Zodíaco do Antigo Egipto. Entre o sonho e a realidade

“Dói-te alguma coisa?
Dói-me a vida, doutor.
E o que fazes quando te assaltam essas dores?
O que melhor sei fazer, excelência.
E o que é?
É sonhar.”
(Mia Couto, O fio das missangas. Caminho, 2003)
Sonho, logo insisto! No palco de um teatro grego, a Universidade retira a máscara clássica e anda de mãos dadas com a Farsa, enquanto, devagar e sorrateiro, se aproxima o Trágico. Dou um esticão nos neurónios e catapulto-me para o outro lado do Mediterrâneo. No que resta do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egito, a 50 quilômetros ao sul de Luxor, a poeira de séculos e as inconveniências das aves ocultam relevos magníficos e pinturas prodigiosas.
Oportuna, uma equipa de arqueólogos da universidade alemã de Tübingen empenha-se numa lenta e longa limpeza, sistemática, profunda e cuidada das colunas, paredes e tetos. À semelhança dos frescos e mosaicos de Pompeia, o que cobre acaba por preservar. Oferece-se uma policromia extraordinária, quase intacta, de deuses híbridos e figuras astrológicas, incluindo um zodíaco da era ptolemaica, motivo raro importado dos babilónios ou dos romanos, que, milenar, nos interpela. Um tesouro insuspeito de cores vivas. O Egipto não se cansa de nos surpreender!
E flutuo, lúdico, a ensaiar identificar os signos: sagitário, escorpião, leão, balança, gémeos… Eis que, de súbito, esferas animadas dançam na noite escura do ecrã. Estremeço, belisco-me, esfrego os olhos… Afinal, não são sonhos, senhor(a), mas realidades!
Galeria: Fotografias do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egipto

















Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial

Está aberta, até ao 19 de julho de 2024, a 1ª fase de candidaturas ao curso de Pós-Graduação em Património Cultural Imaterial da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, projeto em que estou envolvido e empenhado desde a sua criação.
Segue em anexo um folheto de divulgação da Pós-Graduação, sendo que o edital de concurso e o formulário de candidatura podem ser consultados em: https://www.ese.ipp.pt/cursos/editais/pos-graduacoes.
Para saber mais sobre o curso, estão disponíveis duas sessões de esclarecimento online:
1.ª sessão, 7 de Maio de 2024, pelas 18h00
ID da reunião: 879 5473 8580
2.ª sessão, 26 de Junho de 2024, pelas 19h00
ID da reunião: 879 5473 8580
Em Torno da Mobilidade – Apresentação na livraria Centésima Página
Na próxima sexta, dia 5 de abril, às 18h30, na Livraria Centésima Página, em Braga, ocorre a apresentação do livro Em Torno da Mobilidade: provérbios, expressões idiomáticas, frases consagradas, de Maria Beatriz Rocha-Trindade, publicado em finais de 2023 pela editora Alma Letra, de Viseu. À introdução pela autora, sucede a apresentação por Albertino Gonçalves. Apareça e traga um amigo, também!
Segue uma pequena nota sobre o livro e a autora. Como complemento, sugere-se a consulta do artigo “O simbolismo da mala”, no blogue Tendências do Imaginário, e o visionamento da Entrevista de Maria Beatriz Rocha-Trindade ao LusoJornal, em 4 de janeiro de 2024.

Em Torno da Mobilidade ajuda a melhor conhecer as perspetivas essenciais que caracterizam um dos mais importantes fenómenos sociais, presente ao longo de toda a História de Portugal: as migrações.
A sua permanência, diversidade no tempo e no espaço, causas estruturais subjacentes, motivações pontuais, o significado dos itinerários percorridos são alguns dos temas presentes nesta edição bilingue (português e inglês), visando o alargamento do público leitor.
A associação de provérbios, expressões idiomáticas e frases consagradas, traduz a intenção de preservar um valioso legado cultural e de potenciar a sua utilização enquanto instrumento pedagógico de valor universal, numa sociedade multicultural como a atual.
Destina-se a entidades públicas e privadas, a educadores, professores, a toda a diáspora e ao público em geral.

