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Dar é criar

Para Deus Todo-Poderoso, o que conta não é quanto damos, mas quanto amor colocamos na dádiva (Madre Teresa).

O amor faz-nos descobrir capacidades desconhecidas, faz-nos ir muito além de nós para nos aproximarmos dos outros, daqueles de quem gostamos e de quem cuidamos. Assim rezam os dois anúncios da Teva: um homem de idade descobre o talento de cabeleireiro ao pentear a mulher doente; uma filha aprende a dançar para proporcionar momentos de felicidade ao pai. Damos o que somos e o que podemos ser. Dar é criar. Dar é ser maior. É ser maior do que aquilo que somos.

Marca: Teva. Título: Hairspray. Agência: VCCP. Direcção: John Turner. Reino Unido, Janeiro 2020.
Marca: Teva. Título: Best Foot Forward. Agência: VCCP. Direcção: John Turner, Reino Unido, Janeiro 2020.

Os cavalos também dançam

Lucky Luke, Jolly Jumper e Rantanplan

“O cavalo, como todos sabem, é a parte mais importante do cavaleiro” (Jean Giraudoux, Ondine, 1959, Paris, Flammarion, 2016, Scène Deuxième).

Um pingo de humor cai sempre bem, até na melancolia. O anúncio The Cool Ranch, da Doritos, é uma paródia dos westerns. Assistimos a um duelo de dança em duas mãos. Primeiro, os cowboys, em seguida, os cavalos. A música de Ennio Morricone sublinha a dramaticidade heroica do momento. Quem ganha o dorito? Um cow-boy vale o que vale o seu cavalo. O primeiro cavalo, tipo Jolly Jumper, capricha; o segundo, tipo Rantanplan, faz o que lhe apetece: nada.

Marca: Doritos. Título: Cool Ranch. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2020.
Rolling Stones. Wild Horses. Sticky Fingers. 1971.

Danças do Renascimento

Pieter Bruegel. A Dança Camponesa. 1568.

Nos anos setenta, pertenci a um clube de música clássica. Tinha a vantagem de estar ao corrente do que era publicado e de adquirir os discos a preço reduzido. Encomendei o álbum Danses de la Renaissance (1973), do Clemencic Consort, neste quadro, sem conhecer o conteúdo. Afeiçoei-me ao Clemencic Consort e acompanhei a sua carreira. Tivemos momentos felizes. Por exemplo, o álbum La Fête de l’Âne – Traditions du Moyen-Age (1980 : o Tendências do Imaginário contempla várias músicas). O vinil das “Danças do Renascimento” é uma relíquia.

O Tendências do Imaginário e a Internet contêm muita música medieval. Ainda mais, música barroca. E a música do Renascimento? Fica entalada entre o medieval e o barroco? As sociedades têm ouvidos selectivos. A História da Música comprova-o. Dispense-se alguma atenção a estas danças do Renascimento. Não ficamos mais pobres. Seguem a faixa 3, Danses, 08:58, ficheiro vídeo; a faixa 11, Danses anonymes, 05:12, e a faixa 14, Danses, 04:17, estas duas faixas em ficheiro áudio.

Clemencic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1973.
Clemencic Consort. Danses anonymes. Danses de la Renaissance. 1973.
Clemencic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1973.

Acrobacia e dança

Kami-Lynne Bruin .

Já coloquei a música Porz Goret, de Yann Tiersen (https://tendimag.com/2018/12/12/cavalo-cansado/). Mas não com este vídeo: uma dança acrobática de Tarek Rammo & Kami-Lynne Bruin, que já foram membros do Cirque du Soleil. O ritmo, a melodia e o sentimento da música de Yann Tiersen prestam-se à dança.

Yann Tiersen. Porz Goret. EUSA. 2016. Acrobatas: Tarek Rammo & Kami-Lynne Bruin.

Esqueletos eróticos

Eizo. X-Ray Pin-up calendar. 2010. Imagem em alta resolução.

A todas e a todos que se dedicam à mui nobre arte de emagrecer.

Os esqueletos tocam música e dançam. À semelhança dos demónios. A dança dos esqueletos inspirou inúmeras obras desde a Idade Média. A Skeleton dance, em realidade aumentada, foi exibida em Bruxelas no ano de 2013:

‘Skeleton Dance’ is a streetmapping project that was first presented at Brussels Light Festival in 2013. During the three day festival, more then 85.000 people visited Brussels Light Festival. Over the past few years the project has traveled to multiple festivals around the world.

Filip Sterckx and Antoon Verbeeck. Skullmapping: https://skullmapping.com/project/skeleton-dance/

Para além de dançar e tocar música, os esqueletos também beijam, assediam, riem, lutam e fazem pose. Nem Sigmund Freud imaginou as potências eróticas dos ossos. O voyeur deixa de ver a pele e a carne, vê os ossos voluptuosos. Bem diz o povo: nós somos tão bonitos por dentro! Com uma pequena ajuda da técnica.

Ontem, dei uma conferência no Paço dos Duques, em Guimarães, sobre a honra e a lenda de Egas Moniz. Sobreaqueceram-se-me os neurónios. No rescaldo, só penso disparates. É a minha receita para descansar. Publiquei algumas imagens do X-Ray pin-up calendar no facebook em 2010, data da sua edição. Vale a pena retomá-las.

Imagens do calendário X-Ray pin-up, da Eizo. 2010.

