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O voo do touro

Giulio Romano. O rapto de Europa. Fim do séc. XVI.

Giulio Romano. O rapto de Europa. 1527.

Deixei-me seduzir pelo vídeo Weightless, de Jess Rosten. As imagens são impressionantes. Montado por um “cow-boy”, o touro voa a meio metro do solo! No rapto de Europa, Zeus, disfarçado de touro, também voa sobre as águas do Mediterrâneo. Há algo de sagrado na potência pesada do touro e na leveza corajosa do “cow-boy”. A besta nobre e o arcanjo guerreiro.

Título: Weightless. Direcção: Jesse Rosten. Direcção de fotografia: Matt Jeppsen. Abril 2017.

Inexoravelmente: a mulher e o desporto

Nescau Strong girls

De onde sopra o vento? As mensagens repetem-se e reverberam no pensamento. A publicidade insiste no valor ímpar do sexo feminino. O desporto também ajuda. Segundo a Nescau, produz mulheres “fortes e confiantes”:

“Campaign, created by Ogilvy Brazil, seeks to empower young women through sport. The idea came up after NESCAU® carried out a survey on girls’ attitude towards sports activities, stressing the importance of sports practice to boost confidence. The aim is to raise consumers’ awareness of the role of sport in young women’s development and ability to face the challenges of adult life. The main idea behind the movie is to show that, much in the same way sports turn boys into men, it can also turn girls into strong and confident women”.

Já tenho saudades das minhas lembranças. Acrescento uma raridade: Isabelle Mayereau, Inexorablement (Déconfiture, 1979).

Marca: Nescau. Título: Strong girls. Agência: Ogilvy & Matter Brasil, Rio do Janeiro. Direcção: Daniel Lombardi. Brasil, Março 2017.

Isabelle Mayereau. Inexorablement. Déconfiture. 1979.

Milagres esféricos

Canal + L'amnésique

Raras são as realidades que nos mobilizam tanto como o futebol. Mobiliza o corpo, a alma e o resto. Uma comunhão prodigiosa. A bola faz milagres, inspira os apóstolos e consagra as estrelas, como Pauleta. Nem sequer falta “a mãozinha de Deus”. Devolver a memória a um amnésico é a menor das proezas.

Marca: Canal +. Título: L’amnésique. Agência: BETC Paris. França, Fevereiro 2017.

Pisar o risco

equality

Nike. Equality. 2017.

Seis anos separam os anúncios Border (Fevereiro de 2011) e Equality (Fevereiro de 2017). Uma distância apreciável em termos de publicidade. Duas marcas de topo: a Coca-Cola e a Nike; uma mesma agência de topo, a Wieden + Kennedy.

Comecemos pelo anúncio mais recente.

“Nike has a long history of speaking up for causes that reflect its values. That continues today with the launch of EQUALITY, in which Nike encourages people to take the fairness and respect they see in sport and translate them off the field.

EQUALITY is centered on using Nike’s voice and the power of sport to inspire people to take action in their communities, with Nike leading by example with its recently announced partnerships with world-class organizations dedicated to advancing this work.

A new film, simply titled “Equality,” anchors these values in the power of sport. The film, directed by Melina Matsoukas, features LeBron James, Serena Williams, Kevin Durant, Megan Rapinoe, Dalilah Muhammad, Gabby Douglas, and Victor Cruz, amplifying their voices in an effort to uplift, open eyes and bring the positive values that sport can represent into wider focus. “Equality” also features actor Michael B. Jordan, who voices the film, and a new performance by Alicia Keys, singing Sam Cooke’s “A Change Is Gonna Come” (http://news.nike.com/news/equality).

