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Acima do céu

A vida é um percurso pautado pela vocação:

“Eu sempre soube que queria ser arquiteta. Aos doze anos comecei a desenhar planos de casas”.

A vida é uma ascensão piramidal, com plataformas de lançamento. Uma odisseia individual. Uma provação qualificadora.

“Saí de Espanha pela primeira vez aos dezassete anos. Sair de Santiago de Compostela para o Norte de Inglaterra foi um grande choque cultural. Comecei a minha carreira em Manchester e consolidei-me em Londres durante dez anos (…) O maior desafio foi a mudança para Nova Iorque (…): fui para a grande maçã. Um momento de loucura, mas também um momento de determinação absoluta, perseverante, obsessiva (…).

Acima do céu, mora o sucesso merecido. O êxito. A consagração. A febre do chamamento.

“Três anos mais tarde, era vice-presidente de uma companhia de promoção imobiliária de grande talento e já tinha construído o meu primeiro edifício em Brooklyn (…) Dois anos depois montei a minha própria empresa”.

Qual é o etos desta arte do bom sucesso? Aproxima-se da ética protestante (Max Weber). Um modo de estar num mundo global teimosamente moderno.

“Não acredito nas casualidades. Creio na determinação, na perseverança, no esforço. O talento é apenas um veículo em que nos transportamos. O combustível”.

Berta Willisch, arquiteta reputada, está, sempre esteve, em estado de graça. Estado que soube aproveitar. Sempre a mesma Berta Willisch, do berço ao topo.

Marca: Abanca. Título: No creemos en las casualidades. Agência: Shackleton. Espanha, Maio 2021.

Adrenalina

Pieter Paul Rubens. A queda de Ícaro. 1636.

Cosmos, estratosfera, voo, liberdade. Vertigem, aceleração, velocidade, adrenalina. Queda, mergulho, regeneração, biografia. Instante, Intensidade, vitalismo. Emoção, corpo, plenitude. Radical, risco, ousado, não convencional. A estética e a sensualidade como marcadores da experiência humana. Flores da nossa (pós)modernidade, valores do tempo presente. Cupra, marca do novo automóvel do grupo SEAT, aposta vigorosamente neste anúncio. Com a participação da atriz Nathalie Emmanuel (A Guerra dos Tronos) e música original de Loyle Carner, o anúncio estreia no intervalo do jogo de futebol entre o Real Madrid e o Barcelona.

Pieter Brueghel O Velho. Paisagem com a queda de Ícaro (ca. 1558).

As imagens do anúncio lembram a figura de Ícaro. Seguem duas pinturas: uma de Pieter Brueghel (Paisagem com a queda de Ícaro, 1558), a outra de Pieter Paul Rubens (A queda de Ícaro, 1636).

Marca: Cupra. Título: Drive, live, feel another way. Agência: &Rosas. Direção: Nicolas Mendez. Espanha, Janeiro 2021.

A canção dos pássaros. Pablo Casals

Juan Fernández. Portrait du violoncelliste Pablo Casals. 1958.

A música expulsa o ódio dos que vivem sem amor. Dá paz aos que não têm descanso, e consola os que choram (Pablo Casals).

A tempestade promete a bonança. Pablo Casals, compositor, maestro e violoncelista catalão, foi um acérrimo defensor da democracia em tempos adversos de franquismo, fascismo e nazismo. Song of the birds (El cant dels ocells), uma composição para violoncelo de Pablo Casals, inspirou várias interpretações. Retenho duas: a interpretação pelo próprio Pablo Casals, na Casa Branca, em 1961; e a adaptação da ucraniana Nataliya Gudziy, caraterizada por uma singularidade e uma simplicidade amigas da beleza.

Pablo Casals. Song of the birds (El cant dels ocells). White House. 1961.
Nataliya Gudziy. Song of the Birds (El Cant dels Ocells). Kobzar / Nataliya3. 2014.

Nove meses

Gustavo Rosa. Ela grávida laranja amarelo. 1971.

O José Neves enviou-me o anúncio 9 meses, da Volkswagen. Interpretar é jogar o jogo. Um coro trágico recita notícias pandémicas. Um automóvel segue o seu destino. O coro silencia-se e o automóvel estaciona junto a um hospital. Sai um casal. O homem ajuda a mulher grávida. O ambiente ambarino, “o âmbar de um tempo humano e divino” (https://tendimag.com/2017/06/28/despasmar-o-prazer/), é complementado pela tranquilidade do azul celeste. Apesar das ameaças, o Volkswagen transporta, seguro e sereno, a vida. O anúncio é marcado pelo sentido de oportunidade: nove meses de gravidez, nove meses de pandemia. Recorre a dualidades clássicas: a morte e a vida: a ameaça e a proteção. Não obstante o momento trágico, o anúncio emana esperança: “apesar de todo, la luz siempre encontra el caminho”.