Maria Beatriz Rocha-Trindade
Diplomada em Administração Ultramarina e Licenciada em Ciências Antropológicas e Etnológicas, pelo ISCSPU.
Professora Catedrática na Universidade Aberta, onde fundou, em 1989, o Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais.
Introduziu em Portugal o ensino da Sociologia das Migrações ao nível de Licenciatura e de Mestrado.
É autora de uma vasta bibliografia sobre matérias relacionadas com as Migrações, colaboradora habitual e referee de revistas científicas internacionais.
Em 1996, recebeu o Prémio da Associação Portuguesa de Organizações Museológicas.
Em 2008, a Medalha de Mérito do Município de Fafe e em 2022, a Medalha de Ouro do Município do Fundão, recebendo o mesmo reconhecimento pela Obra Católica Portuguesa das Migrações.
É titular da Ordre National du Mérite, com o grau de Chevalier e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública.
Em 2023 foi distinguida na Câmara de Paris com a Medalha Grand Vermeil e com a Medalha de Honra do Comité Aristides de Sousa Mendes.
Um ano do blogue Margens

O blogue Margens, irmão do Tendências do Imaginário, completou um ano de existência. Momento oportuno para esboçar um breve balanço, que se quer crítico e instrutivo. Pode aceder a esse balanço carregando na imagem ou a partir do seguinte endereço: https://margens.blog/2024/03/06/margens-um-breve-balanco/.
A Inteligência Artificial pode fazer desaparecer o encanto

