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David Gilmour. A guitarra e o saxofone.

David Gilmour.

David Gilmour e Roger Waters são diferentes. Talvez por esse motivo funcionaram bem juntos. Dos discos a solo de David Gilmour, escolhi três músicas: Love On The Air, do álbum About Face, de 1984, e Smile, do álbum On An Island, de 2006. A terceira música é um extra: David Gilmour toca um solo, não de guitarra, mas de saxofone (Red Sky At Night, On An Island, ao vivo, The Island World Tour 2007).

David Gilmour. Love On The Air. About Face. 1984.
David Gilmour. Smile. On An Island. 2006.
David Gilmour. Red Sky At Night. On An Island. 2006. The Island World Tour 2007

O Pai Natal. Questões de género

Virgin Media. Now That’s Christmas. 2019.

Falta visionar dois dos dezasseis anúncios de Natal seleccionados. Ambos evidenciam a sensibilidade de género. No primeiro, da Macy’s, uma rapariga quer ser pai Natal e, no segundo, da Virgin Media, a protagonista é uma drag queen. Esta sensibilidade representa, porventura, a maior ameaça à figura do Pai Natal. Promove a desconsensualização de uma hegemonia.

Nos anos setenta, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, entre outros, vaticinaram um futuro auspicioso aos movimentos feministas, ecologistas e regionalistas, alternativos aos movimentos tradicionais, designadamente de classe. Não se enganaram. Estes “novos” movimentos conquistaram poder e influência. Censuram palavras, gestos e símbolos, entre os quais o Pai Natal. Numa crónica do Expresso, Nelson Marques ilustra claramente aquilo que me transcende. Segue um excerto.

“Querido Pai Natal, / Espero que não te importes que te trate assim. Afinal, para mim continuas a ser o velho barrigudo de barbas bancas que não cabe nas chaminés e que se multiplica pelos centros comerciais de todo o mundo, ouvindo os pedidos das crianças que se sentam no teu colo. Não sei durante quanto mais tempo te poderei tratar assim. Parece que a tua existência é uma coisa muito heteronormativa. O futuro, defendem alguns, pertence à Mãe Natal. Ou, melhor ainda, à Pessoa Natal, porque se queremos ser politicamente corretos o melhor mesmo é que o género seja neutro. / Não é coisa que me apoquente, devo confessar. Por mim, até acabávamos com esta tradição, que enganarmos as crianças desde pequenas não é um grande ensinamento para a vida. E talvez não fosse má ideia acabar também com as religiões, que estão na base de tantos males no mundo. É possível que milhões de pessoas se ofendam com a ideia, mas se não quisermos ser tão radicais podemos ao menos discutir o género do Menino Jesus? Porque é que não pode ser uma menina? Porque é que tem sequer de ter um género? E porque é que Deus há de ser um homem? E o Papa? Não está na altura de ser uma mulher?” (Nelson Marques, #género Está na hora de nos despedirmos do Pai Natal?, Expresso, 16.12.2018, excerto; https://expresso.pt/sociedade/2018-12-16-genero.-Esta-na-hora-de-nos-despedirmos-do-Pai-Natal-).

Inferno. Museu Nacional de Arte Antiga. c. 1510-1520.

E o diabo? É verdade que não faltam diabas. Tanto em Amarante (ver Crónica dos Diabos de Amarante; https://tendimag.com/2014/05/28/cronica-dos-diabos-de-amarante/ ), como no inferno (ver imagem do Museu Nacional de Arte Antiga). Em suma, somos pessoas, substantivo feminino neutro.

Isto corrói a imagem de um santo, quanto mais do Pai Natal. A influência da sensibilidade de género na comunicação social, mormente na publicidade, é indubitável. O Pai Natal está em apuros. E não há quem lhe acuda.

Marca: Macy’s. Título: Santa Girl. Agência: BBDO (New York). Direcção: Garth Davis. Estados Unidos, Novembro 2019,
Marca: Virgin Media. Título: Now That’s Christmas. Agência: Rapp. Direcção: Rock Hound. Reino Unido, Novembro 2019.

O Camelo e o Ganso-das-neves

Um pé no mundo latino, outro no anglo-saxónico, andamos escachados “sem alternativa em que nos firmar”. O álbum The Snow Goose, dos Camel, saiu no dia 15 de Abril de 1975. Vivia Portugal um período acelerado e conturbado, mas atento ao que se passava no mundo. The Snow Goose foi mais uma pedrada no charco. As rádios passavam-no e repassavam-no, não se inibindo de o passar na íntegra, sem interrupções. O vídeo contempla as três primeiras faixas do álbum. Ao vivo, quase quarenta anos após a edição original, impressiona a serenidade e a qualidade da interpretação. Muitos lembram-se destas músicas; outros ficam a lembrar-se; os demais não lhe sentirão a falta.

