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As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

A. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Entre os primeiros temas a surgir, as Termas do Peso no início do século XX foi dos últimos a ser adotado. Apesar do inegável interesse, pela carga histórica, mas também como promessa para o futuro, receava-se que se revelasse demasiado difícil. Ao contrário dos outros temas, não se tratava de encenar um evento ou uma ação, mas um ambiente, que, por sinal, se repartia por cenários distintos: as fontes, o balneário, os hotéis, as festas, os bailes, os serões, os passeios…

O tema acabaria por vingar graças a vários argumentos decisivos.

B. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Num início do Século XX de indigência e precariedade, as Termas do Peso constituíam um reduto de luxo, hedonismo e elegância reservado à elites, visitantes mas também locais, onde se ensaiavam iniciativas de progresso e, até, de vanguarda. Recorde-se a criação, em 1912, da empresa de transporte passageiros entre Melgaço a Valença e, em 1913, do cinematógrafo, ambos pelo Cícero Cândido Solheiro, “brasileiro” empreendedor e visionário.

Inestimável embaixadora do concelho, a estância termal atraía pessoas, muitas ilustres, que conhecedores, quando não estudiosos, do património local o divulgam. Não é só o mundo que vem a Melgaço, Melgaço também corre o mundo. Este duplo efeito de atração e expansão ainda não se dissipou por completo. Ainda sensibiliza muita gente, por via direta ou indireta. Nem todas as brasas se reduziram a cinzas, persistem, por experiência própria ou por contágio, fagulhas que podem tornar-se centelhas. Recorde-se, por exemplo, Manoel de Oliveira e o filme Viagem ao Princípio do Mundo, estreado em 1997. As memórias podem revelar-se mais resistentes do que as paredes do hotel Rocha.

C. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município. Detalhe

Mas a história das Termas do Peso não se restringe aos visitantes. Convoca, também, os residentes que as promoveram, como o António Ranhada, ou que, em elevado número, as frequentaram, principalmente nos anos sessenta e setenta. Impôs-se como um local de encontro, convívio, lazer e desporto que deixou marcas indeléveis.

Permito-me um parênteses com um testemunho pessoal para ilustrar a influência das termas na vida das pessoas.
Enquanto jovem, frequentava regularmente as termas: jogava mini golf, ténis ou patela, andava de barco, convivia e pasmava a observar a vegetação, as trutas, as libelinhas e os meus semelhantes. Assisti, ainda, aos bailes no salão devoluto do Grande Hotel do Peso. Tive, assim, acesso a atividades invulgares numa sociedade rural.
Íamos ao Peso em grupo por atalhos através dos campos. Pelo caminho, fazíamos questão de provar as uvas e antecipar a vindima. Tínhamos muito respeitinho a uma gruta que considerávamos um refúgio do Tomás das Quingostas.
Acontecia aventurar-me só com os meus patins imprudentes, da Serra ao Peso, pela estada de alcatrão muito liso. Sempre a descer, sem parar. A não ser para um ou outro tombo. Nem sequer as “carreiras”, que em algumas curvas ocupavam quase toda a passagem, me inibiam. Numa queda, em Bouça Nova, quase afocinhei num tanque de água.
O tio Nino era diabético. As águas não podiam faltar em casa. No verão, colocadas na mina, misturavam-se com vinho. Servia como refresco. Uma figura típica de Prado, a Vera, uma idosa solteira dedicava-se ao transporte de garrafas de águas a pedido. Ainda se conta que um dia um par de malandros lhe deu boleia num carrinho com rodas de rolamentos. Radiante, acenava a anunciar: “Cá imos (caímos)!”.
Na garagem do hotel Rocha, fiz, em 1975, um dos meus primeiros e últimos comícios políticos e no café Internacional festejámos a vitória nas eleições. Apareceu o responsável pelo partido rival que, com fair-play, fez questão de nos felicitar demorando-se a confraternizar. Naquele tempo, os cafés do Peso constavam entre os mais frequentados do concelho.
O meu avô paterno, Avelino, foi quase toda a vida cozinheiro chefe no hotel Rocha. Contava, a brincar ou não, que quando havia demasiados comensais até às latas de ervilhas se recorria na cozinha. Quando, à noite, regressava a pé do Peso aos Moinhos, comentava-se que cheirava bem, cheirava, naqueles tempos de carestia, a comida boa!
A casa onde cresci comprou-a o meu avô materno, Amadeu, ao Cícero, figura incontornável das termas no início do século XX, entretanto com casa no Peso, a casa da Dona Angelina. A casa era, portanto, duplamente de “brasileiro”: mandada construir por um e comprada por outro.
Ainda me lembro do leilão, muito participado, do mobiliário do Grande Hotel do Peso. O meu avô, oportuno, aproveitou para renovar um quarto que eu viria a ocupar; arrebatado, arrematou um lote de várias dezenas de lavatórios. Atafulharam anos a fio uma das divisões do rés-do-chão.
É assim! Quando se desfia o passado, tudo se enrosca de tal feição que resulta difícil escapar à teia que se avoluma e adensa. Cada um tem o seu próprio percurso, mas no que respeita a sentir o Peso nas veias, estou muito longe de ser um caso isolado.
D. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Outros motivos contribuíram para a eleição do tema.

