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João Nada

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

Emigrantes portugueses estendem roupa junto às barracas de um estaleiro de construção civil. Região Parisiense. 1970. Fotografia de Gerald Bloncourt.

“Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
“Mas, enfim, temos a opinião e a imprensa confessando que a vida é extremamente difícil em Portugal, e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu País – é abandoná-lo”.

(Eça de Queirós. “O governo e a emigração”. Uma campanha alegre : das farpas. Lisboa. Companhia Nacional Editora, 1890-1891. Vol. I).

Peço desculpa ao mundo, mas vou falar de Portugal. Um cais de partida em que a emigração é uma “constante estrutural” (Vitorino Magalhães Godinho). “Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo” (Padre António Vieira). A “exportação de gado humano” (J. P. de Oliveira Martins) custa mas rende. Mesmo os governos que proíbem a emigração contam com as suas remessas.

A emigração inspirou sermões, romances, poemas, esculturas, pinturas, filmes e músicas. Algumas canções tornaram-se célebres: “Eles. Um canto da emigração” (1968), de Manuel Freire, “Cantar da emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira, ou O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina (ver Música sobre a emigração). Outras mereciam melhor memória.

Quarteto 1111. João Nada. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Domingo em Bidonville. LP Quarteto 1111. 1970.

Quarteto 1111. Partindo-se. EP Balada Para D. Inês. 1967.

Fundado em 1967, o Quarteto 1111, com José Cid e Tozé Brito, foi a referência do pop/rock português dos anos sessenta. Interpretaram várias canções dedicadas à emigração. Retenho “João Nada” e “Domingo em Bidonville”, do álbum Quarteto 1111, editado em 1970; acrescento “Partindo-se”, do EP Balada Para D. Inês, editado em 1967.

Quarteto 1111. João Nada (1970). Ao vivo na Sociedade Portuguesa de Autores. 2016.

Os membros do Quarteto 1111 reuniram-se, em 2016, numa actuação ao vivo, na Sociedade Portuguesa de Autores. Segue o vídeo com a canção “João Nada” (1970).

A utilidade dos bebés

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
(António Gedeão, Pedra Filosofal, excerto, Movimento Perpétuo, 1956).

Deitei-me misantropo, acordei filantropo. Tudo é, agora, amor e água fresca. Carrinhos com bebés, mulheres grávidas e namorados de mãos dadas. Bom augúrio para a natalidade. O anúncio argentino Anti-Mangazo, do Santander Rio, ensina-nos que os bebés são úteis! Revelam-se bons escudos de protecção contra a cobiça alheia.

Marca: Santander Rio. Título Anti-Mangazo. Agência: Santo. Direcção: Diego Kaplan. Argentina, Agosto 2018.

Uma ressonância: a publicidade sonha; o sonho comanda a vida; mas a vida ultrapassa o sonho. No anúncio Anti-Mangazo, a criança é instrumentalizada como estorvo à pedinchice. Na realidade, muitas crianças são instrumentalizadas como suporte às redes organizadas de pedinchice. Embora “a vida seja um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670), convém aterrar, de vez em quando.

Green Windows / José Cid. 20 anos. 1973. Com com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Por falar em crianças, nos anos setenta, a secção de discos das grandes superfícies de Paris contemplavam apenas duas escolhas de música portuguesa: Amália Rodrigues e os 20 anos, de José Cid. Segue a canção, acompanhada com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Tecno-imaginário

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Tecnicidade, religiosidade; funcionalidade, ficcionalidade; potência, sentido; dão as mãos numa sociedade polifónica. A obra de Bruno Aveillan joga com esta espécie de tecno-imaginário (Georges Balandier). São exemplo os anúncios  Attachez vos ceintures, da Sécurité Routière, e Shape your time, da Cartier, ambos com imagens lentas, próprias destas danças.

Marca: Sécurité Routière. Título: Attachez vos ceintures. Agência: La Chose. Direcção: Bruno Aveillan. França, 2017.

Marca: Cartier. Título: Shape your time. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direcção: Bruno Aveillan. França, Julho 2015.

Cegonhas

 

Álvaro Domingues. Bestiário do imobiliário 2

Fotografia de Álvaro Domingues.

“Somos as cegonhas eléctricas (…) No tempo em que as crianças não percebiam nada de sexo e reprodução, o nosso emprego era transportar bebés no bico. Com a quebra da natalidade, as normas de segurança no transporte de crianças e as incubadoras, ficámos sem emprego. O resto adivinha-se: desde que nos tornamos sedentárias metemo-nos a comprar uma casa que não há como pagar. Ficou para o banco. Que se lixe. Sempre que passamos em cima, cagamos nele” (Álvaro Domingues, Bestiário do Imobiliário II. Punkto (https://www.revistapunkto.com/2013/05/bestiario-do-imobiliario-ii-alvaro_3.html).

