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Sinto, logo insisto. Duas epifanias

Da noite de Natal até ao fim do ano, estive com gripe A. Isolado, até a escrita ficou constipada. Uma privação séria porque alinhar letras é um dos meus prazeres prediletos. Faço-o mais pelo gozo que me proporciona do que pela antecipação da leitura alheia, que me escapa. Regresso, portanto, prazenteiro, às imagens, metáforas, ironias, trocadilhos, paradoxos, hipérboles, elipses, alusões e ilusões que encantam o meu deserto.

Na madrugada de 30 de dezembro, fui ao Hospital de Braga para “fazer análises”. Nada de novo! Inesperadamente, ocorreu uma espécie de epifania quando fui “picado”, com sublime doçura, por uma donzela que espeta agulhas como setas de cupido. Certamente, uma descendente de Florence Nithingale, a célebre “dama da lâmpada”.

Imagem: Caravaggio. Amor Vincit Omnia, ca. 1602

[Durante a Guerra da Crimeia] “Escolhi os plantões, porque sei que o escuro da noite amedronta os enfermos. Escolhi estar presente na dor porque já estive perto de muito sofrimento. Escolhi servir ao próximo porque sei que todos nós um dia precisamos de ajuda. Escolhi o branco porque quero transmitir paz…”
(Florence Nightingale).

Imagem: Painting of Nightingale by Augustus Egg, c. 1840s

Estranhamente mimado num hospital apinhado, desgastado e combalido, surpreendi-me a querer prolongar o “sacrifício”:

  • Talvez seja melhor esperar mais um pouco! Tomo aspirina por causa do coração…
  • Devia ter dito antes. Deve dizer sempre antes. Nessas circunstâncias, tomamos outros cuidados.

Mas o serviço não se compadecia com demoras fúteis. Despedi-me com um penso no braço do tamanho do carinho recebido.

Mal andam as coisas no reino de Alexandria quando as seringas e os biscoitos despoletam epifanias! Não escolhemos, porém, os gatilhos da ternura.

Regressei a casa mais animado. Mas aquela rara pitada de mimo sabia a pouco. Como se diz, o mal está em começar. Se desejava mais, só restava uma solução: mimar-me a mim mesmo.

Encomendei uma “tarte da avó”, framboesas, cerejas (do Chile), mexilhões e linguado. Nem mais, nem menos.

Peguei numa cereja lustrosa e carnuda. Dei uma dentada delicada, como num mamilo vegetal, com o suco púrpura a escorrer pelos lábios.

Uma segunda epifania.

E, como Marcel Proust, regredi à infância.

Morava numa “casa de brasileiro” apenas com o avô e uma tia, uma das minhas mães (ver O menino de suas mães). À noite, escutava o “nosso” programa na rádio: Quando o Telefone Toca. Os sucessos e os intérpretes repetiam-se, a pedido do público, de semana em semana, mês após mês: “Tombe la neige”, de Adamo, “Non son degno de te”, de Gianni Morandi, “Oração”, de António Calvário, “A Casa da Mariquinhas”, da Amália Rodrigues, “La vida sigue igual”, de Julio Iglesias, “Delilah”, de Tom Jones…

Um nada mais recente, Nicola Di Bari era um dos “cantores residentes”. Recordo “El corazón es un gitano” (original 1971); “Guitarra Suena Más Bajo” (original 1971); e “Como Violetas” (1972).

Enquanto houver memória, a infância acompanha-nos durante toda a vida.

Nicola Di Bari – El corazón es un gitano. Original italiano, 1971. Castilla y León Televisión. Vamos a Ver, 12/11/2019
Nicola Di Bari – Guitarra Suena Más Bajo. 1971
Nicola Di Bari – Como Violetas, 1972. “En vivo desde México en programa mexicano de tv”. Colocado em 17/05/2010

Restolho dos Serões dos Medos

Serões dos Medos. Casa da Cultura, Melgaço, 24.10.2025. Fotografia de Marco Gonçalves

A quarta edição dos Serões dos Medos (sexta, 24 de outubro) quase encheu o auditório da Casa da Cultura de Melgaço (com capacidade para 195 pessoas). De ano para ano, cada vez mais jovens e forasteiros. Uma iniciativa original, imaginativa e ousada, a assumir a população, simultaneamente, como protagonista e público. Em suma, um enxerto que pegou no programa mais alargado da Noite dos Medos.

