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Maria, Amália e Manolo

Maria Carta (1934-1994), compositora, cantora e atriz italiana, tinha afinidades com Amália Rodrigues (1920-1999). Em 1972, realizaram um recital no Teatro Sistina, em Roma. Cada uma interpretou 18 canções.

A canção Sa Disisperada integra o reportório de Maria Carta. Uma música tradicional de Logaduro, dedicada à emigração, à velhice, à solidão e ao sofrimento. A Itália foi, como Portugal, um país de emigração. Sa Disispirada lembra, pelo cantar e pelo tema, muitas canções portuguesas. Traduzo, livremente, os últimos versos:

Levantem voo como as andorinhas,
voltem,
também estou em sofrimento.
Aqui o sol é esplêndido e o céu é límpido,
mas sentimos a vossa falta,
vós sois as verdadeiras jóias.

Maria Carta. Sa Disisperada (1970?)

Do reportório de Amália Rodrigues constam vários êxitos (Casa da Mariquinhas, É ou não é, Cana Verde, Malhão ou Coimbra). Quatro canções são de origem espanhola e uma, italiana. No corpo, retomado no bis final, destaca-se El Porompompero, rumba composta em 1960 por Juan Solano Pedrero, celebrizada pela voz de Manolo Escobar.

Itália, Espanha e Portugal são países com um profundo traço de união, cinzelado, entre outras dimensões, pela religião. Max Weber nunca duvidou desta identidade dos países do sul no quadro europeu. Itália, Espanha, Portugal, três BIG: Big History, Big Culture and Big Art. PIG or not PIG, we are BIG.

Amália Rodrigues. El Porompompero (Bis finale). Ao vivo, Teatro Sistina, Roma, 1972

Janelas

Uma fantasia numa embalagem estética. O que é? Um anúncio a um automóvel, versão sapatinho de cristal. Em Lugares, da Skoda, o mundo é uma sucessão de paisagens e janelas de bem-estar e performance. “Quizá ahora podamos convertir qualquier lugar en otro lugar”. O movimento dos lugares ao volante de um skoda.

Marca: Skoda. Título: Lugares. Agência: Proximity Barcelona. Espanha, Maio 2020..

Reciclagem

Produtos Coca-Cola

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, 1852).

Alguém sustentou que uma boa ideia, ignorada ou desaparecida, será retomada a seu tempo. Isto ocorre também na publicidade. A pretexto da pandemia, a Coca-Cola recicla um anúncio, premiado, de 2003. Seguem o anúncio espanhol Por Todos (2020), acabado de sair, o anúncio argentino Para Todos, de 2003, e o anúncio brasileiro Para Todos, de 2018.

Marca: Coca-Cola. Título: Por todos. Agência: Mercado McCann. Espanha, Abril 2020.
Marca: Coca-Cola. Título: Para todos. Argentina 2003.
Marca: Coca-Cola. Título: Para todos. Agência: Mercado McCann. Brasil, Dezembro 2018.

Quarentena com arte

Edward Hopper. Morning Sun. 1952

Que bueno! La idea, la selección y el montaje. “Un regalo”. Buenos vientos vienen de España . Así los días cuentan, sin salir de casa. Gracias por compartir.

Cuarentena con arte, de Friking.

O fogo da noite

Francisco Goya El Fuego de La Noche. 1794

“Em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.” (Stephen Zweig, O Mundo de Ontem. 1ª edição: 1941)

A maior parte das canções do grupo espanhol Aguaviva (1969-1979) são sombrias, de dor e resistência. O que se canta não precisa de ser gracioso, pode ser terrível. Canta-se para louvar, mas também para esconjurar. A cada um, o seu catavento.

Aguaviva. Aquí Estuvo El Amor. Poetas Andaluces De Ahora. 1975
Aguaviva. Dos Cuccillos. Poetas Andaluces De Ahora. 1975

A proposta

Isabel a Católica

Este anúncio é uma paródia, anacrónica, da aceitação da proposta de Colombo pela rainha Isabel a Católica, concebida nesta curta-metragem como uma empresária moderna. Quem não brilha na fotografia é Portugal:

“Depois de várias tentativas de vender o seu projecto a Portugal, Cristóvão Colombo decide procurar outro tipo de cliente, um mais aberto e inteligente, que seja capaz de ver a sua ideia”.

Anunciante: FIAP 2011. Título: Festival Iberoamericano de la Publicidad 2011. Produção: Coolshotfilms. Direcção: Santi Winer. Espanha, 2011.

Comboios e caveiras

Hans Holbein. The Ambassadors. Vanitas. Anamorfose. 1533.

No cais nº 12, um comboio ultra-moderno: queixo para a frente, testa para trás. Dá jornais, auscultadores e não se sabe que mais. Só lhe falta “andar no ar” como os Maglev japoneses. Na via 13, um comboio ultrapassado que por pouco não deita fumo. Qual escolher? Venho de onde venho, vou para onde vou, na carruagem que me levar. Nos comboios antigos aconteceram-me coisas extraordinárias. Nos comboios avançados, não tenho história para contar.

