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Sementes em pó

MDOC Melgaço. Preparação de 2021. Agosto 2020. Via Zé Gomes.

Respeitando as recomendações das autoridades, o MDOC , Festival Internacional de Documentário de Melgaço, não se realizou este ano. Ocorrerá no próximo. Habituei-me a participar no Festival, em particular no ritual da visita guiada ao Espaço Memória e Fronteira. Para enganar a saudade, colhi na página dos  Filmes do Homem meia dúzia de fotografias.

Os dias enrolam-se como num moinho de café. Entram sementes e sai pó. O tempo também tem destas artes. Em 2014, estas fotografias eram um desconsolo: “coitado de mim”. Hoje, passados seis anos, reconsidero: “afinal, não estava assim tão mal; as de costas, até favorecem”. Importa navegar. As memórias não são velas mas ventos. Os tais ventos que movem moinhos, moinhos que transformam as sementes em pó.

O vício de viver e o canto do cisne

Instalação Anjos. Exposição Vertigens do Barroco em Jerónimo Baía e na Actualidade. Mosteiro de Tibães. 2007.

A distância mais curta entre a moto e o prazer não é a linha reta mas a curva! (Renard Argenté).

O direito e o retorcido, o sedentário e o nómada, o previsível e o errático, as formas que pesam e as formas que voam (Eugenio D’Ors), o conforme e o disforme, a norma e o desvio constituem oposições que alicerçam o nosso imaginário, contrapondo o clássico ao barroco. Inspiram, naturalmente, a publicidade.

Em 2007, fiz uma comunicação sobre o barroco na publicidade de automóveis (capítulo quarto do livro Vertigens. Para uma Sociologia da Perversidade, livro acessível em:  https://core.ac.uk/download/pdf/229419944.pdf). Em 2009, complementei com uma comunicação sobre o barroco na publicidade em geral (pdf acessível em https://tendimag.files.wordpress.com/2020/03/albertino-gonc3a7alves.-como-nunca-ninguc3a9m-viu.-imagem-e-pensamento-2.pdf). Cada comunicação foi acompanhada por um vídeo, respetivamente, O meu carro é barroco (versão original no fim do artigo) e O origami mágico (https://tendimag.com/2020/03/13/licao-imaterial/). Gosto destes textos. São o meu canto do cisne.

Marca: Honda Motos. Título: Inexplicável. Agência: Publicis Brasil. Brasil, Julho 2020.

O anúncio brasileiro Dia do Motociclista, da Honda Motos, tem um andar barroco:

“O que se passa na sua cabeça? Você já deve ter ouvido essa pergunta antes. Por quê escolher o vento e não o conforto do ar condicionado? Trocar uma música pelo ronco do motor. Como alguém pode ignorar o GPS e ir pela estrada mais longa? O que se passa na sua cabeça? Na verdade é que não tem como explicar o inexplicável. Faz parte da nossa natureza, de quem a gente é.”

Marca: Citroen C Crosser. Título: New Road. Agência: H Paris. Direção: NoBrain. França, 2007.

Cavaleiro do asfalto, blouson noir, hell’s angel, a figura do motociclista, isolado ou em tribo, é um alfobre de símbolos. Correm no outro lado da rua. Abundam os anúncios com este discurso barroco. Recordo o anúncio New Road, da Citroen. Um condutor aborrece-se numa estrada plana e recta. Insatisfeito, amarrota um mapa sobre o capot. Por magia, irrompem montanhas e a estrada contorce-se. Adivinham-se quilómetros de curvas e contracurvas a subir e a descer montanhas. O condutor agradece: a emoção vence o tédio.

Albertino Gonçalves. O meu carro é barroco. 2007.

Palavra de criança

Auguste Rodin. Le Sommeil. 1894.

É considerada uma das peças mais originais do escultor francês Auguste Rodin (1814-1917). O artista usou um busto feminino de terracota como ponto de partida e recriou-o com gesso, argila, pasta de papel, cera e pregos . O cabelo está coberto de vários tipos de cera, que lhe dão diversos tons amarelados. A pele está impregnada de pequenos pregos, dando o efeito de pigmentação.

Esta obra, executada em 1894, de um realismo impressionante, retrata uma jovem em sono profundo, numa pose que sugere ter adormecido numa meditação relaxante, típica das técnicas orientais (O Sono de Auguste Rodin: http://www.isleep.pt/sono-auguste-rodin/).

