Uma amiga, por sinal de Melgaço, deu-me o gosto de reagir ao meu último artigo: “Les Feuilles Mortes” lembrou-lhe, de algum modo, a neerlandesa Anouk. Se conhecia? Tenho um cd, Sad Singalong Songs, de 2013, do qual coloquei duas canções no Tendências: “Only a Mother” e “The Rules” (https://tendimag.com/2022/05/28/semaforo/). Esta interação animou-me. A interação costuma confortar e enriquecer. Este blogue é pobre de reações. Semeia seixos na areia. Desta vez, encontrou um oásis.
Apeteceu-me retomar três músicas de Anouk esquecidas em fila de espera. Não são canções joviais. Mais do que melancólicas, afiguram-se-me de desespero, senão de revolta. Existem canções assim, disfóricas. Muitas.
Anouk. Lost. Hotel New York. 2005
Anouk. For Bitter Or Worse. For Bitter Or Worse. 2009
Com a fronteira no horizonte, a rádio surpreende com a trompete de Alison Balsom a interpretar Les Feuilles Mortes. Poema de Jacques Prévert com música de Joseph Kosma, Les Feuilles Mortes é, desde a adolescência, a minha canção preferida, nomeadamente, para os momentos de partilha mais (con)sentida.
Alison Balsom. Les Feuilles Mortes. Paris. 2014. Live in London
À barca, à barca, senhores! Oh! que maré tão de prata! Um ventozinho que mata E valentes remadores! … À barca, à barca segura, Barca bem guarnecida, À barca, à barca da vida! (Gil Vicente)
Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo é o meu vídeo mais extenso e, porventura, predileto. Também é aquele a que mais me entreguei. Cristaliza anos de estudo e investigação. Não está perfeito, mas dou por encerrado o capítulo. Cada novo retoque implica horas de renderização. Esta versão aumentada inclui, no início, a curta-metragem Destino, idealizada por Salvador Dalí e Walt Disney, e, no fim, a apresentação Maniera: A Arte do Artista, entretanto produzida. Trata-se da minha rosa mais recente. Com pétalas, folhas e espinhos. Não é uma mercadoria mas possui o seu valor, e está ao alcance de todos e de ninguém em particular.
Após quatro meses de esforços e contratempos, o vídeo com a conversa Os antepassados do surrealismo: os maneiristas está disponível na Internet. Exigiu tanta dedicação que se tornou numa das minhas rosas. Não ouso convidar a assistir às quase duas horas. Quando muito, um breve relance, de preferência a uma das seis apresentações incorporadas. Sei que todos andam ocupados a cuidar de outros jardins.
O vídeo ganha em ser visualizado em alta resolução (1980p).
Antepassados do surrealismo: o maneirismo, por Albertino Gonçalves. Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, em Braga, 27 de maio de 2023.
A universidade sofreu uma viragem no crepúsculo do segundo milénio. Os novos modos e as novas metas dos circuitos académicos não condizem nem com a minha formação nem com a minha vocação. Entre outros aspetos, incomoda-me ter que pedir, senão pagar, a estranhos para publicar. Nesses termos, perdi o interesse em publicar. Continuei a escrever mas relatórios de investigação/ação ou por convite, sem esquecer os apontamentos no blogue Tendências do Imaginário, um monstro híbrido de cultura e lazer, criado em 2011.
Não deixei, contudo, de investigar. Pelo contrário. Gosto de comunicar e ensinar, mas prefiro descobrir e aprender. A vida é um bom mestre. Ensinou-me, entretanto, que sou mortal. Tomei consciência de que boa parte dos conhecimentos que fui amealhando, dispersos em discos digitais, arriscam desparecer comigo. Pequeno ou grande, trata-se de um desperdício.
Capacitei-me da responsabilidade de cuidar da partilha. Optei, quase exclusivamente, por duas vias (alternativas aos blogues Tendências do Imaginário e Margens): a publicação de livros e a comunicação oral. Os livros são obras de Santa Engrácia. As comunicações costumo não as repetir, nem sequer as apresentações de livros. Em suma, grande vontade mas parcos os meios: para cada assunto, uma única comunicação, num dado local e data, perante um público reduzido. A passagem de testemunho reduz-se, portanto, a um momento pouco participado.
Posso não aderir a todas as mudanças, mas não me estimo retrógrado. Procuro aproveitar as novas tecnologias, designadamente, de informação e comunicação, que proporcionam um arremedo de solução para o afunilamento da partilha: filmar as conversas e disponibilizá-las na Internet. Assim sucedeu com as conversas O Olhar de Deus na Cruz: o Cristo Estrábico (29-11-2022) e Vestir os Nus: Censura e Destruição da Arte (18-02-2023), embora com insuficiente qualidade. Com um pouco mais de profissionalismo, resultou mais cuidado o registo desta última conversa.