Camel. The Great Marsh / Rhayader / Rhayader Goes to Town. The Snow Goose. 1975. Ao vivo em Birmingham em 2014.

Bulldog radical

Não existe nada que nos faça sentir mais seguros do que um bulldog e uma prancha de Skateboard! Duvida? Veja o anúncio Chur-chill, da companhia de seguros Churchill. A vida corre sobre rodas.

Marca: Churchill. Título: Chur-chill. Agência: Engine. Direcção: Nikolai Fugslig. Reino Unido, Outubro 2019.

Esperança e resignação

Hope is Power. The Guardian. 2019

Gosto do anúncio Hope is Power, do The Guardian. Uma alegoria bem lapidada. Dispersão ao mínimo e saturação ao máximo: a aflição de uma borboleta fechada dentro de casa, que não baixa as asas. E o vidro quebra-se, num instante milagroso de libertação. Um anúncio sem palavras (as borboletas não falam), excepto o laconismo das duas frases escritas no final do anúncio: Change is possible; Hope is power. Neste tipo de anúncio, a banda sonora é crucial. Revela-se uma excelente escolha a música, despojada, Nothing Changes, de Anaïs Michell, do álbum Hadestown (2010). A duração da canção (0:51) “combina” com a duração do anúncio (1:00).

Marca: The Guardian. Título: Hope is Power. Agência: Uncommon London. Direcção: James Marsh. Reino Unido, Setembro 2019.

O anúncio Hope is Power lembra o anúncio Release Me (2007), da Saab. Vitalista e mais turbulento, Release Me versa sobre os mesmos tópicos: o encarceramento e a vontade de libertação. Retomo-o.

Marca: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007. Música: Oh Laura.

A meia laranja. O assédio sexual

Young sad, beautiful fragile Madonna Angel, Recoleta cemetery, Buenos Aires

“O assédio coloca em cena dois protagonistas: uma besta e a sua presa” (Édith Boukeu).

O assédio é sinistro. Qualquer assédio, sexual ou não. Li, recentemente, a seguinte equação: “assédio sexual, ou seja, violência contra a mulher”. É ver o mundo como uma meia laranja. À outra meia laranja deu-lhe um apagão. Há duas meias laranjas: a que se exprime e a que se espreme. E a laranja vai rodando como a maçã de Picasso! É pena, porque a meia laranja que se espreme tem muito para exprimir. Pese o vórtice da igualdade, é diferente o assédio a uma mulher e o assédio a um homem. Por remanescência do machismo, o assédio a um homem configura uma inversão de papéis e um desvio do cânone da tribo: o homo erectus alucinado com caçadas omnívoras.

A campanha da associação time To é admirável. Antes de mais, pelo efeito de realidade dos anúncios. Aborda um pomo da discórdia: a questão dos limites. E vai além da meia laranja: um dos anúncios apresenta um homem como vítima.

Anunciante: time To. Título: Cannes. Agência: Lucky Generals. Direcção: Steve Reeves. Reino Unido, Junho 2019.
Anunciante: time To. Título: Client. Reino Unido, Novembro 2018.

Cheirinho a bebé

Ecover. L’eau de bébé. 2019.

Pierre Bourdieu sustenta que os cientistas e os artistas têm “interesse no desinteresse”. Não sou artista nem cientista. Tenho “desinteresse no interesse”. Escrevo o que quero, como quero, para quem o entender (Albertino Gonçalves).

Admiro Edgar Morin desde a adolescência. “Troquei”, criança de vinte e poucos anos, argumentos com Edgar Morin, num colóquio na Sorbonne, a propósito da Sociologia do Conhecimento, do intelectual e de Karl Mannheim (Cahiers Internationaux de Sociologie: Sociologies, vol. 71, 1981). Em Para Sair do Século XX (1981), Edgar Morin conta uma história acerca da realidade da ilusão:

A testemunha caminhava ensimesmada quando é abalada por um acidente. Um mercedes não respeita o sinal vermelho e embate num citröen “dois cavalos”. Aproxima-se e constata, contrafeita, que foi, afinal, o citröen que embateu no mercedes: a frente do citröen estava desfeita e o mercedes apresentava uma amolgadela lateral. De qualquer modo, a testemunha insiste que foi o mercedes que desrespeitou o sinal vermelho. Visto com os seus próprios olhos! Que não, afirma o dono do Mercedes! Que não, confirma o condutor do citröen.

