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Sociedade de choque

Emmaus

Isto de chocar e ser chocado tem que se lhe diga. Nos circos romanos, o choque era colectivo. Os bobos destacavam-se na arte de chocar. Há meio século, o choque banalizou-se. Chocam as mini-saias, os hippies, a pornografia, os escândalos, o preço do petróleo e a ida à lua. Mais os filmes “eventualmente chocantes” como Laranja Mecânica, A Grande Farra, O Último Tango em Paris ou O Exorcista. Mas, no cômputo global, as pessoas chocavam-se relativamente pouco. Hoje, chocamos sem pausa. Há algumas décadas, a Benetton dizia chique com choque; agora, tudo se manifesta impactante. Um noticiário sem novidades, reportagens, entrevistas e comentários chocantes atravessa uma flat season. A Internet enreda-se em mensagens chocantes. Os políticos, os movimentos sociais e os publicitários não olham a meios para criar impacto, ou seja, para nos chocar e sensibilizar. Já não somos como o “rei pasmado” de Gonzalo Torrente Ballester. Todos temos direito ao choque! Andamos abalados, quando não achocalhados.

Anunciante: Emmaüs. Título: Article 13 – L’horreur ne prend jamais de vacances. França, Julho 2017.

O anúncio L’horreur ne prend jamais de vacances, do movimento Emmaüs, pretende chocar:  “parce que l’horreur ne prend pas de vacances. Une campagne choc d’#Emmaüs pour la liberté de circulation”. Consegue-o, de uma forma surpreendente: centenas de presumíveis “cadáveres” testemunham a tragédia dos refugiados, não obstante o artigo 13º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: 1) Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. 2) Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.

supertramp Crisis

O anúncio da Emmaüs lembra o expressionismo alemão: os banhistas, banais, estão cercados pela morte. Lembra, também, a capa do álbum Crisis What Crisis (1975) dos Supertramp. Com a imagem da capa, segue a primeira faixa do álbum: Easy Does It.

Supertramp. Easy does it. Crisis What Crisis. 1975.

O trunfo do amor

Vintage Valentine_s Day cards all came from RiptheSkull on Flickr.

Vintage Valentine_s Day cards all came from RiptheSkull on Flickr.

Regresso ao vício: a publicidade. As grandes marcas monopolizam a economia e, eventualmente, a política. Não basta, querem também monopolizar o coração. Os dois anúncios da McDonald’s ilustram um pressentimento antigo: para assegurar adesão e emoção, nada como uma história bem contada, com crianças, velhos ou animais. Há anos que a McDonald’s aposta na afectividade e na ternura. O trunfo do amor.

Mais ou menos a despropósito, acrescento duas canções populares (ao gosto do povo) de Michel Sardou; La Maladie d’Amour (1973) e En Chantant (1978).

Marca: McDonald’s. Título: La porte. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Louis Sutherland. França, Julho 2017.

Marca: McDonald’s. Título: Grand-père. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Martin Werner. França, Julho 2017.

Michel Sardou. La Maladie d’Amour. La Maladie d’Amour. 1973.

Michel Sardou. En Chantant. Je Vole. 1978.

Não somos grande coisa

Há momentos em que dou por mim a pensar com o coração.

Ronsard“Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie”
(Pierre de Ronsard, Sonnets pour Hélène, 1578)

“Crois celui qui peut croire
Moi, j’ai besoin d’espoir
Sinon je ne suis rien
Ou bien si peu de chose
C’est mon amie la rose
Qui l’a dit hier matin”
(Cecile Caulier, Jacques Lacome)

Françoise Hardy. Mon amie la rose. Mon amie la rose. 1964. Na televisão em 1965.

Letra:

On est bien peu de chose
Et mon amie la rose
Me l’a dit ce matin
A l’aurore je suis née
Baptisée de rosée
Je me suis épanouie
Heureuse et amoureuse
Aux rayons du soleil
Me suis fermée la nuit
Me suis réveillée vieille

Pourtant j’étais très belle
Oui, j’étais la plus belle
Des fleurs de ton jardin

On est bien peu de chose
Et mon amie la rose
Me l’a dit ce matin
Vois le dieu qui m’a faite
Me fait courber la tête
Et je sens que je tombe
Et je sens que je tombe
Mon cœur est presque nu
J’ai le pied dans la tombe
Déjà je ne suis plus

Tu m’admirais hier
Et je serai poussière
Pour toujours demain

On est bien peu de chose
Et mon amie la rose
Est morte ce matin
La lune cette nuit
A veillé mon amie
Moi en rêve j’ai vu
Eblouissante et nue
Son âme qui dansait
Bien au-delà des nues
Et qui me souriait

Crois celui qui peut croire
Moi, j’ai besoin d’espoir
Sinon je ne suis rien

Ou bien si peu de chose
C’est mon amie la rose
Qui l’a dit hier matin

O Clube Pepsi-Cola.

O anúncio Vending Machine, da Pepsi, é uma paródia do filme Clube dos Poetas Mortos (1989). No final do anúncio ocorre, à boa maneira das paródias, um deslocamento, que subverte o original: a solidariedade oferece-se às avessas; e os membros do novo clube não bebem poesia, mas Pepsi-Cola.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Pepsi. Vending Machine. 2000.

Marca: Pepsi-Cola. Título: Vending Machine. Agência: CLM & BBDO. Direcção: Kinka Usher. França, 2000.

Amor ferroviário

Claude Monet, The Gare Saint-Lazare (or Interior View of the Gare Saint-Lazare, the Auteuil Line), 1877

Claude Monet, The Gare Saint-Lazare (or Interior View of the Gare Saint-Lazare, the Auteuil Line), 1877.

