Archive | Janeiro 2025

Com a infância sentada ao lado

Ontem fui a Melgaço, terra a que dedico boa parte da atividade. Noutras, tamanha é a aura, tantos os faróis e os holofotes, que uma pessoa acaba por se sentir demasiado acanhada, como uma vela de aniversário que, esguia e efémera, dá mais trabalho a acender do que luz uma vez acesa.

Regressei com a infância sentada ao lado e com vontade de ouvir música de outros tempos.

Existem profetas e mártires contemporâneos. Por exemplo, John Lennon. Mais ao jeito do Novo Testamento, distingue-se pelo apelo à paz e ao amor.

John Lennon – Love. John Lennon/Plastic Ono Band, 1970
John Lennon – Jealous Guy. Imagine, 1971
John Lennon – Dream. Walls and Bridges, 1974
John & Yoko/The Plastic Ono Band – Happy Xmas (War Is Over). Single, 1971
John Lennon – (Just Like) Starting Over. Double Fantasy, 1980

A Música, o Museu e a Escada de Jacob

M&M. Música e Museu. Magnífico e memorável! Birds On a Wire e Louvre. Mais aqueles que contribuíram para esta obra prima. Beleza destilada em todos os sentidos. Um regalo para a vista e para os ouvidos, que apetece saborear, tocar e cheirar. São 80 minutos de encantamento. Se, agora, não dispuser de tempo, guarde para depois, mas não perca.

Imagem: Nicolas Dipre. Le songe de Jacob. c.1500

Mesmo se, à partida, os conteúdos não o entusiasmem, insista, corra o risco de ficar seduzido. Quem gosta do que não gostava galga uns degraus na escada de Jacob.

Formado em 2012, Birds On a Wire é um duo musical composto pela violoncelista brasileira Dom La Nena e pela cantora franco-americana Rosemary Standley. O vídeo da arte.tv Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire , realizado por Jeremiah, oferece “um encontro raro entre música, pintura e escultura em alguns dos espaços mais emblemáticos do Louvre”.

Imagem: A Escada da Ascenção Divina . Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai. Séc. XIII

Segue Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire, concerto itinerante filmado no museu do Louvre nos dias 13 e 14 de maio de 2024. Acrescento, para os mais apressados, duas canções em português: La Marelle (Amarelinha) e Cálice.

Birds On a Wire – Une nuit au Louvre avec Birds On A Wire. ARTE Concert. Realização: Jeremiah. Museu do Louvre, arte-tv. 13-14 maio 2024. C. 80 minutos
Birds On a Wire – La Marelle (Amarelinha), com a Maîtrise de Radio France. Ao vivo na Philarmonie de Paris, em dezembro de 2024
Birds On a Wire – Cálice (de Chico Buarque & Gilberto Gil). Ao vivo no Festival de Saint-Denis 2016 na Basílica de Saint-Denis, em agosto de 2016

Mastectomia do Amor

Imagem extraída do documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025)

Após a publicação do artigo Mastectomia da Liberdade, retomo a visualização do documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025). Aguarda-me um eclipse semelhante. No quadro “O nascimento de Vénus”, do Sandro Botticelli, a deusa do amor surge igualmente despeitada. O amor, tal como a liberdade, também é submetido a “mastectomia”.

Sandro Botticelli. O nascimento de Vênus. C. 1485. Galleria degli Uffizi, Florença

Justificam-se alguns apontamentos sobre o modo como funciona este tipo de “censura”:

a) As plataformas recorrem principalmente à Inteligência Artificial (IA) para detetar e analisar os conteúdos;
b) A IA tem a capacidade de “aprender”, desenvolvendo capacidades e apurando o desempenho;
c) Em alguns casos, eventualmente mais duvidosos, a IA pode ser complementada pela “revisão manual” (feita por pessoas);
d) Os conteúdos são rejeitados por inconveniência (pornografia, ódio…) ou violação de direitos de autor;
e) As plataformas não alteram os conteúdos; removem o conjunto, restringem o seu uso ou, em situações extremas, suspendem a conta do utilizador proponente;
f) As plataformas explicam, ou dispõe-se a explicar, os motivos que justificam a decisão;
g) Se o utilizador eliminar ou alterar os conteúdos “críticos”, rejeitados, o vídeo poderá ser aceite; o processo implica, portanto, alguma forma de autocensura;
h) É possível contestar as decisões tomadas pelas plataformas; os argumentos apresentados pelo utilizador são frequentemente aceites.