Em tempo de pandemia, a brasileira Bradesco Saúde produz vários anúncios de homenagem aos profissionais de saúde (ver “Fascinação”: https://tendimag.com/2020/05/22/cuidados-de-saude/). Em “Décadas”, as crianças idolatram uma profissão por década: 1940s, piloto de avião; 1950s, cantor de rock; 1960s, astronauta; 1970s, jogador de futebol; 1980s, piloto de corrida; 1990s, jogador de basquetebol; 2000s, bombeiro; 2010s, atleta; e 2020s, “médico ou enfermeira”. A verdade das crianças é, como se sabe, a mais verdadeira.

“Durante toda a história da humanidade, acho que sempre existiram atividades ou profissões que inspiraram as crianças em determinado momento. E é nítido que, agora, são os médicos e profissionais de saúde que têm cativado e encantado a todos pela coragem, dedicação e importância social. Acho um insight muito bacana que se materializou num lindo filme, com roteiro e execução impecáveis” (Pernil, ECD da AlmapBBDO; https://www.bradescoseguros.com.br/clientes/noticias/noticia/profissionais-de-saude-ganham-mais-uma-homenagem-bradesco-saude).

Marca: Bradesco Saúde. Título: Décadas. Agência: AlmapBBDO. Brasil, Junho 2020.

Regressão

Chairs. Photography. Black & White.

Olho para um lado, cadeiras vazias. Para o outro, mais cadeiras vazias. As cadeiras em que gostava de me sentar ao colo.

Don McLean. Empty chairs. American Pie. 1971.
Léo Ferré. Avec le temps. Avec le Temps. 1972.

Vitalidade

Gosto de filmes de animação com animais. Os esquilos são excelentes actores. No anúncio Écureuil, da Vittel, um esquilo voa para encestar bolotas.

Marca: Vittel. Título: Écureuil. Agência: Ogilvy (Paris). Vincent Lobelle. França, Julho 2020.

Memória reincidente

Jean-Michel Folon. Lily aime moi. 1975.

Há longos anos que o genérico de fecho de emissão da Antenne 2 me enternece. Com desenhos de Jean-Michel Folon (1934-2005) e música de Michel Colombier (1939-2004). Memória reincidente. Folhas soltas. Salpicos numa liquidez pasmada. Uma leveza de espírito que enfia a cabeça nas nuvens.

Uma obra-prima nunca está acabada. Inspira e inspira. Sucede com a música Emmanuel, de Michel Colombier. Gosto da versão de Toots Thielemans (1922-2016), um dos melhores tocadores de harmónica de boca do século XX.

Sessenta e um anos deste mundo. O triplo da idade em que me encantei com o genérico da Antenne 2. Agradeço a amizade. Um dia havemos de voar juntos como os homenzinhos de Folon.

Genérico da Antenne 2. Desenhos de Jean-Michel Folon e Música (Emmanuel) de Michel Colombier. França, anos setenta.
Emmanuel. Música de Michel Colombier (Wings, 1971). Versão de Toots Thielemans. Colombier Dreams, 2002.

A sério

UNESCO

L’UNESCO lance une campagne mondiale pour interroger notre perception de la normalité. Le film de 2’20” s’appuie sur une succession de faits marquants sur la situation dans le monde avant et pendant la pandémie de la Covid-19. Ensemble, ces faits remettent en question nos idées préconçues sur ce qui est “normal”, et suggère que nous avons toléré l’inacceptable depuis trop longtemps. Il est temps d’un vrai changement. Et tout commence par l’éducation, la science, la culture et l’information (UNESCO).

Uma pessoa que diz coisas sérias não ri! O sério é sisudo e o riso, tonto. Imagine alguém a comunicar assuntos sérios às gargalhadas! O sério não ri, assim é desde o barro genético. O anúncio Le Prochain Normal, da UNESCO, aborda assuntos graves da humanidade. O que consideramos normal? Perguntas sérias, muito sérias. Até o formato do anúncio é sacrificial. Como rir num mundo tão sério? O riso é um acto de humor nas suas origens e um acto sério nas suas consequências.

Anunciante : UNESCO. Título : Le Prochain Normal. DDB (Paris). França, Junho 2020.

