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À espera de São Valentim

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O anúncio A love song, da The Climate Coalition, é soberbo. Graças à imagem, à música e à palavra. A música é um original dos Elbow e o poema, um original (I’ve Heard Talk) de Anthony Anaxagorou. As primeiras imagens desfilam com o Blade Runner no retrovisor, nomeadamente, a inesquecível sequência final. Um relance à ficha técnica do anúncio suporta o déjà vu. A agência que produziu o anúncio,  uma curta-metragem, é a Ridley Scott Associates Films. Ridley Scott foi o realizador, entre outros, de Alien (1979), 1492 – A Conquista do Paraíso (1992), Gladiador (2000), Prometheus (2012) e, naturalmente, Blade Runner (1982).

Este ano, sugeri aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho inovador: escolher, analisar e comparar, seja para aproximar, seja para contrastar, duas obras de géneros distintos, por exemplo pintura e publicidade. Não é difícil, basta estar atento. Neste anúncio temos, pelo menos, duas obras de géneros distintos passíveis de diálogo: a sequência final do filme Blade Runner e a sequência inicial do anúncio A Love Song. Este anúncio, um poema audiovisual, convoca, certamente, outras obras de outros géneros. A intertextualidade é profusa e vadia.

Anunciante: Climate Coalition. Título: A love song. Agência: Ridley Scott Associates Films. Direcção: Stuart Rideout. Reino Unido, Fevereiro 2017.

I’ve Heard Talk – By Anthony Anaxagorou

I’ve heard talk of a quiet violence
waiting at the water’s edge
where children learn the earth by golden shores
and gulls decorate shadows with all their height.

I’ve heard the mountains speak of their agony
a gripping smog hurting their stone –
the sparrow and the wren salvage hope from the wind
casting their song over the ears of morning,

I’ve seen the mountaineer conquer
the obstinacy of rock with the smallest
of hands, breath leaving his mouth
like an eruption of ampersands.

I’ve heard the forest’s thin call
as it’s left to shudder under its heavy load,
I remember a time it would climb
to paint the world with its green

where now will the lovers go to know each other’s palms?
How will kisses announce themselves to lips
if the path we’ve walked for so long
becomes lost to the noise we share?

I’ve seen how the willow holds its perennial lean
while cliffs frail as deceit drop to the sea.
A rainbow bought and sold for its skin
is worn like victory by another skyscraper.

Lakes still embrace shoals of fish
while icebergs melt like snow on lips.
Seasons start to run from each other
while love’s left to shiver on the edge of a leaf.

But there’s still time to rescue the tranquillity
the fragile space between parks, pitches and sea –
the cosmos in all its wonderment and us,
a blink in its starry eye.

I’ve heard of this kind of dying before
slow, white and expansive. I’ve followed
the groan and made my lungs from the trail.

We are building new rain,
We are harbouring less sight
an infant tilts his head skywards
and asks his mother what’s beyond
she takes him by the hand and says

we will shape the brilliant and new
I very much like you have been saved so many times by a view
yesterday the sun whispered into the moon’s ear
and the moon trembled, turning white with fear.

Anthony Anaxagorou

Fumaça ou a difícil arte de ser humano

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League Against Cancer. Smoke. Eslováquia. 2010.

Não me lembro de campanha com a amplitude da luta anti-tabaco. Uma campanha orquestral, intrusiva e beata. Nunca tanta voz e tanto aparelho se juntaram em torno de uma causa. Por todos os ambientes e canais, desde os media até aos cidadãos. Esta polifonia pende para a cacofonia. Não existe privacidade ou intimidade que a demovam. Abrange tudo e todos, não há abrigo que lhe escape. É totalitária. Um expoente da fé no delírio da razão. Trata-se de propaganda, uma apropriação pela ciência e pela técnica das demais esferas da vida, designadamente moral e pessoal. Com tanta certeza e tantos recursos, a propaganda anti-tabaco patina ao nível dos resultados. Passa a caravana e a paisagem continua. Retocando Shakespeare. “muito barulho para nada”.

Não sou a favor do tabaco. Fumar é uma estupidez: uma iniciativa que só prejudica o autor. Visto assim, sou estúpido. Sou contra o tabaco, mas não sou contra os fumadores. Esmago um cigarro, não agrido um fumador. Aliás, a maioria dos fumadores entrou no inferno ainda o vício não era pecado. Foi o céu que, entretanto, mudou.

Tenho observado muitos anúncios anti-tabaco. Uns tendem a incluir, outros a excluir, o fumador. Estes três anúncios foram promovidos pela britânica NHS (National Health Service). O primeiro promete ajuda, o segundo anuncia a morte e o terceiro castiga até à morte. Recordando Hannah Arendt, é complicado entender o que motiva o ser humano, cordeiro ou carrasco.

Volta e meia regresso a esta birra desconversada. Que os infalíveis me perdoem! Nem com os olhos fechados, consigo ler outro roteiro. O roteiro das misérias históricas e do “admirável mundo novo”.

