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Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

Mortos interactivos

 

Terceiro dedo.

Terceiro dedo.

O último capítulo do livro A Morte na Arte conduziu-me pelos cemitérios em busca de esculturas mortuárias veladas. Quem procura uma coisa encontra outras. Sempre que procuro perco-me. Intrigaram-me algumas esculturas de “mortos interactivos”. Partes do corpo dos mortos irrompem dos túmulos numa espécie de comunicação com os vivos. Nas figuras 2 a 4, destacam-se as mãos, nas figura 5 e 7, partes do corpo. Na figura 1, uma mão aponta o terceiro dedo. Não são casos de somenos importância. Os túmulos das figuras 5 e 6 pertencem a Jules Verne e ao poeta Gerges Rodenbach. A figura 1, a mais fática, justifica algumas reservas. Embora não seja rara na Internet, não consegui identificar nem o local, nem o fotógrafo. Pode ser falsa (fake).

Há quem acredite que a vida e a morte não são mundos tão separados quanto a razão dita. Existe uma zona de intersecção onde deambulam, por exemplo, as almas penadas e os mortos vivos. Existem imaginários que sustentam este contrabando, torto por linhas tortas, entre a vida e a morte.

No tempo em que os burros cantavam

Fête de Fous

Do disco Obsidienne, La Fête des Fous, 2005.

Andava com vontade de publicar um artigo sem interesse.

Gosto dos burros! Excepto os burros com ceptro e título. O burro é o meu símbolo preferido. Serviçal e teimoso. Por que desprezamos quem nos serve e aclamamos quem servimos?

Chris Beatrice. Luteplayer. 2010

Chris Beatrice. Luteplayer. 2010.

Nos artigos publicados no Tendências do Imaginário  dedicados à música da missa do burro (O burro e a cenoura; Tolos e burros) cingi-me à obra do Clemencic Consort. Na verdade, a missa do burro, bem como a Festa dos Tolos, celebrava-se em várias cidades medievais europeias.

Encontrei no computador duas obras sobre a Festa dos Tolos: Obsidienne, La Fête des Fous, 2005 ; e Choeur de Chambre de Namur, Missa Goliardica, Messe des Fous, 2005. Seguem dois excertos : no primeiro, o zurro do burro é ostensivo ; no segundo, mais discreto,na parte final os versos terminam com pronúncia de asno. Quem dera aos cavalos cantar como os burros!

Obsidienne. “Les femmes amoureuses de l’âne”, La Fête des Fous. 2005.

Choeur de Chambre de Namur, Missa Goliardica, Messe des Fous, 2005. Excerto.

Selfies

Estou a converter-me às selfies. Ouso publicar três. Na primeira, a preferida, levanto-me com um sorriso. É para as candidaturas a artista. A segunda selfie é mais realista: tapo os olhos para não ver o que está à vista de todos. É para os concursos profissionais. Na terceira selfie, estou em pose de contra-ataque; simulo um coice. É para os debates científicos.

Burro pendurado no primeiro pilar da nave da igreja de Saint-Germain d’Argentan, construída entre os séculos XV e XVII. França.

Burro pendurado no primeiro pilar da nave da igreja de Saint-Germain d’Argentan, construída entre os séculos XV e XVII. França.

Burro que cobre os olhos, na Collégiale Saint-Pierre de Saint-Gaudens. Século XIII. França.

Burro que cobre os olhos, na Colegiada Saint-Pierre de Saint-Gaudens. Século XIII. França.

Burro a dar um coice, na Igreja de Notre-Dame des Andelys. Construída em 1225. França.

Burro a dar um coice, na Igreja de Notre-Dame des Andelys. Construída em 1225. França.

A comédia e a tragédia

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

Mosaic showing theatrical masks of Tragedy and Comedy. Roman artwork, 2nd century CE.

As relações de género são uma tentação para publicidade actual. Acontece, por vezes, a quantidade gerar variedade. Por exemplo, variedade de registos. Os anúncios The Real You Matters, da SBS, e Streetguard, da Tracking Systems de Mexico, aludem a problemas graves: a insegurança das mulheres nas ruas e a discriminação sexual no emprego. Um adopta um registo cómico, o outro, um registo dramático. O primeiro convida a rir a pretexto de situações de vulnerabilidade laboral, tais como a gravidez ou a homossexualidade. O segundo publicita a descoberta de um escudo protector na ameaça da escuridão urbana: um novo comando que activa os alarmes dos carros em redor. Este anúncio é intrigante. Importa, naturalmente, capacitar as potenciais vítimas com meios adequados de defesa. Mas esta solução técnica comporta riscos. O controlo do acesso aos comandos não se adivinha fácil. Se caírem em mãos impróprias, por exemplo de bandos urbanos, o que sucede? O baile da meia-noite no bairro dormitório? Todas as noites passam a noite de S. João? As técnicas costumam oscilar entre o diabo e o bom Deus. Importa saber como aproveitá-las.

“A través de nuevos e innovadores productos integradores de tecnología, Tracking Systems de México, empresa de Grupo UDA, fomenta la prevención y brinda soluciones a empresas en cuatro áreas indispensables como: Logística, Tráfico, Seguridad, y Atención al Cliente” (http://naciontransporte.com/tracking-systems-de-mexico/).

Marca: SBS. Título: The Real You Matters. Agência: Havas Melbourne. Direcção: Carl Sorheim. Austrália, Maio 2018.

