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Música divertida

Klaus Nomi

Caiu-me no sapatinho eletrónico o anúncio Opera, da Amazon. À primeira vista, a ópera é rebaixada por um indivíduo deitado rente ao chão em trajes menores que a estima enfadonha. Não rebaixa quem quer! Mas o certo é que o maestro, a orquestra e a cantora mudam o repertório. Para benefício do intérprete seguinte, Klaus Nomi? Na realidade, Klaus Nomi mais do que “divertido” é humano, demasiado humano. As trocas de música destinam-se a enaltecer um novo produto sonoro: o Alexa. Segue o anúncio, mais a canção de Klaus Nomi.

Marca: Amazon / Alexa. Título: Opera. Agência: Droga 5 London. Direcção: Andreas Nilsson. Reino Unido, Outubro 2020.
Klaus Nomi. I Feel Love (Cover de Donna Summer). Klaus Nomi – In Concert. 1986.

Com auscultadores sem fios

Slade. Slade Smashes.1980.

A técnica tem uma característica interessante: permite usos inapropriados. Nos encontros e nas reuniões, dava jeito colocar uns auscultadores sem fios e migrar para outras paisagens sonoras. A música suave não se presta a esta audição clandestina. Corre-se o risco de adormecer. O ideal é uma música brutal. Mas temos que nos treinar a não “abanar o capacete”. É uma tentação usar auscultadores nas aulas por videoconferência. Em quarenta alunos, apenas um tinha a câmara ligada. No ecrã, dezenas de bolachas. Dar uma aula acompanhado pelos Slade deve ser empolgante. Retenho quatro músicas, ao todo 15 minutos. É muito atendendo à vossa disponibilidade, mas pouco comparado com a duração de uma reunião ou de uma aula. E parece-me ser mais divertido.

Slade. Cum On Feel The Noize. Sladest. 1973.
Slade. Coz I luv you. Play It Loud. 1970.
Slade. My Oh My. The Amazing Kamikaze Syndrome. 1983.
Slade. Run Runaway. The Amazing Kamikaze Syndrome. 1983.

Pinguins

Acordei preguiçoso. Temo cansar-me. Lembram-se capas dos álbuns dos Penguin Cafe Orchestra? Humanóides com cabeça de pinguim em movimentos parados (ver galeria). Os Penguin Café Orchestra são um testemunho de que, muitas vezes, a originalidade é um opção para o esquecimento. A originalidade é indigesta, preferimos adubar a inteligência com com mais do mesmo, de preferência, com certificação ISO. A originalidade é indigesta. Para exemplo da música dos Penguin Café Orchestra, escolhi, por preguiça, as primeiras faixas do álbum Broadcasting From Home.

Penguin Café Orchestra. Music for a found harmonium. Broadcastint From Home. 1984.
Penguin Café Orchestra. Prelude & Yodel. Broadcastint From Home. 1984.
Penguin Café Orchestra. More Milk. Broadcastint From Home. 1984.

Cuvídeo

Channel 4.

Não estranhe! Pode-se ter razão por linhas travessas. Quantas campanhas não mobilizaram a retaguarda! Contra a Covid, o Cuvídeo. Dê prazer ao rabo. Sente-se no sofá, e salve o próximo. O Channel 4, uma rede de televisão britânica vocacionada para a utilidade pública, apelava, em Abril de 2020, a uma nova modalidade voluntária de confinamento. O grotesco e o sério de mãos dadas.

This is an important public safety announcement, for your arse. If you have buttocks, put them on the sofa. The longer they stay there, the quicker we’ll get through this (Channel 4).

Anunciante: Channel 4. Título: Important Safety Announcement for Your Arse #StayAtHome. Reino Unido, Abril 2020.

Mal-entendido

Curved Air. Air Conditioning. 1970.

Oferecer a uma pessoa uma prenda de que ela não gosta é o cúmulo do mal-entendido. Os Curved Air são uma banda britânica, difícil de classificar, fundada em 1970. Tem um som próprio. Consta entre as primeiras bandas rock a incorporar o violino. Tenho um álbum ao vivo dos Curved Air (1975) que começa com a canção It Happened Today. Assim seja!

Curved Air. It Happened Today. Air Conditioning. 1970. Ao vivo, em 1971.

Alan Parker: O muro continua

Alan Parker.

Morreu o realizador de cinema Alan Parker. Associo-o ao Pink floyd – The Wall (1982). Mas realizou muito filmes tão ou mais marcantes: Bugsy Malone (1976); Midnight Express (1978); Fame (1980); Mississippi Burning (1988); The Commitments (1991); Evita (1996)… Várias canções que integraram os seus filmes foram grandes êxitos. Fame conquistou o óscar de melhor canção original. Acrescente-se Midnight Express, Unconfortably Numb ou Midnight Hour. Prefiro não me concentrar nas obras importantes de Alan Parker. Há muito quem discorra sobre assuntos importantes. Vou cingir-me a pormenores, como diria Hercule Poirot, à petites choses de rien du tout, aderindo a uma vocação da insignificância.

