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Alan Parker: O muro continua

Alan Parker.

Morreu o realizador de cinema Alan Parker. Associo-o ao Pink floyd – The Wall (1982). Mas realizou muito filmes tão ou mais marcantes: Bugsy Malone (1976); Midnight Express (1978); Fame (1980); Mississippi Burning (1988); The Commitments (1991); Evita (1996)… Várias canções que integraram os seus filmes foram grandes êxitos. Fame conquistou o óscar de melhor canção original. Acrescente-se Midnight Express, Unconfortably Numb ou Midnight Hour. Prefiro não me concentrar nas obras importantes de Alan Parker. Há muito quem discorra sobre assuntos importantes. Vou cingir-me a pormenores, como diria Hercule Poirot, à petites choses de rien du tout, aderindo a uma vocação da insignificância.

Alan Parker iniciou a sua carreira na publicidade. Da extensa lista de anúncios que realizou, retenho dois: o primeiro ao vinho do Porto Cockburns; o segundo aos charutos B&H Special Panatellas. Em ambos, um apurado humor britânico.

Regressando à insignificância. É mais fácil estudar um assunto importante do que um assunto insignificante. Uma autoestrada da informação contra um carreiro de cabras. A originalidade comporta riscos, por exemplo, uma maior probabilidade de errar. Mas é maior a motivação. Não se lambe tanta erva molhada. Custou mais colocar o anúncio Train do que uma série de algumas centenas de vídeos de The Wall.

Marca: Cockburns Port. Título Lifeboat. Direcção: Alan Parker. Reino Unido, 1974.
Marca: B&H Special Panatellas. Título: Train. Direcção Alan Parker. Reino Unido, 1974.

Entre a mão de Deus e o rabo do Diabo

M. C. Escher. Day and Night. 1938

Estranhas as escadas em que desconhecemos se subimos ou descemos, se nos espera a “mão de Deus” ou o “rabo do Diabo”. Coloco duas versões do I Get Up I Get Down, dos Yes: só com a voz de Jon Anderson e com todo o grupo.

Yes. I Get Up I Get Down. Closer to the Edge. 1972. Interpretação isolada de Jon Anderson.
Yes. I Get Up I Get Down. Closer to the Edge. 1972.

As malhas do género

Libresse. #wombstories. 2020.

Três anúncios excelentes,

Tem vindo a crescer o número de anúncios dedicados ao género. Abrangem todas a categorias: transgénero, homossexual, lésbica, heterossexual… A maioria propõe anúncios de promoção. Existem, no entanto, anúncios que, embora centrados no género, não visam a promoção de uma categoria, mas a exposição da sua condição,  sem visar uma “vantagem competitiva”. Parece ser o caso do anúncio Womb Stories, da Libresse. “Histórias de úteros”, com dores e prazer, amor e horror, que revelam uma relação contraditória com corpo e a mente. O anúncio é impactante. A combinação de sequências filmadas e de animação funciona magistralmente.

“And yet the same research found that half of women feel society wants them to keep silent about their experiences, while half of women felt staying silent about their issues damaged their mental health. This leads to a damaging silence around a range of difficult and sensitive issues that women face every day. The physical concern may be treated, but the emotional dimension is often left unheard and overlooked” (https://www.lbbonline.com/news/libresse-tells-a-wombstory-no-ad-has-told-before-in-latest-taboo-busting-ad).

Marca: Libresse. Título: #wombstories. Agência: AMV BBDO. Direcção: Natasha Braier. Reino Unido, Julho 2020.

O anúncio #ShareTheLoad, da Ariel, adopta um discurso feminista num país, a Índia, patriarcal. Teve um impacto mediático e social considerável. Ganhou vários prémios. Trata-se de um anúncio que promove, assumidamente, a condição feminina.

Marca: Ariel. Título: #ShareTheLoad. Agência: BBDO India. Índia, Fevereiro 2016.

O anúncio Francesca, da Diesel, é um misto de exposição de uma condição e promoção de uma categoria.

“No mês do orgulho LGBTQI+, a DIESEL apresenta seu novo filme “Francesca”, dirigido por Francois Rousselet e realizado com o Conselho da Diversity, associação italiana comprometida com a promoção da inclusão social.
O filme criado pela Publicis Itália mostra cenas de uma jovem transgênera e sua jornada durante o processo de transição de gênero. Vemos Francesca, que nasceu menino, se transformar em uma linda mulher, enquanto acompanhamos seu cotidiano, as descobertas dos elementos que compõem o universo feminino e sua relação com a fé, que a leva a buscar a vida em um convento” (https://www.youtube.com/watch?v=535_479z-hM).

Marca: Diesel. Título: Francesca. Agência: Publicis (Itália). Direcção: François Rousselet. Internacional, Junho 2020.

A estranheza da vida

Acabei um artigo, faltam quatro. Uma fordização. Não me queixo. Alguns foram pedidos no ano passado. Sou um compressor compulsivo. Tudo para depois do prazo. Caía bem uma música que erga a vontade mais alto do que uma bandeira. Preciso de um hino. Rock progressivo envelhecido. Pode ser Isn’t Life Strange, dos The Moody Blues? Nada como experimentar.

The Moody Blues. Isn’t Life Strange. Seventh Sojourn. 1972. Live in Royal Albert Hall, 2000.

