O Pecado. Michelangelo

Estou a abordar a vida e a obra de Michelangelo na Universidade Sénior de Braga e a concluir uma conversa sobre as imagens da Virgem da Piedade e da Humildade nos séculos XIV e XV.
Uma hora é um colete muito apertado. Não dá para quase nada. Informações relevantes não podem ser contempladas. Passo a colocar artigos com conteúdos que compensem essa falha. Uma espécie de complementos.
Começo com o filme russo-italiano “Il peccato – Il furore di Michelangelo”, realizado por Andrei Konchalovsky e estreado em outubro de 2019. Não se demora nas obras, concentrando-se na personalidade do artista e no ambiente da época. Tem a particularidade de relevar a importância da escolha do bloco de mármore a esculpir. Boa parte do filme passa-se nas carreiras de Carrara e acompanha o transporte do “monstro”. Segue o filme falado em italiano e legendado em espanhol.
Recordações do liceu Sá de Miranda

Esparsa
Não vejo o rosto a ninguém,
cuidais que sou, e não sou.
Sombras que não vão nem vêm,
parece que avante vão.
Entre o doente e o são
mente cada passo a espia;
no meio do claro dia
andais entre lobo e cão.
(Sá de Miranda)
Revolvo o passado. Por estímulo alheio. O Facebook conduziu-me às publicações de agosto 2021 (Jogar às cartas com o Diabo 1 a 5), a Almerinda Van Der Giezen desencantou esta entrevista de 2014: O ensino depois da Revolução. O Fernando precisou que já me tinha mostrado a fotografia. A minha memória parece uma peneira que só retém o restolho.
A vida está cheia de ruturas e viragens, mas, pelos vistos, persistem algumas linhas de fundo. Por exemplo, a alergia à disciplina e o amor, entre outros, à arte.
Reparo que me tenho autocentrado demasiado. Quase sem convívio, propicia-se o diálogo comigo mesmo. Por acréscimo, experiências recentes inspiram-me a apostar menos na invisibilidade.
Neste mundo (no outro, não sei), para que serve e a quem serve a humildade? Não resulta de escassa utilidade para o próprio? Não tende a prejudicá-lo e a beneficiar os outros? Quem prega a humildade? A quem? Pregar a humildade não costuma ser uma iniciativa de humildes.
A despropósito, as palavras humilde e humilhado partilham a mesma raiz etimológica. Ambas derivam do adjetivo humilis (perto do solo) associado ao vocábulo humus (terra ou solo). Humilde significa perto do solo, sem elevação excessiva; humilhado, remetido para o solo, rebaixado.
Na banda desenhada, por exemplo, existem personagens que brilham pela humildade ou, até, humilhação, tais como o Pateta, o Felipe e o Charlie Brown ou Calimero e o Cascão.
O Tendências do Imaginário funciona não só como diário, mas também como arquivo. Faltava esta peça. Para aceder à entrevista, carregar na fotografia acima ou no seguinte endereço: https://ensinopij1314.weebly.com/vocaccedilatildeo.html.





Falácias da Perceção

Apesar de vacinado, vim engripado do Serões dos medos. Deve ter sido um sortilégio. Por falar nos Serões dos medos, nas edições anteriores abordámos os diferentes tipos de alucinação. Mas coloca-se a questão da fidelidade da perceção mesmo quando não existe alucinação. Registamos a realidade tal como existe ou construída por nós?
Os próprios órgãos dos sentidos não são de fiar. Basta ensaiar a velha experiência de colocar uma esfera entre o dedo maior e o indicador cruzados. De olhos fechados, sentimos duas esferas em vez de uma. Acresce que o próprio desempenho dos nossos sentidos está condicionado. Atualmente, com a vista minimamente cansada e o olhar relaxado, vejo dois objetos em vez de um.