Serões dos Medos. Vídeo de apresentação. Município de Melgaço, 24 de outubro de 2025

Mal começo a falar, após a exibição do vídeo de apresentação, um frisson de assombro e espanto apodera-se da audiência: uma “alma do outro mundo”, uma noiva penada translúcida, hasteada à minha esquerda, de tamanho natural, põe-se a estremecer teimosa e ostensivamente…

Não tive outro remédio, senão prosseguir o discurso, como se nada fosse.

Imagem: Noiva Penada. Noite dos Medos. Melgaço

Estive demasiado tagarela. Ainda mais do que de costume. Talvez por causa 1) da cafeína da coca-cola que os meus tios me ofereceram, b) de eventuais fluídos de papagaio provenientes da mediunidade da Mariana, sentada, eloquente e bem-disposta, ao meu lado, ou c) da intenção de aliviar a carga sobrenatural com disparates do tipo:

“há uns tempos, não me largavam os pesadelos com entes falecidos. Antes de deitar, bebia café com leite acompanhado com pão e queijo. Por obra e graça de um sexto sentido, antecipei a refeição uma hora. Desapareceram os pesadelos e as visitações do Além”.

Como nas edições anteriores, sem tempos mortos entre as 21 horas e perto das doze badaladas, confesso que acabei por sentir o espírito maligno do tabaco a chamar por mim. No fim, felicitei o Abel Marques pela organização, com destaque para o vídeo de abertura e o efeito da “boneca animada”. Disse-me que não foi de propósito. Pois, pois… acode-me o testemunho contado durante a sessão por um primo:

“O meu avô residia no lugar da Lavandeira e namorava no lugar dos Bouços, ambos da freguesia de Prado, a uma distância de perto de dois km, por carreiros estreitos, num tempo em que não havia eletricidade. Numa noite de luar, quando regressava a casa, a meio do caminho, no lugar da Barronda, sente-se agarrado pelo ombro, faz força para se soltar e vê no chão a sombra de algo que pairava no ar. Desata a correr, sem se atrever a olhar para trás. No dia seguinte, volta ao mesmo local: a boina baloiçava numa silva”.

Até para o ano, se os astros assim o entenderem! Entretanto, na próxima sexta, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos.

A mobilização das identidades locais. O caso da aldeia da Varziela de Castro Laboreiro

Acaba de ser publicado na revista Trabalhos de Antropologia e Etnologia (2025, volume 65, pp. 379-398) o artigo “Varziela – Do comunitarismo agro-pastoril às redes sociais”, da autoria de Álvaro Domingues.

Chegou a estar previsto integrar este estudo na revista Boletim Cultural nº 11, da Câmara Municipal de Melgaço, lançada em janeiro de 2025, mas não se proporcionou.

Centrado em Castro Laboreiro, nomeadamente na aldeia de Varziela, o artigo constitui, antes de mais, um ensaio sobre a mobilização das identidades locais na era da globalização, no caso vertente um projeto de aproveitamento turístico por um influencer de um lugar (destino) recôndito com selo (#) de autenticidade cultural e qualidade ambiental.

Centrado em Castro Laboreiro, nomeadamente na aldeia de Varziela, o artigo constitui, antes de mais, um ensaio sobre a mobilização das identidades locais na era da globalização, neste caso, a propósito de um projeto, promovido por um influencer, de aproveitamento turístico de um lugar (destino) recôndito com selo (#) de autenticidade cultural e qualidade ambiental.

Para aceder ao artigo através do link respeitante à globalidade da revista, carregar na imagem com a capa ou no seguinte endereço: https://revistataeonline.weebly.com/uacuteltimo-volume.html

Acrescento um vídeo com o projeto de aproveitamento turístico da aldeia da Varziela programado pelo  influencer João Amorim.

Comprei MEIA ALDEIA por 100 000 € – O projeto. Follow the Sun. Colocado em 17.03.2024

“Medos” voltam a “assombrar” Melgaço

Sexta, 24 de outubro, pelas 21 horas, haverá mais uma edição dos Serões dos Medos, dedicada ao “sexto sentido”, na Casa da Cultura, em Melgaço. Na semana seguinte, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos. Entretanto, pode visitar, até ao dia 16 de novembro, na Casa da Cultura, a Exposição Entre Mundos e Segredos.

