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As crianças na escola

O Principezinho

Contar histórias curtas é uma arte. Os anúncios Clean Conscience, da Usa, e Love Note, da Protection Environnement, constituem um bom exemplo. Duas pérolas do arquivo culturepub. Mas outros anúncios parecem requerer mais tempo como que para uma maior abertura ou massagem do espírito. É o caso do anúncio The Lunchbox, da Bufdir.

Marca: Usa. Título: Clean Conscience. Agência: Lowe. Tailândia, 2008.
Marca: Protection Environnement / Unilever. Título: Love Note. Agência: Price / mcnabb. Direção: Thom Higgins. Estados-Unidos, 1995.
Marca: Bufdir. Título: The Lunchbox (Fosterhjem.no). Agência: Kitchen Leo Burnett. Direção: Jens Lien. Noruega, 2017.

Entrevista a Madalena Oliveira

Entrevista com Madalena Oliveira. Boletim ICS, abril 2022.

O Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho, adotou como boa prática promover uma entrevista aos ex-membros recentemente reformados, para publicação no respetivo Boletim Informativo. Proporcionou-se uma conversa amável, franca e empática com Madalena Oliveira, atual diretora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade.

A reforma não é a conclusão de um percurso mas uma nova fase. Não é por ser tão gasto que este provérbio deixa de ser verdade. As janelas de oportunidade modificam-se mas mantêm-se abertas para franquear experiências e arejar espíritos. Noutra condição, por outros caminhos e com novas artes.

Segue a entrevista, em pdf, a Madalena Oliveira.

De pequenino se torce o pepino

Melgaço é terra de historiadores e cientistas sociais. À luz do vídeo seguinte, até se afigura que a sementeira precede a lavoira. Esta entrevista a um serralheiro por duas crianças resulta exemplar, no duplo sentido da palavra. Oferece-se como um contributo feliz para a educação, a cultura, a comunicação e a interação entre gerações num dos concelhos mais envelhecidos do País. Uma iniciativa que lembra outras sementes, por exemplo, o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, cuja atividade tem contribuído para a animação e o desenvolvimento sociocultural local.

Escreve Blaise Pascal que apenas chegados ao fim estamos em condições de saber como começar. Abusando deste pensamento, acrescento que em qualquer obra consequente o fim, a conclusão, já deve estar presente no início, na introdução. Ambos ganham em se tocar e em dialogar. Importa saber cruzar os tempos: o passado, o presente e o futuro. Cuidar das sementes antes de lavrar.

Bem-haja o projeto pedagógico “Histórias de uma vida ou vida com histórias”, bem como os seus protagonistas: a Casa do Povo e o Agrupamento de Escolas, de Melgaço; os entrevistadores António e Diana; o entrevistado senhor Aires; a Carla Esteves, pela realização; o Fernando Pereira, pela ideia original; e a Céu Rodrigues Pereira, pela publicação do vídeo na página Melgaço, Portugal começa aqui. Importa semear, mais do que para colher, para ser, para germinar.

Para aceder ao vídeo, carregar na imagem seguinte e ligar o som.

História de uma vida ou vida com histórias. Melgaço.

Aniversário com corda partida

Corda partida. Hans Holbein. The Ambassadors. 1533. Detalhe. Ver: Objectos que falam.

A uma ex-aluna de doutoramento

Hoje, acordei incompleto.

Gaetano Donizetti Sonata for flute and harp (originally for violin and harp). Larghetto e Allegro. Flauta: Flute: Sonat Sozer. Harpa: Gizem Aksoy. 2017.

Uma das suas músicas:

Julien Doré. Le Lac. &. 2016. Vídeo oficial.
Albertino Gonçalves. Sociologia sem palavras 26. Música e comunicação não verbal. 13 de janeiro de 2018.

Diálogo entre gerações

Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas (frase atribuída a Nietzsche)

Quanto mais os sistemas de ensino se aproximam de máquinas de empacotar saber mais as máquinas de entretenimento ousam funcionar como fontes de sabedoria? Este anúncio com um diálogo possível entre o saber dos pais e a sabedoria da filha é uma delícia. Uma amostra da comunicação entre gerações. Sem compromissos nem ressentimentos.

Marca: Hooked on Phonics. Título: When you’re hooked on Phonics… Agência: Little Big Engine. Estados-Unidos, fevereiro 2022.

Portugal: Competitividade e custos de contexto das empresas, do trabalho e do país.

Rafael Bordalo Pinheiro. Entre a Cruz e a Caldeirinha. O Mosquito, Rio de Janeiro, N. 356, 8 de abril de 1876.

«Um grande sacrifício é fácil, difíceis são os pequenos sacrifícios contínuos…» (Johann Wolfgang Goethe, adaptado de «As afinidades electivas»)

Em Portugal, o que interessa não é interessante. Prefere-se a poeira à clareza (AG).

O meu rapaz mais jovem, o Fernando, acaba de publicar um novo artigo numa revista com referee e com fator de impacto: “A Recursive Algorithm for the Forward Kinematic Analysis of Robotic Systems Using Euler Angle”, (Robotics 2022, 11(1), 15; https://doi.org/10.3390/robotics11010015 (registering DOI). O mesmo acontece com o meu rapaz menos jovem, o João que publicou o artigo “Common sense or censorship: How algorithmic moderators and message type influence perceptions of online content deletion” (New Media & Society, July 28, 2021: https://doi.org/10.1177/14614448211032310), igualmente numa revista com referee e fator de impacto. O Fernando é doutorando em Engenharia Mecânica e o João, doutor em Ciências da Comunicação, ambos pela Universidade do Minho, com bolsa da FCT. O João emigrou; é professor na Universidade Erasmus de Roterdão, na Holanda. O Fernando para lá caminha: atraído pelo Oriente, está a aprender japonês, o que, para mim, não é bom augúrio. Não se resignam à sorte que Portugal lhes destina nem receiam competir com os indígenas dos países de destino. O panorama nacional está longe de ser cativante. É o fado lusitano.