Coloco este artigo da revista EM (Erasmus Magazine), de 20 de fevereiro, não porque está dedicado ao João, mas pelo seu teor e estilo. Trata-se de um texto da academia que tem a arte de abordar um dos seus membros não como um exemplar mas como uma pessoa. Privilegia a subjetividade, a singularidade e a idiossincrasia. Quem é o João, que episódios tem para contar, com quem se relaciona, quais são os seus gostos?
A escrita é simples e empática. Não cede ao protocolar e ao universal. Não normaliza. O investigador da Inteligência Artificial surge, antes de mais, como um ser humano.
O artigo interessa também pelo modo como contrasta com o retrato do mundo académico que esboço em A melancolia académica na viragem do milénio. Ilustra como este se circunscreve apenas a um recanto, a uma versão. A melancolia do mundo académico está acessível no seguinte endereço: https://margens.blog/2024/02/23/a-melancolia-academica-na-viragem-do-milenio/
Tradução (quase automática)
IA PODE FAZER DESAPARECER O ENCANTO, PENSA JOÃO GONÇALVES
Quando estudante em Portugal, João Gonçalves jogou Go – “uma espécie de xadrez da Ásia, mas mais complicado”. Até que os computadores derrotaram os grandes mestres. O livro The Master of Go, do autor japonês Yasunari Kawabata, fez Gonçalves perceber que o jogo, no que lhe tocava, havia perdido o mistério com o advento da IA. Em sua pesquisa, ele agora espera tornar a IA mais humana.
João Gonçalves tropeçou no jogo Go quando pesquisou jogos de tabuleiro complexos no Google. Ele gostava de xadrez, mas a forma como os profissionais o jogavam – “competitivos e rápidos” – tirou-lhe o encanto do jogo. Ele queria algo novo e encontrou online: Go –– ‘uma espécie de xadrez da Ásia, mas mais complicado’. Gonçalves mergulhou e se aprimorou no jogo junto com o irmão.
Go é um jogo de tabuleiro para dois jogadores com pedras brancas e pretas. O tabuleiro consiste em 19 por 19 linhas. Um jogador pode colocar uma pedra em cada interseção do tabuleiro. O objetivo é delimitar um território circundando áreas no tabuleiro com pedras da sua cor. O jogo termina quando nenhum dos jogadores quer fazer outra jogada.
Amadores magistrais
Não muito tempo depois, a Coreia do Sul quis tornar o jogo mais conhecido em todo o mundo. E aconteceu que, ainda estudante de 20 anos, Gonçalves voou para Seul com o irmão, quatro anos mais novo, para representar Portugal num campeonato de Go pago e organizado pela Coreia do Sul. “Depois de chegar à capital, seguimos para uma pequena vila que abrigou um dos grandes nomes do desporto. Foi a nossa primeira ida a Ásia e ficámos totalmente impressionados com a cultura tão diferente de Portugal.”
Numa aldeia rodeada de campos de arroz, os melhores amadores do mundo reuniram-se para jogar contra os grandes profissionais. As pranchas foram montadas lado a lado e Gonçalves enfrentou cinco vezes um grande mestre. Durante os jogos, ele bebia chá com arroz e – como é habitual em Go – cada jogador tinha uma hora para pensar. “Eu andava entre os campos de arroz pensando no meu próximo passo. Foi uma cultura totalmente nova para mim, mas assim que o jogo começou fiquei totalmente focado nisso.”
É a estrada que conta, não o destino
Gonçalves não venceu uma única partida. “Claro que não”, como ele disse, mas de qualquer maneira não é isso que o Go significa para ele. O objetivo é demarcar um território maior que o adversário. Se nenhum dos jogadores quiser fazer outra jogada, o jogo termina. Para Gonçalves, o que torna o Go tão fascinante é a forma como você joga. “É uma questão de refletir. Se eu quiser muito de uma vez, perderei, mas se for muito cauteloso, também não terei sucesso.”
Segundo Gonçalves, o Go perdeu a glória em 2016, quando os computadores venceram o melhor jogador do mundo da época. Inicialmente, Gonçalves não percebeu que este encontro tinha mudado a sua perspetiva do jogo. Foi apenas quando leu o livro O Mestre do Go, de Yasunari Kawabata, que recebeu como presente de sua esposa, que percebeu que ele descrevia o que estava vivenciando. “A mística esfumou-se. Um computador agora pode dizer qual movimento é bom e qual não é. Não se trata mais de uma bela jogada ou de como a sua forma de jogar é determinada por quem você é.”
The Master of Go é uma história fictícia baseada em um jogo real de Go em 1938, em que um antigo mestre do jogo competiu contra um talento emergente. O mestre representou a tradição e a antiga conceção do Go como processo criativo, enquanto a nova geração abordou o jogo de tabuleiro de forma competitiva e racional. Gonçalves dobrou a folha para marcar a página onde o autor descreve como as diferentes perspetivas se chocaram: “A batalha só era travada para vencer, e não havia margem para lembrar a dignidade e o perfume do Go como arte”.
Os professores são velhos mestres
Gonçalves também encontra paralelismos no livro com o advento do ChatGPT na educação. “Talvez eu seja o velho mestre que ensina da forma tradicional, enquanto o ChatGPT representa a nova geração, a geração do pragmatismo e da eficiência.” Ele vê claramente como a IA pode ajudar a educação: “Se um aluno tímido tem medo de discutir a sua proposta de pesquisa com um colega de classe, ele pode conversar com o ChatGPT”. Mas ele diz que algo também se perde: a interação e o processo. “Podemos focar no resultado final, mas é no caminho que você aprende a entender a si mesmo e ao assunto. Isso é essencial.”
Gonçalves recebeu uma bolsa Veni pela sua investigação para tornar a IA mais humana. Ele combina as competências de um cientista da computação e de um cientista de media: ele percebe a tecnologia por trás da IA e fala a linguagem das ciências sociais. “Quero trabalhar com a Meta e o Google para desenvolver um algoritmo que modere o ódio online de uma forma mais humana. Sim, sou um idealista. Através da pesquisa, quero mudar o mundo.”
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Número de livros por ano: 4
Gênero favorito: ficção científica, fantasia, detetives
Motivação principal: escapismo
Último livro lido: “O livro de fantasia do meu irmão, The Old Mage’s Gamble. Fui um dos seus primeiros leitores. Foi um prazer ler o livro, mas faltava alguma coisa. De repente, percebi que só havia pessoas e nenhum animal na história. Não estava certo. Meu irmão então mudou a história. Agora existem animais em seu mundo de fantasia.”
João Gonçalves é professor auxiliar na Escola Erasmus de História, Cultura e Comunicação. Depois de estudar Estudos de Comunicação em Portugal, trabalhou durante dois anos como jornalista num jornal. Para seu doutorado, ele pesquisou discurso de ódio online e desenvolveu pessoalmente um algoritmo para analisar seus próprios dados com mais rapidez.
Prémio NWO 2023
“Cientista holandês de topo” recebe prémio NWO 2023. E se fosse português?