Pitosga

Creio que o riso ainda não é censurado. Aproveitem!

Marca: Specsavers Australia. Título: Orchestra. Agência: TBWA\Melbourne. Direção: Conor Mercury. Austrália, janeiro 2025

Mastectomia à Liberdade

Imagem extraída do documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025). Kolimprint Art

Parece que estamos a viver uma nova contra reforma. No documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025), estranha-se a figura da liberdade desmamada. Nem a arte escapa à censura! Automática, com algoritmos em vez de revisores. O cigarro foi substituído pela palhinha, os seios, apagados, seguir-se-á o riso, congelado ou amarelo?

Eugène Delacroix. A Liberdade Guiando o Povo (1830), Museu do Louvre. Após restauração de 2024

Lamentos

Give my new body a chance
Patient now it’s all that I have

São lamentos, senhor, lamentos! Estilo cada vez mais em voga. Trovas melodiosas de penar. Um misto de perda, luto e solidão. Assim é a música do SYML, como do Anthony e tantos outros.

SYML – Meant To Stay Hid. Sacred Spaces, 2021
SYML – Where’s My Love. Single, 2017
SYML – “DIM”. Sacred Spaces, 2021. Live at at Studio X in Seattle, Washington, 2022
SYML – Body. In my body, 2018

História de Amor com Arroz de Frango

Admito gostar, com uma certa ingenuidade, da publicidade tailandesa. Tenho-o repetido tantas vezes que fiquei sem palavras.

Há mais de cinquenta anos, comprei um dos meus primeiros singles (45 rotações): do lado A, “Love Story (Where do I begin)”, por Andy Williams; do lado B, “Seasons in the sun”, por Terry Jacks.

O que tem a ver o anúncio da KFC com a música composta por Francis Lai? Porventura, a imaginação do amor.

Marca: KFC Thailand. Título: Ror Real?. Agência: Wolf BKK. Tailândia, janeiro 2025
Andy Williams – (Where do I begin) Love Story. Love Story. 1971
Terry Jacks – Seasons in the sun (cover de Jacques Brel, 1961). Single, 1973
Francis Lai – Theme from Love Story. Love Story. 1970
Jacques Brel – Le moribond. Marieke (Vol.5). 1961

Transições e variações

“Mas, para além da figura do puzzle, o movimento de “decomposição de uma ordem e composição de uma desordem” comporta, ainda, a ideia de descentramento, se não de uma fragmentação policêntrica. Esta cosmogonia, este modo de estar e de sentir o mundo, remonta aos tempos de Giuseppe Arcimboldo abalados pela revolução Kepleriana que tanto influenciou a mundividência barroca. Com Johannes Kepler (1571-1630), o centro, que Copérnico deslocara da Terra para o Sol, perde-se no infinito: “Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, 1609, citado por Severo Sarduy, Barroco, Paris, Ed. de Minuit, 1975: 89). Um sentimento partilhado por Blaise Pascal (1623-1662) que confessava: “O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me” (Pensamentos, 1ª ed. 1670).

Este descentramento marca também a nossa experiência. Deambulamos sem ponto fixo. Filhos da compressão do tempo e do espaço, comprazemo-nos com o simulacro, o zapping e o flash. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, atirados de um lado para o outro”, o que é um jeito de navegar numa “esfera cujo centro está em toda a parte, a circunferência em parte nenhuma (Blaise Pascal, Pensamentos, 1ª ed. 1670). Nada, porém, que uma boa publicidade não possa contemplar. Por exemplo, o anúncio Worlds da Ford (Ford S-Max, Velocity Films, República da África do Sul, 2006). Um homem pega numa maçaneta, atravessa uma parede e entra num cenário de deserto; novo golpe de maçaneta, e passa para uma paisagem de neve; de porta em porta, segue-se um observatório, o oceano e, por último, um automóvel, que, num ápice, o transporta para uma estrada de montanha. O mundo da vida surge, assim, associado a um zapping numa espécie de origami japonês, dobrado e desdobrado à velocidade de um flash.” (Albertino Gonçalves, “Dobras e Fragmentos: A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, Vertigens: Para uma Sociologia da Perversidade, Grácio Editora, 2009, pp. 47-63).