Antes de mais, a manifesta adesão por parte das juntas da freguesia de Paderne e do Agrupamento das Freguesias de Prado e Remoães. Tratava-se de uma condição indispensável, tanto mais que a missão se apresentava exigente e complicada.

E. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

A estância termal do Peso comporta uma importância atual estimável enquanto promessa para o futuro. Há tempos que o Município almeja a sua revitalização económica e social. A reabilitação e ampliação do Grande Hotel do Peso e a tendência presente para o incremento do turismo termal podem concorrer para esse desígnio. A inclusão do tema no Cortejo Histórico assinala simbolicamente esta aposta do Município. O estudo de Antero Leite e Susana Ferraz, “O edifício da Fonte Principal das Termas do Peso (Melgaço)” ( Boletim cultural, 2007. N.º 6, p. 109-136), associado a um projeto promovido pela Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, conclui com esse repto: O Complexo Termal do Peso, como outras estâncias, aguarda um plano de revitalização centrado não só na reabilitação dos edifícios dos seus hotéis e na exploração das suas águas mas também considerando outras valências. A animação deverá ser uma delas tirando partido da sua envolvente natural e patrimonial”. Há lugares que, como a Bela Adormecida, parecem estar à espera de algo ou de alguém para despertar.

F. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Dois motivos suplementares reforçaram a adesão ao tema. Por um lado, existe imensa documentação, sobretudo fotografias e artigos de jornais, sobre as termas no início do século XX, o que facilitava a caraterização dos figurantes e dos ambientes. Por outro lado, podia-se contar com a colaboração do Válter Alves, que acabara de escrever um artigo sobre as termas para publicação no próximo Boletim Cultural. Fonte inesgotável de informação, o Válter Alves foi o autor do texto para a apresentação durante o Cortejo, bem como da galeria de imagens das termas no início do século XX para o presente artigo.

Galeria de imagens das Termas do Peso selecionadas por Válter Alves

Tanto argumento favorável não diminuiu significativamente a dificuldade da missão. Valeu a mobilização e o engenho das juntas e das gentes da freguesia de Paderne e do Agrupamento de Freguesias de Prado e Remoães. Merece especial menção a forma como souberam envolver entidades locais tais como a APPACDM, o Centro Hípico de Melgaço e associação Noites Gaiteiras.

Um pequeno incidente ocorreu durante o cortejo. Um dos cavalos das carruagens evidenciou sinais de nervosismo. Por precaução, a apresentação foi abreviada, ficando por apresentar algumas cenas. Por exemplo, a distribuição de águas do Peso pelo público assistente.

G.. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Houve um pouco de quase tudo: carruagens, cavalos, uma maquete da fonte primitiva, empregadas fardadas a rigor e aquistas trajados à moda da Belle Époque. Ao todo, cerca de 60 participantes.

 De um modo geral, o cortejo valorizou o acompanhamento musical. Abriu com música medieval e fechou com uma valsa. A música era um dos ingredientes da vida das termas, com recurso a orquestras (chegaram a coexistir várias em Melgaço) nas festas e nos bailes e ao piano e ao canto nos serões. Intentou-se formar uma pequena orquestra, pedindo a cedência de instrumentistas a bandas filarmónicas dos concelhos vizinhos. Mas o pico das festas coincide com o 10 de agosto. Não sobrava trompete, trombone, saxofone, tuba ou bombo. Contratar uma charanga na Galiza era hipótese que comportava uma despesa excessiva. Chegou a pensar-se numa voz feminina a cantar a solo e à capela um fado. Depressa se descartou a ideia: com o ruído de fundo de um desfile ao ar livre, pouco ou nada se ouviria. Adotou-se uma solução de recurso: numa das carruagens, uma coluna de som emitiria música da época.

H. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Mas nada nos impede de sonhar. Mergulhemos na atmosfera de um dos hotéis do Peso na primeira metade do século passado.

“Os empregados de mesa do Hotel Ranhada nunca iam vestidos “às três pancadas” para a sala de jantar. Faziam sempre duas mudas diárias. Ao almoço envergavam casaquinho branco, com botões dourados, e calça preta. Ao jantar, iam de trajo escuro, tipo smoking, com os colarinhos de camisa branca virados e laçarote preto. Mas José Meleiro de Castro, que lá trabalhou ainda no período áureo, já não é do tempo dos colarinhos virados e do “fato à grilo”. Embora vestisse à noite fato escuro, a gola do casaco já levava cetim preto. Ao almoço era a farda do costume. Os hóspedes não se aprontavam por aí além para a refeição do meio-dia. Mas à noite já iam para a mesa mais aperaltados. Os cavalheiros caprichavam com “bom fato de fazenda lisa, de tons azuis ou castanhos, e gravata a condizer”, tanto quanto se recorda José Meleiro. As senhoras apareciam com vestidos de seda, muito “levezinhos”, e não esqueciam os seus colares. Só as mais idosas faziam questão de levar, às vezes, o seu “xailezinho”. Em Julho e Agosto, serviam-se entre 150 a 200 hóspedes. “Todos ao mesmo tempo naquela sala de jantar”, lembra José Meleiro. Eram rápidos a comer, estavam quase todos a dieta, “tudo à base de peixe cozido e de carnes grelhadas”. Durante a refeição conversavam baixinho, eram muito delicados, não se ouvia sequer um bater de talheres. “Até exageravam”. Mas eram pessoas “de muito respeito e de muita educação”. À noite, acabada a refeição, passavam à sala de jogos e não resistiam a contar anedotas “sem palavrões, nem grandes gargalhadas”. Os cavalheiros falavam também de negócios, mas a conversação era cordata. Aos fins-de-semana, a sala de visitas virava, às vezes, sala de baile, mas apenas se polcava, à falta de melhor orquestra, ao som das concertinas” (Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa”, texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013; retirado de Melgaço, entre o Minho e a Serra (https://entreominhoeaserra.blogspot.com/), blogue de Válter Alves: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2013/05/1948-um-qualquer-dia-no-hotel-ranhada_14.html).