Marca: Volkswagen España. Título: 9 meses. Espanha, dezembro 2020.

O medo e a culpa. Covid-19

SNS 24. Não deixes o vírus entrar, usa máscara sempre que possível. Dezembro 2020.

“Jouer sur la peur c’est décrédibiliser toute information “ (Lecorps, Philippe, L’éducation par la peur, une campagne anti-tabac. Santé Publique 2002/3, Vol. 14, p. 285).

A educação pelo medo e pela culpa tem um lastro histórico imenso. A eficiência é, no entanto, duvidosa, mesmo nas sociedades medonhas dos regimes totalitários. O medo e a culpa convocam mais a emoção do que a razão. Nestes termos, a reação corre o risco de ser irracional e imprevisível. Na fase atual da pandemia, multiplicam-se anúncios que lembram a campanha antitabaco: imagens duras, pautadas pela aflição e pela contrição. Incomodam-me duas eventualidades: De tanto recorrer à imagem do mal, não o banalizamos? O que significa assustar uma comunidade assustada? Faço votos que as campanhas de prevenção da Covid-19 colham mais sucesso do que a campanha antitabaco. Selecionei, entre os menos chocantes, sete anúncios: dois portugueses e cinco espanhóis (vídeos 3, 4 e 5). Pensamento obtuso não tem conserto. Lamento!

Anunciante: SNS/DGS. Título: Cabe a cada um de nós fazê-lo parar. Portugal, novembro 2020.
Anunciante: SNS/Portal do SNS. Título: COVID-19 | Não deixes o vírus entrar – Última ceia. Portugal, dezembro 2020.
Anunciante: Comunidad de Madrid. Título: ¡Protégete, protégenos! Espanha, agosto 2020.
Anunciante: Consejería de Sanidad del gobierno de las Canarias. Título: “Una simple reunión familiar puede traerte de regalo 40 días en coma o incluso la muerte”. Espanha, Julho 2020.
Anunciante: Comunidad de Madrid. Sequência com três anúncios.

Um milhão de visualizações

As recordações são as nossas forças (Victor Hugo).

René Magritte. Golconda. 1953.

Existem números e números. Por exemplo, os números redondos, especialmente aqueles que coincidem com o acréscimo de um dígito: uma dezena, uma centena, um milhar, um milhão… Mas existem outros. Alguns parecem deter uma espécie de hegemonia simbólica. Por exemplo, o número três. Afirma-se decisivo na visão tripartida do mundo dos indo-europeus (Georges Dumézil. 1968. Mythe et épopée – L’Idéologie des trois fonctions dans les épopées des peuples Indo-européens. Paris: Gallimard ). Georg Simmel sustenta que a tríade representa, mais do que a díade,  a equação efetiva da sociedade (Soziologie, 1908). Destaco a Santíssima Trindade, as três ordens feudais, os três poderes da organização política, os três porquinhos, os três mosqueteiros que, afinal, eram quatro… Enfim, a conta que Deus fez.

Mas regressemos aos números redondos. O Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar um milhão de visualizações. A comemoração é arbitrária. Certo é que esperei uma década por este momento. Vou colocar os Queen, abrir uma cerveja e acender um cigarro. E agradecer as visitas.

Tabela 1. Visualizações do Tendências do Imaginário por país. 07.12.2020.

Um milhão (1 000 028) de visualizações; 331 670 visitas. Três visualizações por visita. Cinco países concentram mais de quatro quintos (83%) das visualizações: Brasil, 40%; Portugal, 24%; Estados-Unidos, 8%; Espanha, 7%; e França, 4% (ver Tabela 1). Mas a componente mais excessiva do Tendências do Imaginário reside nos artigos: 3 267.  Quase um artigo por dia (0.95). No topo das visualizações, destacam-se, curiosamente, os mais extensos e densos, porventura, os mais originais (ver tabela 2).

Tabela 2.Artigos do Tendências do Imaginário mais visualizados.07.12.2020.

O que começou como capricho transformou-se num vício. Nos últimos dez anos, artigo a artigo, o Tendências do Imaginário tornou-se o blogue do meu envelhecimento. O inverno do meu ensimesmamento.

Escrever no Tendências do Imaginário é uma experiência estranha, senão perversa: o autor escreve para centenas de pessoas que, literalmente, desconhece. Uma massa incógnita. A tentação é de o escritor e o leitor se confundirem, com a mediação numérica e abstrata do “público”. Um excesso de solidão e de reflexividade. Um excesso de ilusão. Eremitério digital.

