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Velocidade pedagógica: o novo futurismo

Carlo Carrá. Il cavalieri rosso. 1913.

“Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente” (Filippo Tommaso Marinetti, Manifesto Futurista, 1909).

A sensação que se desprende do anúncio Never Stop, da Universidade de Aukland, é velocidade, vertigem e futurismo.

O ensino é admirável. Um mundo novo, na era das learning machines. Antes do tempo, sem parar e sempre a subir, até ao pináculo. Educação acelerada, numa sociedade sem fios. Aguarda-se a aprendizagem instantânea: o implante de um chip, com actualizações automáticas, reciclável e sem plástico.

Marca: University of Auckland. Título: Never Stop. Nova Zelândia, Junho 2017.

Acrescento, mais por vício do que por virtude, um hino hard rock à velocidade:a música Highway Star, dos Deep Purple (álbum Machined Head, de 1972, que inclui o consagrado Smoke on the water). Canta Ian Gillan que “ninguém lhe rouba a vida porque a guarda no inferno”.

Deep Purple. Highway Star. Machine Head. 1972.

O insulto nas caixas de comentários dos jornais

Público. Bartoon. 04 de Junho de 2019

No Público de ontem, 03/06/2019, vem uma entrevista, de duas páginas inteiras, com o meu rapaz mais velho acerca das caixas de comentários dos jornais. A entrevista inspira o bartoon da edição do Público de hoje (ver imagem). Há um tempo, o meu rapaz mais velho tinha uma iniciativa e eu pensava com os meus botões: tal e qual o pai. Hoje, o meu rapaz mais velho continua a tomar iniciativas e eu penso com os meus botões: nunca serei como ele. Com o mesmo orgulho.

Senilidade intelectual

Ontem, fiz uma comunicação, hoje, outra, sobre “a música do inferno no imaginário medieval”. Tema insólito, indício, quem sabe, de senilidade intelectual. Ninguém acredita na existência do inferno. Ainda menos, na música do inferno. Mas o inferno existe no imaginário e na experiência do mundo. Século após século, a pegada do inferno é incomensurável.

Em jeito de ponte entre a Idade Média e os nossos dias, a comunicação culmina com o trailer do videojogo Agony (2018). O inferno teima em aquecer as nossas almas. A descida ao inferno no videojogo Agony é um tormento vertiginoso. A banda sonora condiz: arrisca desagradar. Mas, apesar das novas tecnologias, pouco se distingue das pinturas medievais. Atente-se no inferno do tríptico O Juízo Final (1467-71), de Hans Memling. O mesmo tormento, a mesma turbulência, as mesmas vertigens.

O “regime da palavra” anda esquisito. Nunca tantos falaram tanto para dizer tão pouco. Um excesso de formatação e de ladainha na Metrópolis do espírito. Uma orfandade do sentido. A ciência está muito regrada, à espera dos robots inteligentes. Nunca pensei que a ciência ingurgitasse tanta burocracia. Uma incontinência para colmatar uma avaliação que analisa as obras como melões na feira e uma perspectiva de desenvolvimento futuro que não se enxerga.

Albertino Gonçalves e Fernando Gonçalves

Agony. Videojogo. 2018.

Os ossos não enganam: a dança dos esqueletos

Figura 1. Franciszek Lekszycki . Dança macabra. Cracóvia, Polónia. Século XVII. Curiosamente, as danças da morte neste quadro e no seguinte contemplam apenas mulheres. Lembram as naves das loucas (ver
https://tendimag.com/2014/07/29/michel-foucault-e-a-nave-dos-loucos/ )

“Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo” (Padre António Vieira).

The dance of death. Oil painting. Sec. XVII. Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org.

“Para nascer Portugal: para morrer o mundo” (Padre António Vieira). A despedida é fado, o afastamento o corolário. Despedi-me da aldeia para estudar em Braga; de Braga para estudar em Paris; de Paris para trabalhar em Braga. O que mais custa na despedida não é a adaptação ao novo destino, é o afastamento de um pedaço de vida. É um vazio que trespassa o esqueleto. Partir e repartir é cavar cemitérios de amizades e desbastar florestas de rotinas. Partir empobrece! Suspende-se a familiaridade do mundo da vida. Afastei-me sempre voluntariamente. Volto a pressentir a semente do alheamento. Mas imagino esta nova travessia diferente. Não perco a familiaridade do mundo, nem os amigos; apenas aqueles que não tenho. Há três contingências a que os ossos não se habituam: à água do mar, à febre de protagonismo e ao feiticismo da sabedoria. Prevejo afastar-me aos poucos num alheamento a prestações. Como os intérpretes da Sinfonia do Adeus, de Joseph Haydn, que se retiram do palco sem que a música deixe de cumprir a sua promessa. A Dança dos Esqueletos, de Walt Disney (1929), precede A Sinfonia do Adeus (1772) de Joseph Haydn (no vídeo, a deserção dos intérpretes começa no minuto 4).

Walt Disney. A Silly Shimphony: The Skeleton Dance. 1929.
Joseph Haydn. Sinfonia 45. A Sinfonia do Adeus. 1772.

Procissão erótica

A academia é bipolar: Excitante para quem adere ao jogo, depressiva para quem o dispensa.

Figura 1. Trois phallus portant une vulve couronnée en procession. Enseigne en plomb, fin du XIVe siècle, Paris, Musée National du Moyen Âge.