Além das perturbações inerentes aos sentidos, a nossa perceção de realidade depende tanto das pressuposições como das sugestões. Para o ilustrar, retomo, adaptando, um exemplo partilhado por Edgar Morin [tem103 anos] no livro Pour sortir du XX siècle (1981). Tal como ele, recorro à primeira pessoa.
René Magritte. The Blank Sgnature. 1965
Caminhava absorto nos meus pensamentos quando um acidente me chama bruscamente a atenção. Em frente, no cruzamento, um mercedes, que não respeitou o sinal vermelho, bateu contra um citroën “dois cavalos”. Aproximei-me disposto a prestar testemunho.
O que vi e como?
Da infinidade de informações que os meus sentidos captavam, concentrei-me apenas numa pequena parte, no acidente. Procedi, portanto, a uma abstração.
Provavelmente, não assisti ao choque propriamente dito, observei o resultado, uma vez que foquei a cena apenas após ouvir o estrondo. Ver o mercedes a não respeitar o sinal vermelho e a bater no dois cavalos resulta de uma reconstituição, de uma construção imediata e automática. Trata-se de uma sugestão que me leva a “ver” o que, de fato, não vi.
Com que olhar? O caraterístico do homem contemporâneo que tende a atribuir às coisas propriedades exclusivas do ser humano (reificação). O mercedes não desrespeitou o sinal vermelho, quem o fez foi, quando muito, o condutor.
De qualquer jeito, estava convencido que vi o mercedes a bater no dois cavalos. Ao aproximar-me, a “prova dos fatos” corrigiu-me: a frente do dois cavalos que bateu no lado do mercedes! Foi, portanto, o dois cavalos que embateu no mercedes.
Restava uma “certeza”: foi o condutor do mercedes quem desrespeitou o sinal vermelho. Pois não! O condutor do dois cavalos assumiu a culpa.
Afinal, o que sucedeu?
Não vi realmente o choque e ainda menos os momentos que o precederam. Alertado pelo estrondo, vi o resultado. A partir deste, reconstrui o resto. Quase tudo o que “vi” foi por inferência, por sugestão. Mas foi “isso” mesmo que “vi”. Para mim, uma realidade mais real do que o real.
Por que é que registei o acontecimento desse modo, nesses termos? Porque, sugestionado, o construí em conformidade com as minhas predisposições, com os meus valores e esquemas mentais. Assevera-se lógico, natural, ser o grande e forte a bater no pequeno e fraco. Raciocínio similar se aplica à questão da responsabilidade, da culpa. Trata-se de uma espécie de arquétipo que rege a minha “presciência” e (pre)visão do mundo. O que eu vejo com os meus esquemas mentais, além de se tornar mais real do que o próprio real, faz mais sentido! Ao mesmo tempo que percecionamos, atribuímos sentido, sentido que resiste à dissonância com os nossos valores e esquemas mentais.
Como testemunha num tribunal teria feito triste figura. Muitos romances policiais, como, por exemplo, do Erle Stanley Gardner, cujo protagonista é advogado, incluem episódios em que os testemunhos decisivos acabam desmontados de fio a pavio.
A festa da Bugiada e Mouriscada de S. João de Sobrado
Sobrará, ainda em férias, alguma disponibilidade para dar uma vista de olhos a um documentário extenso?
Fiz parte da equipa do projeto Festivity, coordenado pela Rita Ribeiro, que concretizou, em 2023, um livro e, em 2024, um documentário, ambos dedicados à festa da Bugiada e Mouriscada, que ocorre na véspera do S. João, na freguesia de Sobrado, concelho de Valongo. Trata-se de uma festa grandiosa e incrível, ímpar do ponto de vista estético e da adesão popular.
Seguem o documentário Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz e o capítulo “Os serviços da tarde na Festa de S. João de Sobrado: A bênção escatológica num mundo às avessas”, do livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada.
Placebomania e Mentes Perdidas

