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Peregrinos

Caminho para Santiago. Oporto Discovery Tours.

Passam tantos peregrinos a caminho de Santiago! Vejo-os da varanda enquanto fumo um estúpido cigarro. Homens, mulheres, jovens e velhos, magros e gordos, altos e baixos, portugueses e estrangeiros. Sós ou acompanhados, com ou sem bordão, irradiam ânimo e vontade. Até parece que o homem foi feito para andar. E não vão a banhos! Seguem as setas amarelas, uma espécie de GPS em escala real. Sou céptico de estaca, mas muito me aprazeria afirmar que tenho fé nestes homens de fé. Mas não posso: as maiores guerras, as maiores perseguições e os maiores disparates da humanidade foram conduzidos por homens a transbordar de fé. E por descrentes, também. Tudo o que é humano tem sangue de besta.

RotasPortuguesas

Rotas para Santiago de Compostela

O que move estes pés sofridos? A fé no Santo, naturalmente. A troca com o Santo, também. Promessas e penitências. O sacrifício pessoal pela generosidade divina. Cumpre-se promessa por si, mas também por outrem e para outros. O caminho de Santiago é, assim, sacrificial na plena acepção da palavra: sofre-se não tanto por si e mais pelos outros. A humanidade não precisa de altar para ser generosa. Existem, contudo, outros motivos, mais profanos, para tamanha dedicação: a saúde e a beleza, hoje confundidas com a magreza; e o resgate de si numa espécie de peregrinação interior ou de eremitagem ambulante.

Um destes dias, não resisto ao vício. Pego em quatro cadeiras e vou entrevistar peregrinos na rua. Por enquanto, entretenho-me com um documentário do tempo de Salazar. Encontrei-o no portal RTP Arquivos: Caminhos Portugueses de Santiago, de 1965, realizado por Adriano Nazareth. Constitui um bom exemplo da retórica do Estado Novo.

O vídeo é quase monopolizado por imagens de monumentos da rota de Santiago: Igrejas, capelas, castelos e pontes. De preferência, românicos ou góticos. De Lisboa até Santiago. Mencionam-se os reis, as rainhas e outros peregrinos ilustres, como o tio de Nuno Alvares Pereira. E o povo, os caminheiros? O povo aparece figurado, como manda a propaganda, em desenhos estilizados. As tais figurinhas de presépio de que falava o Conde de Aurora no Roteiro da Ribeira Lima (1929). E o comentário? Imagem a imagem, palavra a palavra, oferece-se como uma catequese, ou uma gesta, que convoca harmoniosamente religião e história. Carregar na imagem para aceder ao documentário.

Caminhos de Santiago. RTP

Caminhos Portugueses de Santiago. Realizador: Adriano Nazareth. 1965. RTP Arquivos.

Por hoje já ruminei quanto baste. Mas não me despeço sem um desafio. Veja o documentário; percorra, em seguida, alguns vídeos na Internet respeitantes à peregrinação a Santiago. Que diferença de foco! Uma última sugestão: o filme Fátima, de João Canijo (2017). Decididamente, na humanidade não há figuras de presépio!

Fátima de João Canijo. Portugal, 2017.

Nós somos imagens que passam

Cartaz do Cinematógrafo Lumières. Na Exposição de Estocolmo. Suécia. Por Carl August Olausson. 1897.

Cartaz do Cinematógrafo Lumière. Na Exposição de Estocolmo. Suécia. Por Carl August Olausson. 1897.

No anúncio Hunt, da Telefónica, meio mundo anda a ecranizar a outra metade. Na verdade, andamos a ecranizar-nos uns aos outros. Nada escapa: nem a sapatilha aerodinâmica, nem o cabelo inteligente. Ecranizamo-nos pela frente, ecranizamo-nos por trás. É uma partilha compulsiva de imagens de si e do outro, numa ecranização global. Somos, em termos de imagens, uns arroseurs arrosés. A geração do pós-anonimato ou, se se preferir, da pós-intimidade. Nous sommes les enfants des Lumière(s). “Nós somos imagens que passam, num mundo transformado em ecrã”. O que me irrita, solenemente!

Anunciante: Telefonica Movistar & Motorola.Título: Hunt. Agência: McCann Erickson Madrid. Espanha, Fev. 2010.

Les frères Lumière. L’Arroseur arrosé. 1895.

Originalidade aplicada

NosferatuO Brasil é uma potência do audiovisual. A originalidade desfruta de boas condições. Encontrei em iniciativas brasileiras uma qualidade relativamente rara que denomino originalidade aplicada. Quando uma inspiração não se reduz a um fogo-de-artifício, mas se traduz por uma pragmática consequente, estamos próximos da originalidade aplicada.