Deus existe? A morte existe? E o sexo existe? Três nós cegos do nosso entendimento dados a recalcamentos e sublimações. Existem véus que não cobrem a realidade mas toldam o olhar, como cataratas no cristalino. Por conveniência, hipocrisia, pudor. No entanto, o sexo existe! Faz parte do triângulo da nossa obsessão quotidiana: Deus, morte e sexo. Com duas faces tensas: sol e lua, diurno e nocturno, taça e gládio, carne e espírito. Como redimir a alma quando a verdade é pecadora?

O Museu de Cluny, perto da Sorbonne, possui uma peça rara e ousada: uma insígnia erótica, do século XIV ou XV, composta por três falos antropomórficos que conduzem, em procissão solene, numa espécie de andor, uma vulva coroada (Figura  1). Presa no chapéu ou na capa, presume-se que esta insígnia, ou amuleto, era utilizada em espaços e situações especiais, tais como os prostíbulos e os rituais de fertilidade. Esta escultura em chumbo é minúscula. Mas a arte e o imaginário não se medem aos palmos. Segue uma pequena reportagem.

Les incroyables trésors de l’Histoire : Les pin’s érotiques du moyen-âge. Musée de Cluny. Le Point. França, Outubro 2013.

Previsões e antecipações

Wim Wenders. As asas do desejo.1987

Wim Wenders. As asas do desejo.1987.

Há anúncios que nos revisitam sem que tenhamos que andar para trás. O anúncio What now, what next, do Now Magazine, é notável. Um homem (ou um anjo) mediante gestos inesperados, alguns bruscos, salva pessoas de acidentes mortais. Corrige a marcha do tempo. Seguiram-se anúncios congéneres promovidos por outros órgãos de comunicação social. A comunicação social tem esta sina: prever para precaver. Não para de antecipar! Socorre-se, amiúde, de self fulfilling prophecies (William I. Thomas). Antecipar e anunciar faz parte do seu poder, o quarto poder.

As sondagens são as bruxas da política e as fadas da comunicação. Importa soletrar o futuro. Como seriam as eleições sem as sondagens? E os resultados eleitorais como seriam se a comunicação social, em vez de apregoar que (1) o candidato A vai ganhar, desconhecendo-se apenas por quantos pontos, sustentasse que (2) a disputa é acesa ou que (3) o candidato B denota uma dinâmica de vitória? São perguntas importantes para a democracia. É costume não se encontrar respostas, apenas indícios. Subsiste uma margem de ambiguidade: onde para a notícia e começa a propaganda? A “velha sociologia norte-americana” dos anos trinta a cinquenta ousou debruçar-se sobre estes problemas. Quanto à novíssima sociologia internacionalizada, desconheço a obra.

Marca: Now Magazine. Título: What now, what next. Agência: Hasan & Partners. Finlândia, 1999.

A imaginação ao poder. Os slogans de Maio 68

Les slogans de mai 68 | Archive INA

Dar poder ao poder está na ordem do dia! Alinhar, dobrar, polir e envernizar. O mundo está aparafusado e elitista. Apetece desafinar, comemorar, por exemplo, Maio de 1968, a utopia da desordem. Foi há cinquenta anos! Alguns slogans fizeram história.

“Fermons la télé, Ouvrons les yeux.”
Fechemos a televisão, Abramos os olhos.

“Je ne veux pas perdre ma vie à la gagner.”
Não quero perder a minha vida a ganhá-la.

“Il est interdit d’interdire !”
É proibido proibir.

“L’imagination au pouvoir !”
A imaginação ao poder.

“Métro-boulot-dodo.”
Metro-trabalho-casa.

“On ne tombe pas amoureux d’un taux de croissance.”
Não nos apaixonamos por uma taxa de crescimento.

“Prenons nos désirs pour des réalités !”
Tomemos os nossos desejos por realidades.

“Sous les pavés, la plage !”
Sob os paralelos, a praia.

“Soyons réalistes, demandons l’impossible.”
Sejamos realistas, reivindiquemos o impossível.

Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

Língua e pensamento

Anchor Point. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadario exterior. No último Agosto, comecei um namoro que ainda dura.

Anchor Point. V.P. Âncora. Jovem, hospedei-me vários anos na casa ao fundo com escadas exteriores. Estava alojado nesta casa quando comecei um namoro que ainda dura.

Passou uma viatura com o letreiro: AnchorPoint. Pesquisei na Internet: trata-se de uma Surf School, Escola de Surf, sedeada em… Vila Praia de Âncora (“Anchor Beach City”). Nomes de empresas, associações e outras entidades portuguesas em inglês é uma prática que se repete como uma música do Philip Glass. Consta que o inglês cativa os clientes! Um País que engole a própria língua e se dobra perante o estrangeiro deve ser um país indisposto consigo próprio, com a sua identidade. Não há património imaterial da humanidade que compense. A indiferença face à língua, falada ou escrita, reflecte-se na língua com que se pensa, logo na qualidade do pensamento. “A minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa). E a nossa?

É possível pensar condignamente em todas as línguas. Sem hierarquias. Há quem domine e pense em várias línguas. Colhe, porventura, alguma vantagem. O que me preocupa é a leveza do linguajar das zonas francas. O estar entre duas línguas sem dominar nenhuma. Estranho que Portugal pareça apostar numa política linguística, científica e cultural de zona franca.

Philip Glass. Einstein on the beach – Knee Play 1. Einstein on the beach. Ópera. 1975.