Archive | Agosto 2021

O menino de suas mães

01. Mãos segurando flores de lótus que simbolizam a eternidade. Detalhe de escadaria de Persópolis.

“Estava invadido face à fotografia por um desejo “ontológico”. Queria a todo o preço saber o que ela “em si mesma”, através de que traço essencial se distinguia da comunidade das imagens” (Roland Barthes, La chambre claire – Note sur la photographie, 1980. Minha tradução).

Participo no projeto Quem somos os que aqui estamos, coordenado por Álvaro Domingues, focado nas freguesias do concelho de Melgaço: concluímos o estudo dos agrupamentos de Parada do Monte & Cubalhão (ver A sociedade dos guarda-chuvas: https://tendimag.com/2019/04/10/a-sociedade-dos-guarda-chuvas/); e Prado & Remoães (ver https://tendimag.com/2019/08/11/o-egomundo-e-a-pavimentacao-da-vida/). Debruçamo-nos, neste momento, sobre as freguesias de Castro Laboreiro e Lamas do Mouro (ver http://mdocfestival.pt/projetoquemsomos.php). Entre os resultados obtidos, constam quatro livros (de textos e de fotografias), exposições de fotografia documental, com os respetivos catálogos, exposições de fotografias a partir de álbuns familiares e um registo audiovisual (Fotografias faladas; ver O Baloiço: https://tendimag.com/2019/10/23/na-paz-do-senhor/).

Estes projetos, imersivos e interativos, acabam por influenciar as pessoas. As coletividades aderem e reagem. Em Prado, minha terra natal, tal como de Álvaro Domingues, despoletou-se e acentuou-se o amor pela fotografia local familiar, e o consequente entusiasmo pela revisitação e pela partilha. Dedica uma página, concorrida, no Facebook: Freguesia de Prado (https://www.facebook.com/search/top/?q=freguesia%20de%20prado). Mas estes projetos também se pautam como fonte de reflexividade. Quem estuda também se revê e reinventa. A realidade desafia-nos e sensibiliza-nos. Normalmente, como diria Marcel Mauss, quem recebe sabe dar.

02. “Grande Borga no Rio Minho” (Freguesia de Prado: https://www.facebook.com/search/top/?q=freguesia%20de%20prado). Familiares: Mãe Ilda, baixo esquerda; avô Amadeu, baixo direita; prima Delfina, tia Esperança e tia Celina, meio esquerda; tio Nino, cima à esquerda.

Surpreenderam-me duas fotografias com parentes próximos que desconhecia, a primeira colocada por Maria Morais, no dia 24 de Novembro de 2020 (fotografia 2), a segunda por Daniel Maciel, no dia 18 de dezembro de 2020 (fotografia 3). Figuram o meu avô Amadeu, a mãe Ilda, o tio Nino, as tias Celina, Leonor e Esperança, bem com a prima Delfina (ver legenda). Todos maternos. As fotografias, mais ou menos conservadas, brilham como testemunhos, memórias, afetos e fábulas.

03-. “Amigas de Melgaço” (Freguesia de Prado: https://www.facebook.com/search/top/?q=freguesia%20de%20prado). Tia Leonor, prima Eduarda, e mãe Ilda.

Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada.
(Zeca Afonso. Minha Mãe. Baladas e Canções. 1964/1967)

Pois eu tenho quatro mães: a minha mãe, Ilda, cuidou de mim até aos cinco anos e dos dezoito aos vinte e dois, já em Paris; emigrada, prossegui com a tia Celina até aos doze anos; por seu turno, emigrou; acolheu-me a tia Leonor até aos dezassete; antes do casamento, reparti-me entre a tia Celina, em Prado, e a tia Edite, paterna, em Braga. Três tias segundas mães. A minha mãe e a tia Leonor partiram, desacompanhadas, em plena pandemia. Na mesma semana, com diferença de dois dias. Conserva-se a tia Celina, um regaço de amor, felicidade e dissabores.

Quatro mães e oito irmãos. Recordo um episódio. Já docente na Universidade do Minho, regressava aos fins-de-semana a casa, ao conforto da tia Celina. Noite dentro, aguardava-me o cão, na paragem do autocarro, e, na cozinha, um escalope de vitela, com ovo estrelado e batatas fritas. Atentas ao ritual, as primas, gêmeas infantes, protestavam que a mãe cozinhava melhor para mim do que para as próprias filhas. Ainda agora se mostram, com humor, ciumentas! A diferença residia, obviamente, no apetite de um desaninhado. Anedotas de uma vida ávida de pequenos nadas.

04. O menino.

Já Tininho não sou! Não se é, contudo, menino de quatro mães em vão, redobra-se a biografia e a personalidade. Dou graças ao criador por esta fragmentação fluída e entrelaçada! Diz-se que sabe escrever direito por linhas tortas.

Albertino Gonçalves, 30 de agosto de 2021.

Quando só resta o amor

Fernando Botero. Priest extends. 1977.

