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O aperto de mão em tempos de pandemia

A publicidade não está imune ao coronavírus. Multiplicam-se os anúncios que aludem à pandemia. Com mais ou menos propósito. Nalguns casos, é preciso algum esforço para descobrir a ligação. Seleccionei dois anúncios em língua portuguesa. O primeiro, brasileiro, Keep your distance, da Universidade do Futebol, assinala como um gesto, a recusa do aperto de mão, pode mudar de sentido, de feio para bom, de ofensa para consciência, consoante o contexto. O segundo, português, It’s Victor Fault, da Lobby, inspira-se na origem, presumivelmente vampírica, do vírus. Dois vampiros conversam sobre as vantagens e as desvantagens do coronavírus. A agência aproveita para fazer auto-promoção.

Marca: Universidade do Futebol. Título: Keep your distance. Agência: Liberdade. Direcção executiva: Fabiana Zat Livardi. Brasil, Março 2020.
Marca: Lobby. Título: It’s Victor Fault. Agência: Lobby. Portugal, Março 2020.

Aula imaterial 4. Maneirismo e Surrealismo. Sonhar o pesadelo

Luttrell Psalter

Esta aula é polivalente. Destina-se aos alunos de Sociologia e Semiótica da Arte, do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, mas também, como exemplo de uma pesquisa documental extensiva, aos alunos de Práticas de Investigação Social, do mestrado em Sociologia.

A aula é conversada. O que não agrada. As aulas conversadas desconversam muito. Não têm coluna vertebral. Em suma, não têm ponta por onde se lhe pegue. Só dá para tocar, ponto aqui, ponto ali. Ouvi dizer que o próprio mundo não tem nem coluna vertebral, nem ponta por onde se lhe pegue. Esta aula está saturada de informação, designadamente, visual. Gosto destas aulas; os alunos não.

Na aula precedente, visitámos o barroco: nos séculos XVII e XVIII e na atualidade. Resulta legítimo falar em barroco nos nossos dias? Não se confina a um período histórico preciso? Para Eugenio d’Ors, o barroco  é um eon (palavra grega), uma forma que percorre a humanidade, atualizando-se em cada contexto particular. “Uma certa constante humana”, com vida ora secreta, ora discreta, ora ostensiva. Reconhece-se o barroco no período helenístico, na Contra-Reforma e no mundo contemporâneo (D’Ors, Eugenio, Du Baroque, Paris, Gallimard, 1935). A sugestão de Eugenio d’Ors estende-se, logicamente, ao grotesco, ao trágico e ao clássico.

Assinalei, na última aula, Michel Maffesoli como especialista da “barroquinização actual do mundo”. Cumpre acrescentar Omar Calabrese: A Idade Neobarroca. Pode descarregar.

Vamos comparar duas correntes de arte separadas por mais de três séculos: o maneirismo (1520-1600) e o surrealismo (desde inícios dos anos 1920).

Sou admirador de François Rabelais. Também de Mikhail Bakhtin, que estudou François Rabelais. Um par admirável. Aproveito para disponibilizar o pdf do livro de Mikhail Bakhtin, Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1968;  redigida em 1940), e o livro de Wolgang Kayser, O grotesco (1957), duas sumidades da teoria do grotesco: o primeiro encara-o como rebaixamento e o segundo, como estranhamento. Ambos os livros são úteis para esta aula.

Antes de prosseguir,  importa uma breve introdução ao maneirismo. Recomendo o artigo Maneirismo, da página História das Artes (https://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-renascentista/maneirismo/).

Às voltas com François Rabelais, deparei com o livro Les Songes Drolatiques de Pantagruel. Publicado em 1565, contém 120 gravuras, da autoria de François Desprez (1530-1587). Como o título indica, as gravuras inspiram-se nas personagens fantásticas do livro Pantagruel. Convido-vos a descarregar esta relíquia. Merece ser folheada. Descarregar!

São excêntricas as figuras disformes e híbridas concebidas por Desprez. Mas não são completamente originais. Deixando de lado os grotescos (ver Desgravitar- Sem Conta, Peso e Medida: https://tendimag.com/2012/02/12/desgravitar-sem-conta-peso-e-medida/), sessenta anos antes, Hieronymus Bosch pintou os quadros Juízo Final (1482), São João Evangelista na Ilha de Patmos (1485), As Tentações de Santo Antão (cerca de 1500), o Jardim das Delícias (1503-1504) e O Carro de Feno (1500-1516). São pinturas que albergam uma turbulência de monstros e híbridos, ilustrada pela galeria de imagens Pesadelos de Bosch. Por acréscimo, pode ver o documentário Genios de la Pintura Hieronymus Bosch El Bosco (Lara Lowe, 2000).

