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Varas há muitas

“Segundo uma tradição antiga, depois da morte de São Joaquim, Maria teria chegado à idade de casar. Os pretendentes teriam sido chamados ao Templo, levando cada um uma vara. A vara de José teria milagrosamente florescido, enquanto as outras permaneceram secas. Esse prodígio teria sido interpretado como sinal da escolha divina de José para esposo de Maria. Daí vem a representação de São José com uma vara ou cajado florido, normalmente com flores brancas.

Imagem: Josefa de Óbidos – São José e o Menino, 1670. Museu Nacional de Arte Antiga

Em Portugal, a flor pode aparecer identificada com a açucena/lírio, símbolo de pureza e castidade (…) Com o passar do tempo, a vara florida tornou-se praticamente um atributo iconográfico de São José. O lírio branco passou a representar a sua pureza, mas também a sua dignidade e santidade. Por isso é frequente encontrar São José representado com o Menino Jesus num braço e uma vara florida na outra mão. (ChatGPT, 16.08.2026).

Mas nas pinturas contempaladas no artigo A vara do noivo, colocado no dia 16 de agosto de 2014, a vara aparece com uma pomba branca. Porquê?

A vara do noivo. Tendências do Imaginário, 16.08.2014

Dar à luz na “idade das trevas”

Iluminura do século XV com o nascimento de São Edmundo (rei da Ânglia Oriental). Contempla a preparação do parto e o período pós-parto

Em 16 de agosto de 2015, publiquei o artigo O parto na Idade Média. Volvidos dois anos, em 2017, recoloquei-o revisto. Um bom exemplo de como uma revisão pode tornar-se recriação.

O novo artigo, O parto na Idade Média (revisto), é, até hoje, o segundo mais consultado do Tendências do Imaginário: desde 3 de setembro de 2017, soma 15615 visualizações (a primeira versão: 3985; as duas: 19600). Recoloco-o a pensar em quem possa ter interesse em ver ou, eventualmente, rever com outros olhos.

O parto na Idade Média (revisto). Tendências do Imaginário, 16.08.2017

Santa Luzia dos meus amores

Masterpieces on Paper. The fifteenth-century choir books of the Abbey of Santa Giustina in Padua

O culto a Santa Luzia (ou Lúcia) é antigo. Existem indícios de remontar ao século IV em cujo início terá sido martirizada (por volta de 304).

Foi condenada pelo cônsul romano Pascásio a ser conduzida a um bordel para que fosse estuprada por libertinos. Mas o Espírito Santo intervém, tornando o corpo de Luzia totalmente imóvel e impossível de transportar. Nem mesmo com uma equipa de inúmeros homens e bois é possível movê-la. Enfurecido, Pascásio ordena que se despeje sobre ela piche, resina e óleo ferventes e, em seguida, manda cercá-la com uma pira que é incendiada. Contudo, as chamas não lhe causam dano algum, e ela continua a cantar louvores a Cristo no meio ao fogo. Então, uma espada é cravada em sua garganta, mas ela não morre imediatamente. Um sacerdote vem ministrar-lhe a Comunhão; só então expira.

Santa Lucia, pintura entre 1290 e 1310

Outras fontes [datadas do século XIV) especificam que seus olhos foram arrancados. (Ou, alternativamente, que, quando seu noivo lhe disse que a amava tanto por causa de seus olhos, ela mesma os arrancou e os levou até ele em uma bandeja, tateando o caminho.) Diz-se que, depois disso, a Virgem lhe trouxe olhos ainda mais belos. É por isso que ela é frequentemente invocada para curar doenças oculares e retratada por pintores carregando seus olhos em uma bandeja ou em uma taça. Outros recorrem a ela em busca de alívio para dores de garganta. (Wikipedia, em francês, 14.08.2008).

Os Olhos de Santa Luzia. Tendências do Imaginário, 14.08.2014

Parto pela boca

Gárgula do Mosteiro de San Martín Pinario de Santiago de Compostela. Fonte: Dolores Herrero Ferrio, Gargoyles of the Monastery of San Martín Pinario of Santiago de Compostela (Spain): Part Two

Não é raro deixar-me tentar por temas estranhos que não lembram ao diabo. Cuido, contudo, de os abordar com um mínimo de sobriedade.

Gárgula do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Batalha. Fonte – Jornal de Leiria

Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em acto ou em expiação. Constituem exemplos a evitar. Muitas gárgulas com figuras humanas são frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Várias freiras têm manto, mas subido ou aberto, exibindo os peitos e as partes genitais. Umas estão com as mãos juntas, em sinal de arrependimento, outras com as mãos em partes impróprias. Por vezes, aparece uma criança, de corpo inteiro ou só a cabeça (no peito, no ventre…). Há quem associe estas figuras de mulheres devassas com criança a freiras que tiveram filhos, nomeadamente com autoridades da comunidade eclesiástica. (Paródia disparatada, Tendências do Imaginário, 13.08.2014).

A Mãe, o Sol e a Lua

A Virgem Maria costuma ser associada ao sol, à lua e às estrelas, nomeadamente nas imagens como Virgem do Apocalipse e Virgem da Lua Crescente. Na imagem da Virgem da Humildade de Fra Paolo Serafini da Modena, o redondo no canto inferior esquerdo parece representar um eclipse.

