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Bem-estar animal

« Na produção de ovos, as galinhas poedeiras são sistematicamente abatidas por volta dos 18 meses, idade a partir da qual se tornam menos produtivas, logo menos rentáveis, quando podem viver, em média, 6 anos (…) A start-up compromete-se a alimentá-las, alojá-las, cuidar delas, durante toda a sua vida graças à venda dos ovos Poulehouse” (Poulehouse).

O anúncio L’Oeuf qui ne tue pas la poule, da Poulehouse, é uma iniciativa ética e estética notável. Um belo gesto, uma bela história e uma bela animação. Confesso não conhecer nenhum criador de galinhas que espere pela sua morte natural. Aguarda-se pelo direito à vida e à reforma dos frangos.

Há animais felizes. “A Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA” (Alto Minho TV). Têm música ambiente, massagens, espaços diversificados… Cabras descontraídas dão mais e melhor leite.

“As cerca de 400 cabras são massajadas e ouvem música relaxante, num autêntico ‘parque anti- stress’. O agradecimento é uma média diária de 250 litros de leite de qualidade, que originam seis variedades de queijo” (Alto Minho TV).

Alto Minho TV. Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA. Maio 2017.

Blind Guardian. O legado das terras sombrias.

Blind Guardian.

Na adolescência, em 1978, aprendi uma linguagem de programação: o Fortran IV. Os primeiros computadores pessoais (pc) de sucesso começaram em 1977, Apple incluída. Uma das instruções mais importantes consistia no “if… goto”, que assinalava um salto no algoritmo, graficamente representado por um losango. O poder concebe-nos como romeiros de algoritmos. De instrução em instrução, de rotina em rotina, até ao if goto final: If… go to shit!

Mas há quem resista. Há sempre quem resista, embora pouco consiga. Quase sempre, de um modo romântico. Ocorre-me o mundo da música Metal. Por exemplo, a banda alemã Blind Guardian, criada em 1984. Lançou, há dias, o álbum Legacy of the Dark Lands (8 de Novembro de 2019). O meu rapaz mais novo não escuta outra coisa. A minha mulher continua a ouvir melodias e eu, nostalgias. Quando estamos os três ligados, a casa tem uma crise de identidade. À força de ouvir o álbum orquestrado Legacy of the Dark Lands, uma pessoa afeiçoa-se. Afeiçoamo-nos uns aos outros. A fantasia, o fantástico, está na mó de cima. Acrescento uma música de 1990 para ilustrar como os Blind Guardian são sem orquestra e ao vivo.

Fernando e Albertino

Blind Guardian Twilight Orchestra. Nephilim. Legacy of the Dark Lands. 2019
Blind Guardian. Lord Of The Rings [Imaginations Through the Looking Glass]. Tales Form The Twilight World. 1990.

Urinar para a lua

Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Doze Provérbios. 1558-1560.

Percorri mil imagens do Pieter Brueghel sem me aperceber dos Doze Provérbios. Quem se aventura sem guia corre o risco de passar ao lado do essencial. Mas tenho os meus rapazes. O mais velho desencantou no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, os ditos Doze Provérbios, de Pieter Brueghel. “Figuras com legenda”. Por exemplo, no quarto fragmento, o homem está sentado entre duas cadeiras, ou seja, não consegue decidir-se; em baixo, no oitavo fragmento, o homem não consegue ver o reflexo do sol na água, ou seja, inveja outras pessoas.

Pieter Bueghel o Velho. Doze provérbios. 1558-1560.

Concluído entre 1558 e 1560, os Doze Provérbios ganham em ser confrontados com os Provérbios Flamengos, obra concluída pela mesma altura, em 1559. Pelo menos, onze dos Doze provérbios constam entre os 112 Provérbios Flamengos.

Pieter Brueghel o Velho. Provérbios Flamengos. 1559.

Carregar na tabela para melhor visualização.

Doze Provérbios e Provérbios Flamengos ,de Brueghel o Velho. Repetições.
Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Provérbios Flamengos. 1559.

Incomoda-me esta ignorância vetusta. “O homem a urinar para a lua” é uma falha no meu repertório. Não conhecia os Doze Provérbios, nem tão pouco relevei tão estranha figura nos Provérbios Flamengos. Faltava, confesso, no meu imaginário um homem a urinar para a lua.

