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A rosa do pensamento

Ten Herbs. The Leap. Julho 2019.

O anúncio The Leap, da libanesa Ten Herbs, aborda um tema delicado. Assumimos o corpo, mas não todo. Persistem partes e funções que só são dizíveis graças a metáforas, sublimações e eufemismos. É o caso do aparelho digestivo. Se a alimentação se descobriu arte, a arte de comer, defecar releva de um vanguardismo deslocado, a arte de chocar. Se os anúncios da Benetton se celebrizaram por dizer o chique com choque, os anúncios, como o The Leap, dizem o choque com uma linguagem chique.

Marca: Ten Herbs. Título: The Leap. Agência: JWT (Beyrouth). Direcção: Mohamed El Zayat. Líbano, Julho 2019.

The Leap lembra os duelos finais dos filmes de Sergio Leone: Por um punhado de dólares (1964) e Era uma vez no Oeste (1969). Cada personagem espera, sem sair da sua posição, o desenlace. O alívio ou a morte.

Gosto que uma realidade me lembre outra. A propósito e a despropósito. Sem genealogia, algoritmo, função, ética ou poética. A lembrança, a associação de ideias, é um pouco como a rosa de Angelus Silesius: “A rosa é sem por quê. Floresce porque floresce”.

The final duel of Once upon a time in the West by Sergio Leone (soundtrack by Ennio Morricone). 1969.
The Good The Bad and the Ugly Finale, by Sergio Leone (soundtrack by Ennio Morricone). 1964.

Vozes

Shell Shock, A Requiem of War. Ópera. Compositor: Nicholas Lens. Livret: Nick Cave, 2014.

As músicas Flamma Flamma – The Fire Requiem (1994) e Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan (Orrori Dell’ Amore, 1995), compostas pelo belga Nicholas Lens, surpreendem: vozes mágicas, estranhas, excessivas, do outro mundo. Acrescento o teaser da ópera, também de Nicholas Lens, Shell Shok – A Requiem of War (2014), em memória da Primeira Grande Guerra. Meus amores, meus horrores!

Nicholas Lens. Flamma Flamma – The Fire Requiem. 1994.
Nicholas Lens. Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan. Orrori Dell’ Amore. 1995.
Teaser. Shell Shock – A Requiem of War. Ópera. Compositor : Nicholas Lens. Livret : Nick Cave, 2014.

As flores do mal

Caim e Abel. Século XV.

Não procurem mais o meu coração, as bestas comeram-no (Charles Baudelaire. Les Fleurs du Mal. 1857).

Que besta devo adorar ? Que imagem santa atacar ? Que corações destroçarei? Que mentira devo sustentar? Em que sangue marchar ? (Arthur Rimbaud. Une Saison en enfer. 1873).

Somos filhos de Caim. O mal está arreigado na arqueologia do ser. Quem não pisou uma formiga? Quem não fez mal a uma mosca? Quem amou o próximo como a si mesmo? Não resistimos à maldade. Empolga-nos a crueldade nos cartoons, nos filmes, nos anime, nos videojogos e nas campanhas eleitorais. Os programas de informação mostram o mal e esquecem o bem. Cordeiros do demo, apascentamos a ruindade. Somos consumidores do mal.

O anúncio Ski, da Laca 5Star, brinda-nos com um cocktail do mal num cálice de expiação. “Uma explosão de sabores e texturas ». O mal sabe bem. À semelhança do anúncio ski, T-Rex, da Collective du Lait, faz parte de uma série de anúncios. Ensina que o mais fraco (tu e eu) resulta grotescamente vulnerável ao mal. Para concluir, o anúncio Dumb Ways to Die, da Metro Trains Melbourn, é uma ternura de dança macabra à moda do terceiro milénio.

O mal é uma tentação? Algo de bom deve ter! Recorrendo a línguagem suculenta de Thomas Müntzer, o monge revolucionário líder da Guerra dos Camponeses (1524-1525): o bem e o mal lembram “duas serpentes que fornicam em conjunto”. O bem e o mal dançam no mesmo baile. O mais avisado é aprender a « homeopatia do mal », a lidar com a “parte do diabo” (Michel Maffesoli). Até porque, a fazer fé na sabedoria popular, “há males que vêm por bem”.

Marca : Lacta 5Star. Título : Ski. Agência : Wieden + Kennedy (Brasil). 2018.
Marca: Collective du Lait. Título : T-Rex. Agência : DDB (Vancouver). Direcção : Rouairi Robinson. Canadá, 2005.
Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.

A meia laranja. O assédio sexual

Young sad, beautiful fragile Madonna Angel, Recoleta cemetery, Buenos Aires

“O assédio coloca em cena dois protagonistas: uma besta e a sua presa” (Édith Boukeu).