Tradução:
Três importantes cientistas holandeses sobre o próximo ano: ‘Quero fazer a diferença no mundo’
O que Lisa, João e Athina têm em comum? Eles são jovens, cheios de talento e estão radiantes com o prémio NWO 2023 que lhes foi atribuído no mês passado e que torna possível a sua própria investigação científica. Não admira que estejam ansiosos por um fantástico 2024. Athina Vidaki investiga a ‘matéria escura’ do nosso ADN, João Gonçalves quer limitar os riscos da inteligência artificial e Lisa Kohl desenvolve criptografia que pode suportar computadores quânticos.

O simbolismo da mala
A mala do emigrante: uma carga mínima a abarrotar de sonhos

Maria Beatriz Rocha-Trindade, Professora Catedrática na Universidade Aberta, acaba de publicar, pela Editora Alma Letra, de Viseu, um livro notável, ímpar e oportuno, com o título Em Torno da Mobilidade. Aborda os Provérbios, Expressões Idiomáticas e Frases Consagradas que proporcionam conforto e sentido aos percursos e às experiências de vida dos migrantes. Esta sabedoria popular é acompanhada e realçada por numerosas imagens criteriosamente escolhidas.
Esta recurso ao senso comum e à linguagem quotidiana como via para a apreensão e interpretação de realidades genéricas e estruturantes revela-se uma aposta original e conseguida. Resulta uma obra generosa, agradável e instrutiva, respaldada em mais de meio século de investigação.

Primeira mulher antropóloga portuguesa, Maria Beatriz desloca-se em 1965 para Paris para prosseguir um curso de doutoramento em Sociologia. Com orientação de Alain Girard, defende a tese, sobre aimigração portuguesa em França, em 1970 na Universidade Paris V – Sorbonne. Por coincidência, também fui aluno da mesma universidade e do Professor Alain Girard. Publicada em 1973 com o título Immigrés Portugais, destaca-se como o primeiro estudo de fôlego da emigração portuguesa alicerçado numa investigação empírica sistemática e aprofundada. Desde então, não se tem cansado de inovar, mas sem se desviar da problemática das migrações, culturas e identidades. Admiro a Maria Beatriz como cientista e, em particular, como pessoa. O seu exemplo de vitalidade oferece-se como um amparo nos meus momentos de descrença e esmorecimento. Conhecemo-nos em 1983 num encontro organizado na Universidade do Minho a pedido da Secretaria de Estado da Emigração: o Seminário Portugal e os Portugueses – Raízes e Horizontes.
Em pleno verão, dezenas de lusodescendentes provenientes de todo o mundo estagiaram em Braga durante várias semanas. Nasceu, nestas circunstâncias, uma amizade, daquelas que, mesmo com poucos convívios, nascem para crescer.

A mala, na mão, às costas ou pousada, representa um símbolo maior da figura do emigrante. Uma arca, “brasileira”, e uma mala de cartão, “francesa”, sobressaem no Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço, como objetos que falam aos visitantes, frequentemente num registo que frisa a intimidade.
Imagem: Espaço Memória e Fronteira. Melgaço
Seguem o vídeo do lançamento do livro Em torno da Mobilidade, em Tavira, no dia 5 de novembro, bem como o pdf do capítulo Potencialidade Simbólica da Imagem no Quadro do Percurso Migratório (págs. 33-54), precedido pela folha de rosto, a ficha técnica e o índice do livro.
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Um AI chatbot mais especializado e mais leve: o ELM (Erasmus Language Model)
O meu rapaz mais velho, o João, não para (ver Português coordena projeto de investigação com financiamento de 10 milhões de euros). Estou em crer que por isso e para isso optou por emigrar. Professor e investigador na Universidade Erasmus de Roterdão, está na origem da criação, com Michele Murgia, de um novo “ChatGPT” mais especializado e mais leve: o ELM (Erasmus Language Model). Por cá, talvez o fado fosse diferente. Para aceder à notícia no Erasmus Magazine, carregar na seguinte imagem ou no neste link: https://www.erasmusmagazine.nl/en/2023/10/11/erasmus-has-its-own-chatgpt/.

