em 1999, o primeiro voo de balão à volta do mundo sem escalas (ver documentário sobre a família Piccard).
O que tem o whiskey Hennessy a ver com os Piccard? Nada, logo tudo! A publicidade é espantosa, não é?

Marca: Hennessy V.S.. Título: The Piccards. Agência:

Adeus à cátedra

Pensador de Cernavoda. Século VI a.C, encontrada em Cernavoda, na Roménia.

Pensador de Cernavoda. Séc. VI a.C. Roménia.

“As coisas a que mais queremos (…) não são com frequência quase nada. São um nada que a nossa imaginação transforma em montanha. Um outro esforço de imaginação faz que o descubramos sem dificuldade” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Perdi, há anos, um concurso para uma vaga de professor catedrático na área de Sociologia da Universidade do Minho. Herdei alguns fantasmas. Por exemplo, alguém atribuiu, quase salomonicamente, 101 pontos a um candidato e 100 ao outro; houve quem tenha compensado o desequilíbrio na dimensão “prestação de serviços à comunidade” convocando a atividade sindical… Estes e outros fantasmas dormem no inverno do meu descontentamento: assombram a confiança e corroem a vontade. Imbuído de sentido institucional, prossegui indignado por dentro e plácido por fora.

Está aberto novo concurso para uma vaga de professor catedrático na área de Sociologia da Universidade do Minho. Há tapetes que só se pisam uma vez. É verdade que um homem tem que fazer o que tem que fazer. Persigo, porém, uma figura que pertence ao passado: o intelectual. A um homem compete-lhe ponderar o que deve fazer.

Com a fábula da raposa e das uvas na sombra, confesso que, a caminho da reforma, a cátedra me motiva pouco. Prescindo dos júris para professor associado, professor catedrático e provas de agregação. Inquietam-me os desfechos em tribunal. Dispenso avaliar colegas. Não me seduzem os cargos de topo. Não me atrai o poder. Por acréscimo, a diferença de remuneração é, no meu caso, irrelevante.

Há coisas que só se perdem uma vez. Para o bem e para o mal e com o risco de não agradar nem a gregos, nem a troianos, decidi não concorrer. Adeus à cátedra!

Texto em pdf: Adeus à cátedra pdf

Albertino Gonçalves.