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Moinhos do coração

Michel Legrand

A canção The Windmills of Your Mind inspirou imensas interpretações. Por exemplo, Alison Moyet, Petula Clark e Sting. A origem é francesa. É da autoria de Michel Legrand, reputado compositor de músicas para filmes. The Windmills of your Mind pertence à banda sonora do filme The Thomas Crown Affair, de 1968. Michel Legrand ganhou um Óscar pela melhor canção original (The Windmills of your Mind). Recebeu mais dois Prémios da Academia pelas bandas sonoras de Summer of ’42 (1971) e Yentl (1983). Segue a versão interpretada por Abbey Lincoln, bem como a versão francesa, Les Moulins de Mon Coeur, interpretada pelo próprio Michel Legrand.

Abbey Lincoln. The Windmills of Your Mind (de Michel Legrand). Over the years. 2000.
Michel Legrand plays and sings Les Moulins de Mon Coeur. 1969

Depois do fim

Legends of the Fall

Pensei colocar uma música do Rachmaninov. Passei algum tempo a decidir a obra: concerto No.2 in C minor, op.18 [Adagio sostenuto]. Passei ainda mais tempo a escolher a interpretação: Hélène Grimaud (piano), Claudio Abbado (direcção). Tive um pressentimento: já coloquei Rachmaninov no Tendências do Imaginário? Em 31 de Agosto de 2019: a mesma música e a mesma interpretação. Uma perda de tempo? Não, aprendi que sou previsível.

Hoje, tomei banho em mel. Só histórias de amor! Daquelas que terminam mas continuam. Por exemplo, o filme Love Story (Oscar em 1970). Cinquenta anos depois, ainda me comove. Segue o trailer do filme. Francis Lai, o autor, compôs cerca de sessenta músicas de filmes, tais como Un Homme et Une Femme (1966), Emmanuelle (1975) e Bilitis (1977).

Francis Lai lembra-me James Hormer, compositor de uma centena de músicas de filmes, tais como  An American Tail (1986), Field of Dreams (1989), Glory (1989), Braveheart (1995) e Titanic (1997). Acrescento a música do filme Legends of the Fall (1995).

Francis Lai. Love Story. 1970.
James Horner. Legends of the Fall – The Ludlows. 1995.

A desgraça humana

O tempo anda arredio. Foge! Há músicas que convocam a desgraça humana. Por exemplo, The Cold Song (1691), de Henry Purcell (ver interpretação de Klaus Nomi: https://tendimag.com/2019/02/20/apologia/), Na Gruta do Rei da Montanha (1876), de Edvard Grieg (ver https://tendimag.com/2020/02/05/na-gruta-do-rei-da-montanha/) e Danse Macabre (1874), de Camille Saint-Saens (ver https://tendimag.com/2019/11/01/feliz-dia-dos-mortos/). Um bom exemplo de música da desgraça humana é a Psycho Suite, de Bernard Herrmann (1960). Se o tempo for seu amigo, oiça até ao fim. Oito minutos bem compensados. Como pode ser bela a música da desgraça!

Bernard Herrmann. Psycho Suite (filme Psycho, de Alfred Hitchcock, 1960). BBC Concert Orchestra. Royal Albert Hall. 2011.

O Muito Povo

“Não são, portanto, os próprios factos que tocam a imaginação popular, mas, antes, a maneira como eles são organizados e apresentados. É necessário que através da sua condensação, se assim me posso exprimir, eles produzam uma imagem atraente que preencha e obceque o espírito. Quem conhece a arte de impressionar a imaginação das multidões conhece também a arte de as governar” (Gustave Le Bon, Psychologie des foules, 1895).

Estou farto de pensar! Incomodo os neurónios para nada. Prefiro a música. Fecunda o cérebro e estremece o corpo. Observaram a multidão do memorável concerto dos R.E.M. (ver vídeo 1)? Um exagero de gente excitada. Massa a vapor. Pronta para o impulso, para a mobilização. Fico sempre dividido quando deparo com uma multidão: maravilha ou monstro, Bela ou Besta, Gandhi ou Lynch? As coreografias e os ecos são recorrentes nos concertos de música rock, mas não só. Fascina-me a sincronização colectiva. Como é possível tanta emoção ordenada, tanta gente a funcionar como uma única pessoa? Uma multidão, ao mesmo tempo alinhada e inflamada, intimida. A engrenagem do “muito povo” não é espontânea, carece aquecimento e orientação. A minha relação com a multidão sofre de um trauma que me tolda a lucidez: a multidão em transe, pela paz ou pela guerra, lembra-me, obtusamente, o filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl (vídeos 2 e 3). E, no entanto, não há nada mais humano do que a turbulência de um oceano de gente deslumbrada.