Recordo este excerto a propósito do anúncio All it takes is a Yes, da Lufthansa, lançado este mês. Qualquer semelhança com os anúncios Worlds, da Ford, The Dream, da Motorola ou Sony makes believe it’s everywhere, da Sony, é mera coincidência. Apenas, homólogos, partilham o mesmo modelo ou conceito: transição mágica disruptiva entre mundos ou momentos distintos.

Estive para intitular este artigo “Mais do mesmo”. Não seria justo! Constituem versões que valem por si, variações que acrescentam valor. Como escreve João Capela: “Haverá sempre um antes, e um antes do antes. Melhor é sempre o que vem depois, enaltecendo ou divergindo, acrescenta sempre”. E, como costume, os gostos dividir-se-ão, para enriquecimento geral.

Seguem os quatro anúncios, do mais recente para o mais antigo. Para acompanhar, o Adagio das Variações Goldberg, de J. S. Bach, interpretadas por Keith Jarrett.

Marca: Lufthansa. Título: All It Takes Is a Yes. Agência: Serviceplan Germany. Direção: Niclas Larsson. Alemanha, fevereiro 2025
Marca: Sony. Título: Sony makes believe it’s everyshere. Agência: 180 Amsterdam/LA. Direção: Noam Murro, 2009
Marca: Motorola Razr2. Título: The Dream. Agência: Cutwater San Francisco. Direção: Michel Gondry, USA, 2007
Marca: Ford S-Max. Título: Worlds. Produção: Velocity Filmes. República da África do Sul, 2006
J.S. Bach: Goldberg Variations, BWV 988: Var. 25. a 2 Clav. Adagio. 1741. By Keith Jarrett, 1989

De mão dada com a morte. O Retrato de Arnolfini

1. Jan van Eyck, The Arnolfini Portrait (1434).. National Gallery, London

“O Retrato de Arnolfini”, também conhecido como “O Casal Arnolfini”, distingue-se como um dos quadros mais notáveis da história da arte. Da autoria de Jan van Eyck, pintado em Bruges, em 1434, está exposto na National Gallery, em Londres. Inovador a vários títulos, extremamente minucioso, tecnicamente incomparável, com uma profusão de motivos e uma grande complexidade de símbolos, tem sido alvo de inúmeros estudos.

A interpretação mais consagrada, mas controversa, foi proposta por Erwing Panofsky, em 1934, no ensaio “Jan van Eyck’s Arnolfini portrait” (ver pdf no final do artigo). A pintura representaria uma cerimónia matrimonial privada entre Giovanni Arnolfini, comerciante abastado de Bruges, e Constanza Trenta (?), ambos oriundos de Luca, em Itália.

2. Jan van Eyck, Retrato de um homem (autorretrato ?). 1433, National Gallery, Londres

Surpreendeu-me recentemente uma hipótese alternativa apresentada por Margaret L. Koster, historiadora de arte, num documentário de três episódios, e outras tantas horas, da BBC sobre o Renascimento do Norte, emitido em 2007.  A proposta de Margaret L. Koster, já defendida em 2003 no artigo “The Arnolfini double portrait – a simple solution” (pdf em anexo, sem imagens), é apresentada entre os minutos 3:00 e 10:00 do seguinte excerto do referido documentário.

Northern Renaissance. Episódio 1 de 3: The Supreme Art (quarta parte; 4/4). BBC FOUR, 15 de novembro de 2007. A partir do minuto 45:00 do episódio 1

Os contra-argumentos invocados são, entre outros:

  • A descoberta de que Constanza Trenta faleceu em 1433, um ano antes da datação do quadro;
  • A expressão melancólica de Arnolfini;
  • O rosto lívido, idealizado, de Constanza, a lembrar uma “boneca de porcelana”;
  • O cachorro, companheiro fiel para sempre no outro mundo;
  • Os episódios da Paixão em torno do espelho, com o Cristo vivo do lado de Arnolfini e morto do lado de Constanza;
  • A vela por cima de Arnolfini está acesa (com vida); por cima de Constanza, apagada (já partiu).

Em suma, aquando da conclusão da pintura, Arnolfini está vivo e Constanza, morta. Tratar-se-ia, portanto, de uma homenagem, uma espécie de epitáfio, mediante a encenação de um casamento, digamos, póstumo. Dois espaços, o aqui e o além. e dois tempos, o presente e o passado, juntos para a eternidade.