Repete-se que as empresas e os trabalhadores portugueses carecem de produtividade e competitividade. Não sei! Não disponho de informação suficiente, sobre umas e outros, para consolidar uma ponderação válida. Quero acreditar que se esforçam, que fazem por isso, que se empenham. É do seu interesse. Possuem virtudes e vícios, desconheço se maiores, melhores ou piores do que nos países estrangeiros. O que se me afigura é que se confrontam com custos de contexto incomparáveis e incomportáveis. Só por ser produzido em Portugal, um bem pode suportar custos comparativamente mais elevados. O que configura, na prática, uma espécie de “concorrência desleal” face aos adversários congéneres de outros países, por exemplo, da União Europeia. Um rosário de desgraças! Perdoem a imagem, mas lembra uma corrida em que uns calçam tamancos e outros, sapatilhas de desporto.

Comecemos pela energia, despesa apreciável e incontornável das empresas e das famílias:

“O custo da energia em Portugal continua a ser dos mais elevados da Europa, afetando as famílias e as empresas. Porquê? (…) Na gasolina 95 simples, a carga fiscal é de 63%, fazendo com que o país pague o sexto preço por litro mais elevado da União Europeia (EU). O preço praticado em Portugal é 0.55 euros mais caro que o preço mais baixo praticado na EU e fica a 0.17 euros do preço mais elevado. / No gasóleo, o preço por litro praticado em Portugal é o sétimo mais elevado da EU, sendo 0.38 euros superior ao preço mais baixo e fica a 0.21 euros do preço mais elevado. / Estes preços dos combustíveis são pouco competitivos à escala europeia. Panorama idêntico existe nos custos de eletricidade e do gás natural. / O Eurostat divulgou recentemente o seu boletim de preços e Portugal volta a ficar mal na fotografia. / A carga fiscal, apesar de não ser tão elevada como nos combustíveis, continua a ser acima do desejável: 40% na fatura da eletricidade e 32% na fatura do gás (faturas cobradas às famílias). / No segundo semestre de 2020, o país apresentou o quarto maior preço de eletricidade da EU, tendo por base a paridade do poder de compra das famílias (por MWH), apenas atrás da República Checa, Espanha e Alemanha (…) No que respeita ao gás natural, o país apresenta o segundo maior preço de gás da EU, tendo por base a paridade do poder de compra das famílias (por gigajoules) / Num período em que se discutiram e ainda discutem as prioridades económicas do país e se elaborou um plano de recuperação e resiliência com vista aos fundos estruturais da famosa e tardia “bazuca”, porque não se olhou ou começa a olhar para a questão dos preços da energia, que são elevados em Portugal e que afetam a competitividade das empresas e da economia em geral?” (Carlos Bastardo, Preços da energia em Portugal são elevados no contexto europeu, Jornal de Negócios: https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/carlos-bastardo/detalhe/precos-da-energia-em-portugal-sao-elevados-no-contexto-europeu).

Algumas propriedades do mercado de trabalho português prejudicam a produtividade e a competitividade nacionais. Por falta de informação adequada, algumas das afirmações seguintes reduzem-se a meras impressões e conjeturas.

A descoincidência, o desacerto, entre a oferta e a procura de trabalho manifesta-se com um dos mais graves obstáculos ao desenvolvimento da economia nacional, da competitividade das empresas e da produtividade do trabalho. As empresas conhecem dificuldades em encontrar trabalhadores ajustados às suas necessidades e especificidades, mesmo quando o desemprego é apreciável; por seu turno, os trabalhadores têm dificuldade em encontrar empregos adequados às suas capacidades e aspirações, mesmo quando a economia se aproxima do pleno emprego. Vários fatores contribuem para este desequilíbrio. Por exemplo, as migrações descontroladas, designadamente a emigração. Mas também a desfocagem da educação, da formação e da requalificação profissional, desfasadas das necessidades efetivas, presentes e futuras, dos sectores público e, sobretudo, privado. Acresce o desencontro da distribuição geográfica. Apesar das “correções espontâneas” e do acréscimo da mobilidade, persiste alguma tendência para as empresas se concentrarem em territórios onde as bolsas de trabalho escasseiam e desertarem das áreas onde a disponibilidade de trabalhadores é maior. As disparidades regionais e as dinâmicas demográficas, principalmente entre o litoral e o interior, concorrem para esta descoincidência. Esta realidade é manifesta. Fui convidado para estudar uma zona industrial a braços com uma crise anunciada: várias empresas com centenas de colaboradores ameaçavam deslocalizar-se devido à dificuldade em recrutar trabalhadores localmente. O desenvolvimento do turismo e do comércio transfronteiriço multiplicou os estabelecimentos hoteleiros e os comércios no norte interior. A maioria dos trabalhadores provêm da área metropolitana do Porto, com o compromisso de lhes garantir alojamento. Existem empresas predadoras de salários baixos que erram de terra em terra, de trabalho esgotado em trabalho prometido.

Quer-me parecer que a imigração, em particular a brasileira, tem mitigado parte desta descoincidência do mercado de trabalho nacional. Mas o atual surto de emigração, com características únicas, agrava-a. Quando a educação e a formação logram acertar, a emigração distorce. A dificuldade no recrutamento de médicos e enfermeiros para o Serviço Nacional de Saúde constitui um exemplo. As famílias com que me relaciono, uma amostra não representativa, têm quase todas pelo menos um filho a trabalhar no estrangeiro. A geração mais qualificada de sempre, descendente da geração mais qualificada do passado, está a despedir-se do país. Portugal está a desperdiçar capital humano, ambição e energia. Grave, muito grave!