O assédio é sinistro. Qualquer assédio, sexual ou não. Li, recentemente, a seguinte equação: “assédio sexual, ou seja, violência contra a mulher”. É ver o mundo como uma meia laranja. À outra meia laranja deu-lhe um apagão. Há duas meias laranjas: a que se exprime e a que se espreme. E a laranja vai rodando como a maçã de Picasso! É pena, porque a meia laranja que se espreme tem muito para exprimir. Pese o vórtice da igualdade, é diferente o assédio a uma mulher e o assédio a um homem. Por remanescência do machismo, o assédio a um homem configura uma inversão de papéis e um desvio do cânone da tribo: o homo erectus alucinado com caçadas omnívoras.

A campanha da associação time To é admirável. Antes de mais, pelo efeito de realidade dos anúncios. Aborda um pomo da discórdia: a questão dos limites. E vai além da meia laranja: um dos anúncios apresenta um homem como vítima.

Anunciante: time To. Título: Cannes. Agência: Lucky Generals. Direcção: Steve Reeves. Reino Unido, Junho 2019.
Anunciante: time To. Título: Client. Reino Unido, Novembro 2018.

Lesão cerebral infantil. Recuperação

Afasia. Autoria: MARC DOZIER / CORBIS

A recuperação de um trauma ou de uma lesão cerebral pode representar um desafio incerto e tenebroso para uma criança. O anúncio One Word, vencedor do Leão de Ouro de “Melhor Filme” no Festival de Cannes 2019, ilustra este tormento com sons e imagens arrepiantes. Mas, no que respeita à recuperação da fala, existe uma esperança: a aplicação Constant Therapy.

É admirável como uma animação consegue expressar tão intensamente a impotência e o pânico.

Anunciante: Constant Therapy. Título: One Word. Agência: Area 23. Produção: Lightfarm Studios Rio De Janeiro. Estados Unidos, Maio 2019.

Filas de espera

Monoprix. La première file de l’humanité. 2019.

As filas de espera constituem um fenómeno social ao mesmo tempo simples e complexo. Inspirando-se em Georg Simmel, Raymond Boudon recorre à fila de espera para ilustrar algumas noções básicas do individualismo metodológico, designadamente a interacção, a emergência e os efeitos perversos (Raymond Boudon, La logique du social, Paris, Hachette, 1979). Perverso é, certamente, o protagonista pré-histórico do anúncio La première file de l’humanité, do Monoprix. Um egoísta sem regras e sem respeito pelos outros. Uma espécie de Mr. Bean de outra era. Carapaus de corrida.

Marca: Monoprix. Título: La première file de l’humanité. Agência : Rosapark. Direcção : Antoine Bardou-Jacquet. França, Maio 2019.
Mr. Bean. Goodnight Mister Bean. 1995. Partes 1 e 2 de 5. Direcção: John Birkin.

A queima dos vampiros

Edvard Munch. Vampire. 1895.

O prazer da escrita é pecado? E a originalidade, um vício? As letras deitam-se cada vez mais em latas de conserva.

Para a crença popular, retomada numa multidão de livros, filmes e imagens, o vampiro é um morto que sai do túmulo para sugar o sangue dos vivos. Na Idade Média, para impedir a fuga da sepultura dos mortos suspeito de vampirismo, prendiam-se e profanavam-se os cadáveres trespassando-os com estacas, colocando pedras na boca e deformando os esqueletos.

“O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivos. Importa proteger-se.
Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vida terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos” (Albertino Gonçalves; ver continuação no artigo Exorcismos: https://tendimag.com/2017/08/15/exorcismos/).

O vampiro é um devorador. Devora o outro e a si mesmo, esvaziando ambos. O vampiro é um insaciável instável. Um tormento sem limites.

“A tradição quer que aqueles que foram vítimas dos vampiros se transformem, por sua vez, em vampiros: são, ao mesmo tempo, esvaziados do seu sangue e contaminados. O fantasma atormenta o ser vivo com o medo, o vampiro mata-o apoderando-se da sua substância: ele só sobrevive através da vítima. A interpretação funda-se, neste caso, na dialéctica do perseguidor-perseguido. O vampiro simboliza o apetite de viver, que renasce quando o julgávamos apaziguado” (Alain Gheerbrant & Jean Chevalier, Dictionnaire des Symboles, 1969).

Os vampiros integram o regime nocturno, sombrio e lunar mas fecundo (Gilbert Durand, As estruturas antropológicas do imaginário, 1969). O regime solar, a luz do dia, é-lhes fatal. São prisioneiros da noite. É este o mote da espectacular campanha brasileira The Vampire Poster, para a série The Passage, da Fox. Cartazes com imagens de vampiros, pintados no dorso com tinta inflamável, incendeiam-se ao nascer do sol em diversos locais da cidade de São Paulo. O fogo reduz a cinzas e purifica. Na publicidade ainda há criatividade, criatividade que me parece definhar em vários templos da cultura.

Queimas, há muitas! Do Judas, da velha, do velho, das bruxas, dos hereges, das fitas… Queima-se o frio no São Martinho e a noite no São João. Queima-se o galo em Barcelos. Tudo se queima, tudo se regenera, tudo se purifica. Queimamos tudo, queimamos tudo, e não deixamos nada. Mas as cinzas não são cinzas, não; são sementes, sementes da nossa condição.

