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Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

A aranha e a mosca

MM-ART. La mouche

MM-ART

Fala-se pouco das sociedades secretas, mas existem. Com proveniências e poderes diversos, as sociedades secretas conjugam efeito e proveito. Garantes da desigualdade, os seus membros dispõem de recursos que os outros concidadãos nem sonham. São redes de dependência pessoal seletivamente performativas, mais invisíveis do que as teias de aranha: “um certo modo de processamento da desigualdade” (Balandier, Georges, “Les relations de dépendance personnelle”, Cahiers d’Études Africaines, Année 1969, 35, pp. 345-349). Dan Brown dedicou-lhes vários livros. Por seu turno, a McDonnells dedica-lhes um anúncio: Chippus Currius. Entretanto, enredamo-nos como moscas tontas.

Marca: McDonnells. Título: Chippus Currius. Agência: Boys + Girls. Direcção: Chris Cottam. Irlanda, Setembro 2018.

O Tendências do Imaginário não tem nenhuma canção dos Les Compagnons de la Chanson. Uma falha.Ainda se vai a tempo. La Mouche não é um dos seus maiores sucessos, mas tem a virtude de falar, com bom humor, da nossa relação com as moscas.

Les Compagnons de la Chanson. La Mouche. Live à l’Olympia. 1983.

 

Como lavar as mãos sem água

Garnier

Começaram as aulas. Tocam os sinos nas caixas cranianas. Aleluia! Mais uma peregrinação ao Evereste. Para sentir “um pouco de céu”, como canta a Mafalda Veiga (https://www.youtube.com/watch?v=zQ6LuAHQzEE)! Voam e caem as palavras, como anjos brancos e negros. O ensino é uma missão bíblica. Abrir todos os dias o mar Vermelho. Nas aulas ecoa, porém, a mesma nota discordante: a aprendizagem a tender para zero e a evasão para o infinito.

O anúncio Tutorial, da UNICEF, é um caso à parte. Como é apanágio do diretor, Bruno Aveillan, as imagens são de um apuro estético supremo. Mas o conteúdo não desmerece, é um assombro de comunicação. As crianças esfregam e esfregam as mãos, mas as mãos continuam sujas. Como a nossa consciência.

Vem este devaneio a propósito da UNICEF. A pedagoga da humanidade. Acaba de sair o anúncio da Goodwill: Get it. Uma encenação barroca. Contrasta com o despojamento trágico do anúncio Tutorial da UNICEF. Na vida, como nas aulas, a teoria não basta.

Marca: Goodwill. Título: Get it. Agência: Digitas. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: UNICEF & Garnier. Título: Tutorial. Agência: Buzzman. Direcção: Bruno Aveillan. França, Abril 2017.

 

Imaginário Dior

Dior Espelho

Menino e moço, entretinha-me com os passatempos dos jornais: palavras cruzadas, as sete diferenças, o enigma policial… Dividia a missão com a minha tia, cujo vício superava o meu. Ainda não há jornal que lhe escape. Nunca perdi este enlevo pelos passatempos. Quando não os encontro, invento-os. Por que não descobrir as sete semelhanças, ou homologias, numa série de anúncios de marca?

Saiu, há dias, um anúncio da Dior: Joy (A), o mais recente de uma extensa produção. Proponho uma breve comparação com três anúncios congéneres da Dior: B – Addicted Fragrance (2014); C- The Future is Gold (2015); D- The Absolute Femininity (2016). Os tópicos retidos são os seguintes:

1 – Opção por um ambiente específico;
2 – Eleição de um elemento;
3 – Recurso ao fabuloso
4 – Relevância de um gesto
5 – Transição entre mundos
6- Presença de uma diva
7- Emergência de uma aura.

No anúncio Joy (A), o ambiente é uma piscina (1) situada no topo de um prédio. A água é o elemento preponderante (2). Na água, o efeito da roupa evoca uma sereia (3), que transita, com mergulhos sucessivos, entre dois mundos: o sólido e o líquido (5). Na parte final, a roupa solta-se (4) e a protagonista assume-se como mulher de corpo inteiro. A figura feminina não se reduz a uma mulher bela nem tão pouco a uma mulher objecto, é uma diva (6), uma diva da moda e da publicidade, com uma aura (7) cujo perfume transborda do ecrã para público. Cumpre-lhe incorporar e, eventualmente, divinizar as diversas componentes do anúncio. A modelo é Jennifer Lawrence.