O envelhecimento demográfico acentua-se como uma variável de contexto que compromete a economia portuguesa. Em 2019, Portugal era, entre 37 países europeus, o terceiro com maior percentagem de população com 65 e mais anos de idade: 21.8%, a par da Finlândia e atrás da da Itália (22.8%) e da Grécia (22.0%). Entre 2009 e 2019, Portugal foi o sexto país em que este grupo etário mais aumentou (3,8 pontos percentuais contra 2.9 no conjunto da União Europeia – fonte: Eurostat). Este envelhecimento pesa, entre outras dimensões, na sustentabilidade da segurança social e na disponibilidade de força de trabalho. Nestas circunstâncias, importa expandir a disponibilidade laboral, reduzindo, eventualmente, a ocupação com tarefas, tais como a dedicação doméstica à primeira infância, através, por exemplo, da aposta na cobertura de creches. No caso da zona industrial acima referida, a abertura de uma creche propiciou uma maior “drenagem” de trabalhadores, sobretudo, do sexo feminino. Uma iniciativa positiva tanto para as empresas como para os trabalhadores.

Para combater estes e outros custos de contexto, os decisores parecem não vislumbrar outra solução a não ser o recurso à contenção dos salários, à precariedade e à compressão, ao encolhimento, das carreiras. Para o meu entendimento, suspeito, esta é a maior praga da economia portuguesa, o maior custo de contexto. Retomando o artigo “Lamento político 1: Os salários nos sectores público e privado em Portugal e na EU” (https://tendimag.com/2022/01/11/lamento-politico-1/), no ano 2000, entre os dez países europeus considerados, Portugal é aquele que tem o salário médio mais baixo, tanto no setor público como no setor privado. O salário médio da Irlanda é três vezes superior ao português. Portugal destaca-se com o maior diferencial de salário médio entre os setores público e privado: mais 36.6%. Os baixos salários e o diferencial entre setores privado e público, pouco recomendáveis, corroem a competitividade e a produtividade das empresas, dos trabalhadores e do país. Recentemente, as estatísticas revelaram que uma proporção significativa de pessoas com emprego vive abaixo do limiar de pobreza. Não há motivo para tanta surpresa. Em Portugal, existem multidões de trabalhadores que não ganham sequer para a sua reprodução antroponómica, para falar à maneira de Daniel Bertaux (Destins personnels et structure de classe: Pour une critique de l’anthroponomie politique, Paris, Presses Universitaires de France, 1977), ou para a reprodução da sua força de trabalho, como diria Karl Marx. Esta enormidade não pode ser benéfica para a competitividade das empresas e a qualidade de vida dos cidadãos. Compostas por trabalhadores. a produtividade e a competitividade das empresas dependem da qualidade, mobilização e motivação do seu capital humano. Além de baixos, os salários comprimem-se em demasia: pouca amplitude, pouca variação e pouca dispersão. No ano 2000, o desvio-padrão da distribuição dos salários/hora no setor privado era o mais baixo do conjunto dos países da então União Europeia (1,6 contra, por exemplo, 4,1 em França). Não só se ganha menos como são menores as perspetivas de progressão. Nas últimas décadas, esta tendência para a compressão tem-se acentuado, sobretudo, no sector público. A categoria dos professores oferece-se como exemplo: os salários reais baixaram e a sua distribuição comprimiu-se; a carreira encolheu e a espera aumentou. Sobe-se menos, com mais dificuldade e mais devagar. Para cúmulo, o prestígio e a autoestima degradaram-se, fenómeno para que alguns governos contribuíram, sem que ninguém tenha lucrado. Uma das consequências está à vista: a profissão perdeu atratividade. Resulta, mais uma vez, uma descoincidência entre a procura e a oferta de emprego. Atendendo ao envelhecimento da classe e respetiva reforma, os governos vão-se debater, nos próximos anos, com sérias dificuldades em recrutar os professores exigidos pelo sistema de ensino. Aos médicos e aos enfermeiros, juntam-se os professores.

A educação e a saúde são serviços em que, comparativamente, Portugal não desmerece. O respetivo desempenho afirma-se aceitável, justificando, inclusivamente, num ou noutro aspeto, algum motivo de orgulho, por exemplo o sucesso no estrangeiro dos diplomados pelo ensino nacional. Esta avaliação vale para o presente, justifica-se, porém, alguma apreensão quanto ao futuro próximo, mormente no caso da saúde. A educação não para de se debater com um problema crónico: se é ponto assente que o país carece de reformas, a educação padece de reformismo permanente. A cada ano, quando não a cada mês, alteram-se as regras, os procedimentos, os objetivos e os projetos. A educação parece o laboratório do reformismo infantil do Estado. Poeira, que nunca assenta, com prejuízo da consolidação e da estabilidade desejadas para o sistema. Um excesso quase delirante de benchmarking, experimentalismos pedagógicos, sobreaquecimento administrativo, heteronomia e protagonismos políticos. Esta proliferação de minúsculos enxertos e inovações resulta desgastante. A educação parece a nossa folle du logis. Creio chegada a altura de proporcionar algum apaziguamento ao sistema de ensino, de dar repouso a este Sísifo pátrio. Na saúde, em particular no Sistema Nacional de Saúde, a escassez de recursos humanos, a saturação e a morosidade, objetivadas nas filas de espera, mais do que comprometer o presente, erguem-se como um presságio deveras inquietante para o nosso futuro comum.

A saúde e educação suscitam uma mesma reserva. Ao contrário do que estipula a Constituição, não têm sido, cada vez menos acessíveis e mais onerosas, “tendencialmente gratuitas”. O universalismo e a igualdade resumem-se a uma promessa sempre adiada. Quando iniciei a atividade profissional na Universidade, as propinas eram praticamente inexistentes. Hoje, estão bem longe de ser simbólicas. Uma família que dependa de um salário mínimo, mal se consegue restaurar, quanto mais financiar a frequência de um filho, provavelmente deslocado, num curso que cobra milhares de euros por ano. Também não é menos verdade que o direito à escolha do ato médico permanece uma quimera para a maioria dos portugueses.