Para aceder ao respetivo programa, bem como a quatro galerias com imagens e fotografias, carregar aqui ou na imagem seguinte.

Enoturismo em Melgaço

Vinha em Melgaço. Fonte – Voz de Melgaço, 9 de Novembro, 2023

Graças ao Válter Alves e ao blogue Melgaço, entre o Minho e a Serra, tomei conhecimento da convidativa reportagem da RTP dedicada às múltiplas virtudes do enoturismo do território de Melgaço. Para aceder, carregar aqui ou no vídeo seguinte.

Programa “A Essência” da RTP de 13-09-2020 dedicado a Melgaço

A Alma das Flores Secas

Dans mon jardin secret
Dans mon imaginaire
La vie est plus légère
On fait ce qu’il nous plaît

Tudo me lembra alguma coisa. As memórias, como flores secas no livro da vida, aguardam uma gota, eventualmente um esboço de lágrima, que lhes proporcione seiva. Tudo me lembra alguma coisa, não porque tenha uma biografia recheada. Rodeado mais por imagens do que por demónios, aproximo-me de um eremita que pasma solenemente e se expõe cada vez menos, despojando-se de atavios e venturas que lega aos insaciáveis. Mas existiram, mesmo assim, picos, momentos marcantes.

Pianista, compositora e cantora, Nara Noïan nasceu na Arménia e fez carreira em França. À semelhança de outras celebridades, como o também “arménio” Charles Aznavour, o “argelino” Enrico Macias ou o “grego” Georges Moustaki, entrega-se à “canção francesa” (e.g. “Dans mon jardin secret”) sem esquecer as raízes (e.g. “Mon Arménie”).

Nara Noïan – Dans mon jardin secret. Les Regrets Inutiles, 2015 (Clip Officiel, 2016).
Nara Noïan – Mon Arménie. Single, 2015

Mas a música que pretendo relevar é, sobretudo por causa do título, “Doucha – Soul”.

Nara Noïan & Vardan Hovanissian – Doucha – Soul. Nara Noïan. Cristal, 2014

Entre 1976 e 1982, estudei em Paris. Trabalhava, a tempo parcial, às sextas, sábados e durante as férias, num banco português. Amealhava o suficiente para escapadas mais ou menos longas. Só, bagagem ligeira, com roteiros e agendas flexíveis, explorava novas terras e gentes. O tempo dedicado a cada destino dependia do prazer da estadia.

Naquele tempo, se me perguntassem para que viera ao mundo, a resposta seria “para dar e receber amor”, mais prosaicamente, para namoriscar. Nem para estudar, nem para trabalhar, nem para viajar, nem sequer para defender a Pátria. Um impenitente colecionador de afrodites.

O que me atraía num lugar não eram tanto os monumentos, as paisagens e os lazeres, mas as pessoas, especialmente as mulheres.

Com 18 anos, parti em agosto rumo à Itália e à Jugoslávia e regressei no final de outubro. Atardei-me duas semanas em Veneza graças a uma jovem professora de biologia, uma semana na ilha de Hvar com uma turista francesa e mais de uma semana em Tuzla por artes de uma estudante de medicina.

Tuzla foi uma experiência única. À meia-noite, bati, sem aviso prévio, à porta de um colega do curso de Sociologia. No dia seguinte, parecia que toda a gente me conhecia. Nos cafés, ao pagar a conta, já estava paga por algum curioso que desejava satisfazer a curiosidade. Fui, inclusivamente, convidado para dar uma palestra sobre o 25 de Abril, em francês, numa universidade local.

A interação com Snježana (em bósnio: branca como a neve) era sui generis. A comunicação resultava difícil: falava sobretudo alemão, que eu não dominava [embora tenha frequentado um curso no edifício da Universidade de Filosofia, mas o que me movia não era a aprendizagem da língua; retive apenas algumas expressões de utilidade indiscutível tais como “Du bist sehr schön  [ou hübsche]” (Tu és muito bonita). Em suma, a salvação era a linguagem gestual.

