Arquivo | violência RSS for this section

Descubra as diferenças

Cartoon Illustration of Spot the Differences Educational Activity Game for Children with Insects Animal Characters Group

O mundo e o seu mistério nunca se refazem, não existe modelo que baste copiar (René Magritte).

Saiu um anúncio com a assinatura de Dan Brown: No Less Lethal, da Rubber Bullets. Balas perfuram e destroem vários objetos. Praticamente o mesmo perfil que um anúncio de 2007: Stop the bullet Kill the gun, da Choice FM. Descubra as diferenças.

Marca: Rubber Bullets. Título: No Less Lethal. Agência: Austin, Wunderman Thompson. Direcção: Dan Brown. Estados-Unidos, Novembro 2020.
Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.

Sem máscara

Máscara Reutilizável personalizada.

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.

O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.

Marca: One Medical. Título: You’re Freaking us out. Agência: Goodby Silverstein & Partners and barrettSF. Direcção: Jeff goodby & jamie Barrett. Estados-Unidos, Outubro 2020.

Ressurreição digital

Joaquin Oliver, de origem venezuelana, foi uma das dezassete vítimas de um tiroteio indiscriminado numa escola de Parkland, na Florida, em 2018 Tinha 17 anos de idade. A campanha The Unfinished Votes é apoiada pela Change the Ref, instituição que “visa formar futuros líderes, facultando aos jovens as ferramentas de que necessitam para introduzir mudanças em questões críticas que afetam a nação, por meio de educação, conversação e ativismo”. No anúncio, aparecem os pais de Joaquin Oliver, bem como o próprio Joaquin, regressado à vida por artes digitais. Criticam a política relativa às armas e apelam ao voto.

Estranho, muito estranho. Nenhum anúncio me provocou tamanha estranheza.

Anunciante: Change the Ref. Título: Unfinished Votes. Agência: McCann Health NY / Lightfarm Studios. Estados-Unidos, Outubro 2020.

Vídeo musical publicitário

“Bebé patrocinado”.

Pode um vídeo musical fazer publicidade a uma marca comercial? Por que não?

Drake – Laugh Now Cry Later (Official Music Video) ft. Lil Durk. 2020.

O consumo da violência

A violência sempre acompanhou o homem. Diz-se que é bíblica. Uma égua do apocalipse. Ambivalente, provoca atração e repulsa. Não desejamos ser nem carrascos nem vítimas, mas assistimos ao espectáculo. A violência é ubíqua: aparece nos ecrãs, nas estradas, nas manifestações, nos atentados, nos tiroteios, na escola, no desporto e, até, dentro de casa. Ambivalentes e ambíguos, proibimos um anúncio com uma menina sentada numa ferrovia mas facilitamos o acesso às armas. Nos ecrãs, convivemos mais facilmente com a violência do que com o tabaco: nos livros e nas séries do Lucky Luke, a palhinha não substitui a pistola mas o cigarro. Maná ecránico, a publicidade encena e parodia a violência, em princípio gratuita, mas, presumivelmente, com custos.

Apetece “virar o bico ao prego”. Abraçar a contradição. Nos anos sessenta, apreciava-se os filmes violentos. As pessoas riam com as cenas violentas dos filmes Péplum (e.g., Hércules), de terror (e.g., O Exorcista, 1973), de guerra (e.g., O dia mais longo, 1962) ou western (e.g., Trinitá, cowboy insolente, 1970; o filme é italiano, bem como os actores Terence Hill e Bud Spencer). No entanto, nenhum dos meus amigos se tornou serial killer. Autores como Georg F. W. Hegel, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Georges Bataille ou Lewis A. Coser consideram a violência fundacional e funcional. Na Idade Média, acreditava-se que a contenção excessiva da violência podia desembocar numa explosão de violência. Recomenda-se a catarse, a excitação (Norbert Elias) e a homeopatia (Michel Maffesoli). A violência existe, mas coloquem um filtro, um véu ou óculos para não se ofuscar.

Marca: Fox Sports. Título: We are all superstars. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Outubro 2019.
Marca: CANAL +. Título: Mission really impossible. Agência: BETC Paris. França, Maio 2019.

