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A Tentação dos Ídolos

Albertino Gonçalves. A tentação dos ídolos. Aula aberta na Escola Secundária Martins Sarmento
Revista de Guimarães Júnior. Vol. 4 2026, p. 59
Capa da Revista de Guimarães Júnior. Vol. 4 2026

Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Pinturicchio – Madonna with Writing Child. Ca. 1494-1498. Philadelphia Museum of Art. Detail

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.

A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.

O meu carro é barroco

A pretexto das aulas de Sociologia da Arte e do Imaginário, tenho refeito, aumentado e melhorado, alguns materiais de apoio. É o caso do vídeo O Meu Carro É Barroco que contempla os anúncios a automóveis mencionados no texto “Dobras e fragmentos: a turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis”, publicado em 2009, no livro Vertigens. Para uma sociologia da perversidade (Coimbra: Grácio Editor, p. 47-63). Após tantos anos, resulta possível a leitura do texto acompanhada pelo visionamento dos anúncios. Graças às novas ferramentas, com maior nitidez e resolução. Porventura, um regalo para a vista, o ouvido e a mente.

My Car Is Baroque, by Albertino Gonçalves. 1st edition: 2007. Expanded edition: January 22, 2026

Cápsulas de emoções

Incorporei o vídeo “Emoções Confortáveis” no Tendência do Imaginário em 10 de junho de 2015. Subsistem, porém, algumas dificuldades de reprodução. Recoloco uma versão alargada (31 em vez de 26 minutos) a partir do meu canal no YouTube.

“Emoções Confortáveis: O Barroco Na Publicidade” é uma compilação de anúncios destinada a projeção em contínuo numa instalação da exposição Vertigens do barroco em Jerónimo Baía e na actualidade, em 2007, no Mosteiro de São Martinho de Tibães. Como complemento, recomendo o texto Vertigens do Presente: A Dança do Barroco na Era do Jazz, incluído no respetivo catálogo.

Emoções Confortáveis: O Barroco Na Publicidade. Por Albertino Gonçalves para a Exposição Vertigens do barroco em Jerónimo Baía e na actualidade, Mosteiro de São Martinho de Tibães, 2007

VIAGENS PELOS NATAIS

Natividade e Crucificação. Mosteiro de Santa Catarina. Monte Sinai. Sec. XIII-XIV

Como é bom ser professor para aprender! Na última semana, os alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, foram desafiados a dar a aula. De entrega em entrega, de surpresa em surpresa, fui acarinhado com uma diversidade de momentos inesquecíveis de sabedoria experiente.

A leitura expressiva do ensaio/conto “VIAGENS PELOS NATAIS” pela própria autora, Maria Ivone da Paz Soares, representou um desses momentos inesquecíveis. Precedo o respetivo texto com a versão em pdf para mais fácil partilha e maior fidelidade à formatação original. Obrigado e continuação de boas e belas caminhadas!

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VIAGENS PELOS NATAIS

As últimas pétalas do dia estavam a esvoaçar.

E ainda lhe faltava tanto para um não sei onde. Para um ali que os pés indicavam. Os pés? Sim, uns calcanhares bussolados pelas palpitações de um sentir, de um descobrir.

E os pensamentos vindos de gavetas aleatórias assomavam, desarticulando o passo.

Porquê Natal em dezembro? E a 24/25? Pouco se sabe sobre as razões desta escolha. Havia uma prática pagã neste período correspondente ao solstício de inverno, no hemisfério norte, o dia mais curto que era comemorado como a festa do nascimento do Sol Vitorioso (“natalis solis invicti”). A Igreja primitiva denominava Jesus, como o “Sol da Justiça”.

Os Celtas celebravam o retorno da vida (no solstício de inverno – Yule) com fogueiras e velas, decorações nas árvores, banquetes, danças, desejando simbolizar a renovação e a esperança nos tempos escuros.

Tropeçou numa pedrita. Tanta coincidência(?)!!!!

Mais um passo ao lembrar-se da origem do vocábulo Natal que vem do latim “nativitas” (nascimento, geração) e este do adjetivo “nativus” (o que nasce).

Como entender esta sintonia, esta sinergia entre várias práticas religiosas? – a pessoa parou e olhou para o céu pintado de cinza, com espreitadelas de raios luminosos.

