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A captação do irreal

Verizon. The Reset. 2021

O anúncio The Reset, da Verizon, alinha uma sequência de cenas irreais mas representáveis que provocam sensações de atordoamento e estranheza no espetador. Há treze anos, em 2009, tê-lo-ia incluído no vídeo A Construção do Impossível, uma compilação de anúncios com ilusões (ver https://tendimag.com/2020/01/14/estetica-da-guerra/; ver também o artigo correspondente Albertino Gonçalves, “Como nunca ninguém viu – O olhar na publicidade” (Martins, Moisés de Lemos et alii, Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Editor, 2011, pp. 139-165).o).

O anúncio The reset poderia ainda integrar o vídeo Emoções Confortáveis, produzido para uma instalação da Exposição Vertigens do Barroco, no Mosteiro de Tibães, em 2007 (ver https://tendimag.com/2015/06/10/vertigens-do-barroco/). Os visitantes eram convidados a assistir ao vídeo num sofá último grito num simulacro de sala com mobiliário dos séculos XVIII e XXI. Para quem aprecie a vertente delirante do Tendências do Imaginário, ambos os vídeos são uma boa proposta de assombro e entretenimento. Se fossem avaliados pelo “valor-trabalho” incorporado, para retomar um conceito caro a Karl Marx, o seu preço resultaria deveras elevado.

Marca: Verizon. Título: The Reset. Agência: Madwell/Brooklyn. Direção: Doug Liman. Estados-Unidos, maio 2021

O valor da duração

A duração altera a história. Na publicidade, o tempo, designadamente o compasso, escasso e caro, possui o seu efeito. Sensibiliza de outro jeito. Devagar. Com tranquilidade.

Anunciante: Danish Road Safety Council. Título: Helmet has always been a good idea. Agência: & Co. Direção: Tore Frandsen. Dinamarca, 2021.

A princesa noiva e a velha grávida

Baubo. Estatueta de terracota, de Alexandria. Período ptolemaico.

Estou a escrever sobre velhas grávidas impúdicas, de preferência, risonhas [pertence a um conjunto de textos que não dá para publicar no Tendências]. Para compensar a carga grotesca e a penúria de escrita, recorro à músicas, sobretudo, músicas harmoniosas como as compostas por Mark knopfler para filmes dos anos oitenta.

Mark Knopfler. Going Home. Local Hero, 1983. Ao vivo em Barcelona, 2019.
Mark Knopfler. The Long Road. Cal. 1984.
Mark Knopfler & Willy DeVille. Storybook Love The Princess Bride. 1984

Canções frias

Klaus Nomi (1944-1983)

Gosto do Klaus Nomi, um cometa extraordinário que teve uma breve passagem pela música antes de ser vítima da sida em 1983. Quase todas as suas canções estão contempladas no Tendências do Imaginário. O que não me impede de continuar a procurar versões com melhor qualidade. Encontrei três respeitantes a outros tantos covers: The Cold Song, da ária What Power Art Thou?, da ópera King Arthur, de Henry Purcell (1691); Can’t Help Falling in Love, de Elvis Priesley; e Death, da ária Dido’s Lament, da ópera Dido and Aeneas, de Henry Purcell (1689). Com votos de frescos sentimentos!

Klaus Nomi. The Cold Song. 1981. Cover da ária What Power Art Thou?, da ópera King Arthur, de Henry Purcell, 1691.
Klaus Nomi. Can’t Hel Falling in Love. Cover de Elvis Priesley, Can’t Help Falling in Love, 1961.
Klaus Nomi. Death. Cover da ária Dido’s Lament, da ópera Dido and Aeneas, de Henry Purcell, 1689.

Paredes, Sede e Morte

Sede e morte, a sede do morto, uma sede de morrer. Uma música, um anúncio, um vídeo. Paredes, Amstel, Animais. Carlos Bica, Mariana Abrunheiro e Ruben Alves. Três Sede e Morte, três versões de Carlos Paredes. Três, o número mágico-religioso por excelência. Um mais três quatro, e o macho se torna fêmea. Estou a escrever sobre diabos, bruxas e vampiros.

[Sede de Morto] Marca: Amstel. Título: For Alex. Agência: 180 Amsterdam. Direção: Björn Rühmann. Países Baixos, junho 2022.
Carlos Paredes. Sede (e Morte). Concerto em Frankfurt. 1983. Ao vivo no Teatro São Luiz, em 1992.
Animais. Sede e Morte. 15 Anos Sem Paredes. 2019.
Carlos Bica, Mariana Abrunheiro e Ruben Alves. Sede e Morte. Cantar Paredes. 2015.