Há meio século, coloriam-se os filmes a preto e branco. Lembro-me do Jour de fête, de Jacques Tati (1949). A Getty Images Brasil propôs-se não colorir mas sonorizar o filme mudo Nosferatu (1922). Um projecto e uma obra únicos! O resultado compensa. Segue o trailer (pode aceder ao filme Nosferatu sonoro completo no endereço: http://www.nonsilentfilm.com/en/).

Anunciante: Getty Images Brasil. Título: The Non Silent Film. Agência: Almap BBDO Brasil. Brasil, Abril 2017.

O espelho invertido

Detalhe da Tapeçaria do Apocalipse, por Jean Bondol e Nicholas Bataille, no Castelo de Angers. 1382.

Detalhe da Tapeçaria do Apocalipse, por Jean Bondol e Nicholas Bataille, no Castelo de Angers. 1382.

Quando a auto-derisão se extrema, é bom sinal, é sinal de que a identidade o admite. Pelos vistos, nem fumar, nem ser doente mental conseguem ser piores do que ser argentino! O absurdo, bem destilado, é um bom comunicador.

Marca: Argentina New Cinema Fillm Festival. Título: Transplant. Agência: Connil Advertising Los Angeles. Direcção: Dos Ex Maquina, USA, 2016.

Ontem, dia 13 de Maio, Salvador Sobral, representante de Portugal, venceu o Festival Eurovisão da Canção de 2017. Foi a primeira vitória de Portugal, com a maior votação de sempre. Esta notícia é sobejamente conhecida em Portugal, mas como cerca de 80% das consultas deste blogue provêm do estrangeiro, partilho a boa nova.

Salvador Sobral – Amar Pelos Dois (Portugal) Eurovision 2017 – Official Music Video.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

Surreal: o homem piano

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Encontrei no sapatinho das maravilhas este anúncio do Banff Center for Arts and Creativity, do Canadá. Estranho e delirante, vibra nos meus sentidos com uma invulgar ternura surreal. Discute-se nas redes sociais se é ou não arte. Afirma-se mais original, criativo e impactante do que muita arte que tive o privilégio de observar. Mas, se é ou não arte, que o ponderem os juízes da estética. Lembra-me arte. Arte da melhor! Por exemplo, Hieronymus Bosch (ver https://tendimag.com/2016/12/19/hieronymus-bosch-death-metal/) ou François Desprez (ver https://tendimag.com/2012/04/21/criaturas-pantagruelicas-1/).

A lembrança é amiga da vadiagem do espírito. Lembrei-me dos Ban (Irreal Social, Surrealizar, 1988). Conquistaram um apreciável sucesso nacional no final dos anos oitenta. É um grupo com música identificável. Uma das qualidades para ser digno de memória. No Tendências do Imaginário, os visitantes portugueses estão em minoria. Não admira. O blogue fala do mundo em língua portuguesa. Podia falar de Portugal, ou do mundo, em língua estrangeira. Sempre seria mais friendly! Seja como for, Portugal, embora nem sempre pareça, faz parte do mundo. Venham os Ban! Pim-Pam-Pum!

Marca: Banff Center. Título: Things you can’t unthink. Agência: Cossette Toronto. Direcção: Rodrigo García Saiz. Canadá, Abril 2017.

Hieronymus Bosch. Jardim das Delícias. Instrumentos musicais.

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Hieronymus Bosch. Jardim das delícias. Inferno. Detalhes. 1503-1504.

François Desprez. Songes Drolatiques. Homens instrumentos musicais.

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François Desprez. Songes Drolatiques. 1565.

Ban, Irreal Social, Surrealizar, 1988.

Um lugar para dois

Du telecom

Parodiar o cinema é uma doença infantil da publicidade. A Du Telecom, dos Emirados Árabes Unidos, fez uma dúzia de anúncios, muito premiados, a ridicularizar diversos géneros de filmes. Escolho três: Too Silly; Too Scary; Too Boring. Acrescento o recente The man sitted next to you, que parodia o público. Em suma, convém ir ao cinema acompanhado. Dedico estes anúncios ao meu especialista de cinema: Nelson Zagalo.

Marca: Du Telecom. Título : Too Silly. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2015.

Marca: Du Telecom. Título : Too Boring. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : Too Scary. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, 2014.

Marca: Du Telecom. Título : The man sitted next to you. Agência: Leo Burnet Dubai. Direcção: Ali Ali. Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2017.

À espera de São Valentim

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O anúncio A love song, da The Climate Coalition, é soberbo. Graças à imagem, à música e à palavra. A música é um original dos Elbow e o poema, um original (I’ve Heard Talk) de Anthony Anaxagorou. As primeiras imagens desfilam com o Blade Runner no retrovisor, nomeadamente, a inesquecível sequência final. Um relance à ficha técnica do anúncio suporta o déjà vu. A agência que produziu o anúncio,  uma curta-metragem, é a Ridley Scott Associates Films. Ridley Scott foi o realizador, entre outros, de Alien (1979), 1492 – A Conquista do Paraíso (1992), Gladiador (2000), Prometheus (2012) e, naturalmente, Blade Runner (1982).