Restaurado

Missão cumprida. À seguinte! A conversa “A Arte do Restauro: Alcance e Dilemas” (Conhecer o Mosteiro de Tibães. Curso: Restauro, Sala das Cavalariças do Mosteiro de Tibães, 14/10/2023) correu melhor do que temia atendendo à insuficiente preparação (ando a espremer os minutos). Senti-me em casa, na grata companhia da Margarida Coelho e da Aida Mata. O Mosteiro de Tibães tem sido um abrigo. A título individual ou com os cursos de sociologia da Universidade do Minho, designadamente o mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, cujos alunos tiveram a gentileza de comparecer. Para além de várias comunicações, recordo o seminário O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo (2005), a exposição Vertigens do Barroco: em Jerónimo Baía e na Atualidade (2007), os Encontros de Sociologia (2018 e 2019) e as aulas em contexto, anuais, sobre a Educação pelos Sentidos no Mosteiro. Regresso, portanto, como quem nunca se despediu, feliz pelo reencontro, à vontade e satisfação que são, à partida, meio caminho andado para cativar o público, que não deixou cadeiras vazias.

Cumpria-me abrir dispondo de uma hora. Sem cuidar, excedi-me. Quando perguntei pelo tempo de que dispunha, afinal, já o tinha ultrapassado. Soy muy raro, como dizem os espanhóis: palrador em público, calado em privado. Afortunadamente, a audiência não aparentou acusar o abuso. O estilo ajudou. Descontraído e despretensioso, a namorar por vezes a confidência. Com uma enxurrada de diapositivos à mistura (38 imagens de pinturas e esculturas), atraentes e surpreendentes. Conquistam cada vez maior protagonismo. Intervalam a soporífera monotonia da oralidade. Aprendi como docente com os alunos que a concentração e a atenção pedem momentos de distração e descompressão.
Acrescem como amortecedores da massagem a arte e o motivo da comunicação. Com a idade, fui degenerando. A aposentação e o afastamento da universidade agravaram a tendência. Dispenso cada vez mais o coro das generalidades e das grandes teorias. Prefiro o concreto e o particular: o caso. Conto historinhas, de preferência extraídas da minha própria experiência. Partilho assim testemunhos únicos. Promovo, efetivamente, partilha, originalidade e imprevisibilidade.

O teórico e o nomotético emergem do concreto e do particular, com uma espessura quase corporal. Nas antípodas do modelo da aula académica, salto, saboreando, de assunto em assunto. E divirto-me, sobrepondo o prazer ao saber. Inspiro-me mais no Perrault e no La Fontaine do que no Descartes ou no Kant. Encadeio episódios que sugerem, quando muito, uma ou outra elação proverbial.
Assumir que o discurso voa baixo, que não se pretende teórico, não implica que a teoria esteja ausente. Semelhante quimera não é possível! “Está no sangue”. Se existe algo que a universidade inculca são teorias. Exposto uma vida, quase meio século, não há modo de escapar ao veneno. Por outro lado, proporciona-me imenso gozo sentir os pequenos pormenores, palavras soltas, a beliscar ou a fazer cócegas às teorias.

Ainda de ressaca, este memorando de escrita automática, amaneirado quanto baste, já vai demasiado longo. Estou cansado. Proponho-me publicar uma ou outra historinha da conversa sobre o restauro. Por enquanto, não disponho de tempo. Sexta, volto a ter espetáculo. Em Melgaço, no Serão dos Medos, de que sou o animador. Aguardam-me duas conferências e uma conversa coletiva “socioterapêutica” em torno das premonições e dos prenúncios de morte. De motivo em motivo, sem repetir, vou(-me) entretendo.
Estou a ouvir a banda sonora do filme Into The Wild, de 2007. Mas, não obstante me embalar a voz escorreita do Eddie Vedder, opto pela irreverência do Klaus Nomi. Seguem três canções inéditas no Tendências do Imaginário que já contempla uma dezena deste contratenor excecional que, precocemente falecido em 1983, foi uma das primeiras vítimas conhecidas da SIDA: Lighting Strikes; Wasting My Time; e Simple Man.
Português integra projeto de investigação com financiamento de 10 milhões de euros