À semelhança da saúde e da educação, o sistema de transportes, apesar da insuficiente e desequilibrada cobertura, não parece representar um obstáculo decisivo em termos de custos de contexto. A aposta exagerada na rede rodoviária compensa a fragilidade da rede ferroviária. Não obstante, o modelo português comporta alguns custos no futuro. Inscreve-se a contracorrente das opções da União Europeia (ver Livro Branco: Roteiro do espaço único europeu dos transportes, Comissão Europeia, 2011) e dificulta os compromissos de sustentabilidade ecológica entretanto assumidos. Em suma, não é amigo do ambiente. Por enquanto, este handicap não comporta custos de contexto para as empresas.

Se os sistemas de saúde, educação e transportes não se destacam pelos custos de contexto, o mesmo não se pode afiançar do sistema de justiça. Moroso e imprevisível, representa um desafio e uma ameaça para a vida, o funcionamento e a sobrevivência das famílias e, sobretudo, das empresas. O sistema de justiça ocasiona um dos mais graves custos de contexto do país. O recurso à justiça não é raro e pode ser crítico, especialmente em termos de custos de oportunidade. Muitas empresas contemplam serviços jurídicos. Morosa, hermética e imprevisível, a justiça é a tartaruga, o labirinto e a esfinge de Portugal. Não obstante, parece intocável. Sem questionar a dedicação e o empenho, estimo que, no que respeita à esfera pública, ganhava em ceder menos à mediatização e cuidar mais da autonomia que a Constituição lhe confere.

A burocracia é comumente invocada como um dos principais problemas da sociedade portuguesa. Embora o admita, reconheço que se distingue como um dos poucos domínios em que, nas últimas décadas, foram dados passos positivos. A informatização ajudou, bem como iniciativas tais como as lojas do cidadão e o cartão único. Alguns procedimentos simplificaram-se e a relação com o público parece ter melhorado. Mas há ainda caminho a percorrer. O acesso e a resolução dos problemas nem sempre brilham pela agilidade. Pode-se melhorar em termos de clareza das regras e dos procedimentos, acessibilidade, transparência, diminuição de informalidades, clientelas, mordomias, desvios e corrupção. Neste momento, não me parece que a burocracia seja o pior custo de contexto.

Chegou o momento de abordar a questão dos impostos e da carga fiscal. Ao contrário do que muitas vezes se sugere, a carga fiscal em Portugal, quando comparada com os países da União Europeia, não é muito elevada. De acordo com o Eurostat, a carga fiscal, constituída pela soma dos impostos e das contribuições sociais líquidas em percentagem do PIB, situou-se, em 2019, nos 36.8%, ocupando uma posição intermédia na série dos 27 países da União Europeia (ver gráfico 1), abaixo do valor do conjunto (UE27: 41.1%). A carga fiscal aumentou consideravelmente entre 1995 e 2015, passando de 31.4% para 36.8%, o quarto maior aumento nos países da UE27, apenas inferior à Grécia, à Bulgária e ao Chipre (ver Tabela 1). Honestamente, estes números não apontam para uma carga fiscal responsável, intrínseca e comparativamente, por um despropositado custo de contexto. O que merece, isso sim, uma avaliação criteriosa é o modo como a receita fiscal é repartida, distribuída e investida.

Mergulhei na atividade política em 1974. Fui responsável por um partido político no meu concelho de origem. Com outro concelho, foi o único do distrito em que o partido ganhou as eleições para a Assembleia Constituinte do dia 25 de Abril de 1975. Coincidindo com a minha partida para França, afastei-me da atividade política logo após o período conhecido como “verão quente”. Desde então, nem militante, nem sequer simpatizante explícito. Mas não existem vacinas nem imunidades absolutas. Atrevo-me a um ou outro despretensioso balanço.

O sector político (Presidência da República, Assembleia da República, Governo, poder autárquico, partidos políticos) também influencia os custos de contexto. Dispenso comentar. Limito-me a um breve apontamento.

Entre as propostas da presente campanha eleitoral destacam-se aquelas que respeitam à política fiscal: redução do IRC versus aumento dos salários. Caracterizam-se por serem propostas que se podem implementar por decreto: totalmente, a redução do IRC; parcialmente, o aumento de salários, mais direto e linear no sector público do que no sector privado. Estas propostas justificam dois ou três reparos. Antes de mais, não acredito que “se consiga mudar a sociedade por decreto” (Michel Crozier, On ne change pas la société par décret, 1979). Por outro lado, estas medidas não produzem fatalmente os efeitos desejados. Podem provocar efeitos perversos. O aumento de salários pode alimentar o crescimento do consumo, da inflação, das importações e saldar-se numa quebra efetiva do salário real. Tão pouco se sabe se o bónus da descida do IRC vai estimular as virtudes ou os vícios, muitos e entranhados, do tecido empresarial português. Não sei, portanto, qual vai ser, à partida, o efeito dessas medidas. Invejo quem saiba. São, no entanto, fáceis de formular. Basta quatro palavras: “vou baixar o IRC” ou “vou aumentar os salários”. Outro género de propostas exige mais fraseado. Não basta dizer vou melhorar o ranking da educação, a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, agilizar a justiça ou diminuir o impacto da poluição. Tem que se completar a proposta, adiantando como. Certo é que a diminuição do IRC ou o aumento dos salários implicam, automaticamente, uma transferência ou um corte da riqueza de todos em proveito de uma parte, seja esta empresária ou assalariada. Significa, também, que esse dinheiro transferido ou preterido deixa de estar disponível para investir, digamos, na saúde, na educação, na solidariedade social ou na fatura energética.

Quase não vejo televisão. Não tenho nada contra, mas dedico-me e concentro-me em outras atividades. Só assisti a uma ou outra passagem dos debates pré-eleitorais. Nem sequer a um único segundo do debate “decisivo” entre António Costa e Rui Rio. Entretido, passou-me a hora. Não me entusiasma a voz dos políticos; ainda menos a dos comentadores. Mesmo assim, acabo por reter algumas impressões.

