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Em companhia da morte

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“Uma rapariga que tinha de ir regar um campo muito cedo, passou por diante da igreja e vendo que se estava à missa, deu parabéns à sua fortuna e entrou, indo ajoelhar entre as outras mulheres. Estas começaram a olhar umas para as outras e a rosnar “aqui cheira a fôlego vivo”! Uma das mulheres levantou-se, aproximou-se da rapariga e disse-lhe: “O que te valeu foi vires ajoelhar na campa de tua madrinha, que sou eu. Vai-te e não olhes para trás!” A rapariga saiu, mas não resistiu à curiosidade e olhou para trás. Viu muitas fogueiras a arder. Eram as almas das pessoas, porque se não tinham dito missas. (Guimarães) (…)
Na noite de Natal é costume rezar pelas almas dos antepassados, “para eles não virem comer as migalhas que ficaram na mesa”. No Alto Minho nessa mesma noite põe-se sempre um talher a mais para a pessoa de família que ultimamente faltou, e não se levanta a mesa que fica posta toda a noite” (Pedroso, Consiglieri, Tradições Populares Portuguesas, Braga, Edições Vercial, 2010-2012, p. 102-103).

A fronteira entre o mundo da vida e o mundo da morte constitui um dos temas mais complexos da relação com a morte. O que parece um abismo é, afinal, uma ponte, uma zona de contrabando macabro. A morte assombra os vivos e os mortos mantêm uma centelha de vida (fantasmas, almas penadas, mortos-vivos). Proliferam as crenças e os testemunhos sobre os prenúncios de morte, tais como os acompanhamentos ou as procissões de defuntos. Carmelo Lisón-Tolosana dedica uma parte da Antropología Cultural de Galicia (Madrid, Akal, 1971) a este fenómeno conhecido na Galiza por “la santa compaña”. Muitas das lendas estudadas por Lisón-Tolosana também existiam na paróquia da minha infância.

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George Barros. Procissão dos Mortos. Brasil.

Se bem me lembro, um acompanhamento é uma procissão de almas de mortos, eventualmente de vivos, que ocorre normalmente de noite. Confina-se ao território da paróquia, que delimita demarcando uma espécie de comunidade de vivos e de mortos. A procissão é encabeçada por um vivo que leva uma cruz e o caldeiro de água benta. Para o comum dos mortais, a procissão não é visível, mas pode ser sensível: aragem, frio, cheiro a velas, som de passos… Existe o risco de um vivo ser incorporado na procissão. Uma forma de o evitar consiste em traçar um círculo no chão e deitar-se com o rosto virado para baixo até a procissão passar. Os vivos que encabeçam as procissões carecem ser substituídos. De outro modo, empalidecem, definham e morrem. Embora o comum dos mortais não consiga ver o acompanhamento, existem excepções, pessoas que, vendo a procissão, se inteiram das próximas mortes. Não é raro as pessoas “sentirem” a passagem do acompanhamento. Muitos o admitem. Há relatos aterradores: um morto da procissão deu uma vela a uma pessoa; ao acordar, não tinha uma vela mas um osso do fémur. Na minha paróquia “sabia-se” quem tinha o fado de ver os acompanhamentos e a sina de antever os mortos. Não eram, precise-se, figuras fictícias: tinham rosto e nome. São crenças, mas para quem acredita são verdades.

Vêm estas curiosidades a propósito do documentário galego Em Companhia da Morte, de 2011 (também acessível em http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/11/as-gentes-de-castro-laboreiro-e-os.html), que, durante 29 minutos, dá voz ao saber e à experiência de mulheres de Castro Laboreiro no que diz respeito a acompanhamentos e outros anúncios da morte.

Em Companhia da Morte. filmado por Vanessa Vila Verde, João Aveledo e Eduardo Maragoto. Filmes de Bonaval. Galiza, 2011. Duração: 29 minutos.

Além do documentário, acrescento dois episódios do filme Fantasia (1940) de Walt Disney: Night on Bald Moutain, com música de Modest Mussorgsky: e Ave Maria, com música de Franz Schubert. Ambos lembram outros mundos.

Fantasia (1940) de Walt Disney: Night on Bald Moutain, com música de Modest Mussorgsky.