Destino é uma curta-metragem animada da Disney estreada em 2003. Foi, no entanto, concebida por Walt Disney e Salvador Dalí. Vídeo fabuloso de inspiração surrealista, a sua projeção abriu a conversa Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo. Estando em curso a montagem do vídeo da conferência, a sua incorporação no Tendências do Imaginário resulta oportuna. Fica, de algum modo, arquivada.
Destino. Curta-metragem. Estúdios Walt Disney. 2003. Animação concebida por Walt Disney e Salvador Dalí em 1945
Os peregrinos acodem à Galiza e da Galiza chovem canções. E memórias. Num dia em que me abandonei ao calor do computador.
Os peregrinos lembram-me os romeiros; e os romeiros, os Luar Na Lubre.
Luar Na Lubre – Romeiro Ao Lonxe (Con Diana Navarro). Versão galega de “Scarborough Fair”, canção inglesa do século XII.
Os Luar Na Lubre lembram-me a Sés, e a Sés os Encontros Minho-Galiza, designadamente o III, no auditório de Goián, em Tomiño, com a participação, precisamente, da Sés e do Pedro Abrunhosa (“Até o bom pode ser efémero”: https://tendimag.com/2017/04/03/ate-o-bom-pode-ser-efemero/).
Luar Na Lubre – Os tafenos da gaurra. Con Maria Xosé Silvar (Sés) e a Coral de Ruada. Ao vivo: Teatro Principal de Ourense, junho de 2018
Os Encontros Minho-Galiza lembram-me o Francisco Abrunhosa e o Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, responsável, em parceria com o Centro de Estudos Galegos e o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, pela organização.
Sés e Pedro Abrunhosa durante o III Encontro Minho-Galiza. Fotografia de Francisco Abrunhosa
O Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura lembra-me tempos em que acreditava em inovar e criar institucionalmente. Recorda-me, também, a Escola da Primavera, uma espécie de estágio anual fora do campus, uma iniciativa que resultou original, oportuna e emblemática.
A Escola da Primavera lembra-me Melgaço, seu destino de eleição, berço que não me canso de embalar. E apetece-me embarcar na “Nau” dos Luar na Lubre, acrescentando apenas à “xente de Galicia” a “gente do Minho”:
Nau de vento, nau dos homes que vogan na inmensidade somos xente de Galicia onde a terra bica o mar-e. Ai la la, ai la la… Nau de soños, nau de espranzas nau de infinda veleidade o que esquece as suas raices perde a súa identidade Ai la la, ai la la… (Luar Na Lubre, Nau, 1999)
Luar na Lubre. Nau. Cabo do Mundo. 1999. Ao vivo em 2000
E, assim, aportado em Moledo, refresca-me esta brisa circular de memórias. E deixo-me, com o outono a anunciar-se, estar junto ao computador como se de uma lareira se tratasse.
Nunca aprendemos, já passamos por isso / Por que estamos sempre cercados e fugindo / Das balas? Das balas?
Signo of Times, de Harry Styles, oferece-se como uma canção premonitória? Proeza algo relativa. Humanamente falando, canções como esta são sempre premonitórias. Aproveito para recolocar um anúncio admirável de 2007: Stop the bullet Kill the gun, da Choice FM.
Harry Styles. Sign of Times. Harry Styles. 2017. Na BBC em 2017
Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.
“De la mano de tu voz He encontrado mi camino He sentido la pasión y el dolor Al mismo tiempo De la mano de tu voz Se hace eterno lo efímero.”
Imagem: Salvador Sobral e Silvana Estrada
Junto ao Minho, até as canções atravessam as línguas. Da outra margem, pela mão de uma amiga, chega-me esta relíquia, transfronteiriça, do Salvador Sobral (com Silvana Estrada). Segue o videoclip oficial.
Salvador Sobral (com Silvana Estrada). De la mano de tu voz. 2023. Gravado em 2022.
Na vida existem muitas contingências pouco contingentes. Para conforto, o melhor é não relevar. É mais avisado respirar, sobretudo aspirar, eventualmente com máscara.
Agradeço a uma amiga a partilha desta canção da argentina Natalia Doco.
Giuseppe Arcimboldo. Uma alegoria do ar. Sem data (séc. XVI).
Este pôr-do-sol teve o condão de interromper um pensamento que me anda a perturbar. Como pode ser cativante o prelúdio da escuridão! Retomo a cogitação. Por paradoxal e estranha que se apresente a noção de democracia totalitária poderá tornar-se cada vez menos descabida e mais oportuna.
Há setenta anos, Jacob L. Talmon já cunhava a expressão no livro The Origins of Totalitarian Democracy (London: Secker & Warburg, vol. 1: 1952). Pouco antes, Bertrand de Jouvenel sustentava que a democracia encerra os germes do totalitarismo (Du pouvoir, Histoire naturelle de sa croissance, Paris, Hachette, 1972; 1ª ed. 1945). Propensão que Alexis de Tocqueville não tenha vislumbrado em meados do século XIX (L’Ancien et la Révolution, 1ª ed. 1856). Contentar-se, portanto, em aludir apenas à tentação “populista” talvez não seja suficiente.