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A arqueologia do prazer

Peter Frampton

Peter Frampton não é o Fred Mercury, nem o Eric Clapton. Mal seria. É um bom guitarrista em maré de bons guitarristas. Conheceu um franco sucesso com o álbum duplo ao vivo Frampton Comes Alive, publicado em 1976. “É considerado o álbum ao vivo mais vendido da História” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Frampton_Comes_Alive!).

De anos em anos, coloco a agulha na faixa Do You Feel Like We Do. Se estou impaciente, começo logo no minuto quatro. Em 1976, vivia em Paris. A minha aparelhagem era um móvel “La voix de son maître”, do tamanho de uma cómoda, com coluna incorporada e, no interior, o gira-discos e o rádio. Uma arqueologia do prazer. Creio que o desgosto, a “eurrância”, radica na mudança de aparelhagem. Hormonas à parte, “La voix de son maître” é outra acústica.

Peter Frampton. Do you feel like we do. Frampton comes alive. 1976.

A era do vazio

Marie Curie.

O mundo de todos os dias esvaziou-se. Mas há formas de abraçar vidas. Por exemplo, cuidar dos outros (vídeo 1) ou cantar para o mundo no deserto de uma estação do metro (vídeo 2).

Anunciante: Marie Curie. Título: Hold on. Agência: Saatchi & Saatchi London. Direcção: Guillermo Vega. Reino Unido, Abril 2020.
Stephen Ridley. A SONG FOR THE WORLD || ‘IMAGINE’ EMPTY METRO STATION PIANO PERFORMANCE LONDON (Coronavirus). Março 2020.

Echo and The Bunnymen

Agora que o tempo pasma, ando apressado. Outrora, na crista das aulas materiais, presenciais e banais, saía a pé de casa para a universidade e, à hora exacta, no lugar certo, a aula acontecia. Agora, na contingência da imaterialidade à distância, ando há três dias a preparar uma aula já preparada. Nem sobram uns minutos para um artigo. Ousemos, mesmo assim, uma pausa no dever. Segue uma versão interessante da canção Forgiven dos Echo & The Bunnymen.

Echo & The Bunnymen. Forgiven. Evergreen. 1997. Acústico ao vivo.

Híbrido de mil faces

Recordando, não se esquece? Gosto de recordar o prazer. E as mágoas? Prefiro não lhes espetar o anzol. Mordem o presente. Duas ou três canções do David Bowie. Das mais antigas. Para descer à cave da memória. When I live my dreams (1967) e Come and buy my toys (1967). Para completar a conta que Deus fez, acrescento Space Oddity, a versão original.

Come and buy my toys. David Bowie, 1967
When I Iive my dreams. David Bowie, 1967
Space Oddity. Versão original de 1969. Álbum London Boy, de 1995.

Blind Faith

Blind Faith. Blind Faith. 1969. Capa.

Ando com a inspiração submersa. Quando se deixa adormecer a razão é muito difícil acordá-la. E quando o corpo não tem juízo, a cabeça é que paga. Vou cingir-me a cinco dedos de música.

Ver o Eric Clapton e o Steve Winwood, membros dos Blind Faifh, “superbanda” dos anos sessenta (1968-1969), a interpretar Presence of the Lord tange o revivalismo. Acrescento três músicas dos Blind Faith.

Eric Clapton & Steve Winwood. Presence of the Lord. Blind Faith (1969). Crossroads Guitar Festival 2007.
Blind Faith. Can’t find my way home. Blind Faith, 1969.
Blind Faith. Well All Right. Blind Faith, 1969.
Blind Faith. Sea of Joy. Blind Faith, 1969.

Contos de solidão e mal viver

Vincent Van Gogh. Sorrowing Old Man (At Eternity’s Gate). Detalhe. 1890

Podem repetir os sábios que não existem velhos, que velhos são os trapos. Mas o envelhecimento persiste. Até os trapos envelhecem. Sinto-me a envelhecer: as pernas pesam, os olhos turvam-se e a memória esquece-se. A rede de relações encolhe, como um polvo na panela, rumo à solidão. E nós insistimos que não há velhos, que velhos são os trapos. Recorremos à esconjuração retórica, como se o envelhecimento fosse uma figura de estilo ou um descuido da perfeição. Como se não rezássemos todos no templo do abraço perdido…

Quem me mergulhou neste estado de desentendimento lamentável foi o Nick Cave. Dos três anúncios que seguem, o último é o mais confrangedor: os netos “visitam” o avô mas para assistir a uma emissão de futebol facultada aos idosos por um canal televisão.

Marca: Re-Engage. Título: Stella. Direcção: Izzy Burton. Reino Unido, Dezembro 2019.
Marca: Silver Line. Título: Visiting Gramps. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Thomas. Reino Unido, Abril 2015.
Marca: Direct TV. Título: En casa del abuelo. Equador, Novembro 2016.
Nick Cave & The Bad Seeds. Into my arms. The Boatman’s Call. 1997. Live in Copenhagen.

Dar é criar

Para Deus Todo-Poderoso, o que conta não é quanto damos, mas quanto amor colocamos na dádiva (Madre Teresa).

O amor faz-nos descobrir capacidades desconhecidas, faz-nos ir muito além de nós para nos aproximarmos dos outros, daqueles de quem gostamos e de quem cuidamos. Assim rezam os dois anúncios da Teva: um homem de idade descobre o talento de cabeleireiro ao pentear a mulher doente; uma filha aprende a dançar para proporcionar momentos de felicidade ao pai. Damos o que somos e o que podemos ser. Dar é criar. Dar é ser maior. É ser maior do que aquilo que somos.