I. As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Imaginemo-nos encostados a um canto do salão, eventualmente com um copo na mão e um cigarro nos lábios. A noite promete: as damas, prendadas e elegantes, entregam-se ao piano e ao canto. Escolhem, porventura, canções da Ercília Costa, “a santa do fado”, atriz, compositora e fadista, nascida em 1902, que alcançou um sucesso notável, inclusivamente no estrageiro, com digressões em França, nos Estados Unidos e no Brasil.

“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).

Com um convite ao sonho, despeço-me.

Seguem:

  • Uma galeria com fotografias de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
  • O texto da autoria de Válter Alves que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
  • Um recorte, “As origens do hotel Ranhada, com uma nota biográfica dedicada a António Ranhada;
  • Um recorte, “O Animatógrafo em Melgaço”, com uma nota biográfica dedicada a Cícero Cândido Solheiro;
  • Três fados de Ercília Costa.

Galeria de imagens: As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

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As Termas do Peso no início do século XX. Texto para a apresentação durante o cortejo

Viajamos até ao Pezo do Minho na viragem para o século XX. Era por este nome que, fora da terra, era conhecido o Peso, onde em 1884 tinha sido descoberta uma nascente de águas termais com caraterísticas medicinais singulares. Rapidamente, a boa nova se espalhou pela região e pelo país e a chegada de doentes à procura destas águas milagrosas não se fez esperar.

A descoberta destas águas mergulhou o Peso numa era dourada durante várias décadas, tornando a estância num oásis de opulência, elegância e glamour, que contrastava com as dificuldades no resto do concelho.

A necessidade de hospedar um número crescente de aquistas levou ao surgimento de várias unidades hoteleiras. Depois do Ranhada, outras foram construídas, entre as quais o Hotel Quinta do Pezo, o Alto Minho e o Rocha, e mais tarde, a Pensão e Hotel Boavista.

Pelo Peso, nas temporadas termais, era frequente encontrarmos governantes, industriais, magnatas, fidalgos, artistas, ou distintos membros da comunidade científica das mais reputadas academias deste país. Nomes como Leite de Vasconcelos ou Rocha Peixoto, na área da etnografia, o pintor António Carneiro, ou Aurélio da Paz dos Reis, pioneiro do cinema em Portugal, entre tantos outros, eram presença assídua. A afluência de académicos deste calibre ao Peso tornava as temporadas termais, épocas de intensa produção científica. Algumas das mais importantes recolhas arqueológicas ou etnográficas no concelho de Melgaço datam desta época e eram realizadas em passeios exploratórios a locais como Paderne, São Gregório ou Castro Laboreiro. Entre os tratamentos, os passeios a pé, as tertúlias, o Peso também se tornou uma espécie de Academia.

O Peso do início do século XX representava a procura da cura das maleitas, o glamour, a ostentação, as festas mas também promovia eventos de solidariedade a favor das instituições melgacenses.

A partir de meados do século XX, esta era dourada das termas do Peso começou a perder a luz, entrando numa sombria decadência com uma queda abrupta da procura destas águas. A inexistência de caminho de ferro era uma das principais fragilidades.

Nos anos oitenta do século passado, fecharam os últimos hotéis históricos e o Peso foi sendo invadido por uma agonia e uma saudade dos seus tempos dourados. Hoje, o Peso procura um novo futuro onde encontre novamente a prosperidade.

Válter Alves

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Recorte: As origens do Hotel Ranhada

Recorte de Edmundo Correia Lopes. Melgaço: Estância Termal. Porto: Edição da Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas, 1949, pp. 65 a 67

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Recorte: O Animatógrafo em Melgaço

Recorte de O Animatógrafo em Melgaço, do blogue Melgaço, do Monte à Ribeira, de Ilídio Sousa: https://iasousa.blogs.sapo.pt/o-animatografo-em-melgaco-130645

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Fados de primórdios do século XX: Ercília Costa

Ercília Costa – Fada da Alfama. O Fado é Coisa de Mulher (II). Early 20th Century Portuguese Female Fado Chants. Edição de 2019
Ercília Costa – O meu Filho. Arquivos do Fado – As Fadistas de Lisboa (1928-1931) (Vol 3)
Ercília Costa – Fado Dois Tons. Arquivos do Fado – Ercília Costa Com Armandinho (1930)

A festa da Bugiada e Mouriscada de S. João de Sobrado

Sobrará, ainda em férias, alguma disponibilidade para dar uma vista de olhos a um documentário extenso?