Anunciante: NHS. Título: Getting off cigarettes. Agência: Mcbd London. Direcção: Michael Geoghegan. Reino Unido, 2007.

“This is a viral created as (…)  final Masters project for the MA 3D Digital Animation program at the University of Hertfordshire. It is also being used by the NHS to promote their campaign on Anti Smoking”. Reino Unido, 2010.

Anunciante: NHS. Título: Fight Back. Agência: Doctor Foster United Kingdom. Direcção: Rankin and Chris Cottam. Reino Unido, 2010.

Andróide

androide-3Anunciam-se tempos em que mais vale dar ouvidos a um andróide do que a um humano. Com vontade mas sem sensibilidade.

“I am faster than you, stronger than you. Certainly I will last much longer than you. You may think that I am the future. But you’re wrong. You are. If I had a wish, I wish to be human. To know how it feels. To feel, to hope…”.

Marca: Johnnie Walker. Título: Human (Android). Agência: BBH London. Direcção: Dante Ariola. Reino Unido, 2006.

Alergia

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Ernest Bieler. Les Feuilles Mortes. 1899.

War é um anúncio que põe à prova o amor à natureza. Contra a moléstia biológica, não há defesa possível. Os pólenes são agressores ubíquos e impercetíveis. Quem adormecer ao sol no jardim, arrisca-se a ter, ao acordar, um dente-de-leão a crescer no umbigo. Uma pessoa inala estas micro fertilidades sem dar conta… Disparate? Sabe bem dizer disparates. Devia ser embaixador do disparate, ministro, presidente ou comentador, mas falhei a vocação. Desgraçadamente, por altura do chamamento, devia estar a passar pelo túnel da Avenida da Liberdade. O anúncio da Benadryl é primaveril. Poliniza os espíritos.

Marca: Benadryl. Título: War. Agência: JWT London. Direcção: Steve Cope. Reino Unido, 2009.

Neste anúncio, as plantas dançam. Lembram (os descaminhos da memória são insondáveis) a canção Les feuilles mortes (versão original francesa: https://tendimag.com/?s=montand). Existem muitas interpretações em inglês (Autumn Leaves): Natalie Cole, Eva Cassidy, Chet Baker, Miles Davis, Paula Cole… Recentemente, Eric Clapton. Opto por Nat King Cole (álbum Nat King Cole Sings For Two In Love, 1955). Para terminar, uma confidência: há momentos e lugares em que as folhas caem com mais sentimento.

Nat King Cole. Autumn Leaves. Nat Kin Cole Sings For Two In Love. 1955.

O pêndulo de Newton

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Excessivo, insólito, deslocado, infantil. Uma regressão descomunal. O que não passa pela cabeça dos criativos da publicidade para chamar a atenção!… Mas o anúncio tem fundamento científico. Alude ao pêndulo de Newton.

Anunciante: kit-kat. Título: Crane. Agência: Jwt, London Rattling Stick. Direcção: Steve Cope. Reino Unido, Janeiro 2011

Técnica de sonho

Dois sonhos tecnicamente assistidos. O automóvel foge da sombra. A agência de viagens corre atrás do coelho. Álgebra de Boole e reciclagem de fadas. Muitos efeitos, pouca narrativa. Muita imagem e boa música. Os sonhos são pessoais. Quando me oferecem sonhos não sei onde os meter. Na arte? Na imaginação? Na criatividade? Na libertação? Talvez no bolso ou na estante.

Marca: Audi A5. Título: Pure Imagination. Produção: Nexus Studios. Direcção: GMUNK. Reino Unido, Janeiro 2017.

Marca: Tjäreborg. Título : Down the Rabit Hole. Agência: Cassius, Hensinki. Direcção: Pekka Hara. Finlância, Janeiro 2017.

A donzela e a morte: morrer a teu lado

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Premiado com um óscar em 2014 (Her, melhor roteiro original) e realizador do filme Quero ser John Malkovich (1999), Spike Jonze destaca-se, ainda, como um dos mais consagrados realizadores de vídeos musicais. To die by your side é uma curta-metragem em stop motion. Uma história de amor entre uma donzela e um esqueleto que convoca várias figuras clássicas da morte: a dança da morte, o beijo da morte e o golpe da morte. Acrescente-se a crença de que a morte, mesmo quando apaixonada, acaba sempre por matar, involuntariamente, o ser amado. É a sua vocação e o seu destino. Um reparo: não é a morte, o esqueleto, que conduz a dança mas a donzela. A revista Time considerou To die by your side o melhor vídeo do ano (2011).

Spike Jonze. Mourir auprès de toi (To die by your side). Dir. Simon Cahn e Spike Jonze. 2011.

Corações distraídos

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Não nos apercebemos o quanto ignoramos quem precisa da nossa ajuda. As câmaras, os corvos do século, revelam que, muitas vezes, aquilo que dizemos não corresponde àquilo que fazemos. Um excelente anúncio português que, apesar do dispositivo montado, navega, com sucesso, nas águas de simplicidade.