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo

Cegonha, escultura na Catedral de Estrasburgo.

Os bebés, dizia-se, vinham de França no bico das cegonhas. A cegonha é o símbolo de Estrasburgo. Segundo a lenda, “sob a catedral de Estrasburgo, existia um lago, o Kindelsbrunnen, nome que podia ser traduzido por “poço das crianças”. Neste lago, as almas das crianças por nascer esperavam para vir ao mundo. Um gnomo gentil pegava a alma do recém-nascido com a ajuda de uma rede de ouro e entregava-o, de seguida, à cegonha para que ela pudesse entregá-lo aos pais. Os pais que desejassem um filho deviam colocar alguns pedaços de açúcar no rebordo da sua janela de modo a cativar a cegonha” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Do outro lado da fronteira, na Alemanha, existe uma versão com um teor mais mitológico:

“A cegonha é a mensageira da deusa Holda, encarregada de reincarnar as almas dos defuntos nos nascituros. Nas grutas ou perto de um ponto de água, “elfos” resgatavam as almas das profundezas da terra, que a deusa reincarnava em nascituros que a cegonha levava, em seguida, aos pais” (Pourquoi dit-on que les cigognes apportent les bébés ?: https://www.youtube.com/watch?v=I0cc6K_Lxlc).

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Imagem do filme Cegonhas. 2016.

Com o tempo, os relatos míticos sofrem alterações. No anúncio Cegonha, da Volkswagen, o carro novo é o bebé que a cegonha terá trazido e do qual não se separa. A mulher também parece estar grávida. Conjugam-se assim dois nascimentos: o mecânico e o humano.

Marca: Volkswagen. Título: Cegonha. Agência: AlmapBBDO (São Paulo). Direcção: Claudio Borrelli. Brasil, Julho 2018.

Se me encomendassem um print para acompanhar este anúncio, não andaria longe do seguinte: o carro com fraldas electrónicas, a cegonha no capot em pose de Vitória de Samocrácia; o pai, ao volante, confuso; a mãe, ao lado, como uma Vénus de Willendorf; no banco traseiro, os filhos, mais um lugar vago para a próxima cegonha.

Selfies

Estou a converter-me às selfies. Ouso publicar três. Na primeira, a preferida, levanto-me com um sorriso. É para as candidaturas a artista. A segunda selfie é mais realista: tapo os olhos para não ver o que está à vista de todos. É para os concursos profissionais. Na terceira selfie, estou em pose de contra-ataque; simulo um coice. É para os debates científicos.

Burro pendurado no primeiro pilar da nave da igreja de Saint-Germain d’Argentan, construída entre os séculos XV e XVII. França.

Burro pendurado no primeiro pilar da nave da igreja de Saint-Germain d’Argentan, construída entre os séculos XV e XVII. França.

Burro que cobre os olhos, na Collégiale Saint-Pierre de Saint-Gaudens. Século XIII. França.

Burro que cobre os olhos, na Colegiada Saint-Pierre de Saint-Gaudens. Século XIII. França.

Burro a dar um coice, na Igreja de Notre-Dame des Andelys. Construída em 1225. França.

Burro a dar um coice, na Igreja de Notre-Dame des Andelys. Construída em 1225. França.

Je te salue, Marianne!

Busto de Maria com Brigitte Bardot como modelo.

Busto de Mariana com Brigitte Bardot como modelo.

Nas visualizações do Tendências do Imaginário da última semana (25 de Junho a 1 de Julho), a França ultrapassou Portugal. É uma situação excepcional que promete repetir-se. Se considerarmos o conjunto do mês de Junho, Portugal mantém-se à frente. Estes números vêm dar razão à Helena Amaro: a distribuição das visualizações decalca as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo: Estados Unidos, Brasil, França…

Visualizações Junho 2018

Não deixo, porém, de saudar Mariana. Temos dado à França o melhor que somos. Amália Rodrigues nunca se cansou de cantar no Olympia. Os cantores que anunciaram Abril (Luís Cília, José Afonso, Sérgio Godinho, entre outros) gravaram as suas músicas, por volta dos anos setenta, em França. Grândola Vila Morena foi gravada em França. Desde os anos cinquenta, centenas de milhares de portugueses acudiram ao encanto do galo. Pois bem, continuemos fiéis a nós próprios: dar o que Portugal tem de melhor. Por exemplo, Rodrigo Leão, na língua de Racine.

Rodrigo Leão. La Fête. Cinema, 2004.

Rodrigo Leão. Jeux d’amour. Cinema. 2004.

