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As botas do Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo

Um novo anúncio da Nike. Ou do Cristiano Ronaldo. Diz-se das duas maneiras. Mais umas botas da Nike associadas a Cristiano Ronaldo. O mais ilustre dos portugueses. Um herói que entra, por acréscimo, no mundo fantástico e artístico da animação.

Marca: Nike. Título: Christiano Ronaldo. Produção: Dirty Robber. Direcção: Caleb Woods. Internacional, Outubro 2020.

Dividir o ecrã, aproximar os contrários

Nike. You can’t stop us. 2020.

John Ferreira, amigo de juventude, envia-me o anúncio You can’t stop us, da Nike (vídeo 1). Um split screen impecável, com um enorme sucesso. A marca Nike e a agência Wieden + kennedy costumam rondar a perfeição. Têm um quase nada que produz um não sei quê ofuscante. Proclama-se, por exemplo, que “o anúncio da Nike une os contrários”. Nos outros anúncios congéneres são os contrários que se unem? Lembro um anúncio muito expressivo que culmina com a interposição de um braço para defesa de uma bola. Está algures no Tendências do Imaginário, mas não o encontro. Em 2007, já se faziam anúncios com split screen. É o caso do anúncio francês Double Energie, da Total (vídeo 2). Noutro domínio, o vídeo musical Go Up, de Cassius, com direcção de Alex Courtès, revela-se, porventura, mais ousado e mais criativo (vídeo 3). Nenhum destes vídeos atingirá os 58 milhões de visualizações entretanto ultrapassados pelo anúncio da Nike. Às vezes, parece que quando há fogo-de-artifício hegemónico, o resto do mundo pode apagar-se.

Marca: Nike. Título: You can’t stop us. Agência: Wieden + Kennedy. Estados-Unidos, Setembro 2020.
Marca: Total. Título: Double énergie. França, 2007.
Cassius. Go up. Ft. Cat Power + Pharrell Williams. Directed by Alex Courtès. Production by DIVISION. 2017.

Vídeo musical publicitário

“Bebé patrocinado”.

Pode um vídeo musical fazer publicidade a uma marca comercial? Por que não?

Drake – Laugh Now Cry Later (Official Music Video) ft. Lil Durk. 2020.

Regressar

Semideuses, quase divinos, os ídolos desportivos vingam na comunicação e na publicidade. No anúncio Never too far down, da Nike, o basquetebolista Lebron James, a tenista Serena Williams, o jogador de golfe Tiger Woods e o futebolista Cristiano Ronaldo persuadem-nos que vamos recuperar (da pandemia). Não há abismo ou descaminho que não tenha regresso. Estes quatro campeões não são peritos em coronavírus, mas são magos da bola. Possuem aura e argumentos. Exorbitam. A sequência com o maratonista a arrastar-se até à meta (ver imagem) é a quintessência da mensagem do anúncio: importa resistir, mais que resistir, importa não desistir.

Com a mestria da agência Wieden + Kennedy, uma das melhores a nível mundial, as imagens dos rostos, dos corpos e das posturas dos atletas resultam magníficas, quase transcendentes. Lembram as esculturas da Grécia Clássica. Lembram, também, os atletas do filme Olympia, de Leni Riefenstahl (1936). Será que existe uma estética dos semideuses desportivos? Aproxima-se da estética dos semideuses militares? Afasta-se da estética dos semideuses poetas?

Marca: Nike. Título: Never too far down. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Lance Acord. Estados-Unidos, Maio 2020.