Garantira-lhe que permaneceria em Tuzla o tempo que me aprouvesse. Quando anunciei o regresso a Paris, não parava de dizer “laž” [láj], mentira. Retorquia, contristado, “nema laž” (nenhuma mentira). As aulas tinham iniciado havia três semanas e estava a ficar sem dinheiro…

Snježana costumava chamar-me “dusha”, palavra, essa sim, que me intrigava. O amigo hospedeiro acabou por me esclarecer: alma, coração, ente querido. Como o título da música de Nara Noïan! Tudo me lembra alguma coisa. Até uma simples palavra de outros mundos.

O colecionador de namoricos resume-se agora a um (re)contador de estórias. Resgatar folhas secas para colorir um jardim que nem sequer cuida de (p)reservar.

Há quase meio século. Fotografado por Álvaro Domingues

Experimentar algo diferente

Nem só de música e imagem vive o ser humano. O Thomas Lima ousou sonhar diferente. E nasceu o Palatial Restaurant em Arcos, Braga, um espaço de sabor requintado. Segue uma reportagem do Porto Canal. Para aceder, carregar na imagem seguinte:

Acudiu-me, a propósito, algo apetitoso e refinado: a série de anúncios, iniciada nos anos oitenta, da Ferrero Rocher com o Ambrósio e a Madame.

Original: Ferrero Rocher – Bravo Ambrósio, 1995
Ferrero Rocher Portugal – Comercial Bombom Ferrero Roche com Ambrósio veiculado em Portugal – 2000

Enfim, se dispuser de seis minutos e estiver interessado na história de um caso extraordinário de empreendedorismo, pode assistir a este pequeno documentário da Culture Pub sobre a família Ferrero, criadora de produtos/marcas de sucesso tais como Nutella, Tic Tac, Kinder (vários), Mon Chéri e, naturalmente, Ferrero Rocher. Carregar na imagem seguinte para aceder.

Culture Pub – Saga Ferrero ou le chocolat à l’italienne, 2011

Seul: Barbudos em nevão recorde

Coreia do Sul enfrenta segundo dia de neve intensa que já causou cinco mortes / Vaga de frio poderá estar a abrandar, mas causou mais de 140 voos cancelados, mais de mil escolas fechadas e, pelo menos, cinco mortes. Mais de 40 cm de neve acumularam-se em algumas zonas de Seul. (Público, 28.11.2024)

João em Seul. 27.11.2024. Fotografia de Fernando Gonçalves

Os meus dois barbudos estão a rapar um frio de rachar em Seul: 10º negativos e neve com mais de 40 cm.

O Fernando devia estar a caminho do Japão, onde estão 22º positivos, mas o voo foi adiado para sábado.

Que os deuses da Coreia, que são muitos, os agasalhem!

Seguem algumas das fotografias que enviaram ontem, quarta, 27 de novembro.

Imagem: Fernando em Seul. Fotografia de João Gonçalves. 27/11/2024

Fernando em Seul. 27.11.2024. Fotografia de João Gonçalves

Galeria: Fotografias do nevão em Seul – 27 de novembro de 2024

“E esta, hein?” Arte com drones

De Seul, na Coreia do Sul, os meus rapazes enviaram-me estes dois pequenos vídeos. Primeiro, pensei que era uma nova espécie de holograma. Mas não! Geram este efeito espantoso com drones mais que sincronizados. “E esta, hein?”

Espetáculo com drones. Seul. Coreia do Sul. Novembro 2024. Carro. Filmado por Fernando Gonçalves
Espetáculo com drones. Seul. Coreia do Sul. Novembro 2024. Tigre. Filmado por Fernando Gonçalves

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

As coisas que temos de aprender antes de fazer, aprendemo-las fazendo-as – por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e se tornam citaristas tocando cítara; da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e corajosos agindo corajosamente (Aristóteles. Ética a Nicômacos. Livro II, 1103b. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brunia, 1985).

Dos temas para o cortejo histórico de Melgaço de 2024, a lenda da Senhora da Orada foi o primeiro a surgir, tendo sido adotado sem hesitação.
Convocava, antes de mais, um notável património cultural imaterial exclusivo do concelho.
Mas também envolvia vários elementos importantes do património histórico material local. A inserção no cortejo permitiria divulgá-los.

Fotografia – Miguel Bandeira

Por outro lado, reunia potencialidades de caraterização, encenação e interpretação suscetíveis de interessar, atrair e entusiasmar tanto os participantes como os espetadores.