Os pesadelos de Bosch

Documentário Genios de la Pintura. Hieronymus Bosch El Bosco. 2000.

Genios de la Pintura. Hieronymus Bosch El Bosco, Produção: Lara Lowe. Cromwell. 2000.

Sessenta anos, numa escala de longa duração, é pouco tempo. Pode-se recuar mais. Por exemplo, aos séculos XII e seguintes. Nesse tempo, multiplicaram-se os livros de horas e os livros de salmos para apoio à oração. Nas iluminuras das margens das páginas (marginália), exorbitavam os monstros e os híbridos (as droleries). Vamos espreitar dois livros de salmos: o Luttrell (1325-1340) e o Rutland (c. 1260).

A descoberta do livro de salmos de Luttrell aproximou-se de uma epifania. Pesquei as páginas uma a uma. Compilei-as como quem colecciona cromos. Procedi à montagem, respeitando a ordem original. Reconstitui o livro até à página 32. Apresentei o conjunto na seguinte animação em PowerPoint. Pode descarregar e abrir. Não perca. O Luttrell Psalter exigiu mais tempo e perícia do que a escrita de um artigo intergaláctico.

As iluminuras do livro de salmos de Rutland também precedem as gravuras de Desprez.

Imagens do livro de salmos de Rutland

Nada nos impede de recuar mais no tempo. Sem nos atardar com os cachorros românicos (ver O triunfo sobre a morte: San Martin de Artaíz: https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/), nem com as gárgulas góticas (ver Gárgulas impúdicas: https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/), pode-se retroceder ao início da cristandade, ao século I d. C. Sobreviveram frescos fabulosos na Domus Aurea, palácio construído entre 64 e 68 d. C. pelo imperador Nero, e nas ruínas de Pompeia, cidade soterrada pelo Vesúvio em 79 d. C. Ver o artigo Domus Aurea: o sonho enterrado (https://tendimag.com/2017/11/20/domus-aurea-o-sonho-enterrado-revisto/).

É tempo de regressar a François Desprez e, desta vez, andar para a frente. A comparação das gravuras de Salvador Dali com as gravuras de François é surpreendente. Salvador Dali retoma as gravuras de François Desprez, retocando-as com símbolos sexuais.

Salvador Dali. Les Songes Drolatiques de Pantagruel. 1973.

Uma pergunta: não teria sido suficiente começar o artigo no início e acabá-lo no fim, sem tanto devaneio e interlúdio? Confinar-se, simplesmente, a Desprez e a Dali?

Poder, podia, mas não era a mesma coisa. Convoco quatro argumentos, aparentemente, falaciosos:

  1. Um bom romance policial brilha pelo enredo. Não começa com o crime e acaba logo com a solução.
  2. Informar é formar. Não se pode ter o esquema de tudo e a substância de nada.
  3. O livro L’Amour de l’art, de Pierre Bourdieu e Alain Darbel (1966), convenceu-me que a aprendizagem da arte releva mais da massagem do que da mensagem, para empregar os termos de McLuhan.
  4. A proliferação das obras gera a vertigem das imagens. Sem a vertigem das imagens, não vingaria o seguinte pensamento diabólico: o homem é infinitamente grande pelas suas obras e infinitamente pequeno nas suas possibilidades.

“Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670).

Continuamos na próxima aula: Maneirismo e surrealismo: O capricho da imagem.

Fumo tóxico

Já sentia saudades da figura do fumador suicida homicida. O fumo do cigarro mata mais depressa e com maior alcance do que uma bala. Se bem me lembro, na minha infância havia cigarros a que chamavam mata-ratos (Kentucky). A reputação letal do tabaco vem de longe. Ressalvando os assassinos, os desastrados e os fumadores, ninguém é mortífero. Nem sequer na Tailândia. Mata-se, isso sim, simbolicamente. O fumador suicida homicida é uma presa fácil dessa caça simbólica. “A Bíblia separa as pessoas entre pecadores que sabem que são pecadores, e pecadores que pensam que são justos” (Ronaldo Bezerra: https://guiame.com.br/colunistas/ronaldo-bezerra/pecadores-que-sabem-que-sao-pecadores-x-pecadores-que-pensam-que-sao-justos.html). Livrai-nos, Senhor, dos pecadores que pensam que são justos! Acrescento apenas que uma das principais fontes de desigualdade radica na semiose social. Nem todos têm o mesmo acesso ao ceptro da palavra e da imagem.