O anúncio Equality abraça algumas ilusões e desdobra-se em contradições. Podia ser de outro modo quando o tema é a igualdade? Não é porque se partilha um espaço comum com regras iguais para todos que a igualdade acontece. Norbert Elias (The Established and the outsiders, 1965), Pierre Bourdieu (La Reproduction, 1970) e Raymond Boudon (L’Inegalité des Chances, 1973) desmontaram, a seu tempo, esta ilusão. Se o sonho se quer olímpico, convém reconhecer que foi sempre um sonho, inclusivamente na Grécia Clássica (ver Norbert Elias & Eric Dunning, A busca da excitação, 1992). Para relativizar a crença no igualitarismo dos jogos olímpicos, aconselho a leitura de Jean-Marie Bhrom (Sociologie politique du sport, 1976) e o visionamento do filme Olympia de Leni Riefensthal (1938). Nos bons momentos, no desporto há fair-play, que, segundo Norbert Elias, emergiu há séculos em Inglaterra e consistiu na seguinte novidade: os oponentes deixam de se encarar como inimigos e passam a encarar-se como adversários, que importava vencer mas não eliminar. O fair-play valoriza o jogo, não nivela nem confunde os jogadores. O que vale para as “quatro linhas”, vale para o entorno, para os públicos e os aficionados. O desporto não exala fatalmente igualdade, os públicos tão pouco a respiram. Um desportista pode valer quarenta vezes mais que outro. No liceu, quando havia um intervalo, a turma costumava jogar futebol. Dois colegas eram encarregues de construir as equipas. O primeiro escolhia um colega, o segundo, outro; dos restantes, o primeiro voltava a escolher um colega e o segundo, outro; e assim do melhor ao pior até ao último. Cada intervalo bradava aos céus uma hierarquia. O anúncio Equality mergulha-nos numa dupla ilusão: a igualdade predomina nos jogos desportivos; essa igualdade é exportável para os públicos envolventes.

Para além das ilusões, o anúncio Equality confronta-nos com várias contradições. Como construir um discurso de igualdade com a voz das elites? Atendendo a Vilfredo Pareto, elites existem em todos os domínios (Tratado de Sociologia, 1916). “Amplificados”, os “embaixadores” do anúncio constam entre os melhores do mundo do desporto. Vislumbra-se um pequeno paradoxo: criar igualdade com desigualdade. Não é impossível: a história da Europa é fértil nesse tipo de proezas. Do ponto de vista formal, a câmara em “voo de águia” intercala o desfile das celebridades. Estamos nas alturas. Acrescentando o texto e a música, sentimo-nos mais capacitados e empolgados do que igualados.

Que um anúncio se manifeste vulnerável aos olhos do sociólogo, não o diminui. Um anúncio publicitário não tem que ser académico. Os argumentos e os propósitos são distintos. O critério de valor de um anúncio radica, principalmente, na sua performance. Pedir que obedeça às regras da Sociologia é mera vaidade terrorista, no sentido de aplicar a lógica de um discurso a um discurso de outra lógica. Equality sobressai como uma obra excelente. Graças, em parte, às ilusões e às contradições. Seduz e mobiliza, com ou sem falhas sociológicas. Reconhecer os limites de um discurso só faz bem à palavra. Daqui para o Qatar, um abraço a um amigo, dos poucos que me sabe aturar.

O segundo anúncio, Border, é aparentemente mais simples. Meticulosamente minimalista e francamente humano. A linha e a fronteira existem. A diferença disciplinada, também. Mas quando os homens querem conseguem, apesar da adversidade, fintar fronteiras, comunicar e partilhar vontades. Nem que seja por um tempo. A câmara raramente é panorâmica e ainda menos paira nas alturas. O registo é o da proximidade demarcada. A marca do anúncio reside em visar mais os pormenores do que os detalhes. Os pormenores, a começar pelo folha de papel, ajudam a construir o todo. Os detalhes testemunham o todo. Simplificando Omar Calabrese (A Idade Neobarroca, 1987), o pormenor vai da parte para o todo, o detalhe, do todo para a parte.

Marca: Nike. Título: Equality. Agência: Wieder + Kennedy. Direcção: Melina Matsoukas. Estados Unidos, Fevereiro de 2017.

Marca: Coca-cola. Título: Border. Agência: Wiener + Kennedy Portland. Editor: Steve Gandolfi. Estados Unidos, Fev. 2011.

Recomeço

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Adónis. Estátua de mármore restaurada no séc. XVII. Louvre.

Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
(Rafael Alberti, 1917-1999, Balada para los poetas andalúces de hoy. Ora Maritima. 1953).