E lembrou-se que a 8 de dezembro é a Festa da Iluminação para o Budismo, o despertar para a verdade, para o autoconhecimento, para a libertação, com a Árvore Bodhi com luzes (que simboliza caminhos para a sabedoria e para o fim do sofrimento). É um período que vários budistas que vivem no ocidente ajustam algumas práticas do Natal, valorizando ideais idênticos de amor e de compaixão.

Reduziu o ritmo. Sentou-se no banco do jardim por onde estava a passar. Nem tudo na Vida é complementar, coincidente.

Como todos sabem, o Judaísmo não reconhece o Messias, porém o Hanukkah comemora-se próximo do Natal e o ato do nascimento tem uma identificação espiritual, uma ligação entre o humano e o divino; assim como é um período de bondade e de generosidade e há a utilização das luzes (candelabros junto a uma janela) neste período, em ambas as religiões. Alguns judeus também dão presentes às crianças.

Estava sentada de pernas cruzadas, já com o telemóvel na mão, a vasculhar no Google. O quê? A comemoração do Natal só surgiu mais de trezentos anos após a data provável? Sim, tem lógica: não havia espaço para uma nova religião, apesar dos romanos serem abertos.

O primeiro Natal foi comemorado em 25 de dezembro de 336, em Roma, pouco antes do Cristianismo ser oficializado no Império (e em 345 estabeleceu-se o 25 de dezembro como data de nascimento de Jesus Cristo. Até ao século V foi celebrado em Constantinopla (a capital do Império romano) o nascimento e batismo de Jesus, a 6 de janeiro (em Roma esta data ficou para lembrar a chegada a Belém dos Reis Magos, com os seus presentes) que também é festejada em algumas regiões no dia de hoje.

Trocou as pernas. Afinal esta comemoração foi escolhida para absorver e ressignificar os costumes pagãos. Ressaltam os conceitos que se interligam: celebrações litúrgicas, centro na família, ceias, presentes, conceito da generosidade e personagem adicional (São Nicolau e Pai Natal).

Também recebeu influência da tradição latina Saturnália, uma tradição festiva e com troca de presentes, a 17 de dezembro. E na Pérsia, o Deus da Luz, Mitra, era celebrado a 25 de dezembro. A Igreja primitiva absorvia e dava nova leitura aos rituais pagãos, denominado sincretismo, em vez de proibi-los ou persegui-los para angariar novos seguidores.

O espanto ficou no Egito, uma das mais antigas civilizações, marcadamente muçulmana: o Natal é celebrado a 7 de janeiro, por todos, opte pela religião que quiser, misturando o antigo e o novo, conciliando a tradição com a inovação, envoltos pelas “carols” (canções de Natal tradicionais), sob uma prova cultural enriquecedora. Claro que as decorações são luminosas, com delícias culinárias, sons e mercadorias festivos.

Quando reparou, já estava a andar. Há tanto a unir! E então, quais as razões das desuniões? Suspirou e continuou. A cadência dos passos acompanhava o que os olhos apanhavam nas linhas que eram perseguidas.

Os romanos ornamentavam os seus lares com luzes e folhas de plantas e também davam presentes às crianças e aos pobres, tendo sido esta prática absorvida nas festividades. Assim como os ritos germânicos e os costumes celtas com fogueiras, muita comida e bebida, além das luzes e de árvores decoradas.

Tradições gregas, romanas, com rituais celtas, germânicos e liturgias orientais, durante o primeiro milénio foram criando os conteúdos da festa natalícia que, nos dias de hoje, está imbuída de consumismo que enegrece a quadra, salvaguardando o ato positivo de presentear alguém e o da espiritualidade de alguns.

Até ia tropeçando… O andar com o TLM na mão pode dar estas situações…

Chegou a casa. Organizou tudo, enquanto o Santo Nicolau bailava no cérebro. E por outras culturas e continentes… Quando se fosse deitar, iria pesquisar: tinha a certeza que ia ter novas surpresas…

Já aconchegada na cama e com a almofada ao alto, continuou a mergulhar neste espírito natalício tão elaborado pelos homens e ajustado aos seus objetivos.

Estava quase a chegar. O céu estrelava! Os pés doíam e estava com sede. Quando perguntava, apontavam-lhe para aquele edifício lá ao fundo e já fora das luzes intensas da cidade. Era uma estalagem? Era um estábulo? Estava um Menino envolto numa manta com um olhar tão luminoso! E a manjedoura/berço ficou circundada(o) de uma intensa Luz.