Fantasia (1940) de Walt Disney: Ave Maria, com música de Franz Schubert.

Trabalhadores do contrabando

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Victor Coyote, Tio Budo. 2014.

Casa de ferreiro, espeto de pau! Só agora, graças ao José Pinto, dos Arcos de Valdevez, e a Valter Alves, responsável pelo blogue Melgaço, entre o Minho e a Serra, me dei conta de que o documentário galego Traballadores do Contrabando está, há mais de um ano, disponível no YouTube. Trata-se de uma obra notável sobre o contrabando nas margens do rio Minho. Tem a assinatura de Victor Aparício Abundancia, responsável pela realização e pelo argumento. Tive o prazer de participar nesta iniciativa. Cabe-me fazer a transição entre as diversas partes do documentário.

Traballadores do contrabando. Realização e argumento: Victor Aparício Abundancia. Produção: Alen Films e Televisión de Galicia. 2006.

Victor Aparício Abundância também é conhecido por Victor Coyote. Figura multifacetada, fundou a banda Los Coyotes, em Madrid, em 1980. Acrescento as canções Estraño Corte de Pelo, lançada em 1982, e Yo, Que Creo en el Diablo, de 2004. Victor Coyote também desenha e escreve. Por exemplo, Cruce de Perras y Otros Relatos de los 80, Visual Books, 2006; ou Tio Budo, Fulgencio Pimentel e hijos, 2014.

Foi um prazer conhecer Victor Coyote. Ainda bem que há mundo.

Los Coyotes. Estraño Corte de Pelo. Estraño Corte de Pelo. 1982.

Victor Coyote. Yo, Que Creo en el Diablo. A Qué Vien Ahora Silbar?. 2004.

Filmes do Homem. Melgaço, 2 a 7 de Agosto

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Existem, sempre, bons motivos para visitar Melgaço. Os Filmes do Homem 2016, Festival Internacional de Documentário de Melgaço, é um motivo muito especial. Decorre de 02 a 07 de Agosto, em várias localidades do concelho. Para aceder ao catálogo, carregar numa imagem ou no seguinte endereço: http://www.filmesdohomem.pt/doc/FDH2016.pdf.

Filmes do Homem. Projecção junto à Torre de Menagem. Melgaço, Agosto 2016.

Filmes do Homem. Projecção junto à Torre de Menagem. Melgaço, Agosto 2016.

Era uma vez

L'odyssée de la vieO blogue Tendências do Imaginário pode dar a impressão de só atender à despedida dos seres humanos. Mas não, também nascem. E vivem. O filme L’Odyssée de La Vie, de Nils Tavernier, retrata a gestação de um ser humano. As imagens não foram captadas por câmaras, mas construídas, com o contributo da Mac Guff Paris. Segue um excerto do filme.

L’Odyssée de la vie. Realização de Nils Tavernier. Pós-produção: Mac Guff Paris. Transmitido pelo Canal France 2, em Janeiro de 2006. Duração: 1h 23mn. Excerto.

Carpideiras

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

Qual é o efeito das novas tecnologias ao nível da tradição? Se fosse romântico, diria que é lamentável; se fosse futurista, diria que é promissor. A comunicação multimédia proporciona à tradição uma notoriedade nunca antes navegada. E como encarar os híbridos que baralham tradição e (hiper)modernidade (ver Balandier, George, Sens et Puissance, 1971)?
Muda a embalagem? Ao mudar a forma muda o conteúdo… E depois? Vivemos tempos de pós-tradição? Que interessa que uma prática ou um vestígio sejam ou não tradição quando o sábio, o político, o comissário ou o curador assim o entendem? Vertiginoso e efervescente, o presente é herdeiro de curta memória e alta reciclagem. A tradição é, como sempre, hóspede do presente.

O anúncio indiano Rudali, da Radio Mirch, é uma paródia, ou uma parábola, que mostra como uma tradição tão arreigada como o choro ritual das carpideiras é ameaçada, e vencida, pela música de uma estação de rádio. Em compasso lento, o filme regista como as carpideiras, contanto pagas, deixam de chorar. Preferem ouvir rádio (vídeo 1)! O prazer do ouvido substitui o simulacro da dor. Até a anciã adere.

Michel Giacometti filmou uma carpideira no Soajo. O documentário foi realizado para o programa “Povo que canta”, da RTP, em 1970 (vídeo 2).