Fiz parte da equipa do projeto Festivity, coordenado pela Rita Ribeiro, que concretizou, em 2023, um livro e, em 2024, um documentário, ambos dedicados à festa da Bugiada e Mouriscada, que ocorre na véspera do S. João, na freguesia de Sobrado, concelho de Valongo. Trata-se de uma festa grandiosa e incrível, ímpar do ponto de vista estético e da adesão popular.

Seguem o documentário Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz e o capítulo “Os serviços da tarde na Festa de S. João de Sobrado: A bênção escatológica num mundo às avessas”, do livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada.

Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz. Silvana Torricella. Projeto Festivity do CECS da Universidade do Minho. Janeiro 2024

Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

A. Cerimónia do casamento. Cortejo Histórico de Melgaço. Fotografia – Ana Macedo

O tema do casamento nos anos setenta foi o segundo a surgir para o Cortejo Histórico de Melgaço de 2024, logo a seguir ao tema da lenda da Senhora da Orada. Entre outros aspetos, manifestava-se estimulante a possibilidade de incluir o vetusto carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço que chegou a ser utilizado para o transporte de noivos: um Buick vermelho modelo 1928.

B. Buick dos Bombeiros Voluntários de Melgaço

Sobre a história deste automóvel pode consultar-se o artigo de Manuel Igrejas, “O Carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço / Um lugar onde nada acontecia XI”, publicado no jornal Voz de Melgaço e retomado no blogue Melgaço, do Monte à Ribeira (https://iasousa.blogs.sapo.pt/o-carro-dos-bombeiros-voluntarios-de-240186).

Casamento. Anos oitenta. Vila de Melgaço

Não se regatearam esforços para restaurar o Buick de modo a que estivesse pronto para desfiliar no dia 10 de agosto. Lamentavelmente, não se logrou recuperar uma peça. Foi substituído por um Mercedes vintage.

D. Chegada das noivas. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Ana Macedo

Definido o tema, a implementação e concretização coube às juntas do Agrupamento de Freguesias de Parada de Monte e Cubalhão, da freguesia de Cousso e da freguesia da Gave. Contaram com o apoio da associação CUBO D’QUESTÕES, ASSOCIAÇÃO JUVENIL, de Parada do Monte, e, naturalmente, da equipa da Câmara Municipal.

F. Chuva de arroz. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Abraçaram o desafio com entrega, criatividade e sentido de oportunidade. Previa-se, inicialmente, um cortejo com os carros dos noivos e dos convidados engalanados a preceito. Adicionou-se a encenação da própria cerimónia do casamento, com espera da noiva, padrinhos, meninas das alianças, celebração, beijo da noiva, chuva de arroz e arremesso do ramo. Nem sequer faltou a pose para as fotografias.

G. Baile. Casamento nos anos sessenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Produção: Ana Macedo

A apresentação culminou com o baile, uma valsa bem dançada, empolgante e envolvente, a que até o padre aderiu (sugere-se o vídeo publicado pela Voz de Melgaço: https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT). Fechou, assim, com chave d’ouro o casamento nos anos setenta e, por coincidência, o próprio Cortejo Histórico.

H. Baile. Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Produção: Miguel Bandeira

Além do entusiasmo e do espírito de iniciativa, convém sublinhar a criatividade e o sentido de oportunidade dos organizadores e dos participantes. Quando se aguardava um casal jovem, tipo Barbie e Ken, surgem vários casais perto das bodas de ouro, que, com à-vontade e alegria contagiantes, representaram, vestiram as personagens, com uma competência e um brio raros em muitos profissionais do teatro. Uma última palavra para o guarda-roupa, os adereços e a caraterização. vestuário e os adereços. Deveras adequados, em alguns casos configuravam autênticas relíquias.

I. Adereços da noiva. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Os organizadores, os participantes e o público não esquecerão, certamente, tão cedo o casamento nos anos setenta em Melgaço. Ultrapassando as expetativas, consubstanciou uma iniciativa simpática, no sentido etimológico da palavra: teve a virtude de atrair, juntar e mover vontades.

J. Baile. Pormenor. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Seguem:

  • Uma galeria com fotografias provenientes, sobretudo, de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
  • Um exemplo de notícia de casamento nos anos setenta;
  • O texto que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
  • Um artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta.