Este ano, sugeri aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho inovador: escolher, analisar e comparar, seja para aproximar, seja para contrastar, duas obras de géneros distintos, por exemplo pintura e publicidade. Não é difícil, basta estar atento. Neste anúncio temos, pelo menos, duas obras de géneros distintos passíveis de diálogo: a sequência final do filme Blade Runner e a sequência inicial do anúncio A Love Song. Este anúncio, um poema audiovisual, convoca, certamente, outras obras de outros géneros. A intertextualidade é profusa e vadia.

Anunciante: Climate Coalition. Título: A love song. Agência: Ridley Scott Associates Films. Direcção: Stuart Rideout. Reino Unido, Fevereiro 2017.

I’ve Heard Talk – By Anthony Anaxagorou

I’ve heard talk of a quiet violence
waiting at the water’s edge
where children learn the earth by golden shores
and gulls decorate shadows with all their height.

I’ve heard the mountains speak of their agony
a gripping smog hurting their stone –
the sparrow and the wren salvage hope from the wind
casting their song over the ears of morning,

I’ve seen the mountaineer conquer
the obstinacy of rock with the smallest
of hands, breath leaving his mouth
like an eruption of ampersands.

I’ve heard the forest’s thin call
as it’s left to shudder under its heavy load,
I remember a time it would climb
to paint the world with its green

where now will the lovers go to know each other’s palms?
How will kisses announce themselves to lips
if the path we’ve walked for so long
becomes lost to the noise we share?

I’ve seen how the willow holds its perennial lean
while cliffs frail as deceit drop to the sea.
A rainbow bought and sold for its skin
is worn like victory by another skyscraper.

Lakes still embrace shoals of fish
while icebergs melt like snow on lips.
Seasons start to run from each other
while love’s left to shiver on the edge of a leaf.

But there’s still time to rescue the tranquillity
the fragile space between parks, pitches and sea –
the cosmos in all its wonderment and us,
a blink in its starry eye.

I’ve heard of this kind of dying before
slow, white and expansive. I’ve followed
the groan and made my lungs from the trail.

We are building new rain,
We are harbouring less sight
an infant tilts his head skywards
and asks his mother what’s beyond
she takes him by the hand and says

we will shape the brilliant and new
I very much like you have been saved so many times by a view
yesterday the sun whispered into the moon’s ear
and the moon trembled, turning white with fear.

Anthony Anaxagorou

Azul, rosa e âmbar. Paleta simbólica.

significado-das-cores

Significado das cores.

O mundo veste azul e rosa. Às vezes, azul sobre rosa, como a menina com o smartphone. Uma pincelada dissonante na geometria das cores. A Cinderela do smartphone é uma mulher vestida de azul. Personalidade? Segunda pincelada dissonante. Azul costuma ser associado por psicólogos e decoradores à serenidade, à harmonia e à maturidade: e, pelo comum dos mortais, ao sexo masculino. O rosa respira desejo, ternura e ingenuidade. Corresponde ao sexo feminino. Azul mais rosa dá roxo, todo espiritualidade, magia e mistério. A mistura das três cores não basta para produzir o branco, cor da paz, da harmonia e da pureza. Quando uma pessoa não tem que dizer, escreve com o cérebro em velocidade de cruzeiro. Devia limitar-se a ver o anúncio brasileiro Azul, da Samsung (vídeo 1). Mas caso insista na incontinência colorida, o melhor é mudar de tom, para um azul aveludado, e, sobretudo, de cor, de rosa para âmbar (vídeo 2).

Marca: Samsung S7 Edge. Título: Azul. Agência: Leo Burnett Tailor Made. Direcção: Carol Markowicz. Brasil, Janeiro 2007.

Mysteries of Love. Música por Angelo Badalamenti. Com Kid Moxie. Blue Velvet (1986), por David Lynch.

Repetição

likewater

Ao arrepio das águas de Heráclito, podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio. Acontece repetir-me, não no absoluto, mas no relativo em que vivo. Na verdade, mesmo quando me repito, inovo. Volvidos seis anos, repesco este anúncio, logo repito. Mas não o vejo com os mesmos olhos. Entretanto fiquei pitosga. O mundo e o anúncio perderam luz e contraste. Perderam brilho e tornaram-se mais macios. Para compensar, a qualidade do vídeo é superior. Em suma, repito-me sem me repetir. O comentário, por preguiça, permanece o mesmo:

“Os anúncios de festivais de filmes costumam ser bons. Este não destoa. Fragmentos, metal, carne, metamorfose… E uma excelente sincronia entre a música e a imagem. A música esculpe e a imagem dança”.

Anunciante: Bitfilm Festival Bitfilm Festival 2007 (Lotus Trailer). Agência: Sehsucht. Alemanha, Agosto 2007.