O consumo da violência

A violência sempre acompanhou o homem. Diz-se que é bíblica. Uma égua do apocalipse. Ambivalente, provoca atração e repulsa. Não desejamos ser nem carrascos nem vítimas, mas assistimos ao espectáculo. A violência é ubíqua: aparece nos ecrãs, nas estradas, nas manifestações, nos atentados, nos tiroteios, na escola, no desporto e, até, dentro de casa. Ambivalentes e ambíguos, proibimos um anúncio com uma menina sentada numa ferrovia mas facilitamos o acesso às armas. Nos ecrãs, convivemos mais facilmente com a violência do que com o tabaco: nos livros e nas séries do Lucky Luke, a palhinha não substitui a pistola mas o cigarro. Maná ecránico, a publicidade encena e parodia a violência, em princípio gratuita, mas, presumivelmente, com custos.

Apetece “virar o bico ao prego”. Abraçar a contradição. Nos anos sessenta, apreciava-se os filmes violentos. As pessoas riam com as cenas violentas dos filmes Péplum (e.g., Hércules), de terror (e.g., O Exorcista, 1973), de guerra (e.g., O dia mais longo, 1962) ou western (e.g., Trinitá, cowboy insolente, 1970; o filme é italiano, bem como os actores Terence Hill e Bud Spencer). No entanto, nenhum dos meus amigos se tornou serial killer. Autores como Georg F. W. Hegel, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Georges Bataille ou Lewis A. Coser consideram a violência fundacional e funcional. Na Idade Média, acreditava-se que a contenção excessiva da violência podia desembocar numa explosão de violência. Recomenda-se a catarse, a excitação (Norbert Elias) e a homeopatia (Michel Maffesoli). A violência existe, mas coloquem um filtro, um véu ou óculos para não se ofuscar.

Marca: Fox Sports. Título: We are all superstars. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Outubro 2019.
Marca: CANAL +. Título: Mission really impossible. Agência: BETC Paris. França, Maio 2019.

Os pinguins vão ao museu

The Nelson-Atkins Museum of Art. Penguins. 2020

Aprumados e desajeitados, animados ou ao natural, os pinguins são vedetas na publicidade. No anúncio Penguins, do Nelson-Atkins Museum of Art , a família pinguim visita o museu. Um tema esdrúxulo, mas a excentricidade, inspirada, compensa. Os pinguins deslocam-se, desafiados por tanta informação invulgar. O vídeo foca o “tornozelo” de uma pintura gigantesca de Monet (O tríptico Water Lilies) e exibe,  na íntegra, o São João Baptista no Deserto, de Caravaggio. Consta que os pinguins preferiram o São João, de Caravaggio, aos nenúfares, de Monet.

Marca: The Nelson-Atkins Museum of Art. Título: Penguins. Estados-Unidos, Maio 2020.

“We are so happy to welcome our colleagues from the zoo,” said Julián Zugazagoitia, the director of the Nelson-Atkins Museum of Art in Kansas City, Missouri, in a video posted by the museum. And who were these colleagues in question? None other than a family of Peruvian penguins who were brought along for a day trip to the museum to shake things up because, as the zoo-director Randy Wisthoff put it, the zoo’s temporary shuttering has caused the animals to “really miss having visitors come out and see them”, leaving zoo officials to find new, creative ways to provide the animals with stimulation. Zugazagoitia, who is originally from Mexico City, noted that “these are Peruvian penguins so we were speaking to them in Spanish, and they really appreciated art history.” Zugazagoitia also added that the avian museum-goers “seemed definitely to react much better to Caravaggio than to Monet.” So while these birds may not be able to fly, they certainly have taste (The Art Newspaper: https://www.theartnewspaper.com/video/these-kansas-city-penguins-took-a-field-trip-to-the-nelson-atkins-museum-and-preferred-caravaggio-over-monet)

Acrescento um trailer do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Trailer oficial do filme/documentário La Marche de l’Empéreur (2005).

Outras músicas

Música. Instrumentos medievais

Um amigo recomendou-me « La bourrée d’Avignon », interpretada pelo ensemble “Le banquet du Roy”.  Impressionou-me a diversidade e o encadeamento dos instrumentos de sopro. Acrescento a música “Improvisation sur la Spagnoletta”, interpretada pelo mesmo grupo.

O ensemble “Le banquet du Roy” interpreta “La bourrée d’Avignon”, peça coligida por Philidor l’Aisné , no séc. XVII. Gravada no palácio de Blois em 2014.
O ensemble “Le banquet du Roy” interpreta “Improvisation sur la Spagnoletta”, de Michael Praetorius (1571-1621). Gravada no palácio de Blois em 2014.