Sem asas. A paixão do risco

Comecei a escrever esta obra de um modo intermitente a partir de 1985; estava então abalado com a importância crescente das condutas de risco e a mitologia emergente da aventura nas sociedades ocidentais que, no entanto, não paravam de valorizar a segurança. Senti, depressa, a necessidade de compreender a significação destas acções dispersas cujo denominador comum era uma relação imaginária ou real com a morte. Jogar por um instante a sua segurança ou a sua vida, com o risco de a perder, para ganhar, enfim, a legitimidade da sua presença no mundo ou, simplesmente, arrancar da força do instante o sentimento de existir, logo sentir-se fisicamente envolvido, seguro da sua identidade. Esta situação lembrava os anos sessenta, período da grande vaga proveniente dos Estados-Unidos, início de uma crise da juventude, que se exprimia na demanda dos “caminhos de Catmandu” ou na droga, no empenhamento político nas posições extremas e se resolvia, por vezes, com a morte. Assim foi a minha geração. Vi desaparecer amigos. Eu próprio parti para o Brasil pensando nunca mais regressar a França. Resta-me, hoje, o sentimento de ser um “sobrevivente”, uma certa culpabilidade de estar ainda aqui e de ter escapado, sem sempre o desejar, às armadilhas que se erguiam na minha estrada. Não esqueço alguns rostos. E a perturbação de outrora regressa, às vezes, para me assombrar e recordar o preço da existência presente. A consciência da precariedade e da incompletude é uma garantia do fervor de quem teve a sorte de ter regressado da viagem” (David Le Breton, Passions du risque. Paris, Éditions Métailié. 1991, p. 9. Minha tradução).

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Clarins. The ad you can feel. Rússia, Maio 2020.

O parkour nos rebordos dos tectos das cidades assume-se como uma das paixões actuais do risco. A pós-produção do anúncio russo The ad that you can feel, da Clarins, é soberba. Mostrei o anúncio ao meu rapaz mais novo.

  • Já vi essas imagens há muito tempo.
  • Como? Saíram há três dias.

Mostra-me um vídeo datado de 2017. Não há razão para fabricar o extraordinário quando este está disponível. Adquire-se! O resultado é um desfile de arrepios.

Oleg Cricket Remix (Extreme Parkour). Scoreback. Rússia, 2017 (?)

O David Le Breton teve a gentileza de participar no seminário “o trágico e grotesco no mundo contemporâneo”, que organizei, em 2005, no Mosteiro de Tibães. No mesmo ano, nas minhas provas de agregação, um membro do júri criticou a escrita: “tudo parece simples, até as soluções parecem fáceis”. Sou um indigente da complicação. O Tendências do Imaginário enferma do mesmo vício: tudo aparece tão simples que até parece simples. A alta sabedoria acredita que reunir informação e apresentá-la com clareza é falta de profundidade ou pobreza de espírito. O conhecimento quer-se como um mistério medieval: reservado e aflitivo.

O aperto de mão em tempos de pandemia

A publicidade não está imune ao coronavírus. Multiplicam-se os anúncios que aludem à pandemia. Com mais ou menos propósito. Nalguns casos, é preciso algum esforço para descobrir a ligação. Seleccionei dois anúncios em língua portuguesa. O primeiro, brasileiro, Keep your distance, da Universidade do Futebol, assinala como um gesto, a recusa do aperto de mão, pode mudar de sentido, de feio para bom, de ofensa para consciência, consoante o contexto. O segundo, português, It’s Victor Fault, da Lobby, inspira-se na origem, presumivelmente vampírica, do vírus. Dois vampiros conversam sobre as vantagens e as desvantagens do coronavírus. A agência aproveita para fazer auto-promoção.

Marca: Universidade do Futebol. Título: Keep your distance. Agência: Liberdade. Direcção executiva: Fabiana Zat Livardi. Brasil, Março 2020.
Marca: Lobby. Título: It’s Victor Fault. Agência: Lobby. Portugal, Março 2020.

Legado

Mordillo. Futebol e Cartuns (Panda Books, 2015)

Um velho, de aparência modesta, recebe uma chamada e sai apressado de casa, a pé e de autocarro, ao frio, com um pequeno embrulho debaixo do braço. Depara-se com outro velho, de aparência abastada. Dispensa o elevador, corta por corredores e escadas. Mas chega a tempo: o neto recém-nascido ostenta a camisola do Atlético de Madrid quando entra o segundo avô com a camisola, pressupõe-se, do Real Madrid. O anúncio, mudo, perfilha a crença segundo a qual “o Real Madrid é associado a uma torcida mais elitista, enquanto o Atlético é visto como um clube de torcida mais popular”. A ideia tácita de uma filiação clubística familiar, de geração em geração, justifica um inquérito.