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Gunfight. Agência: Factory01 Co., Ltd. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, Março 2020.

Aprendizagem sem mestre

Cumprido o teletrabalho, entrego-me ao telelazer. O anúncio Physics, da Brontosaurus, regista as atribulações de uma aprendizagem sem mestre, uma fonte interminável de surpresas. Numa aldeia do Tibete, por causa de um livro de Física, até monstros aparecem. Os professores fazem falta. Este é, curiosamente, um anúncio para recrutamento de professores! Não em Portugal, mas na República Checa.

Marca: Hnutí Brontosaurus. Título: “Physics” in little Tibet. Agência: McCann Erickson (Praga). Direcção: Marek Partys. República Checa, Janeiro 2020.

Videojogos. Viagem ao coração da emoção

PlayStation. Feel the power. 2020

A quarentena justificada pelo coronavírus aumenta o uso e o download de videojogos. O caso da China é ilustrativo:

“Um recém-publicado relatório da consultora App Annie demonstra que o número de downloads de aplicações móveis tem vindo a crescer exponencialmente na China. Ao todo, desde 2 de fevereiro, foram registados mais de 222 milhões de instalações através da App Store, em especial de aplicações de jogos. / De acordo com os dados a que o Financial Times teve acesso, o número médio de downloads registado durante as duas primeiras semanas de fevereiro na China representa um aumento de 40% em comparação com os valores verificados na totalidade de 2019”. (https://tek.sapo.pt/mobile/apps/artigos/coronavirus-quarentena-faz-aumentar-o-download-de-aplicacoes-de-videojogos-na-china).

Vem a propósito o anúncio Feel the power of PlayStation. Abismal, mergulha-nos na angústia, no medo e no choque, provocando uma emoção desconcertante. O importante é o coração, mais precisamente, o aperto do coração. Desagradável mas fascinante, lembra o filme Alien e os biomecanóides de HR Giger. Os anúncios da PlayStation têm vindo a apostar nesta estética da emoção tensa e opressiva (ver o anúncio Head, de 2006: https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/.

Marca: PlayStation. Título: Feel the power of Playstation. Agência: adam&eveDDB. Direcção: Romain Gavras. Fevereiro 2020.

Não desistas!

Pablo Picasso. Dom Quixote. 1955.

As horas e as obras repetem-se. Coloquei este anúncio da Movistar há 10 anos no facebook. Inspirado, encoraja e anima. Sugere que existe um suplemento que nos demove de desistir. Esse suplemento é o Outro! Este anúncio ajuda a subir a corrente. Recoloco-o e volto a recolocá-lo. A repetição não é forçosamente estéril. Na música como na vida.

Nestes dias de recolhimento, aconselho o Dom Quixote de la Mancha. Juntos, Dom Quixote e Sancho Pança configuram um paradigma da humanidade. Separados, duvido!

O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a (https://tendimag.com/2017/03/14/com-o-mundo-nas-maos/).

Anunciante: Movistar. Título: Conectados podemos más. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. 2010.

Caracóis

Le secret de l’histoire naturelle contenant les merveilles et choses mémorables du monde. 1401-1500. Bibliothèque Nationale de France.

Os novos monstros “apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987). Os novos monstros pressentem-se apenas quando já nos habitam. Face ao coronavírus, a sociedade retrai-se como um caracol ameaçado. Cancelei três iniciativas que me traziam entusiasmado: a exposição de fotografias de Álvaro Domingues e Duarte Belo, prevista para Maio; a Escola da Primavera, nos dias 9 e 10 de Maio, em Melgaço; e a visita ao Mosteiro de Tibães, no dia 31 de Março.

Encontrei uma música para embalar esta contenção impotente: o Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169, de Antonio Vivaldi. Subtraindo os Allegro aos concertos para flauta de Vivaldi, sobram, mais vagarosos e mais despojados, os Largo. Acrescento o Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434 e o Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Antonio Vivaldi, Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Frida Kahlo. Fotografias.

Frida Kahlo. Pensando na Morte. 1943.