Pelos vistos, as velhas dicotomias da economia política e da política económica, tais como investimento/consumo, rendimento/inflação, público/privado continuam no vento. Quando frequentei na Sorbonne, no início dos anos oitenta, um curso de mestrado em Política Económica, as aulas convenceram-me que essas oposições se tinham esbatido e que keynesianos e friedmanianos tinham aprendido alguma coisa com a experiência e uns com os outros. Tudo indica que não.

Enfim, o pouco que observei foi o suficiente para entranhar uma impressão deveras estranha. Parece que os poderosos e abastados deste país têm inveja dos pobres e dos excluídos! Precise-se, de passagem, que os traficantes não costumam ser pobres; antes, endinheirados.

Em jeito de conclusão, três dúvidas formuladas sob a forma de perguntas:

– Serão as empresas portuguesas, por si mesmas, não competitivas? Noutros termos: colocadas em condições semelhantes às congéneres dos países parceiros da União Europeia, permaneceriam não competitivas?

– Serão os assalariados portugueses menos produtivos? Noutros termos: colocados em condições semelhantes, como os nossos emigrantes, aos congéneres dos países parceiros da União Europeia, permaneceriam pouco produtivos?

– Será Portugal um país, no seu conjunto, não competitivo?

Excetuando um breve período na década de 1960, há séculos que Portugal não é um país competitivo.

A BBC em Lamas de Mouro e Pomares (Melgaço)

Discovering Portuguese. BBC.

ENCONTREI! Encontrei, finalmente, imagens das filmagens da BBC, no início de setembro de 1987, dedicadas à pastorícia em Lamas de Mouro e à feira de gado cavalar e muar, em Pomares. Integram o terceiro episódio da série Discovering Portuguese, dedicada ao ensino da língua portuguesa. As sequências são poucas e breves.

Cumpriu-me, a pedido de Mário Alves, ser o anfitrião: selecionar e contatar previamente as pessoas, escolher as atividades, os locais e os percursos. Veio uma equipa com uma dezena de profissionais. Cada pessoa entrevistava assinava os direitos e recebia uma quantia em dinheiro. Durante as filmagens, só atrapalhei. No episódio da passagem do gado na ponte de Lamas de Mouro, coloquei-me do outro lado a distância, aparentemente, mais que prudente. Mesmo assim, as cabras e as ovelhas, ao ver-me, estacaram. Nem para a frente, nem para trás. Foi preciso recuá-las e voltar a filmar. A manhã foi suficiente para acabar o trabalho. Almoçámos no restaurante Mané, em Monção. Durante a viagem, a Roberta Fox, apresentadora no vídeo, fez-me companhia no meu carocha 1500 cor-de-laranja, que tinha o vício, para além da gasolina, de, sempre que travava, guinar para a direita. A carta de condução ainda estava fresca. E ela estava com pressa. À tarde, iam filmar a festa de Nª Senhora da Bonança, em Vila Praia de Âncora. Acredito que esta viagem foi a maior aflição da sua estadia em Portugal.

Logo no início do vídeo, aparece a passagem do gado na ponte de Lamas e a feira do gado em Pomares, e, a partir do minuto 19’, a reunião do gado proveniente de várias cortes, característica da vezeira, e a entrevista à pastora. É pouco, mas sempre é uma ponta por onde se pode pegar para tentar aceder a outras partes então gravadas.

Este documentário não vale apenas pela presença de Lamas de Mouro e Pomares. Vale também pelas imagens de outras terras do Norte de Portugal e pelos testemunhos, entre outros, de José Saramago, após a publicação da Jangada de Pedra (1986), e Mário Soares.

BBC Discovering Portuguese 03. By Alan Freeland, Terry Doyle (Editor). BBC, 1987.

Saudades das aulas

Geese Book. Nuremberga. Alemanha. Entre 1503 e 1510. Volume I – fol. 186r. Morgan Library.

Saudades das aulas? Comparativamente, as restantes experiências universitárias, a carreira, os cargos, a burocracia, os rituais e as rotinas, revelam-se irrisórias ou simplesmente substituíveis. De fraca ressonância, devoto-as ao alívio do recalcamento. Continuo a investigar, a intervir, a comunicar e a acarinhar amizades. Nos momentos aziagos, menos lúcidos, tenta-me reduzir os cerca de quarenta anos de profissão académica a uma extensa insignificância. Acontece nas quebras de polaridade mais negativa. Consola-me a memória de algumas iniciativas, fora de regras e além muros, das quais, não sendo puritano, em assumido pecado, me orgulho. Recordo, para minha própria sanidade, as mais gratas e marcantes, todas na qualidade de promotor, coordenador ou (co)organizador. Muitas nem sequer os meus colegas conhecem. Confesso que estou convencido que se não for eu a dizer o que fiz mais ninguém o fará. Agora que o presente e o futuro andam numa cadeira de rodas, tenho tempo e ensejo para ruminar o passado. Segue, carregado a amarelo, uma espécie de postit ou lembrete terapêutico que enumera vários retalhos da vida de um professor em idade avançada. Se saltar esta lista ou a ignorar, pouco ou nada perde, sem sombra de prejuízo para o tema deste artigo: as aulas.