Marca: Atlético de Madrid. Título: Otra forma de entender la vida. Agência: Sra. Rushmore. Espanha, Dezembro de 2019.

O espectáculo da violência

Bundesliga, Bayer Leverkusen 2 – Bayern Munich 0. 2015.

Quem só vive de ideias alheias é um cemitério do pensamento (AG).

No tempo em que escrevia artigos para revistas, classifiquei o futebol e o rugby como “simulacros de batalha” (“O desporto do nosso contentamento”, 2002, acessível em https://tendimag.com/2011/10/30/o-desporto-do-nosso-contentamento/). Seguia as pegadas de Johan Huizinga, Roger Caillois, Jean-Marie Brohm, Pierre Bourdieu e Norbert Elias.

Peguei na ideia, coloquei-a numa garrafa (de madeira) e lancei-a ao estuário. Afastou-se, aproximou-se, afastou-se aproximou-se, até que desapareceu. Surgem, entretanto, outras garrafas que lembram a minha. É o caso, ilustrativo, do anúncio Be Their Armour, da O2 Sports:

At O2, we’ve always believed that the power of support can help England overcome any obstacle, and your support during this autumn is no different. It acts like armour for the players; every tweet is another link of chainmail, every roar of support is another piece of armour and together we can make them stronger.

Marca: O2 Sports. Título: Be their armour. Agência: VCCP. Direcção: Sam Brown. Reino Unido, Setembro 2019.

Género e publicidade

Figura 1. Adidas. Hat-trick para la historia. 2019.

Uma jornalista pediu-me a opinião sobre o protagonismo actual da figura da mulher e das minorias, designadamente nos media. Por exemplo, o próximo filme da saga 007, cujo protagonismo é atribuído a uma mulher negra. Este é um assunto que, para evitar contratempos, costumo esquivar.

O protagonismo das mulheres não é novidade, nem nos filmes, nem nos videojogos. Recordo, por exemplo, Lara Croft. Esgotada, a fórmula da saga 007 requer uma “refundação”.

A publicidade é um barómetro das mudanças de valores. É abrangente, com ancoragem nas dinâmicas sociais. O cinema, em contrapartida, é mais lento, mais denso, mais profundo, mais complexo e possui outros desígnios.

A fazer fé na publicidade, a figura da mulher está a passar por uma fase ostensiva. Muitos anúncios falam de mulheres, incluem mulheres e promovem, explicitamente, as mulheres.

Para ilustração, escolho, entre muitos, três anúncios.

Vídeo 1. Marca: Adidas. Título: Hat-trick para la historia. Agência: VMLY&R Argentina. Direcção: Facundo Españon. Argentina, 21 de Agosto de 2019.

O anúncio argentino Hat-trick para la historia, da Adidas, resgata o episódio de uma futebolista que, no mundial de 1971, marcou quatro golos à selecção feminina da Inglaterra. O anúncio propõe a criação, a 21 de Agosto, do “Dia da Futebolista em Argentina”. Convém referir que já existe o Dia do Futebolista em Argentina, a 14 de Maio. A justificação é semelhante: comemora um golo da vitória da Argentina contra a Inglaterra em 1953. Existe, ainda, o Dia do Treinador de Futebol a 13 de Novembro. O Hat-trick para la historia, da Adidas, lembra o anúncio da Nike publicado no passado mês de Julho (ver vídeo 3).

Vídeo 2. Marca: Laboratorios Roemmers / Sertal Fem. Título: No existen. Agência: ADN Comunicación. Direcção: Dario Sabina. Argentina, 14 de Agosto de 2019.

Publicado há uma semana, o anúncio argentino No existen, da Sertal Fem (vídeo 2), empenha-se em rebater estereótipos de género: “não existe roupa de mulher, nem um estilo de mulher, não existem desportos de mulher (…) nem os hobbies de mulher, mas existem, isso sim, coisas que são só nossas; por isso, para o odor menstrual existe Sertal Fem”. Não existem diferenças, salvo as diferenças.