Podia escolher um anúncio, um vídeo ou uma imagem marcante do Tendências do Imaginário para assinalar o momento. Interessa, porém, prosseguir caminho, embora com os olhos no retrovisor. Acender velas na memória. A vela de hoje é Judy Collins. Duas canções: Send in the clowns e, com Leonard Cohen, Suzanne. Nem tudo são rosas: o pai de Judy Collins era cego e o filho único suicidou-se. Acendo velas na memória, com os olhos cansados, cansados do fogo-de-artifício pós-moderno. Vou festejar! Com o rato, o teclado e o caixote do lixo. Uma orgia biomecanóide.

Judy Collins. Send in the Clowns. Judith. 1975. Ao vivo em 1976.
Judy Collins & Leonard Cohen. Suzanne. Ao vivo em 1976.

Master and Commander. Luigi Boccherini

Luigi Boccherini

Luigi Bocherini (1743-1805), compositor de origem italiana, radicou-se jovem em Espanha (1768). Sobre a vida de Luigi Bocherini, pode consultar-se: https://tendimag.com/2018/12/28/beleza-interior/. Acrescente-se que durante séculos repousou no lado cinza da fama. Em 1927, Benito Mussolini resolveu transladar os seus restos de Madrid para a igreja de sua terra natal, Lucca. Segue o Quinteto de Cordas em C Maior, Op 30 Nº 6, G324, tal como é interpretado na banda sonora do filme Master and Commander: O Lado Longínquo do Mundo (2003).

Luigi Bocherini. Quinteto de Cordas em C Maior, Op 30 Nº 6, G324, na versão do filme Master and Commander (2003).

Morrinha

Moledo do Minho visto de Santa Tecla.

Em Moledo, sinto-me galego. Quando a chuva é miudinha, há quem lhe chame morrinha. Na Galiza, a morriña é um sentimento de melancolia com enxerto de saudade. Seguem dois cantos a Galiza distintos: Romeiro Ao Lonxe, dos Luar Na Lubre, e Un Canto a Galicia, de Júlio Iglesias, ao vivo com Amália Rodrigues.

Luar Na Lubre. Romeiro ao lonxe (con Diana Navarro). Ao vivo. 2009.
Júlio Iglesias (com Amália Rodrigues). Un Canto a Galicia. Ao vivo. 1980.

Entre duas águas

Paco de Lucia.

A cabeça na almofada e o corpo na jangada. A cama é um rio. Água, duas águas, águas turvas, águas mil. O mesmo, o outro, os outros a nadar no mesmo. Metecos ( méta significa, em grego, “no meio de, entre, com”). Todos somos metecos. Vogamos, dentro e fora, em águas incertas.

Luzia é uma música, um monumento musical, que Paco de Lucia dedica à mãe, Luzia Gomes, portuguesa de Castro Marim. Entre dos aguas é o título de um dos grandes e mais antigos sucessos de Paco de Lucia. Estava a faltar música flamenga no Tendências do Imaginário.

Paco de Lucia (e Banda). Luzia. Luzia. 1998. Ao vivo no Festival Leverkusener Jazztage, em Leverkusen, Novembro 2013.
Paco de Lucia. Entre dos aguas. Fuente Y Caudal. 1973. Extraído do documentário La Búsqueda (2014).

Maria, Amália e Manolo

Maria Carta (1934-1994), compositora, cantora e atriz italiana, tinha afinidades com Amália Rodrigues (1920-1999). Em 1972, realizaram um recital no Teatro Sistina, em Roma. Cada uma interpretou 18 canções.

A canção Sa Disisperada integra o reportório de Maria Carta. Uma música tradicional de Logaduro, dedicada à emigração, à velhice, à solidão e ao sofrimento. A Itália foi, como Portugal, um país de emigração. Sa Disispirada lembra, pelo cantar e pelo tema, muitas canções portuguesas. Traduzo, livremente, os últimos versos:

Levantem voo como as andorinhas,
voltem,
também estou em sofrimento.
Aqui o sol é esplêndido e o céu é límpido,
mas sentimos a vossa falta,
vós sois as verdadeiras jóias.

Maria Carta. Sa Disisperada (1970?)

Do reportório de Amália Rodrigues constam vários êxitos (Casa da Mariquinhas, É ou não é, Cana Verde, Malhão ou Coimbra). Quatro canções são de origem espanhola e uma, italiana. No corpo, retomado no bis final, destaca-se El Porompompero, rumba composta em 1960 por Juan Solano Pedrero, celebrizada pela voz de Manolo Escobar.

Itália, Espanha e Portugal são países com um profundo traço de união, cinzelado, entre outras dimensões, pela religião. Max Weber nunca duvidou desta identidade dos países do sul no quadro europeu. Itália, Espanha, Portugal, três BIG: Big History, Big Culture and Big Art. PIG or not PIG, we are BIG.

Amália Rodrigues. El Porompompero (Bis finale). Ao vivo, Teatro Sistina, Roma, 1972