A testemunha testemunhou. Ao observar, configura e fabula o mundo e a experiência. O mercedes bateu no citröen e desrespeitou o sinal vermelho. Uma ilusão generosa! “Temos todos tendência a ver na força um culpado e na fraqueza uma vítima inocente” (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, 1984). Compaginamos a realidade segundo os nossos valores e esquemas mentais.

Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Este episódio ilustra a reificação da consciência (Georg Lukács, História e consciência de classe, 1923; Joseph Gabel, La Fausse Conscience, 1962). A testemunha capta um mercedes a chocar com um citröen e a desrespeitar um semáforo. Um mundo animado por objectos. Quem desrespeita não é o mercedes mas o condutor. Neste relato, os condutores são apêndices dos objetos.

A propósito da percepção, Jean Cazeneuve (Les pouvoirs de la télévision, 1970) enuncia os quatro passos da recepção de uma mensagem televisiva: exposição selectiva; retenção selectiva, interpretação; e memorização. Um telespectador presta atenção a determinados programas, ignorando os demais. Nalguns casos, a influência potencial de uma emissão nem sequer começa. Por outro lado, o telespectador retém apenas uma parte do que vê; ignora a informação restante. A testemunha, da infinidade de estímulos que a rodeiam, fixa-se no choque das viaturas. Acresce que a recepção do telespectador é, intrinsecamente, configuração e atribuição de sentido. A recepção releva da “semiose social” (Eliseo Verón, Conducta, Estructura y Comunicación, 1968). A testemunha interpreta a realidade consoante a sua “maneira de agir, pensar e sentir” (Émile Durkheim, As regras do método sociológico, 1895). Por último, a memorização: pouco recordamos do que vivemos. Como diria Arthur Conan Doyle, somos, para nosso próprio bem, cangalheiros da própria experiência.

“Para mim, o cérebro humano, em sua origem, é como um sótão vazio que você pode encher com os móveis que quiser. Um tolo vai entulhá-lo com todo tipo de coisa que for encontrando pelo caminho, de tal forma que o conhecimento que poderia ser-lhe útil ficará soterrado ou, na melhor das hipóteses, tão misturado a outras coisas que não conseguirá encontrá-lo quando necessitar dele (…) É um engano pensar que o quartinho tem paredes elásticas que podem ser estendidas à vontade. Chega a hora em que, a cada acréscimo de conhecimento, você esquece algo que já sabia. É da maior importância, portanto, evitar que informações inúteis ocupem o lugar daquelas que têm utilidade” (Arthur Conan Doyle, Um estudo em vermelho, 1888).

Esta crença do Sherlock Holmes pertence àquelas que, erradas em teoria, funcionam acertadamente na prática (Vilfredo Pareto, Tratado de Sociologia Geral, 1916). Retomemos Edgar Morin:

“Todo conhecimento comporta em si mesmo o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema com duas faces do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro, a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é tão mais difícil que o erro e a ilusão não se reconhecem, minimamente, como tais (…) Nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjectivo do objectivo” (Edgar Morin, Les sept savoirs nécessaires à l’éducation, texto publicado pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura, em 1999).

Marca: Ecover. Título: L’eau de bébé. Agência: Uncommon London. Reino Unido, Abril 2019.

Este desperdício de ideias vem a propósito do anúncio britânico L’Eau de Bebé, da Ecover. A publicidade conhece o poder do sensitivo e do afectivo ancorados em mitos e arquétipos. O anúncio controla o nosso olhar. Concentra-o e perspectiva-o num equilíbrio envolvente que raia a obsessão. Uma fixação circular em torno do homem, do bebé e da embalagem de Eau de Bébé. Na parte final, a embalagem de Eau de Bebé retoma, no feminino e, eventualmente, no homossexual, as imagens precedentes com o homem e o bebé, dois momentos do mesmo ciclo.

O homem objecto lembra o belo Adónis, criado e disputado por Afrodite e Perséfone. O menino lembra Cupido e as mulheres, vestais zeladoras da virgindade e do aroma do detergente da Ecover. O ambiente é celestial. Tipo Olimpo. Tudo muito asseado: o bebé, o adulto, as vestais, os pedestais e a poção mágica:

“Let babies smell like babies. Choose Ecover Zero. A laundry liquid with zero fragrance for zero baby scent interference. It’s Allergy UK approved” (Ecover Zero).