Por último, tanto a distribuição por determinadas freguesias como a respetiva adesão e empenho não comportavam incertezas e obstáculos relevantes.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Antiga, a lenda da Senhora da Orada tem raízes seculares. Remete para um surto de peste ocorrido no século XVI. Embora associada à respetiva capela em Melgaço, o enredo envolve populações de outros concelhos.

Segue uma reprodução integral da lenda, precedida por um breve resumo:

Em 1569, grassava a peste. Tomé, alcunhado o Vira-pipas por andar sempre alcoolizado, cuidava da capela da Senhora da Orada. Certa manhã, surpreendeu-o a ausência da imagem da Senhora. Tê-la-iam roubado? À noitinha, voltou com um amigo para testemunhar o incidente; a Senhora estava, para sua surpresa, no seu lugar. O Vira-pipas até deixou de beber, mas o fenómeno repetia-se: a Senhora ausentava-se de madrugada e regressava ao anoitecer. Temendo o ridículo, guardou segredo.
Entretanto, a uma vintena de km, em Riba do Mouro, apareceu uma dama que se empenhava a cuidar dos doentes. Vinha de manhã e despedia-se ao anoitecer. Passada a epidemia, constatou-se a inexistência de vítimas na freguesia e reconheceu-se a semelhança entre a dita dama e a imagem da Senhora da Orada.
Os testemunhos do Vira-pipas e de Riba de Mouro cruzam-se. Tudo aponta para a intercessão milagrosa da Santa. Como agradecimento, o povo de Riba de Mouro compromete-se a vir todos os anos em clamor à capela da Senhora da Orada.

Lenda da Senhora da Ourada

*****

Esta lenda envolve um património material histórico notável.
Em primeiro lugar, a capela, um monumento nacional de estilo tardo-românico, cuja construção teve início em 1245, em local onde, presumivelmente, já existia um eremitério, referido em documento de 1220. Em 1166, a Orada já é mencionado numa “doação a favor do Mosteiro de Fiães pela Condessa Froila [Fronilla]”:

Fotografia: Miguel Bandeira

A Condeça Dona Fronilla deu a este Mosteiro, & ao seu Abbade João em Janeiro do anno 1166, a quinta de Cavalleiros junto de Melgaço, cousa boa, particularmente de vinhas : & entendemos que com ella lhe daria tambem a Igreja de Nossa Senhora da Oráda alli pegado, que os Frades dizem foy Mosteiro de S. Bento, & fundado quando se edificou o de Feaens, de que veyo a ser Priorado : outros dizem (o que tenho por mais certo, & alguns sinaes mostra para isso) que foy de Cavalleiros Templarios, de que esta quinta tomou o nome, & era passal seu. Pouco ha se lhe vião ruínas de cellas, claustros, & canos de pedra, pelos quaes lhe vinha agua  (P. Antonio Carvalho da Costa, Corografia Portugueza, e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal,Tomo Primeiro, 1ª edição em 1706, 2ª edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1868. p. 259).

Válter Alves, a propósito da proveniência e significado do nome Orada, releva um número apreciável de referências à palavra em documentos dos séculos XII e XIII [As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão, Melgaço, entre o Minho e a Serra: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html%5D.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Próximo da capela, com uma vista ampla sobre o rio Minho, ergue-se o Cruzeiro da Orada: “Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas” [Obras completas de Augusto César Esteves. Vol. I. Tomo 2. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço, p. 552]. Repare-se que a construção deste cruzeiro precede dois anos a data apontada na lenda.

Perto, situa-se a pequena capela de São Julião. “As primeiras referências ao edifício datam da primeira metade do século XIII e indicam que, neste local, ou anexo a ele, existia uma gafaria, que funcionava como local de acolhimento no caminho entre a vila de Melgaço e a ermida de Nossa Senhora da Orada” (https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=73898). Destinado a leprosos (denominados também gafos ou lázaros), ter-se-ia chamado Hospital de São Gião (A Gafaria de Melgaço. melgaçodomonteàribeira, 06.04.13: https://iasousa.blogs.sapo.pt/99284.html).

Por razões práticas e simbólicas, os edifícios religiosos e as gafarias costumavam localizar-se junto a nascentes e cursos de água. Entre as capelas da Nossa Senhora da Orada e de São Julião existe uma nascente cuja importância justificou a construção de uma fonte imponente na segunda metade do século XVIII. Terminada em 1780, foi financiada por João Pedro de Sá, juiz de fora de Melgaço, com o apoio de vários donativos de famílias aristocráticas locais. Com uma planta retangular e corpo de cantaria de granito, o espaldar, de estilo barroco, apresenta-se generosamente decorado. Conhecida como fonte de São João, foi transferida em 1903 para a atual Praça da República.