Marca: Lipton. Título: Awake, Uma Experiência Lipton. Agência: Funny How. Direcção: Nuno Alberto. Portugal, Novembro de 2016.

Menos simples, mas igualmente bem intencionada, é a solução adoptada pela Philips para animar as crianças hospitalizadas. Spiderman, o herói de serviço, pensa, porventura, o mesmo. Seria interessante uma investigação sobre a presença dos heróis da banda desenhada na publicidade. Um abraço para o Canadá!

Marca: Philips. Título: Everyday Hero. Agência: Ogilvy & Mather London. Direcção: Fredrik Bond. Reino Unido, Outubro 2016.

Perfume e erotismo

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Por que motivo o perfume aparece associado ao erotismo? Afloramos o tema no artigo “Perfume, comunicação e personalidade” (2014; endereço: https://tendimag.com/2014/04/05/perfume-comunicacao-e-personalidade/). Retomo uma passagem de Georg Simmel:

“o perfume (…) acrescenta à personalidade algo completamente impessoal, algo que vem do exterior mas que se lhe incorpora tão bem que dela parece se desprender. Aumenta a esfera da pessoa causando uma impressão semelhante aos fogos do diamante e aos reflexos do ouro. Quem se aproxima mergulha nesta atmosfera; fica de algum modo preso na esfera da personalidade. Tal como as peças de vestuário, o perfume encobre a personalidade realçando-a” (Simmel, Georg, 1981,Sociologie et Epistémologie, Paris, PUF, p. 237-238).

O perfume envolve a pele para a tornar mais apetecível. No jogo de sedução, o destino é a pele e o perfume, uma máscara. Segundo Georg Simmel, o cheiro é o mais intrometido dos sentidos. Invade, sem cerimónia, o espaço pessoal, a “esfera de intimidade”. Pode-se desviar a vista, tapar os ouvidos, evitar o contacto, mas afastar o cheiro torna-se mais complicado.

Nós somos construtores de catedrais, estradas e estádios de futebol, mas também somos construtores de verdades. Associamos, desde a antiguidade, o perfume ao erotismo. Este anúncio resume-se a mais uma réplica. A vida é feita de pequenos ecos, que educam as mentes e os corpos. Se é suposto o perfume ser erótico, o que o desmente? Se, no futuro, as organizações governamentais, as organizações não governamentais e algumas empresas rotularem, por exemplo, os perfumes como tóxicos, é possível que tóxicos venham a ser.

Sondemos, de forma abreviada, alguns contributos de psicólogos.

“Determinados perfumes podem fazer-nos descair para o domínio do erotismo graças à presença – discreta mas ambígua – de notas animais, como as almíscares ou a algália”. Um parênteses: convém evitar confundir animalidade e erotismo. As “notas animais” geram, quando muito, efeitos humanos

“O perfume de amor não existe (…) numa relação amorosa, a acção desenrola-se em dois tempos. Primeiro, a etapa da sedução, onde se opera uma primeira aproximação dos corpos: somos, então, autorizados a penetrar na esfera do outro, no seu espaço privado, que é, também a sua zona de aromatização (parfumage), onde se captam realmente as fragâncias (…) Quando a relação erótica se instala, instala-se uma outra alquimia. Neste momento, temos sede de carne, de vida à nossa frente… O corpo a corpo esquece o perfume, a excitação exige os odores do corpo verdadeiro e rejeita os artifícios exteriores” (…) Atente-se, também, na reputação das feromonas, sinais odorosos emitidos pelos animais destinados à sedução e à reprodução, cuja existência no homem foi comprovada, mas de modo algum o efeito.” (Ces parfums érotiques. Psychologies. Décembre 2003, pp. 1-2. Endereço: http://www.psychologies.com/Beaute/Parfums/Articles-et-Dossiers/Ces-parfums-erotiques/4).

Um último apontamento. Uma pessoa quando mergulha no perfume de outrem compartilha uma atmosfera olfactiva. Nesta troca há quem não resista a marcar o cheiro do parceiro. Na rua ou em casa, o outro desdobra-se em dois, tantos quantos os perfumes que transporta.

Marca: Ranking. Título: Introducing S&X, The new fragance from Ranking & Azzi. Reino Unido, Outubro 2016.

Sangue

bodyform_blood16O anúncio Blood, da Libresse, é inovador. A maioria dos anúncios a pensos higiénicos e tampões elimina os indícios de sangue ou de desconforto. Este anúncio acentua aquilo que os outros ocultam: o sangue, o sofrimento e a garra. As imagens não são de protecção mas de combate: o sangue e a dor fazem parte da identidade e da acção. Não há tréguas para o espectador. Neste tipo de anúncio, ousado, o lema final reveste-se da maior importância: No Blood Should Hold Us BackLive Fearless. Libresse investe numa imagem diferente da mulher.

Marca: Libresse. Título: Blood. Agência: BBDO London. Reino Unido, Setembro 2016.