Viremos o disco. O grupo coral francês Les Prêtres é composto, como o nome o indica, basicamente, por três membros do clero: dois padres, Jean-Michel Bardet e Charles Troesch, e um seminarista, o vietnamita Joseph Dinh Nguyen Nguyen. Foi criado em 2010 com o intuito de apoiar iniciativas católicas e sociais. Por exemplo, a construção de uma igreja no Laos e uma escola em Madagascar. Reinterpretam, sobretudo, canções consagradas. Publicaram três álbuns (Spiritus Dei, em 2010; Gloria, em 2011; e Amen, em 2014), separando-se em 2011. Spiritus Dei ocupa, desde 2010, o segundo lugar dos discos mais vendidos em França. O grupo separou-se em 2014, após o abandono da Igreja por parte de Joseph Dinh Nguyen Nguyen, entretanto casado e pai. A música, ao mesmo tempo, abrangente, tonificante e apaziguadora, recorda, no nome, na composição e no conteúdo, o grupo irlandês The Priests.

Seguem, por ordem, as quatro primeiras faixas do álbum Spiritus Dei:

Les Prêtres. Spiritus Dei (Sarabande). Spiritus Dei. 2010.
Les Prêtres. I Believe. Spiritus Dei. 2010.

Les Prêtres. Il est né, le divin. Spiritus Dei. 2010.

Saúde!

Marc Chagall. Birthday. 1915

Viremos o disco. À parte as hegemonias e as audiências (estamos longe dos anos sessenta), a “canção francesa” sobrevive. Patrick Bruel é um cantor e ator, de origem argelina, com uma longa carreira iniciada em 1984. Publicou 11 álbuns de estúdio, 10 ao vivo e 6 em colaboração. Seguem duas canções recentes.

Patrick Bruel. Héros. Ce soir on sort… 2018.
Patrick Bruel. À la santé des gens que j’aime. À la santé des gens que j’aime. 2021.

O Berço dos mortais deuses

Regressemos a Dario I, o Arqueiro. Na rota da Babilónia, perto do Afeganistão, a Mesopotâmia, “berço da civilização”, da escrita cuneiforme, do código de Hamurabi, da ciência e da agricultura, de canais, palácios e monumentos gigantescos e jardins suspensos e esculturas, de epopeias, tragédias, cativeiros e heróis imortais. Da demanda de Gilgamesh e da torre de Babel.

Impressionou-me a leitura na infância do livro As Ruínas de Palmira (1791), escrito pelo Conte de Volney, protagonista da Revolução Francesa. Consiste numa espécie de julgamento dos grandes impérios e das grandes religiões. Para quem possa interessar, acrescento o link para a digitalização da publicação original.

A Mesopotâmia, designadamente a Babilónia, é tema recorrente na música.  Georg Friedrich Händel dedicou uma ópera a Xerxes (cujo nome significa “governante de heróis”), composta em 1738, que inclui a ária Ombra Mai Fú (trad. Nunca houve uma sombra), uma pérola rara da história da música (ver vídeo 1). A obra de Händel tende a abusar dos metais (ver o artigo Música e Espectáculo: https://wordpress.com/post/tendimag.com/40821); o rei Jorge I de Inglaterra, seu patrono, não apreciava as cordas! Um exemplo da dependência da arte em relação ao poder político. Acresce que na época as mulheres não podiam aparecer no palco, sendo representadas por homens travestidos. Brilha o “castrato, “desvirilizado” na infância para desenvolver voz feminina (soprano, mezzo-soprano, ou contralto). Diverti-me a procurar uma interpretação atual que se aproximasse deste fenómeno (ver vídeo 1 e artigo Castrati: https://wordpress.com/post/tendimag.com/43403).

G.-F. Händel. Aria “Ombra mai fù ” ( 1 Act ) from the Opera “Serse”. 1738. By Philippe Jaroussky,

A música pop também namora o tema da Babilónia. Retenho duas canções bem distintas: Waters of Babylon (vídeo 2), de Don McLean, e Rivers of Babylon. dos Boney M (vídeo 3).

Don McLean. By The Waters of Babylon. American Pie. 1971.
Boney M. Rivers of Babylon. Nightflight to Venus. 1978. Ao vivo: Sopot Festival 1979.

Não resisto a acrescentar Alexander The Great, dos Iron Maiden. Cerca de um século após a morte de Xerxes, Alexandre, homem imortal, conquistou o reino da Pérsia. Na canção dos Iron Maiden, multiplicam-se as referências à Babilónia.

Iron Maiden. Alexander the Great. Somewhere in time. 1986.

Artigos descentrados e desossados como este oferecem-se, porventura. como um modo de viajar confinado.

Oscilações

Existe muita gente que anda a perder o que procura (Albertino Gonçalves).

Há estrelas cadentes. E descendentes. Fugazes como relâmpagos. Sobem, brilham e caem. Como relâmpagos. Na minha cabeça, naturalmente. Há muito não escuto música do Moby. Ando distraído. Seguem três canções, aparentemente, menos circuladas. Todas do álbum Hotel (2005).

