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Partindo do princípio

goofy self defense

Hoje, tive o privilégio de reouvir a expressão “partindo do princípio”. Eloquente! No que me respeita, partir por partir, prefiro partir do fim. O anúncio tailandês Who says tiny has to be weak?, da Kleenex, intriga-me. Focaliza-se no bullying. O anúncio parte de princípios: 1) o bullying é, sobretudo, físico; 2) a resposta é individual, da iniciativa da vítima. Em suma, a solução quer-se individual e física. Para lidar com o bullying, nada como a vítima tornar-se campeã de artes marciais: “follow Rika Ishige’s journey from former bullying victim to becoming Thailand’s top female ONE Championship athlete”.

Aproveito para disponibilizar um guia online de auto defesa: The Art Of Self Defense, da Walt Disney.

Marca: Kleenex. Título: Who says tiny has to be weak? Agência: J. W. Thompson BangKok. Direcção: Baz Poompiryia. Tailândia, Fevereiro 2018.

The Art Of Self Defense, Walt Disney Studios, Dezembro 1941.

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

Sinais dos tempos 3. Muros sem limites.

Aeromexico

Os últimos artigos vieram sem letras. Como diria o lobo mau: “é para ver melhor!” Se as aparências não se enganarem, não será no parlamento, nas ONG, nos movimentos sociais e nas ruas que se vão esgrimir as causas sociais do futuro. Deslocam-se para os anúncios e as campanhas das grandes marcas. Ontem, o direito à imagem; hoje, a homossexualidade, agora, a livre circulação. Por este andar, ainda competirá às marcas decidir quais são e quais não são as grandes causas. Sinais dos tempos…

Marca: Aeromexico. Título: Borders. Agência: Ogilvy & Mather Mexico. México, Maio 2016.

Sinais do tempo 1: Panmediatização

Don Addis. Media spoonfeeding

Don Addis. Media spoonfeeding.

Marca: Du. Título: Post Wisely – First Story. Agência:  Leo Burnett (Dubai). Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2018.

Robots zombies

Total. Zombie

O imaginário publicitário, propenso ao encontro dos contrários, não descansa: acaba de engendrar os robots zombies. Ferrugem versus metal, passado versus futuro; ferrugem do passado e metal do futuro. E esta mecânica da lata e da inteligência artificial funciona. Com Total Quartz, o lubrificante certo.

Marca: Total. Título: RobotQuartz. Agência: BETC. Direcção: Thierry Poiraud. França, Fevereiro 2018.

Ódio

Francisco Goya. Fusilamiento en un campo militar. Ca. 1808-1810

Francisco Goya. Fusilamiento en un campo militar. Ca. 1808-1810. Poucos artistas retrataram o ódio como Goya. Uma estética do desespero.

“In time we hate that which we often fear” (William Shakespeare, Antony and Cleopatra, Acto I, Cena III, 1606).

O ódio existe? As “sociedades cândidas” quase proscreveram a palavra. Calamos mais o ódio do que o diabo ou a morte. No entanto, o ódio dilacera e armadilha a humanidade. Será uma palavra tabu, daquelas que encarnam o mal? Afortunadamente existe a publicidade. Preocupada com as marcas, dispensa o proselitismo político e moral. Confesso que desconfio dos discursos desinteressados. Prefiro os discursos “com interesse”.

Ódio é uma palavra que nos abala e nos ressoa nas entranhas, como o anúncio Hate is so 2018, da Bianco, ou a canção Hate Me, dos Blue October.

Marca: Bianco Footwear. Título: Hate is so 2018. Agência: & Co. Direcção: Alexander Topsoe. Dinamarca, Fevereiro 2018.

Blue October. Hate me. Foiled. 2006. Ao vivo, 2015.

 

Violação

 

Gian Lorenzo Bernini. Apolo e Dafne, 1622-1625. Dafne transforma-se em loureiro para escapar ao assédio de Apolo

Gian Lorenzo Bernini. Apolo e Dafne, 1622-1625. Dafne transforma-se em loureiro para escapar ao assédio de Apolo

É pura física: quanto maior o número de pessoas dispostas a erguer o fardo, mais leve será o peso que cada indivíduo tem que carregar (Mariska Hargitay, Fundadora e Presidente da Joyful Heart Foundation).