Galeria de imagens: Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Notícia de casamento no jornal Voz de Melgaço de 1971

O casamento nos anos setenta. Texto para a apresentação durante o cortejo

Quem não conheceu Melgaço nos anos setenta dificilmente o conseguirá imaginar. Correspondeu a uma época de mudanças e excessos.
O concelho nunca antes teve tantos emigrantes. A partir de meados dos anos sessenta, aos homens juntaram-se as mulheres. Nesta conjunção, nunca vieram tantos emigrantes de férias, que, agora em família, Agora em família, se concentram no verão, principalmente no “querido mês de agosto”. A sua presença alcançou o auge de densidade, mobilidade e visibilidade.
Entretanto, Melgaço despedia-se de uma economia assente na agricultura, com as antigas hierarquias a descoser-se sem que novas as substituíssem claramente. Em termos de estrutura e organização, os anos setenta configuraram um período de transição propício à indefinição, à turbulência e à competição social.
O ciclo anual oscilava entre duas fases com tipos e ritmos de vida contrastados. Tudo crescia e acelerava no verão para abrandar e esmorecer abruptamente em seguida durante o resto do ano. Uma tempestade de verão! Tudo parecia rebentar pelas costuras: os bancos, as repartições, os comércios, as feiras, os cafés, as praças e as estradas. Agendam-se e afunilam-se os compromissos e os afazeres de todo o ano em meia dúzia de semanas: negócios, contratos, obras, atos religiosos, casamentos, batizados e até os namoros! Não havia dia ou noite sem festas nas proximidades. Depois de um prolongado e monótono inverno, o inverso, a inquietude. Tudo urge e se multiplica. Aspira-se à ubiquidade: estar em todo o lado ao mesmo tempo. Omnipresença, efervescência, aceleração e velocidade.
Entre as festividades, os convívios e as cerimónias, destacam-se os casamentos. Faustos e fartos, proliferavam. Propiciam um momento de reencontro de parentes e amigos, a residir dentro ou fora do concelho. Oferecem-se, ainda, como um palco apropriado para a afirmação, a distinção e a ostentação social, tanto dos noivos e das suas famílias como dos convidados, de preferência muitos e com prestígio. Tudo frisava o exagero: o vestuário, o cortejo, o banquete, as prendas… Criaram e cresceram empresas que não tinham mãos a medir: restaurantes, cabeleireiras, esteticistas, floristas… Até lojas especializadas em prendas!
Os casamentos impõem-se como um espetáculo notável. Registam-se, apreciam-se e comentam-se os convites, a cerimónia, as roupas, o vestido e o ramo de noiva, os padrinhos, o valor das prendas, as fotografias, o cortejo, a quantidade, qualidade e matrícula dos carros, o destino da lua-de-mel, o local, a ementa, a animação e a generosidade do banquete.
“Primeiro de agosto, primeiro de inverno”. Por volta da Nossa Senhora da Assunção, é altura de fazer as malas. Melgaço esvazia-se e entorpece. A agitação e a estúrdia cedem à contenção e à modorra.
Os anos setenta um intervalo no decurso de uma história que não se repete. Tudo o que sobe desce. Incha, desincha e passa. Tamanha excitação e extravagância são difíceis de sustentar. A situação, sobretudo, económica e financeira, do País foi periclita, a relação entre os emigrantes e a sociedade de origem altera-se e a demografia, principalmente o envelhecimento, não dá tréguas. Em suma, uma dinâmica que resulta menos de feição a excessos e euforias.

(Albertino Gonçalves)

Artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta

Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Introdução

00. Lenda da Senhora da Orada. Fotografia: Miguel Bandeira

A convite da Câmara de Melgaço, participei na organização do Cortejo Histórico de 2024. O anterior, de 2023, cumpriu e prometeu. Importava prosseguir, introduzindo alguma distinção e inovação. Um desafio aliciante, tanto mais que as colaborações com o município de Melgaço resultaram geralmente compensadoras e reconhecidas. Regra na minha terra, exceção fora.

O trabalho de conceção do modelo do cortejo foi compartilhado com o pessoal da área da cultura do município, nomeadamente o Abel Marques, a Diva Amaral e a Patrícia Domingues. Uma equipa habituada a trabalhar em conjunto. Tem acontecido com os Serões dos Medos, está a acontecer com o próximo Boletim Cultural.

“Na primeira edição do Cortejo Histórico, em 2023, foi apresentada uma visão macro, com uma viagem no tempo de milhares de anos (Recorde-se que o Cortejo Histórico retratou uma espécie de friso cronológico, uma linha temporal da ocupação humana do território, sendo selecionadas cinco épocas que deixaram marcas históricas e que representam as raízes culturais do concelho – O Paleolítico, a Idade do Bronze, a Antiguidade Clássica – Romanização, a Idade Medieval e a Idade Contemporânea.)”

Vídeo: Cortejo histórico de Melgaço [de 2023] percorre as ruas da vila. Altominho TV. Colocado no YouTube em13/08/2023

Na primeira edição do Cortejo histórico, o objetivo consistiu, portanto, em encenar épocas da história humana com um rico património local. Proporcionou uma experiência deveras útil para o seguinte.

A primeira e principal inovação assentou numa mudança de perspetiva e numa deslocação de foco: menos História em Melgaço e mais História de Melgaço. Não apostar tanto em ilustrar ou exemplificar realidades gerais à escala local, mas recuperar e divulgar histórias e lendas caraterísticas do próprio concelho, pertencentes à sua memória coletiva, algumas vividas e ou transmitidas pelas gerações precedentes. Em suma, motivos e assuntos em que os melgacenses se reconhecem e com os quais se identificam. Por exemplo, em vez da “Idade Média”, tão marcante em Melgaço, as lendas da Senhora da Orada ou da Inês Negra, ambas exclusivas do concelho. Esta nova fórmula apresentava-se como mais propícia ao envolvimento e à criatividade dos participantes.