Há dias, no 9 de agosto, foi o dia dos pais no Brasil. “Só não são todos dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.”

A Mãe e a Guerra. Tendências do Imaginário, 12.08.2018

Gárgulas obscenas

Parador de Santiago de Compostela, Hostal dos Reis Católicos. Edifício construído em 1509

Acontece investir mais num artigo. É o caso de Gárgulas Impúdicas, de 10 de agosto de 2014, revisto posteriormente em 23 de novembro de 2021.

Em 2017, decidi elaborar uma antologia, intitulada A Morte na Arte, com uma trintena de artigos do Tendências do Imaginário. Embora tenha revisto uma boa parte, com as vicissitudes da vida, acabei por suspender o projeto. Sinto, contudo, o dever de o reassumir.

O artigo que recoloco é o revisto: Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte. O link para o artigo de 2014 é https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/

Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte), 23.11.2021

Ter o Diabo no Corpo

Pedro Abrunhosa e Bandemónio. Momento, 2002

No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.
Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas e umas pauladas.
Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio. (A Fuga dos Demónios, 08.08.2014)

Em 8 de agosto de 2014, escrevi o artigo A Fuga dos Demónios. Três anos volvidos, retomei-o no artigo Exorcismos, de 15 de agosto de 2017, acrescentando-lhe outro texto: Esqueletos vampiros. Recoloco o artigo Exorcismos, mais completo, acompanhando-o com duas canções do Pedro Abrunhosa: “Diabo no corpo” e “Momento”, ambas de 2002.

Pedro Abrunhosa, Os Bandemónio – Diabo No Corpo. Momentos, 2002
Pedro Abrunhosa, Os Bandemónio – Momento. Momento, 2002

Calma e Tranquilidade

Há vários dias que me encontro atolado num cúmulo de burocracia com abuso do cidadão. Para quê? Para pedir alguma regalia? Nem por isso, apenas para colaborar generosamente com uma instituição pública. Em suma, a crónica salvaguarda do aparelho e das aparências face a eventuais “escrutínios”.

Quanto se menospreza o cidadão, que, aliás, insatisfeito, pede mais! Papagueamos a democracia que descuidamos. Não se pede a um membro de um governo que, como político, decida bem e promova boas iniciativas, mas, em contrapartida, que não tenha ponta por onde se lhe pegue, a qualquer pretexto. Desde sempre, nem sombra de “ilegalidade”, “informalidade”, “irregularidade” ou ” suspeita”. Só falta exigir “santidade”, aos governantes e aos governados. Às declarações de registo criminal e de compromisso, anexe-se o upload com uma declaração de fé. Portugal e os Portugueses não precisam de vangloriar-se de tamanho zelo burocrático. Já é sobejamente reconhecido no estrangeiro.

Importa temperar este estado de alma com música apropriada. Talvez alguns mantras hipnóticos, em pequenas doses. Aprecio o trio Deva Premal (alemã; voz e teclas), Miten (indiano, voz e guitarra) e Manose (Nepalês, flauta). O que é preciso é “calma e tranquilidade”, nome da canção, com letra em português, que coloco em primeiro lugar. Acrescento “Aad Guray” e “Gayatri Mantra”.

Deva Premal (Nuremberga, Alemanha; 1970) é uma cantora reputada pela sua música espiritual e meditativa do tipo New Age, que envolve mantras ancestrais numa atmosfera contemporânea. / Deva é parceira de vida e de música de Miten, que conheceu no Ashram de Osho em Pune, na Índia, em 1990. Juntos, compõem músicas e realizam concertos à volta do mundo./ Deva recebeu formação musical clássica, mas cresceu cantando mantras em sua casa na Alemanha — um lar imerso na espiritualidade oriental. Seus álbuns têm liderado as paradas de New Age em todo o mundo desde o lançamento de The Essence, que inclui o Mantra Gayatri. A sua gravadora, Prabhu Music, já vendeu mais de 900.000 cópias. (Wikipedia, em espanhol, 03.08.2026).

Deva Premal & Miten (com Manose) – Calma e Tranquilidade. Soul in Wonder. 2007. Do CD/DVD “In Concert”, 2009
Deva Premal & Miten (com Manose) – Aad Guray.  CD/DVD “In Concert”, 2009
Deva Premal & Miten (com Manose) – Gayatri Mantra. Satsang: A Meditation. 2002. Do CD/DVD “In Concert”, 2009

Publicidade de Salvação

Durante os jogos olímpicos, o mundial de futebol ou o superbowl, a humanidade entra em efervescência coletiva. A publicidade encarece e exorbita, com hipérboles, alegorias e molho identitário.

O anúncio “Sports unites all”, para os jogos olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, oferece-se como exemplo. No início, era Ronaldinho Gaúcho, o génio da bola não identificado [No início era o verbo, o deus absconditus (deus oculto)]. No fim, o golo, a revelação, a salvação e a comunhão.

Perante anúncios extraordinários, dignos de criteriosa análise, acontece-me desconversar. Um defeito, mas a desconversar, vou-me entendendo.

Desporto redentor. Tendências do Imaginário, 31.07.2026

Hagiografia fantástica. O Santo Cão

Ícone ortodoxo de São Cristóvão como cinocéfalo. Séc. XVII. Byzantine and Christian Museum