O anúncio da Ecover focaliza, embacia, desloca e satisfaz o olhar. O Eau de Bébé é uma dádiva dos deuses, um cheirinho a criança sem fraldas nem bolsados. Tudo é higiene e amor. Até o cérebro fica mais lavado. O que a publicidade não faz por nós!

Brigada Victor Jara. Ó Menino Ó. Tamborileiro. 1979.

Um passo de dança

Almada Negreiros. Cine San Carlos. Madrid.

A dança é uma vocação do corpo. É um momento em movimento. A dança abre e a dança fecha. De essencial, nada mais sucede nesta ilha de sensualidade. É uma forma simbólica que, irredutível a textos e contextos, vale em si e por si. A dança, a arte da dança, não é papel timbrado. A dança desentorpece a humanidade desde Adão e Eva. “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Genesis 3:19). Um pó que dança. Por muito que o mundo ordene, um passo de dança é um passo de dança, um rio a abraçar perdidamente o mar.

“Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We’re both of us beneath our love, we’re both of us above
Dance me to the end of love”
(Leonard Cohen. Dance me to the end of love. Various Positions. 1984).

A curta-metragem Bear and Squirrel, do programa Dancing On Ice, da ITV, espelha o nosso fascínio pelos desenhos dançantes, como, por exemplo, no filme Fantasia (1940-2000), da Walt Disney. Opto pelo excerto dedicado ao Carnaval dos Animais (1886) de Camille Saint-Saëns.

Marca: Dancing on Ice (ITV). Título: Bear and Squirrel. Produção: ITV Creative. Direcção: Kirk Hendry. Reino Unido, 2018.
Fantasia. Walt Disney. 2000. Excerto: Flamingos. The Carnival of the Animals, composição de Camille Saint-Saëns. 1886.

Estar comigo é outra coisa

Eugène Delacroix – Saint Mary Magdalene at the Foot of the Cross . 1829.

A série bíblica do Renault Clio lembra o filme Jesus Cristo Superstar (1973), uma ópera-rock com música de Andrew Lloyd Weber. Destaco a canção I Don’t Know How To Love Him, interpretada por Yvonne Elliman. Gosto de misturar memórias, num encadeamento estranho com voltas que recusam repetir-se. Yvonne Elliman lembra-me a canção Both Sides Now (1969), de Joni Mitchell. “Does anybody here remember Joni Mitchell?” Frequentemente, as obras são cobertas por várias camadas de sedimentos. Como invejo quem desenterrou, das cinzas, a cidade de Pompeia e, dos escombros acumulados, a Domus Aurea. Quando escavo o mundo, descubro-me; quando me descubro, escavo o mundo. Uma mútua arqueologia. Quando estou comigo, apraz-me acreditar que não estou em má companhia.

Yvonne Elliman. I Don’t Know How To Love Him. Banda sonora de Jesus Cristo Superstar. 1973. Ao vivo.
Joni Mitchell. Both Sides Now. Clowds. 1969.

Apologia

Somewhere Over the Rainbow #PrideMatters Pride in London 2018.

A autopromoção está no vento. Multiplicam-se as alavancas de pessoas e categorias sociais, nos mais diversos domínios: marketing, publicidade, comunicação, religião, política, arte, ciência, moda, desporto, género… Ao contrário dos vasos comunicantes, na sociedade, a exaltação de si tende a deprimir o outro. Acontece, por exemplo, nos anúncios publicitários. O mundo gira aos saltos e em bicos de pés. O anúncio Somewhere Over the Rainbow, da Pride of London, está bem feito. Exprime uma força tranquila. A presença do outro, maioritariamente disfórica, é reduzida ao mínimo. Desprende-se, porém, a impressão de que os LGBT se compreendem, sobretudo, entre si. Duvido que seja verdade. Duvido, também, que seja uma estratégia de sensibilização interessante. Será o isolamento um reforço da comunicação?

Junto o vídeo, de rara qualidade, com Klaus Nomi a interpretar, em 1981, a Cold Song de Henry Purcell (King Arthur, 1691).

Anunciante: Pride of London. Título: Somewhere over the rainbow. Agência: BMB. Direcção: Billy Boyd Cape. Reino Unido, Julho 2018.
Klaus Nomi interpreta, em 1981, a Cold Song, de Henry Purcell.