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O post da meia noite

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Meia noite, na parvónia voam em vassouras as teclas de mau agoiro. No ecrã, surge, repescado e apressado, um mini-post.

A citröen é uma referência na publicidade. O povo francês tem sentido de humor, excelentes mimos (e.g. Marcel Marceau), cineastas (e.g. Jacques Tati) e actores (e.g. Fernandel). Este anúncio não renega a tradição.

Marca: Citroen. Título: Bip bip. Agência: H. Direcção: Thorsten Herken. França, 2011.

 

O carro do morto

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Les Très Riches Heures du Duc de Berry, pelos Irmãos Limbourg, activos em França entre 1399 e 1416.

Que mais desejar no momento da partida? Uma boa cerimónia fúnebre, cântico, a presença dos próximos e uma viúva inconsolável, não com despedida do falecido mas com a perda do automóvel. Como última vontade, o falecido conduzirá no além. Um memorável momento de humor macabro.

Com o devido recolhimento, acrescento a canção In the death car (Arizona Dream, 1993), de Goran Bregovic. “In the death car we are alive”.

Marca: Infiniti. Título: Eulogy. Agência: TBWA. Direcção: Joe Pytca. USA, 1997.

Goran Bregovic. In the death car, Arizona Dream, 1993. Ao vivo em Poznan, 1997.

Era uma vez a morte

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William Blake. Death on a pale horse, c 1800.

Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.

Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.

O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.

Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.

Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.

Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.

Doador de energia

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15 minute history is a history podcast from UT Austin. João, queremos um!

As grandes invenções têm efeitos secundários terríveis. Assim aconteceu com a máquina a vapor, assim acontece com o telemóvel (e outras ferramentas de comunicação afins). Perversidades! Não imagino o desconforto de ficar pendurado. Importa controlar e domesticar as máquinas. E recarregá-las! Não há máquinas eternas, nem absolutamente autónomas, nem contra todos os riscos. Para evitar o desespero do protagonista do anúncio The Percent Donor, o mais avisado é fazer a ligação em triplicado, com três telemóveis em simultâneo. Não é por nada, mas grão a grão enche o drama o papo. No caso vertente, o impacto na natalidade pode revelar-se funesto. Ainda bem que existem “doadores” para transfusão imediata de energia.

Marca: Huawei. Título: The percent donor. Agência: Buzzman France. Direcção: Benjamin Bouhana. França, Fevereiro 2017.

Sem remorsos

edith-piafEdith Piaf enternece e emociona; a mulher e a cantora. Seguem três « canções do século XX »: Non, je ne regrette rien (1960) ; La vie en rose (1946); e Milord (1959). Optei pela gravação ao vivo. Acrescentei a letra da canção Non, je ne regrette rien. Vale a pena.

 

Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié, je me fous du passé

Avec mes souvenirs j’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro

Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui ça commence avec toi.

Horror pedagógico

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Hans Von Gesdorff. Field book of surgery. The wounded man. Strasburg. 1528.

De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de  Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:

Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).

Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.

Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!

Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.

The Special One

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Edgar Degas. Arabesque. Modeled 1885-90.

Abordámos, no artigo anterior, o tópico do excluído menosprezado que consegue ascender a uma posição de topo, mediante a superação de uma prova, fantástica ou natural. Cinderela, humilhada pela família e ajudada pelas fadas, dança, calça o sapatinho e casa com o príncipe. Se há arquétipos, este é um arquétipo. Impregna o imaginário, os media e a vida quotidiana. A predestinação ou o chamamento implicam uma travessia, de mau a bom porto, sobressaltada por provas mais ou menos homéricas. A Cinderela e o Patinho Feio trazem à memória a glória dos santos mártires e o exemplo do self made man. The special one and the choosen one legends. O anúncio Ingrid Silva, da Activia, navega nestas águas. “Born in a poor Rio neighborhood, Ingrid Silva became a professional ballerina in New York. She is regarded as one of the world’s best emerging dancers”.

Marca: Activia. Título: Ingrid Silva. Agência: Wunderman Paris. França, Junho 2016.

Tempos negros

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La Mort Saint Innocent. Statue d’Albâtre présente au Cimetière des Innocents (Paris) de 1530 à 1786.

Estou a marinar, desde meados de Outubro, um artigo sobre os transi (esculturas tumulares, dos séculos XV e XVI, com corpos em decomposição, pasto de vermes, sapos e insectos). Antecipo duas imagens: a estátua de alabastro patente, entre 1530 e 1786, no cemitério dos Inocentes, em Paris; e a cabeça de L’Écorché, transi de René de Chalons , por Ligier Richier (ca. 1550).

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L’écorché. Transi de René de Chalons. Ligier Richier, ca. 1550.

Para baralhar, acrescento a interpretação ao vivo de Black Night, pelos Deep Purple, em 1970, na BBC. Às vezes, a velhice pede para ir beber à fonte.

Deep Purple. Black Night. Ao vivo na BBC. 1970.

Se conduzir, não beba!

chateau-margauxRegresso regularmente a Bruno Aveillan. É vício. Os onze minutos que dedica ao Château Margaux, um dos melhores vinhos do mundo, são onze minutos de arte. A curta-metragem “Prodigy of the Architect” acompanha a construção do Palácio no início do século XIX. Esta é a sua história, contada mais com imagens do que com palavras. Fica na memória a “Musa do Vinho” que inspira o arquitecto Louis Combes.

Marca: Château Margaux. Título: Prodigy of the Architect. Direcção: Bruno Aveillan. França, Outubro 2015.

Não há um sem dois. Mais um anúncio do Bruno Aveillan. Tudo é arte? Assim o defende Marcel Duchamp. “Tudo é arte” ou “tudo pode ser arte”? Nada, porém, sem a assinatura dos artistas, das galerias, dos críticos, das escolas, dos movimentos, dos museus e dos coleccionadores. Tudo pode ser arte! Ou, caso se ajuste, criatividade. Até numa estrada pode circular a arte ou a criatividade. Por exemplo, A Rua da Estrada, de Álvaro Domingues (https://tendimag.com/?s=rua+da+estrada) ou o anúncio Road Speak, de Bruno Aveillan para a Bridgestone.

Marca: Bridgestone. Título: Road Speak. Agência: The Richards Group Dallas. Direcção: Bruno Aveillan. Estados Unidos, 2009.

Concerto aquático

Le livre des échecs amoureux moralisés (sec. XV), de Évrart de Conty (iluminuras de Robinet Testard), contém gravuras fantásticas, como esta com uma sereia encantadora. Pode consultar e descarregar o livro de Évrart de Conty no seguinte endereço: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8426258c/f264.image.

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Concerto aquático. Le livre des échecs amoureux moralisés. Sec. XV

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Concerto aquático. Le livre des échecs amoureux moralisés. Sec. XV. Pormenor.