Importa festejar. Com música, naturalmente. Existem muitas canções dedicadas à lua e aos lunáticos: Moon River (Audrey Hepburn), Harvest Moon (Neil Young), Brain Damage (Pink Floyd),  La Luna (Angelo Branduardi), Moonlight  Shadow (Mike Oldfield), Blue Moon (Elvis Priesley), mas, sentimentalmente, opto pela Sonata ao Luar, de Beethoven. Consta entre as músicas que o meu rapaz mais velho mais gosta de tocar. Coloco a versão completa: o terceiro movimento é o meu preferido. Interpretação da ucraniana Valentina Lisitsa

João e Albertino

Beethoven. Piano Sonata No.14 .Opus 27 No.2. Mov 1, 2, 3 (Sonata ao luar). Valentina Lisitsa.

O pacifismo das coxas de frango

Chicken Licken. 2019

Nada supera uma coxa de frango!  Nem sequer as de Hollywood. Conciliam inimigos, protegem os fracos, resgatam os vencidos, evitam a guerra e impedem o pecado original. Artes mágicas numa viagem no tempo de um homem banal. A ser verdade, a coxa de frango merece o prémio Nobel da paz ou, no mínimo, o rótulo da Chicken Licken.

Marca: Chicken Licken. Título: Thato The Time Traveler. Agência: Joe Public. Direcção: Alan Irvin. República da África do Sul, Novembro 2019.

Casal perfeito

A Hornbach, empresa alemã de ferramentas, tem publicado anúncios magníficos. Delírio puro! No Every project brings you closer, um homem apega-se a uma serra, uma parceira fiel, temperamental e de rara beleza. O namoro culmina em matrimónio. Prevêem-se muitos serrotes. Este caso de amor não é único. Um segundo homem enamora-se por um cepilho. E eu, pelo cinzeiro! Três casais híbridos perfeitos.

Marca: Hornbach. Título: Every project brings you closer. Agência: Heimat, Berlin. Direcção: Pep Bosch. Alemanha, Outubro 2019.

Para onde vão os mortos?

Agrupamento de Escolas de Briteiros. O Dia dos Mortos.

Hoje, temos direito a um comentário trifásico.

No dia dos mortos, solta-se a sede de cerveja. Ontem, a Budweiser brasileira, hoje, a mexicana Victoria. “A dónde vamos ao morir?” Para o nada abismal ou para a vida eterna? Cristo desceu ao inferno e regressou. E ressuscitou ao terceiro dia. As almas aguardam, pacientes, o Juízo Final. E os mortos visitam-nos… A última viagem, a passagem, permanece a nossa inquietação. Original e criativo, tecnicamente esmerado, o anúncio da Budweiser fascina os nossos fantasmas: pelos vistos, pixel a pixel, existe uma ligação biunívoca entre os vivos e os mortos.

Marca: Victoria. Título: Xibalba. A dónde vamos ao morir? Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Salomon Ligthelm. México, Outubro 2019.

Melgaço regressa à “noite dos medos”, um delírio mais celta do que maia. A bebida, agora, é a queimada. A procissão lembra a Santa Companhia (https://tendimag.com/2016/12/26/em-companhia-da-morte/). Sob uma chuva dionisíaca, os vivos incorporam as almas e comemoram os mortos.

Noite dos Medos em Melgaço | Altominho TV. 01/11/2019.

De origem mexicana, os “altares dos mortos” globalizaram-se. Homenageia-se quem é digno de memória. No Agrupamento de Escolas de Briteiros, erguem-se altares a uma diversidade de pessoas falecidas: Eusébio, Joaquim Agostinho, Amália Rodrigues, António Variações, Sophia de Mello Breyner Andresen, Steve Jobs, Edith Piaff, Camões, Martins Sarmento… Os mortos vivem no altar da memória, que, algum dia, também se apagará. Nem sequer falta o galo (https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/)!

Beber inspiração

Budweiser. King of Halloween.

Observa-se alguma sazonalidade nos anúncios publicitários. No Natal, solidariedade, amor e carinho; durante o Superbowl, anúncios milionários; no Dia Internacional da Mulher, manifestos feministas; no Halloween, os anúncios “metem medo a um susto”.