R.E.M. Everybody Hearts. Automatic for the people. 1992. Ao vivo: Live 8 – 2005.
Excerto 1 do filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, 1935.
Excerto 1 do filme O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, 1935.

Três em um

A surpresa mora na Internet. Por vezes, boas surpresas. Desesperado de encontrar um bom vídeo com a música Because The Night, de Patti Smith, percorri a lista do Google quase de fio a pavio. Deparei com este vídeo, cuja imagem consiste num extenso e desinibido cruzamento de duas citações: o soberbo anúncio Odyssey, da Levi’s (2002) e o perturbador filme The Million Dollar Hotel, de Wim Wenders (2000). Nem mais, nem menos. O resultado compensa. Felicito o autor.

Seguem o vídeo para a música Because The Night, de Patti Smith, o trailer do filme The Million Dollar Hotel, de Wim Wenders, e o anúncio Odyssey, da Levi’s.

Patti Smith. Because The Night. Easter, 1978. Kegio, 2008.
Trailer de The Million Dollar Hotel, filme realizado por Wim Wenders. 2000.
Título: Odyssey. Agência: Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido. Jan. 2002.

Arrepio

O terror não assombra o Tendências do Imaginário. Convoca bastante a morte, mas pouco o medo. Nunca se sabe o que é fonte de terror. Depende da pessoa e dos seus fantasmas. Projectei numa aula o filme A Festa de Babette. Para treinar uma micro-sociologia da cultura e ilustrar como uma forma social, o banquete, pode transfigurar as pessoas. Uma aluna horrorizou-se com as imagens da confecção dos alimentos. O filme Brahms: The Boy II é um filme de terror que estreia no dia 21 de Fevereiro de 2020. Alguns episódios lembram o Exorcista. Segue o trailer, um produto da QUAD.

Brahms: The Boy II. Trailer. Produção: QUAD. Direcção: William Brent Bell. Janeiro 2020.

MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Prémio

MDOC-Cartaz da edição de 2019

“Deixem escorrer o crepitar do pensamento” (Álvaro Domingues, Viste aquela galinha gigante?, Público, 29 de Dezembro de 2019.

Mencionei, repetidamente, no Tendências do Imaginário, o festival Filmes do Homem, entretanto, rebatizado, por censura feminista, MDOC – Melgaço International Documentary Film Festival. Procuro fazer o que me apetece e discorrer sobre aquilo que me interessa. Designação à parte, gosto do MDOC. A plataforma UM-Cidades concede, anualmente, por concurso, prémios aos municípios que se destacam pelas boas práticas. Este ano, “na Categoria Município Projeto da região Norte, com menos de 20 mil habitantes, o vencedor foi Melgaço, com o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço” (Agência Lusa, 15 de Novembro de 2019).

Felicito a Associação Ao Norte e a Câmara Municipal de Melgaço. Para festejar, o Prelúdio do Te Deum (c. 1690) de Marc-Antoine Charpentier, que foi tema das emissões da Eurovisão. Condiz com a vocação internacional do Festival. Charpentier não constava entre os músicos favoritos de Louis XIV. Não obstante, o Te Deum era capaz de fazer marchar os cavalos de bronze das estátuas equestres do Rei Sol.

Marc-Antoine Charpentier. Te Deum – Prelude (c. 1690).

O regresso de E.T.

Xfinity. A Holiday Reunion. 2019

Trinta e sete anos depois, um pequeno remake do filme E.T. O extraterrestre visita o amigo, e a família, conhece as novas tecnologias e repete momentos mágicos. Parte, mas deixa um portal para o coração. É uma história de Natal, “a Holiday Reunion”. Para crianças, das mais pequenas às mais crescidas (a geração E.T. ultrapassa os cinquenta anos). Uma aposta forte da marca.

O murmúrio e o grito

As questões de identidade constituem uma fonte incansável e delicada de discursos. A publicidade não se faz rogada. A propósito, por exemplo, de brinquedos, do cancro da mama ou da assunção de género. Pode significar-se uma identidade discretamente, em modo quase confidencial. Dispensa-se gritar ou arranhar sensibilidades. Há anúncios que transpiram subtileza, outros sopram trombetas num filme mudo.

Marca: Dreamland. Título: Déballe tes rêves. Agência: Mortierbrigade (Bruxelles). Direcção: Marit Weerheijm. Bélgica, Novembro 2019.
Marca: Pink Ribbon. Título: Finally. Agência: Mortierbrigade (Bruxelles). Direcção: Marit Weerheijm. Bélgica, Setembro 2018.

Para aceder ao anúncio seguinte, carregar na imagem.

Anunciante. 22nd San Francisco International Lesbian & Gay Film Festival. Título: Au cinéma. Estados Unidos, 1998.

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.