– Pai José, necessita de alguma coisa?

– Mãe Maria, posso pegar o Menino ao colo?

As mãos da Criança elevaram-se e aconcheguei-A num abraço: era tão leve, tão sorridente, tão transparentemente sublime!

A pouco e pouco, a Criança foi crescendo e irradiava um brilho envolvente.

A pouco e pouco, a pessoa que a pegava ia ficando mais pequena, mais enlaçada nos fortes, cordiais e afetuosos braços do Menino Homem. Ao olhar-se, viu-se enroscada, enovelada no colo embalador cintilante do Menino.

Estremeceu! Acordou. Sorriu. GRATA!

Maria Ivone da Paz Soares, em Dez/25, num NATAL sem dia

Natal na Idade Média

Os 50 minutos da “aula de Natal” não chegaram para projetar o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média” (portal Segredos da Humanidade), uma apresentação do ambiente e das tradições de Natal na Idade Média.

Duas observações:

O que é convencionado designar-se como Idade Média corresponde a cerca de mil anos (dos séculos V ao XV). A descrição do vídeo aplica-se, sobretudo, à Baixa Idade Média e à Idade Média Tardia, isto é, a partir do século XI.

A Festa dos Loucos (Festum Fatuorum), onde os “papéis sociais eram invertidos de forma cômica”, ocorria, efetivamente, durante o ciclo natalício, mais precisamente no final de dezembro e início de janeiro. Algo aparentadas, pertenciam ainda a este ciclo a Festa dos Meninos (Festum Puerorum) e a Festa ou Missa do Burro (Missa Asinorum), que abordámos nas aulas.

Acresce um pequeno reparo:

O tema e a narrativa talvez justificassem outro tipo de acompanhamento visual: menos “conteúdos significativamente editados ou gerados digitalmente” e mais imagens da época, por sinal abundantes e fascinantes. Ou talvez não… é provável que as imagens utilizadas, embora artificiais, atraiam mais visualizações e subscritores, objetivo assumido pelos streamers.

Seguem: o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média?”; uma pequena galeria de imagens da Natividade através dos tempos; e um cântico de Natal da segunda metade do século XIII.

Como era celebrado o Natal na Idade Média? Portal Segredos da Humanidade. Colocado em 23/12/2024
Cantigas de Santa Maria N° 424: Pois que dos Reis Nostro Sennor. Alla Francesca. Cantigas de Santa Maria. 2000

Mondar barreiras, jardinar laços

A boneca é uma lembrança recuperada por uma aluna da Academia Sénior de Braga

La liberté c’est pouvoir choisir ses chaînes / A liberdade é poder escolher as suas correntes (AG)

Ultrapassar barreiras é um dos atributos do espírito do Natal, desígnio cada vez mais difícil de alcançar. No anúncio “The Cell”, a Lidl imaginou uma ceia partilhada pelo carcereiro e pelo prisioneiro.

Os alunos da Academia Sénior deram-me uma aula extraordinária: contos, crenças, lembranças, testemunhos, cânticos, poemas e ensaios sobre rituais coletivos homólogos do Natal (de comunhão, iluminação e esperança) através dos tempos e das religiões.

Chegado a esta idade, faltava-me uma experiência: participar num grupo, cuja motivação principal, senão única, consiste em aprender, estar e fazer em conjunto. Uma novidade e um gosto.

Anunciante: LIDL. Título: The Cell. Agência: Folk Finland. Direção: Misko Iho. Finlândia, 15.12.2018

Com o coração leve como uma borboleta numa folha de outono

Acabei de dar uma aula de Sociologia da Arte e do Imaginário centrada em pormenores minúsculos da Pietà Vaticana do Michelangelo. Propus uma análise pessoal. Gosto de ensinar, da relação com os alunos, sobretudo quando a comunhão se insinua. Senti o coração, cheio e leve, a dançar como a chama de uma vela acesa numa carvalheira. Apeteceu-me ouvir música, desta vez, clássica, de preferência barroca: Johann Pachelbel, Johann Sebastian Bach e Tomaso Giovanni Albinoni. Bem interpretada pela Academy of St Martin in the Fields, sob a condução de Sir Neville Marriner.