Trilho entre a Fonte de S. João e a Capela da Orada. A partir de Wikiloc. Camiñando por Melgaço (Portugal)

O antigo e o atual lugares da fonte de São João, a capela de São Julião, a capela e o cruzeiro da Orada estão interligados por um percurso curto, fácil e agradável, que ganharia, no meu entendimento, em ser promovido como um trilho temático.

A devoção à Nossa Senhora da Orada estende-se de Norte a Sul de Portugal, do Alto Minho ao Algarve. Existem, por exemplo, santuários em Vieira do Minho e São Vicente da Beira, igrejas em Sanfins, Sousel e Borba, capelas em Cabeceiras de Basto e Ferreira do Zêzere e uma ermida em Albufeira. A capela da Senhora da Orada de Melgaço é, contudo, a mais antiga.

Fotografia – Município

Também coexistem diversas lendas. Mas muito distintas da lenda de Melgaço. Por exemplo, Vieira do Minho e São Vicente da Beira partilham uma mesma lenda, que envolve meninas inocentes e serpentes:

Uma jovem surda-muda que de um dia para outro começou a crescer-lhe a barriga, tudo fazendo crer que estava grávida (…) Como não era casada, a jovem foi fortemente condenada pela comunidade e pelos pais, que não hesitaram em castigá-la severamente. A jovem, que por ser muda, não se podia defender, foi expulsa de casa dos seus pais e levada para um bosque fora da povoação, onde se situa hoje o santuário da Senhora da Orada. Neste degredo e perante o desespero, a jovem suplicava noite e dia pela proteção divina. No meio desta angustiante súplica de oração, apareceu-lhe Nossa Senhora que mandou a jovem procurar um recipiente e um pouco de leite e se debruçasse sobre ele. Nesse instante saiu pela boca uma enorme cobra, que tinha sido ingerida pequenina quando a jovem bebeu água num riacho. (…) Para a jovem, e depois para a comunidade, isto foi considerado um milagre. A rapariga foi perdoada e regressou para casa. Querendo saber como poderia agradecer tal benesse, Nossa Senhora voltou a aparecer à jovem surda-muda e pediu-lhe que lhe construíssem uma capela onde tinha acontecido o milagre (José Carlos Ferreira, Francisco de Assis, Património de Vieira, Vieira do Minho, Câmara Municipal de Vieira do Minho e Empresa do Diário do Minho, Lda, 2007, pp. 212 – 213).

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Na Festa das Papas de Gondiães, em Cabeceiras de Basto, a narrativa que justifica a celebração resulta homóloga à da Senhora da Orada de Melgaço. O motivo é o mesmo, a salvação da peste, também se admite a intercessão divina e se assime um compromisso anual. Só que o santo é outro, São Sebastião, por sinal o mais invocado contra a peste. Por outro lado, o enredo resulta pobre, praticamente inexistente, e a ação de graças consiste, em vez de um clamor, num banquete, ao ar livre, oferecido a todos aqueles que comparecem no dia do santo, 20 de janeiro. Em Ferreira do Zêzere, no dia da festa da Senhora da Orada também se oferecia um jantar, custeado pela confraria, mas limitado aos pobres.

Em suma, a lenda da Senhora da Orada, além de original, vincula-se a um contexto e a um património histórico e cultural singulares, únicos.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município
Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Texto do clamor

Curiosamente, a lenda da Senhora da Orada de Melgaço alude explicitamente apenas à freguesia de Riba de Mouro. Se é verdade que esta população honrou o compromisso, cumprindo ano após ano, século após século, a promessa (até meados dos anos cinquenta), este destaque pode induzir em erro. Como o reconhece o Padre Bernardo Pintor, pároco da freguesia, já naquele tempo, os clamores à Senhora da Orada abundavam dentro e fora do concelho de Melgaço.