  • – Seminário Portugal e os Portugueses – Raízes e Horizontes, em Braga, duas semanas de atividades com filhos de emigrantes provenientes de todo o mundo, para a Secretaria de Estado da Emigração, em junho de 1983 (a atividade mais coletiva);
  • XIII Congresso Europeu de Sociologia Rural, em Braga, em abril de 1986 (iniciativa que excedeu os meus limites);
  • – Mediação/organização local, nos anos oitenta, das filmagens de um documentário da BBC sobre a pastorícia e a vezeira na freguesia de Lamas de Mouro, para uma série de ensino de português no Reino Unido (a atividade mais exótica);
  • – Estudo das relações entre residentes e emigrantes, em Braga e Melgaço, 1989-1994 (a investigação mais consistente);
  • – Programa semanário da RTM (Radio e Televisão do Minho) Quarto por Quarto, aos sábados, das 10 às 12 horas, de outubro de 1995 a fevereiro de 1996 (a atividade mais mediática);
  • – Coordenação de estudos nos bairros sociais das Andorinhas, em Braga, e das Lameiras e de Lousado, em Vila Nova de Famalicão, para o IGAPHE (Instituto de Gestão e Alienação do Património Habitacional do Estado) e o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, de 1996 a 1999;
  • Inquérito aos Licenciados da Universidade do Minho (anos 1991 a 1997), para a AAEUM, Braga, 1998 (a atividade de utilidade mais imediata);
  • Conferências de Sociologia, Universidade do Minho, em1997 e 1998:
    • I – Histórias de Vida, Família e Mobilidade Social (11/12/97);
    • II – Jovens e Migrações / Ciência e Sociedade (05/01/98); I
    • II – Pós-Modernidade (09/01/98);
    • IV –  Fontes e Métodos da Demografia (21/05/98);
    • V – Contextos e efeitos sociais do futebol (14/12/98);
  • – Estudo da Romaria da Srª da Agonia, para o Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, de 1998 a 2000 (a atividade que mais se aproximou do lazer);
  • – Mediação/organização local, no início dos anos 2 000, das filmagens de um documentário de uma produtora belga sobre os jogos infantis tradicionais em Portugal;
  • –  Seminário Internacional Transição para o ensino superior, na Universidade do Minho, em 18 e 19 de maio de 2000.
  • – Criação do curso de Mestrado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida, na Universidade do Minho, em 2000.
  • Grupo de Missão para a Qualidade do Ensino/Aprendizagem, da Universidade do Minho, de 2000 a 2002;
  • – Criação da revista Sociedade e Cultura, seis publicações, de 2000 a 2004;
  • – Seminário Da Universidade para o Mundo do Trabalho: Desafios para um Diálogo, na Universidade do Minho, em 24 e 25 de maio de 2001;
  • – Criação da série de publicações Apontamentos UM, iniciada em 2001;
  • – Criação do Núcleo de Estudos em Sociologia, em 2002;
  • – Implementação da Rede Social do concelho de Melgaço. e elaboração dos respetivos Diagnóstico Social e Plano de Desenvolvimento Social. de 2003 a 2005 (a atividade de maior intervenção social);
  • Inquérito aos idosos do concelho de Melgaço, para o CLAS e o Município de Melgaço, em 2003 e 2004 (o inquérito com maior impacto social);
  • – Inquérito às Associações Culturais do Concelho de Penafiel, para o Município de Penafiel, em 2003 e 2004
  • – Implementação da Rede Social do concelho de Vila Nova de Cerveira. e elaboração dos respetivos Diagnóstico Social e Plano de Desenvolvimento Social. de 2004 a 2006;
  • – Seminário O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo, no Mosteiro de S. Martinho de Tibães, em 19 de abril de 2005;
  • Inquérito às empresas do concelho de Ribeira de Pena, para a Associação ADRIPÓIO, 2003 a 2005;
  • – Criação e acompanhamento do Espaço Memória e Fronteira (museu dedicado à emigração e ao contrabando), inaugurado no dia 27 de Abril de 2007, para o Município de Melgaço, desde 2005 (a atividade mais visível, mais grata e mais cara: cativado todo o orçamento, sobrou a despesa);
  • Inquérito aos trabalhadores da Zona Industrial de Campos, para o Município de Vila Nova de Cerveira, 2006;
  • – Avaliação do Projeto “Dar Vida às Letras”, para a Rede de Bibliotecas e a Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, 2006 e 2007 (a atividade que granjeou mais reconhecimento internacional e a segunda mais cara: cativados dois terços do orçamento, voltou a sobrar a despesa);
  • Inquérito às necessidades de formação profissional dos concelhos de Guimarães, Fafe e Vizela, para a Associação Sol do Ave, em 2006 e 2007;
  • Comissão Instaladora da Casa-Museu de Monção / Universidade do Minho, 2006 a 2017;
  • – Exposição Vertigens do Barroco: em Jerónimo Baía, e na actualidade, aberta ao público de 24 de março até 2 de Setembro de 2007, na Sala do Recibo do Mosteiro de S. Martinho de Tibães (a atividade mais ousada);
  • – Estudo das Perspetivas de Desenvolvimento do Concelho de Monção, para o Município de Monção e a Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, de 2007 a 2009 (a atividade que mais se aproximou da intervenção política);
  • Avaliação do Impacto Social e Cultural de Guimarães 2012 – Capital Europeia de Cultural, para a Fundação Cidade de Guimarães, de 2010 a 2013 (de todas as atividades, aquela que me deu mais trabalho e canseira);
  • – Criação do curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho, em 2011 (o meu maior contributo para a Universidade);
  • – Blogue Tendências do Imaginário, desde agosto 2011: https://wordpress.com/view/tendimag.com (a minha perdição);
  • – Blogue Comunicação, Arte e Cultura, desde outubro 2011: https://wordpress.com/view/comartecultura.wordpress.com (plataforma para os alunos e a maior iniciativa de marketing);
  • – Ciclo de Sessões Percursos Profissionais na Área da Cultura, para o curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, de 2011 a 2013 (a atividade com maior abertura pedagógica):
    • A Promoção da Cultura no Minho Interior, na Universidade do Minho, com Angelina Esteves, Catarina Afonso e Nuno Soares, em 8 de novembro de 2011;
    • Iniciativas Culturais do Mosteiro de Tibães, no Mosteiro de Tibães, com Aida Mata, Mário Brito e Miguel Bandeira, em 15 de novembro de 2011;
    • A Política e a Democracia Cultural, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, com José Bastos e Carlos Martins, em 6 de dezembro de 2011;
    • A Requalificação do Largo do Toural, na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, com Maria Manuel Oliveira, António Amaro das Neves e Samuel Silva, em 28 de fevereiro de 2012;
    • Fotografia e Investigação, na Universidade do Minho, com Álvaro Domingues e Isabel Alves, em 2 de março de 2012;
    • A Lã e a Neve – Coreografia, na Caixa Negra da Fábrica Asa, em Guimarães, com Madalena Victorino, em 28 de novembro de 2012;
    • Mulheres da Raia – Sessão com a presença da realizadora, na Universidade do Minho, com Diana Gonçalves, em 9 de abril de 2013;
  • – Exposição Momentos Rurais, do fotógrafo Rui Pires, na Casa Museu de Monção / Universidade do Minho, em junho 2013;
  • – Estudos das festas e romarias de São Bartolomeu de Cavez, das Papas, de S. Tiago, de Santa Senhorinha, de Nossa Senhora dos Remédios e de S. Miguel, do concelho de Cabeceiras de Basto, para o Município de Cabeceiras de Basto, de 2011 a 2013;
  • Escola da Primavera, em Monção e Melgaço. Atividade destinada aos alunos dos cursos de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, Doutoramento em Ciências da Comunicação e dos três ciclos de ensino em Sociologia, da Universidade do Minho. Aberta à comunidade. Anual, desde 2013 (a atividade mais diplomática, agradável e oportuna);
  • – Comemoração dos 25 anos da Licenciatura em Sociologia, Universidade do Minho, 20 de outubro de 2015;
  • – Alteração do curso de Mestrado em Sociologia, em 2017 (conjunto de iniciativas que se destacam pelo diagnóstico e pelo sucesso);
  • Encontros de Sociologia, no Mosteiro São Martinho de Tibães, iniciados em 2018.
  • Encontros Minho-Galiza:
    • – II, Casa Museu da Universidade do Minho em Monção, em 2017;
    • – III, Auditório de Goyan, em 2018;
    • – IV, Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em 2019;
  • Quem somos os que aqui estamos? Programa de monografias, documentários, fotografia e eventos dedicado aos agrupamentos de freguesias do concelho de Melgaço, para a Associação Ao Norte e o Município de Melgaço. Concluídos os agrupamentos de Parada do Monte – Cubalhão e Prado – Remoães, está em curso o estudo do agrupamento de Castro Laboreiro – Lamas de Mouro. Programa iniciado em 2016 (a atividade mais reflexiva).