Marca: Radio Mirch. Título: Rudali. Agência: McCann Erickson Mumbai. Índia, Dezembro 2015.

A Carpideira (lugar da Várzea, Soajo, Arcos de Valdevez). Autor: Michel Giacometti. Programa “Povo que canta”, RTP, 1970.

Regresso à Cruz de Ferro

CruzdeFerro (1)

Desencantei, finalmente, uma cópia do filme A Cruz de Ferro (Brum do Canto, 1968) rodado em Castro Laboreiro (ver https://tendimag.com/2015/10/23/a-cruz-de-ferro/). Retrata o conflito entre duas aldeias por causa de um namoro e, por arrasto, da água. Agradeço este reencontro com A Cruz de Ferro, passado meio século, ao Valter Alves, um estudioso das gentes de Melgaço, cujo blogue recomendo: http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/. O filme completo está acessível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=28HstNqSgb8. Segue um excerto. Privada de água, a população, na maioria mulheres, decide construir um engenho de rodas articuladas capaz de elevar a água do rio até à aldeia (vídeo 1). Uma demonstração da potência popular, sobre-humana, cara ao Estado Novo, patente, também, no episódio da reconstrução, “durante três dias e três noites”, da Praça de Touros de Guimarães, no ano de 1947 (vídeo 2).

Vídeo 1. A Cruz de Ferro. Realizador: Brum do Canto. Portugal. 1968. Excerto: 01.32.20 – 01.41.40.

Vídeo 2. Reconstrução da Praça de Touros de Guimarães (1947).

Whiskey sábio

Conferência  de Solvay - 1927.

Conferência de Solvay – 1927.

Auguste Piccard

Auguste Piccard

Nada escapa à voracidade da publicidade. Nem sequer a ciência. O anúncio ao whiskey Hennessy reconstitui a primeira ascensão estratosférica em balão. Proeza de Auguste Piccard, físico, inventor e explorador suíço, fonte de inspiração para a personagem do Professor Tournesol, de Hergé. Cientista reputado, “cujas experiências não cabiam nos laboratórios”, consta, em cima à esquerda, da fotografia da Conferência de Solvay, em 1927, na companhia de, entre outros, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Max Planck, Marie Curie e Albert Einstein.
Pergunto-me como, naquele tempo, sem rankings, nem factores de impacto, estes sábios conseguiram conhecer-se e encontrar-se.

Conferência  de Solvay - 1927. Com identificação.

Conferência de Solvay – 1927. Com identificação.

Se Auguste Piccard subiu mais alto, o filho, Jacques Piccard desceu mais baixo! Foi o primeiro a atingir, em 1960, o ponto mais profundo do planeta: a fossa das Marianas (11 034 metros). O neto de Auguste Piccard , Bertrand Piccard, empreendeu, em 1999, o primeiro voo de balão à volta do mundo sem escalas (ver documentário sobre a família Piccard).
O que tem o whiskey Hennessy a ver com os Piccard? Nada, logo tudo! A publicidade é espantosa, não é?

Marca: Hennessy V.S.. Título: The Piccards. Agência:

Dar um salto: Filmes do Homem 2

Começa hoje, dia 4 de Agosto, a segunda edição dos Filmes do Homem – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. É uma iniciativa oportuna e original, promovida, com entusiasmo e competência, pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. Pode aceder à página do evento no seguinte endereço: http://filmesdohomem.pt/. Quanto ao catálogo, belíssimo, a versão em pdf está disponível no endereço: http://filmesdohomem.pt/doc/filmes-do-homem-2015.pdf ou carregando na seguinte imagem.

Filmes do Homem Catálogo 2015

Escrevi um pequeno texto no catálogo (pág, 14 -17) sobre o filme O Salto (1966) de Christian de Chalonge. No dia 8, faço uma visita guiada ao Espaço Memória e Fronteira. Dê um salto, um salto a Melgaço. Vale a pena!

Deste lado da lua

Roberto Chichorro. Sonho circense com lágrimas. 2006.

Roberto Chichorro é um pintor moçambicano radicado, a partir dos anos oitenta, em Portugal.

Nos seus quadros, aluados, a vida não adormece, prolonga-se pela noite dentro, morna e mágica.