Pandemónio. Vulnerabilidade auditiva

Volkswagen. Let’s Go. 2022

Segundo Georg Simmel, a relação com o mundo e com os outros tende a mudar consoante os sentidos mobilizados.

“Do ponto de vista sociológico, a orelha distingue-se do olho também pela ausência desta reciprocidade que institui o olhar face a face. Por natureza, o olho, não consegue abranger sem receber ao mesmo tempo, enquanto que a orelha é o órgão egoísta por natureza que recebe e não dá; a sua forma exterior parece quase um símbolo disso, porque ela dá a impressão de um apêndice passivo da figura humana, o menos móvel de todos os órgãos da cabeça. Paga este egoísmo com a sua incapacidade de se desviar ou fechar, à semelhança do olho; como pode apenas recolher está condenada a receber tudo o que se passa ao seu alcance” (Simmel, Georg, 1ª ed. 1908, Sociologie, Paris, Presses Universitaires de France, 1999, pp. 634-635).

O ouvido é, portanto, mais vulnerável do que o olho. Ao mesmo tempo, mais exposto à intrusão e mais perturbador só o olfato, mas num espaço mais restrito, circunscrito à “esfera da intimidade”. A maior vulnerabilidade, e correspondente intrusão, do ouvido face ao olho justifica que, ao nível do audiovisual, se recorra mais frequentemente ao som do que à imagem para significar o mal-estar e a agressão ambiental. É o caso do anúncio sul-africano Let’s Go, da Volkswagen, em que a protagonista é assediada por todo o tipo de ruídos.

Marca: Volkswagen. Título: Let’s Go. Agência: Ogilvy (Cape Town). Direção: Fausto Becatti. República da África do Sul, junho 2022.

Samba digestivo

Habituamo-nos ao protagonismo do samba na publicidade, por exemplo nos anúncios ao futebol. Mas ao trânsito digestivo!…

Marca: Dan Paris. Título: Samba. Agência: TBWA Paris. Produção: Blackmeal. França, junho 2014.
Marca: Hépar. Título: Samba. Agência: Marcel. França, fevereiro 2022.

A Ave, o casal e a lápide

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa, 1 de agosto de 2022. Fotografia: Conceição Gonçalves

Prometi, há dois meses, colocar o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro” logo após o lançamento do livro Uma paisagem dita casa, de João Gigante, integrado no programa Quem somos os que aqui estamos?, do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Aconteceu ontem.

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa. Melgaço, 1 de agosto de 2022. Assistência. Fonte: Melgaço, Portugal começa aqui

Tenho vindo a afastar-me da nobre missão de facultar ciência. Contento-me com namorar o conhecimento. A autoridade da lição e do relatório cede à desenvoltura da poesia, do conto ou da comédia. Entrego-me ao gozo da descoberta e da escrita e aposto no prazer do eventual leitor. Sem lonjuras nem distâncias, próximo das realidades e dos públicos. “A ave, o casal e a lápide” presta-se a ser lido como um romance policial. Nem sequer foi preciso reordenar as etapas da pesquisa. O texto espelha o percurso efetivo. Constitui um exemplo de investigação tal como sucede. Confesso algum carinho por estas páginas: não pretendem desvendar a realidade, mas acrescentar e valorizar; não contabilizam, satisfazem.

Segue o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro”, in Gigante, João, Uma paisagem dita casa, Ao Norte, 2022, pp. 124-139. Acresce a reportagem da visita, em 2021, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao MDOC.

Cerimónia de encerramento e entrega de prémios do MDOC – Festival Internacional de Documentários. Melgaço, 08 de agosto de 2021. © Mário Ramalho/Presidência da República.

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

Sensualidade sombria

Dove Cameron. Boyfriend. 2022.

Lauren Sick, “escritora e realizadora que cresceu nas florestas escuras dos subúrbios” (IMDB), tem queda para o tenebroso. Constata-se no anúncio Scary Fast, para a Ford (ver Aflição fascinante: https://tendimag.com/2022/07/20/aflicao-fascinante/), confirma-o o vídeo musical para a canção Boyfriend, de Dove Cameron, “menina bissexual da Disney e da Apple”, com uma carreira no cinema e na música precoce e fulgurante, um talento em estúdio e ao vivo. Motivo para contemplar duas versões: o vídeo musical oficial e uma performance ao vivo.

Dove Cameron – Boyfriend (Vídeo oficial). Realização: Lauren Sick. Produção: Dreambear. Estreia: 31/03/2022.
Dove Cameron – Boyfriend. Ao vivo: The Ellen Show. Emissão: 03/05/2022.