Archive | Setembro 2011

Kit mitológico

Eis-me regressado de duas mostras do intelecto na luminosa Lisboa. Já sentia saudades de deitar o cérebro nos lençóis do ecrã.

A animação dos objectos é uma tentação ancestral. Atestam-no As Metamorfoses de Ovídio (43 a.C./17 d.C.) ou o Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos de E.T.A. Hoffmann (1776 – 1822). Pedras, bonecos, árvores, utensílios, tudo pode ganhar vida com o sopro da imaginação. No anúncio “hummingbird”, um minúsculo pássaro metálico voa caprichosamente até encontrar a alma gémea: uma majestade mecânica denominada Audi.

Anunciante: Audi. Título: Hummingbird. Agência: BBH, UK. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, Setembro 2011.

Quem diz mitologia, diz Grécia. E grego é o anúncio “A Night at the Store” (uma paródia de Night at the Museum) composto por uma animação (libertação temporária) de objectos, muito ao gosto dos contos de E.T.A. Hoffmann.

Anunciante: Wind Telecommunications. Título: A Night at the Store. Agência: Leo Burnett, Athens, Greece. Direcção: Matthias Zentner. Grécia, Setembro 2011.

De têmpera divina, são os hamburgers Carl’s Jr, amassados pela fúria dos deuses e devorados por amazonas, nãomáquinas, desejantes.

Nestes tempos em que os homens e as mulheres ainda são seres humanos, a mitologia e a fantasia portam-se ambas bem. Palavra de Roland Barthes.

Anunciante: Carl’s Jr. Título: Hamblor, God of Hamburgers. Agência: David&Goliath, USA. Direcção: Guy Shelmerdine. EUA, Setembro 2011.

Ternura virtual

Pele de lã, corpo de ternura. A nós de os (in)vestir com prazer e arte. A Woolite e a Euro RSCG Worldwide encontraram a fórmula. Nada que não tivesse passado pelo génio de E.C. Escher.

Woolite. kissing. Euro RSCG Worldwide. EUA. Abril 2008.

Woolite. Legs. Euro RSCG Worldwide. EUA. Abril 2008.

Woolite. Hands. Euro RSCG Worldwide. EUA. Abril 2008.

E.C. Escher. Bond of Union. 1956.

E.C. Escher. Rind. 1955

Gosto de gostar

Acontece-me pensar que se tornou de bom tom não gostar. Por desgaste (os veteranos já gostaram tudo), por elitismo (para os snobs nada os merece), por universalismo (os omnívoros gostam de tudo, logo de nada) ou por previdência (são os viciados em preservativos do desejo). Pois, eu arrisco gostar. Gosto, por exemplo, de Jacques Séguéla, que foi uma lufada de ar fresco na França do último quartel do séc. XX. Responsável pelas campanhas eleitorais de Chirac e de Giscard d’Estaing, celebrizou-se com o slogan “A Força Tranquila” da campanha de François Mitterand. Publicou uma dezena de  livros dedicados à publicidade. Destaco: o best-seller Ne dites pas à ma mère que je suis dans la publicité… elle me croit pianiste dans un bordel, Flammarion, 1979 ; Hollywood lave plus blanc, Flammarion, 1982 ; e Fils de pub, Flammarion, 1984. Gosto, principalmente, dos seus anúncios. Por exemplo, Les Chevrons Sauvages (1985), da Citröen, um marco na história da publicidade.

Gosto também do trabalho da agência de publicidade Euro RSCG, de que Jacques Séguéla é fundador e vice-presidente. Trata-se de uma multinacional com implantação em Portugal. Retenho dois vídeos: o primeiro é um anúncio português (Fundação EDP Ilumina, 2010); o segundo é uma montagem de prints recentes feita, em 2011, pela Euro RSCG Worldwide.

Rotação com soutien à vista

Basta um pequeno toque, uma simples rotação, para que a magia aconteça. Não, senhor! Não são rosas, não! Apenas um “&” deitado, um esboço de soutien.

Marca: Blush. Título: &. Agência: Glow Pixelbutik. Director artístico: Johannes Krempl. Alemanha, Setembro 2011.

A shrekização do mundo

Norbert Elias estudou o processo civilizacional que marcou a história do Ocidente desde o séc. XII. A civilização dos costumes promoveu a autocontenção dos instintos, da agressividade e da promiscuidade. Abrangeu os espaços públicos e privados. Para além das ideias, incidiu sobre os corpos. Os corpos que importava demarcar, com “muralhas de honra” (Emile Durkheim), e distanciar, com “esferas de intimidade” (Georg Simmel). Corpos rectos e polidos, avessos a protuberâncias, reentrâncias, rugosidades e disformidades. Corpos vedados, com orifícios tapados ou disfarçados. Bocas, de preferência, fechadas. Risos reduzidos a sorrisos. Odores desodorizados. Saliva travada. Neste processo, acabámos alérgicos a um rol de estímulos: ao sangue, ao grito, à histeria, à respiração, à transpiração, aos ruídos corporais e, até, à dor, tanto a nossa como a dos demais. A Barbie e o Ken surgem, em 1959 e em 1961, como um protótipo do duplo movimento deste corpo civilizado: estilização e esterilização.