John Carpenter é uma referência na realização de filmes de terror. Omar Calabrese (A Idade Neo-barroca, 1987) estima que John Carpenter criou, no filme The Thing (1982), um expoente da monstruosidade: um monstro que não se mostra; vazio, parasita os seres envolventes adquirindo a sua forma. John Carpenter acaba de ser homenageado pela marca de cerveja Budweiser no anúncio brasileiro King of Halloween.

“King of Halloween es un homenaje a John Carpenter, productor y guionista de la película de terror Halloween II, y como anoche se celebró Halloween, la marca de cerveza realizó un comercial que recuerda esa historia de terror: alguna vez Carpenter admitió que la cerveza y la máquina de escribir fueron sus compañeras al escribir la secuela de una de las películas más famosas del mundo” (https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-%C3%A1frica-y-budweiser-celebraron-halloween-con-un-homenaje).
“Resolvemos marcar essa data com uma homenagem a um dos roteiristas responsáveis por um dos filmes de suspense e terror mais lembrado pelas pessoas. Voltamos no tempo para relembrar essa icônica história de John Carpenter e mostrar que Budweiser também serve de inspiração para as histórias de cinema”, afirmou Alice Alcântara, gerente de marketing de Budweiser” (https://propmark.com.br/anunciantes/budweiser-convida-para-sessao-de-halloween-numa-das-ultimas-locadoras-de-video-do-pais/).

A Budweiser homenageia John Carpenter, mas também o promove a embaixador da marca: John Carpenter escreve Halloween II com a companhia de uma Budweiser. O anúncio mostra-se à altura da homenagem e do embaixador.
John Carpenter fumava. O que inspira uma imagem característica do Halloween na qual me reconheço: beber inspiração e fumar morte. A publicidade presta-se a baptizar subjectividades!

Marca: Budweiser. Título: King of Halloween. Agência: Africa. Produção: Boiler Filmes. Direcção: Sérgio Gordilho. Brasil, 31 de Outubro 2019.

Diablo

Não existe dia mais apropriado do que o dia dos mortos para estrear o trailer do videojogo Diablo IV. Um grotesco de alta qualidade, que produz uma sensação de estranhamento vertiginoso rumo ao inferno. Se é muito sensível, dispense! Se é apenas um pouco sensível, veja só com um olho.

Fernando e Albertino

Diablo IV – Official Announce Cinematic Trailer | “By Three They Come” | BlizzCon 2019. 01/11/2019.

Feliz dia dos mortos!

SLOVENIA – MAY 03: Death accompanying a merchant and a wealthy banker, Dance of Death (1490), detail from the frescoes by Janez Iz Kastva, Trinity Church, Hrastovlje fortified church, Slovenia. Detail. (Photo by DeAgostini/Getty Images)

Feliz dia dos mortos! Dancem, dancem a dança macabra! Treinem os fémures e as tíbias.

Para o vídeo, convém uma resolução de, pelo menos, 720p.

Camille Saint-Saëns (1835-1921) Danse Macabre (1874) Opus 40 in G minor for violin + orchestra. National Philharmonic Orchestra, conductor Leopold Stokowski.

A desigualdade estética

Apetece-me incorrer em inconveniência. A conveniência, deixo-a para quem lhe convém. O século XX destaca-se pela luta contra a discriminação. Discriminação religiosa, racial, étnica, de género, de orientação sexual… Desenvolveram-se políticas, movimentos e organizações contra a discriminação. Contra todas as discriminações? Não, existe uma que resiste: a discriminação estética. Ser belo ou feio tem efeitos na vida das pessoas. A carreira profissional é influenciada pela fisionomia. O aspecto físico faz diferença, o que é uma injustiça. Não obstante, ninguém faz nada. Não se vislumbra legislação, associação, mobilização ou resistência cívica. Para quando um pacote político pela igualdade estética, uma comissão de promoção da fealdade ou um abaixo-assinado contra o excesso de beleza nas telenovelas portuguesas. Por que hesita a ONU em decretar o Dia Internacional do Feio? Vejo, apenas, um motivo para a indiferença pública em relação à discriminação estética. Como diria A beleza parece sagrada. Não ousamos tocar-lhe.

Marca: Mu Loan. Título: Believe your possibility. Agência: F5 Shanghai. China, 2019.