Johann Pachelbel – Canon in D Major. Orchestra: Academy of St Martin in the Fields. Conductor: Sir Neville Marriner. 1974 Parlophone Records Limited. Remastered 1988
J.S. Bach – Orchestral Suite No. 3 in D Major, BWV 1068: II. Air. Orchestra: Academy of St Martin in the Fields. Conductor: Sir Neville Marriner. 1971 Decca Music Group Limited
Giazotto / Albinoni – Adagio in G minor. Academy of Saint Martin in the Fields, Sir Neville Marriner, Iona Brown

O Cinzel e o Pincel. A Ilusão, de Michelangelo à Arte de Rua

Michelangelo foi escultor, pintor, arquiteto e poeta. Autor, por exemplo, na escultura, da Pietà Vaticana, do David e do Moisés, na pintura, do teto da Capela Sistina e do Juízo Final, na arquitetura, do projeto da cúpula da Basílica de São Pedro, da Biblioteca Laurenziana e da Praça do Campidoglio. Escreveu cerca de 300 poemas, a maior parte sonetos e madrigais.

Imagem: Daniele da Volterra – Retrato de Michelangelo, c, 1553. Museu Teyler, Haarlem

Galeria: Obras de Michelangelo (Carregar nas imagens para as aumentar e ver as legendas)

Apesar da sua reputação em todos estes domínios, Michelangelo, assume-se, antes de mais, com escultor. Abraça a vocação desde a infância como um destino com contornos praticamente místicos.

A primeira oficina onde se exercitou foi a de Domenico Ghirlandaio, com quem não teve boas relações. O que se deveu, sem dúvida, a que, a partir de certo momento, Michelangelo deixou de considerar a pintura como uma arte e descobriu que a essência do seu génio propendia para a escultura. O artista imortalizado pelos frescos da Capela Sistina não queria na realidade pintar, e quando o fez foi sempre de má vontade e forçado. Por esse motivo, decidiu passar para a oficina de Giovanni di Bertoldo, aluno de Donatello, que dirigia uma escola de escultura bem como a coleção de antiguidades de Lorenzo de Médici nos jardins de San Marco” (Gilles Néret, Miguel Ángel, TASCHEN, 2024, p. 10).

No âmbito da própria escultura, desvaloriza as modalidades que em vez de retirar, acrescentam matéria, como a modelagem em barro ou gesso. Na sua óptica, a matéria, por exemplo, um bloco de mármore, já contém dentro a figura a desvelar. Esculpir consiste em escavar, em retirar o supérfluo, para libertar o essencial. Atente-se no soneto “Non ha l’ottimo artista alcun concetto” (Selected poems from Michelangelo Buonarroti. Boston: Lee and Shepard, publishers, 1885, p. 68):

Imagine-se Michelangelo obcecado, exausto, sofrido, mal nutrido e mal dormido, eventualmente penitente, a martelar, cinzelar e polir um bloco de pedra, dias, meses, anos a fio, até eliminar o último excedente que obsta à perfeição. Mais do que uma libertação, trata-se, porventura de uma purificação, senão de uma revelação. Ao esculpir, Michelangelo excede a matéria e excede-se. Ao demandar a essência e criar beleza, pressente e aproxima-se do divino. Pelo menos, assim o experiencia até que acaba, com a idade, por descrer nas potencialidades e virtudes da beleza.

Se a pedra encerra em si a ideia, não admira a importância atribuida à sua escolha. Tornou-se famosa a reação inicial perante o bloco de que resultou o David. Ao contrário dos artistas que antes dele desistiram, sente-se imediatamente atraído e desafiado pela promessa que aquele monstro com 5,5 metros de comprimento e 12 toneladas de peso lhe inspira.

Com apenas um ano para entregar a Pietà, dispendeu mais tempo a selecionar e a transportar o bloco de mármore do que a esculpi-lo! O filme “Il Peccato – Il furore di Michelangelo”, de Andrei Konchalovsky (2019), ilustra esta realidade: atarda-se mais em Carrara do que em Roma ou Florença.

Il peccato – Il furore di Michelangelo. Rússia – Itália. Realização: Andrei Konchalovsky. Outubro 2019. Duração: 134 minutos. Em italiano, legendado em espanhol

Michelangelo não se identifica, sem magem para dúvida, como pintor. Pergunta uma aluna: “Então, como produziu obras tão grandiosas como o teto da Capela Sistina ou o Juízo Final?”

Quando pintou foi por interesse monetário, como o Tondo Doni (1504-1506), ou obrigado, como o teto da Capela Sistina (1508-1512), pela insistência inabalável do Papa Júlio II. A propósito desta incumbência, escreve no último verso de um poema: “Eu não estou no lugar certo, nem sou pintor” [ver poema 2].

