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Os pais são reis magos

Albrecht Dürer. Adoração dos Magos. 1504

Há quem prefira a pirueta à espargata. Se recuarmos a 2009, encontramos um caso exemplar: o anúncio de Natal “Los padres no existen”, eventualmente de autopromoção da agência de publicidade Remo, inverte surpreendentemente a narrativa tradicional da descoberta pela criança de que o Pai Natal ou os Reis Magos são os pais.

Amena (?) – Los padres no existen. Agência: Remo. Direção: José Luis Esteo. Produção: Nephilim. Espanha, dezembro 2009

Goyesco

Ecce Homo, original de Elías García Martínez restaurado por Cecilia Jiménez, em 2012. Santuário da Misericórdia de Borja, Espanha

O Uber Eats estreou na Espanha sua nova campanha de marca, intitulada “Peça Quase Tudo”, em parceria com a agência Ogilvy e estrelada pelo ator Antonio Banderas. Natural de Málaga, o artista interpreta a si mesmo em uma narrativa divertida e caótica, na qual um pedido aparentemente simples acaba resultando em um “Goya inesperado (…)
A nova campanha do Uber Eats também aposta na irreverência ao incorporar elementos da cultura popular e da história da arte espanhola. Com toques de humor, o filme faz referência a obras icônicas de Francisco de Goya — como O Três de Maio de 1808, O Cão Meio Afundado e A Maja Vestida. A campanha ainda inclui uma citação divertida ao célebre “Ecce Homo” restaurado de forma desastrosa, agora reinterpretado como uma intervenção artística surreal.” (Acontecendo Aqui: https://acontecendoaqui.com.br/propaganda/quando-o-goya-chega-no-delivery-antonio-banderas-vive-momento-surreal-com-uber-eats/).

Marca: Uber Eats. Título: Goya Inesperado. Agência: Ogilvy / Madrid. Direção: Damien Shatford. Espanha, setembro 2025

Isaac Albéniz

Isaac Albéniz (1860-1909), compositor e pianista que revitalizou a música tradicional espanhola, não parou de viajar e mudar de residência. Dedicou os movimentos da Suite Española Nº1, para piano, a várias regiões entre as quais Granada, Sevilha e Astúrias. Habituámo-nos a ouvi-los dedilhados na guitarra. Seguem, respetivamente, as interpretações de Adam del Monte, Gohar Vardanyan e Julia Lange.

Isaac Albéniz – Granada. Suite Española Nº1, 1886. Versão guitarra interpretada por Adam del Monte, 2013
Isaac Albéniz – Sevilha. Suite Española Nº1, 1886. Versão guitarra interpretada por Gohar Vardanyan, colocada em 2013
Isaac Albéniz – Asturias. Suite Española Nº1, 1886. Versão guitarra interpretada por Julia Lange, 2016

Duelo de dança

Com a primavera, o bailado digital floresce. Almerinda Van Der Giezen enviou-me um vídeo extraído do filme “Carmen” (1983), de Carlos Saura, acompanhando-o com uma mensagem breve: “Algo diferente mas poderoso”. De Carlos Saura, recordo também os filmes Cria cuervos (1975), Mamá cumple cien años (1979) e Fados (2007). Todos com músicas notáveis.  

Acrescento ao excerto de Carmen outro de Cria Cuervos, com a canção “Por que te vas”, interpretada por Jeanette, bem como o “Fado da Saudade”, interpretado por Carlos do Carmo, original do filme Fados.

Fragmento de la tabacalera, con el duelo interpretativo entre Laura del Sol y Cristina Hoyos. Carmen. 1983
Jeanette – Porque Te Vas. Cria Cuervos OST. 1976
Carlos do Carmo – Fado da Saudade. Fados OST. 2007

Música ladina: Hixa mia, de Ana Alcaide

Produtora, compositora, instrumentista e cantora, a madrilena Ana Alcaide sobressai como um dos grandes nomes de música de inspiração sefardita, nomeadamente ladina (judia-espanhola). Esta interpretação de Hixa Mia é fabulosa, pelo seu desempenho enquanto cantora e instrumentista mas também pela prestação dos acompanhantes. Acrescento duas canções: En el jardin de la reina e La cantiga del fuego. Pare e escute! Não precisa de olhar.

Ana Alcaide

Ana Alcaide – En el jardin de la reina. La Cantiga del Fuego. 2012
Ana Alcaide – La cantiga del fuego. La Cantiga del Fuego. 2012. Ao vivo no Teatro Don Quijote de Consuegra (Toledo), no 9 de outubro de 2023.

Cigarros com filtro duplo

Inma Cuesta é uma atriz e ativista, nomeadamente feminista, espanhola. Também canta. Seguem três canções: a primeira, original, “Una de esas noches sin final”; a segunda, um cover, “Volver, volver”; e a terceira, “Fumando espero”, da série Amar en Tiempos Revueltos 2ª Temporada.

Não resisto a partilhar a letra de “Fumando espero”.

Imagem: Alfred Crowquill. Anti-Tobacco cartoon.