O homem com a criança no olhar

Kate Bush, menina surpreendente, frágil e firme, teve formação de pianista e violinista. Com 15 anos de idade, cativou a atenção de David Gilmour. Impressionado pelas suas composições disponibilizou-lhe o estúdio, ajudou-a em gravações e, no momento propício, abordou a editora EMI, que assinou contrato com Kate Bush. Kate Bush foi uma “protegida” de David Gilmour. O primeiro disco demorou. Kate Bush funda o conjunto  KT Bush Band, esmera-se na composição e estuda mímica e dança. O professor de dança, Lindsay Kemp, era também professor de David Bowie. A formação estava cinzelada: criação artística, voz e interpretação únicas; coreografia, dança e mímica invulgares. Com o corpo leve e ágil. Em 1978, lança o primeiro álbum: The Kick Inside. Um triunfo: alcança o terceiro lugar no hit-parade britânico, o segundo na Bélgica, na Finlândia, na Nova-Zelândia e o primeiro lugar na Holanda e em Portugal.

A canção Wuthering Heights ascendeu trepou as tabelas. No Reino Unido, Kate Bush foi a primeira autora-compositora-intérprete a atingir um primeiro lugar. Em 1979, Kate Bush faz a sua primeira tournée. Apesar do sucesso, será a última. As tournées não são compatíveis com a criação artística, a qualidade de vida e a dedicação à família, nomeadamente ao filho. Continuará, no entanto, a publicar discos: uma dezena, no conjunto.

Seguem duas canções, Wuthering Heights e The man with the child in his eyes,  ambas do álbum: The Kick Inside. O maior sucesso e aquela que mais impressionou David Gilmour. Naquele tempo, considerava-me vacinado contra o espanto. Soberba de parvo!

Kate Bush. Wutherin Heights. The Kick Inside. 1978.
Kate Bush .The Man with the Child in His Eyes. The Kick Inside. 1978. Ao vivo em 1979.

A arqueologia do prazer

Peter Frampton

Peter Frampton não é o Fred Mercury, nem o Eric Clapton. Mal seria. É um bom guitarrista em maré de bons guitarristas. Conheceu um franco sucesso com o álbum duplo ao vivo Frampton Comes Alive, publicado em 1976. “É considerado o álbum ao vivo mais vendido da História” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Frampton_Comes_Alive!).

De anos em anos, coloco a agulha na faixa Do You Feel Like We Do. Se estou impaciente, começo logo no minuto quatro. Em 1976, vivia em Paris. A minha aparelhagem era um móvel “La voix de son maître”, do tamanho de uma cómoda, com coluna incorporada e, no interior, o gira-discos e o rádio. Uma arqueologia do prazer. Creio que o desgosto, a “eurrância”, radica na mudança de aparelhagem. Hormonas à parte, “La voix de son maître” é outra acústica.

Peter Frampton. Do you feel like we do. Frampton comes alive. 1976.

A era do vazio

Marie Curie.

O mundo de todos os dias esvaziou-se. Mas há formas de abraçar vidas. Por exemplo, cuidar dos outros (vídeo 1) ou cantar para o mundo no deserto de uma estação do metro (vídeo 2).

Anunciante: Marie Curie. Título: Hold on. Agência: Saatchi & Saatchi London. Direcção: Guillermo Vega. Reino Unido, Abril 2020.
Stephen Ridley. A SONG FOR THE WORLD || ‘IMAGINE’ EMPTY METRO STATION PIANO PERFORMANCE LONDON (Coronavirus). Março 2020.

Echo and The Bunnymen

Agora que o tempo pasma, ando apressado. Outrora, na crista das aulas materiais, presenciais e banais, saía a pé de casa para a universidade e, à hora exacta, no lugar certo, a aula acontecia. Agora, na contingência da imaterialidade à distância, ando há três dias a preparar uma aula já preparada. Nem sobram uns minutos para um artigo. Ousemos, mesmo assim, uma pausa no dever. Segue uma versão interessante da canção Forgiven dos Echo & The Bunnymen.

Echo & The Bunnymen. Forgiven. Evergreen. 1997. Acústico ao vivo.

Híbrido de mil faces

Recordando, não se esquece? Gosto de recordar o prazer. E as mágoas? Prefiro não lhes espetar o anzol. Mordem o presente. Duas ou três canções do David Bowie. Das mais antigas. Para descer à cave da memória. When I live my dreams (1967) e Come and buy my toys (1967). Para completar a conta que Deus fez, acrescento Space Oddity, a versão original.

Come and buy my toys. David Bowie, 1967
When I Iive my dreams. David Bowie, 1967
Space Oddity. Versão original de 1969. Álbum London Boy, de 1995.

Blind Faith

Blind Faith. Blind Faith. 1969. Capa.

Ando com a inspiração submersa. Quando se deixa adormecer a razão é muito difícil acordá-la. E quando o corpo não tem juízo, a cabeça é que paga. Vou cingir-me a cinco dedos de música.

Ver o Eric Clapton e o Steve Winwood, membros dos Blind Faifh, “superbanda” dos anos sessenta (1968-1969), a interpretar Presence of the Lord tange o revivalismo. Acrescento três músicas dos Blind Faith.

Eric Clapton & Steve Winwood. Presence of the Lord. Blind Faith (1969). Crossroads Guitar Festival 2007.
Blind Faith. Can’t find my way home. Blind Faith, 1969.
Blind Faith. Well All Right. Blind Faith, 1969.
Blind Faith. Sea of Joy. Blind Faith, 1969.