Imagem: Michelangelo. Santa Família. Tondo Doni. 1505-06

Mas, mais uma vez, Michelangelo lida com a contrariedade inovando. Cria uma nova maneira de pintar. Transforma, de algum modo, o pincel em cinzel e pinta como quem esculpe, apostando no volume, na luz e na ilusão. Os seus afrescos distinguem-se claramente dos precedentes, mais estáticos e aplanados (ver o exemplo de Piero della Francesca).

Piero della Francesca, Procissão da Rainha de Sabá; Encontro entre a Rainha de Sabá e o Rei Salomão, entre 1452 e 1466 San Francesco, Arezzo. Depois e antes do restauro.

A pintura de Michelangelo é uma pintura de escultor. Isto é evidente. Ao modelado fluido, macio, à sombra carregada de mistério de Leonardo da Vinci, opõe-se aqui um jogo de sombras e de luzes de uma nitidez perfeitamente escultural. Michelangelo não é um pintor, é um escultor que utiliza os seus pincéis como utiliza o cinzel ou o martelo. Talha os rostos, os corpos, o vestuário, como admirador da força e da beleza do ser humano e da matéria (Renée Arbour, Michel-Ange, Paris, Editions Aimery Somogy, 1962, pp. 53-54).

Michelangelo. Capela Sistina, 1508-1512
Michelangelo. Capela Sistina. Detalhe. 1508-1512

Esta arte de pintar será adotada e desenvolvida pelos maneiristas. A multiplicação de planos, o volume e a luminosidade tendem a substituir-se à perspetiva renascentista. Nas paredes e nos tetos do Palazzo Te, em Mântua, Giulio Romano, um dos principais assistentes de Rafael Sanzio, expande e aprimora o ilusionismo: acrescenta o trompe l’oeil e a sensação de imersão [Na era digital, a experiência de imersão, em particular nas pinturas, tornou-se uma atração turística monumental, ver A pedreira das luzes, 21.12.2017: https://tendimag.com/2017/12/21/a-pedreira-das-luzes/).

Giulio Romano, Rinaldo Mantovano e Benedetto Pagni, Sala dos Cavalosi, Palazzo Te, ca. 1526-28
Giulio Romano, Rinaldo Mantovano e Benedetto Pagni, Camera di amore e psiche, Palazzo Te, ca. 1526-28

O chão da Sala dos Gigantes do Palazzo Te era originalmente revestido com seixos para dar aos transeuntes a sensação de catástrofe correspondente ao tema que é retratado no fresco envolvente.

Volvidos 150 anos, em plena era barroca, Andrea Pozzo esmera este estilo de afresco nas glórias dos tetos das igrejas de São Francisco Xavier (1676), em Mondovi, e de Santo Inácio de Loiola (1685), em Roma.

Andrea Pozzo. Falsa cúpula com A Glorificação de S. Francisco Xavier, ca. 1676, Mondovi, Piedmont
Andrea Pozzo. Apoteose de Santo Inácio. Igreja de Jesus. Roma. 1684

No corredor da Casa Professa dos Jesuítas em Roma, um autêntico assombro de ilusionismo, Andrea Pozzo retoma um efeito ainda não referido: a anamorfose. Segundo o dicionário, uma anamorfose é “uma representação ou imagem que parece deformada ou confusa e que se apresenta mais regular ou mais perceptível em determinado ângulo ou posição ou ainda através de lente ou espelho não plano”.

Andrea Pozzo. Corredor da Casa Professa dos Jesuítas em Roma, após ca. 1680

Dois anjos, deformados quando observados de frente, adquirem realismo e volume se perspetivados a partir de um ponto predeterminado assinalado no solo.

Andrea Pozzo não foi pioneiro em matéria de anamorfose. Por exemplo, o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, concluído em 1533, oferece uma das anamorfoses mais célebres da história da arte. Precisa e minuciosa, a pintura apresenta, insolitamente, uma espécie de borrão na parte inferior. Ao deslocar-se para a direita, o espetador é surpreendido, a um dado momento, pela transformação dessa anomalia numa caveira, numa vanitas.