Nostalgia do Futuro

Ontem, fiz anos! Não fiz nenhuma proeza. Mas faz-se de conta. O importante é o resto. Os anos passam. Mais complicado do que ser velho é envelhecer. Inteirámo-nos, a cada momento, que já não somos quem éramos, nem podemos o que podíamos. Envelhecemos, sem pausas, até ao último momento. É a nossa condição.

“E agora que vou fazer / com todo este tempo que será a minha vida?” (Gilbert Bécaud). Renascer todos os dias? “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida” (Sérgio Godinho). O que fazer? Nada, como de costume, um nada muito bonito. Com o passado a pesar no presente, não dá para andar para trás. Cumpre-nos encarar o futuro até ter saudades:  saudades do futuro sonhado. Equívocos de um  viciado em  palavras.

Agradeço os vossos votos de aniversário. Fizeram-me sentir mais humano. Entre o peso do passado e a nostalgia do futuro, é bom contar com os amigos no presente.

Gilbert Bécaud. Et maintenant. 1962.

Sérgio Godinho. O primeiro dia. Pano-cu. 1978.

 

 

 

Fecundidade

First Time

Este anúncio é vertiginoso. A música e a imagem entrelaçam-se a um ritmo alucinante. Neste anúncio barroco e orgiástico, retenho, a contra-ciclo, o pezinho do bebé. Pelos vistos, os orgasmos também podem ser produtivos. Na realidade, há cada vez mais garrafas de champagne e cada vez menos crianças.

Marca: Moët & Chandon. Título: First Time. Agência: Ogilvy (Paris). Direcção: Manu Cossu. França, Junho 2018.

A plastificação da inteligência

Le vent l’emportera
Tout disparaîtra
Le vent nous portera
(Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001)

A plastificação dos oceanos inspira a publicidade. O anúncio espanhol da CREA, Sin Contaminación, e o anúncio Ocean of the Future, da Greenpeace, são disfóricos. Traçam um retrato cinzento da nossa irresponsabilidade. Para o anúncio Sin Contaminación, não estamos apenas a intoxicar o ambiente, intoxicámo-nos a nós próprios.

Sin contaminación

Marca: CREA. Título: Sin Contaminación. Espanha, Junho 2018.

Marca: Greenpeace. Título: Ocean of the Future. Agência: Ogilvy & Mather (London). Reino Unido, Abril 2018.

A fatrasia, estilo típico da Idade Média, alinha frases sem nexo. Mistura alhos com bugalhos num discurso sem sentido aparente. Gosto da fatrasia. Prefiro a paella ao puré. Por quê acrescentar o vídeo musical Le Vent Nous Portera, dos Noir Désir? Passa-se numa praia. É disfórico e estranho, um “bouquet de nerfs”. É percorrido por um sentimento de ameaça, sem como nem quando. Se isto não é suficiente para justificar o vídeo musical, acrescento que gosto dos Noir Désir! Gostar é o melhor passaporte para qualquer lugar e qualquer viagem.

Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001.

Muitos anúncios do Tendências do Imaginário são filhos da pressa e do desperdício. O anúncio Sin Contaminación, consistente e original, merecia um comentário mais circunstanciado. O mesmo vale para o vídeo Le Vent Nous Portera, um filme subtil, um bom exemplar da canção francesa, com uma letra que se emancipa da estética do belo. Ando sobreocupado a perder tempo. A minha escrita parece o inverso de uma sopa de pedra: um calhou no fundo de um pote sem sombra de acompanhamento. Sem empratamento, sem decoração que disfarce e eufemize o mundo. Surpreendo-me, às vezes, a pintar cenários insensatos: com o vento actual, preocupa-me a plastificação dos oceanos, mas não me preocupa menos a plastificação da inteligência.

A arte de limpar o rabo

Fundação de Serralves. Exposição O Olho do cú. 2006

Fundação de Serralves. Exposição O Olho do cú. 2006.

Escatologia: “utilização ou gosto por expressões ou assuntos relacionados a fezes ou obscenidades” (Dicionário Priberam).

Volta e meia, a escatologia vem ao de cima (ver Política e Escatologia). O anúncio Le Papier, da revista francesa So Foot, é minimalista e escatológico. No domínio da escatologia, a França tem os seus pergaminhos. Nas páginas de François Rabelais, Gargantua escreve ao pai como logrou inventar o melhor modo de limpar o rabo. Pelo meio, elimina dezenas de soluções (ver Obscenidade). Em França, a palavra merde é de uso corrente e, em determinadas circunstâncias, dá sorte. Enfim, se existe palavra gaulesa que percorreu o mundo foi toilettes. A moral do anúncio Le Papier ofusca La Fontaine: na falta de papel higiénico, mais vale rasgar uma fotografia de família do que uma folha da revista So Foot.

Marca: So Foot. Título: Le Papier. Agência: BETC. Direcção: Hafid f. Benamar. França, Junho 2018.