Moby. Hey Dream About Me. Hotel. 2005. Live Hotel Tour 2005.
Moby. Slipping Away. Hotel. Hotel. 2005. Live Hotel Tour 2005.
Moby. Love Should. Hotel. 2005..

Um contra um, todos por todos

Keith Vaughan. Cain and Abel. Tate. 1946.

O videojogo afirma-se como vanguarda das indústrias do lúdico e do audiovisual. Potente, competitivo, flexível, acelerado, certeiro e ubíquo. Como o arco de Dario (sobre o arco de Dario, rei da Pérsia, recomendo o artigo: O Espetáculo do Poder).

Não é de admirar que os anúncios a videojogos constem entre os mais impactantes das últimas décadas. HUMANKIND (Amplitude Studios) frisa a perfeição apelativa, narrativa, técnica e estética. Nada é descurado: a luz, a cor, a fotografia, o desenho, os cortes, os contrastes, o enquadramento, a profundidade, os planos, os ritmos, as sequências, o som, as referências… Qualidade, critério e criatividade. HUMANKIND recupera uma opção cada vez mais frequente: a substituição da figura humana por objetos e símbolos. Ganha em projeção e sublimação. Os objetos e os símbolos tornam-se, porventura, mais humanos do que o humano.

HUMANKIND. Amplitude Studios. Official trailer. Agosto 2021.

Retenhamos a lição: agonístico e diabólico, o universo, assevera-se exíguo para dois protagonistas; o anúncio termina, porém, com uma avalanche de multidão. Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto: o anúncio não enjeita ressonâncias bíblicas e míticas: o crepúsculo, egoísta e homicida, de Caim, e a alvorada, coletiva e mobilizadora, de Moisés. Onde não cabem dois, cabem milhões.

Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves

Raiva

“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).

Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.

Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.

Armaggedon. Buzzard. Armaggedon. 1975
Serge Gainsbourg. Dieu est un fumeur de havane. Com Catherine Deneuve. 1980.

Anjo da guarda

Paula Rego. Anjo da Guarda. 1998.

O Tendências do Imaginário está doente. Está em estado de inércia, com as visualizações pasmadas: nem sobem nem descem.

Escuro. De olhos no céu. Atado de pés e mãos. Dor. Exposto. Um vulto aproxima-se: – O senhor é um manipulador! Um grande manipulador! Há muitos que estão no seu estado e que não são manipuladores, mas o senhor é um grande manipulador. Não devia ter rasgado a fralda. Não, não devia ter rasgado a fralda! – Foi a minha mulher ao puxá-la. – O senhor é um mentiroso, um grande mentiroso… Afasta-se. Consegui libertar três membros. Entretanto, não sei após quanto tempo, regressa. Aperta-me os pulsos, retira o telemóvel, muda a cama encharcada e as fraldas desconsoladas. Não há anjos em terra, não há anjos no céu, protegem-nos no purgatório (Diálogo inspirado nos Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, de 1864).

Eu não o vejo, eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia
Eu tenho um guarda que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
(António Variações. Anjinho da Guarda. Anjo da Guarda. 1983.

Valentin de Boulogne. O Martírio de São Bartolomeu. ca. 1613–15.

Nos meses de Julho e Agosto, estive 21 dias internado no Hospital. Uma semana em cuidados intensivos. Regressado a casa, começo a reganhar, milagrosamente, as faculdades perdidas. Mas ao quinto dia, uma dor insinua-se nas costas e espalha-se, no dia seguinte, pelo abdómen. Vómitos. Mais uma corrida, no INEM, para as urgências do Hospital. Nova cirurgia: extração da vesícula biliar. Estou, desde ontem, em convalescença doméstica. Confuso. Que convalescença? Do Lítio? Da vesícula? Sinto-me um esfrangalho, aninhado como uma múmia, a tentar preservar o melhor que tenho: o sentido de humor e o sentido de beleza. Com quatro furos na barriga e os braços apontados ao Indiana Jones.

A escultura convida o gesto e a pintura assoberba o olhar, mas a música envolve-nos. A primeira música é para o período antes de tomar o ben-u-ron. A segunda, para depois.

Antes do ben-u-ron:

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975.

Após o ben-uron_

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14.

Sofrimento

Colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício. No vórtice, um corpo aberto.

Francis Bacon. Head VI. 1949.

Assombra-me a capacidade de sofrimento do ser humano. Perturba. parece não ter limites. Tão pouco o sadismo.

Alexander Borodin (1833-1187). String Quartet № 2—III. Notturno.

A tua mão

Auguste Rodin. Mains d’amants. 1904.

Dá-me a mão! Não te afastes, não feches, não apontes! Dá-me a mão. A pele, a carne, o desejo, o vazio. Dá-me, dá-me a tua mão! Dou-te, quem sabe, o desassossego e a fome do presente. O resto é contingência.

Apocalyptica. Nothing Else Matters. Plays Metallica By Four Cellos – A Live Performance). 1996.