O recurso a estas diversas formas de ilusão na pintura prosseguiu, naturalmente, até aos nossos dias. No século XX, destacam-se, por exemplo, René Magritte, Salvador Dali ou Mauritius C. Escher. Termino, porém, com uma galeria composta por uma quinzena imagens provenientes da arte de rua (street art), que anima cada vez mais as paredes e os pavimentos do nosso quotidiano.

Antes de concluir esta travessia algo vertiginosa que nos trouxe desde Michelangelo até à atualidade, gostaria de proceder a uma ressalva. Um fenómeno quase nunca começa no “início”. Costuma ter precedentes. O recurso a vários planos, ao volume e à ilusão não esperou pelos frescos do teto da Capela Sistina. Já espreita nas iluminuras medievais. Encontra-se um bom exemplo na página “L’eterno e gli eremiti” do livro de horas de Gian Galiazzo Visconti, duque de Milão, concluido pelos ilustradores Giovannino dei Grassi e Belbello da Pavia por volta de 1390, um século antes das pinturas de Michelangelo.

Livro de Horas de Visconti. L’eterno e gli eremiti, ca. 1390. Biblioteca Nacional de Florença

Parte da imagem condiz com o esquema visual a que estamos habituados: as torres e os veados “pesam” no sentido do fundo da página. Mas o recorte com a divindade e com os demónios lembra os rasgões do postal do Commercio do Minho; em relação à superfície da página, sobressai, por um lado, o arco com os raios de fogo e afunda-se, por outro, o círculo reservado à divindade. Os insectos, por sua vez, desempenham um papel deveras curioso. A disposição, aliada à minúcia da pintura, dá a impressão que os insectos  transitam sobre a página fora da imagem. Em suma, numa parte da imagem o eixo de gravidade remete, normalmente, para o fundo de página e noutra parte o eixo de gravidade remete, deliberadamente, para a superfície da página. (Albertino Gonçalves, A ilusão: Da iluminura ao postal ilustrado, 18.10.2012: https://tendimag.com/2012/10/18/a-ilusao-da-iluminura-ao-postal-ilustrado/).

Galeria com uma amostra de exemplos de arte de rua

P.S. – Este artigo corresponde, grosso modo, à aula de 9 de outubro de 2025 da disciplina Sociologia da Arte e do Imaginário, na Academia Sénior de Braga.

Recordações do liceu Sá de Miranda

Escadas do Liceu Nacional Sé de Miranda, em 2014

Esparsa
Não vejo o rosto a ninguém,
cuidais que sou, e não sou.
Sombras que não vão nem vêm,
parece que avante vão.
Entre o doente e o são
mente cada passo a espia;
no meio do claro dia
andais entre lobo e cão.
(Sá de Miranda)

Revolvo o passado. Por estímulo alheio. O Facebook conduziu-me às publicações de agosto 2021 (Jogar às cartas com o Diabo 1 a 5), a Almerinda Van Der Giezen desencantou esta entrevista de 2014: O ensino depois da Revolução. O Fernando precisou que já me tinha mostrado a fotografia. A minha memória parece uma peneira que só retém o restolho.

A vida está cheia de ruturas e viragens, mas, pelos vistos, persistem algumas linhas de fundo. Por exemplo, a alergia à disciplina e o amor, entre outros, à arte.

Reparo que me tenho autocentrado demasiado. Quase sem convívio, propicia-se o diálogo comigo mesmo. Por acréscimo, experiências recentes inspiram-me a apostar menos na invisibilidade.

Neste mundo (no outro, não sei), para que serve e a quem serve a humildade? Não resulta de escassa utilidade para o próprio? Não tende a prejudicá-lo e a beneficiar os outros? Quem prega a humildade? A quem? Pregar a humildade não costuma ser uma iniciativa de humildes.

A despropósito, as palavras humilde e humilhado partilham a mesma raiz etimológica. Ambas derivam do adjetivo humilis (perto do solo) associado ao vocábulo humus (terra ou solo). Humilde significa perto do solo, sem elevação excessiva; humilhado, remetido para o solo, rebaixado.

Na banda desenhada, por exemplo, existem personagens que brilham pela humildade ou, até, humilhação, tais como o Pateta, o Felipe e o Charlie Brown ou Calimero e o Cascão.

O Tendências do Imaginário funciona não só como diário, mas também como arquivo. Faltava esta peça. Para aceder à entrevista, carregar na fotografia acima ou no seguinte endereço: https://ensinopij1314.weebly.com/vocaccedilatildeo.html.