O anúncio Del Potro, da Nike Argentina, exorta ao exercício físico e ao cuidado corporal. Te da ganas de ser un hombre. Tanta evidência é de desconfiar. O mais avisado é ouvir os responsáveis pelo anúncio:

“Después de una lesión que casi lo obliga a dejar el tenis, Juan Martín del Potro tuvo un regreso triunfal en 2016. Ganó la medalla de plata en los Juego Olímpicos y, este fin de semana, participó de la victoria del equipo argentino en la Copa Davis. Como un homenaje a todo este esfuerzo, Nike y BBDO realizaron una pieza audiovisual que se publicó antes de la final de la Davis.” (http://www.adlatina.com/publicidad/nike-y-bbdo-rescatan-la-esencia-del-%E2%80%9Cjust-do-it%E2%80%9D-en-la-historia-de-del-potro).

O anúncio centra-se no percurso de Del Potro, jogador de ténis argentino. Condiz com o lema: “Se a tua carreira chegou ao fim, começa uma nova”. Como é costume, esta pessoalização não obsta a leituras mais abrangentes. Pelo contrário, o particular, o “embaixador” Del Potro, ancora e alavanca o geral. Moral à parte, enfatiza-se a actividade corporal. Advoga o investimento físico e, em caso de acidente, o reinvestimento físico, rumo à excelência. With a little help from Nike. É a estética e a ética do guerreiro (Norbert Elias). Segue, a preceito, a canção de Edith Piaff: T’es beau tu sais (1960).

Marca: Nike. Título: Del Potro. Agência: BBDO Argentina. Direcção: Verónica Zetta. Argentina, Dezembro 2016.

Edith Piaff. T’es beau tu sais. C’est l’amour. 1960.

T’es beau tu sais

T’es beau, tu sais
Et ça s’entend lorsque tu passes.
T’es beau, c’est vrai.
J’en suis plus belle quand tu m’embrasses.
Je te dessine du bout du doigt :
Ton front, tes yeux, tes yeux, ta bouche.
Comment veux-tu dessiner ça ?
La main me tremble quand j’y touche…
T’es beau, mon grand,
Et moi, vois-tu, je suis si petite.
T’es beau tout le temps
Que ça me grandit quand j’en profite.

Reste là, ne bouge pas.
Laisse-moi t’imaginer.
T’as l’air d’être l’été,
Celui qui pleut jamais.
Reste là, bouge pas.
Laisse-moi quand même t’aimer.
Je ne peux même pas penser
Que je te méritais.

T’es beau, tu sais.
Ça m’impressionne comme les églises.
T’es beau, c’est vrai,
Jusqu’à ta mère qu’en est surprise.
Tu me réchauffes et tu m’endors.
Tu fais soleil, tu fais colline.
Viens contre moi, il pleut dehors.
Mon coeur éclate dans ma poitrine.
T’es beau partout.
C’est trop facile d’être sincère.
T’es beau, c’est tout.
T’as pas besoin de lumière.

Il était beau et c’était vrai
Mais la gosse ne le voyait pas,
Ses yeux perdus à tout jamais.
Il en pleurait
Quand il guidait ses pas.

T’es beau, tu sais.
T’es beau, c’est vrai.
T’es beau, tu sais.
T’es beau, c’est vrai…

José Mourinho

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José Mourinho é um herói do relvado. Neste anúncio, exorta as tropas com as sombras de Batman e as trombetas de Josué. A mascote, salsicha, não fala inglês. É a parte mais original do anúncio. Seguem as versões inglesa e espanhola.

Marca: Heineken. Título: The Speech. Agência: Publicis Italy. Direcção: Guy Ritchie. Itália, Setembro 2016.

Sede de vencer

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O anúncio da Vitalis propõe-se homenagear os paralímpicos portugueses adoptando uma retórica de superação física.

“O vídeo é um manifesto sobre motivação, superação, empenho e trabalho árduo, retratado pela força e garra dos vários atletas paralímpicos da delegação portuguesa, que participam no filme.”

“E tu tens sede de quê?” Do resto. De outras águas, menos agonísticas. Será inevitável a sede, sofrida, de vencer? A propósito dos jogos olímpicos da Antiguidade, Norbert Elias falava em “ética do guerreiro”.