Pelo sim, pelo não

Dollar Shave Club. Manifique. 2019

Homens objectos dançantes. Coreografados a preceito. Muito se tem escrito sobre a representação da mulher na publicidade. Recordo o livro Gender Advertisements, de Erving Goffman (1976). Pelo sim, pelo não, chegou o momento de estudar a representação do homem na publicidade. Com ou sem humor. Com ou sem pelos.

Marca: Dollar Shave Club. Título: Manifique, A Father’s Day Gift. Produção: Biscuit Filmworks, Revolver, Will. Direcção: The Glue Society. Estados Unidos, Junho 2019.

Saída de palco

Bink’s Sake. One Piece.

Alguém pediu uma homologia? Noção recomendável na sociologia dos anos sessenta. Lucien Goldman foi um praticante convicto, mormente nos livros Sociologie du roman (1964) e Dieu Caché (1955). Pierre Bourdieu acumula homologias, designadamente, na Distinção (1979), e na “semiótica” da casa cabila (“La maison ou le monde renversé”, in Esquisse d’une théorie de la pratique, 1972). Não esquecendo o contributo de autores clássicos como Max Weber e Georg Simmel. O afunilamento da investigação não ajuda ao estudo das homologias, cuja pesquisa pressupõe abrangência, comparação e sentido da diferença. A comparação não requer, antes pelo contrário, igualdade de origens, conteúdos ou funções entre realidades

Pode-se falar de homologia entre o vídeo da canção Bink’ Sake, do anime One Piece, e a Sinfonia do Adeus de Haydn. Os músicos retiram-se paulatinamente da orquestra. Trata-se de uma despedida colectiva e individual. Um corpo que se fragmenta. Os intérpretes retiram-se um a um, sem cronograma pré-definido. No palco, permanece, “abandonado”, o maestro.

Na canção Bink’ Sake relevo duas correspondências: uma relativa à dança macabra, a outra à Sinfonia do Adeus.

O protagonista de Bink’ Sake é um mortal que se tornou imortal. Imortal como a morte. Apesar de ser imortal, não escapa à corrosão do tempo: decompõe-se como um transi. Conforme antes ou após a imortalidade, ora aparece como humano, ora como esqueleto. O que não o impede de comandar a música e a dança. Na parte final, os músicos e os cantores formam um círculo, à semelhança da maioria das danças macabras, e (des)falecem desamparados. A letra da canção confirma o destino: “We all end up as skeletons”.

A canção Bink’ Sake e a Sinfonia do Adeus são de géneros distintos. Concentram-se nos intérpretes: instrumentistas, cantores e maestros. A saída da vida, num caso, e do palco, no outro, são quase desenhadas a papel químico. Uma a uma, as pessoas retiram-se do grupo, da vida ou do palco. O último conta os estragos: “What’s wrong… We’re just a quartet… Trio…Duet… Solo.”

Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves

Bink’ Sake. One Piece. Vídeo.

Um passo de dança

Almada Negreiros. Cine San Carlos. Madrid.

A dança é uma vocação do corpo. É um momento em movimento. A dança abre e a dança fecha. De essencial, nada mais sucede nesta ilha de sensualidade. É uma forma simbólica que, irredutível a textos e contextos, vale em si e por si. A dança, a arte da dança, não é papel timbrado. A dança desentorpece a humanidade desde Adão e Eva. “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Genesis 3:19). Um pó que dança. Por muito que o mundo ordene, um passo de dança é um passo de dança, um rio a abraçar perdidamente o mar.

“Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We’re both of us beneath our love, we’re both of us above
Dance me to the end of love”
(Leonard Cohen. Dance me to the end of love. Various Positions. 1984).

A curta-metragem Bear and Squirrel, do programa Dancing On Ice, da ITV, espelha o nosso fascínio pelos desenhos dançantes, como, por exemplo, no filme Fantasia (1940-2000), da Walt Disney. Opto pelo excerto dedicado ao Carnaval dos Animais (1886) de Camille Saint-Saëns.

Marca: Dancing on Ice (ITV). Título: Bear and Squirrel. Produção: ITV Creative. Direcção: Kirk Hendry. Reino Unido, 2018.
Fantasia. Walt Disney. 2000. Excerto: Flamingos. The Carnival of the Animals, composição de Camille Saint-Saëns. 1886.

Corpos densos, corpos tensos

Friedemann Vogel .Stuttgart Ballet – Baki Photography

Habituei-me a ver no bailado corpos imaginados, quase impossíveis. É o caso do bailarino Friedemann Vogel fotografado por BAKI (Figura 1; parece uma alegoria do equilíbrio da economia). Sul-coreano, BAKI foi solista no Bailado Nacional da Coreia, é fotógrafo e coreógrafo.

BAKi transcends the role of the photographer. His work isn’t about capturing the aesthetic of an instant or rendering the essence of a dance through the prism of his own vision. Mastering both disciplines, dance and photography, BAKi submits our eyes to his inner energy and unfolds it in space (Opium Gallery: http://www.opiomgallery.com/en/artistes/oeuvres/4116/baki).

Feliz Natal!

Recebo poucos anúncios italianos. Não há como procurar. Encontram-se relíquias como este anúncio ao queijo “parmigiano”. Uma dança da alegria, com música original. Aproveito para desejar um feliz e generoso Natal.

Marca: Parmigiano Reggiano. Agência: Max International. Agência de produção: DIAVIVA. Direcção: Sebastian Grousset. Itália.