Lembra Marc Chagall, mas em versão mais colorida e mais voluptuosa.

Álvaro Lobato de Faria caracteriza bem a pintura de Chichorro no seguinte texto: http://defesesfinearts.com/2011/01/mac-lisboa-agua-de-cheiro-po-de-arroz-em-tempo-de-beija-flor-e-papagaio-de-papel/, que passo a citar:

“Chichorro não representa. Cria mundos. Abre-nos frestas de portas. E acorda em nós o desejo de espreitar. Vermos sem sermos vistos. Sermos de novo meninos, em noite escura de insónia ou de bicho papão, à procura de um mundo de luz e cor que não é nosso, para espantar o medo. / O nosso reino de fantasia, denso e subtil, realista e fantástico, onde os homens ensinam os bichos e os bichos aprendem a ser homens, na festa das cores da vida. / Aqui tudo se passa à noite. Nunca amanhece. Mas não existe tristeza, só nostalgia…” (Álvaro Lobato Faria).

A página Movimento Arte Contemporânea contém cerca de uma centena de imagens de quadros de Roberto Chichorro. Segue um pequeno documentário e uma galeria de imagens.

Exposições Roberto Chichorro no Porto e Lamego @ Canal 180.

Galeria com imagens de quadros de Roberto Chichorro.

Sociologia sem palavras 15: A encenação do poder

George Balandier

George Balandier

Tive o privilégio de ter conhecido Georges Balandier como professor. Publicou, em 1980, o livro Pouvoir sur Scènes, dedicado às diversas formas de encenação do poder (edição portuguesa: O Poder em Cena, Coimbra, Minerva, 2009).

O filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, é composto por episódios de encenação do poder. Encomendado para divulgar o Congresso do Partido Nazi, realizado em 1934, em Nuremberga, o próprio filme é uma encenação do poder. O presente excerto é, a diversos títulos, exemplar e arrasador: pela assunção do protagonista político como ator; pela moldagem da multidão, como corpo coletivo, interlocutor, cenário e público; pela invisibilidade dos bastidores. Em suma, a arte do espectáculo político no seu cúmulo.

Sociologia sem palavras 15. A encenação do poder. Leni Riefenstahl, O Triunfo da Vontade, 1935. Excerto.

A encenação do poder não é exclusiva dos regimes totalitários. Está omnipresente nas sociedades democráticas. De um modo concentrado e de um modo difuso (Debor, Guy, La Société du Spectacle, Paris, Buchet/Chastel, 1967). Recordo um episódio pautado por uma enorme carga emocional e simbólica. Em Maio de 1981, François Mitterrand vence as eleições presidenciais francesas. O momento mais mediático da cerimónia de investidura teve como palco o Panthéon. A meio da rua Soufflot, Mitterrand desprende-se da multidão e dirige-se para o Panthéon, só, apenas acompanhado pela nona sinfonia de Beethoven, interpretada ao vivo pela Orquestra de Paris. No interior do Panthéon, sempre rigorosamente só (acompanhado pelas câmaras de televisão em directo), coloca uma rosa sobre os túmulos de Jean Moulin, herói da resistência, e de Jean Jaurès, figura histórica do socialismo. De regresso à rua, sempre só, é aclamado pela multidão. Pode-se aceder a uma reportagem televisiva do próprio dia [o episódio do Panthéon inicia no minuto 3:10] no seguinte endereço: http://www.ina.fr/video/DVC8108256301. Sobre o modo como foi concebido e conduzido este evento resulta deveras esclarecedor o make-of, publicado dez anos depois.

Marc Van Dessel. Les roses du Panthéon. 1991

Hitler e Mitterrand pouco têm em comum. Mitterrand lutou, aliás, na resistência contra a ocupação nazi. Não obstante, salvaguardados os enquadramentos, as proporções e as motivações, estes dois episódios partilham alguns atributos. Ambos os leaders se destacam da multidão. Fazem um longo percurso solitário a pé (Hitler acompanhado, sempre à frente, por Himmler e Lutze). Prestam homenagem aos mortos gloriosos. Regressam à multidão que lhes expressa lealdade. Ambos os rituais simulam uma prova e promovem uma figura: o leader (quase) solitário herdeiro de uma nação.