03. Lenda da Senhora da Orada. Fotografia: Miguel Bandeira

Encontrado o conceito e o modelo, impunham-se dois pré-requisitos: cada tema devia comportar uma ligação com uma ou várias freguesias; todas as freguesias deviam ser contempladas. Nestas condições, foram retidos sete temas, distribuídos da seguinte forma pelas juntas de freguesia:

  • Visita da Rainha D. Filipa de Lencastre ao Convento de Fiães em 1837; tema proposto e realizado pela própria freguesia de Fiães;
  • Lenda da Senhora da Orada; pelas União das Freguesias da Vila e Roussas. pela União das Freguesias de Chaviães e Paços e pela freguesia de Cristóval;
  • Tomás das Quingostas; pela freguesia de São Paio;
  • A Revolução da Maria da Fonte; pelas freguesias de Penso e Alvaredo;
  • Termas do Peso no início do século XX; pela freguesia de Paderne e pela União de Freguesias de Prado e Remoães;
  • Castrejas com mulas de carga; pela União de Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro;
  • Casamento nos anos setenta; pela União de Freguesias de Parada do Monte e Cubalhão e pelas freguesias de Cousso e Gave.
04. Revolução da Maria da Fonte. Fotografia: Município

A realização dos temas coube às juntas de freguesia. Na prática, foram elas que, em pouco tempo, fizeram o cortejo, eventualmente em parceria com instituições, associações ou grupos locais. Acrescentaram ideias, exploraram soluções, mobilizaram recursos humanos e materiais. Com entrega e mestria, sempre com o acompanhamento e o apoio da Câmara Municipal. A festa é, antes de mais, de quem a faz!

A composição e a dinâmica do Cortejo impressionam pela proximidade e pelo convívio entre os participantes de todas as idades, pela interação, genuína e cordial, entre gerações. Sobressai, contudo, o protagonismo dos mais velhos.

Na atualidade, os mais velhos, com ou sem a bênção dos governantes centrais e regionais, oferecem-se como uma das riquezas do concelho de Melgaço.

Pode-se saltar o parágrafo a itálico. Trata-se apenas de um desabafo.

Prestes a terminar esta prosa sisuda, não resisto a desconversar. Melgaço consta entre os concelhos mais envelhecidos do País. Há apenas três décadas, as estruturas e organizações de apoio eram poucas e com reduzida cobertura territorial.  A situação inverteu-se graças a uma política local avisada e sustentada que assumiu como prioridade a qualidade de vida dos mais velhos. Em poucos anos, os serviços dedicados aos idosos passaram de deficitários a excedentários. Hoje, as instituições, públicas, sociais ou privadas, acolhem muitos utentes proveniente de outros concelhos. Apraz-me ter participado, no início dos anos 2000, na implementação da rede social concelhia e na elaboração do primeiro diagnóstico social e sequente plano de desenvolvimento social que elegeram a população idosa como prioridade da ação social local. Mas nem tudo depende da vontade local. A decisão remonta frequentemente a outros patamres. Atente-se, por exemplo, na rede viária e nos cuidados de saúde. Sem atender ao desempenho do Centro de Saúde local, recordo que o hospital de Viana do Castelo está a 100 Km e a 90 minutos de distância. Sucede que a necessidade de cuidados de saúde aumenta com a idade.

Por seu turno, a autoestrada A28 termina em Cerveira e a A3 em Valença. O caminho de ferro rematou em Monção. Parece que os investimentos decisivos têm a sina de abortar antes de chegar a Melgaço. A notoriedade do Tomás das Quingostas, bandido social que se opôs ao governo de outrora, talvez não seja mero acaso.

07. Tomás das Quingostas. Fotografia: Ana Macedo

Mas deixemo-nos de lamentações que sabemos inconsequentes.

Dez dias antes do cortejo, admitia estar ansioso em relação ao Cortejo Histórico. Inquietava-me o resultado e a receção (https://tendimag.com/2024/07/30/metamorfoses-em-berco-de-pedra/). Confesso-me duplamente satisfeito. Com a entrega e o brio das freguesias e dos participantes e com a afluência e o entusiasmo do público, na tarde mais tórrida do ano.

Propomo-nos dedicar sete artigos ao Cortejo Histórico de 2024. Um por tema. Serão publicados à medida que a respetiva documentação for considerada suficiente, sem seguir necessariamente a ordem cronológica do Cortejo.

As fontes resumem-se principalmente a duas: os arquivos do Município e as imagens captadas por um casal amigo, a Ana Macedo e o Miguel Bandeira. O apelo a partilhas não resultou.

Enfim, que tenha conhecimento, a comunicação social, a dita cobertura mediática, não correspondeu, salvo duas exceções: o jornal Voz de Melgaço, com um excelente vídeo dedicado ao baile do casamento (https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT), e a Rádio Vale do Minho, com uma trintena de fotografias tiradas antes do desfile iniciar (https://www.radiovaledominho.com/lendas-e-momentos-historicos-desfilaram-pelas-ruas-de-melgaco-veja-as-fotos/). Como nunca percebi quais eram os critérios dos órgãos de informação, não me pronuncio sobre este desinteresse.