Alan Parker iniciou a sua carreira na publicidade. Da extensa lista de anúncios que realizou, retenho dois: o primeiro ao vinho do Porto Cockburns; o segundo aos charutos B&H Special Panatellas. Em ambos, um apurado humor britânico.

Regressando à insignificância. É mais fácil estudar um assunto importante do que um assunto insignificante. Uma autoestrada da informação contra um carreiro de cabras. A originalidade comporta riscos, por exemplo, uma maior probabilidade de errar. Mas é maior a motivação. Não se lambe tanta erva molhada. Custou mais colocar o anúncio Train do que uma série de algumas centenas de vídeos de The Wall.

Marca: Cockburns Port. Título Lifeboat. Direcção: Alan Parker. Reino Unido, 1974.
Marca: B&H Special Panatellas. Título: Train. Direcção Alan Parker. Reino Unido, 1974.

Entre a mão de Deus e o rabo do Diabo

M. C. Escher. Day and Night. 1938

Estranhas as escadas em que desconhecemos se subimos ou descemos, se nos espera a “mão de Deus” ou o “rabo do Diabo”. Coloco duas versões do I Get Up I Get Down, dos Yes: só com a voz de Jon Anderson e com todo o grupo.

Yes. I Get Up I Get Down. Closer to the Edge. 1972. Interpretação isolada de Jon Anderson.
Yes. I Get Up I Get Down. Closer to the Edge. 1972.

As malhas do género

Libresse. #wombstories. 2020.

Três anúncios excelentes,

Tem vindo a crescer o número de anúncios dedicados ao género. Abrangem todas a categorias: transgénero, homossexual, lésbica, heterossexual… A maioria propõe anúncios de promoção. Existem, no entanto, anúncios que, embora centrados no género, não visam a promoção de uma categoria, mas a exposição da sua condição,  sem visar uma “vantagem competitiva”. Parece ser o caso do anúncio Womb Stories, da Libresse. “Histórias de úteros”, com dores e prazer, amor e horror, que revelam uma relação contraditória com corpo e a mente. O anúncio é impactante. A combinação de sequências filmadas e de animação funciona magistralmente.

“And yet the same research found that half of women feel society wants them to keep silent about their experiences, while half of women felt staying silent about their issues damaged their mental health. This leads to a damaging silence around a range of difficult and sensitive issues that women face every day. The physical concern may be treated, but the emotional dimension is often left unheard and overlooked” (https://www.lbbonline.com/news/libresse-tells-a-wombstory-no-ad-has-told-before-in-latest-taboo-busting-ad).

Marca: Libresse. Título: #wombstories. Agência: AMV BBDO. Direcção: Natasha Braier. Reino Unido, Julho 2020.

O anúncio #ShareTheLoad, da Ariel, adopta um discurso feminista num país, a Índia, patriarcal. Teve um impacto mediático e social considerável. Ganhou vários prémios. Trata-se de um anúncio que promove, assumidamente, a condição feminina.

Marca: Ariel. Título: #ShareTheLoad. Agência: BBDO India. Índia, Fevereiro 2016.

O anúncio Francesca, da Diesel, é um misto de exposição de uma condição e promoção de uma categoria.

“No mês do orgulho LGBTQI+, a DIESEL apresenta seu novo filme “Francesca”, dirigido por Francois Rousselet e realizado com o Conselho da Diversity, associação italiana comprometida com a promoção da inclusão social.
O filme criado pela Publicis Itália mostra cenas de uma jovem transgênera e sua jornada durante o processo de transição de gênero. Vemos Francesca, que nasceu menino, se transformar em uma linda mulher, enquanto acompanhamos seu cotidiano, as descobertas dos elementos que compõem o universo feminino e sua relação com a fé, que a leva a buscar a vida em um convento” (https://www.youtube.com/watch?v=535_479z-hM).

Marca: Diesel. Título: Francesca. Agência: Publicis (Itália). Direcção: François Rousselet. Internacional, Junho 2020.

A estranheza da vida

Acabei um artigo, faltam quatro. Uma fordização. Não me queixo. Alguns foram pedidos no ano passado. Sou um compressor compulsivo. Tudo para depois do prazo. Caía bem uma música que erga a vontade mais alto do que uma bandeira. Preciso de um hino. Rock progressivo envelhecido. Pode ser Isn’t Life Strange, dos The Moody Blues? Nada como experimentar.

The Moody Blues. Isn’t Life Strange. Seventh Sojourn. 1972. Live in Royal Albert Hall, 2000.

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.