“Se uma pessoa mora perto de uma gare, isso muda completamente a vida. Tem-se a impressão de estar de passagem. Nada é definitivo. Um dia ou outro, sobe-se para um comboio. São os bairros abertos ao futuro” (Modiano, Patrick, 2002, La Petite Bijou, Paris, Gallimard).

O anúncio Timeless, da Lacoste, centra-se na viagem atribulada, de comboio, de dois jovens rumo um ao outro. Partindo dos anos trinta, data da criação da Lacoste, cada carruagem representa uma década. Mudam-se os tempos, mudam-se as carruagens, mas os polos Lacoste permanecem os mesmos.

– Acredita no amor?
– Acredita no amor à primeira vista?
– Acredita no amor entre pessoas de diferente sexo?

O anúncio Timeless lembra a caravela capaz de navegar contra o vento. A Lacoste não só aposta em amores mediaticamente obsoletos, como insiste na mesma imagem de marca: um homem desportivo, elegante e delicado, que gosta de mulheres. A Lacoste não percebe que a sexualidade não é o que era; até ter filhos está fora de moda. O pessoal da Lacoste e da BETC deviam ver mais publicidade. Não é verdade?

Basta de ironias! À semelhança do The Big Leap (https://tendimag.com/2014/02/12/a-incomensuravel-leveza-do-beijo/), o Timeless, da Lacoste, é um anúncio extraordinário!

Marca: Lacoste. Título: Timeless. Agência: BETC Paris. Direcção: Seb Edwards. França, Maio 2017.

A Super Avó

Mai 1968

Paris. Maio 1968

“Sejam realistas, peçam o impossível” (slogan de Maio 1968). Já não sou realista; contento-me com o desejável. Se rir é apanágio do homem (François Rabelais), partilhar é próprio de todos os animais, incluindo o homem. Dê, mas olhe a quem! Para salvar vidas, não precisa dos poderes da Super Avó (Super Gran), A fazer fé na Cruz Vermelha Francesa, basta vontade e dinheiro.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência : Altmann + Pacreau. Direcção : David Bertram. Junho 2017.

Super Gran. Reino Unido, 1985-1987.

Monstruosidade ready-made

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Uma pessoa severamente queimada convive naturalmente com as pessoas que participam no Halloween, o dia em que a exclusão, as diferenças e os estigmas se apagam. Por um dia, o protagonista é uma imitação de si mesmo. Halloween, da Burns and Smiles, é um anúncio excelente com uma duração e um ritmo que permitem o afloramento de uma velha questão: afinal, quem são os monstros? Questão abordada, por exemplo, por Victor Hugo (Notre Dame de Paris, 1831), Tod Browning (Freaks, 1932) ou David Lynch (The Elephant Man, 1980).

Anunciante: Burns and Smiles. Título: Halloween. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Nicolas Galoux. França, Dezembro 2016.

Sermão de Joana d’Arc às pombas

Sauvez la France

Lá vai uma, lá vão duas, três pombas a descansar
Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a agarrar
(José Afonso, Avenida de Angola, 1970).

Sauvez la France é um anúncio contra a abstenção nas eleições presidenciais francesas do dia 23 de Abril de 2017. Convoca o sentimento de identidade nacional. Mas, que identidade nacional? Que versão? Partilhada por que segmento da população? Existem várias interpretações da identidade nacional francesa. Não o admitir significa esquecer a história do país, atrofiar o presente e não estar preparado para o futuro. “Salvar a França”, de quê e de quem? Do voto? Do “inimigo interno”? Dos próprios franceses?

Este anúncio combate a abstenção. É empolgante. É também ideologicamente implicado (engagé). Reconheço-me na imagem da França veiculada pelo anúncio. Mas não ignoro que uma parte muito expressiva dos cidadãos franceses não se revê em algumas das frases compiladas. Duvido, cada vez mais, que alguém ganhe em se apoderar de uma identidade nacional. Quando pensa que ganha, já está a perder. As últimas frases vêm na crista da onda do texto; são cativantes, mas falsas. Se existe tanta gente empenhada em jardinar as identidades nacionais, é porque a horta rende.

Anunciante: Collectif Sauvez la France. Título: Sauvez la France. França, Abril 2017.

José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

Os Indígenas do Paraíso Perdido

Mongólia

Uma bela natureza num belo filme. Todos ansiamos pelo paraíso perdido. Para os lados da Mongólia, existem dois indígenas munidos de instagram para salvaguarda ecológica. Lembram os “embaixadores” das colónias na Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, o álbum Tintin no Gongo, o livro A Nação nas malhas da sua identidade, de Luís Cunha, e o filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Águas passadas movem moinhos; a nossa atracção pelo genuíno, pelo outro idealizado, também. A figura do indígena guardião da natureza, que com ela quase se confunde, é recorrente na publicidade.

Marca: Crosscall. Título: Nature’s eyes. Agência: Leo Burnett. Direcção: Fabien Ecochard. França, Março 2017.

A Grande Exposição do Mundo Português (1940). Realizador: António Lopes Ribeiro.

Do avesso

Assembly Anchor

Promover o leite deste jeito é, no mínimo, original. Um vídeo intertextual com imagem a preto e branco. Às vezes, parece arte. E para namorar a arte, é preciso talento.

Marca: Anchor. Título : Inside-out. Agência : Colenso BBDO (Auckland). Nova Zelândia, Abril 2017.