Importa relevar um pormenor central no quadro: as mãos juntas. Estão numa posição semelhante à das mãos esculpidas em muitas lápides tumulares. A mão do ente falecido pousa, sem estar apertada, sobre a mão do sobrevivente, numa espécie de união, e eventual compromisso de fidelidade, para além da morte. “De fato, as mãos do marido e da mulher apareciam frequentemente juntas nos monumentos funerários ingleses” (Margaret L. Koster).

3. Detalhe do Retrato de Arnolfini

A principal diferença em relação à maioria das esculturas tumulares que me foi dado observar reside na mão de Constanza: repousa aparentemente inerte, com a palma virada para cima, encostada à mão de Arnolfini que a segura. Trata-se de um pormenor de um detalhe, mas convém não o subestimar, dado o preciosismo, sobretudo ao nível do simbólico, de Jan Van Eyck e da generalidade dos pintores do Renascimento do Norte. Pode, porventura, pretender acentuar a passividade, ou inação, de Constanza.

Ressalve-se que também existem relevos tumulares com as mãos “dadas” do mesmo jeito que as de Constanza e Arnolfini: com a palma da mão (des)falecida virada para cima. Por exemplo, na estela funerária de Petronia Posilia (Fig. 5).

O motivo funerário com as mãos dadas remonta, portanto, à Antiguidade, como o testemunham as imagens precedentes, extraídas do artigo Mãos de eternidade. Poética do macabro (https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).

Atente-se, por último, nos túmulos medievais com rainhas e reis de mãos dadas, tais como o de D. Duarte com D. Leonor ou de D. João I com D. Filipa de Lencastre, ambos no Mosteiro da Batalha. Estas obras, dispendiosas e morosas, eram normalmente encomendadas pelo monarca sobrevivente.

Esta associação ocorreu, com certeza, a muitas pessoas. Não sou o único com imaginação excessiva, retorcida, vadia e tétrica. Percorri, contudo, parte do caminho com os meus próprios tamanquinhos, o que não me dispensa, naturalmente, das devidas vénias de citação e referência. Por exemplo, ao breve mas incisivo apontamento do curador James Payne na conclusão do documentário The Arnolfini Portrait by Jan Van Eyck: Great Art Explained, de 2020:

Assumir que uma pintura qualquer tem um único sentido seria arbitrário e arrogante. É apenas uma teoria sustentar que a pintura é um memorial à sua falecida esposa. Mas existem, a meu ver, algumas pistas: a vela apagada, o lado que lhe corresponde da Paixão no exterior do espelho, o cachorro a seus pés e a possibilidade de Giovanni vestir roupa de luto. Mas o que talvez mais me convença seja a maneira delicada como segura a mão dela, como se esta pudesse escapar das suas mãos a qualquer momento” (14:00-15:39).

The Arnolfini Portrait by Jan Van Eyck. Great Art Explained in 15 minutes. By James Payne. 30.08.2020

No mesmo sentido, também escrevemos, um pouco antes, em 2 de maio de 2020:

As mãos entrelaçadas inscrevem-se num limiar, entre mundos. Este e o outro, nem este, nem o outro. Entre a vida e a morte, o céu e a terra, a memória e o esquecimento. O aperto de mãos não é apertado, é frouxo, facultando a sensação que as mãos tanto podem permanecer unidas como afastar-se. Juntas, as mãos mais do que agarradas parecem em muitos casos encostadas. Não se vislumbra resistência, sinal de esforço, para contrariar o destino. Trata-se de uma figura e de um momento trágicos. (Mãos de eternidade. Poética do macabro: https://tendimag.com/2020/05/02/maos-de-eternidade-poetica-do-macabro/).

ANEXOS

A balada do arco-íris

Até os fenómenos naturais mais efémeros se conjugam para unir o Minho e a Galiza.

Moledo do Minho 1. 18.01.2025. Fotografia de Fernando Gonçalves
Moledo do Minho 2. 18.01.2025. Fotografia de Fernando Gonçalves

Está bom tempo para dormitar, embalados, por exemplo, pela “Berceuse” (1879) de Gabriel Fauré.

Gabriel Fauré – Berceuse Opus 16. Violin: Shishi Zhou; Piano: Chewon Park. Shishi’s Graduation Recital, Master of Music. New England Conservatory’s Brown Hall. February 23, 2016