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Sermão de Joana d’Arc às pombas

Sauvez la France

Lá vai uma, lá vão duas, três pombas a descansar
Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a agarrar
(José Afonso, Avenida de Angola, 1970).

Sauvez la France é um anúncio contra a abstenção nas eleições presidenciais francesas do dia 23 de Abril de 2017. Convoca o sentimento de identidade nacional. Mas, que identidade nacional? Que versão? Partilhada por que segmento da população? Existem várias interpretações da identidade nacional francesa. Não o admitir significa esquecer a história do país, atrofiar o presente e não estar preparado para o futuro. “Salvar a França”, de quê e de quem? Do voto? Do “inimigo interno”? Dos próprios franceses?

Este anúncio combate a abstenção. É empolgante. É também ideologicamente implicado (engagé). Reconheço-me na imagem da França veiculada pelo anúncio. Mas não ignoro que uma parte muito expressiva dos cidadãos franceses não se revê em algumas das frases compiladas. Duvido, cada vez mais, que alguém ganhe em se apoderar de uma identidade nacional. Quando pensa que ganha, já está a perder. As últimas frases vêm na crista da onda do texto; são cativantes, mas falsas. Se existe tanta gente empenhada em jardinar as identidades nacionais, é porque a horta rende.

Anunciante: Collectif Sauvez la France. Título: Sauvez la France. França, Abril 2017.

José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

Os Indígenas do Paraíso Perdido

Mongólia

Uma bela natureza num belo filme. Todos ansiamos pelo paraíso perdido. Para os lados da Mongólia, existem dois indígenas munidos de instagram para salvaguarda ecológica. Lembram os “embaixadores” das colónias na Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, o álbum Tintin no Gongo, o livro A Nação nas malhas da sua identidade, de Luís Cunha, e o filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Águas passadas movem moinhos; a nossa atracção pelo genuíno, pelo outro idealizado, também. A figura do indígena guardião da natureza, que com ela quase se confunde, é recorrente na publicidade.

Marca: Crosscall. Título: Nature’s eyes. Agência: Leo Burnett. Direcção: Fabien Ecochard. França, Março 2017.

A Grande Exposição do Mundo Português (1940). Realizador: António Lopes Ribeiro.

Do avesso

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Promover o leite deste jeito é, no mínimo, original. Um vídeo intertextual com imagem a preto e branco. Às vezes, parece arte. E para namorar a arte, é preciso talento.

Marca: Anchor. Título : Inside-out. Agência : Colenso BBDO (Auckland). Nova Zelândia, Abril 2017.

As mercadorias do amor

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L’amour consiste à être bête ensemble (o amor consiste em ser estúpido em conjunto; Paul Valéry, Monsieur Teste, 1896).

Um anúncio centrado numa relação heterossexual! Um romance num mundo recheado de mercadorias. L’amour, l’amour, l’amour… A música é meio anúncio. Uma pequena amostra de romantismo francês.

Marca: Intermarché. Título: L’amour, l’amour, l’amour. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Março 2017.

Francis Lai. Un homme et une femme. Claude Lelouch. Un Homme et une femme. 1966.

 

 

O post da meia noite

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Meia noite, na parvónia voam em vassouras as teclas de mau agoiro. No ecrã, surge, repescado e apressado, um mini-post.

A citröen é uma referência na publicidade. O povo francês tem sentido de humor, excelentes mimos (e.g. Marcel Marceau), cineastas (e.g. Jacques Tati) e actores (e.g. Fernandel). Este anúncio não renega a tradição.

Marca: Citroen. Título: Bip bip. Agência: H. Direcção: Thorsten Herken. França, 2011.

 

O carro do morto

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Les Très Riches Heures du Duc de Berry, pelos Irmãos Limbourg, activos em França entre 1399 e 1416.

Que mais desejar no momento da partida? Uma boa cerimónia fúnebre, cântico, a presença dos próximos e uma viúva inconsolável, não com despedida do falecido mas com a perda do automóvel. Como última vontade, o falecido conduzirá no além. Um memorável momento de humor macabro.

Com o devido recolhimento, acrescento a canção In the death car (Arizona Dream, 1993), de Goran Bregovic. “In the death car we are alive”.

Marca: Infiniti. Título: Eulogy. Agência: TBWA. Direcção: Joe Pytca. USA, 1997.

Goran Bregovic. In the death car, Arizona Dream, 1993. Ao vivo em Poznan, 1997.

Era uma vez a morte

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William Blake. Death on a pale horse, c 1800.

Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.

Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.

O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.

Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.

Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.

Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.

Doador de energia

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15 minute history is a history podcast from UT Austin. João, queremos um!

As grandes invenções têm efeitos secundários terríveis. Assim aconteceu com a máquina a vapor, assim acontece com o telemóvel (e outras ferramentas de comunicação afins). Perversidades! Não imagino o desconforto de ficar pendurado. Importa controlar e domesticar as máquinas. E recarregá-las! Não há máquinas eternas, nem absolutamente autónomas, nem contra todos os riscos. Para evitar o desespero do protagonista do anúncio The Percent Donor, o mais avisado é fazer a ligação em triplicado, com três telemóveis em simultâneo. Não é por nada, mas grão a grão enche o drama o papo. No caso vertente, o impacto na natalidade pode revelar-se funesto. Ainda bem que existem “doadores” para transfusão imediata de energia.

Marca: Huawei. Título: The percent donor. Agência: Buzzman France. Direcção: Benjamin Bouhana. França, Fevereiro 2017.

Sem remorsos

edith-piafEdith Piaf enternece e emociona; a mulher e a cantora. Seguem três « canções do século XX »: Non, je ne regrette rien (1960) ; La vie en rose (1946); e Milord (1959). Optei pela gravação ao vivo. Acrescentei a letra da canção Non, je ne regrette rien. Vale a pena.

 

Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié, je me fous du passé

Avec mes souvenirs j’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro

Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui ça commence avec toi.

Horror pedagógico

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Hans Von Gesdorff. Field book of surgery. The wounded man. Strasburg. 1528.

De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de  Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:

Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).

Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.

Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!

Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.