Acesso ao vídeo Cousso, Gave e Parada do Monte fecharam com notas de Valsa ‘casamenteira’ o Cortejo Histórico de Melgaco, pela Voz de Melgaço, colocado no Facebook em 10 de agosto de 2024

Em algumas pesquisas e na redação de um ou outro texto, beneficiámos da colaboração do Válter Alves e do Américo Rodrigues.

A Ana Macedo, historiadora, é investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade / UM e, aposentada, professora na Academia Sénior de Braga. Tive a honra de orientar a sua tese de doutoramento em Estudos Culturais.

O Miguel Bandeira, geógrafo, é professor no Instituto de Educação da Universidade do Minho, investigador no Centro de Estudos Comunicação e Sociedade / UM e, atualmente, pró-reitor da Universidade do Minho.

Metamorfoses em Berço de Pedra

No dia 10 de agosto, em Sendim, inaugura uma exposição individual de escultura do Fernando Nobre. Orientador do seu mestrado na Faculdade de Belas Artes do Porto, aprecio a sua obra. Nota-se, aliás, na apresentação no desdobrável! Gosto de escrever textos assim: curtos, soltos, com aspiração literária e motivos que acarinho. Sem cabeça, tronco e membros, mas com alma e coração.

Não posso acompanhar o Fernando Nobre na inauguração da exposição. Apesar de dispor de bastante tempo livre, sobrevêm, caprichosamente, coincidências. Ocorre no mesmo dia, em Melgaço, o Cortejo Histórico, iniciativa ousada para cuja conceção contribuí. Espero, com alguma ansiedade, estar presente para ver o resultado e sentir o acolhimento. Irei outro dia a Sendim para, nascido num leito de ervas (Prado), experimentar o “berço de pedra”.

Seguem o desdobrável da exposição Metamorfoses e o link para um artigo do jornal Voz de Melgaço dedicado ao Cortejo Histórico.

Pelas alturas

Por mais alto que algo seja lançado é à terra que regressa (provérbio africano)

Ando saído, surpreendendo-me atraído pelas alturas. O que dá que pensar… Depois do planalto de Castro Laboreiro, a subida ao cume do Monte de Santa Tecla. Seja qual for o ponto cardeal, surpreendem-nos paisagens fantásticas sobre o vale e o estuário do rio Minho e a orla marítima a perder de vista, tanto para o lado de Moledo como de Laguardia. Acompanhado pela Rosa, pelo Agostinho e pelo Daniel Noversa, as fotografias são da autoria deste último.
Aproveito para acrescentar uma dezena de fotografias da viagem a Castro Laboreiro, desta vez da autoria do Américo Rodrigues e do José Domingues.

Imagem: Monte de Santa Tecla visto de Moledo

Galeria 1: Vistas a partir do Monte de Santa Tecla

Galeria 2: Castro Laboreiro

Vangelis – Ask the mountains. Voices, 1995
Manfred Mann’s Earth Band – Visionary Mountains. Nightingales & Bombers, 1975

Apresentação de dois livros: Festas de São João de Sobrado / Mosteiro de Tibães

Sexta, dia 15 de março de 2024, pelas 21H00 no Centro de Documentação da Bugiada e Mouriscada, em Sobrado, Valongo, decorrerá a apresentação do livro “São João De Sobrado: A Festa da Bugiada e Mouriscada”, da autoria de Rita Ribeiro, Manuel Pinto, Albertino Gonçalves, Alberto Fernandes, Luís Cunha e Luís António Santos. Os promotores são a Comissão de Festas do São João de Sobrado 2017 e a Associação São João de Sobrado.

Sábado, dia 16 de março de 2024, às 15 h, na Sala do Capítulo do Mosteiro de Tibães, decorrerá, promovida pelo Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães, GAMT, a apresentação do livro “Para uma interpretação do mosteiro: Tibães do espaço à vivência, da materialidade à simbólica”. A publicação será apresentada pelo Professor José Carlos Miranda, da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (UCP – Braga).

Serão e Noite dos Medos em Melgaço – 20 e 28 de outubro

No mês de outubro, em Melgaço, a noite é dos medos. Na próxima sexta, dia 20, ocorre uma nova sessão, a segunda, dos Serões dos Medos, numa cozinha antiga de uma casa incrível mas acolhedora de que sou uma espécie de anfitrião. No sábado, dia 28, será a noite propriamente dita dos medos: uma dramatização coletiva fabulosa pelas ruas e no castelo. É de aproveitar, que só acontece uma vez por ano, num tempo de comunhão entre mortos e vivos. Para ver o programa, carregar na imagem do cartaz ou no seguinte link: https://www.cm-melgaco.pt/noite-dos-medos/.

A principal referência de comunhão entre os vivos e os mortos é a celebração mexicana da Santa Muerte e do Día de Muertos, em que os falecidos regressam para visitar os familiares e os amigos vivos. Entre as muitas canções relacionadas, selecionei três , todas de 2022, para pré-aquecimento das noites de Melgaço: La Bruja, La Martiniana; e La Sandunga.

