Archive | pobreza RSS for this section

Com a desigualdade na lapela

William Hogarth – Captain Lord George Graham in his Cabin, ca. 1745

Um artigo para pensar um pouco no muito que já se sabe.

Riqueza vaidosa. Tendências do Imaginário, 29.08.2020

Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Pinturicchio – Madonna with Writing Child. Ca. 1494-1498. Philadelphia Museum of Art. Detail

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.

A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.

Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo

Obras na zona industrial de Alvaredo em Melgaço. 2023. Fotografia de João Gigante
Obras na zona industrial de Alvaredo em Melgaço. 2023. Fotografia de João Gigante

Nos últimos anos, escrevi dois textos que acabaram por não ser publicados.

O primeiro, “Prado Subjetivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, de 2019, ficou congelado no prelo. Coloquei-o no dia 7 de dezembro de 2025 como peça de arquivo no Tendências do Imaginário (ver Eu, a IA e o Ninho).

O segundo, “Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo”, de 2023, entendi enterrá-lo numa gaveta digital até eventual resgate futuro. Passo a arquivá-lo, também, neste blogue. Entretanto, no artigo “Quando a esmola é grande. A industrialização do interior”, no jornal Diário do Minho de 20.02.2024, retomei a reflexão, mas com outra abrangência. Seguem ambos os textos em pdf, sem mais comentários, “para memória futura”.

Texto 1: Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo

*****

Texto 2: Quando a esmola é grande. A industrialização do interior

O valor do papel

O enredo [de INSIGHT] consiste na história do encontro entre uma mendiga idosa e solitária, com uma história de vida trágica, e uma menina alegre. O encontro revela vários aspetos do mundo interior da mendiga, insights sobre a sua vida e sobre o poder da esperança e do otimismo.
O filme convida os espectadores a um processo íntimo de compreensão da sociedade em que vivemos. Mostra como é importante estender a mão generosa às pessoas “transparentes”, que nos tocam, especialmente hoje, quando a tecnologia nos torna mais autocentrados e menos conscientes do que nos rodeia. Cumpre-nos lembrar que a conexão interpessoal entre os seres humanos é insubstituível – ela pode iluminar os recantos mais sombrios do coração de uma pessoa e, assim, melhorar significativamente a sua vida.

Como ilustra a curta-metragem de animação INSIGHT, uma simples folha de papel pode oferecer-se como uma mediação fulcral nas relações humanas. Dobrada ou escrita, dádiva ou contra dádiva.

Sempre cultivei alguma devoção pelo papel. É certo que o digital o está a ultrapassar, numa espécie de viragem civilizacional, viragem que me suscita cada vez mais reservas, menos pelas potencialidades de universalidade, democracia e liberdade e mais pelas realidades de concentração, oligarquia e controlo.

Imagem: Jacques-Louis David. La Mort de Marat,1793

INSIGHT – תובנה: A Short Animation Film. Realização: Salvador Simo. Música: Menni Even – Haim. Orquestra: The Israeli Netanya Kibbutz Orchestra. Israel, colocado em dezembro 2014  

Solidão abençoada

“Os pobres têm gelo no inverno e os ricos no verão” (Anónimo)

O Natal quer-se solidário, não solitário. Caso necessário, imagina-se companhia, e a solidão arrisca tornar-se abençoada.
Gosto do Miguel Torga, em particular dos contos. Manifesta-se sempre grato (re)partilhar este “Natal”; (re)lê-lo, quase um milagre! A neve transmontana pode aquecer os corações.

Imagem: Jean-Pierre Philibert. Le vagabond efficace. 2020

Oásis

Salvador Dalí. Oásis.1946

Ousei queixar-me do vento que, teimoso, levava os meus artigos para o deserto. Nem sombra de reação! Valeu a pena perseverar uma dezena de anos. Surgiram, entretanto, alguns oásis. Na verdade, algum feedback consola.

Por inércia própria, ou alheia, continuo isolado. As saídas resumem-se a afazeres mais ou menos exigentes. A geografia biográfica resulta acanhada: frente ao computador, descubro, crio e escrevo; na varanda, fumo e francisco com a natureza; na cozinha, restauro-me, engulo comprimidos e insisto em fumar, junto ao exaustor; no quarto, escuto música e vejo documentários. Na sala, tento ler, mas à segunda página bocejo e à quinta sonho. Se jardinasse e não pecasse a fumar, não estaria longe da regra de S. Bento. Não sei o que aconteceu, mas o social e o semelhante motivam-me pouco. Neste quadro, a amizade das mensagens eletróncias amigas manifesta-se bem-vinda!

A Lígia Fernandes enviou-me, a semana passada, o anúncio “The Desk Break”, da ASICS. Já o tinha publicado no Tendências do Imaginário logo a seguir à estreia, no primeiro de outubro (ver Movimento e Poder) . Mas, como diria McLuhan, mais do que o conteúdo, o que conta é o gesto. Tanto assim que recoloco o anúncio. Já somos dois a apreciá-lo! Acresce que, graças à iniciativa da Lígia, acabei por resgatar o anúncio “Aidez-nous à sauver des vies!”, da Croix-Rouge Française, esquecido, como muitos outros, na lista de marcadores.