Este inventário configura uma espécie de testamento de uma fase da vida. Admito que fui um péssimo agricultor: semeei tanto e colhi tão pouco. Convém ressalvar as aulas e os alunos, pelo desafio e pela recompensa.
Subsiste a noção de que as aulas totalizam unidades coerentemente lecionadas, enquadradas, planeadas e sumariadas. Graças à lógica ou à dialética, o professor conduz o aluno pela mão, de argumento em contra argumento, até à verdade final, como quem peregrina um caminho de Santiago. Sondam-se horizontes, somam-se marcos, semeia-se o trigo, separa-se o joio, numa álgebra do pensamento.
Numa aula, proporciona-se expor ou compor, partilhar ou construir conhecimento. Metaforicamente, não deixa de ser romântico propor-se rasgar janelas em anfiteatros claustrofóbicos, esboçar sombras em salas soalheiras ou erguer pontes entre corredores paralelos. Comungar o possível, a dúvida e o paradoxo, o improviso e o imprevisto, a um ritmo de jazz pedagógico. Uma aula quer-se uma performance, em que quase tudo pode servir como “material didático”: teorias, métodos, técnicas e análises, mas também artes e letras, documentários, filmes, anúncios, pintura, escultura, música, objetos, documentos, testemunhos, anedotas, convites, visitas, entrevistas, eventos… O mundo da vida senta-se na mesma sala em que professor e alunos são partes participantes, sabendo que sem criatividade, interpretação e diálogo não existe recurso ou visita que acrescente valor. A monotonia e a monologia abrem-se à polifonia e à diversidade. Um dos principais desafios consiste em cruzar fontes e alinhavar realidades distintas. Por composição e recomposição, a aula oferece-se como um mosaico ou uma travessia em que cada um, professor ou aluno, desenha o seu próprio percurso. A aprendizagem é heterogénea. A assimilação, a compreensão e a retenção variam consoante as competências, os interesses e as disposições. O professor confronta-se com uma multiplicidade de registos, asseverando-se difícil agir em consonância. Trata-se de uma demanda de sintonia que releva praticamente do milagre.
Não é óbvio navegar nestas águas e ainda menos chegar a bom porto. Quando muito, aproximamo-nos. As aulas são particularmente exigentes e vulneráveis. Requerem esforço, adesão, concentração, flexibilidade e investimento pessoal. Não se prestam à passividade, à rotina e à atenção intermitente. Interligar informação díspar não é confortável nem sequer se apoia numa atitude natural. Pressupõe predisposição e preparação, qualidades nem sempre desenvolvidas durante a trajetória escolar. Os alunos tendem a vir calibrados por e para aulas clássicas. O risco de rutura da comunicação é, assim, elevado. Desligar é um risco, uma outra forma de estar: olhar para a janela e embarcar noutro comboio, entreter-se com o telemóvel, distrair os colegas ou, simplesmente, entregar-se à evasão interior. Os alunos não têm todos o mesmo capital, o mesmo passado e a mesma experiência, o que institui desigualdades e injustiças de problemática e incerta reparação. Estas aulas correm o risco de pedir aquilo que, à partida, não foi oferecido. Neste caso, podem encobrir um fundo e uma perversidade elitistas.
Aulas que exigem esforço, concentração e participação apostam na motivação. O investimento deve compensar, a vários títulos. Aprender com prazer não é uma quimera. Ensinar não é apenas, como dita a etimologia, marcar. É, também, envolver e entusiasmar. A razão não é a única hóspede da sala de aula. Para além do Homo sapiens, o professor também lida com o Homo aestheticus (Luc Ferry, Homo Aestheticus, 1990) e o Homo eroticus (Michel Maffesoli, Homo Eroticus, 1990). As aulas são um “fenómeno social total” (Marcel Mauss). Dar aulas, mais do que uma profissão e do que uma vocação, é uma arte. E a universidade, para além do saber intrínseco das disciplinas, deve prodigar cultura e, mais do que saber, sabedoria. É esse o seu batismo.
A interação na sala de aula é decisiva. Caracteriza-se pela abertura; e a abertura pelo imponderável. Nunca se está suficientemente seguro, dotado ou atualizado. Uma boa cultura geral só pode ajudar. Não há apontamentos nem apresentações que valham, que consigam antecipar e dominar os tópicos e os desvios não só previsíveis mas também potenciais. Auxilia possuir um bom acervo de recursos mobilizáveis, ao mesmo tempo adequados e oportunos. Alguns, se possível, da própria autoria do professor ou, inclusivamente, dos alunos. Convém, enfim, ser bom marinheiro. Quando se navega em águas dispersas, com vários mapas e bússolas, torna-se vital a gestão das âncoras. A abertura e eventual dispersão não dispensam a tensão da compressão, querem-se minimamente articuladas, encadeadas e regularmente sintetizadas. De outro modo, corre-se o risco de se perderem alunos e professores. Por mais originais que as aulas se desejem, cumpre-lhes respeitar os objetivos e os conteúdos programáticos da disciplina.
Este tipo de aula expõe-se a uma espécie de penalização indireta. Os procedimentos e os formulários da avaliação passam ao largo da sua especificidade e do seu valor. Com o professor Leandro de Almeida e demais colegas do Grupo de Missão para a Qualidade do Ensino-Aprendizagem, participei na elaboração do primeiro questionário de (auto)avaliação da Universidade do Minho. Tivemos a preocupação de contemplar várias dimensões consistentes, mediante análises fatoriais, testes e benchmarking. Um instrumento desta índole nunca é perfeito. Sofreu, desde então, alterações significativas. Tornou-se mais unidimensional, com itens mais abrangentes e menos incisivos, com ênfase na vertente administrativa e disciplinar em detrimento da formativa e pedagógica. O que ganhou, porventura, em operacionalidade perdeu em validade. Em suma, passa um pouco a leste da inovação pedagógica e do cabo da Boa Esperança.
Estas aulas são, sem dúvida, uma anomalia! Por isso, tenho tantas saudades delas. Eram a modos como o meu desporto favorito. O meu desporto atual é mais solitário, pouco interativo, menos exigente, menos desafiante e menos empolgante. Estou a falar deste blogue.