Marca: Teva. Título: Hairspray. Agência: VCCP. Direcção: John Turner. Reino Unido, Janeiro 2020.
Marca: Teva. Título: Best Foot Forward. Agência: VCCP. Direcção: John Turner, Reino Unido, Janeiro 2020.

Richard Wright. Uma festa no céu.

Dos quatro membros dos Pink Floyd, dois são ostensivos, David Gilmour e Roger Waters, e dois, discretos, Richard Wright e Nick Mason. A notoriedade coloca sempre o mesmo à frente dos olhos e os outros, nas costas. Neste sentido, a notoriedade enviesa e empobrece.

Richard Wright, falecido em 2008, não era apenas o teclista da banda, era compositor e vocalista. Assinou, por exemplo, cinco das dez músicas do The Dark Side of the Moon, mormente o fabuloso The Great Gig in the Sky. Produziu álbuns a solo antes e depois da separação do grupo: Wet Dream, em 1978, Identity, com Dave Harris, em 1984, e Broken China, em 1996. Retive três músicas: Reaching for the Rail, com Sinead O’Connor; Breakthrough, ao vivo, com David Gilmour, em 2002; e, para culminar, The Great Gig in the Sky (1973).

Richard Wright. Reaching for the Rail. Com Sinead O’Conner. Broken China. 1996.
Richard Wright. Breakthrough. Com David Gilmour. Broken China. 1996. Ao vivo em 2002.
Pink Floyd. The Great Gig in the Sky. Dark Side of the Moon. 1973. Compositor: Richard Wright.

David Gilmour. A guitarra e o saxofone.

David Gilmour.

David Gilmour e Roger Waters são diferentes. Talvez por esse motivo funcionaram bem juntos. Dos discos a solo de David Gilmour, escolhi três músicas: Love On The Air, do álbum About Face, de 1984, e Smile, do álbum On An Island, de 2006. A terceira música é um extra: David Gilmour toca um solo, não de guitarra, mas de saxofone (Red Sky At Night, On An Island, ao vivo, The Island World Tour 2007).

David Gilmour. Love On The Air. About Face. 1984.
David Gilmour. Smile. On An Island. 2006.
David Gilmour. Red Sky At Night. On An Island. 2006. The Island World Tour 2007

O Pai Natal. Questões de género

Virgin Media. Now That’s Christmas. 2019.

Falta visionar dois dos dezasseis anúncios de Natal seleccionados. Ambos evidenciam a sensibilidade de género. No primeiro, da Macy’s, uma rapariga quer ser pai Natal e, no segundo, da Virgin Media, a protagonista é uma drag queen. Esta sensibilidade representa, porventura, a maior ameaça à figura do Pai Natal. Promove a desconsensualização de uma hegemonia.

Nos anos setenta, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, entre outros, vaticinaram um futuro auspicioso aos movimentos feministas, ecologistas e regionalistas, alternativos aos movimentos tradicionais, designadamente de classe. Não se enganaram. Estes “novos” movimentos conquistaram poder e influência. Censuram palavras, gestos e símbolos, entre os quais o Pai Natal. Numa crónica do Expresso, Nelson Marques ilustra claramente aquilo que me transcende. Segue um excerto.

“Querido Pai Natal, / Espero que não te importes que te trate assim. Afinal, para mim continuas a ser o velho barrigudo de barbas bancas que não cabe nas chaminés e que se multiplica pelos centros comerciais de todo o mundo, ouvindo os pedidos das crianças que se sentam no teu colo. Não sei durante quanto mais tempo te poderei tratar assim. Parece que a tua existência é uma coisa muito heteronormativa. O futuro, defendem alguns, pertence à Mãe Natal. Ou, melhor ainda, à Pessoa Natal, porque se queremos ser politicamente corretos o melhor mesmo é que o género seja neutro. / Não é coisa que me apoquente, devo confessar. Por mim, até acabávamos com esta tradição, que enganarmos as crianças desde pequenas não é um grande ensinamento para a vida. E talvez não fosse má ideia acabar também com as religiões, que estão na base de tantos males no mundo. É possível que milhões de pessoas se ofendam com a ideia, mas se não quisermos ser tão radicais podemos ao menos discutir o género do Menino Jesus? Porque é que não pode ser uma menina? Porque é que tem sequer de ter um género? E porque é que Deus há de ser um homem? E o Papa? Não está na altura de ser uma mulher?” (Nelson Marques, #género Está na hora de nos despedirmos do Pai Natal?, Expresso, 16.12.2018, excerto; https://expresso.pt/sociedade/2018-12-16-genero.-Esta-na-hora-de-nos-despedirmos-do-Pai-Natal-).

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

E o diabo? É verdade que não faltam diabas. Tanto em Amarante (ver Crónica dos Diabos de Amarante; https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/ ), como no inferno (ver imagem do Museu Nacional de Arte Antiga). Em suma, somos pessoas, substantivo feminino neutro.

Isto corrói a imagem de um santo, quanto mais do Pai Natal. A influência da sensibilidade de género na comunicação social, mormente na publicidade, é indubitável. O Pai Natal está em apuros. E não há quem lhe acuda.

Marca: Macy’s. Título: Santa Girl. Agência: BBDO (New York). Direcção: Garth Davis. Estados Unidos, Novembro 2019,
Marca: Virgin Media. Título: Now That’s Christmas. Agência: Rapp. Direcção: Rock Hound. Reino Unido, Novembro 2019.