À Senhora da Orada afluíam clamores de penitência de várias freguesias. (…)
No primeiro quartel do nosso século ainda se realizavam os clamores das freguesias mais próximas da vila. Com várias intermitências vieram a terminar durante o segundo quartel deste século.
De todos esses antigos clamores, houve um que ultrapassou o meio deste século. Foi o de Riba de Mouro, freguesia do antigo concelho de Valadares e agora de Monção.
As freguesias de Melgaço realizavam os seus clamores na Quinta Feira da Ascensão, dia santo de guarda e feriado municipal, e Riba de Mouro sempre teimou em ir à Senhora da Orada na Segunda Feira do Espírito Santo com o seu clamor independente, a que se associava muita gente da vila em gesto de simpatia.
No mesmo dia realiza-se em Rouças a festa de Santa Rita, cujo santuário se desenvolveu nos últimos tempos atraindo o povo da Vila. Riba de Mouro, terra distante, começou em 1954 a fazer o clamor da Senhora da Orada no Santuário de Santo António de Val-de-Poldros, da mesma freguesia, continuando ainda a promovê-lo, embora em data diferente.´
A peste a que se refere Frei Agostinho de Santa Maria deve ser qualquer das epidemias da segunda metade do século XVI.
Três grandes epidemias grassaram em Lisboa e se estenderam ao país inteiro: a de 1568-69 que deu origem à festa da Senhora da Saúde que ainda se realiza em Lisboa com carácter oficial, a de 1579 e a de 1598-99 que de novo se ateou no fim de 1599 e se prologou até 1602.
De todas a maior foi a primeira e a menor a segunda.”
(P.e M. A. Bernardo Pintor, Melgaço Medieval, s.l., [Comp. e imp. nas ofic. gráf. Augusto Costa & C.a, L.da], 1975, pp. 117-118)

A peste não era, naturalmente, o único motivo para a realização de clamores. Os santos costumam prestar-se a diversos usos. São polivalentes.

“A Imagem da Senhora (…) que agora exise he muito devota, & de perfeytissima escultura, tem ao Menino Deos sobre o braço esquerdo, & tem cinco palmos de estatura; he de madeyra com as roupas estofadas de outo. He muito milagrosa, & como tal he buscada, & invocada da devoção dos fieis, os quaes por sua intercessão alcanção de seu Santissimo Filho, o que justamente pretendem. A este Santuario, desde o dia da Ascenção do Senhor até a festa do Espirito Santo vão em romarias as mais das Freguesias da Villa de Monçaõ, & do seu termo, a offerecer o residuo do cirio Paschal, & acompanha a procissão ao menos huma pessoa de cada Casa, com os seus Parochos, & isto por voto antigamente fizeraõ em tempo de huma grande peste, de que ficou preservada a mesma Villa, & as Freguesias do seu termo, as quaes fizeraõ o referido voto; & tambem muytas Freguesias do termo de Valadares, & todas as do termo de Melgaço , vaõ em procissaõ à Senhora e no mesmo tempo, humas por devoçaõ, & muytas por voto, com clamores, & procissaõ ao mesmo Santuario, para implorar da Senhora favores do Ceo. E tambem em tempo que se necessita de Sol, ou de chuva, vaõ muytas Freguesias em procissaõ com ladainhas, a pedir à Senhora os soccorra; o que com evidencias experimentão, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem” (Frei Agostinho de Santa Maria (1712) – Santuário mariano, e história das imags milagrosas de Nossa Senhora… Tomo IV, Oficinas de António Pedrozo Galram, Lisboa, 1712, p. 251).

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Esta devoção e esta polivalência observada por Frei Agostinho de Santa Maria em 1712, prossegue, como sustenta Válter Alves, nos séculos seguintes:

“Diga-se que a devoção à Nossa Senhora da Orada continuava viva e socorremo-nos de alguns episódios que o comprovam. Em anos de crise agrícola, o concelho vinha em procissão à capela pedir proteção e implorar socorro divino. Assim aconteceu em 1760, devido ao rigor da chuva, bem como em 1768, ou em 1778 por causa da estiagem. Lá foi também depois do sismo de 31 de Março de 1761, onde toda a comunidade foi descalça, com cordas ao pescoço e coroas de espinho na cabeça” (As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html).

Na primeira metade do século XX, ainda era concorrida a romaria. Por vezes, os ânimos exaltavam-se em demasia, como aconteceu nesta espécie de “luta sacerdotal pelo pálio” durante um clamor proveniente da freguesia de Roussas.