Comboio maglev japonês

Hoje, dei a última aula de sociologia da cultura, da licenciatura em Sociologia. Conversámos sobre o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, e desembocámos, fatalmente, na anamorfose com a vanitas (ver o artigo Objectos que falam: https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Tudo me lembra alguma coisa. Tenho, por isso, a memória gasta. Lembrei-me de um anúncio romeno com comboios e caveiras. Uma anamorfose original.

Antes do vídeo, não resisto a contar uma das minhas histórias de comboios. Estudava em Paris e vim de comboio para Portugal. Na fronteira franco-espanhola, os passageiros para Portugal eram separados daqueles que iam para Vigo (o meu caso). Os dois comboios percorriam a mesma via até, creio, Burgos. Estacionado na gare de Irún, o comboio tardava a arrancar. Perguntei ao revisor, com o meu bom espanhol, o que acontecia. Confidenciou: “Um alerta de bomba na linha”. Para não dizer a ninguém. Passado algum tempo, o comboio começa a andar. Voltei a abordar o revisor:

– Encontraram a bomba?

– Não! Mas não te preocupes. O comboio dos portugueses vai à frente.

Anunciante: Anim’Est. Título: Train. Agência: Ogilvy Romana. Roménia, 2010.

Perdão

Presépio, de Orlando Correia.

Foram dias, foram anos / Foi a sorte apodrecida (Manuel Freire. “Pedro Só”. 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco). Ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/.

Apareceu-me, de repente, um anjo que mais parecia o boneco da Michelin. Perguntou:

– Como vai a tua alma?

– A alma vai tão pequena que não vale a pena. Por amor ao próximo, convivo pouco, cada vez menos. Deslizo pelo mundo num tapete rolante. Não olho para a esquerda, não olho para a direita, pouco enxergo. Não cumpro o Pai Nosso. Tenho o motor do carinho e da tolerância encharcado. Cravou-se uma espinha na garganta da vida. Para cúmulo dos infernos, não desgosto da minha alma mesquinha! Um herói embalsamado. Que faço, meu anjo?

– Pede perdão!

Camilo Sesto. Perdoname. Donde Estes, Con Quien Estes. 1980. Ao vivo com Marta Sánchez.

“Somos os que aqui estamos”

Variação da população residente em Portugal Continental. 1960-2001 e 2001-2011. Fonte INE. Elaboração UMVI. O Interior em números.

Nas últimas décadas, o despovoamento foi monstruoso. É verdade que as migrações sempre existiram. Mas não tão desequilibradas. É difícil inverter a tendência. Despovoamento gera despovoamento: problemas de escala, de mercado, de emprego, de natalidade e de envelhecimento. A meu ver, despovoamento rima com fracasso político. Nem tudo neste País tem que ir a banhos. A intervenção política não se pode confinar à ponta da língua e à disponibilização de cuidados paliativos. Convém estancar a necrópole das aldeias de Portugal. As pessoas, essas, não desistem. Resistem à inércia de partir. Para o estrangeiro, para as cidades, para onde calha, com a promessa de uma vida melhor. Existe a tendência para imaginar a vida no interior e nas margens do País como um entorpecimento ou uma hibernação. Uma espécie de presépio. É uma ilusão ótica. Face à adversidade, as pessoas abraçam a vida, multiplicam os projetos e somam iniciativas. Pode faltar investimento de Estado, sobra vontade, criatividade e esforço humano. A metade da população que partiu não é melhor do que a metade da população que ficou.

Congratulo-me com o anúncio espanhol Yo Me Quedo, da empresa Correos Market. Porque é raro um anúncio dedicado ao despovoamento e pela aposta na sobriedade estética, por exemplo, os enquadramentos são naturais, bem como as roupas dos entrevistados.

Marca: Correos Market. Título: Yo Me Quedo. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Félix Fernández de Castro. Espanha, Dezembro 2019.

A dança dos espíritos abençoados

Gluck. Orphée et Euridice. Opéra en trois actes. 1774.

É mais fácil colocar um anúncio publicitário do que uma música clássica. Esta é, no entanto, um bom amparo contra nuvens pasmadas. Ao procurar dois excertos da ópera Orfeo ed Euridice, do compositor alemão C. W. Gluck (1714-1787), surgem tantos arranjos, versões instrumentais e interpretações que apetece arrepiar caminho. Retive uma versão para piano da “Melodia”, interpretada pela catalã Noelia Rodiles. A segunda escolha foi óbvia: a versão para flauta da “Dança dos Espíritos Abençoados”, interpretada por Jean-Pierre Rampal, um dos melhores flautistas do séc. XX.

Gluck- Sgambati melody from Orfeo ed Euridice live at the Tonhalle Düsseldorf, Feb. 2016. Piano: Noelia Rodiles.
Gluck. Dança dos Espíritos Abençoados. Ópera Orfeo ed Euridice. Flauta: Jean-Pierre Rampal.