Marca: The Tracking Systems de Mexico. Título: Streetguard. Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Mónica G. Carter. México, Maio 2018.

 

Religiosidade Popular: resistência e adaptação à mudança

“Se o meu sangue não me engana, havemos de ir a Viana” (Pedro Homem de Mello).

Para uma informação mais detalhada, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://bloguedominho.blogs.sapo.pt/centro-de-estudos-regionais-de-viana-do-10001522.

Religiosidade Viana

A Cruz, a Paixão, o Transi e a Boca do Inferno

Geertgen tot Sint Jans. Crucifixion (c. 1490).

Fig 1. Geertgen tot Sint Jans. Crucifixion (c. 1490). Fotografia.

A família não trouxe, da viagem à Escócia, apenas a fotografia do quadro Art Cabinet with Anthony van Dyck’s ‘Mystic Marriage of St Catherine, de Willem van Haecht (https://tendimag.com/2018/05/01/a-nobreza-da-arte/). Trouxe, entre outras, uma fotografia do quadro Crucifixion (c. 1490) do pintor holandês Geertgen tot Sint Jans. Não conhecia o quadro, mas já tinha reparado em duas obras do autor (ver figuras 3 e 4). O quadro intriga-me, e cativa-me, pelas suas peculiaridades.

A cena da crucificação inclui os episódios da Paixão (o Calvário), desde a apresentação a Herodes até ao sepultamento e à ressurreição. Não é vulgar.

Junto à cruz, não nos deparamos com o crânio habitual, a “morte seca”, mas com um transi, um cadáver em decomposição. Não recordo ter visto um transi numa pintura da crucificação.

Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490

Fig 2. Geertgen tot Sint Jans. The Crucifixion with St Jerome and St Dominic and Scenes from the Passion. 1490.

Ainda menos me lembro, desculpem o non sense, de um quadro com a crucificação em que a cruz está assente no abismo, na boca do inferno. Será uma alusão ao Limbo (https://tendimag.com/2017/10/05/o-triunfo-sobre-a-morte-san-martin-de-artaiz/)? Será um atalho para o Juízo Final (https://tendimag.com/2017/09/19/a-ressurreicao-da-imagem-marten-de-vos/)? Honestamente, desconheço.

 

Filhos de um deus menor

En premier lieu toute prière est un acte. Elle n’est ni une pure rêverie sur le mythe, ni une pure spéculation sur le dogme, mais elle implique toujours un effort, une dépense d’énergie physique et morale en vue de produire certains effets. Même quand elle est toute mentale, qu’aucune parole n’est prononcée, que tout geste est presque aboli, elle est encore un mouvement, une attitude de l’âme (Mauss, Marcel, 1909, La prière).

Mais, par choses sacrées, il ne faut pas entendre simplement ces êtres personnels que l’on appelle des dieux ou des esprits; un rocher, un arbre, une source, un caillou, une pièce de bois, une maison en un mot une chose quelconque peut être sacrée (Durkheim, Émile, 1912, Les formes élémentaires de la vie religieuse).

O sagrado somos nós ! Todos sabemos o que é uma prece. O anúncio True Love, da True Corporation Public Co., aproxima-se de uma oração. Oremos, que a vida é um altar!

Anunciante : True Corporation Public Co. Título: True Love. Agência: GreynJ United Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Abril 2018.

Páscoa

Artur Bual. Cristo. 1991

Artur Bual. Cristo. 1991

Admiro, como Miguel de Unanumo, os “homens mais carregados de sabedoria do que de ciência”.

“Certo pedante, vendo Sólon chorar a morte de um filho, disse-lhe: “Para que choras dessa maneira, se isso de nada serve?” E o sábio respondeu-lhe: “Precisamente porque para nada serve.” (…) O que de mais sagrado existe num templo é o facto de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere, cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino, vale tanto como uma filosofia. Não basta curar a peste, há que saber chorá-la! Sim, importa saber chorá-la! E esta é, talvez, a suprema sabedoria.” (Unanumo, Miguel,1913, Do sentimento trágico da vida, Lisboa, Relógio d’água, 2007,p. 22).

Páscoa, paixão, sacrifício, expiação e redenção. Ocorre-me Lisa Gerrard.

Lisa Gerrard & Pieter Burke. Sacrifice. Duality. 1998.

Transparências

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Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A brincadeira não tem idade. Apetece uma bricolagem. Um videozinho. Ando com duas músicas do Bach no ouvido. Gostava de encontrar imagens para as acompanhar. Acudiu-me substituir a banda sonora de anúncios em slow motion. Fantásticos! Não ganhavam nada com a música de Bach, nem esta com os anúncios. Uma dupla estragação. Entretanto, ocorreram-me as imagens das esculturas veladas de Antonio Corradini (1688-1752) e de Giuseppe Sanmartino (1720-1793). O último capítulo do livro A morte na Arte é sobre as esculturas veladas. Comecei há quatro meses e já escrevi 20 linhas! Mas as músicas de Bach, versão piano, não batiam certo com as imagens, demasiado sedosas e pungentes para as teclas de um minueto. Acabei por optar pelo que não queria: uma das obras mais célebres de Bach: a Ária na corda sol. As voltas que uma bricolagem não dá!

Segue o videozinho, parco em comentários, mais as duas músicas de Bach.

Transparências. Esculturas  Veladas. Albertino Gonçalves, 2018.

J. S. Bach. Jesu, joy of man’s desiring.

J. S. Bach. Anna Magdalena Notenbuch: Minuet in G major, BWV Anh 114.