E depois de nós

Paulo de Carvalho

Acabaram as aulas. Com uma sombra de amizade. As aulas vêm e vão. São um intervalo. Aquilo que esquece, também perdura… Seguem o fabuloso anúncio Kill The Gun, com a ária Casta Diva, do italiano Vincenzo Bellini (1801-1835) , mais a canção E Depois Do Adeus, de Paulo de Carvalho.

Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.
Vincenzo Bellini. Casta Diva, da ópera Norma. 1831. Interpretação: Maria Callas.
Paulo de Carvalho. E depois do adeus. Eurovisão 1974.

O gnomo, a gula e a ira

O anúncio tailandês The Box, da marca Voiz Cracker, é um presente criativo cheio de boa disposição. Duração longa, pouca história, repetida com variantes, interpretada por “gnomos” sósias, numa espécie de paródia da magia. Receita apropriada para a destilação de um humor insólito, que namora o pecado. Neste caso, dois pecados capitais, a gula e a ira, tudo por causa de uma bolacha.

Marca: Voiz Cracker. Título: The Box. Tailândia, 2018.

Fumo tóxico

Já sentia saudades da figura do fumador suicida homicida. O fumo do cigarro mata mais depressa e com maior alcance do que uma bala. Se bem me lembro, na minha infância havia cigarros a que chamavam mata-ratos (Kentucky). A reputação letal do tabaco vem de longe. Ressalvando os assassinos, os desastrados e os fumadores, ninguém é mortífero. Nem sequer na Tailândia. Mata-se, isso sim, simbolicamente. O fumador suicida homicida é uma presa fácil dessa caça simbólica. “A Bíblia separa as pessoas entre pecadores que sabem que são pecadores, e pecadores que pensam que são justos” (Ronaldo Bezerra: https://guiame.com.br/colunistas/ronaldo-bezerra/pecadores-que-sabem-que-sao-pecadores-x-pecadores-que-pensam-que-sao-justos.html). Livrai-nos, Senhor, dos pecadores que pensam que são justos! Acrescento apenas que uma das principais fontes de desigualdade radica na semiose social. Nem todos têm o mesmo acesso ao ceptro da palavra e da imagem.

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Gunfight. Agência: Factory01 Co., Ltd. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn. Tailândia, Março 2020.

Música da desgraça desumana

Olivier Messiaen. Quatuor de la fin des temps. Campo Stalag VIII-A – Görlitz. 1941.

Há músicas de desgraças desumanas. Muitas pautas de música compostas pelos presioneiros sobreviveram ao holocausto. No caso do compositor Olivier Messiaen, ele próprio sobreviveu. Compôs e estreou o Quatuor pour la fin des temps, no campo de concentração Stalag VIII-A, em Görlitz, na Alemanha. Segue o movimento III: Abisme des Oiseaux. Repare-se que a pauta é iniciada com o seguinte apontamento: “Lent, expressif et triste”. Esta música é precedida pela música do filme Schindler List, composta por John Williams.

John Williams. Schindler List. NL Orchestra. RTL Netherlands show. 2017.
Olivier Messiaen. Quatuor por la fin des temps. Mov. III : Abisme des Oiseaux. Composto em 1941.

Em jeito de conclusão, retomo duas canções de 1969: a Menina dos olhos tristes, de José Afonso, e Te recuerdo Amanda, de Victor Jara.

José Afonso. Menina dos olhos tristes. 1969.
Victor Jara. Te recuerdo Amanda. 1969.

Gula e violência

A observação de anúncios ensina-nos o que se já sabe: 1) tudo pode servir para motivo de um anúncio; 2) entre o conteúdo do anúncio e a natureza do produto pode não existir relação; 3) há conteúdos que se prestam a tudo, por exemplo, o sexo e a violência. O anúncio Nacho Fight, da Taco Bell, convoca a violência (carnavalesca ou não). O anúncio sugere, porém, uma sentença digna da Arte da Guerra de Sun Tzo: o que faz a guerra também faz a paz; basta passar da carência à abundância.