A vida dos fenómenos pode ser secreta, discreta ou ostensiva. Existem crimes votados ao silêncio, outros, à discrição, outros, ainda, à notoriedade. A pedofilia e a corrupção passam por uma fase ostensiva, a violência doméstica, por um crescendo de atenção, a violação. pelo lado escuro da lua. Desconheço o motivo. Em termos de incidência e de danos, a violação rivaliza com com a maioria dos crimes de primeira página. Nunca investiguei a violação, o crime, a polícia ou a justiça. E a experiência é nula. Vi vários filmes, dos anos setenta, focados no julgamento de mulheres violadas. Coincidiam na devassa da vítima e no excesso do ónus da prova. O mínimo pormenor biográfico, gesto ou adereço era passível de aligeirar a culpa, quando não de justificar o acto. São, porém, filmes de há quarenta anos! Pode-se argumentar que a invisibilidade protege a vítima, bem como o agressor, que também possui os seus direitos. Por outro lado, a mediatização não estimula o crime? Este é um fraco argumento porque se aplica à generalidade dos crimes. Um argumento que justifica tudo, não justifica nada em particular.

A Joyful Heart Foundation alerta, especificamente, para uma negligência recorrente na investigação de casos de violação: parte das amostras recolhidas nas vítimas não são analisadas:

Every 98 seconds, someone is sexually assaulted in the United States. When a person is sexually assaulted, and chooses to undergo the invasive four-to-six hour evidence collection examination at the hospital, they expect the kit will be tested and the evidence used to prosecute the attacker. The public expects the same.

The DNA evidence contained in rape kits is a powerful tool to solve and prevent crime. Rape kit evidence can identify an unknown assailant, link crimes together, and identify serial rapists. Yet hundreds of thousands of times, a decision is made not to test the evidence. This leaves crimes unsolved and violent offenders on the streets.

We should all be shocked by this backlog. There are hundreds of thousands of kits. Untested. For years, many for more than a decade. Behind each of those kits is a person—a sexual assault survivor—waiting for justice (http://www.joyfulheartfoundation.org/blog/shelved-psa).

Anunciante: Joyful Heart Foundation. Título: Shelved. Agência: Invisible Man. Direcção: Ellen Kuras. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Duas ou três ressalvas. O vídeo circunscreve-se aos Estados Unidos. Não consultei fontes fidedignas, nem qualquer outro género de peddy-paper científico.  Enfim, como pode falar de notoriedade quem não se expõe aos media? Nestas matérias, sou ignorante até à ponta dos cabelos, mas, por vício, a palavra está-me na ponta da língua.

 

Alquimia digital

Guerra das estrelas

Em colaboração com o Fernando.

Pode citar-se uma obra própria sem incorrer em autofagia. Acontece no anúncio Become More Powerful, de Dante Ariola, para a Electronic Arts Inc. Na primeira parte, que dura 70 segundos, as personagens desvanecem-se deixando para trás a roupa e os objectos. Trata-se de uma alusão à luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi no filme Star Wars: Episode IV A New Hope. Obi-Wan desaparece deixando a roupa. Esta espécie de despojamento é frequente nas experiências místicas, significando uma maior exposição à alteridade e, eventualmente, à divindade. As personagens desaparecidas readquirem vida na segunda parte do anúncio (50 segundos). Entram no mundo fantástico da Guerra das Estrelas. O mergulho é alucinante. Paira uma sensação de imaterialidade. Troca-se de pele, de corpo e de alma. Algo como uma transubstanciação com transfiguração. Somos nós e não somos nós. Uma espantosa alquimia do ego. Na Idade Média, os gamers seriam, provavelmente, suspeitos de santidade: são propensos a êxtases! Mas a imersão e o alheamento são temporários, cedendo lugar à banalidade do indivíduo e do real. Há sempre uma âncora, um punhado de roupa, à nossa espera!

Neste artigo, ainda não desconversei o suficiente. Faltam umas linhas. Será o gamer o monge da pós-modernidade? O monge precisa de uma célula recatada, o gamer de um casulo electrónico; um debruça-se sobre manuscritos, o outro, sobre ecrãs; aquele medita, este concentra-se; o primeiro pertence a ordens, o segundo a tribos. Ambos se expõem a visões. Os monges foram úteis ao longo da história. Quanto aos gamers, para além do divertimento, importa promover um Quizz sobre o assunto na Internet. Palpita-me que os videojogos são pedagógicos. Aliás, na nossa sociedade, tudo tende a ser pedagógico. Até a mais inenarrável boçalidade. Foram necessário séculos e milénios para chegar à sociedade aprendiz. Nem Michel Foucault nos acode. Este parágrafo é da minha exclusiva responsabilidade.