O projeto de investigação Better work, better workplaces (Melhor trabalho, melhores postos de trabalho) acaba de ser contemplado com um financiamento de 10 milhões de euros pela Comissão Europeia. Dos quatro membros da equipa de investigação, faz parte João Fernando Ferreira Gonçalves (Braga,1991). Os demais membros da equipa são Jason Pridmore, Jovana Karanovic e Claartje ter Hoeven, da Universidade Erasmus de Roterdão.
Segue um excerto da notícia (Better work, better workplaces: 10 million euros awarded to SEISMEC project by European Commission) divulgada pela própria Universidade:
The interdisciplinary SEISMEC project, led by Erasmus University Rotterdam in collaboration with a multinational consortium of research, industry and civil society partners, has been awarded 10 million euros by the European Commission within the Horizon Europe Programme. SEISMEC aims to shape a future of work that is both productive and enriching, with a focus on creating sustainable work environments that prioritize employee well-being and fulfilment. This exclusive funding under this call highlights the four-year project’s potential to transform workplaces and empower workers in all major European industries.
In this project, EUR researchers Jason Pridmore (ESHCC), Joao Fernando Ferreira Goncalves (ESHCC), Jovana Karanovic (RSM) and Claartje ter Hoeven (ESSB) combine their diverse range of expertise across disciplines to provide valuable insights into empowering workers in today’s technological landscape. By drawing on their interdisciplinary knowledge, the university offers essential perspectives on how to effectively empower workers, thereby contributing to the creation of a sustainable future through the redefinition of workplace practices (Erasmus University Rotterdam, Better work, better workplaces: 10 million euros awarded to SEISMEC project by European Commission; o conjunto da notícia está acessível no seguinte link: https://www.eur.nl/en/news/better-work-better-workplaces-10-million-euros-awarded-seismec-project-european-commission?fbclid=IwAR2Ley-mCSBA7ho7IBHO5XLZGbt0CkU0idrSN_dH5i5ENmujA30K53tDaqQ).

O verão de 2023 tem-se revelado particularmente compensador para João Fernando Ferreira Gonçalves. Foi também um dos doze “investigadores talentosos e criativos” da Universidade Erasmus de Roterdão a ser agraciado com uma bolsa pessoal Veni (até 280 000 euros) da NWO (“The Dutch Research Council (…) under the responsibility of the Ministry of Education, Culture and Science”). O título do projeto é: Making AI less artificial.
Artificial intelligence has brought exciting innovations to everyday life, but also risks such as discrimination and errors in high stakes decisions such as awarding child benefits or driving a car. This risk often happens because the people who develop these algorithms can make them work very well on the data they have, but not in unpredictable real-world situations that depend on complex human interactions. To solve this problem, this project uses knowledge from the social sciences to improve data and make AI algorithms better at handling unforeseen situations when interacting with humans (https://www.eur.nl/en/news/twelve-veni-grants-rotterdam-researchers?fbclid=IwAR3yJw-_NiVgBXih5Va3-b3l6-yKvJb4nc7j00q-yZrnVMXn_oLeO7_lL6g).
O João pertence, por acaso, à família. Mas, embora os seus estudos se inscrevam no âmbito da Sociologia e das Ciências da Comunicação, não sai ao pai. É mais pragmático, metódico, compenetrado e ousado. Pelos vistos, não lhe faltam instituições para financiar os seus projetos. Em contrapartida, o pai teve, muitas vezes, que ser ele próprio a financiar as instituições envolvidas. A distinção desenha-se, desde logo, no início da carreira: o pai regressou do estrangeiro, da Sorbonne (França), para trabalhar na Universidade do Minho, em Braga; o filho saiu de Braga, da Universidade do Minho, para trabalhar no estrangeiro, primeiro na Universidade de Antuérpia (Bélgica), em seguida na Universidade Erasmus de Roterdão (Países Baixos).
Desde o Pico, Vila Verde, 19 de agosto de 2023