Marca: Fox Channel. Título: The Passage. The Vampire Post. Agência: BETC São Paulo. Brasil, Maio 2019.
José Afonso. Os Vampiros. Ed. Original: Baladas de Coimbra, 1963. Ao vivo no Coliseu em´1983.

Género e violência

Mortes de LGBT, por ano, no Brasil. Fonte: Grupo Gay da Bahia.

Não aprecio anúncios de autopromoção, independentemente da categoria social, inclusivamente de género. Mas incomoda-me a discriminação, frequentemente, violenta de que são vítimas os LGBT. O anúncio brasileiro Thierty-Five, da Athosgls, está bem concebido. A parte final é excelente. O cover da canção Forever Young, dos Alphaville, pelo braileiro Liniker, é notável.

“No Brasil, devido à violência e ao ódio, a expectativa de vida de pessoas trans é de apenas 35 anos, metade da expectativa da população cisgênero. Esse dado é brutal e é a mensagem entregue nesse filme para o Portal de notícias LGBTQI+ Athosgls” (Athosgls Brasil).

Marca: Athosgls Brasil. Título: Thierty-Five. Agência: Young & Rubicam. Brasil, Abril 2019.
Alphaville. Forever Young. Forever Young. 1984.

Vigor mortis

Black Sabbath. Black Sabbath. 1970.

Quem não é destes nem daqueles não é ninguém.

Quando falta tempo, recorro a subterfúgios: retiro da prateleira dos vinis um disco à sorte. Hoje, saíram os Black Sabbath.

Os Rolling Stones e os Pink Floyd têm uma infinidade de fãs. Mas os Black Sabath têm uma tribo. Pioneiros do heavy metal, com propensão tétrica, são profetas do Gótico e Cia, um caso aparente de superidentidade. Certo é que no início dos anos setenta se impuseram com um som próprio. Escolhi três músicas, todas de 1970: Black Sabbath; War Pigs; e Iron Man. Música de abanar o esqueleto. Abrenúncio!

Black Sabbath. War Pigs. Álbum: Paranoid. 1970.
Black Sabbath. Black Sabbath. Álbum: Black Sabbath. 1970.
Black Sabbath. Iron Man. Álbum: Paranoid. 1970.

Magic. Jogar aos monstros

Magic. The gathering.

“Il est bien peu de monstres qui méritent la peur que nous en avons.” (André Gide, Les Nouvelles Nourritures, 1935).

Vampiros, lobisomens, serpes, ogres, dragões, harpias, minotauros, demónios, bruxas, papões, cabeçudos, zombies, são figuras recorrentes do imaginário fantástico da humanidade. Afirmam-se como entidades monstruosas e grotescas. A relação com os monstros desafia o nosso entendimento. Wolfgang Kayser (O Grotesco, 1957) define o grotesco, inspirando-se em Sigmund Freud, como estranhamento. O mundo que nos é familiar torna-se estranho, eventualmente ameaçador. “Foge debaixo dos pés”. Com o grotesco ocorre uma desfamiliarização do familiar. Há algo de estranho neste estranhamento. Como conceber as situações em que o estranho se torna familiar? Quem passou anos a fio a ler mangas ou a imergir em videojogos pode avançar-se que as respetivas imagens lhe permanecem estranhas? O Shrek e o Smeagol são estranhos? São uma ternura de brinquedos. Esboça-se uma certa cumplicidade na experiência do estranhamento, na própria configuração do estranho. Um dos principais contributos de Wolfgang Kayser consistiu na concepção do grotesco e do estranhamento como uma relação dinâmica e não como um confronto de essências desencontradas.

Serpe na festa de São João, em Braga.

O Shrek assevera-se mais familiar, menos grotesco, do que o mais mediático dos presidentes da república. Nesta espécie de interacção dialógica acontece um efeito de Coco. Como sublinha Omar Calabrese, a propósito do filme A Coisa (2011), de John Carpenter, há monstros que são vazios e, mais do que disformes, mostram-se informes. Carecem do envolvimento, do “sacrifício”, das vítimas para assumir a missão e ser o que são. Coco, à semelhança do Papão, é um monstro originário de Portugal e da Galiza. “Não é o aspecto do coco mas o que ele faz que assusta a maioria das crianças. O coco é um comedor de criança (um papa-meninos) e um sequestrador. Ele imediatamente devora a criança e não deixa rastro dela ou leva a criança para um lugar sem volta. Mas ele só faz isso às crianças desobedientes (…) O coco toma a forma de qualquer sombra escura e fica (…) de guarda” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Coca_(folclore). Apetece relembrar que “os monstros somos nós”. O fantástico conhece, nos nossos dias, uma exuberância inédita. O jogo Magic, antes com cartas materiais, agora também online, é um caso de sucesso global. Emerge, submerge e reemerge mais forte. Ao ritmo da adesão lúdica e emocional dos jogadores.

Albertino Gonçalves & Fernando Gonçalves.

War of the Spark Official Trailer – Magic: The Gathering.
Magic: The Gathering – Guilds of Ravnica: Official Trailer. 2018.