Fumando espero

Fumar es un placer
Genial, sensual

Fumando espero
Al hombre a quien yo quiero
Tras los cristales
De alegres ventanales

Y mientras fumo
Mi vida no consumo
Porque flotando el humo
Me suele adormecer

Tendida en la chaisse longue
Fumar y amar…

Ver a mi amante
Solícito y galante
Sentir sus labios
Besar con besos sabios

Y el devaneo
Sentir con más deseo
Cuando sus ojos veo
Sedientos de placer

Por eso estando mi bien
Es mi fumar un Edén

Dame el humo de tu boca
Anda, que así me vuelves loca

Corre, que quiero enloquecer de placer
Sintiendo ese calor
Del humo embriagador
Que acaba por prender la llama ardiente del amor

Sublinhe-se que acima de uma em cinco pessoas fuma. “Mais de 22% da população mundial consumiu tabaco em 2020, alerta a Organização Mundial da Saúde (…) os dados de 2020 mostram que 1300 milhões de pessoas consumiram tabaco a nível mundial (…). O relatório abrange produtos como cigarros, cachimbos e tabaco aquecido, mas não inclui o uso de cigarros electrónicos” (https://www.publico.pt/2021/11/16).

Imagem: 0xec6d0 (XX-XXI) – Smokers Die Younger.

Neste quadro, é possível que fumar tenha algum aliciante.

Inma Cuesta – Una de esas noches sin final. Todos Lo Saben (Original Motion Picture Soundtrack). 2018
Inma Cuesta – Volver, volver. En directo con Pablo Motos en El Hormiguero Vuelve. Antena 3 Internacional, 2022
Inma Cuesta – Fumando Espero. Amar en Tiempos Revueltos 2ª Temporada, 2006-2007

Re-vira-voltas. Sílvia Pérez Cruz

Com o visual pensamos, com o acústico nos sentimos

A vida é feita de viragens. Quando regressei a Portugal nos anos oitenta, a tónica passou de estimulado para estimulante; com o advento do milénio, a vocação académica emagreceu para profissão universitária; e, recentemente, a devoção à sociologia, acompanhada pela música e pela arte, a devoção à música e à arte, acompanhada pela sociologia.

Durante a infância, a sombra da Espanha pairava por todos os cantos. O olhar para lá se estendia e a eletricidade de lá provinha. O contrabando ia e vinha. Até o apito do comboio da outra margem anunciava o tempo: consoante se ouvia mais ou menos, assim faria chuva ou sol. A televisão era a espanhola. Para assistir a um jogo de futebol com equipas portuguesas, deslocávamo-nos a Castro Laboreiro. Pelo menos, em duas novidades, o progresso chegou primeiro ao monte do que à ribeira: nas antenas e nas eólicas. Tenho raízes transfronteiriças, regadas com calda gaulesa. No entanto, o Tendências do Imaginário tem-se dedicado pouco à música destes países. Nunca é tarde para emendar. Por vias travessas, reencontrei a música de Sílvia Pérez Cruz, mui rara compositora e intérprete catalã.

“Sílvia Pérez Cruz é uma grande voz. Diria mais! É uma grande voz que sabe cantar. “Pequeño Vals Vienés” baseia-se na música que Leonard Cohen compôs (Take This Waltz, 1986) para o poema Pequeño Vals Vienés, de Federico García Lorca. Os gostos tendem a cruzar-se. São as tais afinidades electivas. Ontem. Leonard Cohen, hoje, Sílvia Pérez Cruz. Dancemos, não de lado, mas de frente” (https://tendimag.com/2016/03/29/valsa/).

Para tomar o gosto, meia dúzia de canções, dispostas por ordem cronológica.

Sílvia Pérez Cruz (c/ Temps perdut). Veinte años. Passeig Per La Memoria. 2001
Sílvia Pérez Cruz (c/ Raül Fernández). Gallo rojo, gallo negro. Granada. 2014
Sílvia Pérez Cruz. Duérmete. Domus. 2016.
Sílvia Pérez Cruz. Vestida de Nit. Vestida de Nit. 2017
Sílvia Pérez Cruz (c/ Rozalén). Amor del Bo. Matriz, 2022
Sílvia Pérez Cruz. Nombrar es imposible. Nombrar es imposible (Mov.5: Renacimiento). 2023

Ésquilo, o abutre e a tartaruga

Ando absorvido, acelerado e fragmentado. Excessivo na recuperação do tempo perdido, sinto-me a ultrapassar o ponto previsto pelo princípio de Peter. Quinta, 15, entrevista aos Porto Canal sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro; sábado, 18, a conferência “Vestir os Nus”, no Museu D. Diogo de Sousa; ontem, 24, arguição da dissertação, excelente, de Sílvio Messias dedicada à figura do palhaço; hoje e amanhã, últimos retoques no capítulo “Castro Laboreiro: Acessibilidade e migrações até aos anos 1930”; na próxima semana, duas atividades previstas no âmbito do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza (BRAGA) de que sou membro; na quinta, 2 de março, gravação de entrevista sobre o nu na sociedade atual para o programa da A Voz do Cidadão, da RTP, a emitir sábado, 4 de março, às 14 horas; no sábado, de manhã, às 10 horas, aula “A arte do restauro: Alcance e dilemas”, no mosteiro de Tibães (ver programa anexo).