Marca: Asics, Título: Desk Break. Agência: Golin London. Direção: Peter Banks. 23 de setembro 2024. Tem legendas em português.
Anunciante: Croix-Rouge française (Indre et Loire). Título: Aidez-nous à sauver des vies / Journées Nationales 2019. França, 2017 / 2019

Apesar de comercial, considero “The Desk Break” um anúncio de consciencialização; “Aidez-nous à sauver des vies”, de sensibilização. Consciencialização / sensibilização, quem é capaz de enxergar a diferença?

Muros e Marés

Acabei de escrever um artigo sobre o processo de democratização após o 25 de Abril. Uma oportunidade para recordar uma das primeiras medidas do MFA: a abolição da censura prévia, rebatizada como “exame prévio” por Marcello Caetano.

O controlo e a filtragem estão de vento em popa. Sempre, agora como dantes, para proteger eventualmente alguém de preferência com um elevado sentido de missão.

Em algumas universidades, os projetos de investigação começaram a ser submetidos numa fase inicial, antes de prosseguir, à aprovação, ou validação, por órgãos próprios, designados “comissões de ética”.

Seguem dois anúncios que, contra muros e marés, apostam na esperança: o primeiro, The Journey, da 84 Lumber, foi censurado no Super Bowl 2017 pela Fox; o segundo, Make Love Not Walls, da Diesel, quer-se um hino ao amor.

Marca: 84 Lumber. Título: The Journey (completo). Agência: Brunner, Pittsburgh. Direção: Cole Webley. Estados-Unidos, fevereiro de 2017
Marca: Diesel. Título: Make Love Not Walls. Direção: David LaChapelle. Estados-Unidos, 2017

Recordar o que não se viveu

O INE (Instituto Nacional de Estatística) estima que, em Portugal, a população residente com menos de 50 anos ascendia, em 2022, a cerca de 5 713 000 pessoas (54,7% do total). Mais de metade dos “portugueses” nasceu, portanto, após o 25 de Abril de 1974. O documentário Como era Portugal antes da Democracia? aborda o período anterior à Revolução.

O documentário consiste numa “montagem para utilização didáctica em aulas de História realizada a partir de extractos da série Portugal, um Retrato Social, de António Barreto e Joana Pontes”. Bastante abrangente, dedica poucas palavras e imagens à emigração e ao contrabando, estimados, porventura, menos relevantes para o propósito geral.

Rodrigo Leão. Portugal, Um Retrato Social. 2007

No canal do YouTube de João Cardoso, o documentário soma, desde 2015, mais de1 089 138 consultas. Convido a espreitar, sobretudo, quem nasceu após o 25 de abril de 1974. Recordar o que não se viveu talvez resulte uma experiência interessante.

Como era Portugal antes da Democracia? – Montagem a partir de extratos da série Portugal, um Retrato Social de António Barreto e Joana Pontes, estreada na RTP1 em 2007. Duração: 39:22

Bons e Simpáticos

Ser bons e simpáticos não basta, pois não? No presente tal como no passado e, provavelmente, no futuro.

Anunciante: Shelter. Título: Good as Gold. Agência: Don’t Panic London. Reino Unido, novembro 2023
Anunciante: Shelter. Título: Brave Face. Agência: Don’t Panic London. Direção: SI&AD. Reino Unido, novembro 2022.

Filhos da Mãe: Les Enfoirés

“Les gens qui rêvent font des révolutions” (Les Enfoirés)

No bar do Instituto de Ciências Sociais, apenas os três funcionários. Com as memórias sentadas à minha volta, apetece-me sentir a nortada no rosto e a generosidade ao alcance dos dedos. Despeço-me rumo a Moledo. Caminho, pasmo e janto sardinhas com alface, tomates e pimentos colhidos na horta do Sr. João. No restaurante, apenas se ouve o zumbido da televisão que, como uma mosca, revolve o mesmo lixo: a comissão de inquérito para lamentar. Em casa, carrego baterias, as baterias da fé. Com os “filhos da mãe” (Les Enfoirés; motherfuckers).

Exemplo raro de generosidade, Les Enfoirés (http://www.enfoires.fr) é um coletivo de artistas criado em 1985 por Coluche com o objetivo de contribuir para a sua principal iniciativa de solidariedade: Les Restos du Coeur. Seguem quatro canções. Uma sequência com trinta interpretações dos Enfoirés está disponível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=XcmG2RZYxDs.

Coluche, por Catherine Wernette

Didier Barbelivien & Olympe & Stanislas / Les Enfoirés. Elle était si jolie (cover de Alain Barrière, 1963). 2014
Celine Dion & Maurane / Les Enfoirés. Quand on a que l’amour (cover de Jacques Brel, 1956). 1996
Les Enfoirés. Ta Main (cover de Grégoire, Toi+Moi, 2008). 2010
Les Enfoirés. Rêvons. 2023 Enfoirés un jours, toujours. 2023