Vídeo 3. Marca: Nike. Título: Never stop winning. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, 7 de Julho de 2019.

O anúncio Never stop winning, da Nike, é um hino à mulher. Uma apoteose. Retomo o vídeo e o comentário do artigo Coroa de Louros:

“O futebol já não é o que era. Nunca foi! As mulheres jogam, treinam e sonham. No futebol, como no resto, aspiram ser as melhores.
Uma equipa feminina de futebol, a selecção americana, venceu o campeonato do mundo de futebol feminino de 2019. O sentido de oportunidade da Nike e a categoria da agência Wieden + Kennedy resultaram numa campanha de publicidade que alia visão, drama e emoção. Never stop winning estreou no dia 7 de Julho, dia da vitória da selecção americana.
Acrescento dois anúncios da Nike, do mesmo teor, publicados antes da edição do campeonato do mundo de futebol feminino (7 de Junho a 7 de Julho, em França): Dream with us (12 de Maio) e Dream further (1 de Junho). Estes hinos e chamamentos da Nike são excessivos, quase sagrados” (https://tendimag.com/2019/08/12/coroa-de-louros/).

Desconheço a política relativa ao género e às minorias das marcas Nike e Adidas. O mesmo para as agências Wieden + Kennedy e VMLY&R. À partida, o que lhes interessa é a promoção da marca junto do público. Sintonizar a bússola da sensibilidade colectiva. É verdade que, após décadas de mobilização, o género e as minorias estão na crista da onda. Mas a crista não é a onda e a onda não é o mar.

A Nike é omnívora em termos de causas sociais. Afirma-se como um expoente de “responsabilidade social”. O que não a impede de assinar anúncios com algum acento na virilidade. Creio ser o caso do anúncio Couldn’t Be Less Nice (Canadá, 2017).

O anúncio Couldn’t Be Less Nice, da Nike, convoca a violência, com os estereótipos do costume: a oscilação entre simpatia e agressividade; a figura do violento bom vizinho e amigo dos animais; e a profecia do vencido de que a força está do lado do inferno. O protagonista é uma versão do Alex, o vilão (sexista) do Laranja Mecânica (1971). A própria música do anúncio convoca a banda sonora do filme. A abertura de O Barbeiro de Sevilha (1816), de Gioachino Rossini, condiz com a abertura de La Gazza Ladra (1817) e a abertura de Guillaume Tell (1829), do mesmo compositor, incluídas no filme Laranja Mecânica ( https://tendimag.com/2018/01/22/o-lado-feio/ ).

Tudo indica que este anúncio da Nike foi retirado de circulação. No Tendências do Imaginário, deixou de estar acessível. Reproduzo-o neste artigo graças ao site Culturpub. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem. Também pode aceder neste endereço: http://www.culturepub.fr/videos/nike-couldn-t-be-less-nice/.

Vídeo 4. Nice. Couldn’t Be More Nice. 2017.

Coroa de louros

Nike. Never stop winning. 2019

O futebol já não é o que era. Nunca foi! As mulheres jogam, treinam e sonham. No futebol, como no resto, aspiram ser as melhores.

Uma equipa feminina de futebol, a selecção americana, venceu o campeonato do mundo de futebol feminino de 2019. O sentido de oportunidade da Nike e a categoria da agência Wieden + Kennedy resultaram numa campanha de publicidade que alia visão, drama e emoção. Never stop winning estreou no dia 7 de Julho, dia da vitória da selecção americana.

Acrescento dois anúncios da Nike, do mesmo teor, publicados antes da edição do campeonato do mundo de futebol feminino (7 de Junho a 7 de Julho, em França): Dream with us (12 de Maio) e Dream further (1 de Junho). Estes hinos e chamamentos da Nike são excessivos, quase sagrados. Por feitio e por memória, dispenso as exaltações colectivas. Se visionar apenas um anúncio, Capta o essencial do dispositivo da campanha.

Marca: Nike. Título: Never stop winning. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, Julho 2019.
Marca: Nike. Título: Dream Further. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, Junho 2019.
Marca: Nike. Título: Dream with us. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, Maio 2019.