No dia 8 de Março, lembrei-me de Frida Kahlo, uma mulher sofrida e uma artista notável. Na última anotação no diário, escreve: “Espero que la salida sea gozosa y espero nunca más volver” (Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar). Uma forma radical de despedida do mundo. A Internet contém muitas fotografias de Frida Kahlo. Partilho algumas.

Convém ter algum cuidado com as fotografias que a Internet disponibiliza. As seguintes fotografias são ambas verdadeiras? Existe uma montagem? Em qual delas?

Frida Kahlo com Diego Rivera.
Frida Kahlo com Trotsky.

A fonte do sucesso

The fountain of youth, detail of 15th century fresco, Castle of Manta, Saluzzo, Piedmont, Italy.

O Olimpo existe! Os vendedores de sonhos mostraram-mo. Chama-se GOAT camp (GOAT: Greatest Of All Times). É habitado por humanos lendários. De hipérbole em hipérbole, bebem poções de energia e talento. Se tem sede do impossível, beba Gatorade!

Marca: Gatorade. Título: GOAT Camp. Agência: TBWA / Chiat / Day. Direcção: TRAKTOR. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Tudo isto me envelhece. Aos sessenta anos? Há algumas décadas atrás, sem a mínima dúvida. Em Portugal, a esperança de vida masculina era, em 1960, 60,7 anos; antes do 25 de Abril, em 1974, era 64,8 anos. Convoco o paradoxo de Vilfredo Pareto:

Seria bastante difícil, falando de homens, deixar de utilizar as expressões, jovem, velho, se bem que ninguém possa dizer em que momento preciso termina a juventude e começa a velhice. A linguagem corrente é obrigada a substituir diferenças quantitativas reais por diferenças qualitativas arbitrárias” (Pareto, Vilfredo, Manual de Economia Política. 1ª ed. 1906. São Paulo, Editora Nova Cultural Ltda., 1996, p. 233).

Estou naquela idade em que crescem as saudades e diminuem as esperanças. Não me venham com a história da terceira adolescência! Adolescente, andava de bicicleta, agora, temo a cadeira de rodas. Não existe elixir da juventude nem fonte da vida. Jovens, somos jovens até ao túmulo para a Segurança Social.

A semana passada, pedi ao funcionário do bar uma bebida que dispensasse copo ou palhinha. Sugeriu-me Gatorade. A aula terminava às 22 horas; à meia-noite, ainda estávamos a discutir o Beijo de Klimt. A Tina Turner terá bebido Gatorade? Parece. De qualquer modo, simplesmente The Best.

Tina Turner. The Best. Alive at the GelreDome in Arnheim (Netherlands) 2009.

Comportar-se como uma mulher

Girls, Girls, Girls Magazine. Be a lady, they said. 2020.

A revista Girls, Girls, Girls Magazine publicou um excelente anúncio feminista com um discurso contundente:  Be a Lady,  They said (2017), com texto de Camille Rainville e interpretação de Cynthia Nixon (da série Sex and the City).

Que se pede a uma mulher? Um sacrifício eterno? A esquizofrenia do duplo vínculo? Que seja a mesma e o contrário, eventualmente tudo e nada: Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Retenho dois traços do anúncio, de algum modo, ressonantes.

 A primeira metade do anúncio, cerca de minuto e meio, é dedicada aos cuidados do corpo. Obsessão de quem para quem? Li algures, há muitos anos, que, no que respeita à apresentação si, o espelho das mulheres seria mais feminino do que masculino. Importaria mais a reacção de outras mulheres do que dos homens. Verdade?

A maternidade é abordada em meia dúzia de frases curtas: “um dia serás uma boa esposa (…) dá-lhe filhos / tu não queres filhos / mais tarde ou mais cedo, eles virão / tu mudarás de opinião”. Trata-se de um discurso abonatório da maternidade? O que é ser mulher? Não sei, nem em concreto, nem em definido! A maternidade é uma relação de poder? Um desejo transplantado? Uma injunção bíblica? A maternidade parece ser o nó cego da nova humanidade.

Também não sei o que é ser homem. Seria oportuno um anúncio homólogo centrado, agora, no mote “tu serás um homem, meu filho”. Talvez resultasse esclarecedor.