Marca: Electronic Arts Inc. Título: Become More Powerful. Agência: Heat. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Novembro 2015.

Luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi, no filme Star Wars: Episode IV A New HopeI, 1977.

 

A guerra dos drones

Audi Guerra dos Drones

A inspiração, a alusão, a paródia ou o diálogo entre obras de arte e de cultura são fenómenos correntes. As obras interagem umas com as outras, por distantes que estejam no espaço e no tempo. Não há, aliás, obras silenciosas, mudas. A este intercâmbio, Julia Kristeva chamou intertextualidade (1969, Sèméiotikè, Paris, Seuil). A intertextualidade não diminui as obras, é uma qualidade que as pode valorizar.

O anúncio The Drones, da Audi, transborda de intertextualidade. É um pastiche do Filme Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, um clássico da história do cinema. Produzido pela The Mill e dirigido por Dante Ariola, o anúncio logra o seu objetivo: destacar o automóvel como último refúgio. O anúncio The Drones expressa a ambivalência da técnica: os drones, como os pássaros do filme, representam uma ameaça; o automóvel, a exemplo do filme, oferece-se como uma salvação.

Seguem o anúncio The Drones, da Audi, e um excerto do filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

Marca: Audi. Título: The Drones. Agência: Venables Bell + Partners. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Março 2015.

Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, Excerto. 1963.

O lado feio

Nike

Eva quase asfixiou Adão com um caroço de maçã. Deus condenou ambos ao trabalho e à morte. O filho Abel mata o irmão Caim. A humanidade é, desde o início, semente de violência. Hegel assinala-o e Freud enfatiza-o. Norbert Elias, que tanto estudou o autocontrole e o recalcamento da violência, duvida que seja domesticável. A violência arrebata-nos e enfeitiça-nos. À semelhança do sexo e da beleza, não conseguimos desviar o olhar da violência. Uma aflição e uma excitação permanentes. Na vida como no ecrã: nos telejornais, nos filmes, nos videojogos, nas ruas e nas casas. Urbi et Orbi.

O anúncio Couldn’t Be Less Nice, da Nike, convoca a violência, com os estereótipos do costume: a oscilação entre simpatia e agressividade; a figura do violento bom vizinho e amigo dos animais; e a profecia do vencido de que a força está do lado do inferno. O protagonista é uma versão do Alex, o vilão do Laranja Mecânica (1971). A própria música do anúncio convoca a banda sonora do filme. A abertura de O Barbeiro de Sevilha (1816), de Gioachino Rossini, condiz com a abertura de La Gazza Ladra (1817) e a abertura de Guillaume Tell (1829), do mesmo compositor, incluídas no filme Laranja Mecânica. Não deve ser por acaso. Do Dr. Mabuse (Fritz Lang, 1924) ao Dr. Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes, 1991), a violência está no meio de nós; é a nossa tara e o nosso isco.

Marca: Nike. Título: Couldn’t be less nice. Agência: Wieden+Kennedy. Direcção: Keith Mccarthy. Canadá, Dezembro 2017.

De casa até ao ringue, o percurso assemelha-se a um parkour. Por vias, desvios e atalhos, o protagonista supera obstáculos. As palavras que dizem o movimento são carregadas de sentido. O jogging, a caminhada, o deslize, a maratona e o parkour comportam praticantes com propriedades, disposições e valores distintos (ver  Gonçalves, Albertino, “O desporto do nosso contentamento”, Boletim Cultural de Melgaço, nº1, 2002, pp. 127-161). Algumas oferecem-se como metáforas da mobilidade social: ascensão, rebaixamento, impasse; navegação, desvio, travessia; velocidade, deambulação; exploração; seguir, empatar ou abrir caminho… No parkour, o traceur faz carreiro onde este não existe. Supera e contorna obstáculos “por mares nunca antes navegados”. E alcança, mais rápido e por linhas travessas, o destino. O parkour lembra uma ideologia em voga, venerada, empolada e ensinada, inclusivamente, nas universidades: o “empreendedorismo”, herdeiro da “criação destrutiva”, de Joseph Schumpeter (Capitalismo, Socialismo e Democracia, 1942). Estou com uma ânsia de ter netos, só para lhes ler contos de empreendedorismo…

Blue October. Ugly Side. History for Sale. 2003.