Pasmo na varanda, um cigarro nos dedos, a ver os melros a roubar a comida do gato. O quintal parece um aeroporto. Aterram por trás do limoeiro e das hortênsias. Ali permanecem escondidos alguns segundos. Seguem-se uns saltinhos até à manjedoura. Não dispensam este ritual de abordagem, embora saibam que só correm o risco de ser capturados pelo olhar.
Neste enlevo, costumam surgir-me as ideias mais parvas.
No mundo atual, os problemas multiplicam-se, reais e graves. Mas as sociedades e as organizações democráticas parecem contentar-se com placebos. Estes “panos quentes” custam, contudo, tanto ou mais do que os remédios. Quem os suporta, os mais vulneráveis, não sente fatalmente os resultados esperados. Tudo isto é má medicina.
Como tudo me lembra alguma coisa, pensei nos Placebo. Deixei os melros sossegados, ignorei os debates da televisão a transbordar de placebos e coloquei um cd. Placebos por placebos…
Esta ideia de placebomania não passa de um exercício mental. Um convite à reflexão. Não é para engolir como comida de gato.
Muros e Marés
Acabei de escrever um artigo sobre o processo de democratização após o 25 de Abril. Uma oportunidade para recordar uma das primeiras medidas do MFA: a abolição da censura prévia, rebatizada como “exame prévio” por Marcello Caetano.
O controlo e a filtragem estão de vento em popa. Sempre, agora como dantes, para proteger eventualmente alguém de preferência com um elevado sentido de missão.
Em algumas universidades, os projetos de investigação começaram a ser submetidos numa fase inicial, antes de prosseguir, à aprovação, ou validação, por órgãos próprios, designados “comissões de ética”.
Seguem dois anúncios que, contra muros e marés, apostam na esperança: o primeiro, The Journey, da 84 Lumber, foi censurado no Super Bowl 2017 pela Fox; o segundo, Make Love Not Walls, da Diesel, quer-se um hino ao amor.
Liberdade à Deriva. Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura

“Os alunos do 1° ano do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho, promovem no dia 15 de maio, no Campus de Gualtar, a 3ª edição do Deriva, um dia dedicado à intervenção e à cooperação/colaboração cultural na Universidade.
A edição de 2024 alia-se, conceptualmente, à celebração dos 50 anos do 25 de Abril, tendo sido batizada “Liberdade à Deriva”.
A organização do Deriva este ano pretende associar os conhecimentos apre(e)ndidos em contexto de aula a um projeto que quebra as fronteiras da sala, através da sua materialização, hasteando a bandeira da reciprocidade com a restante comunidade académica, que é convidada a ser parte integral do Deriva, assim como construir pontes entre o curso, profissionais no campo, instituições artísticas e culturais e a comunidade na qual se insere imersiva e participativa. Busca também tornar visível o curso de Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura frente às entidades, organizações e empresas locais e ao nível dos protagonistas da Cultura em Portugal.
Do corte com o quotidiano, ou seja, da mudança/revolta, ao convite à cocriação e à participação, encontram-se os cravos plantados há meio século, que resistem à custa de quem cria e, mais importante, o partilha.”
Segue o link para acesso ao programa:
Zodíaco do Antigo Egipto. Entre o sonho e a realidade

“Dói-te alguma coisa?
Dói-me a vida, doutor.
E o que fazes quando te assaltam essas dores?
O que melhor sei fazer, excelência.
E o que é?
É sonhar.”
(Mia Couto, O fio das missangas. Caminho, 2003)
Sonho, logo insisto! No palco de um teatro grego, a Universidade retira a máscara clássica e anda de mãos dadas com a Farsa, enquanto, devagar e sorrateiro, se aproxima o Trágico. Dou um esticão nos neurónios e catapulto-me para o outro lado do Mediterrâneo. No que resta do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egito, a 50 quilômetros ao sul de Luxor, a poeira de séculos e as inconveniências das aves ocultam relevos magníficos e pinturas prodigiosas.
Oportuna, uma equipa de arqueólogos da universidade alemã de Tübingen empenha-se numa lenta e longa limpeza, sistemática, profunda e cuidada das colunas, paredes e tetos. À semelhança dos frescos e mosaicos de Pompeia, o que cobre acaba por preservar. Oferece-se uma policromia extraordinária, quase intacta, de deuses híbridos e figuras astrológicas, incluindo um zodíaco da era ptolemaica, motivo raro importado dos babilónios ou dos romanos, que, milenar, nos interpela. Um tesouro insuspeito de cores vivas. O Egipto não se cansa de nos surpreender!
E flutuo, lúdico, a ensaiar identificar os signos: sagitário, escorpião, leão, balança, gémeos… Eis que, de súbito, esferas animadas dançam na noite escura do ecrã. Estremeço, belisco-me, esfrego os olhos… Afinal, não são sonhos, senhor(a), mas realidades!
Galeria: Fotografias do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egipto

































