Na tabela seguinte, contemplamos os três anúncios restantes (para melhor visualização, carregue na imagem com a tabela).

Imaginário Dior

Fraco passatempo aquele que termina tão depressa. Existem inúmeras informações nos quatro anúncios da Dior que escapam a este esquema. Por exemplo, na parte final do anúncio Addict Fragrance, a figura feminina mantém-se em pose de costas para o espelho; lembra as estátuas das poderosas vestais romanas, as mulheres mais desejáveis e mais inacessíveis de todo o Império. Por seu turno, no anúncio The future is gold, a ascensão lembra a Glória de Santo Inácio, na cúpula da Igreja de Santo Inácio, em Roma. Intertextualidades!

É compensador fazer coisas que parecem fáceis!

Marca: Dior. Título: Joy by Dior. Agência: Dior Inhouse USA.  Direcção: Francis Lawrence. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Dior. Título: Addict Fragrance. 2014.

Marca: Dior. Título: The Future is Gold. Direcção: Jean Baptiste Mondino. Internacional, 2014.

Marca: Dior. Título: The Absolute Femininity. 2016.

Autodestruição

Roland Topor. Liberté d'expression. Amnestia Internacional. 1977

01. Roland Topor. Liberté d’expression. Amnestia Internacional. 1977.

Hoje apetece-me conversar. Uma pausa na escrita solitária. Não sei se reparaste na gravura do Roland Topor no artigo anterior (Com uma pequena ajuda da morte)… Nem sequer viste o artigo. É natural. Não queres dar uma espreitadela? Eu fico aqui à espera. Não te apetece? Também não se perde nada.

Viste o filme O Tambor? É daqueles filmes de culto em que saímos da sala de cinema indispostos. Curiosamente, Roland Topor desenhou um dos cartazes do filme.

THE TIN DRUM French Movie Poster

02. Roland Topor. O Tambor. Cartaz francês do filme. 1979

Roland Topor pertence ao rol de artistas cuja obra é mais famosa do que o autor. Em 1977, desenhou um cartaz, contra a censura, para a Amnistia Internacional. O desenho de Roland Topor é um ícone do imaginário do último meio século. Cerca de dez anos mais tarde, o desenho preenche a parede de um prédio em Maastricht.

Mural by Ronald Topor, 1988, located at Tongersestraat, Maastricht, The Netherlands.

03.Mural por Ronald Topor. Maastricht. 1988.

Parte da obra surrealista de Roland Topor é considerada “autodestrutiva”. Poucos traços e muita corrosão, à semelhança dos desenhos seguintes.

Para ter uma noção do que pode ser uma obra autodestrutiva, sintoniza o teu cérebro com o meu. Recorda a gravura Mãos desenhando (1948), de M.C. Escher. Agora, imagina comigo! As mãos de Escher, em vez de se desenharem mutuamente, estão a apagar-se uma à outra! Isto é autodestruição.

M.C. Escher. Mãos. 1948.

07. M.C. Escher. Mãos. 1948.

Soube-me bem imaginar contigo. Imaginação criadora sobre a autodestruição.

Com uma pequena ajuda da morte

 

Roland Topor (Français, 1938.2997. Autoportrait présumé à la faucheuse

Roland Topor (Français, 1938.1997. Autoportrait présumé à la faucheuse.

“A mais bela artimanha do diabo consiste em vos persuadir que ele não existe” (Baudelaire, Charles, O Spleen de Paris, 1869).

“Agora e na hora da nossa morte”, não é nada fácil afastar a ceifeira. Ela insiste. Não há cabelo nem carne que lhe escapem.A não ser que a mandemos trabalhar por nós, temporariamente, noutras ceifas. Não são as manhas do demo, são as manhas da vida. Neste anúncio francês, que lembra um cartoon, a paisagem, a ceifa e a história parecem portuguesas do Alentejo.

Marca: VediorBis. Título: La faucheuse. Produção: Blue Martyn. Direcção: ELVIS. França, 2004.