Rosy Arango. La Bruja. México Inmortal. 2022
Tempus Quartet. La Martiniana. Canción de día de muertos. 2022
Tempus Quartet. La Sandunga. Música de día de muertos. 2022

Um pouco de amor e melancolia

Angel Olsen

We live together in a photograph of time” / Vivemos juntos numa fotografia do tempo (Antony And The Johnsons. Fistful Of Love)

Regularmente, o Tendências do Imaginário faz questão de introduzir uma pausa na conversa para “dar música”. Abrir uma janela lúdica entre artigos porventura mais densos. Que músicas? Quaisquer, de preferência que exprimam um gosto ou um estado de alma a partilhar. Estranho? O blogue é omnívoro e não possui contrato de exclusividade com assuntos ditos sérios nem é alérgico ao prazer. Não é só pela razão que se conhece e ainda menos se sente, se abraça, o mundo (Blaise Pascal, Pensées, 1670). Faz parte da sabedoria não espalmar a vibração dos sentidos, dos sentimentos e das emoções.

Angel Olson lançou este ano a canção Big Time. Associando Woman (2016) obtém-se um belo par que transmuta a melancolia em lamento e melodia, arte de que é mestre Antony. Recorde-se, por exemplo, Fistful Of Love. Um jeito de se deixar embalar em dia de chuva indolente.

Angel Olsen. Woman. My Woman. 2016. Ao vivo no KEXP studio, em 2017.
Angel Olsen. Big Time. Big Time. 2022. Vídeo oficial
Antony And The Johnsons. Firtful Of Love. I Am a Bird Now. 2005. Ao vivo.

Cirurgia à memória coletiva

Fotografia de Valter Vinagre. Fonte: https://www.timeout.pt/lisboa/pt/arte/despedido

Interessa-me a questão da destruição da arte. É uma modalidade de erosão da memória coletiva mais frequente do que estamos, espontaneamente, inclinados a pensar. A arte não detém, contudo, o exclusivo. Longe disso. Existem outros mundos alvo de apagamento da memória coletiva, alguns relativamente próximos da arte. É o caso de espaços de diversão e lazer tais como a Feira Popular de Lisboa ou o Palácio de Cristal do Porto devorados pela reconversão urbana. Em Braga, sucedeu algo semelhante à Bracalândia.

A propósito da exposição e do livro de fotografias, ambos com a mesma designação (Despedido), de Valter Vinagre (Narrativa, Alvalade), o jornal Público / ípsilon de hoje (18 de Dezembro de 2022, 7:46), dedica um artigo de fundo, da autoria de Sérgio B. Gomes, às “feridas” e às “cicatrizes” da Feira Popular de Lisboa, com o título “Notícias de um fantasma: Feira Popular de Lisboa”. Ousando extrair dois parágrafos, recomendo a leitura.

Nas sete fotografias de destruição da feira escolhidas por Vinagre — as mesmas, tanto para o livro (edição da Pierrot Le Fou, com ensaio de Emília Tavares), como para a exposição — só se vislumbram pormenores em segundos planos que identificam Lisboa. Este “fotografar de dentro para dentro” foi uma opção deliberada na tentativa de provocar “mais curiosidade” e de alargar o campo de discussão. “Ao fechar estas imagens, posso falar mais amplamente sobre destruição de memória colectiva, porque não as vemos apenas como fotografias de entulho da antiga Feira Popular, mas de qualquer processo de destruição de memória colectiva. Claro que elas pertencem a uma geografia, neste caso lisboeta, mas eu quero falar de um problema que é mundial, sobretudo das grandes cidades.

Se se perguntar hoje porque é que a Feira Popular de Lisboa acabou (ou foi acabando, consoante quem perguntar), a resposta pode ser tudo menos evidente ou simples. Um pouco como se se perguntar no Porto porque é que o antigo Palácio de Cristal foi destruído. Aqui, a resposta pode ser: porque a cidade não tinha um espaço para organizar o Campeonato Mundial e Europeu de Hóquei em Patins Masculino de 1952. Mas é sempre mais complexo do que um facto, um soluço, uma dificuldade, a falta de um campo de patinagem, um presidente, um vereador. E não é por acaso que muitos, dentro e fora do Porto, se referem ao actual Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota como ​“Palácio de Cristal”. Será um sinal de que as cidades são as pessoas, o usufruto que delas fazem, carregado com os seus imaginários, os seus quotidianos? Que cidade é Lisboa agora? É de ruínas que ainda falamos? “É. Quando olho para a cidade hoje, sobretudo a cidade que foi despejada, vejo-a cheia de cores, mas o que está à minha frente parece um filme — o que nos é dado a ver, porque já só quase vemos a cidade de fora —, é como se fosse um cenário. Os que viveram a cidade antes não conseguem abstrair-se do que existia. Por muito que gostemos de ver os bairros de Lisboa sem a decrepitude ou com condições de habitabilidade infra-humanas, aquilo que aconteceu é que deixou de ser isto para ser um artifício, um lugar a que não se tem acesso — ou melhor, só se entra nele se for para trabalhar, não para viver, porque não há poder económico para viver na cidade.

(Sérgio B. Nunes. Público / ýpsilon. “Notícias de um fantasma: Feira Popular de Lisboa”. Jornal Público, 18 de Dezembro de 2022, 7:46)