A teoria do Norbert Elias consta entre as mais interessantes e mais consistentes da história das ciências sociais. Continua a ser, abundantemente, corroborada por inúmeras tendências actuais. Mas, a seu lado, sempre subsistiu o corpo grotesco, excessivo, híbrido, grosseiro, prolixo, bestial. A civilização dos costumes coexiste com a shrekização do mundo, sobretudo no que respeita aos corpos. Corpos com carne, sexo e desejo. Arriscando uma inconveniência intelectual, corpos com órgãos, prenhes de funções. Na shrekização do mundo, a estupidez faz caretas à razão e o manguito ao poder.

A publicidade está apostada em nos shrekizar. Daí retira proveito. No primeiro anúncio, as goelas dos espectadores parecem querer engolir o ecrã e a nós próprios, por tabela. O segundo anúncio tem o dom de evidenciar que, na realidade, a civilização e a shrekização podem misturar-se. O casal é tão Barbie e tão Ken! Tão afectados! Tão lavadinhos! Mas aquelas exalações. a pedir um circulador de ar, lembram o “estádio do respiro”, proposto pelo sociólogo psicanalista Jean Louis Tristani (Paris, Minuit, 1978). São exalações libidinosas, antecipações de um orgasmo telecomandado. Assim vai o mundo, assim continua a vida… Shreks e barbies a beber o presente e a arrotar o futuro.

Cliente: ESPN. Título: The Gift. Agência: Wieden+Kennedy Amsterdam. Holanda, Setembro 2011.

Marca: Pear Drop. Título: Date. Agência:  Jwt London Rattling Stick. Direcção: Austen Humphries. Reino Unido, Agosto 2011. Viral.

Para bem dos meus pecados

O que motiva a publicidade a convocar cada vez mais valores negativos? O egoísmo, por exemplo. Onde se enfiou a miragem do ser humano perfeito? A propósito do anúncio Monsi, a agência Leo Burnett Argentina explica: “Este comercial sigue con el posicionamiento que venía teniendo la marca. Creo que logramos dar un paso más y hacer una buena evolución de la campaña contando el egoísmo que producen las Tentaciones, sobre todo, si tienen chocolate Aguila”. Que o egoísmo está em alta, não falta quem o proclame há décadas. Que vende bem, também sobram os casos de sucesso. Que o egoísmo se apresente cada vez menos eufemizado e cada vez mais em bruto, eis uma tendência que merece atenção.

Tetris tétrico

Corpos em queda, corpos empilhados, corpos decepados. O grotesco actual ao nível dos melhores antepassados (Hieronymus Bosch, Pieter Bruegel, François Rabelais, Jacques Callot). Absurdo.

Anunciante: Eastpak. Título: Play. Realização: We are from L.A. França, 2011.

Fractais: Tecnologia, design e cultura

Um pequeno e belíssimo  documentário sobre uma inovação que combina a matemática dos fractais com os desenhos locais tradicionais. Um exemplo de indústria criativa que nos vem do outro lado do mundo, da Indonésia.

Intel Visibly Smart : Batik Fractal.   Amsterdam Worldwide.  Setembro 2011.

Chuva de imagens

É cada vez mais frequente as imagens não se alinharem harmoniosamente em função de uma história. Há vídeos em que as imagens se acotovelam e se atropelam sem prosseguir um destino. Parecem mosaicos que se desfragmentam à medida que o tempo passa. Não têm princípio, nem trama, nem desenlace. Quando muito, retorno. Descuidam a razão e o raciocínio. Agarram-se ao corpo, às sensações, aos sentimentos, às emoções e ao imaginário. Aceleradas e babélicas, as imagens atordoam e excitam os sentidos. Abraçadas à música, multiplicam os efeitos. Geram ambientes e disposições. Absorvem. Perturbadoras, remetem para a potência, para o sonho e para o mito. Dispensam a lógica e a palavra. No domínio dos vídeos musicais, os The Beatles foram pioneiros nesta estranha forma de comunicar. Seguem-se dois exemplos: o primeiro a partir da música “Decades”, dos Joy Division, e o segundo, “Life Wasted”, dos Pearl Jam.

O centauro gaiteiro

Ser híbrido da mitologia grega, o centauro consta entre as figuras mais fantásticas do imaginário humano. “Besta no homem”, o centauro simboliza a força, o desregramento sexual e a animalidade não domesticada pelo espírito. Teve grande acolhimento nas iluminuras medievais, quase tanto como o dragão. Deparei-me com este simpático centauro gaiteiro quando folheava, electronicamente, um Livro de Horas (Provença, França, ca. 1440-50, Ms. Pierpont Morgan Library. M.358).

Livro de Horas, Provença, França, ca. 1440-50, Ms. Pierpont Morgan Library. M.358.