A última vontade

Serge Reggiani

Serge Reggiani

Gosto de ouvir música enquanto leio ou escrevo. Propicia uma atmosfera balsâmica. Distraio-me a compor ramalhetes musicais para consumo futuro. Hoje é a vez de Serge Reggiani. No meu panteão da “canção” francesa, está ao lado do Jacques Brel ou do Léo Ferré. Cantam, antes de mais, poemas, poemas sobre a humanidade. Poemas para a humanidade. Poemas que dão a um homem vontade de o ser.

Para a “lista” do Serge Reggiani, retive três canções já publicadas, isoladamente, no Tendências do Imaginário: Sarah; Le temps qui reste; e Ma liberté. Acrescento: Ma dernière volonté; Ma solitude; e Il suffirait de presque rien.

A maioria das pessoas não aprecia este tipo de música, ademais em francês. Mas quem gosta gosta mesmo. Tem direito ao prazer! No que me respeita, a canção Ma dernière volonté é um caso sério: quase me rouba a identidade antes de ela existir.

1. Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

2. Serge Reggiani. Ma Solitude. Album nº 2. Letra e música de Georges Moustaki.

3. Serge Reggiani. Ma liberté. Album nº 2. Composta por Georges Moustaki. 1967.

4. Serge Reggiani. Il suffirait de presque rien. Et Plus. 1968.

5. Serge Reggiani Ma derniere volonte. Venise n’est pas en Italie. 1977.

6. Serge Regianni. Le temps qui reste. Long Box Serge Reggiani. 2004.

 

Divórcio

Renault

O divórcio é, curiosamente, assunto omisso no Tendências do Imaginário. Em Portugal, em 2016, houve 69 divórcios para 100 casamentos (Pordata). “Em França, cerca de um em cada dois casamentos termina em divórcio” (https://www.huffingtonpost.fr/2013/08/13/etude-freres-soeurs-impact-risque-divorce_n_3749287.html). A condição de divorciado tornou-se numa nova idade da vida. No anúncio As unexpected as life, da Renault, um carro trespassa uma série de painéis publicitários, tantos quantos os modelos da Renault e as idades da vida. Neste anúncio, a separação é politicamente correcta: ele fica com o automóvel e ela com uma companheira.

Marca: Renault. Título: As unexpected as lif. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Martin Werner. França, Fevereiro 2017.

Nas breves pesquisas que fiz na Internet, não encontrei o que procurava: “quocientes de divorcialidade”. Pelo caminho, deparei com vários saberes pitorescos: os casais com partilha de tarefas domésticas divorciam-se mais, bem como quem fez casamentos caros ou teve filhos cedo. Grande parte dos estudos sobre o divórcio debruça-se sobre os filhos. O anúncio Marked for life, da SIRE, recorre às tatuagens para vincar que aquilo que os pais dizem durante o divórcio “marca os filhos para a vida”.

Marca: SIRE. Título: Marked for life. Agência: 181 Amsterdam. Holanda, Maio 2011.

Publicidade sem medo

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É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.

Apagar o inferno

Warframe

Os trailers dos videojogos situam-se na vanguarda do imaginário e da estética contemporâneos. Chamam a si os maiores recursos e os melhores profissionais e criativos. No trailer We All Lift Together, do videojogo Warframe, criaturas, mistos de máquinas e seres humanos, surgem como guerreiros do trabalho, num estaleiro amplo, composto por partes metálicas e partes líquidas.

We All Lift Together. Warframe. Videojogo. Julho 2018.

Ouve-se um coro, um hino. Lembra as canções de resistência. Escolho quatro, uma por país eurolatino do sul: França, Le Chant des Partisans (Yves Montand); Itália, Bella Ciao (Yves Montand); Portugal, Grândola Vila Morena (José Afonso); e Espanha, Si Me Quieres Escrebir (Marina Rosell, a capella).

Chant des Partisans. Intérprete: Yves Montand. França. Resistência, II Guerra Mundial.

Bella Ciao. Intérprete: Yves Montand. Itália. Resistência, II Guerra Mundial.

Grândola Vila Morena. Intérprete: José Afonso. Portugal. Resistência ao fascismo.

Si me quieres escribir. Intérprete: Marina Rosell. Espanha. Resistência, Guerra Civil.