António Augusto Gonçalves Ribeiro. Recordações de Melgaço. Os Clamores da Ascensão. Notícias de Melgaço. Ano 21, nº 918, 04.12.1949

Apesar da proibição formal pelo governo desde 1940, os clamores continuaram a realizar-se nas áreas mais rurais e tradicionais. Em 1950, o clamor de Riba de Mouro à Senhora da Orada ainda é notícia. Digna de nota é, neste contexto, a prévia autorização da realização de clamores no ano seguinte por parte do Arcebispo Primaz de Braga (reproduzo a página inteira do jornal porque inclui dois temas passíveis de interessar: “Apreensão do rebanho de Portelinha” e “Pelo Hospital”; carregar na imagem seguinte para aumentar).

Notícias de Melgaço. Ano 22. Nº 935. 11 de Junho de 1950. p. 2

Entre os séculos XIV e XVIII, os dois cavaleiros do Apocalipse mais proeminentes foram a Peste e a Morte. Como cantam os Aguaviva, a Morte era a única a vencer a Peste. Um “castigo de Deus” que só a interferência sagrada podia aliviar. O ser humano nunca viveu tão rodeado e obcecado pela Morte. Aliás, o medo da Morte chegou, porventura, a ofuscar o do Diabo. Assim o revela, pelo menos, a arte daquela época.

Aguaviva. La peste e La niña de Hiroshima. Apocalipsis. 1974

Tal como as fotografias e os postais constituíram o principal recurso para caraterizar ambientes, personagens, adereços e atividades respeitantes às Termas do Peso, no caso da lepra e da peste socorremo-nos de pinturas e gravuras da época.

Galeria com imagens da peste

Sobre a peste e a lepra pouco há acrescentar que estas imagens não expressem: promiscuidade, desespero e triunfo da morte. Algumas até o cheiro pestilento, nauseabundo e inevitável, conseguem sugerir. O último grande surto de peste, a “gripe espanhola” (a variante pneumónica), ocorreu há um século, em 1918 e 1919. A peste e a lepra ainda existem em alguns países, mas já são curáveis.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

No cortejo histórico praticamente nada faltou. Incluiu leprosos e pestíferos, de todos os feitios, géneros e idades; médicos e curandeiros; guardas, clérigos e devotos; transeuntes, carregadores, condutores e cadáveres. Com carroça para transporte das vítimas, defumadores e ervas, amuletos, crucifixos e livros sagrados

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

A caraterização dos corpos degradados e da indumentária andrajosa não podia ser mais apropriada e expressiva. Acrescem os movimentos, as posturas e os gestos: deriva dos leprosos, condução penosa da carroça, vigilância dos guardas, cuidado dos monges e dos médicos, marcha arrastada dos pestíferos, queda de um idoso, curas, milagres, súplicas e um clamor devoto, adaptado pelo padre Rogério Rodrigues.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

E a Santa, a Senhora da Orada? Um regalo do céu. Imaculada, graciosa e misericordiosa, zela pelo aflitos, imperturbável, sob um tórrido sol pagão. Com o Menino no colo, encantador, muito compenetrado e bem-comportado. À espera ou em movimento, sempre no momento e no sítio certos, discretos e atenciosos, a Mãe e o Filho iluminam o caminho e apaziguam as almas.

Lenda da Senhra da Orada. Cortejo Histórico de Melgaç 2024. Fotografia – Ana Macedo

Quando sobra brio, vontade e inspiração, os desafios tornam-se estímulos e a obra faz-se. As juntas da União das Freguesia da Vila e Roussas, da União das Freguesias de Chaviães e Paços e da freguesia de Cristoval entraram com o pé direito nesta nova versão do Cortejo Histórico.

Por seu turno, os participantes souberam identificar-se com a lenda da Senhora da Ourada e partilhá-la. Incorporaram e vestiram as respetivas personagens como se estivessem mergulhados no flagelo de uma fatalidade irreversível. Apenas uma nota dissonante, por sinal gratificante: um brilho de alegria nos olhos e um sorriso de satisfação nos lábios. Quando se junta uma pitada de profissionalismo com a frescura voluntariosa do amador costuma soprar uma brisa agradável.

Despeço-me com uma galeria de fotografias e a convicção de que a maior recompensa de um autor, especialmente de um artista, é a sua obra.

Galeria com fotografias da Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024