Liber ethicorum des Henricus de Alemannia. Scena – Henricus de Alemannia con i suoi studenti. Sec. XIV.

Doutoramento

Ana Isabel, João e Sara.

A Ana Isabel obteve, ontem, dia 15 de Outubro, o grau de Doutor em Economia Aplicada, pela Universidade de Antuérpia, com uma dissertação intitulada Online reviews andhow to manage them: Effects of eWOM and Webcae on consumer responses and business performance. Sabedoria, brilho e beleza. A Ana Isabel merece dupla felicitação. Por ter concluído, em três meses, o que ainda poucas mulheres conseguem, uma tese, e cada vez menos fazem: um filho. Aproveito para lhe desejar uma excelente carreira como docente na Universidade Livre de Amsterdão. Apreciei, também, a qualidade da organização da prova, a pedir-nos um pouco de benchmarking. Estão ainda de parabéns o João, pelo apoio, e a Sara, pela companhia.

Por falar em Sara, a quem sai a neta?

À mãe, pelo encanto:

A Sara sai à mãe pelo encanto.

Ao pai, pela frontalidade:

A Sara sai ao pai pela frontalidade.

À avó, pelo sono. Ambas dormem pouco e bem.

A Sara sai à avó pelo sono.

Ao tio, pelo humor:

A Sara sai ao tio pelo humor.

Ao avô, sabe-se lá por quê.

A Sara sai ao avô, sabe-se lá por quê.

A emoção serve-se melhor com música:

Dmitri Shostacovich. Piano Corcerto nº2, II Andante. Piano: Denis Matsuev. The Orchestra of the Mariinsky Theatre.
Vivaldi Concerto in C major RV 443 (largo).

Homenagem ao professor

Intermarché. A Place to Live. 2021.

Être ensemble. La meilleure raison de mieux manger (Intermarché).

O anúncio A Place to Live, do Intermarché, não podia ser mais oportuno. Publicado no dia 30 de agosto, coincide com o início do ano letivo. Bom e belo, mas com uma história mais que batida. Numa aldeia rural, um professor, adorado pelos alunos, projeta partir para a capital. Como prova de reconhecimento e gratidão, a comunidade local organiza uma festa surpresa. A originalidade do anúncio reside em concentrar-se no banquete, desde a compra dos alimentos até ao convívio final. Uma originalidade que funciona e emociona. Para além do professor e da comunidade, o Intermarché ergue-se como o terceiro, senão o principal, protagonista. Um banquete é um banquete! “O banquete é comunicação e comunhão. Encena uma utopia festiva da abundância, da universalidade e da igualdade” (O banquete: https://tendimag.com/2017/02/20/o-banquete/). ““Quando comemos juntos, coisas boas acontecem. Seja poutine, pad thai, paella ou pemmican. Nada nos une mais do que comer juntos ” (#comer juntos: https://www.andersdenken.at/storytelling-eattogether/).

Ainda bem que se multiplicam os hipermercados para acarinhar, a contracorrente, a figura do professor! Apenas uma reserva: em termos de pandemia, o anúncio A Place to Live não fornece um grande exemplo.

Marca: Intermarché. Título: A Place to Live. Agência: Romance, Paris. Direção: Katia Lewkowicz. França, agosto 2021.