Boa voz, boa imagem, belo anúncio!

Marca: Vitalis. Título: E tu tens sede de quê? Agência: Havas. Direcção: Pedro Pinto. Portugal, Setembro 2016.

A Cruz

La croixEste anúncio assenta num trocadilho entre a Cruz de Cristo e “A Cruz” da imprensa (La Croix). Promove uma transferência simbólica de uma para outra devoção. “A Cruz” (La Croix) reforça-se com o contágio da Cruz (de Cristo). “La Croix ce n’est pas uniquement ce que vous croyez”. Para caracterizar o religioso basta, neste anúncio, o coro e a oração. Passa-se, sem demora, de um coro e de uma oração religiosos para um coro e uma oração desportivos. Junto o excelente texto de Macel Mauss sobre a oração (1909), em pdf: Marcel Mauss. A Oração. 1909.

Marca: La Croix. Título: La Croix, ce n’est pas uniquement ce que vous croyez. Agência: BETC. França, Janeiro 2016.

Ouro sobre rodas

BMW GoldA publicidade, à semelhança da moda, conhece “variações sazonais”. Ora arrefece, ora se inflama; ora satura um tema, ora o abandona. Existem pontos críticos no calendário dos anúncios. Durante os jogos olímpicos, o mundial de futebol ou o Super Bowl, os investimentos e os consumos de publicidade atingem picos excepcionais. Tudo é concebido e programado até ao mais ínfimo pormenor. Atente-se na polémica em torno dos pedidos da NBC no sentido de alterar, nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, a sequência das nações e retardar os finais de natação (http://wp.clicrbs.com.br/brasilolimpico/2016/07/27/tv-norte-americana-quer-alterar-desfile-das-delegacoes-na-cerimonia-de-abertura-dos-jogos-rio-2016/?topo=52,1,/,,171,77). Nalguns casos, os temas condizem com o evento, como nos jogos olímpicos ou no futebol, noutros, como no Super Bowl, não há correspondência.

Esquematizemos: jogos olímpicos ou paralímpicos conjugam-se com competição; a superação, com performance; o culto da técnica, com o homem máquina; enfim, quando os tubarões são filantropos, toda a generosidade é pouca. Velocidade, perfeição, técnica, humanidade. “Ouro sobre rodas”. BMW.

Marca: BMW. Título: Built for gold. Agência: KBS. USA, Agosto 2016.

Bebés desportistas

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“E ao fim de cinco anos… Portugal voltou a ter mais bebés” (http://www.dn.pt/sociedade/interior/e-ao-fim-de-cinco-anos-portugal-voltou-a-ter-mais-bebes-4984930.html), acedido 01.08.2016.

“Estimativas do Instituto Ricardo Jorge, feitas com base nos “testes do pezinho”, realizados no âmbito do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, nasceram em Portugal, no primeiro trimestre deste ano, 20.992 crianças, mais 7% do que nos três primeiros meses de 2015. No ano passado, o crescimento face a 2014 já tinha sido de 4%” (http://rr.sapo.pt/noticia/52492/estao_a_nascer_mais_bebes_em_portugal_mas_falar_em_baby_boom_e_exagero), acedido, 01.08.2016).

“Há uma tendência de inversão e não foi só porque o número médio de filhos por mulher aumentou: há também uma diminuição da emigração e um aumento da entrada de imigrantes” (Maria Filomena Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Demografia, https://www.publico.pt/sociedade/noticia/portugueses-continuam-a-envelhecer-e-a-diminuir-apesar-de-terem-nascido-mais-bebes-1735304), acedido 01.08.2016.

É motivo de notícia a inversão de tendência da natalidade em Portugal. Vem a preceito um anúncio recente da Nike: Unlimited Future. Na sala, estão dezenas de bebés geometricamente dispostos. Um homem omnisciente discorre sobre o futuro. Predestinação? Aplicação? Alguns bebés já estão identificados com nomes de celebridades… Qual o resultado desta puericultura empreendedora? Um futuro sem limites? Um admirável mundo novo? Um desportista atlético, disciplinado, competitivo, sempre a ultrapassar a sombra.

Marca: Nike. Título: Unlimited Future. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Julho 2016.