Marca: Girl Girl Girl Magazine. Título: Be a lady, they said. Direcção: Paul Mclean. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Be a lady, they said
By Camille Rainville


Be a lady they said. Your skirt is too short. Your shirt is too low. Your pants are too tight. Don’t show so much skin. Don’t show your thighs. Don’t show your breasts. Don’t show your midriff. Don’t show your cleavage. Don’t show your underwear. Don’t show your shoulders. Cover up. Leave something to the imagination. Dress modestly. Don’t be a temptress. Men can’t control themselves. Men have needs. You look frumpy. Loosen up. Show some skin. Look sexy. Look hot. Don’t be so provocative. You’re asking for it. Wear black. Wear heels. You’re too dressed up. You’re too dressed down. Don’t wear those sweatpants; you look like you’ve let yourself go.

Be a lady they said. Don’t be too fat. Don’t be too thin. Don’t be too large. Don’t be too small. Eat up. Slim down. Stop eating so much. Don’t eat too fast. Order a salad. Don’t eat carbs. Skip dessert. You need to lose weight. Fit into that dress. Go on a diet. Watch what you eat. Eat celery. Chew gum. Drink lots of water. You have to fit into those jeans. God, you look like a skeleton. Why don’t you just eat? You look emaciated. You look sick. Eat a burger. Men like women with some meat on their bones. Be small. Be light. Be little. Be petite. Be feminine. Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Be a lady they said. Remove your body hair. Shave your legs. Shave your armpits. Shave your bikini line. Wax your face. Wax your arms. Wax your eyebrows. Get rid of your mustache. Bleach this. Bleach that. Lighten your skin. Tan your skin. Eradicate your scars. Cover your stretch marks. Tighten your abs. Plump your lips. Botox your wrinkles. Lift your face. Tuck your tummy. Thin your thighs. Tone your calves. Perk up your boobs. Look natural. Be yourself. Be genuine. Be confident. You’re trying too hard. You look overdone. Men don’t like girls who try too hard.

Be a lady they said. Wear makeup. Prime your face. Conceal your blemishes. Contour your nose. Highlight your cheekbones. Line your lids. Fill in your brows. Lengthen your lashes. Color your lips. Powder, blush, bronze, highlight. Your hair is too short. Your hair is too long. Your ends are split. Highlight your hair. Your roots are showing. Dye your hair. Not blue, that looks unnatural. You’re going grey. You look so old. Look young. Look youthful. Look ageless. Don’t get old. Women don’t get old. Old is ugly. Men don’t like ugly.

Be a lady they said. Save yourself. Be pure. Be virginal. Don’t talk about sex. Don’t flirt. Don’t be a skank. Don’t be a whore. Don’t sleep around. Don’t lose your dignity. Don’t have sex with too many men. Don’t give yourself away. Men don’t like sluts. Don’t be a prude. Don’t be so up tight. Have a little fun. Smile more. Pleasure men. Be experienced. Be sexual. Be innocent. Be dirty. Be virginal. Be sexy. Be the cool girl. Don’t be like the other girls.

Be a lady they said. Don’t talk too loud. Don’t talk too much. Don’t take up space. Don’t sit like that. Don’t stand like that. Don’t be intimidating. Why are you so miserable? Don’t be a bitch. Don’t be so bossy. Don’t be assertive. Don’t overact. Don’t be so emotional. Don’t cry. Don’t yell. Don’t swear. Be passive. Be obedient. Endure the pain. Be pleasing. Don’t complain. Let him down easy. Boost his ego. Make him fall for you. Men want what they can’t have. Don’t give yourself away. Make him work for it. Men love the chase. Fold his clothes. Cook his dinner. Keep him happy. That’s a woman’s job. You’ll make a good wife some day. Take his last name. You hyphenated your name? Crazy feminist. Give him children. You don’t want children? You will some day. You’ll change your mind.

Be a lady they said. Don’t get raped. Protect yourself. Don’t drink too much. Don’t walk alone. Don’t go out too late. Don’t dress like that. Don’t show too much. Don’t get drunk. Don’t leave your drink. Have a buddy. Walk where it is well lit. Stay in the safe neighborhoods. Tell someone where you’re going. Bring pepper spray. Buy a rape whistle. Hold your keys like a weapon. Take a self-defense course. Check your trunk. Lock your doors. Don’t go out alone. Don’t make eye contact. Don’t bat your eyelashes. Don’t look easy. Don’t attract attention. Don’t work late. Don’t crack dirty jokes. Don’t smile at strangers. Don’t go out at night. Don’t trust anyone. Don’t say yes. Don’t say no.

Just “be a lady” they said.