Mais tartarugas me vão cair, certamente, na cabeça. Poucas folgas para o Tendências do Imaginário e o Margens. A agenda lembra demasiado o ritmo e as variações de algumas composições espanholas. Sem a formosura das intérpretes Ana Vidovic e Alexandra Whittingham. Não me resta outra solução senão abrandar e fazer escolhas. Como se costuma dizer, já não tenho estofo nem pedalada para tanto.

A propósito da “queda de tartarugas na careca”, Jean-Martin Rabot, uma autêntica enciclopédia dos óbitos de celebridades, relata este derradeiro episódio de Ésquilo, completamente calvo, na ilha da Sicília.

               Algumas aves quando pretendem quebrar um objeto duro, agarram-no, sobem alto e deixam-no cair. Um abutre pegou uma tartaruga e lançou-a contra o que lhe pareceu uma pedra a brilhar no solo. Era a cabeça de Ésquilo que caiu fulminado.

Ana Vidovic. Asturias (1892). De Isaac Albéniz. 2015.
Alexandra Whittingham. Capricho Arabe (1892). De Francisco Tárrega. 2017.

Aleluia

Autor: Rui Rito

Ao Jean Martin Rabot que conheci há 40 anos em Paris na casa do Michel Maffesoli.

No regresso de uma aula ao doutoramento em Estudos Culturais, aguarda-me uma surpresa agradável: um atalho para a canção Una Noche Más, de Yasmin Levy. A terceira sugestão de Rui Rito, após a música Born Free, de Giovanni Marradi (https://www.youtube.com/watch?v=KBtYWkxOOCA), e a canção Et si tu n’existais pas, de Joe Dassin (https://www.youtube.com/watch?v=Ueba8LaflnE). Trata-se de um gesto raro que me sensibiliza. Ao Tendências do Imaginário e à minha página no facebook falta-lhes o oxigénio da reação dos visitantes. Nem sombra de reciprocidade. Os artigos parecem dar sumiço num monstruoso buraco negro, sem ressonância.

Desde janeiro de 2011, com 3 758 artigos e 1 228 271 visualizações, o Tendências do Imaginário mereceu 1 156 comentários, 968 circunscritos a apenas sete pessoas, somando uma 785. No facebook, uma dúzia de “gostos” num artigo, quase sempre pelos mesmos amigos, já satisfaz. Escrevo para um público que, eletronicamente, não corresponde. Como se houvesse alguma intimidação ou toxicidade. Uma sugestão ergue-se como uma flor no deserto, a mais improvável e encantadora.

Escutar Yasmin Levy aproxima-se de uma revelação. Lembra, com a devida modéstia, a madalena da Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ou a espreguiçadeira de Hans Castorp no sanatório da Montanha Mágica, de Thomas Mann. Escutei de enfiada até às tantas da madrugada uma trintena de canções. Desconhecia Yasmin Levy. Ainda bem. Neste mar de ignorância, uma descoberta é uma jangada, uma oportunidade de sabedoria. Demasiado recente, o parco conhecimento da obra de Yasmin Levy dificulta a seleção das músicas. Segue, portanto, uma incontinência de cinco vídeos.

Nascida em Israel, em 1975, Yasmin Levy é filha de um folclorista turco, Yitzhak Levy, (…) que colectava canções em ladino (a língua dos judeus da Península Ibérica). A obra de Yasmin inclui músicas em ladino, espanhol, hebraico, árabe e turco (…)  O jornal Guardian considerou Yasmin “uma das melhores cantoras do Médio Oriente” (…) Numa mescla de música cigana (flamenco) com instrumentos como o alaúde, o violoncelo, e o piano e uma maneira moderna de cantar, ela deu nova vida a letras muito antigas, vindas dos bairros judeus habitados pelos descendentes dos exilados de Portugal e Espanha no século XVI” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Yasmin_Levy).

Yasmin Levy. Una Noche Más. Mano Suave. 2007
Yasmin Levy. Adio Kerida. Manu Suave. 2007. Live from Bucharest National Opera House
Yasmin Levy. Madre, Si Esto Hazina. Romance & Yasmin. 2004
Yasmin Levy. Perdono. Frida. 2002
Yasmin Levy. nani nani. Libertad. 2012

Comprar nada como investimento

McDonald’s Spain. The burger that could be. 2022

O anúncio The burger that could be, da McDonald ‘s Spain é um bom exemplo de um elevado sentido de oportunidade e da boa arte de a saber aproveitar. Trata-se de uma campanha que adota um estratagema que está a abrir caminho: convocar, ao mesmo tempo, o ecrã e a vida, interpelar tanto o espetador como o ator, numa mobilização em torno de uma causa emotiva emocionante e inclusiva emergente. Mais um caso de uma iniciativa de consciencialização interessada.

Marca: McDonald’s Spain. Título: The burger that could be. Agência: TBWA Spain. Espanha, agosto 2022.